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Bonnie Anderson

26/12/2005

Jornalista veterana da CNN fala dos problemas do noticiário atual: para ela, misturar diversão com notícia coloca em risco a credibilidade dos meios de comunicação

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Paulo Markun: Boa noite. Uma pesquisa nos Estados Unidos mostrou que 58% dos entrevistados acreditam que os jornalistas inventam matérias. Uma veterana jornalista americana acha que as razões disso estariam no jornalismo de entretenimento adotado por grande parte da mídia americana e que também é praticado no Brasil. Ela faz um alerta: misturar diversão com notícia pode colocar em risco a credibilidade dos meios de comunicação. Imprensa livre e jornalismo sério são as bases da democracia. O Roda Viva entrevista essa noite Bonnie Anderson. Uma das mais conhecidas jornalistas americanas e que se tornou também uma das maiores críticas do jornalismo de entretenimento.

[Comentarista]: Bonnie Maria Anderson é uma veterana do jornalismo americano. Começou como repórter em jornais e depois foi trabalhar em grandes redes de TV. Passou pela NBC News e mais tarde pela CNN, onde ficou 10 anos. Chegou a ocupar a vice-presidência da empresa e foi responsável pela implantação da CNN em espanhol. Hoje, Bonnie Anderson trabalha como consultora na área de comunicação e jornalismo. Analista e crítica das práticas adotadas por jornais e telejornais americanos, ela tem centrado sua atenção nas relações entre jornalismos, entretenimentos e negócios. Chegou a ser processada pela CNN por criticar práticas jornalísticas da rede, que considera não recomendável. Mas ganhou o processo. Leva seu trabalho a vários países, incluindo o Brasil, através de cursos, congressos e treinamento para profissionais e estudantes de jornalismo.

Paulo Markun: Para entrevistar Bonnie Anderson, nós convidamos Nelson Hoineff, presidente do Instituto de Estudos de Televisão; Lourival Sant'Anna, repórter especial do jornal Estado de S. Paulo; Andréa Dantas, editora chefe da revista Caras; Mauro Malin, Observatório da Imprensa; Cadão Volpato, editor do grupo Trip; Demétrio Magnoli, editor do jornal Mundo; Domingos Fraga, criador da revista Quem e diretor da Editora DF5. Também temos a participação do cartunista Paulo Caruso registrando em seus desenhos os momentos e os flagrantes do programa. O Roda Viva é transmitido em rede de televisão para todos os estados brasileiros e também para Brasília. E, hoje, o programa está sendo gravado, por isso não permite a participação dos telespectadores. Boa noite, Bonnie. Eu queria começar com você contando um pouco da sua trajetória pessoal e profissional. Você nasceu em Cuba?

Bonnie Anderson: Sim. Antes de mais nada, quero agradecer. É uma grande honra estar aqui com você no Roda Viva, com nossos estimados colegas.

Paulo Markun: Nós que agradecemos.

Bonnie Anderson: Na verdade, eu sou fã do seu programa. Nasci em Cuba, de mãe cubana e pai americano, e ficamos... Fiquei lá cinco anos. Quando eu tinha cinco anos meu pai foi fuzilado por Fidel Castro [(1926-) governante de Cuba desde a revolução (1958-1959) que derrubou Fulgêncio Batista até 2008, quando renunciou oficialmente ao cargo de chefe de Estado, deixando em seu lugar o irmão Raúl Castro. Ver entrevista com Fidel no <b>Roda Viva</i>]. Nesse momento, acho que cresceu... Foi aí que começou a crescer minha vontade de ser jornalista, porque sei que com uma imprensa livre e responsável esse tipo de coisa não aconteceria.

Paulo Markun: Seu pai trabalhava em quê?

Bonnie Anderson: Ele tinha negócios próprios, postos de gasolina. Era americano. Na verdade, quando Fidel Castro apossou-se de todo tipo de negócio dos americanos, não podia fazer isso com o nosso, porque era uma empresa cubana. E os postos sempre são, durante uma revolução, propriedades estratégicas. Nós perdemos meu pai, perdemos nosso país, ficamos alguns anos em Miami, depois em Bogotá, onde me criei. Então, estudei jornalismo um ano nos EUA, e o choque cultural foi tamanho que fui à Espanha no 2º ano, mas voltei para receber o diploma.

Paulo Markun: No livro você menciona uma frase que seu pai deixou para seu irmão, que gostaria que você repetisse. E também algo que, de alguma forma, você considerava uma espécie de resumo da filosofia dele para você.

Bonnie Anderson: De meu pai?

Paulo Markun: Sim.

Bonnie Anderson: Ser honesto, dizer a verdade, não ter medo do que pode acontecer se você disser a verdade. Isso é sumamente importante para mim. Como jornalista, essa deve ser a nossa missão - informar o público de maneira honesta, responsável, equilibrada. E fazer isso de maneira responsável. A base para isso é ser honesto com você mesmo e com o público.

Paulo Markun: E como você foi parar na televisão?

Bonnie Anderson: Como entrei para a televisão? Foi um engano. Foi uma coisa que aconteceu de repente. Eu era correspondente do [jornal] Miami Herald, então, um diretor de jornalismo de um canal local de Miami me ligou e disse: “Se você quiser, poderemos ensiná-la a fazer jornalismo na TV.” Eu pensei bem, porque era jornalista da imprensa escrita e achava que nosso jornalismo era o único verdadeiro, mas pensei: “por que não? Por que não?”. Então, me contrataram. Fiquei nesse canal local por dez meses. E, então, a NBC, que já era um canal nacional, quis me contratar para ser correspondente na América Latina, e esse era meu objetivo final. Eu sempre quis vir para América Latina para ser correspondente para minha gente, sobre minha gente, para tratar de lançar uma luz sobre os problemas do continente.

Lourival Sant'Anna: Bonnie, depois desse percurso, você voltou à sua premissa original, de que jornalismo só se faz em jornal, em revista impressa. E que na televisão é impossível fazer jornalismo.

Bonnie Anderson: Aprendi que é possível fazer bom ou mau jornalismo em qualquer meio. É possível fazer um péssimo jornalismo em jornais, revistas, em televisão ou rádio. Mas também, se nos orientarmos por boas causas, se realmente levarmos em conta nossa responsabilidade de informar o público, já que a questão não somos nós, isso não importa, a estrela não sou eu, nenhum repórter é estrela. Somos pessoas que transmitem os feitos de outras pessoas. Se você mantiver essa linha dá para fazer um bom jornalismo. Devemos sempre procurar fazer as coisas assim.

Mauro Malin: No seu livro, a senhora usou a palavra “lixo disfarçado de notícia". “Garbage” [lixo em inglês] é uma palavra pesada. O que a levou, exatamente, a usar essa palavra. O que a senhora viu?

Bonnie Anderson: Usar essa palavra para o que se vê com freqüência na TV? Porque não é notícia. Tenho fascínio pelo entretenimento, por programas de entretenimento, desde que fique bem separado o que é entretenimento e o que é notícia, desde que haja uma linha muito bem delineada entre um e outro. Infelizmente, agora, muitas redes nos EUA têm, nos cargos mais altos, gente que vem do mundo do entretenimento e que usa técnicas e estratégias do entretenimento para vender notícia. Como escrevi no livro, todos que tenham mais de quarenta anos eles estão dispensando. Eles me deram a seguinte ordem: “Bonnie, quero que você contrate apenas jovens bonitos”. Isso não tem nada a ver com notícia. Para mim, muito do que está sendo colocado no ar supostamente como notícia, não é. É lixo. É lixo. E é desperdício de um tempo fundamental, um tempo que poderíamos usar para informar as pessoas, por exemplo, sobre quem era Osama Bin Laden antes do 11 de Setembro [atentado 11 de setembro]. Ou, para mostrar ao público americano, por exemplo, o ódio de muitos países do mundo contra os EUA. O público americano não sabia nada disso, e a culpa é totalmente da mídia, das fontes de informação americanas que, em vez de informar sobre questões importantes, mostram cem horas de reportagem sobre Michael Jackson [cantor de música pop. Foi acusado, em 2005, de abuso sexual a uma criança de 13 anos. Foi considerado inocente], ou sobre O. J. Simpson [jogador de futebol americano, também fez participações em alguns filmes. Acusado de assassinar sua esposa em 1994. O veridito foi não culpado. Aproximadamente 20 milhões de pessoas assitiram ao julgamento], ou sobre qualquer mulher bonita que é morta não sei onde. Isso é, na verdade, lixo, não é jornalismo.

Domingos Fraga: Mas você pode fazer jornalismo sério ouvindo as fontes erradas, o que não deixa de ser um erro.

Bonnie Anderson: Se dá para fazer jornalismo sério?

Domingos Fraga: Você pode, por exemplo, falar de assuntos sérios ouvindo fontes erradas, isso não tem nada a ver com entretenimento. Vou dar um exemplo, você pode desvirtuar o que você está fazendo. Você pode passar duas horas, ou escrevendo duas horas sobre um assunto sério só ouvindo as fontes do governo Bush [Sucedeu Bill Clinton na presidência dos Estados Unidos. É do Partido Republicano e filho do ex-presidente americano George H. W. Bush. Seu mandato notabilizou-se pela reação aos ataques de 11 de setembro de 2001 (na chamada Guerra ao Terror), pela invasão do Iraque e outros], por exemplo. Isso não tem nada a ver com entretenimento, você está discutindo um assunto sério, mas de uma maneira desvirtuada.

Bonnie Anderson: Há quem ache que duas horas sobre Bush é entretenimento?

[Risos]

Andréa Dantas: Você não acha que o público americano também tem culpa? Porque afinal é ele que assiste, e a mídia faz o que ele quer assistir. Então, ele prefere o entretenimento à notícia.

Bonnie Anderson: Exatamente. A culpa é da mídia, mas também do público, que não está pedindo mais e melhor. As pessoas ficam olhando e aceitando tudo que chega por meio do aparelho de TV. Mas, se quiserem uma imprensa livre e responsável - visto que é possível ser livre e passar informações irresponsáveis - elas precisam parar e falar, começar a dizer, votar com seu próprio televisor tirando do programa, mas o melhor é mandar cartas, falar com os canais e dizer: “Hoje morreram sete pessoas no Iraque, e você começou o programa falando da morte de Bob Hope [(1903-2003) ator e comediante. Formou ao lado do cantor Bing Crosby uma das maiores duplas cômicas do cinema]”. Por favor, o que é mais importante? Bob Hope... Contar a história da morte de Bob Hope é importantíssimo, mas o que é mais importante? Isso merece tempo em outro programa e uma menção no noticiário principal.

Andréa Dantas: Mas você acha que o público está com esse interesse? Porque esse público poderia está migrando, por exemplo, para os jornais ou para as revista analíticas e elas também estão perdendo leitores e audiências. Então, a impressão que dá é que o público não está interessado. Não só lá, aqui também.

Bonnie Anderson: Eu acho o seguinte: se nós, jornalistas, fizermos reportagens bem feitas, sérias, com contexto, com informação e bem relatadas, bem escritas, o público se interessa. Se eu preparar uma matéria para a TV ou para o rádio sobre a morte de pessoas na África, vítimas da aids, e se fizer isso usando exemplos verdadeiros, mostrando uma família que perdeu todos os filhos, se for bem feito, as pessoas vão ver, vão querer ver. O problema é que muitos colegas nossos são preguiçosos, não querem trabalhar tanto, não fazem o trabalho de maneira interessante para o público. E estão mais interessados em sua própria carreira, em saber quando vão ficar no seu lugar [do entrevistador] aqui nesse programa tão elegante e respeitado...

Paulo Markun: O meu não. [risos]

Bonnie Anderson: Para eles, isso importa mais do que informar o público. A culpa é do público, é de nós jornalistas, mas também das grandes corporações que, agora, são donas das maiores redes nos EUA, por exemplo, e que só se importam com o dinheiro.

Nelson Hoineff: Agora, Bonnie, justamente isso, eu iria perguntar. Você, no seu livro, você credita aos executivos das grandes corporações a deterioração da notícia, e você descreve algumas ações que vão desde da escolha do repórter pela sua aparência, até a colocação do objetivo do lucro, acima da informação. Eu lhe pergunto duas coisas. Primeiro, se você acredita que essa seja uma tendência que, de alguma forma, possa ser evoluída, possa mudar. E, se os meios de informação, se os novos meios de informação, menos dependentes das grandes corporações, como a internet por exemplo, eles são mais imunes a isso. E, portanto, serviriam para informar o público de uma maneira mais equilibrada.

Bonnie Anderson: Vou responder a segunda parte. A internet, agora, é extremamente importante, porque fica imune, não sofre a mesma pressão das corporações para gerar dinheiro. Mas também, muitas vezes, não tem a mesma ética dos jornalistas, cuja formação leva anos. Qualquer um pode fazer um blog agora, e todo mundo lê isso, mas não significa que se esteja seguindo a mesma ética ou que seja verdade. Para o público também será difícil saber a diferença entre notícia verdadeira por escrito e informações que podem ser lidas na internet e que talvez não sejam verdadeiras, ou talvez... Isso não tem a mesma ética, não segue os mesmos passos que nós, jornalistas, ficamos acostumados a seguir. É um pouco perigoso também. Eu preciso dizer, quanto à primeira pergunta, que tenho fé. Porque precisamos acreditar que podemos resolver o problema. Estamos num momento crítico para o desenvolvimento ou a destruição do jornalismo, uma coisa ou outra. Estamos numa situação muito séria, e está acontecendo a mesma coisa no mundo inteiro. Precisamos resgatar isso, precisamos resgatar, porque sem uma imprensa livre e responsável não pode existir um governo representativo, um governo democrático. Se quisermos nos manter como jornalistas livres, para poder informar o público, precisamos nos unir no mundo inteiro, os jornalistas e o público, para exigir, para dizer: “Precisamos fazer isso e precisamos das mudanças agora”.

Demétrio Magnoli: Bonnie, me preocupa um pouco, essa tendência de distribuir a culpa por todo mundo - público, corporações, governo, por todos os lugares. E, há mais ou menos um ano saiu uma entrevista... Uma pesquisa durante a campanha eleitoral nos Estados Unidos dizia que público americano era o único no mundo que continuava acreditando que Saddan Hussein tinha armas de destruição em massa. Isso diz alguma coisa sobre a mídia americana, quer dizer, o Paulo Markun começou dizendo que a informação e o entretenimento estão misturados no mundo todo e no Brasil também. Mas parece que nos Estados Unidos a coisa é um pouco pior; porque não tem só o poder econômico, parece que tem um viés político muito claro, não é? Produzindo não só lixo, mas mentira.

Bonnie Anderson: Você tem absoluta razão. Também estamos passando por uma época na qual surge uma nova definição da palavra patriotismo nos EUA. Se o presidente diz que há armas de destruição em massa no Iraque, é anti-patriótico e anti-americano dizer publicamente que não há. Muita rede [de televisão] tem medo disso. Mesmo que divulguem a verdade, não vão dizer isso em voz alta.

Demétrio Magnoli: Mas não são só as cadeias de TV não é? Os grandes diários New York Times, Washington Post, durante muito tempo - depois eles mudaram, pediram desculpas - mas durante muito tempo, no calor da invasão do Iraque, continuaram fundamentalmente confirmando a suposta existência das armas de destruição em massa. Quer dizer: é um fracasso de conjunto, na mídia americana, não só das cadeias de TV.

Bonnie Anderson: Você tem razão. Eu acho que nos últimos dez anos a população americana assumiu uma tendência mais conservadora. Foi o que se viu nas eleições. No entanto, isso também se observou no sucesso obtido por jornais, canais de TV e programa de rádio que fazem uma programação para esse segmento da população. Por exemplo, o canal Fox passou a CNN muito rápido, e agora tem mais espectadores do que a CNN. A lição que se tirou disso foi: “Agora precisamos ser mais conservadores, precisamos tratar de criar uma boa imagem com esse segmento da população". Para fazer isso, eles não vão criticar o público. Isso na televisão, os jornais tiveram queda na circulação, as rádios... todos. Todos estão fazendo esse jogo, porque os donos querem apenas mais telespectadores, mais ouvintes, mais gente para ler os artigos, tudo por causa do dinheiro. É apenas para gerar dinheiro.

Cadão Volpato: Bonnie, você acredita que isso possa se reverter, que essa situação pode mudar? Porque é uma crise da mídia total, crise de público também, [já] que as pessoas estão querendo isso. Você acha possível que isso mude pelo menos a curto prazo, essa relação?

Bonnie Anderson: Eu não entendi, desculpe.

Cadão Volpato: Existe uma crise na mídia, existe uma crise de público, o público quer assistir essas coisas. Você acha que essa relação entre os dois pode mudar? Que a gente consiga fazer uma imprensa justa e correta em pouco tempo. Isto é possível?

Bonnie Anderson: Eu acho que sim. Acho que, se existir alguém no mundo que tenha valor e coragem de criar uma rede de televisão em qualquer país, seja no Brasil, ou nos EUA, e que diga ao público desde o começo: não vamos enganar vocês, vamos contratar jornalistas de primeira. Alguns vão ser feios, outros vão ser gordos, outros vão ser velhos, mas serão de alta qualidade. Vamos fazer programas de entretenimento, mas isso vai ser óbvio. Vamos fazer programação de opinião, e isso também vai ser óbvio mas, quando fizermos um noticiário, vocês vão saber que é um noticiário de primeira. Não vamos mentir, não vamos enganar você, não vamos mostrar dez horas do julgamento de Michael Jackson em vez de passar as notícias do mundo hoje. Vamos informar os fatos locais, nacionais e internacionais, para transmitir não só o que vocês querem saber, mas também o que devem saber, para que sejam cidadãos mais sábios e inteligentes. Se alguma empresa tiver coragem para fazer isso, aposto que haverá telespectadores, que haverá telespectadores. Essa opção não existe hoje.

[Comentarista]: A pesquisa indicando que 58% dos americanos acreditam que os jornalistas inventam matérias foi feita antes do caso Jayson Blair, o repórter que inventava reportagens no New York Times. Desmascarado em 2003, Blair foi responsável por um dos maiores escândalos na imprensa americana, levando o jornal a demitir diretores e pedir desculpas em público. Não foi um caso isolado, muitos outros aconteceram em diversos países, incluindo o Brasil. Para Bonnie Anderson, a desconfiança que existia antes nesse caso assumiu uma gravidade maior. A ex-repórter da CNN acha que a principal razão está no jornalismo de entretenimento, já adotado em grande parte pela mídia americana e repetido em outros países. Empresas recorrem a políticas editoriais equivocadas, valorizando o jornalismo de espetáculo e a vaidade dos repórteres, e tornando cada vez mais difícil a obtenção de um padrão mais elevado de seriedade e responsabilidade no jornalismo.

Paulo Markun: Bonnie, eu queria entender o seguinte: por que, se você tem essa convicção tão firmada de que é preciso fazer esse jornalismo, você se retirou do jornalismo para ser uma consultora e tem uma empresa, e não está na luta diária da mídia americana disputando um espaço com quem não pensa como você?

Bonnie Anderson: Primeiro, sinceramente, eu não deixei a CNN, foi a CNN que me deixou, porque eu estava falando...

Paulo Markun: Mas há outras empresas, já?

Bonnie Anderson: Eu fui demitida, vou ser sincera. Dentro da CNN, eu falei sobre essas coisas. Eu era vice-presidente e nas reuniões dos executivos, eu falava abertamente, acho que vocês já me conhecem um pouco, se tiver algo a dizer, eu vou dizer. Eu dizia freqüentemente: isso não é correto, não é ético. A verdade que a ética deixou de ser interessante para muitos deles. Eu também disse: “não vou participar dessas coisas, porque algumas dessas coisas são ilegais”. Eu era encarregada de contratar jornalistas e me disseram: “Bonnie, de agora em diante, não queremos mais minorias”. Eu disse: “não, isso é ilegal. Eu não vou participar disso”. Quando disseram: “Bonnie, agora só vamos contratar jovens...” eu tenho isso por escrito num e-mail, “apenas jovens bonitos”, eu disse: “isso também é ilegal”. Eles não queriam mais lidar comigo e me demitiram.

Paulo Markun: Por favor, só um pouquinho, mas há outras empresas lá para se trabalhar. Não é a CNN o único lugar.

Bonnie Anderson: Sim, e eu escrevi um livro no qual revelo tudo que acontece em todas as cadeias. A rede CNN não é a única. Acontece na rede NBC e em todas as outras nos EUA. E eu tinha exemplos [das coisas] que aconteciam, problemas de ética, de coisas ilegais, e era uma crítica pesada a todas as redes. Agora, sou persona non grata para eles. O que estou fazendo é viajar pelo mundo todo, estou falando, escrevi o livro, estou aqui, mas também falei em Harvard, estive dando palestras em todo lugar para alunos de jornalismo, tentando ajudar na sua formação desde o início, para que sejam um pouco mais relevante, honesta é ética. Estou fazendo o possível fora das redes de TV.

Demétrio Magnoli: Bonnie, você e sua família estão processando o governo cubano pelo fuzilamento do seu pai, [o processo está] no tribunal. E você já disse que não quer o dinheiro, você quer expor diante da Justiça aquele fuzilamento escandaloso, baseado em nenhuma prova, que aconteceu em 1961. Eu pergunto o seguinte: esse e-mail que você tem da CNN, daria um bom processo nos EUA. Esse que diz só contratar jovens, loiros, minorias, não? Isso daria um bom processo nos EUA?

Bonnie Anderson: Claro que sim.

Demétrio Magnoli: O que você acha de uma idéia assim?

[Risos]

Bonnie Anderson: Um processo legal?

[...]: É, para expor a rede.

Paulo Markun: Mas é ao contrário, ela foi processada. Você foi processada pela CNN.

Bonnie Anderson: Sim, e eu também os processei. Eu tinha uma ação contra CNN em nome das minorias. Posso dizer que a questão foi resolvida, mas é claro que ainda penso em tudo isso. No livro, eu pude falar disso, e estou falando com vocês sobre tudo que a CNN fez. Então, me diga, quem venceu e quem perdeu?

Domingos Fraga: Bonnie, voltando um pouquinho em relação ao descrédito da imprensa, a única divergência central em relação ao que você está falando. Eu acredito que, [o descrédito ocorre] muito mais em razão do mau profissional. Por exemplo, agora nós estamos passando um período dificílimo com a história... Muito mais importante do que você colocar vinte, trinta minutos do Michael Jackson é você tratar os assuntos sérios de forma séria, você não concorda com isso?

Bonnie Anderson: Difamação? Para mim, há muita diferença entre um jornalista escrever uma coisa que não é verdade, sabendo disso desde do início...Isso para mim seria motivo para afastá-lo na mesma hora da empresa. Somos humanos também, haverá erros, mas há erros e erros. Há erros pequenos e erros imensos. Você deve estar falando da questão de Guantánamo [Encontram-se na base militar americana de Guantánamo em Cuba cerca de 660 “combatentes inimigos”, presos no Afeganistão ou no Paquistão, ou ainda entregues por outros países aos Estados Unidos, em completa violação das leis internacionais. Muitos não foram nem formalmente acusados]. Isso, para mim, foi um erro imenso, porque causou, afinal, a morte de muita gente, além de muitos feridos.

Domingos Fraga: É isso que eu queria tocar. Eu acho que muito mais do que você discutir entretenimento... Eu acho que o descrédito da imprensa tem muito mais a ver com a série de erros, inclusive a imprensa americana em relação à própria guerra do Iraque. Eu acho [que] aqui no Brasil que nós temos descrédito, mas eu acho que o mais importante é você voltar a fazer seu tal jornalismo sério que você se referiu agora há pouco. Eu acho que isso é mais importante do que você dar maior ou menor espaço ao entretenimento ou ao Michael Jackson.

Paulo Markun: Deixa só ela responder...

Bonnie Anderson: Não sei se eu entendi.

Domingos Fraga: Deixa-me repetir. Eu acho que muito mais importante do que você dar maior espaço ao entretenimento...

Bonnie Anderson: Sei.

Domingos Fraga: É você fazer um jornalismo, seja ele qual for, de maneira muito mais séria. É não cometer os erros que nós estamos cometendo ultimamente.

Bonnie Anderson: Todas essas coisas são problemas, todas devem ser solucionadas. Infelizmente, há problemas em muitos lugares, problemas de repórteres que estão mentindo, inventando coisas. O público acha que a maioria dos repórteres está inventando, porque houve alguns casos em que inventaram mesmo. Esse é um problema muito crítico para nós.

Domingos Fraga: Eu acho que esse é o foco central. E acho que a internet, nisso eu concordo com você, veio para aumentar esse problema, aumentar o problema, se você não tem credibilidade.

Bonnie Anderson: Sim, nossa credibilidade é muito importante. E agora está quase no chão, por isso precisamos declarar publicamente que queremos melhorar o jornalismo e queremos que o público também nos ajude, insistindo para que façamos isso. Devemos fazer isso publicamente, para que o público diga: ”Veja, realmente existem pessoas de bom coração, gente profissional que quer fazer um trabalho bem feito”. Nós também precisamos policiar a nós mesmos, e pôr para fora os que não trabalham direito. Precisamos fazer isso, ser nossa própria polícia.

Lourival Sant'Anna: Bonnie, o que você acha que aconteceu no caso do Jayson Blair jornalista do New York Times que inventava matérias? Ali todo repórter sabe que é impossível você ficar durante muito tempo fazendo de conta que foi a algum lugar e não ter ido. Em um ambiente de redação, você compartilha o seu trabalho com fotógrafos, que você presta contas sobre suas despesas, aparentemente, havia ali... Foram ignorados, foram ignorados muitos sinais de que alguma coisa de muito errada estava acontecendo com o Jayson Blair. Ele era um negro, certo? Você falava das minorias, você acha que ali houve uma intenção deliberada de promover, quase cegamente, um repórter jovem, negro, ambicioso? E, por isso, ignoraram todos os sinais de que aquele não era o homem certo para se investir.

Bonnie Anderson: Eu não sei qual é a verdade nesse caso, mas me parece que ele não tinha nada a ver com isso. Como vice-presidente, encarregada de contratar pessoas, posso dizer com toda honestidade que há muitas pessoas, muitos jornalistas preparados, minorias ou não. Não é preciso escolher alguém que não esteja preparado, que não seja bom jornalista para nenhum cargo e muito menos para um cargo no New York Times. Acho que o chefe dele foi preguiçoso, não fez o trabalho que deveria como editor, vigiando a produção de seus repórteres. Essa não foi a primeira vez. No Washington Post também houve problemas. Recentemente, o que me preocupa muito, é o fato de, nos últimos quatro ou cinco meses, três correspondentes ou analistas terem recebido dinheiro do governo federal para falar, escrever e promover programas federais e escrever sobre eles. Isso, para mim, é um horror. O que a mídia fez? Publicou algumas reportagens, mas para eles não era grande coisa. Para mim, isso é... Isso me dá muito medo. Estou muito brava também, porque o governo usa impostos pagos pelo público para enganar esse público, usando a mídia. Nossa mídia é protegida pela Primeira Emenda nos EUA, estamos protegidos, e há separação, teoricamente, entre a imprensa e o governo. Mas vejam o que está acontecendo? Isso dá medo, isso preocupa bastante. [A Primeira Emenda impede o Congresso de infringir seis direitos fundamentais do cidadão americano: implantar um Estado religioso (ou seja, a primeira emenda instituiu a separação entre a Igreja e o Estado); o livre exercício da religião; liberdade de expressão e de imprensa; direito da livre associação pacífica e o direito de fazer petições ao governo com o intuito de reparar agravos]

Nelson Hoineff: Bonnie, eu não queria perder a chance aí da gente tentar em ir um pouco adiante na questão da CNN.  Não se pode negar que a CNN é um dos grandes resultados, um dos melhores resultados da revolução de distribuição de canais dos anos 1980, e que resultou num ambiente mais plural de televisão. A CNN, de alguma forma, ela implantou o conceito de uma rede segmentada de notícias.

Bonnie Anderson: Inventou a notícia 24 horas.

Nelson Hoineff: Ela é de alguma forma... Ela criou esse conceito. Várias outras se seguiram, você acabou de citar o exemplo da Fox News, que ganhou uma audiência extraordinária dentro dos EUA com um noticiário muito mais conservador, muito mais, muito mais dirigido aos interesses do governo. Mas que não teve o mesmo sucesso internacionalmente, não é? Internacionalmente, a CNN International continua como a maior referência em canal de informação. Eu queria lhe perguntar duas coisas. Primeiro: você acha que a CNN e a CNN International se desviaram dos seus propósitos originais? E o segundo: o que você acha de algumas redes de informação não americanas que eventualmente possam estar, também como a Fox, muito ligadas aos interesses de governo, como é o caso da Al Jazira [emissora de televisão, que transmite para o Oriente Médio].

Bonnie Anderson: Sim, a CNN perdeu o rumo. Quando foi fundada por Ted Turner [(1938) magnata e filantropo. Fundador do canal de TV CNN em 1980], ele disse: “A notícia é a estrela. As estrelas [de Hollywood] não são as estrelas aqui”. Isso mudou nos últimos cinco ou seis anos com a chegada dos chefes de Hollywood. Agora, as estrelas são estrelas.

Nelson Hoineff: Com a entrada Time Warner você quer dizer.

Bonnie Anderson: Sim, e com AOL também. Time Warner e AOL [refere-se à fusão das duas empresas em 2000], essas duas... essas duas mudanças. Ted Turner não tem mais nenhuma influência na CNN. O problema é que eles acham que vão ter mais espectadores se usarem essas táticas do mundo do entretenimento. Não há provas de que isso funcione, e não está funcionando. Não está funcionando. Uma coisa que a CNN faz bem, e agora estou falando de todas as redes americanas, é ainda manter o interesse, pelo menos a CNN internacional, na notícia internacional. Mas isso não se vê nos EUA. Quase não mostram informações internacionais nos EUA. A Fox, por exemplo, não tem quase ninguém, quase não tem correspondentes fora dos EUA. Para eles não importa o resto do mundo. Essa não é sua clientela. Sua clientela são os conservadores dentro dos EUA. Vão mostrar apenas o que eles querem ver, e como querem ver. O mundo, a menos que se fale dos soldados no Iraque, porque isso sim é importante para os espectadores da Fox, o resto do mundo não existe.

Nelson Hoineff: A minha outra pergunta é como você avalia uma rede de televisão como a Al Jazira, por exemplo.

Bonnie Anderson: Eu acho... Veja, eu não gosto de censura em nada, e quanto mais opções de notícias o público tiver, melhor. Quem vê Fox sabe que eles são conservadores, mas isso não quer dizer que não tenha seu valor. Tem sim. A Al Jazira também tem seu valor. Você pode, por exemplo, ver a Fox, Al Jazira, CNN, Globo e, juntando tudo, conseguir uma visão melhor da verdade.

Demétrio Magnoli: Bonnie, eu estou um pouco preocupado com algumas qualificações. Qualificar a Fox como uma rede conservadora, eu não estou de acordo com isso. A Fox não faz um jornalismo conservador. A Fox não faz um jornalismo conservador, ela faz uma deliberada e organizada falsificação da notícia, que é coisa diferente de jornalismo conservador.

Bonnie Anderson: Isso também.

Demétrio Magnoli: Na guerra do Iraque, ela se referia aos batalhões americanos e os repórteres da Fox incorporados [no exército] como "nós", e aos iraquianos como "eles". Isso não é nem jornalismo conservador, isso não é jornalismo, isso é uma parte do exército que, ao invés de lançar bombas, lança notícias. Me preocupa um pouco a comparação que tem sido feita entre a Fox e a Al Jazira. A Fox faz falsificação, a Al Jazira faz jornalismo. Durante a Guerra do Iraque, os repórteres da Al Jazira estavam nas cidades, enquanto os repórteres americanos estavam incorporados nos batalhões do exército americano. Esse é um exemplo de jornalismo do lado da Al Jazira, e não o jornalismo do lado das duas grandes redes americanas (da Fox e da CNN). Você está de acordo com isso?

Bonnie Anderson: Eu respeito sua opinião. A meu ver, a Fox é extremamente conservadora não só por dizer: “Nossas forças”, mas “nosso presidente”. Eles usam a bandeira americana aqui [indica o lado esquerdo do peito], todos eles, e todos os apresentadores dão sua opinião e falam sempre enaltecendo o presidente. Falaram, por exemplo, durante a campanha presidencial, muito mal dos Democratas [membros do Partido Democrata estadunidense]. Também é preciso lembrar quem é o dono da empresa e quem manda lá, os dois trabalharam para o Partido Republicano. Um deles, até o 11 de setembro, era conselheiro do presidente. Essas coisas são sentidas, até nos níveis mais baixos da empresa. Eles têm uma submissão, que não é jornalística, é mais de ideologia e, nesse momento, é uma ideologia conservadora. Daí eu dizer isso. Quanto à Al Jazira, já vi coisas muito boas e também vi coisas guiadas pela missão de não informar muito bem. Isso se vê em todo lugar, mas jamais direi que essas redes não devem existir. Se a cada dia surgir uma nova opção para o público, tanto melhor.

Andréa Dantas: Mas você não acha que mesmo que um jornalista respeitado, por exemplo, dizendo para Christiane Amanpour [chefe dos correspondentes internacionais da CNN], trabalhando para CNN, vai estar sempre fazendo uma cobertura sobre uma ótica um pouco mais americana, vai estar independente? Ela faz um jornalismo completamente diferente da Fox, ela é uma jornalista que, enfim, das que a gente está aqui valorizando, mas fazendo uma cobertura para a CNN com toda essa pressão atual da CNN. Não vai estar sempre fazendo uma cobertura sobre um ponto de vista americano?

Bonnie Anderson: Christiane? Você está falando de Christiane? Ela não é americana.

Andréa Dantas: Não, eu sei, mas trabalhando para uma rede americana, enfim.

Bonnie Anderson: Eu acho que, de todas, ela é a que menos se importa com o que pensam sobre ela. Ela não se importa com isso, não se acha uma estrela, e por isso também não tem medo de dizer a verdade. Ela briga com os editores diariamente para ter mais cobertura internacional. Suas reportagens... Toda reportagem que ela faz vai ao ar, provavelmente porque os editores não querem ouvir queixas dela. [risos] Não quero que vocês fiquem com a impressão de que não existe bom jornalismo, ou de que não há jornalistas trabalhando duro. Há sim, e em todas as redes. Eles estão tentando fazer um jornalismo bem feito e resgatar o jornalismo dentro dessas empresas. Sim, existem. Infelizmente, a maior parte dos chefes, que têm mais poder e podem tomar decisões que têm muito mais força não pensam dessa maneira. Na verdade, quero incentivar nossos colegas que estão tentando fazer jornalismo puro. Sem eles, teremos grandes problemas.

[Comentarista]: Bonnie Anderson já foi repórter do front de guerra, chegou tão perto dos conflitos que tem uma bala alojada no ombro. Mas, foi essa experiência que a tornou uma crítica das coberturas jornalísticas, que passaram a espetacularizar os conflitos, como ficou claro na Guerra do Golfo em 1990. Iniciada com intensos bombardeios a alvos estratégicos do Iraque, a guerra foi transmitida pela TV como se fosse um espetáculo de pirotecnia. A cobertura jornalística, especialmente das emissoras de TV, deu mais ênfase às tecnologias e à sofisticação dos armamentos, e deixou de lado informações e análises que permitiriam ao público uma melhor compreensão e noção crítica daquele conflito e dos demais que surgiram e continuaram a ser tratados como espetáculo.

Paulo Markun: Bonnie, o seu livro tem várias referências e exemplos de mau jornalismo. E um deles, que chama muito a atenção, é a prática comum nos EUA, que eu não imaginava que fosse tão comum, da âncora do telejornal conversar com correspondente ou alguém como se fosse ao vivo e aquilo se trocar, inclusive nas várias redes locais, porque aquilo tudo está gravado para economizar dinheiro.

Bonnie Anderson: Isso para mim é mentir para o público. Isso pode ser visto todas as manhãs em qualquer rede americana. O apresentador ou apresentadora diz: “Agora, vamos falar com fulana ou fulano, Tom Brokaw, qualquer um, que vai nos dizer o que veremos no noticiário desta noite”. Então ele/ela diz: “Tom, o que teremos?” E Tom diz: “Anne, obrigado. Hoje teremos isso e isso...” Passam-se 30 segundos e ele diz: “Agora voltamos com Anne ao estúdio do Today Show”. Ela diz: “Muito obrigado! Tom”, e continua. Mas a parte de Tom foi gravada na noite anterior. Isso é teatro e acontece com muita freqüência. Durante a guerra, nos primeiros dias e ainda agora, o apresentador diz: “Vamos direto ao Iraque com as últimas informações sobre o que aconteceu em Falluja. Pode falar, Fernando. Então Fernando agradece, mas é tudo gravado para economizar dinheiro, porque é muito mais fácil fazer a reportagem e mandar dois ou três minutos por satélite do que abrir espaço via satélite por meia hora. É uma questão de dinheiro. Algumas pessoas me dizem: “Bonnie, essa não é uma mentira muito grande”. Mas se começarmos a mentir dessa forma o público não... Estamos perdendo credibilidade. Outro exemplo. Uma apresentadora muito famosa nos EUA seria enviada ao Capitólio [sede do poder legislativo estadunidense] para uma reportagem. Era um dia muito frio em Washington e ela decidiu não ir. O que ela fez foi vestir o casaco e ficar diante da parede que é usada para apresentar a previsão do tempo e puseram atrás dela uma imagem do Capitólio. Dentro do estúdio, usando o casaco, ela falou do que havia acontecido. Ela foi demitida? Não. Por que não? Para mim, essas coisas não podem ser perdoadas. Não podem. Não podemos admitir exemplos como esse. Recentemente, vejam o que houve com Dan Rather, da CBS. Ele fez uma reportagem para o 60 minutes falando sobre o presidente com documentos que, depois de várias semanas, descobriu-se que haviam sido falsificados. Não por eles, eles não sabiam no começo, mas foram preguiçosos, não fizeram um bom trabalho, não checaram bem a veracidade dos documentos. No final, Dan Rather precisou dizer que eles haviam cometido um grande erro. Ele deveria ter pedido demissão. Se tivesse um mínimo de vergonha deveria ter pedido demissão. Ou então deveria ter sido demitido. E por quê? Isso teve um impacto enorme nas eleições. A reportagem completa...Todos acham que a reportagem inteira era falsa. Não era. Eram apenas esses documentos que embasavam a informação principal. E esses documentos eram falsificados, mas o resto da reportagem dizia a verdade. No entanto, o público agora acha que a reportagem inteira foi malfeita. Isso causou impacto nas eleições americanas e está causando impacto no mundo inteiro. [Segundo a máteria, George W. Bush foi acusado de receber tratamento privilegiado quando serviu à Guarda Nacional Aérea do Texas, nos anos 1970. O que comprovava isso eram documentos escritos, supostamente, pelo seu superior, o tenete-coronel Jerry Killian. Apesar dos tais documentos serem falsos, segundo testemunhas, Bush não fez exame médico para piloto, premissa necessária a todos os soldados, o que comprovaria o tratamento privilegiado]

Mauro Malin: Bonnie, a senhora disse que a maior parte dos jornalistas é constituída por bons profissionais, apesar de todas essas críticas que estamos ouvindo. Há pouco tempo, a senhora falou que tem muita gente boa. Eu pergunto duas coisas, primeiro: se essa gente boa apoiou a senhora.

Bonnie Anderson: Eles me apóiam.

Mauro Malin: Quantos apoiaram? E como? Em segundo, uma curiosidade, se o seu livro foi discutido na televisão nos EUA?

Bonnie Anderson: [Risos] De forma nenhuma. O livro... Eu fui a uma rede nacional, a CNBC, num programa de entretenimento. [Risos] A pessoa que me entrevistou é comediante, que finge ser repórter na TV. Foi o único. Os outros não querem falar do livro, porque não querem informar o público sobre esses assuntos.

Mauro Malin: Mas tem gente apoiando?

Bonnie Anderson: Como?

Mauro Malin: Tem jornalistas que apóiam?

Bonnie Anderson: Claro que sim, e graças a Deus. Eu recebi telefonemas e e-mails de muitos jornalistas, amigos ou não, gente que não conheço, que me liga ou manda e-mails para me apoiar e dizer: “Bonnie, força. É preciso continuar com isso”. A internet e o rádio também foram uma grande ajuda. Eu dou duas ou três entrevistas no rádio toda semana. Na internet, eles me entrevistam, fazem publicidade do livro, mas não apenas do livro, das idéias, que são importantes. Eu me sinto muito bem com relação a isso. Meus colegas, as pessoas que são jornalistas puros e verdadeiros são as pessoas que estão me apoiando. Quem não me apóia são os chefes e todos que citei no livro, por fazerem coisas que não eram éticas. Eles estão muito bravos comigo e tudo bem, isso não me incomoda.

Cadão Volpato:  Bonnie, eu queria voltar essa questão dos erros que os jornalistas têm cometido, que a imprensa tem cometido. Me espanta como a mídia e o público não assimilaram esses [...], assimilaram de alguma forma. Quer dizer, o que esses erros significaram para imprensa americana e o que eles significaram para o público americano? Porque são erros gigantescos. Eu acho espantoso que não haja uma reação grande a esses erros.

Bonnie Anderson: São esses exemplos. Não entendo por que não houve mais reação do público. Talvez as pessoas estejam muito fechadas em suas vidas, em seus lares, com problemas econômicos, problemas com a guerra, como levar o filho à escola trabalhando 15 horas por dia. Na verdade, muitas pessoas estão pensando no agora e não no futuro. Infelizmente, se essas coisas continuarem vão causar muito impacto na vida diária das pessoas. É difícil. Estou tentando criar um escândalo enorme para convencer o público de que é preciso ter interesse nisso, porque causa impacto em sua vida diária.

Cadão Volpato: Você falou aí na vida diária e nos programas. Creio que os jornalistas, os seres humanos têm... Aqui no Brasil, eles são muito grandes. Eu acho que um grande problema nas redações aqui no Brasil é que, por motivos econômicos, se contratou uma porção de jovens despreparados para o mercado, despreparados como jornalistas. E hoje eles estão nas redações e estão chegando à chefia das redações. Esse é um problema muito sério também. São pessoas que têm que ganhar o dia a dia, e elas têm de se virar de alguma forma. Então, você vê gente despreparada tomando conta de coisas que não são funções delas. Quer dizer, eu acho que isso também enfraquece a nossa profissão.

Bonnie Anderson: Muitas vezes a formação deles não vai levar ao sucesso. Desde o início já se sabe que vão fracassar. Por isso estou viajando por muitos lugares, muitas universidades, muitas escolas de ensino médio, falo com os jovens e digo: “Se você quer ser jornalista, deve ser por esses motivos”. Sempre pergunto: “Por que você quer ser jornalista?” Uma jovem que faz universidade na Flórida, há cinco anos, estava fazendo entrevista para um cargo inicial e eu perguntei: “Por que você quer ser jornalista?” Ela entrou toda maquiada e disse: “Porque eu quero ser famosa e ganhar muito dinheiro”. [risos] Eu disse: "Mocinha..."

[...]: Doce ilusão.

Bonnie Anderson: Você disse isso para a pessoa errada. Não vou contratar você e não quero que você faça parte da minha profissão. Vá ser advogada, vá vender sapatos, fazer qualquer outra coisa, mas você não é convidada nem aceita para essa profissão. Infelizmente, agora ela deve ser apresentadora em Nova Iorque.

[Risos]

Lourival Sant'Anna: Isso aí tem o aspecto da vaidade. Você dizia que o Dan Rather deveria renunciar. É muito difícil para um Dan Rather renunciar. Quando eu estava no Iraque tinha um comboio de jornalistas e queríamos entrar num lugar lá que era proibido. Os militares americanos estavam fechando. Aí os jornalistas que estavam no primeiro carro falaram assim para o fuzileiro naval americano: “O Dan Rather está aqui”. Ele disse assim: “O Dan Rather está aqui?” “Está”. “Me deixa ver”. Aí toc, toc. Abriram a porta o Dan Rather saiu. “Não, não. Tudo bem!” É muito difícil, acontecendo isso com você; você depois querer perder isso, renunciar isso.

[...]: E é um bom salário.

Bonnie Anderson: Ele usou sua fama de maneira não ética. Os jornalistas não podem usar a fama para abrir portas. Isso é errado, é o que me parece.

Lourival Sant'Anna: Mas faz parte da prática do jornalista, o prestígio do jornalista...

Bonnie Anderson: Então que entrem todos.

Lourival Sant'Anna: Não. Entraram todos, entramos todos.

Bonnie Anderson: Que bom! Se entraram todos, muito bem. Se ele tivesse entrado sozinho...

Lourival Sant'Anna: Eu me refiro ao impacto que se tem sobre o ego de um ser humano. O poder que... Ele estava no Iraque, ele não estava nem nos EUA. Quer dizer, o poder que isso... que emana disso. Não é muito difícil, depois de ser uma celebridade, renunciar a isso? No seu caso, por exemplo, que tipo de processo psicológico que ocorreu para você abrir mão de tanto poder e de tanto prestígio?

Bonnie Anderson: Volto a dizer que somos jornalistas, somos repórteres. Falamos de gente que faz as coisas, nós não somos a parte importante da notícia. Não devemos ser a notícia. Pessoas com ego muito grande perdem o meu respeito totalmente. Perdem meu respeito.

Demétrio Magnoli: Bonnie, teve três guerras. Na Guerra do Vietnã teve um papel determinante a exposição da guerra, na guerra... Na invasão do Iraque, recentemente, a imprensa incorporou repórteres no exército e fez parte do exército, na verdade. E no meio desse caminho, a Guerra do Golfo em 1991, foi aquele momento que um Pentágono colocou as maiores restrições à imprensa. Ainda não tinha a idéia de incorporar a imprensa no exército. Eu me lembro que a CNN, naquela época que você estava lá, naquela época, a CNN se conformou em reproduzir, em dar divulgação aos materiais supostamente noticiosos que o Pentágono fornecia, fotografias impressas, briefings. Houve uma discussão na CNN, naquela época, sobre o papel da imprensa naquela guerra, sobre a responsabilidade de furar a muralha de desinformação gerada pelo governo ou não houve? Houve divergências sobre isso?

Bonnie Anderson: Bem, eu gostaria de começar com o Vietnã. Foi a última vez que houve uma guerra na qual os jornalistas podiam fazer seu trabalho sem intervenção, sem censura, para o público. Mas vejam o que aconteceu, vejam o que aconteceu. O Pentágono, a partir de então, o governo não quis mais que a imprensa tivesse a mesma liberdade, porque, afinal, a imprensa revelou uma verdade e o governo perdeu a guerra. Na primeira Guerra do Golfo, na qual eu estive, havia, como você disse, tantas restrições, que aquilo não era cobertura de guerra. Nesta última guerra, esta de agora, houve reuniões dos presidentes e altos executivos das redes e meios de imprensa escrita e tudo mais com o Pentágono. Entre eles, foi aceita essa lista de exigências e restrições. Era possível ter enviados com as unidades militares, desde que não se revelasse onde estavam, com quem, o que estavam fazendo, se havia mortos. Qual foi o resultado? Imagens fabulosas diretas, ao vivo. Viam-se os caminhões pelo deserto, os correspondentes sujos ficando famosos no meio da guerra. Mas, no fim das contas, o que eles estavam transmitindo de notícia? Nada. Nada. Eles não podem dizer nada. A função deles era puramente de propaganda. O que eles podiam mostrar era que um coronel ou um tenente tinha duas filhas em casa, com saudade dele e... Essas histórias humanas, que fazem parte de qualquer cobertura de guerra, mas não deve ser a única coisa. Não aceito censura em nada, e isso foi absoluta propaganda.

Paulo Markun: Um outro pedaço importante do seu livro menciona a sinergia, os grandes negócios que acontecem nas grandes corporações, onde se utiliza o telejornal da emissora para promover um livro que é editado pela editora da mesma empresa, que ao mesmo tempo divulga o apresentador do principal programa de entrevistas da emissora etc. A gente até vê algumas coisas parecidas no Brasil, em escala muito menor. O que me impressionou em relação aos EUA é a quantidade e a profundidade desse processo, Bonnie.

Bonnie Anderson: É muito... É uma parte muito grande. Eu chamo isso de info-entretenimento. Vamos usar como exemplo o Today Show, da NBC. Esse é o canal que transmitia a série Friends, muito famosa. Quando decidiram encerrar essa série, dois meses antes, o Today Show passava 15 ou vinte minutos todas as manhãs entrevistando qualquer pessoa que tivesse estado no programa ao longo dos anos. Isso acontecia diariamente. O que eles fizeram foi promover o programa porque eles iam transmitir temporadas anteriores às 19 horas. Foi uma promoção interna. Qual é o problema? O Today Show, teoricamente, é noticiário. Está no setor de notícias da NBC. A mesma coisa está acontecendo no programa da CBS, o CBS Morning News. A CBS é a rede que exibe a série Survivor e cada vez que expulsam um infeliz do Survivor ele aparece no programa da manhã seguinte para ser entrevistado.

Paulo Markun: Como se acaba com isso?

Bonnie Anderson: O que é preciso fazer é dizer: nessas horas todas que você perde com esse lixo, por que não fala mais sobre a guerra, sobre o que está havendo na guerra contra o terrorismo? O que aconteceu com Bin Laden? Por que não estamos investigando? Por que não estamos... O que houve com o antraz?

[...]: Isto tem público. Isso dá dinheiro?

Bonnie Anderson:: Eles não relatam as coisas que valem a pena. Por que não falam mais de programas de educação, de previdência social, passando mais informações sobre assuntos que importam? Eles estão simplesmente usando um braço da empresa para promover outro braço para, no fim das contas, gerar mais dinheiro.

Demétrio Magnoli: Agora, Bonnie, no caso de criar uma TV pública para fazer jornalismo se as corporações privadas não querem fazer.

Bonnie Anderson: Sim, existem duas, uma de TV e uma de rádio.

Demétrio Magnoli: E elas fazem a mesma coisa?

Bonnie Anderson: Não tanto. Hoje em dia, esses programas são, para mim, os mais honestos. Eles ainda têm seus problemas, mas são os mais honestos. Para mim, o que todos devem lembrar nos EUA é que as redes usam o ar público, as transmissões públicas. Isso pertence ao público e as redes têm responsabilidades de servir ao público, não de servir seu próprio bolso. Precisamos lembrar a eles que eles devem nos servir e nos informar, porque estão usando nossos meios de transmissão.

Paulo Markun: Bonnie, a impressão que a gente tem, vendo de longe, é que a questão do patriotismo compromete muito o desempenho da imprensa americana, não apenas porque a imprensa age como patriota, mas também porque o público quer ver uma imprensa patriota.

Bonnie Anderson: Isso, para mim, é alarmante. Acho que, no início, se vocês se lembram, o presidente Bush disse: “Ou estão conosco, ou contra nós”. Ele estava falando simplesmente sobre os outros países e gente que poderia ser terrorista, mas os chefes das redes de TV levaram isso a sério. Eles tomaram a decisão de apoiar o governo americano. Para eles, isso era ser patriota. Para mim, não é verdade. Para mim, ser patriota e ser jornalista quer dizer o contrário. Nosso papel, o papel que devemos fazer é o de investigar, de estar sempre observando e reunindo informações para informar o público com coisas boas e ruins com relação à guerra, ao presidente ou ao Pentágono. Nosso papel não é apoiar nenhum governo, é estar sempre observando e vigiando. Somos vigilantes, não estamos aí para apoiar ninguém. Veja agora as bandeiras que se usam. Até na tela estão colocando bandeiras americanas. Para mim, isso é um horror, porque todo jornalista americano corre perigo. Todo jornalista americano em países árabes corre perigo, porque o público mundial acha que os jornalistas americanos são a favor do governo.

[...]: Pensa?

Bonnie Anderson: Pensa.

Demétrio Magnoli: Completamente.

Bonnie Anderson: Em muitos casos sim, infelizmente. No livro, também falo da imprensa que cobre a Casa Branca [poder executivo estadunidense]. Eles são cúmplices. No ano passado, houve uma entrevista coletiva, houve duas ou três semelhantes, mas eu escrevi sobre uma. E nessa entrevista coletiva, antes mesmo de começar o presidente sabia quem ia falar, a ordem e o que iam perguntar. Num certo momento o presidente disse: “Demétrio. Não, não... não é você. Agora é você”. Isso você pode procurar no site da Casa Branca e ver que o presidente fez isso. Embora soubessem que seriam nove perguntas sabiam a ordem e sabiam os temas. Aquilo funcionou como um teatro. Quando Bush terminou os jornalistas ficaram chamando " senhor presidente", fingindo, era um teatro. Eles sabiam que não iam participar. Mas, como era para a TV, resolveram fingir e ser atores. Eu digo que eles são atores de notícia, não são jornalistas e não estão fazendo seu trabalho. Não estão.

Nelson Hoineff: Bonnie, no bloco anterior a gente conversou bastante sobre essa questão de braços de uma mesma corporação se servirem do jornalismo para alimentar outros produtos da corporação. Eu acho que nós não corrermos o risco de sermos hipócritas. Nós devemos admitir que esse é um procedimento internacional, isso não acontece só nos EUA, isso acontece em absolutamente todas as corporações de televisão do mundo que eu conheço. Certo ou errado, o fato é que acontece. O que eu queria dizer é o seguinte: a televisão, ela tem uma indiscutível tendência de tratar o seu público como "débil mental". Não toda televisão, esse programa, por exemplo, é uma exceção. Nós temos que entender que a televisão de várias partes do mundo, quase toda televisão, ela tem uma tendência de tratar o público como retardado. A questão do info-entertainment, eu acho que o desempenho é um papel muito especial nisso. E é, sem dúvida, um dos mais fortes, umas das mais fortes evidências de estudos. Nós temos que reconhecer também que há outras formas de ação que são muito mais perversas, até, do que a tendência do info-entertainment. Por exemplo, a exportação de modelos de conteúdo que vem sendo promovido pelas redes de televisão internacionais desde que a televisão passou a se organizar em tornos de redes de televisão internacionais, e não mais em torno de emissoras regionais ou de redes locais. Esta exportação, ela tem um papel muito importante também na maneira como o espectador percebe a televisão. Quer dizer, a televisão do mundo inteiro adota padrões estéticos, padrões narrativos que são importados, inclusive, na prática jornalística. Em várias partes do mundo os telejornais até de um ponto de vista estético se parecem muito. E essa idéia do âncora [que] está conversando "falsamente" com o correspondente, isso é adotado também por muitas televisões do mundo. Então, essa prática de universalização, de globalização da televisão, ela resulta na exportação, como dissemos, dessa maneira de perceber televisão. Eu queria te perguntar, de que maneira que ela resulta também na exportação de ideologia? E na exportação da relação da televisão com o público?

Bonnie Anderson: Obviamente estão exportando ideologia também. De tudo que falamos, da propaganda dos jornalistas que estão na CNN ou em qualquer dessas redes... se eles estão viajando, por exemplo, com o exército, essas matérias são vistas em todos os países, por muitos países, e criando uma imagem errada. É a ideologia de um governo. Por isso é tão perigoso, é perigosíssimo. Muita gente vê aquilo e pensa: “isso é verdade, deu na CNN ou num canal conhecido. Só pode ser verdade”. Na verdade, isso é propaganda. Por isso precisamos nos preocupar, porque já não é um país só. O que está acontecendo lá e aqui tem impacto em muitos países. Isso é muito sério, precisamos fazer alguma coisa.

Andréa Dantas: E o que pode ser feito? O que você acha? Que a manifestação está dependendo mais da manifestação do público? Deles reclamarem?

Bonnie Anderson: Eu acho que Nelson, por exemplo, fez uma palestra, um encontro há uma semana. E compareceram quantas pessoas? Seiscentas?

Nelson Hoineff: Foi num seminário de telejornalismo há algumas semanas. Acho que deve ter ido umas 620 pessoas mais ou menos. Há um discutível interesse?

Bonnie Anderson: Isso é fabuloso, é incrível que as pessoas assistam para aprender, que existe interesse. É esse tipo de coisa que se pode fazer. Podemos escrever artigos, comentários, todas as redes que tenham programas de opinião ou debate podem falar do tema. É o que estamos fazendo agora.

Paulo Markun: Fazendo papel aqui de...

Bonnie Anderson: Exato.

Paulo Markun: Não é um pouco uma posição de Dom Quixote [Personagem do livro homônimo escrito em 1605 por Miguel de Cervantes y Saavedra. O título em espanhol é El ingenioso hidalgo Don Quixote de la Mancha. Quixote é um fidalgo que perde a razão e passa a imitar heróis de romances de cavalaria. Luta por ideais cavalheirescos que não se encaixam na realidade. No romance, Quixote toma moinhos de vento por gigantes] lutando contra grandes moinhos que têm poder. Não são moinhos, são poderes.

Bonnie Anderson: Sim, não apenas Dom Quixote, mas também penso que é como Davi e Golias [personagens bíblicos. Na história, Davi enfrenta um gigante, Golias, e o acerta com um pedra], mas é possível. Quem ganhou entre Davi e Golias? É possível. Podemos ganhar e precisamos acreditar nisso. Todo mundo... vocês que são meus colegas jornalistas, espero que hoje, amanhã e depois falem sobre isso com seus colegas, que falem com seus chefes sugerindo um artigo na revista, ou uma reportagem, um documentário sobre problemas de ética, problemas de jornalismo, a importância do jornalismo. Somos nós que precisamos revelar os problemas que temos no nosso meio. Seria melhor se seus chefes também estivessem de acordo, para que você não venham parar comigo aqui nesta cadeira.

Cadão Volpato: Bonnie, numa indústria tão cara, temos alguns exemplos nos EUA de reversão desse fenômeno?

Bonnie Anderson: Em Chicago, isso foi há cinco ou seis anos, havia um canal que queria fazer aquilo que eu disse. Eles contrataram pessoas boas e fizeram um canal local nos moldes daquilo que eu falei, mas eles lhes deram três meses. E em três meses você não ganha audiência, não sabe os resultados. Mais uma vez, foi uma questão de dinheiro. Os chefes, que não queriam esperar mais de três meses...

Cadão Volpato: Mas, aí, nós caímos numa encruzilhada, como fazer isso sem dinheiro?

Bonnie Anderson: Não é possível. É preciso haver alguém de muita coragem e bolso cheio. Com dinheiro para poder... Seria quase... Seria um... Seria fabuloso, e sei que faria muito sucesso, mas não de uma hora para outra.

Paulo Markun: Há outro caminho que se discuti muito aqui no Brasil, que é a mudança da lei. Nos EUA, a Comissão Federal de Comunicações, que cuida e controla os meios de comunicação, tem recuado de determinados limites, [diferente] de como faziam antigamente, a mesma empresa não poderia ter revista, uma televisão, um jornal, ou um determinado campo de audiência. Isto diminuiu, mas de todo modo, nos EUA é bem melhor do que o [que existe]  Brasil. Você acredita que esse caminho da mudança da lei possa ter algum significado também?

Bonnie Anderson: Tem muito significado, não só pelo lado do governo, mas temos também novas diretrizes, como a Lei Patriota [Patriot Act], que permite que o governo escute os seus telefonemas, porque "você foi ao Iraque e talvez conheça alguém"... "Você foi ao Afeganistão - se não me engano - e talvez tenha contatos com terroristas". Agora eles têm a possibilidade legal de vigiar você, de escutar seus telefonemas, de ler os seus e-mails. Isso é horrível. Se nós, jornalistas, não tivermos direito de falar abertamente com as pessoas, não poderemos fazer nosso trabalho. Também houve mudanças nos tribunais. Documentos e procedimentos legais que antes eram abertos a todos deixaram de ser. Em muitos casos de imigração, em todos casos dos detidos supostamente militares não é possível conseguir os nomes deles, eles não têm direito a um advogado, não tem direito de falar conosco e nós não temos direito de falar com eles. Isso foi... A liberdade de imprensa e nossa habilidade de fazer nosso trabalho estão sendo manipuladas por todos os lados, o governo, o público, que também quer que o trabalho seja feito de uma certa forma, os chefes do entretenimento... Na verdade, estamos sendo atacados por muitos lados. Por muitos lados.

Paulo Markun: Bonnie, última pergunta. Eu sinto você muito à vontade no papel de Davi. Muito tranqüila nessa posição de lutar contra os "moinhos de vento" e não ter, além do fato de fazer esse trabalho, não ter todo o peso de um compromisso que se tem quando se está dentro de uma organização que não pensa exatamente assim. Você ainda admite a possibilidade de voltar para a mídia? Se te oferecerem um trabalho?

Bonnie Anderson: De voltar?

Paulo Markun: De voltar a ser jornalista na televisão americana?

Bonnie Anderson: Eu gostaria muito, não só na televisão americana, mas em qualquer lugar. Eu sou jornalista. Nasci jornalista, tenho quase certeza. Para mim, foi difícil não viver diariamente com tinta nas mãos cumprindo minha missão na vida. Eu voltaria com todo prazer, se fosse numa empresa que me deixasse fazer um trabalho bem feito, uma empresa que tivesse ética e princípios. Eu gostaria muito, seria a pessoa mais feliz se pudesse voltar a fazer meu trabalho como jornalista. Isso seria... Vamos ver. Não acredito muito que isso vá acontecer.

Paulo Markun: Bonnie, muito obrigado pela sua entrevista.

Bonnie Anderson: Eu é que agradeço.

Paulo Markun: Obrigado aos nossos entrevistadores e a você que está em casa. E, na próxima segunda, estaremos aqui as dez e meia da noite com mais um Roda Viva. Uma ótima semana, e até segunda.

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