Memória Roda Viva

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Guilherme Fontes

13/3/2000

Ator e cienasta discute política cultural para o cinema brasileiro e ainda fala da polêmica que envolve seu filme Chatô, o rei do Brasil .

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[Programa ao vivo]

Paulo Markun: Boa noite!  Ele é o autor de um dos mais ambiciosos projetos do cinema nacional.  Um filme, que mesmo antes de ser concluído, coloca em discussão a política cultural para o cinema brasileiro. O Roda Viva entrevista esta noite o ator, diretor e produtor de cinema Guilherme Fontes, que está finalizando a filmagem de Chatô, o rei do Brasil. O filme começou a ser rodado no início do ano passado. Quatro meses depois, com 80% do roteiro filmado, a produção parou por falta de dinheiro. O filme foi orçado em 12 milhões de reais. Guilherme Fontes arrecadou mais de oito milhões junto a grandes empresas, que entraram como patrocinadoras do projeto com base na Lei do Audiovisual. O prazo para entrega terminava em dezembro de 1999.  Para entrevistar o cineasta Guilherme Fontes, nós convidamos os jornalistas: Jotabê Medeiros, do Caderno 2 do Estado de S. Paulo; Sérgio D’Ávila, editor da Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo; Michel Laub, editor de cinema da revista Bravo; Daniel Piza, editor de cultura da Gazeta Mercantil; Ivan Cláudio, sub-editor da revista Isto É; e Miguel Jorge, vice-presidente de assuntos corporativos da Volkswagen do Brasil. Boa noite, Guilherme Fontes. Vamos começar do princípio.  O que aconteceu com Chatô?  Aonde o carro empacou?

Guilherme Fontes: Boa noite, Markun. Olha, na realidade o carro não empacou. Houve um erro de percurso, até pelas regras do jogo. Quer dizer, você quando aprova um projeto, você tem um tempo para captar na rua. Você ganha um certificado, você vai até o mercado e procura esses recursos.  Eu consegui alcançar a meta de 80% desses recursos. Quer dizer, acima da média de quase a totalidade dos projetos.  Aí, quando chegou nesse momento eu parei.  Quer dizer, os recursos tinham acabado. Foi aí que a mídia chegou em cima de mim, curiosa sobre os assuntos, e aí eu não consegui controlar essa imprensa. Conseqüentemente, acabou atrapalhando na conclusão dessa captação. Mas o filme está lindo! Falta pouco.

Paulo Markun: Pois é, falta pouco, agora o Ministério...

Guilherme Fontes: É muito importante separar e entender esse orçamento, o número mágico que a gente ouve já faz quatro ou cinco anos. Quer dizer, o projeto audiovisual Chatô, o rei do Brasil não compreende somente um [filme de] longa metragem.  Quer dizer, ele compreende sete capítulos de documentário, uma campanha nacional na TV para vendas de fitas, mini-série de cinco capítulos, longa metragem propriamente dito, mais dois especiais - um de trilha sonora e outro de tecnologia.  Quer dizer, o filme, propriamente dito, consumiu $6,5 milhões desses recursos.  A diferença ficou para os outros produtos.

Paulo Markun: Certo, só para esclarecer, a última informação que se teve, justamente através da própria imprensa, é que o Ministério da Cultura considerou encerrado o prazo de captação dos recursos, encerrado o prazo de entrega do filme, se eu estiver errado, você me corrija. E, digamos assim, recomendou, manifesta - isso deve estar escrito em algum documento - a disposição de colocar uma outra produtora para finalizar o filme.  No entanto, você está dizendo que vai finalizar o filme. Como se conciliam essas coisas absolutamente inconciliáveis?

Guilherme Fontes: Na realidade, está havendo uma certa incompreensão à respeito dos problemas objetivos que o filme ou o projeto atravessaram.  Os prazos de um filme ou de um projeto audiovisual, quando apresentados ao Ministério para receber deferimento e aprovação, eles prevêem um cronograma de execução atrelado com um cronograma de desembolso. Esse cronograma de desembolso está atrelado ao programa de captação. Na medida em que todos os projetos, não vamos ser radicais, 98% dos projetos audiovisuais têm esse cronograma de execução e captação alterado... Quer dizer, você não tem certeza do dia exato que o projeto vai receber os incentivos.  Portanto, a maioria dos projetos tem esses prazos acomodados.  A própria portaria que prevê, onde o Ministério está se baseando hoje em toda sua alegação, ele também prevê o caso fortuito.  Quer dizer, casos de imprevistos, onde essa acomodação se faz - no caso do Chatô, mais do que necessário. Você há de convir que montar um filme épico desse tamanho não é uma coisa que a gente faz num ano ou em três anos.  Quer dizer, a história já provou que são muitos anos para se montar um filme desse tamanho.  Às vezes um filme muito pequeno leva muito mais tempo.

Paulo Markun: Agora, deixa ver se eu entendi.  Acho que você não respondeu à minha pergunta. Ministério diz o seguinte: senhor Guilherme Fontes, primeiro o senhor não pode pegar mais dinheiro de acordo com a lei.  Isso está decidido, é o Ministério quem decide, não é você, certo? Você pode conseguir recursos de qualquer empresa, qualquer financiador, desde que não utilize os recursos da lei. Porque os recursos da lei são determinados pelo Ministério, certo? Essa é a primeira coisa. Segunda coisa que o Ministério diz: você não pode finalizar o filme, porque foi feito com o dinheiro, entre aspas do Ministério, e nós vamos indicar uma produtora. E você não me respondeu como é que fica essa situação. Quer dizer, você vai aceitar isso?

Guilherme Fontes: Essa situação não procede. Ela é prevista, mas ela não procede.  Primeiro, eu sou o maior investidor nesse filme. Eu sou o maior investidor privado nesse filme. Segundo, essa portaria nasceu, a portaria que define os prazos nasceu depois do filme. Quer dizer, se eu soubesse que as regras do jogo eram essas, eu não teria entrado num jogo tão alto.  Segundo, como eu falei, a portaria que prevê esse prazo, ela também prevê que esse prazo pode ser entendido. Então, essa rigidez para cima do projeto Chatô é algo incompreensível, que eu também estou tentando entender junto com vocês.

Sérgio D’ávilla: Guilherme, [vou] começar com uma provocação. O seu filme é um caso de polícia?

Guilherme Fontes: Os filmes poderiam ser um caso de polícia.  Aliás, eles poderiam dar trilhas incríveis, mas é obvio que o meu filme não é um caso de polícia.  Aliás, os produtores brasileiros não são caso de polícia. Essa relação que a Folha coloca... maldosamente, porque o ministro, na realidade, não diz isso. O ministro citou que, se comprovados os possíveis casos de irregularidade ou uma má versação de recurso, e aí depois de um processo julgado, aí sim, isso vira caso de polícia. A manchete é um pouco exagerada.

Sérgio D’ávilla: Ele colocou na condicional.  Eu estou perguntando já...

Guilherme Fontes: Não. O meu filme é um caso de bilheteria, se Deus quiser.

Jotabê Medeiros: Guilherme, poderia ser um caso de incompetência administrativa? Porque o Coppola [Francis Ford Coppola, cineasta estadunidense, dirigiu O poderoso chefão] hoje diz, na Globo, que esse filme - ele [Coppola] não tem nada a ver com esse filme - mas, há um tempo atrás, ele esteve aqui no Brasil, e você gastou, segundo a imprensa na época, 300 mil dólares com a vinda dele e tudo.

Guilherme Fontes: Olha só. É muito importante a gente entender hoje o seguinte: absolutamente tudo que a imprensa disse de maio até aqui, eu não vou generalizar a imprensa, que seria muito radical, mas, [o que] alguns jornalistas disseram não condiz com a verdade em nenhum momento.

Jotabê Medeiros: Você gastou 300 mil dólares pela vinda do Coppola?

Guilherme Fontes: Não. Absolutamente.

Jotabê Medeiros: Qual o papel refletivo do Coppola nesse filme?

Guilherme Fontes: Coppola teve um papel fundamental na minha vida. Primeiro, eu estava tratando do "poderoso chefão" brasileiro da comunicação.  Então, seria genial ter a colaboração da Zoetrope [American Zoetrope, estúdio de Coppola] dentro do projeto. No final de 1997, se eu não me engano, eu já estava com interesse de montar uma finalizadora no Brasil, e aí assisti uma palestra do vice-presidente da tecnologia deles, onde o Coppola aparecia e citava o cinema eletrônico com uma nova regra de mercado. Eu fiquei fascinado com aquela coincidência e com aquela minha intenção, e aí eu fui até a American Zoetrope, conversamos sobre o assunto, a participação dele no filme.  Ele veio ao Brasil, nos conhecemos melhor.  O meu negócio com o Coppola 100% era uma finalizadora.  No filme, ele botou a Zoetrope, alguns dos seus principais roteiristas, para trabalhar o roteiro comigo, é só isso. Fez uma leitura no Brasil no tablado com todos os atores e participou do coração do filme. O momento mais importante que é a feitura do roteiro. Essa é a participação dele.

Michel Laub: Voltando àquela questão da imprensa. Você disse para o Globo há pouco: não agüento mais essa conspiração.  Então, eu pergunto: há uma conspiração contra você?  Contra o cinema nacional? Que fim teria essa conspiração?

Sergio D’ávilla: Eu quero complementar a pergunta. Você dá o entender que há uma orquestração da imprensa contra Chatô, e que essa orquestração teria um condutor, alguém interessado em prejudicar a feitura e o complemento do Chatô.  Eu te pergunto: você acha que quem está mexendo os pauzinhos, ou está por trás é o Luiz Carlos Barreto [produtor brasileiro de filmes premiados como O que é isso, companheiro?, O quatrilho entre outros]?  O Barretão?

Guilherme Fontes: Olha eu...o Barreto tem uma história muito curiosa com esse filme.  Quer dizer, ele estava disputando a compra dos direitos na época... quando o Fernando [Fernando Morais, autor do livre Chatô, o rei do Brasil, que inspira o fime] lançou o livro, e aí eu comprei o roteiro e ele nunca mais se perdoou ou me perdoou por causa disso.  Desde então ele vem nos jornais ou em toda a mídia me difamando, junto à mídia, e junto aos patrocinadores, e junto a minha classe causando um constrangimento inquietante.

Miguel Jorge: Guilherme, deixa eu perguntar uma coisa a você. Na verdade, a razão por você estar aqui seria esse suposto mau uso do dinheiro, o que teria levado a não conclusão do filme.  Mas para você verificar como esse dinheiro é aplicado, você tinha a CVM [Comissão de Valores Mobiliários]. A CVM tem investigado, tem trabalhado, tem feito relatórios?  Como está essa situação?

Guilherme Fontes: Exatamente. O Ministério, em maio, quando o filme parou pela primeira vez, ele imediatamente... a mídia se revelou, e a CVM veio à minha casa, à minha casa não, à minha vida, e fui até a primeira pessoa a dizer que as minhas contas estavam absolutamente abertas para os órgãos que seriam os fiscalizadores, que seria a CVM e o Ministério. A CVM ficou de maio a outubro fiscalizando as minhas contas e me deu uma certidão negativa. Foi a primeira certidão negativa que eu tive da CVM.  Depois...

Paulo Markun: Só para esclarecer, porque às vezes a palavra pode pecar. Certidão negativa quer dizer: deu um documento dizendo que estava tudo bem, né?

Guilherme Fontes: Eu trouxe os documentos aqui, para a gente poder...

Miguel Jorge: Você disse que em outubro...

Guilherme Fontes: Outubro foi a primeira certidão negativa.

Miguel Jorge: Você recebeu uma comprovação de certidão negativa que não há erro de irregularidade?

Guilherme Fontes: Que não há irregularidade. E aí, depois, com tempo, eu achei que aquilo me valia, que aquilo era suficiente para o Ministério se tranqüilizar e [que] tocássemos adiante o projeto. Não foi suficiente, o prazo foi estourando, a imprensa foi acirrando os ânimos, as coisas foram piorando, o que me levou novamente a pedir uma nova certidão da CVM.  Aí ela me deu uma certidão que diz mais ou menos assim: "Certifico, a pedido, que nenhum ato ou decisão foi expedida por esta comissão que impeça as atividades da Guilherme Fontes Filmes, inclusive a captação de recurso. E ressaltamos ainda que nada impede que Guilherme Fontes venha a distribuir novos certificados de investimento ao audiovisual". Se uma certidão da Comissão de Valores Mobiliários não vale para encerrar esse assunto, aí eu não sei em que país eu estou vivendo.  Isso é que a coisa mais, digamos, mais complexa do momento.

Paulo Markun: Agora, só para esclarecer. Você não completou a questão da conspiração da imprensa.  Você acha que existe?

Guilherme Fontes: Na verdade, o que é que acontece?  Nós somos... A minha classe é muito sofrida há muitos anos. Quer dizer, a gente não tem fonte de recurso para trabalhar, são muito escassos, é muito difícil.  A maioria desses produtores vive uma espécie de economia informal, para não dizer mal informada. A guerra na captação de recursos é muito voraz, muito difícil. Há muito sofrimento nisso aí. Evidentemente, existem dezenas ou centenas de produtores que não atingiram seus objetivos, que não atingiram as suas metas, e não é de hoje, não é dessa lei, e provavelmente não seria da lei anterior, a Lei Sarney. Quer dizer, são anos e anos de sofrimento para se montar um negócio de cinema no Brasil.  E essa lei de incentivo atual, ela é absolutamente útil a esse caso. Então, eu acredito que esse movimento conspiratório, ele não venha da minha classe objetivamente. Ele vem de setores mais incomodados com a presença de uma lei tão democrática. Essa lei é muito democrática, essa lei permite que as pessoas possam desenvolver seus trabalhos.

Michel Laub: Que setores seriam esses?

Guilherme Fontes: Talvez os mais, os que conseguem mais recursos, talvez o próprio Luiz Carlos Barreto esteja muito incomodado de eu ter conseguido esses recursos. Quer dizer, isso também para mim é quase irrelevante. O fato dele estar gritando por aí não me incomoda tanto.

Miguel Jorge: Voltando à CVM.  A CVM é o órgão que dá o chamado "novo start" para essas coisas.  Você falou em conspiração da imprensa. Nós, porque investimos um dinheiro bastante razoável no seu filme, como em outros, nós temos a preocupação de acompanhar o diário, e não me lembro de ter visto em lugar nenhum que a CVM deu esse parecer. Nem o de outubro e nem o de março.

Jotabê Medeiros: A CVM emitiu nota dizendo que esse certificado não representa uma certidão negativa.  Inclusive, a nota diz o seguinte: que o processo de apuração das contas não está concluindo. Essa certidão não anula...

Guilherme Fontes: Deixa eu te dizer. Todos nós somos passíveis à investigações, quer dizer, a idéia de sonegação, ela não é boa, nem no dinheiro real, nem dinheiro público. Quando você está usando o dinheiro público, essa averiguação, esse acompanhamento é muito mais rígido. A CVM é um dos órgãos mais importantes da economia nacional, ela acompanha dezenas de processos administrativos dentro da sua própria autarquia.  É uma atividade corriqueira deles essa averiguação.  Eu sempre soube que eu ia ser auditado independente do que a mídia falou. Isso, para mim, não é uma novidade e nem nunca me assustou. Portanto, quando eu pedi à CVM que me desse a primeira certidão negativa foi para que se encerrasse um pouco, e não foi suficiente. A imprensa não achou conveniente, e preferiu dizer o que você está dizendo aí agora - que essa certidão não vale nada.  Assim, como talvez amanhã essa certidão também não valha mais nada.  Quer dizer, todo dia uma nova certidão não valha mais nada.

Jotabê Medeiros: Se a auditoria de abril sair e demonstrar algum tipo de irregularidade, na verdade essa certidão não vale nada mesmo.

Guilherme Fontes: Olha só, erros existem e podem até existir.  Um filme, no caso um projeto de 10 milhões de reais ou 12 milhões de reais, é um projeto muito grande.  Essa prestação de contas que é feita em mim é feita em todos os projetos.  É importante que ela seja feita em todos os projetos, e para mim não tem problema, a de maio, a de junho, a de ontem, isso é o de menos.  O importante é que eu tenho que acabar de fazer esse filme. O dinheiro não foi desviado, os recursos estão absolutamente no filme, e o filme vai surpreender muito mais do que todo esse tema de agora.

Ivan Cláudio: Guilherme, você está falando de todo esse complô da imprensa, mas são os próprios profissionais do seu meio que dizem [que] todo esse envolvimento e essas investigações em torno do Chatô secaram os investimentos.  De repente você, com 33 anos, virou o vilão do cinema nacional. Quer dizer, não é tanto a imprensa que está...  quer dizer, você pega os produtores como Diler Trindade da Xuxa requebra, que diz o seguinte: "Você pode errar com 500 mil, mas você errar com 12 milhões é muito dinheiro".

Guilherme Fontes: Mas não houve erro no Chatô.

Ivan Cláudio: Mas a própria classe que está colocando isso.  Que você...

Guilherme Fontes: A classe não existe. Quando você diz a classe, fica uma coisa absolutamente enorme, isso não é verdade.  São algumas pessoas que estão muito incomodadas com essa lei, que é muito democrática, e estão tratando de criar mecanismo para que ela se impeça.  É a melhor maneira de pegar o primeiro Cristo que está na jogada.

Ivan Cláudio: Mas você não acha que, para um filme de estréia, você encabeçar um projeto de 12 milhões, não foi uma coisa muito ambiciosa?

[Falas sobrepostas]

Paulo Markun: Só um segundinho, deixa eu acrescentar.  Essa pergunta é de Jaci Teodoro, de Vila Velha, perguntando: "Você não acha que a sua ambição ultrapassou a sua capacidade de realização? Mea culpa e algumas gotas de sincera humildade não fazem mal a ninguém".

Guilherme Fontes: Claro com certeza.  Eu posso achar que o filme é grande, que a obra é grande, mas por trás da escolha dessa obra tinha um movimento cívico no meu coração, entendeu?  Eu não estava simplesmente fazendo essa obra porque eu estava a fim de fazer um filme caro ou... eu tinha uma vida muito confortável na TV para me aventurar a coisas que não poderiam ser atingidas. O filme, o projeto, é bom que vocês entendam, eu não cai direto no longa metragem. Antes de fazer um longa metragem, foram dirigidos dezenas de documentários.  Depois dos documentários eu fiz mais cinco capítulos de um seriado e, evidentemente, eu caí num filme grande.  Mas o que me interessa nesse filme não é o tamanho dele e sim o tema.  Eu quero que esse tema seja reconhecido, eu acho que dessa tarefa já consegui bastante.

Michel Laub: Teorias conspiratórias à parte, você põe a questão da competição de alguns produtores do cinema nacional.  E até aproveitando esse pedido da telespectadora que fizesse uma espécie de mea culpa. Aonde é que exatamente houve erro na produção do Chatô?

Guilherme Fontes: Olha, houve erro na medida em que eu comecei o filme sem os recursos 100% integralizados. Quer dizer, quando chegou em dezembro, eu fui ao Ministério e avisei a eles: "olha, eu só tenho 80% do longa metragem dos recursos para que o filme saia".  Mas já estava tão inquieto com as coisas que o Ministério falou: "Começa porque normalmente o dinheiro aparece; e os patrocinadores vão ver que você está fazendo alguma coisa e esses recursos vão aparecer". Não aconteceu isso. Nesse meio tempo, surgiu um mecanismo fundamental, era um desejo de todos os produtores, que era o [programa] Mais Cinema [o programa Mais Cinema trabalha com premiações e empréstimo aos benefeciados. Disponibilizou até R$ 80 milhões por edital e funciona na base do crédito (os diretores e produtores tomam dinheiro emprestado do BNDES)]. Que é o investimento justamente para projetos que chegam a esses níveis de captação, e eles se enquadram no projeto totalmente.  E eu estou aguardando que ele seja publicado.

Sergio D'ávilla: Quanto falta de dinheiro, Guilherme, para concluir o filme Chatô?

Guilherme Fontes: Olha, depois de quatro anos, esse filme está sofrendo um reajuste de 10% de correção. Então, você tem 10% de correção, 10% do que faltou captar. E as dívidas que agora, infelizmente, depois de um ano de massacre elas aconteceram.  Então, hoje o filme acaba com 1,9 milhões de dólares.

Sergio D'ávilla: Faltam 1,9 milhões de dólares?

Guilherme Fontes: Exatamente. Que correspondem hoje a 30% acabar as filmagens, 30% em dívidas, e 30% de finalização.

Paulo Markun: Faltam 1,9 milhões de dólares?

Guilherme Fontes: ...que poderá ser reduzido...

Paulo Markun: Faltam 1,9 milhões de dólares?

Guilherme Fontes: 1,9 milhões de dólares.

Sergio D'ávilla: E você foi atrás dos patrocinadores, atrás desse dinheiro?  Por exemplo, a Volkswagen?

Guilherme Fontes: A Volkswagen foi super compreensiva com a gente, entrou no negócio. A Credicard e Citibank também entraram no negócio.  Mas eu não posso reclamar dos meus patrocinadores, por quê?  Porque eles sofreram junto comigo, e acho que com toda classe, essa dúvida sobre o que realmente estava acontecendo, aí sim eu faço o mea culpa. Quer dizer, talvez eu pudesse encontrar novos meios de comunicação, melhores meios de comunicação para que ficassem claros os números do filme.  Para que esses números não ficassem fruto de equívocos, ou de irresponsabilidade, ou de má administração etc. O mais importante é que fique claro, hoje, que eu deixei uma vida muito confortável para entrar num projeto e chegarmos a 80% dele.

Jotabê Medeiros: Mas voltando à questão da telespectadora.  O fato é que quando você começou esse filme, não parecia ser só uma questão tão cívica para você. Você falava no Anthony Hopkins [ator britânico. Já participou de grande produções de Hollywood como o filme O silêncio dos inocentes], você falava no Dustin Hoffman [ator americano. Ganhador do Oscar pelos filmes Rain man e Kramer vs. Kramer]

Jotabê Medeiros: Isso está no meu...

Guilherme Fontes: Você pode procurar uma entrevista minha. Não tem isso.

Jotabê Medeiros: E você trouxe o Coppola por 300 mil dólares.

Guilherme Fontes: Esse número não existe. Isso é bobagem.

Jotabê Medeiros: Ele veio aqui de graça, pelos seus belos olhos?

Guilherme Fontes: Por incrível que pareça, essa viagem foi de graça.

Paulo Markun: Deixa eu só levantar uma coisa. Se falta 20% do dinheiro, falta um milhão e 900 mil dólares, como foi possível apresentar um material... quem escreveu um parecer para o Ministério da Cultura diz o seguinte: "Material apresentado é uma versão completa do longa metragem com todos os diálogos, trilha sonora, banda de ruídos"... e tal, tal, tal. "O filme pode ser considerado uma versão completa do longa metragem Chatô, o rei do Brasil. Se finalizado em película tem condições de ser exibido em salas e ser lançado comercialmente".

Guilherme Fontes: Eu preciso...  Esse comunicado, ele diz o seguinte, o primeiro parágrafo dele diz o seguinte: que naquele momento eu estava entregando os produtos que eu entendia ser os produtos derivados do projeto Chatô, o rei do Brasil.  Bom, claro que eu entendo ser os produtos derivados do projeto e o Ministério também, porque eles estão previstos desde 1995.  E é importante ressaltar também que esse projeto foi aprovado primeiro na Lei Rouanet.  Somente um ano depois ele foi aprovado na Lei Audiovisual. O projeto da Lei Rouanet, todos os produtos estão descritos, e foram metodicamente cumpridos.  Por que eu pensei nisso? É muito difícil produzir um filme no Brasil. Então, para que eu não perdesse o tempo e o dinheiro sem ter a segurança de que fosse chegar até o final dessa captação... a minha tese é a seguinte: a gente pesquisa no Brasil muito mal, a gente pré-produz um pouquinho melhor, a gente filma bem, pós-produz mal, e lança pior ainda.  Então, é um ciclo que começa baixo e cai no final. Para que isso não acontecesse com o Chatô eu falei assim: eu vou criar sub-produtos durante para criar comercializações, e essas comercializações irem tapando os buracos lá na frente. Então, a primeira fase geraria um documentário, a segunda fase geraria uma campanha nacional, venda de fitas em bancas, a terceira fase a mini-série do filme. Então, do projeto audiovisual do Chatô são mais de sei lá quantas fitas, são quase 10 fitas para se comercializar. Então, a chance de retorno do projeto Chatô é muito maior que um filme comum.

Paulo Markun: Mas você - volta um momentinho - você entregou um material que diz assim: "cópia do material bruto das filmagens do Chatô", que alguém, a pedido do Ministério, concluiu que é uma versão completa do filme Chatô, o rei do Brasil?

Guilherme Fontes: Isso é mais uma prova dos recursos que foram bem publicados, quer dizer... Ele acha que eu gastei todo o dinheiro naquele filme.  Isso não é verdade, eu gastei menos até.  Então, isso é mais uma confirmação.

Paulo Markun: Mas eu estou querendo dizer que, se aquele é o completo, falta mais o quê?

Guilherme Fontes: Quem diz que o filme está pronto ou não sou eu, não o parecerista.  Quer dizer, isso é uma obra autoral.  A gente não pode nunca esquecer disso. Isto, de vez em quando, é esquecido nessa discussão toda.  Então, essa é uma obra autoral, esse filme tem a minha assinatura, têm a minha vida, mais de cinco anos da minha vida.  Então, quem diz que ele acabou sou eu.

Paulo Markun: Enfim, só para a gente não perder aqui, Guilherme. Vamos voltar mais uma vez ao ponto central desse assunto.

Guilherme Fontes: Quanto falta exatamente? Faltam 15 minutos de filme.

Paulo Markun: 15 minutos de filme que exigem esse 1.9 milhões para fazer isso e finalizar o filme??

Guilherme Fontes: Não vamos dividir esses 1,9 milhões por 15 minutos. Foi o que eu disse: 30% para a filmar esse resto, 30% das dívidas, 30% da finalização.

Ivan Cláudio: Guilherme, 15 minutos de filme significam quantas semanas de filmagem?

Guilherme Fontes: Olha, já foram mais. Já foram seis semanas e eu reduzi isso para três semanas e meia.

Ivan Cláudio: Dentro dessa coisa da mea culpa, quer dizer, quando estourou todo esse caso do Chatô membros da sua própria equipe técnica declaram que você gastou muito dinheiro, porque você não sabia fazer o cronograma, que você pagava por horas ociosas, porque você tinha certos caprichos técnicos que eram muito caros.

Guilherme Fontes: Isso faz parte dos mitos cinematográficos, você concorda comigo? Quer dizer, isso é uma coisa que existe na vida cinematográfica, dizer que o diretor...  Eu tenho uma história famosa do Paulo Thiago [diretor brasileiro de filmes como O vestido (2004) Policarpo Quaresma: herói brasileiro (1998) e outros], mandou cortar a árvore que ele não queria mover a câmera.  Então, são mitos que são criados. Meu cronograma de filmagem não estourou, nunca. Eu tinha previsto 18, 19 semanas de filmagem, que foram feitas até o momento 16. Então, está em ordem isso daí. Isso não é verdade.

Paulo Markun: Para a gente não estourar o cronograma do Roda Viva eu vou para o intervalo, certo?  Daqui a pouquinho a gente volta.

Intervalo

Paulo Markun: Estamos de volta com o Roda Viva entrevistando o ator e diretor, Guilherme Fontes do filme, Chatô, O rei do Brasil.  A mais cara e a mais polêmica produção nacional contemporânea. A pergunta veio pela internet, de Rodrigo Moreira, de Belo Horizonte. Ele pergunta o seguinte: "Você não acha que toda essa conspiração em torno do Chatô desviou a atenção do público do assunto principal, que é o próprio filme? Será que esse público, quando o filme ficar pronto, não vai vê-lo como o filme do grande vilão do cinema nacional? Indo ao cinema com outros olhos, com olhos mais críticos, por assim dizer?"

Guilherme Fontes: Eu acho que a crítica do público, ela é sempre a melhor. Quer dizer, hoje, neste momento, eu estou sendo criticado, julgado pela imprensa, sem olharem a minha obra objetivamente.

Paulo Markun: É por que não dá para olhar a obra.

Guilherme Fontes: Claro, mas, portanto, não se poderia criticar agora. Eu acho que isso tudo, quando eu bolei esse projeto que ele também tinha estágios, eu estava preocupado com o lançamento. Quer dizer, criar subprodutos significaria que eu estava aumentando esse público. Hoje o Chatô, se você pensar, 250 mil pessoas leram o livro.  Dessas 250 mil você imagina que cada uma emprestou para [outra], duas pessoas.  Então, só com o livro são 500 mil pessoas.  Essas 500 mil pessoas entraram na mesa de um bar e falaram sobre o Chateaubriand [Assis Chateaubriand]. Então, nós temos hoje um público potencial muito grande. Depois, essa polêmica toda, mais ainda. Ninguém vai ao cinema ou sai de um filme dizendo assim: "não, tinha o dinheiro todo lá dentro". "Ah, mas não valeu o quanto pesou esse filme". Ou seja, a gente sai dizendo gostei ou não gostei.  Perdi meu tempo ou não perdi meu tempo. Então, é essa visão crítica em relação ao filme, quanto mais o público for impiedoso comigo melhor.

Paulo Markun:
Você tem sido colocado sempre ao lado de outro filme e de outra pessoa do cinema, que é a Norma Bengell [atriz, cantora e produtora. É conhecida por fazer o primeiro nu frontal no cinema brasileiro], com o filme Guarani (1996), que a situação é um pouco diferente.  No caso específico do filme dela o filme já foi exibido, e já teve aí a avaliação do público. E na prestação de contas, surgiram notas fiscais que estão sendo contestadas, ao mesmo tempo que a Veja apresenta uma série de reportagens acusando a Norma Bengell de ter comprado um apartamento com um dinheiro muito parecido com aquele que foi para o filme.  Você acha que estar sendo colocado ao lado dessa companhia complica as coisas para você? [A produtora Norma Benguell foi acusada de desviar aproximadamente 15 milhões de reais]

Guilherme Fontes: Eu acho que o sangue quente da imprensa em relação entre esses dois casos é muito equivocado. Quer dizer, eles procuraram...  Eu não sei quais são os problemas da Norma, mas tenho certeza da competência, da lisura dela e toda a sua história.  Quer dizer, a sociedade esquece um pouco quem é Norma Bengel, a imprensa, então, passa por cima de trator. Quer dizer... no caso de prestação de contas é até bom e interessante a gente falar, porque volta à sua pergunta. A CVM é um órgão técnico, então ela faz uma investigação técnica.  Essas prestações de contas que o Ministério está exigindo de mim hoje, ela é uma prestação de contas que você faz quando você encerra o projeto. O que a gente chama de prestação final de contas. Hoje, eu estou vivendo uma prestação parcial. E essa prestação parcial foi entregue em outubro do ano passado. Voltando aí para a história do caso, com a Norma Bengell, a imprensa, propositadamente, me coloca junto com a Norma e nos usa enquanto artistas para chamar atenção de outros problemas, que talvez a imprensa esteja curiosa em reconhecer.

Paulo Markun: Por exemplo?

Guilherme Fontes: Por exemplo, a captação de recursos. É um problema muito grave. Os filmes não conseguirem completar suas captações de recursos.  É um problema grave você sair no dia "A" com um projeto, com uma meta, aí você capta 60% dos recursos sobre um projeto, sobre uma estratégia, sobre uma engenharia. Ai você vai andando com esse 60% e quando chegar em 60% você fala: "Ah, meu Deus eu preciso voltar, o prédio não pode ficar assim, eu preciso mudar o prédio.  Isso está errado, isso destrói um filme." E é isso que tem destruído centenas de projetos.  Estão sendo levado a diminuírem...

Ivan Cláudio: Dessa forma, então, o grande problema é [a Lei] do do Audiovisual?

Guilherme Fontes: Não acho que a grande vilã é [a Lei] do Audiovisual não. Acho a Lei do Audiovisual sensacional.

Daniel Piza: A minha pergunta é por aí. A Carla Camurati [atriz e cineasta. Dirigiu Carlota Joaquina, princesa do Brasil (1995)] e Paulo Betti [ator e produtor], entre outros, declaram que em virtude do formato da lei as pessoas tendem, os produtores de filme tendem a super valorizar os orçamentos. Uma vez que você tenha ali um abatimento fiscal que vai a 100%.  Então, quanto mais alto você jogar, mais você vai estar prometendo ao  patrocinador um abatimento de um valor alto na prestação fiscal dele. A lei de áudio visual, ela não induz a um super faturamento dos orçamentos, no sentido de você obter abatimentos maiores juntos as empresas?

Guilherme Fontes: Não, eu pelo menos, no meu caso eu fiz orçamento...

Daniel Piza: Não induz um gigantismo nas contas?

Guilherme Fontes: Eu, pelo menos, eu fui super "Caxias" [organizado e correto] no meu negócio. Na época, eu nem... para você ter uma idéia, [nem] previa direito essa história de agenciamento intermediação de recurso, para você ter uma noção.

Sergio D’ávilla: O Paulo [Betti] falou também que não se faz cinema nacional, não se faz cinema brasileiro sem nota fria.  Você fez Chatô sem nota fria?

Guilherme Fontes: Claro.

Jotabê Medeiros: Mais tem uma coisa que volta à questão da CVM que é o seguinte: não da CVM, mas o Ministério, você diz que tem uma prestação de contas parcial no Ministério. Essa prestação foi suficiente para que eles tirassem da sua produtora a produção do Bellini e a Esfinge [Baseado no livro de Tony Bellotto. Foi produzido em 2001 pelo diretor Roberto Santucci Filho com roteiro de Alexandre Plosk. A produção ficou para Afrodisia Flores, produtora de Theodoro Fontes, irmão de Guilherme Fontes].  O que há de errado com essa prestação?

Guilherme Fontes: Vamos explicar o caso do Bellini bem rápido, assim para ficar claro. Quer dizer, o Bellini e a Esfinge é uma co-produção da GF filmes.  Ela foi, eu era o proponente dele até maio de 1999, o Theodoro Fontes que é...

Paulo Markun: Desculpe. Vamos explicar o que é o Bellini e a Esfinge?

Guilherme Fontes: É mais um longa metragem da minha produtora.

Paulo Markun: É mais uma longa metragem a partir de um...

Guilherme Fontes: É que a tese da minha empresa é que eu tinha que ter três longas metragem de tamanhos diferentes.  Um grande, um médio e um pequeno. O Bellini é o médio.  Hoje ele... foi um orçamento de 2,5 milhões, foi redimensionado para menos, antes de começar. Aí sim o orçamento pode ser redimensionado para menos. Então, Theodoro era o meu produtor executivo do projeto, fez com a maior competência.  Estava do meu lado desde 1996.  Esse projeto é de liderança dele, ele que idealizou tudo, e quando chegou em maio a gente achou por bem que era hora dele tocar o projeto, aí ele saiu e partiu para o Bellini. A mudança de proponente, agora, no final de ano, foi desejo do próprio Theodoro que, na época, a gente até... Eu discordava. O Ministério me pediu que fizesse isso, então acabei solicitando ao Ministério.  Não foi uma coisa que eu queria não.

Miguel Jorge: Só para colocar uma questão. Eu até preciso fazer uma regressão e me reportar à pergunta do Daniel [Piza]. Essa questão do super faturamento, e aí não é bem uma pergunta. As empresas, pelo menos no caso da Volkswagen, no caso desse filme, Citibank e Petrobras, elas se baseiam não em um orçamento apresentado pelo produtor, mas no orçamento aprovado pelo Ministério. Quer dizer, quem aprova o orçamento é o Ministério. A partir daí a empresa tem um aval do Ministério, ela não vai checar. Até porque empresas que produzem petróleo, fazem automóvel etc., elas não tem competência para avaliar se um projeto de um livro, de um filme, de uma peça de teatro, está correto. Portanto, a partir do momento em que é aprovada pelo Ministério da Cultura e tem uma planilha detalhada, bastante detalhada... Considera-se citar a assinatura do ministro e publicada no Diário Oficial, [considera-se] que esse projeto foi visto e aprovado pelo Ministério da Cultura. Portanto, se houve um super faturamento, a culpa deve ser creditada ao Ministério da Cultura que aprovou o projeto.

Paulo Markun: O Ministério tem o poder de avaliar...

[Falas simultâneas]

Guilherme Fontes: Se o item "a" ou "b" estiver acima do mercado, ele na hora tem condição de detectar e...

[Falas simultâneas]

Daniel Piza: [Carla Camuratti disse que há] uma tendência de você subir o valor, o orçamento do filme, para viabilizá-lo melhor.  Ela [Carla Camurati] disse isso textualmente no La serva padrona (1998).  Então, ela quis demonstrar que é possível fazer bons filmes não chutando tanto para cima.

Miguel Jorge: Aliás, um patrocínio barato que nós fizemos. Nós que patrocinamos La serva padrona.  Eu não sei se o La serva padrona, os 350 mil que nós pusemos La serva padrona, eles são razoáveis. Se o Ministério da Cultura disser que é 350 mil a Volkswagen acredita no Ministério da Cultura e repassa os 350 mil. Se ela diz que é 12 milhões o projeto completo aqui do Chatô, com seus produtos etc, são 12 milhões, não vamos discutir isso.  Isso tem que ser uma discussão prévia feita no Ministério da Cultura.

Daniel Piza: Que seriam 12 milhões, que você pode abater 100%.

[Falas simultâneas]

Miguel Jorge: Espere um pouco gente.  Desculpe, Guilherme.  Essa discussão toda tem que ser centrada na lei de incentivo no Ministério da Cultura. Se ele está aprovando isso, está aprovando com o faturamento super faturado, nós temos que fazer investigação.

Paulo Markun: Para ficarmos no mesmo assunto. Fernando Zoravita, da Associação de Apoio ao Cinema e Vídeo de Fortaleza, Ceará, faz uma pergunta, que eu acho que é uma observação, que coloca em discussão esse mesmo tempo de outra maneira.  Ele diz o seguinte: "A política do audiovisual no Brasil é que está errada", segundo diz o telespectador, "10 milhões de reais daria para produzir cem curtas sobre a nossa cultura tão descaracterizada. A família Barreto, por exemplo", continua ele, "come grande parte do bolo dos recursos de incentivo audiovisual no Brasil e nos estados, e se acham os únicos produtores capazes.  O cinema brasileiro tem que deixar nascer novos valores, tem que pulverizar os recursos".  Quer dizer, a questão não seria isso?  De ter mais recursos pulverizados? Ou 12 milhões é um dinheiro necessário?

Guilherme Fontes: Fernando... É muito importante que ele saiba que hoje os recursos que o governo disponibiliza, recursos da ordem de 200 milhões, a nossa classe é que não conseguiu chegar a esses 200 milhões. E houve uma tendência de queda avassaladora por conta das privatizações, por conta da saída da Telebrás do mercado. Eu acho que num cinema, numa cinematografia nacional, é fundamental que haja filmes como o Chatô, como o Mauá [Mauá: o imperador e o rei (1999)], o Xangô [O Xangô de Baker Street (2001)], outros filmes grandes. E é fundamental que atividade cinematográfica de base, que são esses curtas metragens, existam e continuam existir. Tem dinheiro para todo mundo, é só uma questão de...

Daniel Piza: De foco da política oficial.

Guilherme Fontes: É uma questão de infelizmente, procura... porque a Lei do Rouanet obriga o produtor a sair pela rua a procurando empresas que tem recursos para...

Ivan Cláudio: Justamente o que se diz é que não tem dinheiro para todo mundo.  Caiu assustadoramente, e atribui-se aos escândalos do Guarani e do Chatô.

Guilherme Fontes: Isso... O Chatô não existe escândalo.  Existe o seguinte:  acabou o recurso.

[...]: É claro que existe.  Existe toda uma especulação em torno...

Guilherme Fontes: Especulação da mídia, totalmente equivocadas, cheia de erros, cheia de imprecisões, cheia de dados errados. Então, não existe escândalo no meu filme. O filme está indo muito bem, pelo menos nos meus números que estou controlando, está indo muito bem.

Sérgio D’ávilla: Guilherme, queria voltar o caso Bellini e a Esfinge, te perguntando de boa fé.  Estou chegando agora no assunto e vamos dizer que eu sou o telespectador e estou chegando no assunto.  Tem um filme da sua produtora, chama-se Bellini e a Esfinge, que vai ser produzido por você, pela sua produtora. Meio na calada da noite, em março, o Ministério publica no Diário Oficial que o seu filme saiu da sua produtora [e foi] para a empresa do seu irmão, chama-se Afrodise Flores.  Eu entrei no site na época, no dia que saiu no Diário Oficial, entrei no site da Afrodise Flores, é uma floricultura, ou era na época. O site, vocês já tiraram do ar.  Lá tinha arranjos florais de quinze reais ou noventa reais, era o que tinha no site da empresa do Theodoro.  Não é um pouco estranho tudo isso? Esclarece.

Guilherme Fontes: Eu não sei exatamente quando ele fundou a empresa, mas acho que faz mais de quatro anos essa história.  Está lá, a razão social de produções artísticas e cinematográficas etc. Ele é produtor de cinema, está me acompanhando há quase quatro anos nessa história.  Tem total competência para levar esse projeto.  É o primeiro filme dele, é um grande projeto, não há nenhum problema nessa história. A troca de proponente foi o Ministério, tomado por essa comoção da imprensa, achou por bem transferir.  E eu, com outros problemas no momento, achei também que o Theodoro tinha toda competência para tocar o projeto.  É uma questão muito mais administrativa do que de ideologia.

Sérgio D’ávilla: Mas explica só para eu dormir tranqüilo.  Da onde vem à floricultura?  Por que a floricultura? Por que as flores no meio dessa história...

Guilherme Fontes: Porque eles promovem eventos também.  É uma produtora que faz eventos, vende flores, e faz filmes.

[Todos falam juntos]

Jotabê Medeiros: O Ministério julgou talvez que o Theodoro tenha condição de captar o dinheiro necessário para o Bellini e a Esfinge.

Guilherme Fontes: Já tem o dinheiro!

Jotabê Medeiros: Você acha que você está capacitado, neste momento, para captar 1,9 milhões que falta para concluir?

Guilherme Fontes: Eu, quando comecei o Chatô, achava que não estava capacitado para captar 12 milhões, e cheguei aqui. Então, eu acho que estou capacitado para concluir a captação. E existem hoje regras do mercado que me permitem, não só continuar captando recurso pela lei de incentivo, como utilizar os recursos do cinema, onde o produtor é responsável por esse dinheiro.  Quer dizer, não deixa de ser um dinheiro perdido, e passa a ser um dinheiro sobre a responsabilidade de retorno efetivo. Então, essa regra foi inventada para casos como esse.

Jotabê Medeiros: Existe uma frase hoje atribuída ao senador Antonio Carlos Magalhães que disse, segundo... - foi procurado por você - e teria dito o seguinte: "Porque que você não larga essa história de querer ser empresário e volta a beijar mulher bonita na TV?" O fato é o seguinte: isso não te ocorreu nesse momento que... por que você não repassa isso para algum outro produtor e conclui o filme? Você, afinal de contas, é uma obra autoral, você pode concluir sem ser o produtor?

Guilherme Fontes: Eu já beijei muitas mulheres bonitas na TV, não preciso beijar mais mulheres bonitas na TV, isso para mim já não é mais...

Jotabê Medeiros: Mas ele te deu esse conselho no final das contas?

Guilherme Fontes: A mim, não.

Michel Laub: Queria só voltar ao assunto da imprensa, que é menos agradável, provavelmente, do que as mulheres bonitas. Você fala...

Paulo Markun: Depende, para quem gosta...

[Falas simultâneas]

Guilherme Fontes: Eu até estou com saudades, mas eu estou amando agora, e não tem problema nenhum.

Michel Laub: Eu não tenho procuração específica para defender a Veja, nem nada disso. Mas você põe a questão da Norma Bengell como se fosse uma afronta à grandeza dela, à importância dela para o cinema nacional. Eu acredito que a revista em nenhum momento tenha sugerido que a grandeza de Norma Bengel não continue a mesma em relação ao trabalho artístico dela.  Queria saber se você não acha que a capitação de recurso, por envolver dinheiro público por meio da renúncia fiscal, não deve ser um assunto da imprensa, independente de envolver Norma Bengell ou a você? Não deve ser assunto da imprensa independente de envolver pessoas da grandeza da Norma Bengell ou a sua?

Guilherme Fontes: No mundo moderno, dinheiro é dinheiro.  Dinheiro público, dinheiro privado, para mim é dinheiro.  Se eu sou sonegador de dinheiro público, eu sou sonegador. Então, para mim é dinheiro, trato tão sério dinheiro público quanto eu trato o dinheiro real. Então, eu acredito que os produtores sérios o suficiente para entender que dinheiro é dinheiro... Não pode ser mal usado.

Michel Laub: Mas eu não estou dizendo que você não...

Guilherme Fontes: Eu estou dizendo que esse conceito de dinheiro público, fica um pavor sobre o dinheiro. Dinheiro é dinheiro.

Michel Laub: Ao invés de ser destinado para um fim social...

Guilherme Fontes: Mas o fim social, o cinema é um fim social muito importante.

Michel Laub: Eu acho que sim, eu até não discordo de você, mas quando esse recurso é destinado especificamente ao cinema.

Guilherme Fontes: Eu tenho certeza que a Norma destinou o dinheiro dela para o filme dela.

Ivan Cláudio: A respeito do social, quer dizer, você não acha que toda essa polêmica em torno do seu filme e da Norma Bengell pode alimentar essa área [idéia alimentada por uma área] de que o Estado não deve incentivar a cultura?  Quer dizer, o que está ocorrendo, na verdade, é isso.  Existe toda... Se prova nesses dois casos que investir em cultura pode dar em erros ou...

Guilherme Fontes: Tinha uma coisa que eu ficava muito preocupado quando eu comecei esse projeto que era o seguinte: a lei acaba em 2003 ou 2002; então seriam destinados quase um bilhão de reais e quanto isso daria de retorno?  Meu Deus do céu, nós estamos ainda engatinhando, ou reengatinhando nessa indústria de cinema. Quer dizer, eu sei quanto vale hoje manter o cinema nacional e a língua portuguesa nas telas, você está entendendo?  Hoje, o mundo está muito globalizante, muito voraz nessa invasão.  Se nós não conseguirmos manter o cinema brasileiro, ou o cinema nacional, ou o cinema puro e simples depois desse período, aí sim a coisa vai ser grave.  Mas o Estado tem que estar no incentivo.

Ivan Cláudio: Uma produtora como a Renata Magalhães, por exemplo, a mulher de Cacá Diegues, produziu o Orfeu (1999), que é um filme muito bem sucedido. Ela diz, por exemplo, que a captação de recursos, todos os investidores que ela vai procurar recursos, eles dizem: estamos investindo em sites, Internet, não estamos investidos em cinema.

Guilherme Fontes: Ela não pensou nisso no projeto dela.  Eu pensei no meu. O meu tem desdobramentos de Internet.

Daniel Piza: Guilherme, dentro dessa idéia da necessidade do incentivo estatal da cultura. Como você vê o projeto que o Luiz Carlos Barreto voltou a colocar aí na arena, de criar um órgão específico, autônomo, dentro do Ministério da Cultura para o cinema.

Guilherme Fontes: Eu acho que o Ministério da Cultura conseguiu fazer mais de 115 filmes ao longo desses quatro anos.  Era zero e foi a 115.  A gente, o próprio Luiz Carlos, a família dele conseguiu indicações para o Oscar [O que é isso, companheiro?, dirigido por Bruno Barreto, filho de Luiz Carlos Barreto, foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro], teve Central do Brasil [indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro e melhor atriz] etc. Não acredito que seja necessário a criação de agências hoje. Eu acho que, primeiro, a gente tem que se preocupar com a base industrial do cinema. Temos finalizadoras no Brasil? Podemos finalizar os filmes e documentários no Brasil ou não? Temos empresas de locação de figurino? Temos empresas de fabricação de cenário?  Essa base industrial que precisa ser montada e a lei de incentivo permite isso. Ela ainda não está sendo aplicada.  O meu projeto com o Coppola, fundamentalmente, era centrado na base industrial, porque eu sabia que os filmes, eles podem acabar na noite de estréia.  Sucesso é a mágica da arte, você nunca sabe.

Daniel Piza: E essa agência não teria condições de fazer essa indústria?

Guilherme Fontes: Não, porque a gente não tem a base industrial.  Depois que essa base industrial estiver montada, aí sim a gente pode pensar em um órgão regulador.  Hoje eu acho que o Ministério, junto com a CVM, se estender essa rigidez que cumpriu junto ao meu projeto nos demais projetos do mercado, talvez todo mundo se organize melhor e os orçamentos passam a ser mais confiáveis e transparentes.

Daniel Piza: A lei é suficiente para criar essa base industrial?

Guilherme Fontes: A lei permite criar essa base.

Miguel Jorge: Nós, da Volkswagen, já patrocinamos ou estamos patrocinando nove filmes; entre eles o Orfeu, que você citou, nós somos um dos patrocinadores.  O La serva padrona que foi citado aqui, da Carla [Camurati]. Estamos no novo filme da Carla.  Para dizer a verdade, as únicas entrevistas para as quais nós somos insistentemente convidados é para discutir o problema do Chatô. Hoje, no lançamento de um projeto social na favela de Heliópolis um grande jornal... O que até me surpreendeu, porque dificilmente esses projetos sociais recebem atenção da mídia, e eu posso dizer isso com muita tranqüilidade, que fui jornalista durante 27 anos e ainda continuo tentando acompanhar isso.  Eu até me surpreendi, porque um grande jornal estava lá, e ele foi à favela de Heliópolis para o lançamento hoje do projeto de música para crianças carentes para falar do Guilherme Fontes. Você tem tanta importância assim?

Guilherme Fontes: Pelo amor de Deus, eu só estou querendo fazer um filme. Eu não tenho importância nenhuma, eu estou tentando montar um filme...

Paulo Markun: Não vamos exagerar. Se você não tivesse importância nenhuma você não estaria no centro do Roda Viva.  [risos] Vamos deixar claro isso, alguém que se dispõe a fazer um filme de 6 milhões de reais tem importância, vamos botar as coisas no seu devido lugar.

Guilherme Fontes: Acho assim: o Chatô hoje ele é importante por quê?  Porque ele ofendeu à classe artística, essa idéia de escândalo do Chatô acabou ofendendo a todo mundo. Ofendeu a classe, ofendeu a imprensa, ofendeu a sociedade como um todo.  Isso que a mídia tem que prestar atenção, porque se está atingindo o coração da cultura nacional.  Eu não acho...  acho que o Chatô é mais um filme para contribuir para o que a gente chama de retomada do cinema.

Jotabê Medeiros: No começo da produção, pré-produção, o Fernando Morais costumava acompanhar atentamente.  Ele faz isso até hoje?  Qual a opinião dele sobre tudo isso?

Guilherme Fontes: O Fernando foi o único jornalista, o único que publicou a minha primeira certidão negativa. Ainda deu um toque no resto dizendo que nem um outro jornalista comentou, independente do acompanhamento dele. O Fernando está comigo nos outros projetos, o Fernando leu os meus roteiros, sabe a ficção que eu criei para o Chatô.  Livro é livro, filme é filme, a gente fala disso com a maior educação.  Ele está satisfeito com a gente.

Jotabê Medeiros: Consta que você teria que ter pagado um valor que seria perto de um milhão de reais pelos direitos do filme. Não pagou isso?

Guilherme Fontes: Não, absolutamente.

[Jotabê Medeiros fala junto com Guilherme Fontes]

Jotabê Medeiros: E aí teria começado, talvez, o rombo financeiro.

Guilherme Fontes: Não, absolutamente. A gente esquece que eu era um ator da TV muito bem sucedido, tinha muitos recursos próprios nessas... Já tinha dinheiro nessa época. Tinha acabado de vir de um sucesso numa peça [Desejo, peça de teatro baseada na obra de Eugene O'Neil, com os atores Vera Fisher e Guilherme Fontes] com a Vera Fischer [atriz] pelo país inteiro.

[Falas simultâneas]

Guilherme Fontes: Olha, foram 1,2 milhões de reais.  Porque eu ainda não recebi a direção do filme.

Paulo Markun: Guilherme, mais uma demonstração de que você também pode não ser tão importante assim, mas tem lá o seu interesse, nós temos um recorde de perguntas de telespectadores, principalmente através de e-mail. Vou fazer um punhado delas, para você tentar responder rapidinho. Porque eu acho que são coisas pontuais. Assim, João Paulo de Curitiba pergunta o seguinte: "Você não considera um caso de má administração da verba o fato de, mesmo tendo um castelo cedido gratuitamente pelo governo francês, ter preferido fazer externas, o que encareceu bastante a produção?

Guilherme Fontes: Não. O castelo não foi cedido pelo governo francês. O castelo foi cedido pela revista Caras.  Eu só estava interessado no lado de fora do castelo, não estava interessado no interior do castelo. Coisa de artista.

Paulo Markun: Muito bem. Luis Antonio, jornalista...

Guilherme Fontes: E estava com o meu dinheiro...

Paulo Markun: Não, com o dinheiro público. Muto bem. Luiz Antonio, jornalista, diz o seguinte: ele comprou em banca de jornal três fitas da GF 1 filmes [produtora de Guilherme Fontes]: Getúlio Vargas, Chiquinha Gonzaga, e Golpe de 1964.  As três vinham acompanhadas de um jornal e folheto sugerindo que o consumidor poderia participar da produção como sócio, com ator, algo assim.  O que o Guilherme diz disso, e o que foi feito com o dinheiro?

Guilherme Fontes: Isso é muito interessante. Getulio Vargas não foi colocado à venda, o que foi colocado à venda foi Chiquinha Gonzaga e o Golpe de 1964.

Daniel Piza:  Como foram essas vendas?  Só para arrematar. Como foram essas vendas?

Guilherme Fontes: Pois é. Foram vendidas cerca de 35 mil fitas e esse dinheiro foi prontamente aplicado no filme.

Paulo Markun: Mas, tinha essa oferta aí de...

Guilherme Fontes: Isso foi uma outra coisa que também aconteceu no projeto. A gente sorteou dez passagens com acompanhante para Portugal e para Porto Seguro.  Talvez nós tenhamos sido os primeiros a fazer essas promoções nos 500 anos aí [500 Anos de História do Brasil, um dos subprodutos de Chatô. Série de 36 documentários. Fontes realizou 13, que foram exibidos pelo canal por assinatura GNT. Em decisão para qual cabe recurso, Fontes foi condenado a devolver o dinheiro recebido] e realmente viajar todo mundo.  Foram escolhidas algumas pessoas para participarem do filme também.

Paulo Markun: Pergunta de Jorge Monteiro de Fortaleza diz o seguinte: "O fato de ter utilizado os recursos do filme para realização de outros sub-produtos, como documentários e outros tipos de produções audiosvisuais.  Não tirou o foco dos recursos do objetivo principal, que seria o longa-metragem?

Guilherme Fontes: Não. Como eu disse antes ele já estava previsto anteriormente. E é um filme muito difícil de compreender e transformá-lo em duas horas. [Transformar] Setecentas páginas em duas horas deu um trabalho monumental.  Eu, na obra, procurei... Na obra cinematográfica eu procurei criar o Chatô do Guilherme Fontes. Quer dizer, pegando o espírito fundamental da obra do Fernando Morais, mas sem dívida é um filme de autoria própria.

Paulo Markun: Jorge Luis Espínola, de Iguape, São Paulo, pergunta: "O nome de Francis Coppola vai constar nos créditos do Chatô? E qual a real participação?" A participação você já mencionou, mas ele vai estar lá nos créditos?

Guilherme Fontes: Olha, ele vai estar, claro. Com certeza.

Paulo Markun: Finalmente, Sergio Rocha, de Niterói.  "Chatô, o próprio, aprovaria a forma como você tem conduzido o filme?  Por quê? Diante de tudo que temos vivido a respeito, você está se sentindo um pouco na pele do teu muso inspirador?"

Guilherme Fontes: A única coisa que eu tenho medo com tudo isso é que a imprensa mate essa tentativa de levar à tela a vida de Assis Chateaubriand.  Eu não sou esse personagem, a imprensa me transformou nesse personagem. Quer dizer, me colocou como o Chatô, chegou o novo Barretão, não sei o que lá. Houve uma afiliação antipática por parte da mídia sobre a minha imagem desde o início do projeto.  Então, o Chatô deve estar adorando. Com certeza.

Paulo Markun: Nós vamos para mais um rápido intervalo, e voltamos já, já.

[Intervalo]

Paulo Markun: Estamos de volta [.. ] O Pablo Muniz de Barros, de Vila Velha, Espírito Santo, desempregado, pergunta se você acha que o Chatô é o primeiro Cidadão Kane
brasileiro.  E eu acrescentaria: você acha que no Brasil de hoje ainda tem Chatôs? [Cidadão Kane é um filme dirigido por Orson Welles em 1941. Baseado na vida do magnata do jornalismo William Randolph Hearst. Usando um recurso bastante inovador da época, o flashback, Welles retrata a ascensão de Charles Foster Kane, um garoto pobre que se tornou um magnata da imprensa americana]

Guilherme Fontes: Olha, eu acho que sem dívida nenhuma o Chatô ainda é o rei do Brasil.  Eu acho que o Chatô é o nosso Brazilian Citizen Kane. Talvez o William Randolph, se o tivesse conhecido, talvez ficasse com ciúmes de tanta desenvoltura social. Eu acho que o país está cheio de Chatôs, e acho que o filme serve para que a gente reconheça como são esses Chatôs, quem são esses Chatôs, e qual a utilidade deles no controle da mídia.  É muito importante a gente separar, agora, com a entrada da Internet, o que é mídia e o que é opinião pública. Quer dizer, a mídia não é a opinião pública, a mídia é mais uma formadora de opinião pública. E, às vezes, a gente confunde.  Esse caso comigo, agora, é exatamente isso.  É como se a opinião pública, ou toda classe cinematográfica, acreditasse que o melhor mesmo seria enterrar o projeto Chatô. Isso não é verdade. Com certeza.

Ivan Cláudio: Você está nesse projeto desde 1995. Do que você vive desde então? Como você vive?

Guilherme Fontes: Eu, até 1997, era contratado da Globo. Quando eu saí eles me pagaram o meu salário até 2000. Então, eu sempre tive recursos, fora os recursos que eu já tinha guardado.

Jotabê Medeiros: Você disse que é o maior investidor privado no filme. Qual o valor que você colocou do bolso?

Guilherme Fontes: Entre dinheiro que eu coloquei e o dinheiro que foi arrecadado no mercado já passam de 3 milhões.

Paulo Markun: Você, deixa eu ver aqui... Eu tenho tanta pergunta que a gente acaba se atrapalhando. Tem vários elogios, várias críticas, uma coisa...  Pergunta de Carlos Henrique de Butantã, provocação de Carlos Henrique: "Glauber Rocha foi o rei do Cinema Novo. Você tem medo de ser o rei do cinema inacabado?"

Guilherme Fontes: Não, pelo contrário. Eu acho o seguinte: o cinema nacional, hoje, ele está sofrendo muitos problemas. Esses filmes todos que não estão concluídos, pode botar aí mais de uma dezena, ou duas, ou três dezenas de filmes não concluídos. Precisa ser resolvida essa questão, rapidamente resolvida.  Pode ser, depois de quatro anos, com os próprios Barretos e tudo, existe quase 300 milhões de recursos parados aí desses filmes que estão parados. Não. Eu jamais seria o rei do cinema inacabado.

Paulo Markun: Mais você imagina, por exemplo... uma alternativa que várias vezes se coloca é algo semelhante a o que já existiu no Brasil, que seria o seguinte: teria um grande fundo de dinheiro, e teria um gestor público de alguma forma, ou um ministro, ou uma comissão de notáveis, alguma coisa que diria: "Olha, Guilherme Fontes que nunca fez filme, não pode receber dinheiro. Já o fulano de tal que fez vinte filmes pode receber. Ou: "Esse projeto tem que receber dez milhões de reais e esse tem que receber um milhão de reais". Isso, hoje em dia, não existe. Quer dizer, o Ministério, em nenhum momento ele entra no mérito da sua opção estética, da sua opção ideológica, nada disso. O que ele faz é definir se aquele projeto que você apresentou, seja ele o Chatô ou seja ele um filme sobre música sertaneja ou [sobre] um pianista clássico, só para ficar na área da música.  Ele vai avaliar se aquilo ali, o dinheiro que está pedido faz sentido.  Você acha que essa fórmula é melhor, ou imagina uma comissão, ou algum tipo de fundo pudesse existir para abrir espaço para a gente que não tem mercado?

Miguel Jorge: Você acha que com esse fundo, com esse grupo de gestor. A Carla, por exemplo, teria feito a Carlota [Carlota Joaquina]?  Eles teriam autorizado a Carla a fazer Carlota [Carlota Joaquina]?

Guilherme Fontes: Eu acho que sim.  Porque a Carla tem um talento fora do normal.

Miguel Jorge: Mas esse grupo, dificilmente vai avaliar talento, não é?

Guilherme Fontes: Eu não gosto muito dessa tese de avaliação de talentos.  Eu acho que é fundamental poder deixar as pessoas que começam a fazer seus filmes.  Eu acho que a lei hoje está muito boa, eles lançaram uma portaria o ano passado que restringia essa aplicação. O Ministério passou quatro anos aprovando quase todos os projetos. Talvez tenha aprovado mais projetos do que o fundamental.  Mas eu acho democrático a forma como a lei hoje atua no setor, quer dizer, eu acho que não precisa mudar.

Michel Laub: Guilherme, ainda no assunto da lei. A responsabilidade pela decisão de destinar dinheiro ou não para um projeto passou do agente público, que era o responsável na época da Embrafilme, para o gerente de marketing, o responsável, enfim, das empresas. Você pode dizer que, na época, determinados tipos de filme não poderiam ser feitos em função de alguma diferença ideológicas com o agente público. Hoje em dia, quem é que não consegue fazer filme por uma questão ideológica ou prática, vinda dessa decisão que está nas mãos muitas vezes dos diretores de marketing?

Guilherme Fontes: Eu confesso para você que adorei serem [os] diretores de marketing.  Porque, na realidade, eles não sabem fazer filmes, nem é essa a tarefa deles.  Mas se eles conseguem enxergar um bom marketing através do filme "a" ou "b", é fundamental que o produtor entenda que adequação fazer com esse público. Eu, hoje, se tiver... se eu levar todos os funcionários de todas as empresas que trabalham hoje, que estão hoje patrocinando do meu filme, se eu fizesse um trabalho de marketing dirigido para eles, eu faria um grande público. Eu acho que a sociedade toda tem que estar envolvida. Eu gosto da idéia de diretor de marketing, eu gosto da idéia do diretor financeiro nessa história.

Michel Laub: Mas, a razão do diretor de marketing, e fundamentalmente a capacidade do filme de fazer marketing...

[Falas simultâneas]

Guilherme Fontes: A gente não está querendo que o cara produza um filme só para a Volkswagen mostrar um novo lançamento.  Não é isso.  Mas a gente quer que esse filme faça, orgulhe, e a Volkswagen goste e continue aplicando.

Jotabê Medeiros: O que ele quer dizer é que a política está voltada para uma criação de uma indústria de cinema.  Ela não...  Certamente, o cinema de invenção [cinema de autor] não foi beneficiado nesses últimos quatro, ou seis, ou oito anos de lei do audiovisual. Não existe um público.  Glauber Rocha não...

Sérgio D'Ávila: Você, Guilherme Fontes, que é um ator da Globo, chega com um projeto do Fernando Morais sobre o Chatô.  Você leva. Mesmo não tendo dirigido nada.  Agora, o Zé Mané, que pode ser o próximo Glauber Rocha - você também pode ser o próximo Glauber Rocha - mas o Zé Mané, que não é ninguém, e vai fazer um filme da cabeça dele, ele não vai levar nenhum tostão da Volkswagen, não vai levar.

Guilherme Fontes: O Glauber Rocha também foi um "zé ninguém".  Então, uma hora ele se transformou no Glauber Rocha.  Ele não nasceu magistral.  Na medida em que o tempo foi passando ele foi ficando magistral.  Eu, por exemplo, na minha vida, quanto mais velho eu ficar eu quero estar melhor. Eu não acho que tem nada de excepcional hoje no meu trabalho. Eu preciso, inclusive, continuar achando isso.  Que inclusive o meu ego vai acabar.

Miguel Jorge: Guilherme, o que você acha melhor como um diretor de cinema?  Um grupo, por exemplo, filmado por um governo, no que pode mudar.  Eu me lembro de como se comportam os governos e alguns até podem se transformar em ditadura, como nós já tivemos. Ou você tem isso espalhado por dezenas de diretor de marketing, ou que seja nas empresas, e que aprovam filmes, por exemplo, como Tudo é Brasil (1997) do Rogério Sganzerla ou La serva padrona, que eu também gosto por sinal...

Guilherme Fontes: Eu acho que deve continuar onde está.

Miguel Jorge: O que você acha que seria o formato melhor para o país?

Guilherme Fontes: Eu acho...

Miguel Jorge: Ou você iria acabar, por exemplo, com os incentivos, como é nos Estados Unidos? E deixar que o mercado tomasse conta?

Guilherme Fontes: Meu sonho de consumo é, realmente, eu entrar numa agência bancária, sentar como o meu gerente e perguntar se ele pode financiar um projeto meu desde que eu apresente meus lucros e etc. Agora, eu acho muito interessante trazer o marketing para essa história.

Paulo Markun: Principalmente se ele disser que os juros são juros iguais aos do Estados Unidos, por exemplo...

[Falas simultâneas]

Guilherme Fontes: 6% ao ano. Aí seria o céu. Acho que todos os meios que nós encontrarmos para financiar o cinema, são bem-vindos. Quer dizer, os fundos são bem-vindos, tem que aparecer, os diretores de marketing, diretores financeiros tem que continuar participando.  Porque, afinal de contas, eles são públicos, não só são públicos, tem recursos para financiar esses filmes.

Paulo Markun: Eu queria voltar a um tema aqui. Alguns telespectadores estão reclamando aqui, achando que nós jornalistas não estamos chegando ao ponto, que estamos só especulando e fazendo perguntas de caráter especulativo. É o caso de Paulo Cidade, que manda a sua pergunta pela Internet, eu peço que quem utiliza a Internet sempre indique da onde é, porque a gente acaba não sabendo da onde é o telespectador e fica essa coisa...  De qual cidade?  Vou ler as duas perguntas. "Como cidadão não me interessa saber se o dinheiro público foi utilizado no filme, ou seja, não foi roubado, se o dinheiro foi empregado no filme, tudo bem", disse ele. E Antônio Caetano, do Rio de Janeiro, disse: "Mais um bloco de perguntas e nenhuma informação de caráter investigativo. Por favor, não sejam tão corporativistas e levem essa crítica ao ar." Ela, assim, absolutamente fundamentada nas falas e perguntas dos jornalistas convidados. Repito a pergunta: há ou não há dados reais que fundamente as acusações contra Guilherme Fontes?

Guilherme Fontes: Não há dados reais que fundamente as acusações a Guilherme Fontes. Eu vou novamente, novamente, mostrar a prestação de contas [Abre uma série de pastas e mostra papéis que estão em seu colo]. Foi entregue em outubro conforme o Ministério me pediu. Não precisava pedir mais foi levado pela mídia a pedir. Eu tirei uma certidão em outubro, depois eu tirei mais uma certidão em março, e novamente em março. São três certidões desde que [o projeto] nasceu. O dinheiro, esse dinheiro público e privados, foram absolutamente entregues e aplicados no filme. Isso não pode mais haver dúvidas.

Paulo Markun: Março que você fala é março deste ano.

Guilherme Fontes: Março agora.

Paulo Markun: Só para a gente esclarecer, no comunicado assinado pelo José Álvaro Moisés, da Secretaria do Audiovisual.  Ele apresenta alguns pontos, que do ponto de vista do Ministério também parecem irrefutáveis. "Um: o Ministério fez inspeção, a CVM fez inspeção no projeto tendo encontrado elementos que a levaram a solicitar ao seu colegiado diretivo a abertura de inquéritos administrativos para a reposição de irregularidades."

Guilherme Fontes: Possíveis.

Paulo Markun: Exatamente. Possíveis [irregularidades]. "Dois: a Secretaria de Audiovisual escolherá outra empresa produtora para concluir o projeto nos termos do artigo tal, do parágrafo tal, do decreto tal.  A empresa produtora deverá pautar-se, no seu trabalho de finalização, nas concepções de cunho artístico do projeto original". Isso ele coloca como decisão da Secretaria. "Três: Guilherme Fontes deverá apresentar à Secretaria do Audiovisual a prestação de contas final até o dia 26 de abril de 2000". Ou seja, se eu entendi bem o que ele diz aqui, é o seguinte: acabou o prazo de capitação, não pode pegar mais dinheiro. Guilherme Fontes não pode terminar o filme e a CVM está investigando.

Guilherme Fontes: Veja bem, a CVM está investigando e vai continuar investigando não só a mim como a todos. Aliás, toda essa investigação começou...

Paulo Markun: Não necessariamente com inquéritos administrativos?

Guilherme Fontes: Como também não há comigo.  Não existem inquéritos administrativos abertos contra mim hoje. Está aqui, não sou eu que estou falando, é a CVM.  Pelo amor de Deus, tanto a opinião pública, tanto a CVM, parem com isso.  Essa idéia de possíveis... quem sabe um dia... Amanhã, realmente, um lustre pode cair na minha cabeça e eu posso cometer alguma coisa errada. Mas hoje, até a presente data, não há nada que impeça Guilherme Fontes de exercer a sua atividade. Inclusive a capitação de recursos. Nem há nada que impeça a ele distribuir novos certificados do audiovisual. Quanto ao prazo, a mesma portaria 500, [que] se baseia o secretário do áudio visual, a mesma que diz que o prazo acabou, também diz que o prazo pode ser tolerado em casos fortuitos e imprevistos.  O Chatô é um imprevisto, Chatô é um caso fortuito.

Daniel Piza: Por quê?

Guilherme Fontes: Pelo tamanho dele, principalmente hoje.

Daniel Piza: Quer dizer, ela deveria abrir uma exceção porque o seu projeto é grandioso.

Guilherme Fontes: Não, olha só. Todos os projetos, novamente, 98% dos projetos sofrem acomodações. Se você não tem cronograma de execução, se você não tem cronograma de desembolso, nenhum projeto tem o mesmo cronograma que apresentaram, todos eles sofreram algumas...  Existem projetos de 1994 que estão sendo renovados até hoje.

Daniel Piza: Não justifica que os outros que tiveram cronogramas vencidos... Não significa que você possa vencer, se acomodar. Em se tratando de um filme de tal porte, um orçamento tão grande, essa acomodação já é um pouco diferente dos outros casos que você cita.

Guilherme Fontes: Vamos lembrar que o orçamento não estourou, nunca estourou. Passaram-se quatro ou cinco anos, ele não estourou.  Vamos imaginar que os meus dados do filme também não se alteraram, eram tantas semanas, continuam as mesmas semanas. Vamos imaginar também que o número que o filme tinha que ter, a quantidade de subprodutos foram executados, entre os sete sub-produtos do filme, 80% foram incluídos. Então, não há motivo para essa acusação.

Daniel Piza: Segundo o seu entendimento você pode continuar captando recursos para o Chatô.

Guilherme Fontes: É o que a minha assessoria jurídica diz que sim. Fora isso...  Essa coisa de uma produtora, para mim também não é um bicho de sete cabeças.  Quer dizer, eu estou a quase...  Quando é a data desse comunicado?

Paulo Markun: Fevereiro.

Guilherme Fontes: Fevereiro. Estamos em março, 13 de março. Estou esperando essa intervenção. Eu preciso dessa intervenção. Aliás, eu pedi essa intervenção em dezembro de 1998, quando eu iniciei o filme. Eu avisei que não ia ter recursos, eu estava, na realidade, solicitando ao Ministério que atendesse...

[...]: A prorrogação

Guilherme Fontes: É claro. Então, se hoje essa intervenção significar recursos, e significar idoneidade, competência. Meus Deus do céu, ela é muito bem-vinda, agora tem que ser as duas juntas.

Sergio D’Ávilla: Guilherme, o seu mentor cinematográfico, vamos dizer assim, o Coppola...

Guilherme Fontes: Eu vou ler aqui duas frases dele para você. São frases interessantes, ele diz: "Eu sinto que a atuação, o elenco, a encenação e a fotografia são superiores".  E a própria equipe dele vira e diz: "Eu sinto que tem muito mais na tela do que nós poderíamos supor anteriormente". É muito importante saber que o filme, quando estava sendo orçado na época, eles orçaram em 47 milhões de dólares.

Daniel Piza: O Coppola é um emérito quebrador de orçamentos.

Guilherme Fontes: É. Aí eu fui puxando para baixo e chegamos a 16 milhões de dólares. Naquela época que eu fui a ele eu tinha 5 milhões, faltariam 3 milhões. Aí eu disse: vou conseguir. O que aconteceu hoje?  7,5 milhões de dólares.  Mesmo assim eu continuei reduzindo os orçamentos.

Jotabê Medeiros: Mas por que ele diz que não tem nada a ver com o seu filme?

Guilherme Fontes: A imprensa fala demais.

Jotabê Medeiros: A assessoria de imprensa dele distribuiu um comunicado: "Eu não tenho nada a ver com esse filme".

Guilherme Fontes: Ele não tem nada a ver com esse filme.  Ele não é dono desse filme.  Ele é de coração.

[Falas simultâneas]

Sergio D’ávilla: Só para concluir.  Ele, enfim, elogiou o seu filme pelo o que ele viu, e é o seu mentor aí cinematográfico. Ele é, como falou o Daniel, um emérito quebrador de estúdios. Ele quase faliu com Apocalipse Now, e ele faliu a produtora dele com O fundo do coração [Custou US$ 30 milhões e arrecadou US$ 1 milhão. Filmado inteiramente em estúdio e com visual bastante estilizado, porteriormente o filme tornou-se um cult.] Só que ele deu ao cinema o Apocalipse Now, O fundo do coração.  A gente vai ter alguma coisa parecida?

Guilherme Fontes: Se Deus quiser!

Sergio D’ávilla: Porque eu acho que o leitor Cidade quer saber. E o mais importante que eu acho que o espectador quer saber é quando. Quando você vai poder entrar no cinema e ver o Chatô?

Guilherme Fontes: Se eu conseguir acabar o meu problema, a minha data é 21 de novembro. 21 de novembro é a data do lançamento mundial do Apocalipse Now.

Sergio D’ávilla: Deste ano?

Guilherme Fontes: Deste ano... Então, se eu conseguir os recursos.  Do dia que tiver recurso, você conta 13 semanas que o filme está pronto.

Paulo Markun: Guilherme, tem uma pergunta de Júlia que manda pela Internet, também não diz de onde, que diz o seguinte: ela afirma que você captou dois milhões de reais do BNDES [Banco Nacional de Desenvolviento Econômico Social], através do FAT [Fundo de Amparo ao Trabalhador]

Guilherme Fontes: Finep [Financiadora de Estudos e Projetos].

  Paulo Markun: Então não é FAT?

Guilherme Fontes: É Finep/FAT.

Paulo Markun: E tem atores anônimos e atores conhecidos que não receberam seus salários e cachês. Quando esse pessoal vai receber os seus salários?

Guilherme Fontes: Coitados dos atores. Eles estão sofrendo, eu também estou sofrendo.  Eles vão receber, eles fazem parte da dívida.  Essa dívida é pequena, não é muito grande.  Representa 5% do orçamento, eu estou fazendo de todos os meios para que eu consiga resolver o mais rápido possível.  Mas a imprensa, não nos tem ajudado.

Ivan Cláudio: Guilherme, você está falando aí do Coppola, quer dizer...  Você precisa mais ou menos de dois milhões para acabar o filme, não é?

Guilherme Fontes: Esses dois milhões são divididos da seguinte forma: eu posso financiar cerca de 40% desse dinheiro através do [programa] Mais Cinema. E o resto eu posso acabar pela Lei do Incentivo, pela simples correção do orçamento e pela simples sobra que eu não captei.  Quer dizer, ainda faltou um resíduo a captar.  Então, não é difícil conseguir.  São 15 patrocinadores.

Ivan Cláudio: Não, não.  Mais eu só queria lembrar...  Você, por exemplo, criou essa empresa de finalização que se chama ZB Facilities [Zoetrope Brazil Facilities, finalizadora de filmes montada por Guilherme Fontes a partir da tecnologia da produtora de Coppola] com o Coppola.  Você conseguiu dois milhões, justamente o que você está precisando atualmente. Os produtores dizem que finalização no exterior fica muito mais barato que finalizar no Brasil.  Você não acha que você fez um mau negócio?

Guilherme Fontes: Não, absolutamente. Lá na minha empresa finalizaram Xuxa, Orfeu, Xangô, Copo de cólera etc. São mais de 15 filmes que finalizaram lá.  A idéia da finalizadora...

Sergio D’ávilla: Algum filme da família Barreto, não?

Guilherme Fontes: Não, até convidei outro dia para ele ir lá, mas ele não foi ainda. Eu quero que ele vá. Porque a casa é toda interligada, de fibra ótica. Então, ela possibilita uma velocidade fora do normal para você acabar o filme. Toda a casa está interligada. Tem que acabar, o projeto ZB começou muito bem, e ainda há necessidade de uma fase "b" nele. É curioso que, quando toda essa mídia, contrária aos meus negócios, foi para a imprensa, no momento em que eu tinha acabado de aprovar a complementação da ZB, no outro organismo de fomento... Então, você imagina, que tem mais coisas por trás dessa campanha contra mim do que a gente imagina.

Daniel Piza: Guilherme, você...  Todos os seus projetos, quer dizer, você fez os documentários para a GNT e o próprio Chatô envolve produtos para a televisão. Você estava dizendo, agora há pouco, que a Lei do Audiovisual é suficiente para criar uma base de indústria audiovisual no Brasil, com a renúncia fiscal, com a fundação da lei. Não passa pela TV, necessariamente, a formação dessa base de audiovisual?

Guilherme Fontes: Certeza. Claro. Eu não sei exatamente, mas eu ouvi uma advogada minha dizer que já existe um dispositivo na legislação que, teoricamente, obrigaria as televisões a participar dessa atividade.

Daniel Piza: Isso não seria um bom foco para o Ministério da Cultura?

Guilherme Fontes: Eu acho que essa é um foco do Ministério da Cultura atual. Acontece que se você analisar os investimentos em produção nacional nesses periféricos, TV a cabo, por exemplo, eles caíram violentamente. Isso passa pelos números de assinatura, que eles esperavam que fossem muito maiores, acabaram sendo menores. Mas.. não no caso do Chatô, por exemplo, eu me beneficiei. Porque eu fui logo para a TV a cabo.  Eu não consegui espaço na TV aberta.  Hoje, esses 20% que faltam no meu filme, deveriam ter vindo, podem vir da televisão.

Paulo Markun: Só para mencionar, o caso...

Guilherme Fontes: Um canal de televisão. Eu atribuiria a eles, talvez, se eu fosse atribuir a responsabilidade de alguém, eles é que deveriam ter coberto esse finalzinho.

Daniel Pizza: Um canal de TV? É isso?

Guilherme Fontes: Exatamente.

Paulo Markun: Só para mencionar, a TV Cultura junto com o governo do estado aqui... existe um projeto chamado PIC-Cinema [Projeto de Incentivo ao Cinema] que, justamente é uma integração que financiou aí parte de produção de [...], desculpe, de parte de vários filmes aqui no estado de São Paulo. Acho que, com certeza, esse tipo de mecanismo tem que crescer. Vários cineastas e pessoas aí do setor acham que deve haver uma lei que estabeleça algum tipo de taxação sobre os filmes estrangeiros, e ao mesmo tempo voltar a uma regra de obrigatoriedade de exibição do cinema nacional.

Guilherme Fontes: Eu acho o seguinte: se a gente vive totalmente sobre-taxado no Brasil, sobre os produtos importados a gente tem que pagar tão caro... Eu acho que eles [os produtores estrangeiros] talvez devessem pagar caro, um pouquinho de dinheiro, um pouco mais para entrar no Brasil.  Eles pagam muito pouco, eu não sei o número ao certo. Talvez aí seria uma nova fonte de recurso, mas o Ministério não conseguiu ter força política para ir com isso adiante.  Eu acho isso muito importante.

Paulo Markun: Roberto Lanza, de Curitiba, no Paraná, professor de teatro pergunta se você pretende processar as pessoas que o difamam através da imprensa como... e ele cita o Gerald Thomas, que teria dito no jornal de Curitiba ontem: "Não tenho paciência para isso. Quer fazer filmes? O Guilherme Fontes e Norma Bengell roubaram 10 milhões de dólares. Só se o Guilherme Fontes e a Norma Bengel roubarem 10 milhões de dólares para mim, aqueles pilantras" diz, entre aspas aqui, o telespectador [citando]a frase do Gerald Thomas: "Eles formam a dupla de gangsters do cinema brasileiro". Você chegou a ver essa declaração?

Guilherme Fontes: Não. Não vi essa manifestação, e não vou me manifestar. O Gerald Thomas [(1954) diretor de teatro], para mim é boring [chato].  Eu não vou falar sobre o Gerald Thomas, não. Mas eu talvez processe algumas pessoas, mas Gerald Thomas eu vou deixar ele para lá.

Paulo Markun: Marcelo Alexandro, do Jardim Paulista, aqui em São Paulo, pergunta: "Quando você vai voltar para a TV?" Aliás, tem outro telespectador perguntando.

Guilherme Fontes: Era para eu ter voltado agora. O meu projeto era para ter acabado no ano passado, mas aí eu não consegui acabar, então está adiado, talvez para o ano que vem.

Michel Laub: O seu projeto Chatô, você disse à imprensa que isso seria o início de uma ponte industrial, digamos assim. Você até, inclusive, se meteria com negócio de distribuição. Você ainda acha que é viável seu futuro nessa área?

Guilherme Fontes: O meu? 

Michel Laub: Depois de Chatô?

Guilherme Fontes: Eu acho que sim.  A coisa que eu mais preservei nessa história toda foi conhecer a história do Brasil, para que ela me desse inspiração no desenvolvimento de novos projetos.  Então, atrás do projeto Chatô, tem um banco de dados de mais vinte mil registros.  Atrás do projeto Chatô e dos 500 anos existe um acervo monumental de histórias brasileiras que vão ser multiplicadas daqui para frente.  Então, eu acredito que uma pequena base de dramaturga, o projeto Chatô e o projeto 500 anos vão ter criado. E se eu continuar, se eu conseguir acabar a base industrial da finalizadora, eu acho que eu vou ter marcado uma presença muito importante nesse processo.  Eu tenho ajudado a muitos cineastas com os meus preços na ZB.

Jotabê Medeiros: Tem uma coisa no seu currículo que é estranho e vem de encontro a essa situação que é o seguinte: quando você foi produtor de Desejo [peça de teatro, baseada na obra de Eugene O'Neil, com os atores Vera Fischer e Guilherme Fontes], você teve um problema com Ulysses Cruz, que era o diretor. E ele também dizia que você tinha problemas de administração das coisas e chamou você até de mau caráter. O que aconteceu?

Guilherme Fontes: Ulysses Cruz é...  não [vou fazer] comentários para Ulysses Cruz. Ele hoje é diretor da Angélica, com toda a tese dele. Eu amo a Angélica de paixão, mas a tese teórica teatral do Ulysses Cruz acabou.

Ivan Cláudio: Guilherme, você está fazendo crítica à Angélica, quer dizer, apesar de adorar...

Guilherme Fontes: A Angélica eu a amo.

Ivan Cláudio: ...não deve gostar muito do programa.  O grande público te conhecia como o galã da Globo, e de repente você virou um cineasta.  Quer dizer... e um empresário bem articulado.  A gente gostaria de saber, eu gostaria de saber assim, quando que você deu a sua passagem para o cinema?  Quer dizer, que cineasta você gosta?  Que tipo de filme você gosta? Quer dizer, você deve gostar do Cidadão Kane, obviamente, e Coppola.  Quer dizer, como você se situa no filme brasileiro?

Guilherme Fontes: Eu vim do cinema. Eu, antes de ir para a TV, de fazer sucesso na TV, eu vim do cinema, do teatro. Eu vim do Teatro Tablado [grupo de teatro fundado por Maria Clara Machado. Responsável pela formação de importantes atores brasileiros]. Quando eu tinha 17 anos, 18 anos, eu fiz um teste para fazer um filme sobre o Chile, com o Jorge Duran [roteirista e diretor. Escreveu os roteiros de Lúcio Flávio, o passageiro da agonia (1977), Pixote, a lei do mais fraco (1981) e O beijo da mulher-aranha (1984). Como diretor fez  A cor do seu destino (1986) entre outros], A cor do seu destino. Depois, o Cacá [Diegues] assistiu esse mesmo filme dentro da produtora dele, e aí me convidou para fazer Um trem para as estrelas (1987).  Depois, me convidou para fazer o Dedé Mamata (1987). Então, eu fiquei, no início da minha carreira, eu fiquei três anos no cinema.  E aí eu fui para os festivais no mundo inteiro. E descobri que isso é o supra sumo da minha atividade, junto com o teatro.  E aí eu fui para a TV, popularidade, fama, dinheiro etc. E acho que estava na hora de voltar. Então, eu estava ensaiando essa volta já fazia muito tempo. Meus mitos e meus filmes [são] Coppola, Sergio Leone [(1929-1989) cineasta italiano notabilizado pelos seus faroestes. Dirigiu Era uma vez no Oeste (1968)], Bertolucci [cineasta. Dirigiu O céu que nos protege (1990), O último tango em Paris (1973) entre outros], essas pessoas.

Paulo Markun: Para finalizar, Guilherme, o nosso tempo está acabando, eu uso aqui a pergunta de Renato Teixeira Dias, de Campos Elíseos, aqui em São Paulo, que pergunta: "Qual é o seu rumo?  Aonde é que você quer chegar?"

Guilherme Fontes: Já me fizeram essa pergunta.  Eu só estou atrás de personagens, e se for necessário que eu produza para que esses personagens apareçam, eu vou produzir. Basicamente eu sou um ator, um trabalhador, quer dizer, eu acredito nesses personagens. Eu acho que esses personagens são fundamentais. Eles precisam existir. A dramaturgia nacional precisa ser mais ousada, mais arriscada, mais provocativa.  Eu acho que ela está discreta, eu acho que ela está tímida.  Acho que ela poderia ser mais ambiciosa.  Questionar mais os nossos mitos neste século, questionar mais os nossos mitos.  Mesmo que eles sejam anti-heróis, né? Eu acho isso, é isso que eu quero fazer, mais personagens.

Paulo Markun: Guilherme, muito obrigado pela sua entrevista!  Eu queria só esclarecer que em como todas as entrevistas do Roda Viva, as perguntas que não foram formuladas serão entregues para você, não só as perguntas, como os elogios, as críticas, as observações.

Guilherme Fontes: Posso agradecer? Eu preciso agradecer. Eu não venho à televisão ao vivo há muito tempo. Então, eu fundalmentamente queria agradecer toda a minha equipe, que sofreu muito com tudo isso. Estão sofrendo, os meus atores, os patrocinadores, todos eles.  Obrigado pela compreensão. Desculpe por esse sofrimento todo, as regras do jogo são difíceis, mas nós vamos vencê-las. Todos vão ficar muito orgulhosos ao final dessa jornada, falta pouco.

Paulo Markun: OK, muito obrigado a você!

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