Memória Roda Viva

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Seu Jorge

14/11/2005

Uma das grandes revelações da música brasileira, Seu Jorge, conta, canta e encanta, com sua voz e simpatia, como saiu da pobreza da favela para o palco do teatro, da música e para as telas do cinema

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Paulo Markun: Boa noite. Ele viveu a infância na periferia pobre do Rio de Janeiro e foi morador de rua durante sete anos, mas conseguiu escapar do destino comum dos jovens pobres e, em especial, dos jovens pobres e negros. Empurrado pelo talento, passou pelo teatro, pelo cinema e tornou-se músico. Aprendeu a falar quatro línguas e fez carreira internacional. Na semana em que se registra o Dia Nacional da Consciência Negra, que será comemorado no próximo domingo, o Roda Viva entrevista o autor, cantor e compositor Seu Jorge, um sambista diferente que tirou da dura vida na Baixada Fluminense a sua marca de determinação e de expressão política.

[Comentarista]: Seu Jorge se diz um compositor popular, gosta de inúmeros gêneros musicais, mas fala que o seu grande trunfo é o samba. Samba que mistura rock, funk e reggae, que mistura história das periferias tensas do Rio de Janeiro onde recolheu matéria prima para a sua crítica social. Batizado como Jorge Mário da Silva, ainda criança sonhava em ser músico como o pai. Adolescente, começou a trabalhar como borracheiro, achando que juntaria dinheiro para comprar um saxofone, não deu. Contrariado pela família, fugiu de casa aos 19 anos, perambulou pelas ruas do Rio de Janeiro de 1990 a 1997, quando fez contato com o teatro e virou ator. Depois Jorge Mário foi para o Farofa Carioca, grupo vocal e instrumental que inventou para ele o nome de Seu Jorge, que não significa senhor Jorge, mas “seu” mesmo, seu amigo, seu parceiro, seu irmão. Um dia a banda acabou e, em 2000, Seu Jorge investiu na carreira solo. Acompanhou o grupo Planet Hemp [banda brasileira de rap e rock, criada por Marcelo D2 e Skunk em 1993, no Rio de Janeiro, cujas letras falam basicamente sobre maconha e sua legalização] em excursões para o Japão e Estados Unidos. Depois gravou um CD na Europa, conquistou os franceses, gravou outros discos no Brasil, fez shows e cinema firmando o seu novo caminho. Ele mesmo acha que deu muita sorte, mas também conta que foi determinado a buscar seu rumo, fugindo do padrão black music carioca e, por outro lado, driblando a realidade social do negro no Brasil. Nas estatísticas da pobreza, os negros representam 65% dos brasileiros pobres e 70% da população de indigentes. Aparecem como 73% do total de jovens brasileiros analfabetos e 71% do total de jovens que não estudam nem trabalham. Enquanto 8,2% dos jovens brancos chegam à faculdade, só 2% dos negros conseguem a façanha e a juventude negra é a maior vítima da violência. Se a taxa de homicídio entre jovens brancos é de 39,3 em cada 100 mil, entre os jovens negros ela é muito maior, 68,4 em cada 100 mil. Uma realidade também escancarada em Cidade de Deus [filme dirigido por  Fernando Meirelles e co-dirigido por Kátia Lund, exibido em 2002,  baseado na obra homônima do escritor Paulo Lins], onde Seu Jorge deu vida ao personagem Mané Galinha. Ele já atuou em vários outros filmes, como Casa de areia [filme dirigido por Andrucha Waddington, que estreou em 2005], ao lado de Fernanda Montenegro e Fernanda Torres, e A vida marinha com Steve Zissou [dirigido por Wes Anderson, que estreou em 2004], documentário cenográfico dos estúdios Disney onde cantou suas versões para músicas de David Bowie. Mas foi em Cidade de Deus que Seu Jorge teve a sua maior projeção como ator e onde também ampliou a reflexão sobre o momento social vivido pelo país. “Fazer esse filme... foi um filme fantástico, não só pela preparação, mas por esse elenco e pelo motivo também. Acho que estava na hora de falar dessas coisas, de negro, nordestino, mãe solteira, desse povo que foi esquecido e a arte abraçou toda essa história” [fala de Seu Jorge no vídeo].

Paulo Markun: Para entrevistar Seu Jorge, nós convidamos: José Vicente, presidente da ONG Afrobrás e reitor da Universidade da Cidadania Zumbi dos Palmares; Lázaro de Oliveira, chefe de pauta e reportagem do programa Metrópolis, da TV Cultura; Maria Amélia Rocha Lopes, jornalista e crítica musical; Deise Benedito, coordenadora de articulação política e direitos humanos da ONG Fala Preta e secretária do Fórum Nacional de Mulheres Negras; Pedro Alexandre Sanches, escritor, repórter e crítico musical da revista Carta Capital; Luciano Ramos, crítico de cinema da Rádio Cultura; Joel Rufino dos Santos, escritor e professor de literatura da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Também temos a participação do cartunista Paulo Caruso, registrando em seus desenhos os momentos e os flagrantes do programa. Boa noite, Seu Jorge.

Seu Jorge: Boa noite.

Paulo Markun: Você é muito bem aceito no mercado internacional, recebe páginas e páginas da imprensa brasileira, críticas as mais elogiosas, mas a sua música não toca nem no rádio e na televisão. Isso é preconceito ou é ditadura estética?

Seu Jorge: Eu tenho a impressão que eu também sou um pouco culpado disso, acabei tomando um caminho diferente para o que eu faço, fiz isso por conta de não ser conhecido justamente nas lojas de discos. Depois também não alimentei na minha cabeça que eu ia ficar rico, fazer coisa do gênero, já estava bom poder fazer música, comunicar, fazer disco, chamar músicos. Então eu fugi um pouco da obrigação de ser um sucesso comercial mesmo, estando na loja ou tocando no rádio. Pensava eu que tinha que balizar uma coisa, acho que o palco leva... está mais para as pessoas do que o veículo da rádio, o veículo… e a gente fica formatado aos minutos, à duração da canção e tudo isso para a música ser radiofônica. Esse negócio praticamente salvou a minha vida, me deu dignidade. De onde eu venho, eu não podia escolher a profissão de músico para ser músico. E foi acontecendo e eu fui abrindo isso.  E aí eu fui me aclimatando com essa situação de tocar mais no palco, de... Eu não sinto muita falta do rádio, na verdade. Hoje, por exemplo, eu vou, faço show para 5 mil pessoas e chegam lá e as pessoas cantam as canções do disco, independente de elas serem tocadas no rádio. E eu queria testar se isso era possível e ao mesmo tempo eu sabia quem era realmente o meu público. Já estive em situações onde, por exemplo, em festival de rock – eu não sou do rock– e no festival onde tem doze, treze, quinze bandas, às vezes, todo mundo quer aquilo tudo e não quer quase nada, não tem uma coisa em especial no meio da massa e, às vezes, eu ficava um pouco deslocado assim. Isso me aconteceu umas duas vezes, eu não fazia parte muito daquela turma, de estar tocando para aquele público; não da turma da música, mas sim da turma do público e tudo, tinha uma variedade de público muito grande. Eu, como não tenho essa experiência de trabalhar focando a massa, trabalhar para uma massa, para ser conhecido por uma massa, eu tinha muita dificuldade de mostrar expressão. Isso me aconteceu uma vez no Rio Grande do Sul, mas eu consegui reverter a situação lá na hora, falei: “gente, nós somos um país colorido, um país em que somos multiraciais e o samba é legal também”.

Paulo Markun: Quer dizer, você não enxerga nessa sua condição nenhum traço de preconceito, quer dizer, não é porque você é negro que a sua música não toca no rádio?

Seu Jorge: Não, não, não, senão muitos não tocavam. Se fosse uma coisa assim, acho que Milton, Gilberto Gil não tocavam no rádio. É que tem modus operandi mesmo, que dava muito trabalho, sabe, eu preferi ficar sem participar disso assim.

Lázaro de Oliveira: Seu Jorge, vai fazer agora um ano que você fez um show lá no Via Funchal [casa de espetáculos localizada no bairro da Vila Olímpia, região central da cidade de São Paulo]. Eu estava lá presente e tinha a classe média branca inteira, lá, o aplaudindo, você fez um discurso maravilhoso. Eu estou levantando essa questão, porque o filme da Lúcia Murat, Quase dois irmãos [lançado em 2005, o filme conta a história de dois meninos, um branco, outro negro, amigos por conta da amizade que seus pais desenvolveram a partir da música; o menino negro se torna traficante, o branco se torna político e os dois se encontram no presídio da Ilha Grande onde a reunião de presos políticos e presos comuns acabou dando origem ao Comando Vermelho, uma das maiores organizações criminosas do Rio de Janeiro], propõe ali uma coisa extremamente curiosa. Desde os anos 50, a geração mais antiga subia os morros para ouvir os sambistas, hoje eles vão atrás de drogas. O que o morro tem que atrai tanto a classe média carioca?

Seu Jorge: Bom, acho que tem um pouco do morro na casa dessas pessoas todas, da classe média, lavando na pia, lavando uma roupa, passando um pano de chão e tal, e um pouco desse morro vai para a casa das pessoas também. Eu acho que as pessoas que estão nessas casas querem ir conhecer um pouco do universo das pessoas que trabalham lá. Porque é comentado, eu acho que a televisão brasileira com suas novelas contribui muito,  apesar de, em alguns casos, eles vão lá, filmam a Zona Sul e o Andaraí, eles inventam. [risos] Não existe o Andaraí que os caras filmam, o Andaraí é cenográfico e isso eu sou contra. Então tem essa turma da classe média que sabe que aquele Andaraí cenográfico não satisfaz, eles preferem ir lá na comunidade. Não é só a Zona Sul, não, estrangeiro também sobe muito. Eu conheço muita gente no mundo que vai ao morro.

Joel Rufino dos Santos: O que me impressionou na sua primeira fala foi você dizer que o importante para você era se sentir digno como artista. O que você quer dizer, exatamente, com dignidade do artista?

Seu Jorge: Olha, eu estive numa escola de teatro, eu tive uma sorte em 1993 – eu fui morar na rua em 1990– e conheci Gabriel Moura [cantor e compositor brasileiro, sobrinho de Paulo Moura. Foi parceiro de Seu Jorge no Farofa Carioca]. E o Paulo Moura [(1933-), clarinetista, saxofonista e maestro, formou uma das primeiras bandas de jazz do Brasil] junto com Antônio Pedro [(1940-), ator e diretor carioca], José Vasconcelos [ator e humorista de rádio e TV] montaram um projeto no UERJ, que era para desenvolver o anfiteatro da universidade e para atrair o público exatamente da universidade, os alunos, e eles não se interessaram. Então tinha que se movimentar alguma coisa ali e foram pessoas de diversas idades, não tinha limitações escolares, por exemplo, no começo não precisava nada para participar daquela coisa. Foi então que eu entrei ali, para fazer um teste de voz, e me deram um solo e por isso eu fui parar no palco e aí comecei a desenvolver. Como eu não tinha lugar para onde ir, eu fiquei morando ali mesmo, então eu comia por ali, dava o meu jeito por ali, então a turma... eu fui me desenvolvendo. Então criou-se um romance, uma fantasia romântica, já que eu tinha oportunidade. Eu vim de Belford Roxo, sou da Baixada Fluminense, então, ali, na Vila Isabel já era Zona Norte, já era uma outra atmosfera. Assim, por exemplo, a garotada de 16 anos, quando eu cheguei na Zona Norte com 14, eu com 14 não fazia metade do que fazia um garoto de 9, por exemplo, da Zona Norte, fazia. Tinha uma limitação, um atraso, uma defasagem mesmo, de perceber a vida. E quando eu estive no anfiteatro isso veio como uma avalanche, eu já tinha 23 anos. E o mais importante era dignificar a educação que o meu pai e minha mãe me deram. Porque por mais pobres que nós fossemos, a gente teve... Eu era o filho mais velho, então, enfim, tocar piano na cadeia nem pensar, cair na polícia nem pensar. Então essas coisas já eram muito difíceis para eu ficar dando mais desgosto. E dentro do teatro você tem outras relações com a vida, você aprende outras coisas da vida, do ser humano, o companheiro, do seu objeto de cena, ajuda o cara que vai entrar em cena agora. Então tinha umas coisas que você acaba transferindo para a maturidade, para a vida. Então acho que eu bebi dessa cachaça chamada teatro, com pessoas inteligentíssimas como Amir Haddad [(1937-) ator, diretor e professor de artes cênicas. Em 1958, participou da criação do Teatro Oficina. Em 1980, criou o grupo de teatro Tá na rua, que leva encenações a ruas e praças], Anselmo Vasconcelos [(1958-) ator de cinema, teatro e televisão que se lançou profissionalmente pelo Grupo Opinião], Cláudia Borioni, gente assim, Lafayette Galvão [ator e roteirista de telenovelas, minisséries e seriados], e eu não poderia perder essa oportunidade de desenvolver alguma coisa e de repente no futuro passar isso para meus filhos. Então acho que fazer música com dignidade é poder encarar o cara na farmácia, o cara na padaria numa boa. Outro dia me aconteceu de uma menina estar chorando pra caramba, eu estava no show de Zeca Pagodinho, a menina estava chorando, show lotado, achei que era alguma coisa que estava acontecendo, que ela estava sendo apertada, que ela perdeu a chave. E eu estava de folga, estava de penetra no baile, desci e fui lá falar com a menina, cheguei lá, ela estava chorando por minha causa. Eu falei: “deixa de ser boba, mulher, desse tamanho!”. [entrevistador diz: “Chorando por sua causa?”] É, chorando. Ela disse: “Ai, quando eu te vi, eu…” Sabe, eu nunca curti muito essa, porque eu faço o meu contato com as pessoas na rua mesmo, todo dia eu faço as minhas atividades, [encontro alguém que diz:] “Eu gosto daquele seu som, por que eu não encontro o disco”? Eu dou satisfação, eu explico o que está acontecendo. Eu costumo sempre dizer: eu sou trabalhador. A minha profissão, aqui, é arte.

[...]: Passaria essa dignidade?

Seu Jorge: É, eu sou trabalhador.

Maria Amélia Rocha Lopes: Seu Jorge, você acha que tem um componente de sorte na sua história? Porque, morando na rua, a possibilidade de você chegar aonde você chegou, ser reconhecido internacionalmente, tem mais do que trabalho, você não acha?

Seu Jorge: Com certeza. Uma cigana me falou isso uma vez, sabe, no Méier foi até. Uma cigana chegou e leu minha mão e falou, eu não levei fé, não, para falar a verdade. Outra vez foi um erê [palavra do yorubá, iré, que significa "brincadeira, divertimento", refere-se a uma entidade espiritual que aparece instantaneamente logo após o transe do orixá, ou seja, é o intermediário entre o iniciado e o orixá] que também me falou, aí nele eu levei fé. Mas, aí, não é o meu caso. Eu também acho que, quanto mais eu trabalho, mais sorte eu tenho, sabe? Também tem um pouco isso assim.

José Vicente: Seu Jorge, aproveitando a pergunta. Você estava citando que você teve a educação dada pelos seus pais, que permitiu que você pudesse ser um artista digno e  agora lhe foi perguntado se a sorte teria sido determinante. Aí eu acrescento: talento, sorte é suficiente, bastam?

Seu Jorge: Não, é disposição para o trabalho. O Antonio Pedro que falou isso para a minha mãe uma vez. Minha mãe foi no teatro e perguntou para ele: “Meu filho está aí, nessas condições, a gente está preocupado, porque ele conta para a gente lá em casa que ele está no teatro, o tio dele não acha que é isso, que ele não vê teatro nenhum, não vê coisa nenhuma e esse menino chega aqui magro, com a cara toda cheia de mosquito, sempre sujo, roupa para lavar, sempre com fome. E ele vem com esse papo de que está fazendo teatro e agora estou vendo aí e vim aqui para ver o que está acontecendo.” Aí ele virou e falou: “Olha, minha senhora, para fazer esse negócio que a gente faz, a gente precisa de talento e disposição para trabalhar, mas se tudo der errado, em 10 anos você está vivendo bem na profissão”.

Luciano Ramos: Mas também deve ter o ambiente em que você está começando o seu trabalho. Por exemplo, você citou Gabriel Moura, mas passou de raspão, assim, no Amir Haddad. Queria que você mostrasse para a gente a importância desse tipo de teatro, que não é muito fácil de se encontrar, que é o teatro comunitário, do tipo que se fazia na rua naquela época que você começou.

Seu Jorge: Eu entrei para uma companhia de teatro que pensava que queria fazer, desenvolver o teatro popular, porque as suas ferramentas... Engraçado que algumas pessoas me inspiraram, que nem o Marcos, que sempre escreveu para atores que tinham características do povo, então ali dentro só tinha gente da comunidade, só sofredor, com uma história mais louca do que a outra. E [sobre] esse teatro popular, o Amir tinha muito conhecimento, ele tinha muito entendimento desse teatro de rua, desse teatro comunicativo, desse teatro inteligente que você não tem uma ação só e algumas matérias eram aplicadas ali. A gente experimentou Shakespeare, a gente experimentou a nossa criação, estávamos sempre num processo criativo. Nós éramos uma companhia de repertório e não uma escola de teatro, talvez um teatro escola, formava as pessoas no seu desenvolvimento.

Luciano Ramos: Como você chegou lá?

Seu Jorge: Através de um convite. Um dia eu conheci o Gabriel, em 1990, ele estava concorrendo com um samba na Caprichosos de Pilares e ganhou naquele ano. Nós passamos o ano juntos na competição da escola e ele ganhou esse samba. Logo em seguida, ele começou a tocar com o Paulo, então ele ficou meio sumido, eu era um indigente, as pessoas que encontravam comigo gostavam muito porque eu era aquele, vamos dizer assim, “maluco do violão”, um cara que não fazia mal para ninguém, vivia naquela condição, mas não fazia mal para ninguém. Quando eu chegava com o violão embaixo do braço, era uma canção ou outra. E o cara falou: “Puxa, esse cara trabalha bonito e como é que está nessa situação, gente? Mas como é que fica nisso?”. Então foi assim, ele precisava de uma voz mesmo, grave, e ele falou: “Preciso de uma voz grave para fazer a composição do coro. Tem uns meninos, lá, e eles estão muito a fim de ser atores, não tem ninguém que desenvolva a coisa da música, está meio fraco. Vamos lá, vamos lá”. No dia em que eu fiz o teste, o Paulo Moura gostou. Ele disse: “Passa para cá, canta esse trecho aqui”. E aí acabou o processo do treinamento, ali tinha o José Paulo Pessoa, que era advogado e ator da companhia e virou para mim e falou assim: “Está indo embora?Falei: “Tô, tô indo embora”. “Espera aí, você já almoçou?” Falei: “Não”. Ele falou: “Fica aí, que eu vou pagar teu almoço”. E tem aula de interpretação, de música, aí foram se firmando aquelas figuras e tal...

Pedro Alexandre Sanches: Tem uma história de que você morou nesse teatro bastante tempo?

Seu Jorge: Eu morei lá, eu morei no anfiteatro Odylo Costa, filho. Era uma ruína, um anfiteatro incrível, uma estrutura incrível, abandonado, só tinha camisinha, sacolé de pó, ponta de bagana de maconha, só tinha isso, porque era uma ruína, era entregue, então qualquer um entrava. Essa companhia ocupou esse teatro para levantar, conseguir fundos, a gente montou esse teatro, depois a política na reitoria da universidade mudou, baniu todo mundo de lá. A gente continuou tentando, foi para o [Teatro] Dulcina, foi para a Fundição Progresso. Eu cheguei a fazer Macbeth [tragédia escrita por William Shakespeare], fizemos uns 20 espetáculos.

Pedro Alexandre Sanches: Pelo que você está falando, desculpa, mas isso foi uma trajetória de você sair dessa indigência, que você disse, para o teatro, sua passagem foi pela arte mesmo.

Seu Jorge: De certa forma. De uma certa forma, eu tinha uma cobertura da chuva, não tinha comida, não tinha banho, então não dormia na chuva, não corria risco de me tacarem fogo, jogar álcool e tacar fogo, porque é isso o que acontece, é o que rola mesmo na rua.

Deise Benedito: Jorge, eu te saúdo na pessoa de Ogum e da sua ancestralidade. Eu queria que você me falasse como é viver nas ruas, como foi viver na rua para você, essa experiência da rua, tudo isso. Encontrar pessoas, gente da gente na rua, né, nós, como os pedaços da carne mais barata do mercado [referência à letra de "A carne", canção de Seu Jorge, Marcelo Yuka e Ulisses Capeletti que foi lançada no disco Moro no Brasil, do grupo Farofa Carioca], que é a carne negra. Como que foi isso e o que significou na sua vida? Porque você dá uma volta e escapa de um destino que não era para você ter escapado. Como é que é isso?

Seu Jorge: Eu tive bons encontros na minha vida, assim, pessoas incríveis. E o teatro foi um encontro, lá dentro do teatro encontrei-me com outras pessoas, com a arte mesmo. Vivia muito bem tocando violão, sabe, o violão e as revistinhas, eu vivia superbem, eu era querido. Então, assim, eu não esticava a mão, não pedia nada, eu trocava. Então, tinha um vidro para limpar, eu chegava lá, pegava um álcool, limpava o vidro e o cara me dava uma quentinha, o cara me dava uma quentinha para o jantar, me dava um PF [prato feito] ali na hora. Eu lavava o banheiro, aquele banheiro sujo, ninguém queria lavar, eu lavava, lavava e pegava meu rango. Nunca pedi nada, eu sempre troquei as coisas, eu sempre tive essa facilidade de imaginar o dia de amanhã, sempre acreditei também na coisa do sol. Mas morar na rua, também, é simples, é assim: é não ter onde dormir, as pessoas pularem você, por exemplo, o cara passar, assim, no ponto de ônibus e você está dormindo no ponto de ônibus, porque de noite é muito difícil, tem muita covardia. Então você dorme no ponto de ônibus, de vez em quando você sente alguém, tem sempre uma luz, uma luminária. Aí chega de manhã, o cara pula você e fala: “Olha o cara, desse tamanho – você está escutando–... desse tamanho aí, rapaz, podia estar numa obra e tal. E está aí, largado, é droga, vai ver é doideira”. E não era e muitas vezes era fome, você está dormindo, assim, passam 20 minutos, você fechou o olho, se você está com fome... Então, tem umas dificuldades, banho é muito difícil, necessidades fisiológicas é muito difícil, higiene e outras coisas, então isso vai abaixando o moral e acaba mexendo na sanidade mental. A gente não consegue controlar muito as emoções, a humilhação é muito grande. Mas eu tive uma sorte muito grande, que era a coisa do violão, eu defendia o meu rango, era querido, assim, no meio da roda, ali na Vila Isabel, por exemplo, no Petisco da Vila [bar tradicional do Rio de Janeiro, é bastante frequentado por músicos, jogadores de futebol, cantores da boêmia e outros artistas], eu chegava e ficava ali em volta das cadeiras. O pessoal: “Chega aí, toca um violão”. Eu sempre consegui ir driblando, o tempo foi passando e eu fui percebendo as agruras.

Paulo Markun: Seu Jorge, nós vamos fazer um intervalo, mas antes eu queria exibir alguns depoimentos que foram registrados pelas emissoras TV Educativa da Bahia e TV Minas de pessoas especialmente ligadas ao movimento negro, que também se manifestam com relação ao dia Nacional da Consciência Negra, comemorado no dia 20 de novembro, dia da morte do Zumbi dos Palmares. Vamos ver.

[VT de Israel do Vale - diretor de programação da TV Minas)]: É um dia para fazer pensar, na minha opinião. É um dia em que a imprensa se debruça sobre o tema, um dia em que se reflete sobre as estatísticas, um dia em que os negros têm mais voz e mais vez na mídia, por exemplo, do que têm habitualmente.

[VT de Ofélia Hilário - Movimento Negro de Belo Horizonte)]: A luta de Zumbi simboliza a luta e a dignidade do povo negro contra toda forma de opressão e exploração. É um dia de reencontro do povo brasileiro com sua própria história.

[VT de Vovô do Lê (Ile Ayê de Salvador)]: O povo negro está cada dia mais consciente, recuperando a sua auto-estima, cada dia mais sentindo orgulho de ser negro. E  uma coisa muito importante é que nós estamos conseguindo é que essa questão está se socializando, não está sendo só uma questão da comunidade negra.

[VT de Keyroga (cantor de Belo Horizonte)]: O preconceito parece ser uma coisa inerente do próprio homem e, na verdade, a gente teria que aprender mesmo é a conviver com ele e, no Brasil, especialmente, deixar de lado um pouco a hipocrisia e explicitar esse racismo que, na verdade, passa despercebido devido a essa mentira da democracia racial.

[VT de Jaime Sadré (historiador de Salvador)]: Nós ainda enfrentamos problemas de preconceito, nós ainda enfrentamos problemas de falta de oportunidade e, além disso, tem pessoas que ainda pensam que o negro é incapaz. Nós achamos que somos capazes e precisamos superar essa idéia de que a raça determina a capacidade.

[VT de Graça Sabóia (Comunidade Negra de Belo Horizonte)]: A partir do momento que a gente entender que a política pública tem que acontecer para todos e todas, e não para alguns no país, para uma pequena parcela, a situação muda, tem jeito, sim. O combate ao racismo neste país é necessário e é possível.

[clipe musical de Seu Jorge]

Paulo Markun: Antes de a gente voltar a conversar com o Seu Jorge, eu quero registrar o erro, aqui, do Roda Viva, rapidamente anotado e corrigido pela Maria Amélia, que é a grafia do Ile Ayê, está aí na tela, Ile Ayê, fica assim registrado, porque é importante a gente respeitar as línguas dessa terra. Seu Jorge, como é que você foi parar na rua? A gente passou rapidinho na biografia, você disse que tinha a maior honra de ter tido a educação da sua família, tinha família, tinha tudo, como é que você foi para a rua?

Seu Jorge: Tem um fenômeno no Brasil chamado “chacina” nas favelas do Rio de Janeiro e a minha família sofreu esse atentado também, eu perdi um irmão com 16 anos, no dia 26 de abril de 1990, eu tinha recém-saído do exército brasileiro, deixado o serviço militar. Nesse fatídico dia, eu tinha saído para trabalhar, minha mãe saiu para trabalhar, o menor foi para a escola – voltava às cinco da tarde– e encontrou o de 16 morto no chão. É muito comum, para quem não sabe, não entende chacina, escuta falar, não sabe o que é: motins vários que brigam pelo comando de uma comunidade e muitas das vezes um determinado grupo vai na comunidade do inimigo e mata um montão de inocentes para mexer com os brios do inimigo e isso fica uma brincadeira disso. É uma coisa muito comum na Baixada Fluminense, quando não é o esquadrão da morte, caso da polícia também que barra os policiais, policiais bandidos que... E eu tive uma situação dessa na minha vida e perdemos a nossa casa, porque foi invadida, se apoderaram da casa. Não tinha mais sentido, ninguém queria também mais ficar ali, porque doía muito passar [por ali], foi a trinta e poucos metros da minha casa o acontecido. Era obrigatório passar para pegar um ônibus. Até na mercearia... que ele morreu na porta de uma mercearia, foi surpreendido por uma kombi, um voyage com dois homens armados, não só ele, mais cinco pessoas nesse dia também foram assassinadas. Então foi uma desgraça muito grande, uma fatalidade muito grande, não foi súbito, depois disso ocorrido, no dia seguinte eu peguei o irmão mais novo e fui para a casa de um parente, que morava no Méier e dali, como eu era o filho mais velho, eu levei um papo com meu tio, meu tio e meu pai falou: “Agora estamos nessa situação, o que você vai fazer? Agora tem a sua mãe nessa situação, está na casa da irmã dela, seus irmãos aqui, a despesa aumentou, as coisas estão difíceis, como é que vai ser?” Aí eu tinha um conhecido, o Gabriel, e falei: “ Não, estou fazendo um negócio aí, eu estou na percussão com um rapaz. Ele disse: “Rapaz, você tá maluco! Neste país você vai ser músico? Que é isso rapaz, você tá doido? Você tem que estudar, arrumar um emprego público, a sua mãe tá nessa situação, você tá sem emprego, você tem 20 anos, filho mais velho, que é isso? Ainda dá para descolar uma vaga”. Aí eu falei: “não, eu vou dar um tempo”. Aí eu descolei uma vaga numa casa para rapazes, fiquei uns 8 meses, não tinha dinheiro para pagar e fui parar na rua.

Joel Rufino dos Santos: A sua biografia é interessantíssima e você é uma pessoa carismática. Eu queria ver se conseguia explorar um pouco o significado que você tem como artista negro, vindo da pobreza. É um caso raro, então eu acho que a gente devia tentar explorar isso, eu, pelo menos, estou preocupado em tratar, em discutir, em perguntar a você sobre este significado. O racismo no Brasil é um fenômeno muito complexo, todo mundo está careca de saber. Uma das manifestações desse racismo é a vitimização do negro, é tornar o negro vítima e você se recusa a esse papel pelo visto. Outra manifestação desse racismo é levar o negro a tomar o branco que fez sucesso como celebridade como modelo e você também se recusa a isso. É interessante. Você significa alguma coisa distinta do que a média, o comum do artista negro, tem significado, é isso que eu queria explorar. Quer dizer, você me dá a impressão, se não for isso você vai confirmar, que você tem consciência de que o que você quer é ser um artista, independente de negro ou não, você ser um artista digno.

Seu Jorge: Ser um cidadão importante neste país.

Joel Rufino dos Santos: Isso, que se recusa a se tornar celebridade. O que você diria para uma criança negra? A pergunta que eu quero fazer é essa. Você diria alguma coisa, assim, moral, você tem alguma lição moral, no bom sentido, para a criança negra?

Seu Jorge: Não, a única coisa que eu desejo para as crianças negras é aproveitar a infância, não tivemos essa oportunidade. O que eu penso? As pessoas costumam me perguntar quais são os meus próximos projetos. O meu projeto é um só: é criar os meus filhos. Eu sou o primeiro de uma geração inteira de escravos a ter uma possibilidade de dar um futuro diferente para os meus filhos e meus sobrinhos. Não quero discutir só problema dos negros, quero discutir o desenvolvimento tecnológico do meu país, nuclear, eu faço as palavras de Milton Gonçalves [(1933-), ator e diretor brasileiro de teatro, cinema e TV] minhas palavras também. Não quero só discutir essa situação exatamente, nós vamos ficar estagnados num assunto onde... Na verdade a gente tem que mostrar mais habilidade, num país da Daiane [Garcia] dos Santos [(1983-), primeira ginasta brasileira a conquistar a primeira medalha de ouro em um mundial, fato ocorrido no Campeonato Mundial de Ginástica de 2003, na Califórnia], tem que começar a ter mais fé, porque ali foi investimento e trabalho, porque 30 anos depois de Nadia Comaneci [(1961-), famosa ginasta romena, destacou-se como vencedora de cinco medalhas de ouro olímpicas e foi a primeira a receber uma nota dez, por seu desempenho perfeito, num evento olímpico de ginástica artística], quem diria que do Rio Grande do Sul ia sair uma negra campeã de ginástica olímpica, sabe, no Brasil? Então é nesse sentido que eu acho que o Brasil precisa acordar. Não temos só a situação do negro, tem a mãe solteira, tem toda questão da doença social. Eu posso falar de desigualdade social, porque eu sofri de desigualdade exatamente, entendo disso, eu sei muito bem o que é ki-suco, eu sei muito bem o que é um chão de vermelhão, eu sei o que é fazer um poço, mas eu não despejo essa coisa, essas foram minhas experiências, mas existem, infelizmente, experiências mais dolorosas do que a minha... de, por exemplo, crianças no pantanal catando inseto de madrugada, é uma experiência que eu não vivi. Eu, quando catava alguma coisa de madrugada, no meio da lama, era rã para fazer a minha sopinha no dia seguinte, era o maior barato, sabe, era a minha infância, eu aproveitei dessa maneira. No Brasil temos também uma coisa de olhar para o que os outros têm, o cara está com um carrão, o Ronaldinho comprou uma Ferrari, que se dane, ele que tomou pau no joelho, ele que apanhou no joelho, ele trabalhou, não roubou nada, então é isso.

Paulo Markun: Seu Jorge, seguindo o raciocínio do Joel, você acha que parte dessas coisas se resolvem... porque nós estamos numa TV pública, que, aliás, é uma das poucas que dá espaço para esse tipo, uma hora e meia para se discutir esse assunto. Você acha que parte desses problemas se resolvem com políticas de governo ou é uma luta individual? Quer dizer, cada um vai lá e conquista o seu espaço, educa seu filho, como é que é?

Seu Jorge: É verdade que a participação do governo seria fundamental no aspecto da igualdade social, da restauração da dignidade das pessoas do povo. É o que eu digo para a imprensa fora do Brasil, eles me perguntam, perguntam pela minha carreira, minha música, meus filhos e tudo, mas perguntam muito sobre o Brasil e sobre a favela, o que é a favela. Como todo mundo aqui, eles têm conhecimento da minha trajetória. A única coisa que eu tenho medo assim é de ser colocado como exemplo de alguma coisa para justificar a miséria do outro, tipo “você não se dá bem, porque você não faz nada”. Não é isso, eu dei orgulho, podia não ter dado certo, mas deu, graças a Deus. É verdade que nós temos que descobrir uma maneira de quebrar esses complexos, eu já tive esses complexos, eu sempre fui interessado em saber o que é [Claude] Monet [célebre pintor impressionista francês ] e o que é [Pablo] Picasso [pintor e escultor espanhol, foi co-fundador do cubismo], mas chegar lá no museu, assim, e vão reparar no meu sapato, vão reparar na blusinha que eu estou vestindo, vão reparar no perfume que eu uso, porque não é o perfume da moda. Então tem algumas coisas, assim, que são impressas às vezes... O garoto tem 6 anos, o irmão tem 8 e desceu para vender chiclete, ele está doido também para ter o dinheirinho dele. Com seis na favela, o cara sabe, a diferença está no nível do estômago, assim: “eu como, você não come” e lá no meu comercial do McDonald’s está lá todo dia...

Lázaro de Oliveira: Como é que você supera isso? Você, pessoalmente, como é que você superou isso?

Seu Jorge: Eu tenho alguns santos, vou ser sincero, sabe, eu sou do candomblé, eu tenho fé no santo, eu tenho fé nos orixás, eu tenho fé em Oxalá, eu sei que todo dia, mesmo que esteja chovendo, o sol está lá. É tudo agora, estamos batendo esse papo aqui, eu dou um pulo ali, o coração parou, ficou a carreira, ficou fama, ficaram as crianças, sabe, mas é assim. Meu pai sempre dizia que a vida é uma passarela, um desfile só... vai e volta. Acredito no santo, acredito na fé dos santos, acredito na disciplina da natureza, acredito na... Eu sou suburbano. Posso ficar famoso e ganhar dinheiro, mas eu sou suburbano, eu gosto de um banho de borracha, lingüiça na brasa, linguicinha, pelanca, é isso que me faz superar essas coisas.

Deise Benedito: Jorge, você falou duas coisas interessantes. Você fala dessa sociedade que faz com que as pessoas sejam marcas e patentes, você é aquilo que você possui, você dá um exemplo de McDonald’s, eu também te dou o exemplo do Nike, daqueles meninos que matam e roubam para ter um Nike, quando a Nike não oferece nenhum serviço social para essa comunidade que apodrece nas febens e nos presídios, que a Nike faz, por conta disso. Agora, eu queria dizer em cima dessa coisa toda, do próprio preconceito, da discriminação, enquanto um sobrevivente, um guerreiro sobrevivente, eu queria que você, que vive na Europa, como é que você está vendo esses conflitos desses jovens que estão sofrendo preconceito e discriminação na Europa? Você percebe que isso pode se deslocar para a América Latina e para o Brasil? Porque eles estão queimando os carros e os carros são um símbolo de poder. Então, como é que você está vendo isso hoje?

Seu Jorge: Isso não se desloca para o Brasil, eu não acredito, para a nossa juventude, não, não acredito. Até porque o menino, lá, de 16, 17 anos, ele já leu tudo, na França ele já leu tudo, ele é obrigado. Eu estive no Japão no dia 1º de setembro, as aulas japonesas voltaram e três garotos, um de 13, um de 15 e um de 17 se suicidaram, cometeram um suicídio coletivo. O maior índice de suicídio coletivo infantil é no Japão – e coletivo, o que é pior. Não são casos isolados. Dessa vez foi um escândalo, porque geralmente o suicídio no Japão é assalto de ônibus, coisa que a gente não liga aqui, não dá muita importância, lá geralmente é isso. Dessa vez eles deram uma importância e eu fiz um show pesado, depois de cantar "Eu sou favela", de dar uma explicação de que nós aqui não temos escola para a garotada, não tem merenda, quando tem merenda roubam. E eu estava explicando certas coisas e eles com tudo lá e eu botei para quebrar, xinguei todo mundo: “vocês são um bando de babacas, vocês estão dando mole com tudo em cima, porque vocês não beijam as suas crianças”, esse é um reflexo. Essa geração tem um conflito com uma caretice, uma coisa arcaica que não cabe mais. A Europa está deixando de ser velha e está começando a se tornar jovem e não tem adiantado muito o controle de natalidade, porque os jovens também têm se misturado, têm se cruzado, têm tido suas crias e não é mais interessante ouvir o velho. Então eles podem ter a sua comunicação no seu SMS, nos seus celulares, uma porção de idéias e pegar aquele ranço, aquela coisa do seu país, das suas tradições que é sair na rua e botar para quebrar e tal, a juventude agora tem a sua autoria. É verdade que a França é um país bem diferente dentro da Europa nesse sentido, porque eles têm muito orgulho, o povo tem muito orgulho, a França tem muitos problemas por ter dado uma assistência social muito grande, oferecer. E esse modelo já está ultrapassado hoje e o povo briga muito, porque tem as leis que o protegem para que eles briguem. A juventude herdou essa disposição física para sair na mão, para ir para a rua, para encarar bala de borracha, para encarar a coisa, só que agora são autores. Eu ainda não descobri, ainda não consegui perceber o que realmente, quem realmente planta as idéias dos distúrbios, quem realmente recebe, que idade tem. Eu acho que essa deveria ser a preocupação do [Jacques René] Chirac [ (1932-), presidente da França de 1995 a 2002 e de 2002 a 2007], ao invés de pôr uma força bruta, de colocar assim: “Não, nós somos franceses, nós vamos resolver o problema e vamos baixar o pau em todo mundo – ele fala assim mesmo–. Vai dar tudo certo, fiquem tranqüilos”. E o povo francês fica muito feliz, tem pouco tempo, um toque de recolher, resolveram o nosso problema. Esse é o Chirac. Essa política não concorda com a mentalidade de uma juventude, hoje, que leu todos os livros interessantes, que tem acesso aos modelos interessantes, que tem acesso à universidade, que quer... Eu estava trabalhando com um menino, eu ganhei seis meses de visto nos Estados Unidos, ele ganhou seis anos, porque ele é francês, eu era o artista e ele o meu assistente, ele ganhou seis anos de visto de trabalho, ele pode entrar e sair a hora que quiser, e eu ganhei seis meses. Tem umas coisas que... Essa juventude sabe o poder que tem.

Pedro Alexandre Sanches: Espera aí, eu não entendi. Qual foi essa diferença de seis meses, seis anos?

Seu Jorge: Ele era francês.

Paulo Makun: E branco?

Seu Jorge: Não, isso não tem importância.

Pedro Alexandre Sanches: Porque teve um episódio em que você foi barrado no aeroporto, em Londres. O que aconteceu? Essa história foi mal contada aqui no Brasil.

[...]: Você ficou nove horas dentro do aeroporto...

Seu Jorge: Olha, eu posso dar um flagrante aqui, gente?

Paulo Markun: Seu Jorge, mostra para aquela câmera ali.

Seu Jorge: Isso é superimportante falar. No dia 10 de maio de 2005, minha filha fazia dois anos de idade e eu fui convidado pela BBC de Londres a fazer um show de televisão com o Josh Homme. E eu fiquei lisonjeado, eu estava em Paris e eu fui até lá, acordei cedo, cheguei oito horas da manhã, com toda a documentação precisa, o hotel onde vou ficar, passagem marcada para o dia seguinte, a carta da BBC, pessoas do lado de fora esperando. A parte da equipe, monitor, tudo estrangeiro, só os músicos que são brasileiros, tudo certo. E eu ia num programa de televisão, não fui lá para ganhar dinheiro. E 15 dias antes eu havia estado lá, fiz um concerto, eu tinha lançado [cita o nome de um CD], toquei no Royal Festival, foi maravilhoso, duas mil e tantas pessoas, o jornal inglês falou que eu era o homem mais legal do planeta, aquela coisa toda. Voltei lá 15 dias depois para fazer um programa de televisão, justamente para divulgar, afinal de contas tem uma gravadora lá, tenho um trabalho lá, está tudo certo. O que me espantou foi uma negra, exatamente, ela me parou, pediu meus documentos, eu entreguei, ela não avaliou, ela falou que eu tinha que ter um work permission [permissão para trabalhar] para entrar no país e eu falei: “Mas eu não vim ganhar dinheiro, eu não vim...” “Então está bom, eu vou ligar para a BBC e você sai por 15 minutos aqui, espera ali fora da fila que eu já volto aqui”. Quinze minutos se passaram, vieram dois guardas, recolheram todo mundo, tiraram foto de todo mundo, revistaram todo mundo, apreenderam a bagagem, botaram a gente numa sala, apreenderam os celulares, porque a imigração é um espaço neutro. E aí ficaram ameaçando a gente de fazer uma inspeção minuciosa no corpo, coisa do gênero, jogaram travesseiro, jogaram cobertor. Isso às oito horas da manhã, quando foi onze e meia, eu já estava certo de que eu ia ser deportado e eu não estava nem ligando, falei: “beleza, tudo bem, o vôo sai às duas e quatro”. Quando foi meio dia: “Olha, a BBC ligou, vocês vão conseguir entrar, eu estou preparando o documento, você só vão ter que ficar esperando”. Eu falei: “Agora eu não quero, não”. “Ah, não?”. “Agora quero ir embora”. Mas aí fizeram o que fizeram e me seguraram até as quatro horas da tarde: “Mas você não vai fazer o programa?” Quando a “começão de rabo” começou lá de cima para baixo, a chefe desceu e disse “o que está acontecendo”? Aí eu falei: “está acontecendo isso aqui, eu sou o fulano de tal”. Aí ela começou a me reconhecer, começou a chorar... Eu falei: “eu não volto aqui agora, a imigração foi feia, eu não quero mais voltar nesse país, eu não tenho interesse, eu fui convidado, eu não vim aqui para nada, eu sou do país do futebol, da dança, da poesia, da cultura e do sol, eu estou voltando para casa, lá vou tomar a minha aguinha de coco, aguarde notícia, estou voltando”.

Pedro Alexandre Sanches: Essa foi a sua atitude para protestar, para reivindicar a sua cidadania.

Seu Jorge: Aí eu voltei, um dia o [cita o nome de alguém] ligou na minha casa, ficou pedindo desculpa, não dei a menor atenção, depois me pediu para voltar a Londres, aí eu falei “então, está bom, eu quero tudo de primeira, eu quero ser tratado de primeira, só vou botar o pé no chão e não quero conversar com ninguém”. Dei uma de João Gilberto lá e deu certo. [risos]

Luciano Ramos: Vamos voltar para o Brasil e falar um pouquinho de cinema. Porque tem três grandes filmes em que você trabalhou, o terceiro não tão grande assim. Casa de areia, em que você fazia o papel do Massu, que era um remanescente de Quilombo, pertencia a uma sociedade lá nos Lençóis Maranhenses, que eu não sei se existe, mas que no filme representava um descendente de um antigo quilombola. Depois você fez, no Cidade de Deus, Mané Galinha, que era um cobrador de ônibus que caiu no crime e passou a ser líder de uma facção. E no filme A vida marítima você fazia um papel de um marinheiro que ficava tocando violão e cantando.

Seu Jorge: Não fazia nada certo.

Luciano Ramos: Exatamente. Eu quero saber o seguinte: qual desses três filmes você gostou mais como espectador? Primeiro. Segundo: qual dos três personagens, com qual dos três personagens você se identificou mais?

Seu Jorge: Mané Galinha, sem sombra de dúvida.

Luciano Ramos: Bandido mesmo? Atirando, matando, tudo?

Seu Jorge: Não, eu me identifiquei com a semelhança da história e como eu fui capaz, com a minha vida, de tomar uma outra escolha. Porque a moral da história dele é que a vingança não leva a nada, ele entrou no crime para se vingar e acabou cometendo um assassinato e morreu na mão da vingança, na mão do menino. Essa é a moral da personagem Mané Galinha, era muito significativo para mim, eu poder ter contribuído para esse aspecto. Porque eu acho que a Cidade de Deus é um manifesto, transcendeu a sua função artística. Eu tive que explicar o que era favela para Bill Murray, para Cate Blanchett, para a Anjelica Huston, eu tive a sorte de fazer esse filme com essas pessoas e ser respeitado pelo Owen Wilson, pelo Jeff Goldblum [de Murray a Goldblum, todos são atores e atrizes com os quais Seu Jorge contracenou no filme A vida aquática com Steve Zissou]. E eles perguntavam: “O que é favela?” Sabe, ninguém perguntou como que se girou aquela câmera, acho que isso eles estão carecas de saber. Mas acho que era importante saber deles quem era aquela pessoa mesmo que aparece no final do filme dando depoimento, que eu imitei no meio do filme, quem é o cara mesmo. “Mas como é que foi, como é que aconteceu?” Aí eu tenho que explicar o processo que, como americano, ele não entenderia. Como americano, celebridade, então, cara que ganha milhões de dólares, ele não ia entender nunca. Mas assim, aos poucos, depois do jantar, todo mundo de barriga cheia e tal, aí o cara sacou o charuto: “Então, me explica uma coisa, esse negócio de favela”... Aí você tinha que saber explicar o que é abandono, tem que ser didático. Imagina seu pai e sua mãe, você nasceu de um pai e uma mãe, eles sumiram, te abandonaram com dois anos de idade, imagina isso, esse é o povo brasileiro, que foi abandonado pelo seu país. Então em cima disso criou-se um carinho muito grande, porque a turma chegou lá e me viu como mais um trabalhador, como mais uma pessoa na luta... e saber que era importante para mim o que eu estava fazendo. Afinal de contas, era uma coisa minha, do brasileiro. Eu me lembro muito bem do Anselmo Vasconcelos falando: “Eu não gosto desses atores que vêm fazer teatro sonhando em fazer Hollywood”. E de repente eu fui... [risos]. Mas sempre vejo isso como brincadeira, porque eu me lembro muito bem que, quando ele citou isso, eu estava ali no meio, dando graças a Deus por uma oportunidade de estar ali mostrando que o brasileiro é legal, que o brasileiro é competente, que o brasileiro é bom profissional, também fala inglês, que não estamos estagnados, não. E era muito importante essa coisa do Cidade de Deus, da integridade, é um filme que tem um ponto de vista da favela, da comunidade, por isso ele é forte, ele é divertido, não é um filme que fala de violência, por isso eu me identifico mais. Adorei ter trabalhado, evidentemente, não só com as estrelas internacionais, mas com a Fernanda Montenegro, fala sério, com Fernanda Torres e o próprio Andrucha [Waddington (1970-), diretor e produtor de cinema e publicidade, dirigiu Casa de areia], nos Lençóis Maranhenses, que existe... aquele lugar, é no nosso país, é incrível aquelas lagoas, é incrível aquela gente. As crianças em Santo Amaro, todas agarradinhas com a chupeta na boca “estou com medo de você”. Não tem muito preto, né, tem mais índio, quilombo nem tem mais, é longe, afastado, no meio do areal. Vai do outro lado para caçar um peixe, nove horas andando a pé para poder pegar um peixe e fazer com coco, não tem negócio de arroz. Você vê um Brasil, assim, diferente, é bom, é importante, é o cinema. Eu tive essa oportunidade, acabei de ser convidado para fazer um filme na Venezuela, no qual eu vou fazer um outro traficante, para o ano que vem, eu estou superfeliz, uma produção americana, é muito bom continuar. Mas eu acho que Cidade de Deus, Mané Galinha, pela importância do filme, eu entrei no filme e eu nem sabia se eu ia ser protagonista, porque não tem muito protagonista nesse filme, ele tem todo mundo que aparece no filme, todo mundo está lá dando a sua contribuição e é tão difícil ter um filme como Cidade de Deus, assim, fazer uma coordenação e ter tudo certo, está todo mundo arrumado e todo mundo dá show, desde a edição da fotografia, o pessoal dos efeitos, eu acho que foi o que eu mais me identifico.

[clipe  da música "Carolina", de Seu Jorge, no Bem Brasil, programa transmitido pela TV Cultura, em São Paulo (capital)]

Paulo Markun: Seu Jorge, eu passei o final de semana corrigindo uma falha na minha formação musical, escutando alguns de seus discos e tive a impressão, não sei se estou errado, não entendo nada, meu departamento não é crítica musical, obviamente, que você, no tempo do Farofa Carioca [banda criada em 1997, cujo estilo mistura vários ritmos como funk, jongo, rock, jazz, rap, reggae, xote e principalmente samba], tinha uma coisa mais suingada, que o [samba-rock] "Carolina" tem, mas que outras composições, por exemplo, do disco Cru, que é o último lançamento, que você já explicou uma vez que não foi feito aqui no Brasil, não tem. Você sente que a sua canção, que a sua música está indo para essa coisa mais cool assim, mais...?

Seu Jorge: Olha, particularmente eu não sei, porque eu, naturalmente, não queria determinar um estilo para mim não, sabe, queria assim ser um cara do samba, do swing, do rap. Eu gosto das coisas, eu gosto de música, então eu nunca desenhei. Como eu não tenho uma discografia também, então está todo mundo no começo, tenho dois discos só, o Cru, como meu segundo disco, ele apareceu com uma proposta do produtor, que é o Menino de Braçanã, para a França, fazer disco para a França. E lá esse excesso de produção, esse excesso de... é uma tentativa de sofisticar a música brasileira, que não precisa.

Paulo Markun: Você achou que teve isso? Exagerou na dose?

Seu Jorge: É. Eu queria fazer um disco de música brasileira, vendo o Brasil do lado de fora. Então eu fiquei lá na França como se estivesse só assistindo o Brasil, porque lá, o que está cheio da música no mundo, é a música sofisticada exatamente. Nos Estados Unidos a referência de música brasileira de sucesso é a música da década de 60, a bossa nova que passou por esse processo maravilhoso, com grandes músicos, com grandes composições, composições muito bem escritas, revisadas, tudo isso. A música que eu queria propor dentro do grupo não tem nada desse padrão, era só música de emoção. Como eu não tinha nome para dar, eu costumo chamar isso de “blues da favela”. Blues é música da emoção, então estou no meio da favela mesmo, então blues da favela. A idéia era fazer uma música mais calma, porque o trompete, o arranjo, a dobra, fazer a voz bonita, essa coisa da gravação técnica, eu não queria fazer um disco técnico, queria fazer um disco emocionado. Aí eu fui para o Jardim Magnético, que é do Flávio Fonseca, era uma fazenda assim do lado de um rio. Entrava no estúdio, dali a pouquinho pulava no rio. Vai lá, pula, faz churrasco, bebe um negócio, uma caipirinha de maracujá, aí vem um tucano e não sei o quê... sabe, ficou nessa, nessa história. E foi marchando e o francês adorou, era tudo para a França. E a gente achava que se tudo exatamente desse certo, a gente ia vender 2 mil discos, aí vendemos 50. Aí ele falou: “Vamos sair, vamos para outra praia, vamos para a Alemanha, que é ali do lado”. Fomos para Alemanha, deu certo; em Bruxelas, deu certo. Aí um amigo lá, o Mathieu Chedid, que é um grande artista francês, um hit maker, como se fosse um Lulu Santos, sabe, um grande artista, e ele me convidou para abrir o concerto dele.  Só que ele toca assim para 40 mil, 50 mil pessoas, e eu fiquei fazendo a turnê com ele, abrindo o concerto dele, e fazendo público, e as pessoas amando ali. E ele falava “Eu vou convidar um cara aqui, ele veio do Brasil”, [imitando a reação do público] “êêêê”!!! “Ele que fez aquele filme La cité de Dieu”! “Êêêê”!!! “Ele vai tocar música brasileira”! “Êêêê”!!! “Enquanto eu descanso, daqui a pouco eu venho”. E aí eu entrava em cena e bufa! Mandava, o povo amava,  assim, a gente vendeu disco, fui ganhando notoriedade, eu tenho facilidade de, na França, falar a língua e a televisão francesa começou a nos convidar.

Paulo Markun: Com isso tudo eu imagino que o seu próximo trabalho não vai ter nada a ver com o Cru nem com o primeiro disco?

Seu Jorge: Eu quero fazer um disco agora com a formação do Cru. O Cru é um disco... era eu e o Pretinho da Serrinha, a formação do Cru era eu, o Pretinho da Serrinha, Nene Brown e o Miudinho e mais o Ricardo Feijão, então somos nós cinco e o Pedja, que é o meu técnico [de som] francês. E nós vamos fazer um disco agora para o mercado americano. Fiz 19 shows em 22 dias nos Estados Unidos agora, foi uma loucura.

Paulo Markun: No mercado americano, para os Estados Unidos?

Seu Jorge: É, para os Estados Unidos. E foi uma loucura.

Lázaro de Oliveira: Deixa eu só fazer uma pergunta. Quer dizer, você está falando do Brasil, não sei se uma certa glamourização com relação a essa coisa do Brasil, que o negro no Brasil é o grande ritmista, é o grande dançarino, é a figura mais alegre. O seu próprio selo chama Favela Chique, pelo que me consta a favela não é chique.

Seu Jorge: Acho que em Paris é. Uma favelinha em Paris, assim, que você pode tomar uma caipirinha geladinha, ver uma loira fazendo biquinho e falando com você, te atendendo superbem, é chique para burro. É uma favelinha nossa, porque é uma favela chique, porque tem um santinho, tem umas coisas, tem aquela dignidade da favela, do interior do barraco.

Paulo Markun: Só vamos esclarecer, para quem não conhece, Favela Chique é o nome da casa noturna, que também é o nome do selo, senão daqui a pouco vai parecer que nós estamos falando da favela.

Seu Jorge: Na verdade o selo é Fla-Flu, que é o mesmo dono. Favela Chique é um restaurante que tem esse interior das casas na favela, aí é chique. Porque você vai na favela e o esgoto é aberto do lado de fora, não do lado de dentro. Na casa das pessoas está tudo enceradinho, tudo arrumado, a mobília, está tudo certinho. Então nesse sentido, a temática mesmo lá dentro você olha assim, cara, tem padrinho, Padim Ciço, tem espada de São Jorge.

Lázaro de Oliveira: Mas o Brasil não parece ali uma figura meio exótica, aquele que dança bem? Ou o francês não tem essa visão?

Seu Jorge: Não, não, o Monobloco acabou com isso no Rio de Janeiro. Por exemplo, você vai no Monobloco, lá, é um grupo de percussão dentro da Zona Sul, vivo, musical, suingado, tocando não só ritmo de samba, mas todos os ritmos musicais. Pedro Luiz é um gênio, teve essa idéia junto com o pessoal, mobilizou uma garotada, deu oficina, o instrumento, o estrangeiro veio de fora. É igual a essa coisa da capoeira que saiu daqui e foi para lá e as pessoas amam, vêm para o Brasil, essa música... Eles entendem que nós somos o resultado bem aproveitado de uma mistura. Eles estão começando a se misturar agora, eles não sabem o que vai acontecer com eles, por isso eles [inaudível]. “Cara, no prédio deles, tá um indiano e uma negona assim”. Ele não se amarra muito, que é muito na cara. A negona não nega originalidade, o indiano não nega e o francês, ele fica naquela, fala assim: “Essa gente, meus vizinhos, eu não me amarro muito”. E eles têm que aprender a conviver. Nós, não, nós somos isso mesmo.

Maria Amélia Rocha Lopes: Posso fazer uma perguntinha rapidinha. Você fez uma opção, quer dizer, assim, tem alguma razão específica pelo fato de você ter trocado Rio de Janeiro por São Paulo?

[...]: E que é o “túmulo do samba”, né, segundo Vinicius [de Moraes].

Maria Amélia Rocha Lopes: O tal túmulo do samba.

Seu Jorge: É, mas, desculpa, isso é uma grande bobagem, é uma grande bobagem, o Brasil não é o Rio de Janeiro, sabe? E o Rio de Janeiro não é a Zona Sul, Rio de Janeiro é Caxias, é Nova Iguaçu, é Japeri, é Belford Roxo, é Queimados. Não é só Zona Sul. Outro dia até fiz uma matéria no jornal lá do Rio fomentando isso, o cara me detonou, porque eu falei mesmo: “a turma lá está muito de bobeira batendo palma para o sol e tal, cadê a poesia? Não tem. Cadê o violão na rua? Não tem”.

Pedro Alexandre Sanches: Aqui também não, né, Seu Jorge? Aqui em São Paulo também não tem.

Seu Jorge: De segunda a sexta aqui todo mundo trabalha, todo mundo tocando. Em qualquer lugar aqui que você vai, tem música, bicho. Músico aqui não reclama como os músicos de lá, estão em ataque. Até para montar banda aqui é difícil, porque está todo mundo atacando, eu acho bonito São Paulo nesse sentido.

Maria Amélia Rocha Lopes: Você está bem adaptado à cidade, seus filhos estão em colégio aqui, tudo bem?

Seu Jorge: Nossa. Tudo lindo, tudo lindo. Eu não saio daqui, não.

Maria Amélia Rocha Lopes: Primeiro carioca que fala que é tudo lindo em São Paulo.

Seu Jorge: Não saio daqui, não.

José Vicente: Você estava falando, na conversa anterior, de fé e de talento,e me parece que o veículo dessa fé e desse talento foi o violão. Como é que o violão chegou na sua vida e qual a importância dele nessa sua trajetória?

Seu Jorge: Na minha comunidade, lá, tinha um rapaz chamado Gilmar, ele tocava violão, assim, de aço e ele cantava as músicas de José Augusto.

Paulo Markun: Desculpe, o que é "violão de laço"?

Seu Jorge: De aço.

Paulo Markun: Entendi "de laço".

Seu Jorge: Ele tocava o violão de aço e tocava José Augusto, tocava essas músicas que naquela época, na década de 80, 90, sobretudo na década de 80, tocava nas rádios populares. Eu ficava olhando ele tocando aquela coisa de violão e tal, mas não era o repertório que eu gostava muito, não. Mas ali só tinha aquilo, só tinha o Gilmar, porque lá é barro, não tem luz, tem uma sinuca ou ficam tomando pinga, o campo de futebol do Independente [em] que as pessoas jogavam bola domingo, sábado e domingo, aquela igreja evangélica gritando horrores e tal, o povo lá, orando muito alto, então isso na comunidade é o que tinha. E eu e o Gilmar sentávamos lá na beira do bar do seu Otacílio e levava o violão. E aí, com 20, foi quando eu conheci o Gabriel, foi quando eu fui botar a mão num instrumento meu. Porque antes o primeiro instrumento que eu toquei foi corneta no quartel, fui servir o exército, consegui dar um jeito de não ficar no sol, aí eu tocava corneta. [risos]

Joel Rufino dos Santos: Se você me permitir insistir na linha que foi aberta pelo Lázaro, se você me permitir eu vou fazer uma questão aqui. Eu concordo com você que não é bom o artista se etiquetar e se especializar apenas num gênero, tudo isso eu concordo. Agora, por outro lado, ele não pode cair no outro extremo que é achar que tudo tem o mesmo valor, e como é que ele estabeleceria essa distinção de valor? Acho que aí, o que vai na direção do que diz o Lázaro, só com uma consciência de como a sociedade está funcionando, de como está funcionando o mercado do disco, como está funcionando a exploração do músico popular. Essa é a questão que eu ponho para você.

Seu Jorge: Eu tenho uma certa facilidade, porque não sofri exatamente essa pressão. Da minha turma eu fui o primeiro a dizer para a galera: “Não, vamos ficar sem empresário”, quando eu trabalhava com o Farofa. “Vamos ficar sem empresário, vamos montar o Farofalândia, vamos fazer nossas coisas, a gente mesmo”. Eu não quero ser selo, eu não quero ser dono de gravadora. Mas eu queria ter domínio da minha obra, do meu trabalho. Eu não conheço o dono da Sony, você entende, não conheço o dono da Universal, o cara é um gringo, talvez nem o Roberto Carlos conheça, ele é um rei e talvez o cara nunca apertou a mão do rei: “Obrigado por ter vendido disco para caramba e ter dado os seus fonogramas para mim”. Sabe como que é? Então eu queria também mostrar para a turma que não precisava ficar ali dependente dos comandos, do modus operandi, da direção. Reconheço que tem muita coisa musical que precisa ser feito, que precisa ser melhorada e às vezes tem artistas que se dão bem. Eu, no meu caso, não me dava bem, porque eu tenho muita dificuldade de ir a certos lugares na televisão, de ter patrão. Eu trabalhei para não ser patrão e não ter patrão e não andar de ônibus, as três coisas que eu trabalhei na minha vida. É, porque falando de coisa de negro, eu entrava dentro do ônibus era um constrangimento muito grande. O cobrador ficava preocupado, a menina tirava o relógio, botava na calcinha. Quando eu descia no ponto, o cara: “Vou ficar aí também, motorista”. Ele descia, sabe. E eu sabia, como é que eu vou falar “bicho, tenho educação, não vou roubar ninguém aqui”. E também não sou aquela pessoa “está me olhando por causa de quê?” Também não, aí eu falei  “vou acabar com esse constrangimento”. E nunca mais andei de ônibus. [risos]

Pedro Alexandre Sanches: Para evitar o preconceito. Não andar de ônibus para evitar o racismo, não é porque você não gosta de ônibus.

Maria Amélia Rocha Lopes: Seu Jorge, o senhor nunca fez nada com seu primo Dudu Nobre musicalmente?

Seu Jorge: Nem travessura, [risos] nem travessura. Mas Dudu foi um primo que viveu um outro regime, a minha tia foi diferente, a história dela, ela foi muito bem-sucedida durante muitos anos da vida dela, foi muito bem casada, teve grana e tudo. Dudu era outra onda, era afastado da família geral, ele tinha dinheiro. Quem ia na minha casa, a minha tia que ia lá era a Jovelina Pérola Negra [(1944-1998), grande cantora carioca brasileira de samba e pagode], que toda madrugada, lá, dava um rango, fazia um macarrão, uma boa carnezinha e tal. Essa minha tia era fantástica. O Dudu é meu primo, adoro de paixão, minha prima também, a Lúcia, tenho uma consideração muito grande, mas criados juntos não fomos, não fomos mesmo. Eu era o primo pobre e ele era o primo rico, é essa a história.

Deise Benedito: Jorge, pelo que você estava falando de música, o que eu sinto é que você faz MPB, música preta brasileira [nome de um disco de Sandra de Sá lançado em 2004 pela Universal].

Seu Jorge: Isso é uma sigla da nossa amiga.

Deise Benedito: Sim. E em cima dessa coisa que você faz, essa música preta, quais seriam os cantores que você admira, que você gostaria de regravar, que você acha que tem que valorizar? Porque na sua história você fala não se ouve mais nas rádios tocar músicas de Clara Nunes [(1943-1983), uma das maiores intérpretes de samba do Brasil]...

Seu Jorge: Roberto Ribeiro [(194-1996), jogador de futebol, cantor e puxador de samba-enredo].

Deise Benedito: Roberto Ribeiro, não se vê mais falar de João Nogueira [(1941-2000), cantor e compositor carioca, integrava o grupo dos compositores de samba-enredo da Portela], então como é que é isso, quem você regravaria, de novo, desse universo de músicos negros brasileiros?

Seu Jorge: Roberto Ribeiro, sem sombra de dúvida. Tem um projeto com Marcelo D2 [nome artístico de Marcelo Maldonado Gomes Peixoto (1967-), rapper brasileiro e ex-vocalista da banda Planet Hemp, que hoje segue em carreira solo] também, tem o projeto dos irmãos, o João Nogueira, a gente tem essa vontade. Porque foi isso que tocou na minha comunidade, foram essas pessoas que foram lá para a favela e tocaram. Essa é a música brasileira que tocou nos lugares onde a comunidade black, na favela, o Zeca [Pagodinho], o Almir [Guineto (1946-), sambista e compositor carioca, um dos maiores representantes do pagode de raiz], o Arlindo Cruz [(1958-), compositor e cantor carioca de samba e pagode], essa é a música que eu tenho uma paixão muito grande, pela inteligência, eram sempre muito bons os assuntos, os assuntos são muito ricos, eu sempre fui muito curioso com esse tipo de canção. Mas eu gostaria de dizer que eu procuro mesmo é fazer música brasileira e popular. Porque todos esses negros e tal têm uma força na nossa música muito grande, mas acho que precisamos romper um pouco com essa determinação, até porque a gente vai ganhar mais ares, vai fazer com que a gente seja mais entendido, música negra, música brasileira no geral.

Joel Rufino dos Santos: Você acha que todos têm então o mesmo valor? Aí vai cair na minha questão que era... Todos estão no mesmo pé de igualdade? Todas as músicas, todos os gêneros, todas as práticas musicais têm o mesmo valor ou há um critério para estabelecer uma que vale mais, outra que vale menos?

Seu Jorge: No meu ponto de vista não há diferença.

Joel Rufino dos Santos: Não há diferença musical, mas você não acha que haveria uma diferença no plano da luta social, na disputa pelo mercado? E aí entra a questão do trabalho. Por exemplo, essa luta, a exotização da música, de um certo tipo de música. Nem todas as músicas que se fazem aqui são exotizadas, só algumas. Por quê? Aí eu coloco a questão.

Seu Jorge: Eu noto que o samba, ele tem essa função, sim, de não ser só música e ser um manifesto social, porque o samba é a música que foi feita para a gente fazer comida, para jogar bola, para fazer mutirão, ela não tem essa responsabilidade de vir a ser sucesso comercial. Por acaso, nós temos um grande artista hoje, que é um dos maiores artistas, vamos dizer, o artista pop do país chama-se Zeca Pagodinho, um cara que vai em todas as classes mesmo, vende disco para caramba mesmo. Mas tem, acima de tudo, não a imagem, e sim a personalidade do samba, a personalidade dele. Essa coisa de busca exótica brasileira às vezes é plantada pela indústria, como uma maneira de fazer um gancho, não é o público mesmo que faz isso com a música, e sim o meio...

Paulo Markun: Mas não tem música que é feita que nem pastel, faz-se um atrás do outro? Eu cito pagode, cito toda a música baiana que virou uma fábrica de rebolados. Isso não é um pouco uma coisa que virou indústria, só?

Lázaro de Oliveira: Nos anos 50, nos anos 60, quando Anescarzinho [do Salgueiro, como era conhecido Anescar Pereira Filho (1929-2000), compositor, cantor e instrumentista carioca], Mano Décio da Viola [apelido de Décio Antonio Carlos (1909-1984), compositor e cantor que começou a carreira pondo letra numa valsa de Johann Strauss, "Os patinadores". Na Mangueira onde viveu por muitos anos foi amigo de outros sambistas de expressão, como Cartola e Carlos Cachaça], Cartola [apelido de Angenor de Oliveira (1908-1980), compositor, cantor e violonista conhecido como "o trovador do samba" pelas letras esmeradas e considerado um dos maiores sambistas brasileiros. Compôs, sozinho ou em parceria, cerca de 500 sambas, dentre os quais "Acontece", "Amor proibido", "As rosas não falam", "Minha", "O sol nascerá", que também foram gravados por grandes intérpretes da música popular brasileira. Foi um dos fundadores da Estação Primeira de Mangueira em 1928 e teve em "Divina dama" seu primeiro sucesso] iam compor, eles não iam compor para vender música, eles iam compor porque eles tinham necessidade da composição. Hoje...

Seu Jorge: Cartola vendeu alguns sambinhas, sim, ganhou dinheiro.

Lázaro de Oliveira: Agora hoje você tem a necessidade, se você fizer duas canções, uma tem que vender.

Seu Jorge: A coisa começa na construção, na fabricação da coisa, da música. Por exemplo, Dorival Caymmi [(1914-), um dos mais importantes compositores da música popular brasileira], até hoje, faz todas as crianças dormirem. “Boi, boi, boi da cara preta”. Muita gente não sabe que "Boi da cara preta" é de Dorival Caymmi. É importante que a música tenha essa função social, é fundamental. Mas nem todo mundo tem essa generalidade do Dorival Caymmi. Eu costumo dizer o seguinte: que o trabalhador da obra ou o trabalhador da escala baixa, o trabalhador precisa de sonhar com alguma coisa. Então é dado o direito a ele de ouvir o pagode chulo, é dado o direito a ele de ouvir a coisa e ele se apaixona por aquilo e ele vai para procurar aquilo com uma sinceridade.

Paulo Markun: Mas não é dado o direito dele de ouvir muitas outras coisas que não tocam na rádio nem na televisão.

Seu Jorge: É verdade, tira-se o direito dele de ouvir bastante de outras coisas. Mas, se a gente começar num pé de guerra por causa disso, eu sei que... Foi o Luiz Carlos da Vila [(1949-), sambista e compositor carioca cujas músicas encarnam o espírito das vilas e bairros do subúrbio carioca] que deu essa explicação, quando ele usava o samba como exemplo. Perguntaram para ele na universidade da UERJ [Universidade Federal do Rio de Janeiro], a gente fazendo um debate junto, perguntaram para ele se essa coisa da onda do pagode bobo, esse pagode-torta-de-morango o incomodava. Aí ele falou o seguinte: “Meu filho, nós temos o oceano, o oceano produz onda, no meio do oceano tem a rocha, a onda vem e cobre a rocha, mas a onda vai morrer na praia e a rocha está lá. O samba é rocha e essas porcarias aí é a onda”. É meio isso, assim, tudo isso também tem um fim de existir, tem um porquê para existir e tem um porquê para acabar também. Vai se diluir, vai dançar.

[...]: É por isso que a gente lembra muito mais as canções do Cartola do que da Lady Zu [nome artístico de Zuleide Santos Silva (1958-), cantora e compositora paulistana de disco music e samba-soul, conhecida como Rainha das Discotecas Brasileiras e Donna Summer Brasileira].

Seu Jorge: Exato.

[VT de Silvana Barbarick – professora de História (SP)]: A questão do negro na sociedade econômica hoje, no Brasil, diferentemente do que a gente possa imaginar, não é uma questão contemporânea. Ela é uma questão que vem historicamente desde o processo de colonização do Brasil. O que acontece é que a nossa história acabou encobrindo esse agente que foi fundamental na formação econômica e cultural do país. Nesse sentido eu queria perguntar para Seu Jorge se a música que ele faz como pressuposto de transformação de uma cultura resistente, ela pode fomentar uma cultura de resistência?

[VT de Eduardo Oliveira (Congresso Afro-Brasileiro): Vindo das origens mais humildes que você veio, conseguiu realmente fazer sucesso. Queria ver como é que se convive com essa experiência e como é que você nos diz para que a juventude se encoraje a seguir caminhos como você seguiu.

Seu Jorge: Bom, a música tem um papel muito bom na sociedade, primeiro porque ela vai estar ali para levar alegrias aos corações.

Paulo Markun: Desculpa interromper. Mas você faz música de resistência? Porque, do que você disse até agora, eu não enxerguei essa visão que a professora tem. Quer dizer, não acho que você pega o violão e diz assim: “agora eu vou fazer uma música de protesto ou de resistência”. Não é isso?

Seu Jorge: Não, não. Os temas vêm, aparecem.

Paulo Markun: Aliás, essa é a pergunta dos temas – desculpe interromper - de..., me perdi aqui, mas eu vou registrar em seguida o telespectador que citou.

Seu Jorge: Os temas vão acontecer, quando puxo um assunto, né? Um dia eu estava com Gabriel Moura e ele falou: “comecei um negócio falando da água, porque eu acho importante, que a água vai dançar, é um fato, vai dançar”. E eu fiz essa primeira aqui: [cantando] O seco deserto está tomando conta do planeta. A água doce o bebível potável está acabando... Aí as pessoas falam assim: “Mas isso é protesto para a água não acabar”. Não é bem assim, mas ela também é utilizada como um instrumento, ela pode ser utilizada como instrumento de um manifesto, de uma sugestão ou de uma união. Quando o Marcelo Yuka [(1965-), músico e compositor brasileiro, foi um dos fundadores da banda O Rappa] soltou que a carne mais barata do mercado é a carne negra, eu achava aquilo muito forte.

Pedro Alexandre Sanches: Falando nesse termo, “a carne mais barata do mercado é a carne negra”, essa frase que você canta não afastou você do mercado, o mercado não resiste a esse tipo de frase? E aí, nesse sentido, é música de protesto, você está colocando uma realidade dura e que pouca gente quer ouvir.

Seu Jorge: Mas essa música não foi para o rádio, não foi executada, ela não sofreu nenhum tipo de rejeição. Ela não sofreu nenhum tipo de rejeição. E eu também não sofri nenhum tipo de rejeição com essa canção, sempre as pessoas, muito pelo contrário, pediam, porque sentiam necessidade de cantar isso mais alto, mais alto para que essas coisas fossem entendidas, que vai de graça para o presídio, vai debaixo do plástico, que vai de graça para o subemprego, no hospital psiquiátrico. São problemas que nós estamos vivendo, aquilo soltou no coração do Yuka, e aí eu pude botar a minha voz em cima e explanar e outras pessoas concordaram, eu nunca sofri isso. Eu procuro fazer música que fala de amor, de paz, de Deus, dessas coisas.

Luciano Ramos: No próprio Cidade de Deus, na trilha sonora da Cidade de Deus tem um samba que você canta composto junto com Antônio Pinto, que é o filho do Ziraldo, que musicou o filme, e que não é de protesto, mas é de resistência no sentido que fala inclusive da formação do povo, não é isso?

Seu Jorge: [começa a declamar um trecho da música Convite para a vida] “Sou morador da favela, também sou filho de Deus, não sou de chorar mazelas, mas meu amor se perdeu assim, dançou. Sou operário da vida, da vida que Deus me deu, mas se eu chego atrasado, alguém o meu já comeu”. O João, o José, o Mané, todo mundo que é chamado de Pelé, Maria, que é nome de mulher, é o povo, é o povo brasileiro que sai da favela e que precisa de um argumento de defesa. O Noca da Portela criou essa linguagem, esse argumento de defesa com “eu sou favela”, a favela nunca foi reduto de marginal [o compositor faz referência à letra de "Eu sou favela", samba de Sergio Mosca e Noca da Portela que gravou no disco Cru].

Luciano Ramos: Você é autor e é músico, como que você vê a música atual no cinema? Como você sente a música para cinema?

Seu Jorge: A gente é influenciado muito pelo que vê nos Estados Unidos, que vem no cinema americano, é tudo meio balizado por lá. Acho que, no Brasil, a gente não tem muita oportunidade de fazer cinema assim o tempo todo, então a gente é meio verde ainda na música para o cinema. Algumas exceções, obviamente, se pegar a Ópera do Malandro que tem o Chico Buarque, lá, pegar filmes que o Caetano participou, dirigindo música, tem um pouco de cuidado nesse sentido. Mas todo cuidado com o cinema aqui é dado a mais para o filme, a música é um elemento que ela vai entrando mais [lentamente], sabe, é difícil o processo de criação junto com o roteiro, junto com o diretor da coisa da música, sabe? É a última coisa em que se pensa no cinema. Eu acho que é uma coisa que tem ainda muito a se desenvolver.

José Vicente: Seu Jorge, deixa eu fazer uma pergunta que eu acho que é bastante sintomática com tudo isso que você está dizendo. Nós realizamos aqui em São Paulo anualmente, pelo quarto ano consecutivo, o troféu Raça Negra, no dia 20 de novembro. Então a Afrobrás faz a entrega do troféu Raça Negra para personalidades, negras ou não, que tenham contribuído com a visibilidade, com a inclusão do negro. E tem dois dados interessantes. O nosso país é um país que precisa e tem carência de heróis e a comunidade negra da mesma maneira é uma comunidade que tem uma carência extrema de heróis. Os nossos jovens têm essa necessidade de heróis. E aí, nós, nesse troféu, exatamente neste ano, nós temos 10 mil internautas negros votando nos seus artistas preferidos, aliás, como você já sabe, você está ganhando estourado na personalidade do ano e, nesse mesmo dia, esse ano nós vamos ter 100 artistas negros na Sala São Paulo, para juntos com os demais negros, celebrar. A pergunta minha é a seguinte: como é que se sente um artista negro vendo essa nova realidade, negros reconhecendo o valor do negro? E o artista negro? Só ser artista basta ou ele tem um compromisso, tem um dever maior perante essas temáticas sociais do negro?

Seu Jorge: Vou começar pela última. Só ser artista não basta, não, não basta, não, porque eu tenho 35 anos de idade e percebo que muito pouco eu posso fazer, assim, a não ser música, vou utilizar a minha cabeça. Mas eu pretendo educar meus filhos para que tenham, assim, uma tomada... como política melhor, para que... Eu tenho essa esperança de que a minha geração vai preparar, eu preciso preparar, em particular, uma geração de negros, eu que tenho a oportunidade de utilizar do seu poder, do seu sucesso, das coisas que adquiriu durante a carreira e poder educar essa nova geração de negros, de crianças, de filhos, sobrinhos, de tudo isso, para tentar diminuir... na busca de diminuir a delinqüência, a falta de preparo, a saúde, especialidades, tudo isso. Eu acho só tocar e cantar... essa batucada a gente já faz há mil e mil anos.

José Vicente: Mas você acredita que é um fato relevante termos artistas e personalidades negras reunidas e termos negros homenageando essas personalidades. É um fato novo?

Seu Jorge: Acho que cada vez mais existe uma possibilidade de você ser mais autoral, de ser mais independente e tudo. Acho que o artista negro não teve muito outra saída a não ser buscar a sua autoria, a sua independência e se destacar por isso exatamente, por essa luta, por essa entrega, por essa batalha. E isso tem me acontecido por batalha, por luta. Você pega o Lázaro Ramos [(1978-), ator baiano que faz sucesso no cinema e na televisão, em particular na Rede Globo], é um orgulho a gente ver ele como um ator negro brasileiro; você vê o Douglas Silva [(1989-), ator brasileiro que ficou famoso ao interpretar a infância do bandido Dadinho no filme Cidade de Deus, em 2002], aí você pega o Luiz Melodia [nome artístico de Luiz Carlos dos Santos (1951-), cantor e compositor carioca de música popular brasileira], que é um grande nome do nosso acervo, da nossa cultura, entrando no cinema e fazendo maravilhosamente bem. Essa superação é constante. A gente costuma dizer no candomblé que a gente vem aqui para vencer demanda, então é meio isso, assim, a história do negro no Brasil, na arte e tudo. Mas eu acredito que, sobretudo, essa tem que ser desenvolvida por todas as áreas, essa superação deve existir. A gente deveria criar alguns instrumentos para que a gente possa melhorar mais a qualidade da nossa especialização e o encontro é fundamental. Eu acho que esse encontro, nesse dia, vai ser bom. Eu tenho certeza de que todos os negões vão estar lá, olhando um para a cara do outro:  “Pô, manero, uma festa só para nós!”

Paulo Markun: Eu queria pedir em vez de uma última pergunta, uma canção.

Seu Jorge: Eu posso fazer uma homenagem aqui a Leci Brandão [(1944-), cantora e compositora carioca, é umas das mais importantes intérpretes de samba da música popular brasileira]? Então eu vou cantar uma música dela, chamada Zé do Caroço.

Paulo Markun: Maravilha. Só informo que estaremos aqui na próxima segunda-feira às 10h30 da noite. Obrigado, Seu Jorge.

[Seu Jorge começa a cantar e a tocar violão] 

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