Memória Roda Viva

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Armando Falcão

16/10/1989

Ministro da Justiça nos governos Kubitschek e Geisel, Falcão fala sobre ditadura militar e campanhas eleitorais

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Jorge Escosteguy: Boa noite. Estamos começando mais um Roda Viva. O convidado desta noite é o ex-ministro da Justiça, no governo Ernesto Geisel, Armando Falcão. Para entrevistar Armando Falcão esta noite, no Roda Viva, nós convidamos os seguintes jornalistas: Hugo Studart, repórter da revista Veja; Dácio Nitrini, editor do telejornal Brasil, do SBT; Alex Solnick, repórter do jornal Folha da Tarde; Moura Reis, repórter de política do jornal O Estado de S. Paulo; Rodolfo Konder, editor chefe do Jornal da Cultura; Dirceu Brizola, diretor do jornal Gazeta Mercantil; Izalco Sardenberg, editor de política da revista Visão; Pedro Del Pichia, repórter do jornal Folha de S. Paulo. Na platéia, assistem ao programa os convidados da produção.

Armando Falcão tem 70 anos, nasceu no Ceará, e ocupou cargos de importância fundamental na vida política brasileira. Foi do PSD e ministro da Justiça do presidente Juscelino Kubitschek. Depois de 74, participou ativamente dos bastidores da revolução. No governo Ernesto Geisel, foi novamente empossado na pasta da Justiça e foi um dos criadores da Lei Falcão, que regulamentava a propaganda eleitoral no rádio e na televisão. Forte e polêmico, Armando Falcão está agora lançando o livro Tudo a declarar, onde revela passagens desconhecidas e polêmicas dos últimos anos da vida política nacional. O livro Tudo a declarar já é best seller e está em segundo lugar no Rio de Janeiro. Boa noite, ministro. [Armando Falcão repetia a frase "nada a declarar", de forma quase automática ao ser abordado por jornalistas, durante o tempo em que foi ministro]

Armando Falcão: Boa noite.

Jorge Escosteguy: O senhor, naturalmente, deve estar acompanhando, na medida do possível, a propaganda eleitoral na televisão. Diante da propaganda dos candidatos, como é que o senhor se sente? O senhor acha que é isso mesmo ou de vez em quando tem um pouco de saudades da Lei Falcão?

Armando Falcão: Não, não tenho saudades da Lei Falcão, porque a Lei teve o seu momento histórico, o instante em que se tornou necessária. Mas, evidentemente, como eu sempre disse, primeiro, a Lei Falcão não era só a Lei Falcão. Foi uma lei votada pelo Congresso Nacional, que durou cerca de 10 anos. Cheia de imperfeições, de lacunas, de defeitos, ela foi substituída por uma legislação que hoje também é alvo de restrições gerais, o que prova que o problema da transmissão, principalmente da mensagem dos candidatos nos períodos eleitorais, é difícil, é complexo. Os meus votos de brasileiro, de político, são para que nós tomemos a experiência atual como válida para efeito de aperfeiçoamento do sistema.

Jorge Escosteguy: E quanto à censura? Esses dias o senhor comentava, numa entrevista à própria Cultura, que o senhor reviu sua posição.

Armando Falcão: Olha, quanto à censura, eu lhes digo o seguinte: foi o setor mais difícil que eu enfrentei no governo Geisel. No governo Juscelino Kubitschek, como é notório, não havia censura. No próprio governo Castelo, no primeiro governo da revolução, também a censura não existia. Entretanto, a partir de 1968, com o advento do AI-5, veio a censura, com toda uma legislação que era obrigatória. Foi, como eu disse, o setor que mais problema me criou, mas que, ao término do governo Geisel, não existia mais. O presidente Geisel, a partir do momento em que me convidou para ser ministro, antes da posse de 15 de março, declarou que uma de suas metas seria a eliminação da censura, a abolição da CGI [Comissão Geral de Investigações], a revogação do AI-5 e a sua substituição pelas chamadas salvaguardas constitucionais. Hoje, com a experiência vivida, eu lhes posso dizer que sou rigorosamente contrário à reimplantação eventual de qualquer tipo de censura política. Porque é impossível fazer uma censura política adequada, satisfatória e aceitável. Em segundo lugar, porque a censura impede a fiscalização pela imprensa da administração pública. Mas, sou a favor de um outro tipo de censura. Eu sou a favor da censura de diversões públicas, principalmente quando se tratar de televisão. Porque a televisão, no Brasil, está se transformando, sobretudo através da telenovela, em um fator de destruição da família brasileira.

Alex Solnick: O senhor narra um episódio de censura no seu livro, no governo Geisel, com a revista Veja. Em uma ocasião em que a censura foi retirada de dentro da revista e a revista publicou uma charge que mostrava um homem crucificado, enfim, torturado, com a frase: “Nada consta.” Isso foi censurado e a censura voltou à Veja. Agora, o senhor relata também que o governo Geisel era contrário à tortura, tanto quanto o senhor. Essa charge parece que também é contra a tortura. Por que razão, então, ela foi censurada?

Armando Falcão: Eu conto, no capítulo correspondente a esse assunto, que a charge foi objeto de uma reclamação direta do então ministro do Exército, o general Vicente Coutinho. Ele me falou da Vila Militar, no Rio de Janeiro, para Brasília, me informando que havia um estado de quase revolta da parte da oficialidade na Vila contra a charge e me pedindo uma providência imediata e urgente. E que evitasse a evolução do problema para uma situação mais grave. Assumi a responsabilidade, da qual não fujo, de restaurar a censura na revista e, daí, a mágoa, justa, compreensível, natural e inevitável, que ela alimenta contra o ex-ministro Armando Falcão.

Dácio Nitrini: O senhor acha que a crítica que recentemente a revista publicou sobre o seu livro, que não foi inteiramente favorável, foi bastante crítica inclusive, está eivada desse espírito de revanche?

Armando Falcão: Não. Não. Nesse espaço, eu fiquei muito agradecido à revista Veja. Porque ela me deu três páginas, me deu espaço praticamente de três páginas. Fez, por assim dizer, a propaganda, no bom sentido, do meu livro. Eu, como autor, qual é o meu interesse mais próximo e mais legítimo, sem dúvida? É de que o livro alcance os seus objetivos. Quais são os objetivos fundamentais do livro? Vender muito. E, numa revista que tem, como a Veja, 700 mil exemplares, segundo me consta, de leitores espalhados do Amazonas ao Rio Grande do Sul, aquele noticiário me foi altamente favorável e positivo. Porque projetou meu livro. Portanto, revista Veja, muito obrigado.

Dirceu Brisola: O senhor fez uma crítica aqui aos programas de televisão, em termos de costumes. Recentemente, foi divulgada uma carta sua, dirigida ao doutor Roberto Marinho, e eu gostaria que o senhor desse uma razão para a divulgação desta carta, visto que parece uma correspondência privada e o senhor, ou alguém autorizado pelo senhor, tomou a liberdade de divulgar?

Armando Falcão: Pois não. Olha, eu quero explicar aos senhores jornalistas que me interpelam com toda a liberdade, que eu não tenho, com relação a qualquer tipo de pergunta, a menor restrição a formular. Os senhores podem me perguntar o que quiserem e eu responderei se souber. No tocante ao problema da carta dirigida ao jornalista Roberto Marinho, o que houve entre mim e ele foi uma questão de fundo estritamente particular. Nós éramos amigos há mais de 30 anos, vivemos problemas pessoais, políticos e até institucionais da mais alta expressão e gravidade. Tendo ocorrido, como eu disse, um problema entre ele e eu, eu me considerei no direito, e até no dever, de lhe mandar correspondência, datada de 13 de julho. Tive o cuidado de mandar levar a carta em mãos, ao jornalista Roberto Marinho. Não forneci cópia para ninguém. Quando ela, semanas depois,  foi publicada pela Tribuna da Imprensa, tomei a iniciativa de telefonar ao jornalista Hélio Fernandes, velho amigo meu dos tempos em que eu era deputado, e perguntei a ele se ele podia me informar como a carta, através de cópia, lhe chegara às mãos. Ele me disse: “O problema é com o jornalista Paulo Branco. Você procure saber do Paulo Branco se é possível ele informar quem lhe deu a carta.” Eu telefonei ao Paulo Branco, que gentilmente se ofereceu, inclusive, a ir na minha casa e me dar uma explicação. E foi e me disse: “Olhe, esse problema de pensar que existe confidencialidade em documentos desse tipo, no Brasil, é um equívoco. Basta dizer ao senhor que quando o presidente Castelo Branco escreveu uma carta para 10 generais da sua amizade, previamente escolhidos, para manifestar perante eles a sua inconformação com a candidatura Costa e Silva.” Disse-me o Paulo Branco: “O presidente Castelo Branco apôs o carimbo de secreto nessa correspondência entregue a cada um dos generais escolhidos previamente. E com 24 horas eu tinha uma cópia da carta do presidente Castelo Branco aos seus amigos generais. No tocante à carta que o senhor está me falando, eu não posso revelar ao senhor quem me forneceu a cópia.” Eu disse: “Mas o senhor não pode ao menos me dizer se a pessoa que lhe entregou a cópia é ligada a mim ou ao jornalista Roberto Marinho?” E ele me respondeu: “Sob minha palavra de honra.” Disse-me ele: “Nem é gente ligada ao senhor e nem é gente ligada ao jornalista Roberto Marinho. Eu, por uma questão de dever profissional, não posso lhe dar nenhuma explicação, além do que estou lhe dizendo agora.” E encerrou o assunto. De sorte que não fui eu. Eu não tive a menor responsabilidade na divulgação da carta. Interpelado pela revista Isto É, pela revista Veja, pelo Jornal do Brasil, pelo Estado de S. Paulo, pela Folha de S. Paulo, enfim, por vários jornais e revistas, no tocante ao desdobramento que pudesse ter aquela carta, dirigida a um homem realmente importante, como é o senhor Roberto Marinho, no Brasil,  eu respondi que, em homenagem a uma amizade que prevaleceu durante mais de 30 anos e que se rompera por motivos de fundo particular, disse o que repito agora: eu calo no tocante ao assunto. Eu calo a minha boca.

Dirceu Brisola: Mas o senhor não nega a autenticidade da carta?

Armando Falcão: Absolutamente. A carta é autêntica.

Dirceu Brisola: E na carta o senhor revela alguns detalhes, como, por exemplo, o fato de que seja o advogado Jorge Serpa a escrever os artigos assinados no O Globo pelo doutor Roberto Marinho?

Armando Falcão: A carta é autêntica. Eu não sou responsável pela publicação dela, nem na Tribuna da Imprensa, nem no Jornal do Brasil. Eu apurei que foi o comitê do candidato Leonel Brizola que pagou a publicação da carta no Jornal do Brasil. E eu só tenho a dizer o seguinte: o que está na carta é confirmado. Eu assumo a mais total e absoluta responsabilidade pelo que eu disse, mas eu não vou além, uma vírgula sequer do que eu disse. Nem da minha parte, haverá qualquer desdobramento nos raciocínios das informações e nas declarações que eu formulei através dela.

Pedro Del Pichia: Falando em Leonel Brizola, eu vejo aqui, no seu livro, numa parte, uma fotografia de 1955. O senhor numa conversa afável com Leonel Brizola, que na época parece que era deputado federal.

Armando Falcão: É, nós éramos deputados aí nesse tempo, no Palácio Tiradentes.

Pedro Del Pichia: Qual é sua opinião sobre o candidato Leonel Brizola?

Armando Falcão: Olha, eu conheço o doutor Leonel Brizola, o engenheiro, desde 1952, 53. A primeira informação que eu recebi dele foi do então deputado Clóvis Pestana, do PSD, do Rio Grande do Sul, que depois foi ministro da Aviação, do presidente Jânio Quadros, se não me falha a memória. O deputado Clóvis Pestana me falava o seguinte, discutindo a candidatura de Juscelino Kubitschek naquela ocasião. Dizia ele: “O PSD está muito preocupado com o problema da vice-presidência. O João Goulart devia ser vice na chapa do Juscelino Kubitschek. Vocês estão fazendo campanha muito tenaz contra essa possibilidade. Mas eu vou dizer a vocês o seguinte, nós no Rio Grande, conhecemos muito bem o Jango e conhecemos muito bem o Brizola. O Jango é um homem bem afável, é um homem simples, é um homem despreparado.” A rigor, ele não podia ser prefeito de São Borja, do ponto de vista de sua capacidade intelectual e da sua competência administrativa. Mas, como ele dizia [referindo-se a Clóvis Pestana], é um homem de poucos defeitos. Agora, o grave, o sério, é que venha a ganhar liderança nacional nesse país o cunhado dele, o engenheiro Leonel Brizola. Esse realmente é um homem perigoso, porque tem algo de caudilho. É um homem trabalhado pelo ressentimento do seu passado. Ele perdeu o pai em condições trágicas na revolução de 1923 e desgraçadamente, dizemos todos nós, inclusive nesse momento, desgraçadamente, o senhor pai dele foi decapitado na revolução de 1923, no Rio Grande do Sul. E ele guarda desse fato, como é natural, um recalque, um ressentimento muito grave. É ambicioso, é corajoso e eu sou testemunha de manifestações de coragem pessoal, física, do então deputado Leonel Brizola, no Palácio Tiradentes. E eu me reporto também, no livro, a um depoimento de uma pessoa idônea, no caso, que é a dona Alzira Vargas do Amaral Peixoto, filha do presidente Vargas, a respeito do doutor Leonel Brizola, em que ela diz:  “Esse cara. A expressão está entre parênteses. Eu conheço muito bem. Trata-se de um homem profundamente ambicioso e profundamente mau. Assinado Alzira Vargas do Amaral Peixoto.” Por outro lado, é um homem que desgraçou o Rio de Janeiro na sua administração de governador. Eu, que sou carioca honorário, sou pai de 6 filhos cariocas, moro no Rio de Janeiro há 45 anos, vi o que foi o desgoverno Brizola naquela unidade da federação. Por isso é que eu sou contra ele.

Jorge Escosteguy: Mas o que o senhor acha exatamente do Brizola?

Armando Falcão: Péssimo. Um péssimo presidente seria.

Izalco Sardenberg: Ministro, eu queria voltar só um pouquinho. Logo no começo do programa o senhor falou a respeito de censura. O senhor disse que era contra qualquer tipo de censura política, no entanto, o senhor era a favor da censura à televisão [é interrompido].

Armando Falcão: Diversões públicas.

Izalco Sardenberg: Diversões públicas. E o senhor disse que um dos principais problemas é justamente as telenovelas. Que elas estariam ameaçando a família brasileira. Então, eu perguntaria ao senhor, por que essas telenovelas estão efetivamente querendo destruir a família brasileira? As televisões não dão aquilo que o público está querendo?

Armando Falcão: Não. O problema não é dar ao público o que o público está querendo. Porque quem é autoridade, quem é governo, nem sempre pode dar ao público aquilo que ele está querendo. Eu não dava, como autoridade, tudo o que o público estava querendo. Porque a autoridade existe, exatamente, para exercer o poder de coação, no sentido de evitar que para o povo, para a população, seja dado o que não convém a esse mesmo povo. Então, eu assisto pouco televisão, eu assisto mais a parte de jornal e de noticiário. Eu pergunto a vocês? Eu posso contar um episódio que eu vi há pouco tempo na televisão, no Rio de Janeiro? [alguém diz: claro] Vejam vocês se é possível admitir isso. Eu vou reproduzir, porque a cena foi pública, às 19h30 de um dia. Era o que? Faz 3 meses, 4 meses. Eu, esperando o telejornal das 20h40min, vejo o cidadão conversar com uma moça, numa novela, e ele vira-se para a moça e diz: “Escuta, menina, você ainda usa calcinha?” Era 7h30 da noite [mostrando-se indignado]. E a moça respondeu: “Uso,  sim. Por que não? O senhor não usa cueca?

Izalco Sardenberg: Não era a novela do Maluf não?

Armando Falcão: Não [rindo]. “Eu uso, sim senhor. O senhor não usa cueca?” E ele falou: “Eu não uso cueca mais não. Esse negócio de cueca, seja cueca moderna, cueca antiga, isso não se usa mais.” E a menina disse: “Mas eu continuo usando calcinha.” E o homem diz: “Então, tire aí a sua calcinha para eu ver a cor da calcinha.” Sete e meia da noite, eu insisto em dizer, minha netinha de dez anos estava perto. E tanto ele insistiu que a moça tira a calcinha. Ele pega a calcinha da moça e começa a beijar a calcinha da moça. Vou dizer a vocês. Eu não sou fradesco. Eu não sou moralista, mas eu acho que é preciso ter cuidado, principalmente com cenas que deseducam a criança. Eu sei que a televisão tem uma força fantástica na cabecinha da criança, na cabeça do adolescente. Eu vejo, às vezes, cenas de novela em que a mãe é desrespeitada, em que a filha fala nos amantes da mãe, em que o pai é maltratado, enfim. Eu, nós aqui, eu acredito que vocês também que estão aqui me interpelando, nós fomos criados debaixo de outros estilos. Eu venho do Nordeste, vocês estão aqui em São Paulo, quase todos aqui sofrem influência do tempo em que a moral familiar era um território muito bem defendido. E por falar em moral familiar, eu quero dizer a vocês, por exemplo, eu fui o autor da fórmula que permitiu o advento do divórcio no Brasil. Está explicado isso no meu livro, para a contrariedade do meu eminente amigo, o cardeal Dom Eugênio Sales e o Dom Carlos Rocco, que era o legado papal em Brasília, naquele tempo. Fui eu quem deu a fórmula ao presidente Geisel para a aprovação da emenda constitucional do deputado Nelson Carneiro. De sorte, que não é questão de ser moralista, de ser fradesco. É porque, realmente, o negócio da telenovela está ficando revoltante. Causa repúdio a todo mundo que pensa um pouquinho no futuro desse país, na base da formação da educação, das suas crianças e da sua juventude. É por isso que eu sou a favor da censura às diversões públicas.

Rodolfo Konder: Ministro, durante o governo do general Geisel, houve uma indisfarçável luta entre setores mais radicais e setores mais conservadores. Aqui, em São Paulo, essa luta resultou, por exemplo, no afastamento do general Edgar Melo e, depois, ela acabou culminando com o afastamento do ministro Sílvio Frota. A versão do general Roiler é de que o senhor, nessa época, não apenas participava e influía ativamente nas reuniões do alto comando, como o senhor via com muita simpatia as aspirações do general Frota e apoiava as posições do general Frota. Como é que o senhor se posicionaria diante disso?

Armando Falcão: Isso é rigorosamente falso. Eu nunca participei de reunião do alto comando, primeiro de tudo.

Rodolfo Konder: Não participar, mas interferir nas reuniões.

Armando Falcão: Tampouco.

Rodolfo Konder: O general Roiler diz que o senhor chamava as pessoas durante a reunião, a reunião era interrompida, as pessoas... [é interrompido]

Armando Falcão: Isso é rigorosamente falso. É tão falso que quando o presidente Geisel me convocou para discutir em primeiro tempo o problema sucessório, eu perguntei para ele, ao tempo da conversa, que está relatada no livro, se eu podia, em seguida, fazer uma visita ao general João Figueiredo, que era o chefe do SNI [Serviço Nacional de Informação, órgão extinto que tinha como objetivo combater os “inimigos” do Estado]. E o Figueiredo me disse: “Olha, eu quero te agradecer”. Eu disse: “A mim, você não tem que agradecer nada, porque o que eu disse ao presidente Geisel, e o que eu tenho dito a outras pessoas, eu tinha dito para várias pessoas que me interpelavam à respeito, que o meu candidato, é óbvio, tinha que ser o candidato do presidente da República. A menos que eu, tendo outro candidato, pretendesse sustentar a candidatura da minha preferência, desistisse do cargo de ministro.” Agora, o general Roiler, ou está mal informado, que eu acredito que esteja acontecendo, porque ele é um homem de bom conceito, é um homem sério, ou ele está baseado em informações totalmente fantasiosas. Isso não tem o mais remoto fundamento. Nunca participei, nunca influi e nunca influenciei reuniões do alto comando. Nunca interrompi reuniões do alto comando e sempre me recusei a admitir qualquer fórmula que importasse em afastar o nome que o presidente Geisel resolvesse escolher. E o presidente me falou. Quando ele me falou, na ocasião, eu disse: “Presidente, não seria possível uma candidatura civil?” Ele disse: “Ainda não, porque o candidato civil não seria palatável ao estado militar: ou o presidente seria um fantoche ou acabaria caindo. Mas por que você pergunta? Eu disse: “Porque se fosse possível uma candidatura civil, eu me inclinaria pela candidatura do governador de Minas.” Que era o Aureliano Chaves. E o presidente me respondeu: “É um bom candidato, mas, infelizmente, isso não é possível. Eu tenho que escolher um general de Exército.” E acrescentou: “E a minha constelação de generais não é muito grande. É uma constelação pequena.” Foi aí que eu perguntei a ele: “Quem é o candidato nessa constelação pequena? E ele disse: “É o general Figueiredo.” Por que o general Figueiredo? Eu disse. Eu contei tudo isso no livro. Ele disse: “O Figueiredo é um homem que há 10 anos está dentro dos palácios presidenciais, vendo passar sob suas vistas os principais problemas nacionais. Segundo, o general Figueiredo é um homem que é primeiro lugar nas escolas por onde passou, desde a escola militar, escola de formação de oficiais, escola de Estado Maior. Terceiro, o general Figueiredo é um homem inteligente, preparado e que tem liderança militar. Portanto, eu acho que ele é um homem que vai dar conta do recado.” Foi tudo o que aconteceu. No tocante à candidatura Frota, a rigor, a candidatura Frota, para o presidente Geisel, e para nós, ela nunca existiu. E somente depois que nós deixamos o governo é que eu soube, eu deixo isso bem claro no livro, é que eu soube que tinha havido um esboço, uma de tentativa de ação de comando. Pretendeu-se se formar um comando de 60 oficiais no edifício do Ministério do Exército para atacar o Palácio do Planalto e prender o presidente Geisel, depondo-o. E isso me foi confirmado somente depois, pelo general Frota, que me acrescentou que havia sido rigorosamente contra essa iniciativa, que iria importar, efetivamente, em derramamento de sangue, porque o presidente Geisel havia tomado a precaução de colocar tropa próxima ao Palácio do Planalto, devidamente aparelhada, devidamente equipada, para repelir qualquer tentativa de ataque ao Palácio. Foi tudo o que se passou.

Alex Solnick: Em 69, quando o Jânio renunciou, o senhor pediu a implantação do estado de sítio, que foi recusado por Ranieri Mazilli. Depois, o senhor foi contrário à posse de João Goulart, por ser de esquerda. Quer dizer, o senhor sempre teve uma posição contra a esquerda. Agora, nas eleições, a esquerda está bem colocada nas pesquisas, corre até o risco de chegar ao 2º turno e é capaz de ganhar. Se eles ganharem as eleições, o senhor acha que haverá algum movimento contrário. O senhor apoiará algum movimento?

Armando Falcão: Primeiro, eu não sou pessimista como democrata. Muita gente diz: “O senhor é democrata?” Sou. Democrata para o meu modo. Democrata que não dorme de touca. Democrata que defende a democracia, sem deixar o inimigo dela segurar o cabo da faca. Agora, eu acho que as esquerdas não vão ganhar. Eu acho que o centro vai prevalecer. Agora, essa tese, por exemplo, do doutor Mário Amato, presidente da Fiesp [Federação das Indústrias do Estado de São Paulo], é uma tese completamente inadequada, errada. Ele, com isso... [alguém pergunta: qual tese?]

Armando Falcão: Vocês não souberam? Foi aqui, em São Paulo, que ele declarou que se o doutor Lula for eleito presidente da República, centenas, ou milhares de empresários, vão embora. É uma maneira pouco inteligente de combater a candidatura do senhor Lula.

Alex Solnick: O que seria mais inteligente para impedir que Lula e Brizola chegassem à presidência?

Armando Falcão: O mais inteligente é dizer o seguinte: não é possível colocar a testa da República no lugar de primeiro mandatário da nação. Um cidadão inteiramente despreparado para o exercício do posto. O doutor Lula pode ser um bom presidente do sindicato dos metalúrgicos de São Bernardo. Ele pode ser um excelente torneiro mecânico. Se eu tiver um dia que consertar, ou se pedir a alguém que vá consertar um problema de torneiro mecânico, ou na minha casa, ou na minha fazenda, ou num lugar próximo de um amigo, eu chamaria o doutor Lula. Porque, certamente, ele é formado como torneiro mecânico. Agora, pegar um homem totalmente despreparado com relação aos grandes problemas da nacionalidade? Vem cá, o Brasil é como o Lott uma vez disse: “Presidência da República não é brincadeira. É coisa séria.” Nós estamos vendo o que está acontecendo com um homem que é bom como pessoa. É um distinto cidadão. É membro da Academia Brasileira de Letras, mas, não estava, do ponto de vista político e administrativo, preparado para exercer a função.

Hugo Studart: Doutor Armando Falcão, o senhor acha que sob esse ponto de vista patriótico, deveria impedir a posse do Lula ou do Brizola caso eles venham a vencer?

Armando Falcão: Não. Não. Eu não acho que seja patriótico impedir a posse do Brizola e nem do Lula. E eu nem preconizo a tentativa de impedir essa posse. Mesmo porque os ministros militares já declararam que quem for eleito tomará posse. A hecatombe virá depois. O desastre será posterior. Mas a posse haverá. Eu, que acredito em Deus, e me pego com Ele. Acho que Deus continua brasileiro e não vai permitir nem que o Brizola, nem que o Lula sejam eleitos.

Dácio Nitrini: Esse Deus brasileiro vai permitir que quem seja eleito, na sua opinião?

Armando Falcão: Bom, aí entra o meu facciosismo. Eu quero que seja eleito o meu candidato. Dirão vocês: “Isso é impossível. O doutor Aureliano Chaves não vai ser eleito presidente da República.” Aí, eu tenho que pender para um no 2º turno, que fica entre o Fernando Collor e o Guilherme Afif, já que eu, que tenho um candidato ideal impossível, não posso fazer esse meu candidato chegar à chefia do governo. O meu candidato, acima do Aureliano, acima do Geisel. Eu que acho que o Brasil está precisando de um grande nome, de um homem com autoridade, com competência, que instigue respeito em todas as camadas, um homem inatacável. Meu candidato é impossível, inexeqüível, inviável. Se eu fosse mágico, eu pegaria sabe quem e colocaria na presidência da República? Dom Eugênio de Araújo Sales. Mas, isso é um sonho alucinado.

Dácio Nitrini: Esse Deus brasileiro é um Deus romano? [risos]

Armando Falcão: Não, ele não é romano não. Ele é lá do Rio Grande do Norte e seria um excelente presidente, haja vista o que ele tem escrito sobre os problemas brasileiros. Não sei se publicam aqui em São Paulo. Nos jornais do Rio, aparecem as teses muito bem escritas dele. Mas, aí, é querer demais. Aí é querer aspirar o impossível. Então, vou ficar mesmo, Aureliano, Fernando Collor, Guilherme Afif Domingos. Quem sabe um desses três aí pode ser presidente?

Moura Reis: E por que não Paulo Maluf? Um perfil político semelhante ao do Collor, ao do Afif?

Armando Falcão: Eu acho (...) Eu votarei no Collor ou no Afif. Mas, comparando o Maluf com o Brizola e com o Lula, eu ficaria com o Maluf.

Moura Reis: O senhor disse, certa vez, que é contra a eleição direta. O senhor continua com essa mesma opinião?

Armando Falcão: Eu acho que a eleição indireta no Brasil acabou ficando prejudicada e, de certo modo, desmoralizada, pelo que aconteceu em relação, não só aos vários estados, como acabou acontecendo em relação à própria República. Mas, o voto indireto, ele não é um voto antidemocrático. Inclusive, por exemplo, o Papa não é eleito por uma votação indireta? Pode-se dizer que o Papa é um ditador?

Moura Reis: Mas o Papa é um monarca.

Armando Falcão: Não, não é monarca. E no Brasil, só quem defende hoje a monarquia é o... [interrompido]

Moura Reis: Mas o Papa não é presidente da República?

Armando Falcão: Oxalá nós pudéssemos escolher um homem como o Papa presidente deste país. Entende? A eleição indireta também é democrática. De onde é que provém o delegado eleitor? Ele provém do voto direto depositado na urna pelo eleitor. Mas, o que se viu aqui? Que a influência de certas forças inadmissíveis em uma eleição, como a que houve aqui, na eleição do doutor Paulo Maluf, concorrendo para o governo do Estado, demonstra que também a eleição indireta oferece suas desvantagens e suas inconveniências. Daí, porque nós temos que pensar que só haverá realmente boa democracia neste país... E eu deixo isso muito expresso aqui no meu trabalho. Só haverá realmente boa democracia neste país, democracia que se aproxime da perfeição, democracia que se aproxime da pureza, quando o povo brasileiro for realmente preparado na base da formação da cidadania correta. Quando nós alfabetizarmos bem o povo, quando nós conseguirmos instilar na cabeça das pessoas os ensinamentos corretos para que elas distingam bem o que é bom e o que é mau para o país. Portanto, é um processo de lenta maturação, que nós não vamos chegar ao termo dele com rapidez e facilidade.

Jorge Escosteguy: O Dorival Durant, de São Paulo, e a Ângela Formosa, de Mairiporã. São Paulo, dizem: “O senhor considerou que o governo Geisel não foi autoritário. Por que o senhor dizia sempre, naquela época, nada tenho a declarar, se não havia o que esconder no governo?”

Armando Falcão: Eu já expliquei isso. Eu disse essa frase, que se transformou quase em um folclore. Eu disse essa frase uma vez na saída do gabinete assediado por jornalistas. Um deles, que hoje é até secretário de imprensa do governador Tasso Jereissati, Vanderlei Pereira, tanto me aperreou, tanto me assediou, que eu disse: “Vanderlei, você quer saber de uma coisa? Eu nada tenho a declarar.” Ele cravou.

Jorge Escosteguy: E quando perguntavam alguma coisa sobre o encaminhamento da política brasileira e o senhor dizia: “O futuro a Deus pertence?

Armando Falcão: Nem sempre. Quando cabia dizer isso, eu dizia, por que não é verdade que o futuro a Deus pertence? Não é válida a afirmação? De onde é que vem essa afirmação? É uma afirmação que eu ouvi quando era menino. Uma vez, o meu avô ficava olhando para o céu, para ver se vinha chuva. Não vinha chuva. Nove, dez horas da noite e ele não ia dormir.  Minha avó atrás dele: “Venha cá. Venha dormir.” E ele olhando para o céu. E minha avó um dia disse a ele: “Você deixa de olhar tanto para o céu, de pedir tanto a Deus para vir chuva, porque ela virá se Deus quiser e não virá se Deus quiser. Porque, afinal de contas, o futuro a Deus pertence.” E o conceito está certo.

Rodolfo Konder: Eu queria levantar com o senhor uma questão que me parece muito delicada. Eu sei que o senhor aflora a questão no livro. O senhor se mantém um homem informado, acompanha a vida política do país e certamente está sabendo que o Congresso Brasileiro já ratificou a Convenção da ONU Contra a Tortura, assinada pelo presidente Sarney, em 85. Apesar disso, a tortura no Brasil, ainda é uma prática constante nas delegacias, nos presídios e tem sido constantemente denunciada. Na época em que o senhor era ministro da Justiça, essa tortura atingia também presos políticos e prisioneiros de consciência. Isto é, pessoas que sequer tinham usado a violência ou pregado o uso da violência. Como é que o senhor se sente e como é que o senhor se sentia naquela época, participando de um governo onde a prática da tortura era uma constante?

Armando Falcão: Olha, eu vou dizer uma coisa a vocês: nós nunca recebemos uma informação, ou sequer um informe, sobre a prática de tortura que o presidente não mandasse, imediatamente, que as investigações fossem feitas com rapidez e profundidade. Do ponto de vista pessoal, eu vou dizer a vocês o seguinte: eu tenho horror, como você tem também, a qualquer prática de tortura. Eu vou dizer uma coisa. Eu, uma vez, dei uma palmada em um filho quando ele tinha 3 anos de idade. Foi a única vez que eu saí de uma sessão da Câmara. Eu era deputado, às 4 horas da tarde, com remorso, com sentimento de culpa, porque eu fiquei achando que tinha maltratado meu filho. Então, eu jamais admiti, ou admitiria, que alguém, sobretudo no exercício da autoridade, torturasse um semelhante. E haja vista o que aconteceu aqui, em São Paulo. Presidente Geisel, quando foi informado pelo governador Paulo Egídio, numa noite, num domingo, de que havia ocorrido uma segunda morte aqui, em São Paulo, ele soube disso às 8 horas da noite. Quando, no dia seguinte, eu cheguei a Brasília, eu estava no Rio, ele me disse: “Olha, passei uma noite infame, rolando na cama, do momento em que recebi essa informação até agora. O Paulo Egídio bem que podia ter deixado para me dar essa notícia agora de manhã, porque não me teria roubado o sono. Porém, aconteceu isso.” Ele me descreveu o fato. “E eu já determinei ao ministro do Exército que quero demitir o comandante do 2º Exército.” Embora, isso deve ser ressalvado, nunca se tenha pensado em admitir diretamente a culpa do general Ednardo D’Avila Mello. O general era considerado, com razão e justiça, um homem de bem, incapaz de permitir a prática da tortura. Mas, como era o segundo caso que acontecia aqui em São Paulo, o presidente Geisel me disse: “Eu estou no dever de dar uma satisfação à opinião pública e está na hora também de dar uma demonstração prática, efetiva, do nosso repúdio a essa monstruosidade.” Substituiu imediatamente o comandante do 2º Exército. O que vocês queriam mais que o presidente fizesse?

Hugo Studart: Como o senhor mesmo lembrou, houve pelo menos dois casos de tortura confirmada com morte, que foi a do jornalista Vladimir Herzog e esse outro caso que o senhor contou, do Manoel Fiel Filho, do operário. Bom, em outras palavras, havia tortura no governo Geisel?

Armando Falcão: Não que nós soubéssemos. Não. Quando nós soubemos, imediatamente foram tomadas as providências.

Hugo Studart: Mas será que o seu colega de ministério, o general Figueiredo, que na época era chefe do SNI, era mal informado? Ou será que escondiam informações dele?

Rodolfo Konder: O oficial que esteve conosco, aqui no Doi-Codi [extinto Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna], aqui, em São Paulo. Ele, entre outras coisas, quando nos comunicou a morte do Vladimir Herzog, disse: “Aqui dentro é assim. Veio para cá, entra no pau.” E ele disse assim: “Até o presidente da República.” E essa referência não terá sido fortuita: “Até o presidente da República, se amanhã vier para cá, entra no pau. Porque aqui todo mundo entra no pau.”

Armando Falcão: Mas ele disse isso?

Rodolfo Konder:  Disse isso, quando me comunicou a morte do Vladimir Herzog.

Armando Falcão: Isso é uma monstruosidade. Eu acredito na sua palavra, porque você há de ser um homem honrado, honesto, que não iria mentir. Mas só pode ser classificado como uma monstruosidade inadmissível. Agora, o que eu acho também é que nós precisamos condenar, profligar a tortura em todas as suas práticas, em todos os seus territórios. E, ao admitir plenamente a condenação da tortura e ao aderir a essa condenação, como eu faço, na área em que ela possa ter ocorrido, nos governos da revolução. Eu lembro que nunca vi um protesto da Anistia Internacional contra a tortura do Tupamaros, contra a tortura a que foi submetido aquele nosso compatriota lá no Uruguai, que ficou 8 meses(...) [Rodolfo Konder e o entrevistado falam ao mesmo tempo]. Um minutinho. Um de cada vez senão a confusão se estabelece. Muito bem. Então, eu vejo, que escrevem-se livros, levantam-se movimentos, que têm o apoio dos homens sensatos, que havia nos tempos da revolução, mas esquecem-se o que se passou antes. Por exemplo, já escreveram um livro neste país que chama-se Do fundo da noite, de um autor chamado Jean Valdan, que historia o acontecia no tempo do Estado Novo, sob a polícia do capitão Felinto Müller e do capitão Batista Teixeira. Eu, por exemplo, vou admitir que o presidente Getúlio Vargas, os seus ministros, inclusive o seu ministro da Guerra, general Eurico Dutra, que foi ministro da Guerra 11 anos, eu vou admitir que o presidente Getúlio Vargas soubesse o que passava-se e que está relatado naquele livro: Do fundo da noite. O que se fez com o senhor Henry Berger [alemão, companheiro de Prestes, torturado no Brasil]. O que ele conta que se fez com o senhor Luiz Carlos Prestes. Eu não admito, não concebo e seria injusto se assim procedesse. Nós, em cima, como nós estamos nas funções de governo, lá em cima, nós nem sempre somos rigorosamente informados sobre o que se passa nos desvãos.


Rodolfo Konder: Mas, então, só uma informação para o senhor ministro: a Anistia lida com governos, a Anistia surgiu em 61 e especializou-se nesse tipo de ação e de direito. A Anistia só lida com governos. Isso é só para esclarecer ao senhor. Para o senhor não dizer algo que não é pertinente em relação ao trabalho da Anistia. A Anistia só trabalha com violações de direitos humanos cometidas por governos [Konder foi membro da Anistia Internacional].

Armando Falcão: Mas, daí, ela é incompleta na sua ação. O que se fez com o diplomata brasileiro lá no Uruguai? O que se fez com o presidente Aramburú, na Argentina, fuzilado com um tiro na nuca, pelas costas, por um sujeito que até hoje está vivo? Agora parece que vai ser anistiado na Argentina. Eu não vejo protesto contra isso.

Jorge Escosteguy: Por favor, desculpe interromper, mas nós vamos ter que fazer um rápido intervalo e voltaremos em seguida.

Intervalo

Jorge Escosteguy: Voltamos com o Roda Viva. Ministro, o César Angelucci, da Vila Mariana, São Paulo, pergunta como o senhor explica ter participado de um governo democrático, como o de Juscelino Kubitschek, depois do regime militar e autoritário, como do general Ernesto Geisel? E eu acrescentaria. O senhor falava há pouco sobre o desconhecimento do governo da prática de tortura no Brasil, quando o senhor referiu-se à morte do Manoel Fiel Filho. Quer dizer, não havia nenhum instrumento de informação dentro do governo que comunicasse a ele, já depois da morte do Vladimir Herzog, que continuava havendo tortura no Doi-Codi, em São Paulo?

Armando Falcão: Vamos por partes. Primeiro, vamos ver a resposta do telespectador, sobre o governo Kubitschek e o governo Geisel. Evidentemente que as circunstâncias eram diferentes. Afinal de contas, não fui eu que fiz, ai de mim, a revolução de 1964. Agi e reagi sempre sem nenhum constrangimento à testa do Ministério da Justiça, em negócios interiores, naquele tempo, no governo Kubitschek, sob a égide da Constituição de 46. Fui uma autoridade pontual no cumprimento dos meus deveres. Tive problemas com a UNE [União Nacional dos Estudantes], tive problemas com um projeto de CGT [Confederação Geral dos Trabalhadores], que naquele tempo queria instalar-se. Combati-os com energia e no governo Geisel a legislação era toda diferente. Nunca me constrangi, não me arrependo de nenhum ato que tenha praticado. Mesmo porque, insisto em dizer, nunca apelei para a violência, nunca apelei para o excesso, nunca apelei para a demasia. Nunca fiquei aquém, mas nunca fui além. Qual era o ponto?

Jorge Escosteguy: Como o senhor explica a falta de informação durante o governo Geisel, sobre a prática da tortura, já que havia precedentes, inclusive no caso do Manoel Fiel Filho e da morte do Vladimir Herzog?

Armando Falcão: Nós acompanhávamos isso atentamente, sobretudo, o setor militar. O general Frota, por exemplo, salvo engano, eu menciono isso no livro, o general Frota, por exemplo, que é um homem rigorosamente contra esse tipo de procedimento, o general Frota me contava que havia noites em que ele visitava 18, 20 quartéis. E me contou que em uma certa noite, numa certa madrugada, ele foi visitar um quartel por causa de uma denúncia telefônica anônima, referente a uma presa que estaria sendo torturada. Ele chegava a esse detalhe. Então, ele foi ao quartel,  mandou abrir o xadrez na ala feminina e, realmente, estava uma presa lá dentro. Ele entrou xadrez adentro e a cama da detida, ou da presa, como queiram chamar, estava toda manchada de sangue. E ele interpelou com energia o comandante. Disse: “O senhor vai permitir? Nós vamos levar essa moça para um exame. Vamos submetê-la a um exame e o senhor vai ver, efetivamente, o que está acontecendo.” Levaram a moça e ela estava menstruada. O sangue que estava lá vinha do útero dela.

Alex Solnick: O general Sílvio Frota jamais visitou o Doi-Codi, em São Paulo, então. Porque, se visitasse, não teria tortura diariamente, noite adentro. [pergunta de forma cínica]

Armando Falcão: Essa pergunta tem que ser feita ao general Frota. Eu nunca visitei o Codi. Nunca fui ao Doi-Codi, nunca fiz parte do Doi-Codi, etc. A minha pasta controlava o Departamento de Polícia Federal. E, ali, eu coloquei um oficial, o coronel Moacir Coelho, um oficial da reserva, com curso na Inglaterra, curso no Canadá, e nós tivemos o maior cuidado. A mais absoluta cautela em relação aos procedimentos policiais. Tanto que na minha área nunca aconteceu nenhuma denúncia.

Dirceu Brisola: O senhor acredita que o Hitler também não era informado sobre o que acontecia nos campos de concentração? Ocorria a mesma coisa com ele?

Armando Falcão: Olha, eu conheço o Brasil. A Alemanha, o nacional-socialismo, o nazismo...

Dirceu Brisola: O senhor admite que ele não soubesse, nem o alto comando nazista?

Armando Falcão: Sinceramente? Aí eu não posso responder, porque eu nunca me dediquei ao estudo do regime nazista, das torturas dos nacionais socialistas. Eu, de política externa, sempre cuidei menos. É verdade que eu fiquei 10 dias como ministro do Exterior do Brasil. Naquela ocasião, até relato o que aconteceu no tocante a um paraguaio, que acabou sendo decapitado pelo Stroessner. Mas eu não tenho nenhum conhecimento.

Dirceu Brisola: Provavelmente, também sem o conhecimento do Stroessner? Provavelmente foi decapitado sem o conhecimento do Stroessner?

Armando Falcão: Isso, sinceramente, eu não sei dizer. Mas sugiro que você vá perguntar a ele, que está agora no Brasil e, quem sabe, ele pode informar a você. [responde com cinismo]

Hugo Studart: Eu gostaria de voltar a um outro assunto: a censura. Hoje, parece que o senhor é um homem bem mais condescendente do que foi.

Armando Falcão: Sempre fui.

Hugo Studart: Sempre foi condescendente?

Armando Falcão: Eu sou, como dizia o [diz algo incompreensível]. Eu e as minhas circunstâncias. Eu não podia, num regime de exceção, ao qual nós pusemos termo, não podia num regime de exceção deixar de cumprir a legislação pertinente, já que eu tinha aceitado ser ministro daquele governo. E aceitei com honra e gosto. Honra e gosto. Agora, será que não tem importância nenhuma dizer que, ao terminar o governo Geisel, não existia mais censura, não existia mais CGI, AI-5, tudo por iniciativa do presidente Ernesto Geisel? E digo mais, todas as decisões tomadas pelo presidente Geisel, a respeito da supressão desse tipo de situação, todas eram objetos de reuniões do Conselho de Segurança Nacional, que, como vocês sabem, é composto de todos os ministros de Estado mais os chefes de Estado Maior do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. Então, nós votávamos cada um, individualmente. Assim como cada ministro votava individualmente nos processos de cassação. Então, tanto nos processos de cassação e suspensão dos direitos políticos, como com referência à abolição da censura, a liquidação da CGI e a decretação do fim do AI-5, eu sempre fui voto a favor. E todos os meus colegas igualmente, inclusive o general Siívio Frota.

Jorge Escosteguy: O senhor votou por alguma cassação?

Armando Falcão: Todas as cassações eram objeto de votação individual.

Jorge Escosteguy: E o senhor votou a favor de alguma?

Armando Falcão: Todos. Eu e meus companheiros.

Jorge Escosteguy: E o senhor se arrepende de alguma cassação que o senhor tenha aprovado?

Armando Falcão: Não, não me arrependo não, porque, naquele momento, ela era necessária e justa. Agora, como dizia o presidente Castelo Branco, e eu refiro isso no livro, o processo era realmente inquisitorial, mas era uma contingência dos tempos. O presidente Castelo Branco dizia ao termo do primeiro prazo do Ato Institucional Número 1, vamos chamar assim, ele dizia: “Há quem queira a prorrogação deste prazo e isso é pior do que a Inquisição.” Acontece que depois veio a desordem nas ruas, os seqüestros de embaixadores, os atentados aos bancos, os atentados aos quartéis, os assassinatos, inclusive aqui, em São Paulo, etc. Isso tudo, num quadro de desordem, num quadro de pré-anarquia, forçou o governo à decretação do AI-5, que era indesejável, mas que se tornou inevitável.

Hugo Studart: Eu gostaria de completar aquela pergunta sobre censura. Eu tenho uma curiosidade muito grande, há muitos anos, de entender quais foram as circunstâncias que fizeram o senhor tomar duas atitudes memoráveis na história da censura. Uma foi a censura à exibição no Brasil das pinturas eróticas do Picasso. A outra foi o Balé Bolshoi, que por sinal está aqui, se exibindo hoje. Aqui no Brasil, inclusive, com algumas criancinhas em volta. Eu gostaria de entender as circunstâncias.

Armando Falcão: Com relação, tanto ao problema do Picasso, quanto ao problema do Balé Bolshoi [companhia de balé da Rússia], o que havia era um contexto totalmente diferente do que hoje prevalece. Naquele tempo, falar em Rússia era ser condenado à fogueira. Eu explico isso muito bem no livro, porque foi proibida a exibição do Balé Bolshoi na TV Globo, não em caráter definitivo, mas como peça integrante da propaganda da data da Revolução Russa, de 1917.

Hugo Studart: O Bolshoi fazia parte de uma conspiração maior?

Armando Falcão: Não, não era conspiração. Era comemoração. Não misture as coisas e nem as palavras, que é para ficar bem entendido o seu pensamento e a minha resposta. Então, o presidente Geisel me determinou: “Ultrapassado o prazo das comemorações, não há por que proibir o Balé Bolshoi.” Porque seria uma manifestação de anticultura, de burrice, de estupidez, que não teria cabimento. O problema parecido desse tipo, ou outros parecidos desse tipo, todos tinham que ser analisados à luz da legislação daquele tempo. Eu tinha um decreto de lei, elaborado por um eminente paulista professor de direito, o professor Alfredo Buzaid, meu antecessor, digníssimo, ilustríssimo, depois ministro do Supremo Tribunal Federal, hoje, aposentado. Você acha que eu faria certo se deixasse de cumprir a legislação? Não, eu estava integrado no governo.

Hugo Studart: E quanto às pinturas eróticas do Picasso?

Armando Falcão: Também. Tudo que era considerado atentatório à moral e aos bons costumes daquele tempo. Naquele tempo merecia a tesoura. Então, nós tocávamos a tesoura. Hoje em dia, se o senhor me perguntasse: “O senhor censuraria de novo o Balé Bolshoi?” Eu diria não. Não censuraria mais. Efetivamente, pode ter isso representado um excesso.

Rodolfo Konder: Mas, ministro, se o senhor estivesse na Alemanha, na época do Hitler, naquelas circunstâncias, o senhor mandaria os judeus para o campo de extermínio?

Armando Falcão: Deus me livre.

Rodolfo Konder: Então, ficamos numa situação complicada.

Armando Falcão: Eu sou amigo dos judeus, como sou amigos dos árabes [rindo]. Eu não pertencia ao Partido Nacional Socialista. Graças a Deus, eu nunca fui nazista. Eu sou brasileiro, pertenci ao Partido Social Democrata. Eu sou pessedista. PSD.

Jorge Escosteguy: O senhor, antes, falou que não fez o movimento militar de 64. Disse: “Ai de mim.” Esse "ai de mim", que o senhor disse, foi em tom de modéstia ou em tom de reprovação?

Armando Falcão: De modéstia.

Rodolfo Konder: Não, o senhor foi um dos líderes da conspiração, como o senhor conta aqui no livro.

Armando Falcão: Não, de modéstia, de modéstia para significar: “Quem seria eu, primo?” Eu, pobre paisano. Eu sou reservista de primeira categoria, apenas. Fui convocado na guerra, fui soldado, tive um incidente. Agora, não tive participação senão modesta e limitada naqueles acontecimentos, na tempestade que foi provocada pelo seu Leonel Brizola, que dizia que destruiria a Constituição de 46 para fazer as chamadas reformas de base na lei ou na marra. Ele é que é o pai, a rigor. Foi ele quem gerou a inevitabilidade da revolução de 64. Esse democrata que está hoje posando de cordeiro, quando na verdade é um lobão.

Dácio Nitrini: O senhor está se apresentando mais liberal, respondendo a todas as perguntas. O senhor mudou? O senhor não está mais Armando Falcão?

Armando Falcão: Eu sou Armando e sou Falcão, que ainda tem mais um nome, que complica. O meu nome real, verdadeiro, é Armando Ribeiro Severo Falcão. Imaginem se soubessem, quando eu era ministro da Justiça, que meu nome é Armando Severo Falcão. Estava perdido para o resto da vida.

Izalco Sardenberg: Eu queria fazer uma referência. O senhor parece que tem uma concepção histórica um pouco estranha sob certos aspectos. Quando o senhor trata da questão do governo do Ernesto Geisel, sem dúvida, foi um governo de estilo imperial, concentrou poderes terríveis, e o senhor disse, agora há pouco, quando estava respondendo a uma questão sobre o governo Geisel, o senhor disse: “O regime de exceção ao qual pusemos termo.” O senhor insiste nesse fato, que o próprio Geisel, que o próprio governo, foi tomando medidas para diminuir o seu poder. Mas o senhor não acha que isso é um pouco contrariar a história? Na verdade, não foram os movimentos que foram forçando o presidente Geisel a tomar essas atitudes? Por exemplo, o pacote de abril de 77 foi justamente uma tentativa de evitar que a oposição conquistasse a maioria no Senado, criando a figura do senador biônico. Quer dizer, não é que o presidente Geisel decidiu conceder a liberdade. É que a oposição no país foi crescendo e foi exigindo que ele fizesse isso. O senhor não acha que essa interpretação seria mais correta?

Armando Falcão: Olha, eu vou explicar de saída a você o seguinte: essa história de que o presidente Geisel é imperial é uma máscara que lhe afivelaram ao rosto indevidamente.

Izalco Sardenberg: Mas o senhor deu essa impressão. O senhor falou que a escolha do Figueiredo, por exemplo: “Não, vai ser desse modo”.

Armando Falcão: Deixa eu explicar. O presidente Geisel é o homem do debate, da discussão. Eu explico isso bem claramente no meu trabalho. Agora, ele não é, ele não confunde mando com desmando. Agora, é autoritário. Isso ele precisa ser. O presidente da República precisa ser autoritário, precisa ser o que o doutor Sarney não é. Precisa ter garra, senão ele não comanda. Senão não é chefe, não comanda, não preside. Vocês vejam, comparem o que era o governo Geisel com o que é o governo Sarney. O governo Sarney não lidera a Câmara. Não lidera o Senado. Não liderou a Assembléia Nacional Constituinte. No sistema presidencial de governo, o presidente é o chefe geral de política nacional. Então, ele comanda até os partidos de oposição, no bom sentido. Então, porque o presidente Sarney não tem autoridade imanente é que nós estamos aí nessa República anarcosindicalista. Em que acabou acontecendo uma Constituição que nem é presidencialista e nem é parlamentarista, porque não teve uma liderança nacional efetiva, que só quem podia exercê-la seria o presidente da República.

Alex Solnick: O senhor chamaria o governo Sarney de um governo fraco?

Armando Falcão: Eu não direi que o governo Sarney é um governo fraco. Eu direi que o governo Sarney é um governo com um presidente fraco. O problema de ministros, que acontece, por exemplo, não é problema ministerial não. Esse ministro da Fazenda que está aí, por exemplo, o ministro Mailson da Nóbrega? É um homem competente. É um homem rigorosamente probo [homem honrado, com retidão de caráter]. É um homem de uma honestidade acima de qualquer suspeita, como acredito também que os outros antecessores dele o fossem. Agora, ele não tem, como os outros não tiveram, uma diretiva descendo de cima para baixo. Resultado: dizem que ele já está sendo submetido ao processo que chamam de “fritagem”. Está sendo fritado. Então, começam a jogar uma autoridade contra a outra. Quando é que era admissível no governo Geisel, por exemplo, eu sair e criticar o ministro da Fazenda? Ora bolas, eu não tenho o direito, eu não gostaria, como ministro da Justiça, que o ministro da Fazenda viesse intrometer nos assuntos da minha pasta, para criticar-me e para dar-me lições disso e daquilo. Seu Oscar Correa fez isso e saiu porque quis. O doutor Saulo Ramos está fazendo isso e vai ficando. E quem é que perde autoridade no caso? É o ministro da Fazenda. Resultado: o processo inflacionário está subindo, está nas nuvens, já se fala aí que vai para 40%. Enquanto não houver um presidente sólido, forte, que prestigie a autoridade dos seus ministros e os contenha, cada um, na área das respectivas jurisdições, o Brasil vai de mal a pior.

Pedro Del Pichia: O senhor, no seu livro, no final, alerta o Brasil para o perigo da esquerdização, etc. Mas, o senhor, quando era jovem, também já viu no comunismo os seus encantos. Em 1935, o senhor era comunista, ou pelo menos se filiou a Aliança Nacional Libertadora.

Armando Falcão: Eu tinha 16 anos. Mas até me aconteceu uma coisa muito curiosa. Quando eu fui comunista, aos 16 anos, fui acometido de um sarampo violentíssimo [risos dos entrevistadores] e o sarampo me atacou a garganta e os olhos. E a minha mãe, que era muito religiosa, ficou apavorada e me disse que eu estava sendo castigada pelo céu porque tinha aderido ao comunismo e que a única maneira de eu recuperar a saúde era queimar, dentro do quarto, a ficha vermelha da Aliança Nacional Libertadora. E ela pegou a ficha, trouxe uma garrafa de álcool, um copo e eu incendiei a ficha naquele momento. Ela achou que a partir dali eu estava desinchando os olhos, estava ficando com a garganta recuperada e, realmente, a partir dali, eu fiquei com medo do comunismo.

Pedro Del Pichia: O senhor tem uma saúde de ferro hoje?

Armando Falcão: Com a graça do bom Deus e da Virgem Maria.

Jorge Escosteguy: Ministro, a Cristina Arantes, do Jardim Paulista, pergunta: “Gostaria de saber se durante o governo Geisel, não só as mulheres, mas também os homens menstruavam enquanto estavam presos?”

Armando Falcão: Isso aí é perguntar aos homens. Porque, aí, já se fica duvidando da masculinidade deles. Essa pergunta não faça a nenhum homem não. Diz a ela para fazer ao marido dela, se ela for casada.

Moura Reis: Eu gostaria simplesmente de conhecer o pensamento do senhor. O senhor falou que considerou as cassações justas e necessárias. O senhor enquadra nessa categoria a cassação de Juscelino Kubitscheck, de quem o senhor foi ministro?

Armando Falcão: Não foi no meu tempo.

Moura Reis: Não, mas não me refiro apenas ao seu tempo, me refiro às cassações do regime todo.

Armando Falcão: Não, não, não botaria. Quem propôs a cassação do mandato do presidente Kubitscheck foi o general Costa e Silva e eu explico isso.

Moura Reis: Não, mas o senhor considera as cassações do regime militar justas e necessárias e não apenas aquelas que o senhor assinou? Mas de 64 para frente?

Jorge Escosteguy: Essa pergunta também é feita, ministro, pelo Ricardo Segundo Guerra, da Freguesia do Ó.

Armando Falcão: O presidente Castelo Branco, por exemplo, dizia o seguinte: “Eu, se dependesse de mim, não teria cassado o deputado Guerreiro Ramos.” Aquele que era do Partido Socialista Brasileiro, se lembram? Naquele tempo tinha o PSB, Osório Borba e outros. O presidente Castelo Branco dizia: “Eu, se fosse presidente naquela época, não cassaria o sociólogo Guerreiro Ramos e não cassaria o deputado cearense Adail Barreto, da UDN [União Democrática Nacional] cearense.” Eu lhe digo também, seguindo nas pegadas do presidente Castelo Branco, eu não teria, como ele não teria, por vontade própria, cassado o mandato do presidente Kubitschek. Porque, até quando quiseram forçar um pouco uma segunda punição para o presidente Kubitschek, que era o seqüestro dos bens dele através da CGI, o presidente Geisel me advertiu que havia sido procurado pelo presidente do Congresso, o senador Magalhães Pinto, que por sua vez fora procurado pela excelentíssima senhora do presidente Kubitschek, e o presidente, de acordo com o meu voto, mandou sepultar definitivamente a tentativa de uma segunda punição ao presidente Kubitschek, que seria absurdo. De modo que, se dependesse de mim, se tivesse dependido de mim, o presidente Kubitschek não teria sido cassado, nem teria tido suspenso os seus direitos políticos.

Moura Reis: Então, na sua opinião, foi uma cassação injusta?

Armando Falcão: O caso concreto que eu conheço, sim.

Rodolfo Konder: O senhor disse que ela foi proposta pelo presidente Costa e Silva. O senhor há pouco falava que o candidato do PT [Partido dos Trabalhadores], o Lula, é um homem sem preparo para a presidência da República. Mas o general Costa e Silva, o senhor acha que ele estava preparado para a presidência da República?

Armando Falcão: Eu acho que não, por isso que o presidente Castelo Branco dizia que o presidente Costa e Silva, sem desapreço, sem desrespeito à sua memória, merece de mim toda a homenagem, o presidente Castelo Branco dizia que o general Costa e Silva não tinha preparo para ser presidente da República. Porque ele tinha deixado de ler a partir de quando era capitão. Então, ele não sabia mais nada. Ele veio com o propósito, não sei se vocês se lembram, de humanizar a revolução e, quando ele falava em humanizar a revolução, o presidente Castelo Branco dizia: “Vocês vão ver! Esperem um pouquinho que ele tem mesmo é alma de ditador, posando para a história de democrata.” E veio o AI-5.

Jorge Escosteguy: O senhor falou há pouco sobre o governo Geisel. Qual a importância que teve o general Golbery Golbery do Couto e Silva, foi ministro-chefe do Gabinete Civil durante o governo Geisel] no processo?

Armando Falcão: Grande importância, porque era um homem muito... [é interrompido].

Jorge Escosteguy: É ele o responsável por esse processo?

Armando Falcão: Não. Não. Aí, já é um exagero perante à história, chamar o general Golbery, por exemplo, de  mago da distensão. Que bobagem. Mago da distensão é o Geisel. A distensão só houve, e só poderia haver, não pela mão do general Golbery. O general Golbery era um homem inteligente, preparado, culto, patriota, etc.

Jorge Escosteguy: Leu até general?

Armando Falcão: Leu e lia. Só que a frase dele, o discurso dele, era gongórico [prolixo], era arrevesado, era circunloquial. Você, para entender uma frase do general Golbery, tinha que ler pelo menos 10 vezes. Agora, era um homem correto, decente, etc. Agora, não tinha prestígio militar, não tinha força política, não tinha autoridade militar, nem política. Como é que esse homem podia ser mago?

Alex Solnick: Tinha muita relação com a imprensa.

Armando Falcão: E essa relação com a imprensa começou de uma aproximação que eu fiz na minha casa,  antes de ele tomar posse. Fui eu quem levou à presença dele na minha casa, o Carlos Chagas, o Villas-Boas Correias, o Elio Gaspari, o Murilo Melo Filho [citando jornalistas]. Eu fiz uma relação, fiz uma listagem. Quando chegou o nome do Castelinho, do Carlos Castelo Branco, ele riscou: “Esse é dose.” Eu disse: “Por que o senhor está riscando esse?” Esse é dose, foi a resposta que ele me deu. Tirou o Castelinho. Fui eu que o aproximou da imprensa e acho que eu fiz muito bem nisso, porque ele era um homem de extrema simpatia pessoal. Foi bom para ele e para o governo que ele mantivesse um diálogo permanente, constante, com a imprensa.

Izalco Sardenberg: O senhor acha que a imprensa é dose?

Armando Falcão: Não. E vocês querem saber de uma coisa? Eu devo a minha carreira política à imprensa. Quem são? Villas-Boas Correias, Odylo Costa Filho, Rafael Correia de Oliveira, Prudente de Moraes Neto.

Dirceu Brisola: Roberto Marinho não?

Armando Falcão: Não. Roberto Marinho nunca foi desse tipo de influência, uma presença viva. O jornalista Roberto Marinho sempre foi mais, ficou mais afastado. Eu me refiro àquela tribuna da imprensa, que existia no Palácio Tiradentes.

Dirceu Brisola: E tanto que o que se dizia, quando o senhor era ministro, é que o senhor contava com total apoio do doutor Roberto Marinho. Inclusive, o senhor falava com ele diariamente.

Armando Falcão: Não, isso não é verdade. Eu sempre contei com o apoio do O Globo.

Moura Reis: Nos anos 60, o senhor freqüentava muito a redação do O Globo.

Armando Falcão: Muito relativamente. E eu tenho o maior prazer em dizer que eu tive satisfação e honra em ser amigo dele.

Alex Solnick: Ele não tinha esse poder todo que se fala, o doutor Roberto Marinho? Mandava mais que os presidentes?

Armando Falcão: Isso quem diz é o doutor Leonel Brizola. [risos]

Pedro Del Pichia: O senhor não acha que jornalista é comunista?

Armando Falcão: Não. Depende. Há jornalista que é comunista e jornalista que não é comunista. É óbvio, óbvio, óbvio. Como tem soldado bom e soldado ruim. Como tem general patriota e general que não é patriota. Em todo problema humano, em todo território em que pisa o bicho homem... [é interrompido]

Jorge Escosteguy: Quem é o general que não é patriota?

Armando Falcão: Não vou nomear não, porque, aí, eu teria que fazer uma pesquisa e iria tomar o tempo de vocês.

Dirceu Brisola: Qual a sua opinião sobre Gorbatchov [Mikhail Gorbatchov, líder  que, a partir de março de 1985, dá início ao processo de reformas que resultaria no fim da URSS]?

Armando Falcão: Está, aí, o Gorbatchov brasileiro, querendo, é o Roberto Freire. Tudo com vistas à eleição para deputado federal. Esse camarada não está fazendo campanha para presidente da República. Ele sabe que tem de apoio uma dízima periódica. Zero, zero, zero não sei quantos por cento para ser candidato à presidência. Ele está com vistas à reeleição para deputado federal. Acho que o Gorbatchov está fazendo uma abertura. Eu não confio muito nele não, porque, para mim, até hoje, ele não disse que repudiava a doutrina marxista. Até hoje, ele não disse que respeita o direito de propriedade. Até hoje, ele não disse que realmente admite o pluripartidarismo. Vamos ver no desdobramento, se ele vai deixar que a Hungria acabe com o Partido Comunista, que a Polônia governe o futuro com pluralismo partidário, etc. Se fizer isso, ótimo, porque, aí, significa que ele reconheceu que a Revolução de 1917 [referindo-se à Revolução Russa] acabou.

Dirceu Brisola: O senhor, no início do programa, disse que era contra a censura de caráter político, porque é impossível fazer uma censura adequada e satisfatória. O que seria, na sua opinião, uma censura de caráter político adequada e satisfatória?

Armando Falcão: Eu vou dizer. Você quer ver como é difícil. Por exemplo, aqui em São Paulo, nós tivemos um período, quando eu assumi o Ministério da Justiça, no governo Geisel, que nos locais em que os censores cortavam as matérias, colocavam literatura, Camões, etc. Frustrando, portanto, desmoralizando completamente a função do censor. A censura nunca pode ser implantada para atender a maioria de opinião do próprio governo. Dentro do governo, havia quem chegasse e me dissesse que eu estava sendo liberal demais. Pouquíssimos eram os que chegavam e achavam que nós deveríamos caminhar para o fim da censura. Houve um caso de um senador, naquele tempo da Arena [partido político] e que hoje é do PMDB, o senador Wilson Campos, que hoje é pai do vice-governador de Pernambuco. Por exemplo, esse eminente correligionário do doutor Ulysses Guimarães, queria que eu aplicasse a censura a um processo que ele estava envolvido e acabou resultando na cassação do seu mandato. Então, é praticamente impossível você fazer uma censura política sem criar problemas insolúveis para o governo. O que eu acho que precisa haver no Brasil é uma legislação ordinária, e eu digo isso no meu livro, que defenda o cidadão da injúria, da calúnia e da difamação, permitindo que ele recorra à justiça, sem o perigo de o processo acabar sempre morrendo por força da prescrição legislativa ou jurídica. Isso é o que eu acho. Mas pode anotar aí, que no que depender desse seu modesto compatriota, no que depender de mim, acho que a censura é um mal que não pode voltar a existir nesse país.

Hugo Studart: Com relação às eleições, o seu candidato no segundo turno, como o senhor mesmo disse, provável candidato Collor de Melo. O senhor acha que ele é mais preparado do que Costa e Silva? Eu gostaria só de lembrar que ele é bem mais novo do que Costa e Silva.

Armando Falcão: Ele foi um governador, segundo eu tenho procurado saber, ele foi um governador atuante. Ele é de Alagoas, que é lá perto da minha região cearense. Ele foi um governador atuante, ele é um homem que me dizem preparado. Eu conheci muito o pai dele, foi meu colega, o senador Arnon de Mello. Foi também deputado, infelizmente, se viu envolvido num incidente desagradabilíssimo, em que acabou morrendo um senador, aquele do Acre. [Citando episódio de 1964, quando, o então senador, Arnon de Mello atira em Silvestre Péricles, também senador e seu inimigo político, durante uma discussão no plenário do Senado. O tiro atingiu um senador do Acre, José Khairallah]. Bem, é um homem que fala muito bem, quatro línguas, é um homem forte. Agora, se faz contra ele uma campanha difamatória terrível. Eu estou vendo todos os dias. Mas, essa campanha também eu vi contra o meu correligionário Juscelino Kubitschek, quando ele foi candidato à presidência da República. Fizeram até uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar os bens dos candidatos e aquilo era com vistas à candidatura Kubitschek. Só que em campanha eleitoral há muito excesso, há muita demasia, há muita injustiça e contra a injustiça e a demasia é preciso que se precate o eleitor esclarecido.

Hugo Studart: Mas, na sua opinião pessoal, ele é mais preparado que o general Costa e Silva?

Armando Falcão: Acho que é. Ele exerceu um cargo de governador, foi deputado. O general Costa e Silva nunca tinha exercido na vida civil uma função executiva importante. Esse negócio de falar mal do político, eu defendo. Como é que pode haver política sem político? E como é que pode haver democracia sem política? Então, está se generalizando demais. Eu sei que há muito político incorreto, muito político de procedimento censurável, mas são minorias. Eu sou a favor do político profissional. Eu acho que o político tem que ser um profissional, como Winston Churchill [primeiro ministro britânico falecido em 1965] foi um político profissional, como Franklin Roosevelt [presidente dos Estados Unidos falecido em 1945] foi um político profissional,  como Aldo Moro [primeiro ministro italiano falecido em 1978] foi um político profissional. Porque é do tirocínio no exercício da vida pública que se chega a formação do estadista.

Jorge Escosteguy: Ministro, o Vladimir Nunes, de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, pergunta: “Por que todas as pessoas que ocuparam cargos de primeiro escalão só contam as verdades depois que saem dos governos? Só têm tudo a declarar depois e não durante?”

Armando Falcão: Não. É porque ele não leu meus livrinhos. Eu, antes do Tudo a declarar, escrevi três ou quatro livrinhos. Escrevi um livro chamado Réus do futuro. Escrevi outro livrinho chamado A revolução permanente. Escrevi outro livrinho chamado A democracia moderna e escrevi outro livrinho chamado A revolução constrói. Neles está a defesa do meu pobre pensamento, das minhas pobres idéias. O problema é que a gente nem sempre encontra leitor.

Dirceu Brisola: O senhor é titular de um cartório no Rio de Janeiro?

Armando Falcão: Fui. Fui titular de um cartório no Rio de Janeiro com muita honra e na titularidade desse cartório posso dizer que pautei... [é interrompido]

Dirceu Brisola: É bom negócio, cartório, doutor Armando?

Armando Falcão: Deixe, chegarei lá. Pautei as minhas ações pelo padrão da honestidade, da correção, da honradez. Se é bom negócio, quem pode informar a você não sou eu. É o imposto de renda a quem eu declarei sempre o que eu arrecadava no cartório. Eu nunca escondi as minhas rendas, as minhas receitas. Agora, não me acanho não. Inclusive, porque eu fui titular de um cartório cujo primeiro titular foi um sobrinho de Quintino Bocaiúva, o grande prócer da República. De sorte, que quando falam em cartório, se pensam que me constrange. Absolutamente. Eu tinha como colegas Luiz Simões Lopes, presidente da Fundação Getúlio Vargas, Sá Freire Alvim, prefeito do Distrito Federal, Lucas Lopes, ministro da Fazenda, Osvaldo Penido, chefe da Casa Civil da presidência. Só que eu nunca fui negocista, nunca fui contrabandista, nunca enveredei pelos caminhos da incorreção, do uso dos dinheiros públicos, e, de sorte, com a graça de Deus, eu posso olhar para trás e deixar para meus filhos, eu tenho uma família numerosa, tenho 6 filhos, exemplos satisfatórios de cumprimento do dever moral.

Dácio Nitrini: Recentemente, a dona Iolanda Costa e Silva, numa entrevista à imprensa, disse que a dona Teresa Goulart estava encabeçando um movimento das viúvas dos presidentes. Que elas estavam recebendo apenas 500 cruzados mensais. O senhor está vivendo como? Qual é o seu rendimento? O senhor está reclamando do que o senhor recebe atualmente também?

Armando Falcão: Eu estou vendo que isso aqui é um pouco também, às vezes, um pouco parecido com o Pelourinho. Eu enfrento o Pelourinho [risos]. Pode ficar tranqüilo que eu não estou pedindo dinheiro emprestado a ninguém, não estou assinando promissória para viver adequadamente e eu não vou dar, não vou oferecer aqui minha declaração à vocês. Porque, primeiro, eu não sou candidato a nada, se fosse prestaria as informações perante a Justiça Eleitoral. Segundo, renda, rendimento, é problema pessoal, é problema de natureza privada. Como eu não sou homem público mais, nem estou pleiteando eleição para coisa nenhuma mais, nem agora, nem no futuro, eu não tenho porque ficar esmiuçando. Dizer a você que ganho x. Então, eu perguntaria a você, qual é o seu salário, no seu jornal, você está satisfeito com o seu salário? Você acha que está ganhando pouco, ganhando muito? Qual é a renda do diretor do seu jornal? Você acha que ele está ganhando pouco, ganhando muito? Qual é sua opinião sobre a importação de papel do seu jornal, sem o pagamento de tributos adequados, você acha que é justo ou injusto?

Jorge Escosteguy: Ele trabalha na televisão, ministro.

Armando Falcão: Ou na televisão, etc. Enfim, esse tipo de discussão, não é que eu me furte a ele, mas é que não leva a nada. A que nós vamos chegar?

Pedro Del Pichia: O senhor invoca sempre o nome de Deus, em várias vezes, nessa entrevista. Mas, o senhor divide a igreja católica no Brasil entre a má igreja e a boa igreja. No seu livro, o senhor discorre longamente ...[é interrompido]

Armando Falcão: Sem dúvida alguma. Você acha que eu vou confundir o dom Eugênio com o padre Boff [referindo-se ao teólogo Leonardo Boff, ideólogo da Teologia da Libertação, movimento de esquerda dentro da Igreja Católica]? [risos] Você acha que eu vou admitir que, em vez de tratar da transcendência, o bispo vá tratar da reforma agrária? Você acha que o homem que precisa do sobrenatural, que precisa pensar no depois, porque eu acredito na vida após a morte, você acha que é possível pegar o Frei Beto [escritor e religioso que esteve envolvido com as lutas armadas na época da ditadura militar]? Você acha que eu vou me confessar com o Frei Beto?

Dácio Nitrini: Não pode. Ele é frade.

Armando Falcão: Ou frade. Ele aparece como frade, ou como freire. Você acha que eu vou pegar o dom Casaldáliga [Pedro Casaldáliga, bispo espanhol, radicado no Brasil, que lutou contra a ditadura militar], aquele comuna [risos] lá do Araguaia, responsável por uma série de incidentes com feridos e mortos. Comunista militante, autor de uma biografia, ele é um bom poeta, por sinal, a poesia dele sobre o Che Guevara, do ponto de vista literário, é uma maravilha. Você acha que eu vou confundir a figura dele com a figura do Papa? O dom Evaristo Arns, o Deus do dom Evaristo Arns é outro, o meu Deus está no céu. O dele é o doutor, o general, o capitão, tenente, sargento, não sei o quê, Fidel Castro. Esse é que é o amigo dele. Ele faz uma carta, como fez há poucos meses, tratando o Fidel Castro, de meu queridíssimo Fidel.

Alex Solnick: O senhor é politeísta, então? Acredita em vários deuses?

Armando Falcão: E esse Fidel Castro é o mesmo sujeito. É contra isso que eu me rebelo. Esse Fidel Castro, que ele chama de meu queridíssimo amigo, mandou fuzilar, em Cuba, em praça pública, 1.600 pessoas. Será que o dom Evaristo Arns não se lembra disso? Ele protestou contra isso ou ele absolveu o senhor Fidel Castro de tantos crimes? O Papa diz o seguinte. Primeiro, padre e bispo não podem ser agentes do serviço social. Padre e bispo não podem ser políticos partidários. Padre e bispo não podem fazer da preferência pela pobreza um direito que exclua os ricos, porque Cristo não era contra os ricos, Cristo era contra o mau uso da riqueza, que são outros quinhentos mil réis. Então, não me venham com essa história de Teologia da Libertação, porque, para mim, bispo é dom Eugênio. É aquele de Aracaju. É o dom José Freire Falcão, que por sinal não é meu parente, o arcebispo de Brasília. Essa igreja progressista, do meu conterrâneo e pessoalmente meu amigo, dom Hélder, essa igreja, ela não é a igreja realmente de Deus. Ela é uma igreja que está contra os fundamentos da doutrina cristã. É isso que eu penso.

Jorge Escosteguy: Ministro, nós agradecemos a sua presença esta noite, no Roda Viva. Nosso tempo está esgotado. Agradecemos as presenças dos nossos convidados jornalistas e aos telespectadores que telefonaram fazendo perguntas. As que não puderam ser feitas ao ex-ministro Armando Falcão, serão entregues a ele. O Roda Viva fica por aqui para voltar na próxima segunda-feira, às 21h40, logo após o horário gratuito eleitoral. Uma boa noite e até lá.

Armando Falcão morreu em 10 de fevereiro de 2010, aos 90 anos, em decorrência de uma pneumonia, em sua caso no Rio de Janeiro.

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