Memória Roda Viva

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Inezita Barroso

16/12/2002

Ícone da preservação cultural e da música de raiz no Brasil, em 2002 ela comemorava cinquenta anos de carreira, dos quais 22 foram dedicados à apresentação do programa Viola, Minha Viola, na TV Cultura

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Paulo Markun: Boa noite. Ela é um símbolo da preservação cultural e se transformou na mais importante divulgadora da música de raiz no Brasil. Cantando há cinqüenta anos, parece ter passado a vida "tocando viola de papo para o ar". Mas, na verdade, são cinquenta anos de muito trabalho e de pesquisa que ajudam a manter viva a memória da música caipira, da autêntica música sertaneja brasileira. No centro do Roda Viva, esta noite, Inezita Barroso, que completou cinqüenta anos de carreira e 22 anos do programa Viola, Minha Viola, na TV Cultura.

[Comentarista]
: Um programa [de] que tanta gente gosta, marca registrada das manhãs de domingo na TV Cultura. No público presente e nos milhares de telespectadores, os sorrisos se abrem e se encontram nas músicas e nos versos da mais autêntica música popular brasileira. A música de raiz entrou cedo na vida da paulistana Inês Madalena Aranha de Lima, que aprendeu a tocar piano e violão aos 11 anos de idade. Aos 25, já cantava no rádio, quando virou Inezita - apelido de infância - e Barroso, sobrenome do marido. Nos anos 50, vieram os dois primeiros sucessos: a "Marvada pinga" [ou "Moda da pinga"] e "Lampião de gás", que marcaram para sempre o repertório de Inezita. Cantando no rádio e no cinema, onde trabalhou em vários filmes e ganhou o Prêmio Saci de melhor atriz, em 1955, em Mulher de verdade [de Alberto Cavalcanti], Inezita Barroso passou a ser chamada de rainha do folclore brasileiro e acumulou mais de duzentos prêmios por seu trabalho de pesquisa e divulgação da música popular, da moda de viola, do pastoril, das canções do Brasil caboclo. Fez isso durante dez anos na rádio USP FM de São Paulo e quase outros dez na nossa Rádio Cultura no programa Estrela da manhã. Em 1998, foi a estrela do carnaval paulistano em uma homenagem que recebeu da escola de samba Pérola Negra. Agora, em dezembro, a homenagem veio na forma de uma doce viola [um bolo em forma de viola] e um programa especial para comemorar os cinquenta anos de carreira. Desses cinquenta, 22 foram vividos aqui, no Viola, Minha Viola.

[VT de Inezita Barroso em gravação do Viola, Minha Viola]: Tudo começou em 28 de abril de 1980, com o meu querido e inesquecível amigo Moraes Sarmento [Rubens Sarmento (1922-1998) foi criador do programa Viola, Minha Viola e é considerado um marco do rádio e da TV no país, tendo atuado nas rádios Cultura, Cosmos, Tupi, São Paulo e Bandeirantes e, com o advento da televisão, nas emissoras Bandeirantes, Record e Cultura] e com outro companheiro maravilhoso, Nonô Basílio [Alcides Felisbino de Souza (1922-1997), compositor. cantor e diretor artístico. Formou com sua esposa a dupla Nonô e Naná, com a qual chegou a gravar dez álbuns e participou do filme No rancho fundo (1971), de Osvaldo de Oliveira. Em 1996, a dupla gravou seu último disco, Nossa última lembrança. Naná passou a apresentar problemas na voz e Nonô faleceu no ano seguinte]. Eu vim um pouquinho depois, fui convidada a participar do programa, apresentar o Viola em agosto de 1980.

[Comentarista]
: O mais antigo programa da TV Cultura e um dos primeiros a abrir espaço para a música caipira na TV, O Viola teve várias mudanças ao longo dos anos, mas a essência permaneceu. Inezita recebeu artistas do Brasil inteiro: violeiros, cantores, duplas, uns conhecidos e outros que aqui tiveram oportunidade de mostrar trabalho e iniciar carreira. As músicas, as histórias, os "causos" aqui contados ajudam a compor um mapa musical que a veterana professora vem montando ao longo da vida, ela mesma, uma violeira que já cantou de tudo em seus mais de setenta discos e que não tem jeito, continua tendo que cantar a velha e divertida "Marvada pinga" ["Moda da pinga"]. Dessa, ela não se livra mais!

Paulo Markun: Para entrevistar Inezita Barroso, nós convidamos Muibo Cesar Cury, locutor noticiarista do jornal Em três tempos, da Rádio Bandeirantes, e apresentador do programa Raízes do Brasil, da Rádio Cultura AM; Assis Angelo, jornalista e apresentador da Rádio Capital; a cantora Suzana Salles; Lázaro de Oliveira, jornalista do programa Metrópolis, da TV Cultura; Omar Jubran, pesquisador de música popular brasileira responsável pela recuperação e remasterização de toda a discografia de Noel Rosa [(1910 -1937), sambista, cantor, compositor, bandolinista e violinista considerado um dos mais importantes artistas brasileiros, autor de mais de 300 composições, entre as quais sucessos como o samba bem-humorado "Com que roupa?", "As pastorinhas", em parceria com João de Barro, "Feitiço da Vila" e "Palpite infeliz", esses dois últimos escritos para atacar o seu rival e também compositor Wilson Barbosa] e que está hoje fazendo o mesmo trabalho com a obra de Ary Barroso [(1903-1964), radialista, músico e compositor, cujas músicas mais conhecidas são "Aquarela do Brasil" e "No rancho fundo"]; e o compositor Renato Teixeira [compositor e intérprete da música popular brasileira, autor das canções "Amanheceu, peguei a viola" e "Romaria"]. [Programa ao vivo, que permitiu a participação dos telespectadores por telefone, fax e internet] Boa noite, Inezita. É um prazer ter você aqui.

Inezita Barroso: Boa noite. É um grande prazer para mim.

Paulo Markun: Imagina! Vamos começar jogando a bola para frente. Você, em janeiro, está lançando um novo CD. Como é este CD?

Inezita Barroso: É, eu estarei lançando. Não deu tempo este ano, mas em janeiro eu acho que ele sai pela Trama [gravadora]. Eu fui contratada recentemente pela Trama, e é uma produção do Fernando Faro [Fernando Abílio de Faro Santos, jornalista, apresentador de rádio, escritor, diretor de programas para a TV e produtor musical, trabalhou em várias emissoras de televisão, destacando-se na idealização e direção do programa Ensaio, na TV Cultura de São Paulo, um dos mais importantes registros da música brasileira] e os arranjos do Théo de Barros [diretor musical e compositor, destacou-se no Teatro Arena durante a década de 1960. Em parceria com Geraldo Vandré, compôs "Disparada", que fez enorme sucesso na voz de Jair Rodrigues e dividiu o primeiro lugar no II Festival de Música Popular Brasileira, promovido pela Record em 1966, com "A banda", de Chico Buarque].

Paulo Markun: Como é que chama?

Inezita Barroso: Hoje lembrando. Esse título é porque eu gravei dois sambas inéditos do Paulo Vanzolini [renomado compositor da música popular brasileira, cuja dedicação dividia-se entre a arte e a carreira acadêmica. Destacou-se, ao lado de Adoniram Barbosa, como um dos pioneiros na composição de samba paulista, além de ter se projetado no campo científico como doutor em zoologia pela Universidade de Harvard, sendo um dos zoólogos mais respeitados pela comunidade científica internacional - ver entrevista com Paulo Vanzolini no Roda Viva], e um deles chama-se "Hoje lembrando" [Inezita lançou esse álbum aos 78 anos, reunindo 13 canções, das quais dez regravações de obras raras de sua carreira].

Paulo Markun: E você foi a responsável pela primeira gravação de "Ronda" [composição mais famosa de Paulo Vanzolini]. Em que ano foi isso?

Inezita Barroso: Fui, em 1953 - eu não era nem profissional - eu fui ao Rio para gravar mais a "Moda da pinga", e daí faltou uma música. Eu não tinha pensado, eu não estava acreditando muito que eu ia gravar, não. E era do outro lado [referindo-se ao outro lado do disco LP]! Aí o Paulo [Vanzolini] falou: " Grava a minha, grava a "Ronda", que a gente cantava muito em casa, em reunião de estudantes...

Paulo Markun: Ele compôs na sua casa?

Inezita Barroso: Aí eu gravei e foi um sucesso.

Lázaro de Oliveira: Inezita, o Paulo Vanzolini diz que você só gravou porque ele estava no Rio e você pediu autorização. Ou não?

Inezita Barroso: Pedi.

Lázaro de Oliveira: Pois é, porque se ele não estivesse no Rio, você não teria gravado. É isso ou não?

Inezita Barroso: É, porque daí ia ter demora nisso tudo...

Lázaro de Oliveira: É que ele passou no estúdio...

Inezita Barroso: É, ele vinha para São Paulo comigo, de automóvel, e ele falou: "Eu vou passar no estúdio onde você está gravando, depois a gente vai embora". Eu falei: "Tudo bem". E, por acaso [rindo], faltou uma música que, aliás, não queriam que eu gravasse, não queriam mesmo, porque dizia o diretor musical da RCA Victor [gravadora], lá no Rio, que São Paulo era uma província e não tinha samba. Então, ele ficou assim. Mas o Regional [Waldyro Frederico Tramontano, conhecido como "Canhoto", dono do Regional, conjunto musical que evoluiu a partir dos grupos de choro e que fazia o acompanhamento dos cantores nos programas de rádio e nas gravações], que era maravilhoso, disse: "Toca para mim esse samba". E era apenas "Ronda" [close em Oliveira rindo], e o Regional se encantou, Chiquinho do Acordeon [como era conhecido Romeu Seibel (1928-1993), famoso instrumentista e compositor brasileiro, integrante do Trio Surdina na década de 1950 e, nos anos 1960, tocou na orquestra da Rádio Nacional, formou seu próprio conjunto, extinto somente em 1990, excursionou pela Europa com o Sexteto Radamés Gnatalli e foi diretor musical da TV Escelsior. Sua vasta discografia reúne mais de trinta álbuns]... Olha, era só cobra que tinha naquele Regional e eu acabei gravando. Então, é "Ronda" de um lado e  a "Moda da pinga" do outro. Meu primeiro disco!

Muibo César Cury: E você gravou o samba do Paulo Vanzolini com a letra na mão, não foi isso, Inezita?

Inezita Barroso: Foi, com a letra na mão! Tanto que, em algumas gravações, tem umas palavras não erradas, mas mal entendidas e que trocam um pouco o estilo da música, assim, como ele diz na segunda parte: "Procuro nas mesas dos bares"; está certo. Aí gravaram: "Procuro em todos os bares". Naquele tempo mulher não entrava em bar, por pior que ela fosse.

Muibo César Cury: É verdade.

Inezita Barroso: Então, os homens ficavam na calçada, nas mesinhas na avenida São João tiritando de frio [risos] e as mulheres passavam pela calçada. Elas não tinham o direito de entrar. Então, esse é um erro de época, é uma coisa importante você saber a letra, observar a letra, porque define uma época.

Muibo César Cury: E o produtor disse para você: "Samba? Paulista? São Paulo não tem samba!" [rindo]. Não foi isso?

Inezita Barroso: É: "São Paulo não tem samba, isso não existe!". Foi embora para casa, de ofendido que era! E aí o Regional disse: "Toca aí para mim, toca aí para mim!". E amaram! E eu gravei.

Muibo César Cury: E foi sucesso em todas as noites do Rio de Janeiro, principalmente...

Inezita Barroso: E continua aqui também... [rindo]

Muibo César Cury: E continua aqui em São Paulo.

Inezita Barroso: Continua!

Suzana Salles: Inezita, me diga: na "Moda da pinga", na canção, há versos do Paulo Vanzolini, afinal? Isso é tão falado!

Inezita Barroso: Ah, isso é uma coisa interessante, eu preciso contar isso, porque... [sendo interrompida]

Suzana Salles: Ai que bom! Então me conta porque eu também estou curiosa para saber.

Inezita Barroso: A coisa é assim, cada lugar que eu vou do interior, às vezes até em outro estado, tem um cara bem moço dizendo assim: “Poxa, a "Moda da pinga" é minha, como que você não põe o meu nome quando você canta?" Eu falei: "Não pode ser sua, eu gravei em 53 e você não é desse tempo!". “Não, mas é minha!” . Então, todo mundo reivindica porque é engraçada, ela persiste ainda até hoje, sobrevive, e todo dia quase eu sou obrigada a cantar a "Moda da pinga".

Lázaro de Oliveira: E isso te incomoda ou não, Inezita?

Suzana Salles: Mas há versos do Paulo Vanzolini? Eu ainda estou querendo saber.

Lázaro de Oliveira: Ah, é!

Inezita Barroso
: Não, eu te falo.

Lázaro de Oliveira
: Mas algumas canções que pregam nos cantores às vezes cansam o cantor, ou seja, ele não quer mais cantar. E para você, como é?

Inezita Barroso: Você sabe que essas músicas que marcam muito são as únicas que eu erro? Esqueço a letra [risos]!

Lázaro de Oliveira: Mas não te incomoda cantar? Porque tem cantores que não agüentam mais. O Chico [Buarque] uma vez não agüentava mais cantar "A banda"... e ["Moda da pinga"] é uma música que você canta facilmente quando o público canta ou te incomoda?

Inezita Barroso: É, eu canto facilmente porque eu respeito muito o público, se ele está pedindo é porque ele gosta; senão, ele não iria nem se incomodar, não ia pedir.

Renato Teixeira: Inezita, mas de quem é a "Moda da pinga"? De quem é a letra?

Suzana Salles: [rindo] Obrigada, Renato.

Inezita Barroso: É. Agora eu vou contar porque eu sei. A briga é feroz e, quando eu gravei, já tinham duas gravações diferentes - uma do Raul Torres [(1906-1970), intérprete do gênero caipira, foi um dos pioneiros do rádio paulista. Dentre suas composições de sucesso destacam-se a moda da "Mula preta", "Colcha de retalhos" e "Cavalo Zaino"] e outra de outro compositor - que tinham pedaços da "Moda da pinga". Como vocês sabem, é uma maneira portuguesa, muito portuguesa que veio para o Brasil de pôr letras diferentes em músicas que eles gostam, e é o que aconteceu com a 'Moda da pinga". Você pode notar que a Amália Rodrigues [cantora portuguesa que fez sucesso no Brasil] tem quatro ou cinco fados com letras diferentes na mesma música, é um costume deles, normal. E isso passou para nós, então quem ouvia a "Moda da pinga" achava engraçada, achava o estribilho bom, a música boa, botava mais um verso, e mais um verso, e foi crescendo, até que um dia a briga estava feroz, todo mundo era autor da "Moda da pinga". O selo do disco trocou seis vezes! [Risos] Daí o Paulo [Vanzolini], que era muito gozador, falou: "Vamos acabar com essa briga! Eu componho duas, três estrofes, você grava, e a gente acaba com isso, porque já está chato isso aí". Eu falei: "Vamos lá!". Registrou a parte dele que, aliás, é muito boa. São umas estrofes lindas. Aí que dobrou a briga: "Está vendo? Aquela é minha!" [reproduzindo a fala dos compositores que brigaram pela autoria de "Moda da pinga"].

Suzana Salles: Quer dizer, era para resolver e ainda complicou.

Inezita Barroso: Não, só piorou! Mas a gente deixa, deixa...

Paulo Markun: Mas a origem é de um cancioneiro popular ou tem um autor originalmente?

Inezita Barroso: Não, não tem um autor original. É um sistema de cantar uma música assim, pondo letras diferentes, o que é livre para um poeta. Então, eles põem letras diferentes em cima daquela música [e] aí já se acha autor da "Moda da pinga", mas não é nada! Tem dez, vinte autores ali... anônimos. Só eu conheço do Paulo [Vanzolini] porque ele registrou, porque ele disse a mim que ele ia registrar para acabar com a briga. Só piorou!

Omar Jubran: Você lembra Inezita quais são essas [estrofes] que são especificamente do Paulo Vanzolini?

Inezita Barroso: Lembro, são muito engraçados: [cantando] "Venho da cidade, já venho cantando, trago um garrafão que venho chupando, venho pros caminho venho trupicando, chifrando os barranco venho cambetiando, no lugar que eu caio já fico roncando" [riso]. Essa é dele.

Assis Angelo: Inezita, já na primeira gravação, na sua primeira gravação, aliás, no seu primeiro disco, em 1953, essa música, a "Moda da pinga" já aparece com um nome de autor, já tem um autorzinho lá?

Inezita Barroso: Já, sempre teve.

Assis Angelo: E à sua revelia foi posta, naturalmente. Você não foi consultada?

Inezita Barroso: Não, depois eu fui pesquisar isso muito seriamente, porque eu acho uma injustiça ter um autor e você não citar. Eu acho isso muito importante, tudo o que eu canto eu tenho que dizer, recital, show e tudo, eu digo o nome do compositor, é claro!

Assis Angelo: Agora, muita gente me pergunta - porque sabe da nossa amizade, que a gente já tomou muita água de coco lá no Parreirinha, por exemplo: "A Inezita bebe muito?". A pergunta está aí: você bebe cachaça? [Risos]

Inezita Barroso: Não!

Suzana Salles: É que enfim...

Inezita Barroso: Eu gosto de outras bebidas, mas o que eu ganho de pinga, eu vou lhe contar uma coisa [risos]! Qualquer dia eu tenho que sair de casa, não vou caber mais de tanto garrafão!

Assis Angelo: Ou você ou a pinga?

Inezita Barroso: Ou eu ou ela.

Assis Angelo: Agora, de 53 para cá, musicalmente falando, o que mudou na sua visão aqui no Brasil? A qualidade musical como anda? A divulgação da boa música? A música caipira, em que você deixou a sua marca, [que] está com a sua marca registrada, é discriminada ainda? Tem um grande público para isso, tem gente boa realmente fazendo uma boa música caipira, moda de viola, por exemplo?

Inezita Barroso: Tem, tem gente boa, tem um grande público para isso, principalmente, ao qual ninguém dá confiança. A música caipira... [imitando o tom de desdém com que muitas pessoas se referem a esse gênero musical] Então, basta ligar no programa Viola, Minha Viola para ver o que é aquele público fiel há 22 anos freqüentando o auditório. E não foi de 53 para cá não, foi um pouquinho depois, porque até 60, 60 e pouco ainda se dava muito valor às duplas caipiras, muitas aparecendo nessa época...

Paulo Markun: Você acusa a bossa nova um pouco asperamente nas suas entrevistas por ter sido a responsável por essa mudança, não é isso?

Inezita Barroso
: Não, não só a bossa nova. Muitos gêneros que apareceram. É como hoje, que o pessoal tenta botar para trás. Sertanejo... [pronunciando o termo com a intenção de engrandecê-lo, mas fazendo careta] Sertanejo é uma coisa, caipira é outra! Como era, a bossa nova é uma coisa, samba-canção é outra, samba antigo é outra; chorinho é outra! A gente tem que conviver com tudo isso, não [é] que a gente ataque. Para quê atacar? É outra estrada, outro caminho. [Seria] brigar à toa, com o vento!

[...]: Inezita...

Inezita Barroso
: Não é? Como agora, a briga que criaram: música sertaneja, música caipira... Quer dizer, não tem nada a ver uma coisa com a outra. Podia ser outro nome, música chinesa, vamos dizer... [risos]

Paulo Markun: Texana...

Inezita Barroso
: Não é? É um gênero diferente.

Paulo Markun
: Inezita...

Assis Angelo
: Inezita, o Moraes Sarmento chegou até a registrar um bordão: a música sertanoja!

Inezita Barroso: Foi.

Assis Angelo
: Porque há tanta porcaria, de fato.. [risos]

Inezita Barroso
: Foi, coitado! Ele sofreu muito por causa disso [risos]!

Renato Teixeira: Inezita, você não acha que a música caipira - que eu costumo chamar a "música da cultura caipira" - ... No final dos anos 60, ela realmente encerra um ciclo, que era o ciclo do rádio, não é?

Inezita Barroso
: Foi.

Renato Teixeira
: Daquela era do rádio. Mas eu costumo dizer que "a boiada cansa, mas a estrada continua"! Não é?

Inezita Barroso
: É lógico.

Renato Teixeira
: E eu acho que ela vem influenciando uma nova geração. Você vê que se percebe, hoje, a quantidade de violeiros que se tem, de músicos tocando viola e gostando. Eu acho que ela não termina ali, ela continua, a estrada continua.

Inezita Barroso
: E cada vez as crianças se interessando mais por orquestra de viola, querendo aprender viola...

Renato Teixeira
: Você percebe essa diferença, você visualiza esse fim de um ciclo e começo de um outro? Você vê perspectiva? Como você vê o futuro na "música da cultura caipira"?

Inezita Barroso: Eu acho que a cultura caipira é intocável. O que é intocável está dentro da pessoa, ela não precisar sair gritando: "Eu sou assim, a música é assim". Fica quieto, está aqui dentro guardada [batendo com a palma da mão no lado esquerdo do peito]; então, é uma coisa que não vai morrer tão cedo. Outros modismos aparecem e caem, e vão e voltam, mas a música, a raiz da gente não morre, porque se morrer a gente está perdido, está solto no espaço!

Renato Teixeira
: Mas você percebe que ela sempre teve um lado bem comercial, e um lado que... e o seu lado, principalmente, nesse histórico, um lado mais sério de encarar mesmo, com pesquisa... Como levar a coisa mais seriamente e o lado mais comercial? Isso é uma coisa histórica dentro desse tipo de música para a gente poder dizer... Hoje, eu costumo dizer que os sertanejos são vaqueiros e nós somos agricultores. Eu vejo essa diferença no... você acha que... como você vê esse futuro, como você vê essa perspectiva?

Inezita Barroso
: Eu vejo com muita esperança, eu acho que o agricultor, o vaqueiro é um homem que guarda dentro de si alguma coisa da sua raiz.

Renato Teixeira: E essa música comercial, a sertaneja? Você acha que ela é incoerente, [que] ela não tem um sentido...?

Inezita Barroso
: Não, é outra coisa, é outro estilo. Tanto faz você chamar sertanejo como qualquer outro nome que queiram dar, é outra coisa. Não tem nada a ver com raiz, com raça, com terra, não tem nada a ver.

Suzana Salles
: Em relação a isso, Inezita, nas cidades do interior de São Paulo ainda há muitos festejos, muitas festas, onde eles mantêm essa tradição maravilhosa da Festa do Divino, eles inventam como, por exemplo, em São Luiz do Paraitinga, no Vale do Paraíba. Há uma Festa do Divino lá que é maravilhosa, o carnaval que eles inventam e essa preservação que têm em uma cidade como São Luiz, teoricamente pequena. Você não acha que é um bom exemplo para outras cidades do interior, também? Existem muitas que mantêm. Eu acho São Luiz um exemplo bem interessante...

Inezita Barroso
: É.

Suzana Salles: Pelo tamanho da cidade...

Inezita Barroso
: É.

Suzana Salles: E pela representatividade [com] que ela atinge a profundidade da alma brasileira nesse sentido sertanejo.

Inezita Barroso
: É muito bonito isso! Agora, quanto menor a cidade mais amor àquelas coisas, quanto mais junta uma comunidade, mais unida, é muito importante! Muito importante porque quando cresce, quando a cidade cresce vai se diluindo, já entram outras coisas...

Suzana Salles
: Sim.

Inezita Barroso
: Mas aquela chama não vai apagar não!

Suzana Salles
: Claro que não. E eu acho que é assim, um exemplo interessante que eu... É que eu convivo bastante lá em São Luiz, um exemplo interessante de que eles promovem... São festivais, eles tem uma preocupação em promover. Então eles fazem festival de música junina, festival de música carnavalesca e isso é um jeito da cidade toda estar participando e fazendo a música, estar vivendo dentro daquela comunidade deles...

Inezita Barroso
: Exato.

Suzana Salles
: E isso se espalha de uma maneira surpreendente, tendo as cidades vizinhas querendo copiar o modelo...

Inezita Barroso: Exato.

Suzana Salles
: Que é assim, criar em seu próprio lugar, também, festivais, eventos, encontros, encontro de folias de reis... [grupos coreográfico-musicais que cultuam em geral eventos realacionados com o nascimento de Jesus Cristo:  o próprio nascimento, o aparecimento dos Três Reis Magos ou a vinda do Espírito Santo]

Inezita Barroso: É.

Suzana Salles: Então, é um caminho que eu gostaria que você comentasse, se você acha que é um caminho fazer festival, promover encontros...?

Inezita Barroso: Eu acho muito importante festival. Vem à luz muita coisa bonita, muita coisa boa, mas a coisa tem que ser muito sério!

Suzana Salles: É verdade.

Inezita Barroso: Muito sério, muito bem organizado, muito bem ensaiado e muito bem ouvido, porque não adianta dizer: "Vai para o festival e julga assim... [gesticula batendo as mãos, simulando uma coisa que é feita de qualquer jeito]

Suzana Salles: Não, não.

Inezita Barroso: Essa aqui é boa! [como quem está a escolher com desdém] Não é assim, tem que ter muito critério.

Suzana Salles: Inclusive que é adquirido com o tempo.

Inezita Barroso: Exatamente.

Suzana Salles: Na verdade, é a história que vai fazer.

Inezita Barroso
: É! Na mão de pessoas que entendam daquele assunto...

Suzana Salles: É.

Inezita Barroso: Tem que ser assim.

Assis Angelo: Inezita...

Omar Jubran: Inezita, aproveitando...

Assis Angelo: Vai, vai.

Omar Jubran: Aproveitando o mote da pergunta do Angelo e do Renato, são cinquenta anos de carreira, são 22 anos de Viola...

Inezita Barroso: É.

Omar Jubran: E eu queria saber o seguinte: como considera que a história foi justa com você? E quando eu digo justa com você, quer dizer, o gênero que você abraçou, o gênero que você defende sem nunca ter - desculpe, talvez a palavra é forte - se prostituído com outro gênero para fazer bonito, para ganhar dinheiro. Não! Você continua na mesma. Então, Inezita Barroso e o gênero que Inezita Barroso canta, a história foi justa com os dois?

Inezita Barroso: Eu não sei, eu não penso em justo ou injusto, não. Eu estou assim, meio na estrada, assim [rindo, coloca as mãos ao lado dos olhos imitando uma viseira], olhando para frente. E eu sempre andei para frente, então tem gente que diz: "Ah, essa música aí pô! O fulano canta muito menos, canta outra coisa, tá rico!". Eu falei: "Mas quem falou que eu quero ficar rica?". Não quero ficar rica. Se eu quisesse eu abria uma butique elegantíssima, eu ia vender roupa! [Riso]

Assis Angelo
: Inezita...

Inezita Barroso: Já que eu me propus a cantar, eu me conformo com o que eu sou e com o que eu quero ser.

Assis Angelo: Inezita, outro dia o Paulo Vanzolini me falou - a gente [estava] conversando a seu respeito em um bar -, ele disse: "Inezita Barroso canta essas coisas eu não sei porquê, porque ela tem uma voz privilegiada e eu vi muito marmanjo, muito "nego" que tem lá no Rio de Janeiro, nos morros do Rio de Janeiro, chorando emocionado com o canto de samba que ela sabe tão bem fazer! Agora, fica cantando essas coisas, essas besteiras de folclore, moda de viola, não sei das quantas". É verdade! Ele disse mais ainda: que você tem um baú cheio de coisas, conhece tudo do Noel Rosa e nunca enveredou pelo caminho do samba propriamente dito, e samba de boa qualidade como sabia fazer o Noel.

Inezita Barroso: Não, eu vou contar porquê. Primeira topada que eu dei assim foi com a Aracy de Almeida [(1914-1988), considerada a principal intérprete de Noel Rosa e, ao lado de Carmem Miranda, a maior cantora de sambas e canções carnavalescas na década de 1930, destacando-se entre seus sucessos: "Palpite infeliz", "Feitiço da vila" e "Com que roupa?"]. Então, ela era uma cantora de Noel Rosa e eu estava lá arranhando o meu violão e fiz um programa na Tupi, a Tupi recém-aberta, TV Tupi. Nunca fui contratada de lá como muita gente pensa, como está errado na enciclopédia. Eu nunca fui. Foi um programa que o Túlio de Lemos [(1910-1978), teatrólogo e produtor de televisão, radialista e cantor lírico, um dos grandes nomes da Rádio Tupi que, em 1950, forneceu as condições necessárias para a instalação da primeira da TV Tupi, a primeira TV da América Latina, onde Túlio escreveu e dirigiu muitos programas] organizava e me convidou para fazer o tipo de uma pecinha, de uma cena curtinha com as músicas de Noel Rosa. Aí eu tinha um telefone, tinha uns negócios, bem feito porque não tinha vídeo, não podia apagar nada, tinha que ser na raça, no peito. E fez muito sucesso esse programa, então tudo bem. Mas daí a dona Aracy chegou: [imitando Aracy, arrastando o "s" no sotaque carioca] "Esta grã-fininha mascarada...". [Risos] Fiquei muito brava, viu! Falei: "Eu não estou querendo abafar ninguém, poxa! Eu estou cantando o que eu sei, não é...".

Paulo Markun: E você nunca gravou algum disco com clássicos da música popular brasileira, é a pergunta de Marcelo Teodoro. Gravou?

Inezita Barroso: Gravei com o Regional, do Evandro [conjunto de choro que se apresentava em clubes, casas noturnas de São Paulo e que acompanhava os cantores nos programas de rádio].

Paulo Markun: Aquele de três anos, 97, não foi isso?

Inezita Barroso: Acho que foi isso...

Entrevistador
: Inclusive com músicas de Noel.

Inezita Barroso: Com o Regional dele, gravei Dolores Duran [Adiléia Silva da Rocha (1930-1959), cantora e compositora, considerada a maior representante do samba-canção, conquistou renome internacional, destacando-se entre seus sucessos: "Fim de caso", "Castigo", "A noite do meu bem". Fez parceria de sucesso com grandes nomes da MPB e morreu precocemente aos 29 anos], Noel Rosa, Lupicínio Rodrigues [(1914-1974), autor do termo “dor de cotovelo” compôs sucessos com: "Esses moços", "Pobres moços", "Se acaso você chegasse", "Felicidade"], alguns populares, foi muito bem porque a gente fez um espetáculo muito tempo, durante muito tempo, ele com o Regional, com o chorinho e coisas assim. Parecida dentro da época e eu cantei bastante música popular...

Entrevistador: Inezita...

Inezita Barroso: Tanto que "Ronda" é uma música popular e foi o meu primeiro disco.

Paulo Markun: Pois é!

Muibo César Cury: Aproveitando a carona, Inezita...

Inezita Barroso: [Para] Onde que eu olho agora? [Risos]

Paulo Markun: Você escolhe.

Muibo César Cury
: Deixa aproveitar a carona da pergunta que lhe foi feita e eu pergunto a você: "Uma paulistana que concluiu curso de violão, de canto, de piano; ao invés de ser uma concertista, virou a primeira dama da música caipira. Valeu à pena?

Inezita Barroso: Valeu, valeu porque aqui dentro fala mais alto! Sabe, eu estava muito mais identificada com o caipira, com viola, com fazenda, com terra, do que com Brahms [1883-1897) um dos maiores compositores clássicos da Alemanha, dedicou-se a quase todos os gêneros, exceto ópera e balé], Chopin [Frederic Chopin, (1810-1849), compositor e pianista polonês que fez carreira na França, aos oito anos de idade, compôs e executou em público sua primeira obra, e aos 15 anos, já era considerado "o maior pianista de Varsóvia"] e outros bichos...

Muibo César Cury: Em 1987 você participou de uma pesquisa da MPB [Música Popular Brasileira] no Rio de Janeiro?

Inezita Barroso: Foi.

Muibo César Cury
: Organizado pela Funarte [Fundação Nacional de Artes - instituição de apoio e fomento à arte vinculada ao Ministério da Cultura] e você foi exclusivamente para defender e falar sobre a moda de viola...

Inezita Barroso: Moda de viola e viola...

Muibo César Cury: Como você foi recepcionada pelos participantes da MPB, Inezita?

Inezita Barroso
: Maravilhosamente!

Muibo César Cury: É...

Inezita Barroso
: Tinha gente do Brasil inteiro, Rio Grande do Sul, Pará, Ceará, Rio Grande do Norte, Bahia, gente boa, muito da pesada e foi muito bom, e foi aí que eu conheci o Roberto Correia [1957, violeiro, compositor e pesquisador, referência nacional e internacional do gênero], meu grande amigo violeiro e a gente se deu muito bem, eu gravei dois CDs com ele: viola e voz, só! Gostei muito de ter ido nesse congresso.

[...]
: Inezita...

Suzana Salles: O que é e o Renato estava inclusive falando desses novos violeiros [grupo dos novos caipiras] que estão surgindo ultimamente...

Inezita Barroso
: Estão surgindo muitos...

Suzana Salles: Essa retomada impressionante é muito bonita, não é?

Assis Angelo: Tem o Paulinho Freire [violeiro, escritor, compositor de trilhas sonoras para seriados, programas de TV e filmes, com destaque para Grande Sertão: Veredas e Globo Rural, da Rede Globo, e Deus é brasileiro, de Cacá Diegues ], o Chico Lobo [1964, compositor, intérprete e solista de viola, ministra Oficina de Viola Caipira para iniciantes, seu mais recente trabalho é o seu terceiro CD, Reinado, contendo toadas, calangos e modas de viola]...

Inezita Barroso
: É.

Entrevistador: Almir Sater [músico e ator, viajou pelo pantanal mato-grossense pesquisando a música e os costumes da região, e atuou em novelas como Pantanal, da TV Manchete, e Rei do Gado, da TV Globo. Entre seus sucessos estão "Tocando em frente", em parceria com Renato Teixeira, e "Chalana", de autoria de Mário Zan e Arlindo Pinto]

Suzana Salles: Ivan Vilela [violeiro de formação acadêmica, é doutor pela Unicamp, professor e introdutor do curso de viola na Universidade de São Paulo, especialista em composição e regência, intérprete, arranjador, instrumentista e pesquisador da música brasileira de raiz e de viola]...

Inezita Barroso
: Almir, Ivan, muitos e muitos. O Pereira da Viola [José Rodrigues Pereira, compositor e intérprete premiado, seu primeiro disco Terra Boa foi considerado como uma obra-prima da música de raiz, convidado de Inezita Barroso para dividir com ela o show que faria no Teatro Popular do Sesi, em São Paulo] que eu acho fantástico...

Suzana Salles: O Pereira da Viola de Minas...

Lázaro de Oliveira: Inezita me desvenda esse mistério, porque você tem esse lado delicado da música caipira, mas você tinha uma vivência aqui em São Paulo extremamente urbana e você se reuniu em um clubinho, era você, Paulo Vanzolini, o pessoal e cantava outras coisas, revele esse outro lado aqui para a gente, como é que funcionava?

Inezita Barroso: É, a coisa começou assim, como estudantes. Sábado a gente não tinha muito o que fazer, não tinha muito dinheiro, então  [combinávamos:] "Vamos lá em casa tocar, vamos lá em casa tocar", e foi crescendo, crescendo, crescendo. Então, apareceram violonistas ótimos, cavaquinho, ritmo, pandeiro, não sei o quê mais. Cada dia chegava um, todos estudantes, e a gente passava o sábado inteiro tocando e descobrindo músicas populares, caipiras, de outro estado. E daí, lá para as sete horas da noite, que era tarde já porque eles chegavam meio-dia [e nos perguntávamos:] "Vamos comprar uma pizza?", e partíamos em vinte pedaços... [riso]

Lázaro de Oliveira: A pizza já tinha naquela época?  

Renato Teixeira: Inezita, eu queria saber uma coisa sobre o seu acervo, já me falaram muito que você tem tudo, que você tem todas as fitas, tem todos os registros, que é um acervo muito importante, eu sempre tive curiosidade, existe esse acervo, você tem realmente material poderoso sobre a música do interior do Brasil?

Inezita Barroso: Tenho.

Paulo Markun: Isso está guardado como?

Inezita Barroso: Tenho sim, porque eu pesquisei pessoalmente. Então eu fiz muitas viagens pelo Brasil inteiro, inclusive a mais importante foi uma viagem que eu fiz de jipe.

Lázaro de Oliveira: Verde e amarelo...

Inezita Barroso: É, ao Rio Grande do Norte e de lá eu fui chamada para receber o Roquete de Ouro [melhores do rádio também aos profissionais da recém criada TV] aqui em São Paulo. Aí eu tinha que voltar correndo porque eu pretendia ir mais longe, e fui recolhendo, então eu tenho tudo isso, algumas coisas pequenas, menores...

Renato Teixeira
: E a gente tem acesso a isso, como tem acesso?

Paulo Markun: Recolhendo como Inezita, isso está gravado, está em partitura, como é que está?

Inezita Barroso
: Não, isso está escondido na minha gaveta. [Risos] Não dou para ninguém.

Paulo Markun
: Mas tem partitura, está gravado, como é?

Inezita Barroso: Você sabe que no tempo em que eu recolhi isso, não existia gravador...

Paulo Markun: Pois é, sim.

Inezita Barroso: De pilha principalmente nem pensar, então o único gravador que existia era geloso de fio de aço, é um negócio muito antigo. Mais você não podia carregar aquilo que era enorme, então eu levava um papel de música e eu copiava na partitura, muita coisa eu recolhi assim inclusive uma maravilhosa na Bahia que, cadê o meu violão, me da aí que eu vou mostrar para vocês.

Paulo Markun: Está aqui, o violão, por favor.

Inezita Barroso: Eu estava em um posto de gasolina para abastecer o jipe e tinha um velhinho cantando e varrendo o posto com aquela vassoura de bruxa, assim horrorosa, e eu fui atrás para ouvir aquilo, lindo, lindo, lindo e marcando na pauta aquilo lá que ele estava cantando, aí para um "Feneme" como eles chamavam, uma jamanta enorme FNM [tipo de caminhão] e ele puxa a antena assim e fala assim, a senhora ouvindo essa porcaria, coisa boa é a Rádio Nacional do Rio de Janeiro, ligou a toda e eu acabei perdendo algumas estrofes do velhinho, olha que crime não é? Mas era mais ou menos isso: [Inezita pega o violão, toca e canta] "Se a piaba nada eu quero nadar, se a andorinha voa eu também quero avoar, menina minha menina, menina minha namorada, minha barbuleta branca das asa dorada, se a piaba nada eu quero nadar, se a andorinha voa eu também quero avoar, menina diga a teu pai que faça as conta comigo e se num tive dinheiro que pague as conta contigo..." E vai por aí afora. [riso] Tem mil esfroles, mas as lindas eu perdi porque aquele rádio, o que eu ia fazer...

Paulo Markun
: A Rádio Nacional te atrapalhou.

Inezita Barroso
: Ia brigar com o coitado, aí não dava.

Assis Angelo
: Inezita, Elis Regina...

Paulo Markun
: Espera um pouquinho Assis, nós vamos fazer um breve intervalo e voltamos já, já. A gente volta daqui instantes.

[intervalo]


Paulo Markun: Estamos de volta com o Roda Viva, esta noite entrevistando a cantora e pesquisadora da música brasileira de raiz Inezita Barroso. [...] Inezita, Paulinho Texas, da Mooca, diz o seguinte: "A música caipira nasceu de uma humilhação; apesar disso, o Tião Carreiro [José Dias Nunes (1934-1993), criou inúmeras introduções e arranjos ao pagode-de-viola, inovou uma forma original e gravou moda de viola, cururu, cateretê, valseado, querumana, guarânias, rasqueados, balanços e tango, destacando-se entre outras obras de sucesso: "Boi soberano" e "Tristeza do Jeca"] é a bandeira do orgulho caipira". Você citou Mazzaropi [Amácio Mazzaropi (1912-1983), ator brasileiro, fez sucesso no cinema representando o típico caboclo e popularizou-se personalizando o Jeca Tatu, personagem de Monteiro Lobato], mas até hoje Tião Carreiro, segundo Paulinho Texas, é o único que não entrou em liquidação nas lojas que vendem CDs. E Gilberto Batista, de Itaúna, Minas Gerais, pergunta: "Qual o peso de Tião Carreiro para a música sertaneja?".

Inezita Barroso
: Tião Carreiro era um cantor, compositor, grande violeiro e Mazzaropi era um grande ator, essa diferença que têm.

Muibo César Cury
: A propósito Inezita, eu gostaria de saber quais os seus ídolos ou quais os ídolos da menina e da mocinha Inezita Barroso?

Inezita Barroso: Ai, deixa ver... Naquele tempo, quase sempre Tonico e Tinoco [dupla formada pelos irmãos João Salvador Perez (1917-1994), o "Tonico" e José Perez, o "Tinoco"], Raul Torres, Serrinha [Antenor Serra (1917-1978), violeiro, cantador e compositor com destaque para Chitãozinho e Xororó em parceria com o letrista Athos Campos e Bom Jesus de Pirapora]... E o meu ídolo mesmo, maior, foi Cornélio Pires [(1884-1958), escritor, compositor, conferencista, jornalista, contador de causos, folclorista e poeta destacou-se como compilador e divulgador da cultura sertaneja]. Eu [o] admirava demais. Não cheguei a conhecer porque, nas Festas do Divino, que eram no rio Tietê, na frente da cidade, procissão de barcos, etc... barcos não, aquelas... como é que chama aquilo?

Muibo César Cury
: Caravelinhas.

Inezita Barroso
: Não, é assim, tipo de uma balsa, mas é com remeiros...

Muibo César Cury
: Uma chata [embarcação pequena, rude, de pequeno calado, fundo chato e costado baixo com dois remos], certo.

Inezita Barroso
: E a missa realizada ali é uma festa deslumbrante, que ainda existe. Eu acho bom vocês irem lá ver, é lindo na época de Natal. E ele tinha uma casinha na beira do rio, muito bonita, e não saía de casa porque ele era brigado com o padre. Então, o padre dizia a missa no rio, aquela beleza, mas sem a presença dele e, por causa disso, eu não pude conhecer. Conheci só os parentes e tudo, porque ele se trancava em casa e saía quando acabava a Festa do Divino.

Muibo César Cury
: Quer dizer que no seu sangue já vinha, através dos seus ídolos, todo o seu desejo de defender a música caipira?

Inezita Barroso: Ah, sim, sim. Ele [Cornélio Pires] e, aqui em São Paulo, o Mário de Andrade [(1893-1945), um dos maiores nomes da literatura nacional, pesquisador do folclore brasileiro e autor de Macunaíma, obra que reúne a mitologia, o folclore, a história e o linguajar popular do Brasil na personagem Macunaíma, o anti-herói, síntese das virtudes e defeitos do brasileiro, assim como, de certa forma, Mazzaropi representa o caboclo paulista] que eu achava divino, maravilhoso!

Paulo Markun: Que, aliás, fez um grande trabalho também de coleta de informações de folclore...

Inezita Barroso
: Fez.

Muibo César Cury
: Exatamente...

Inezita Barroso: Nossa excepcional, ele era tudo.

Omar Jubran
: Inezita, a gente sabe como a mídia, a nossa mídia trata essa nossa música de raiz. Você tem informações de como isso é visto no exterior?

Inezita Barroso
: Olha, às vezes que eu saí do Brasil eu fui super bem recebida, para não mentir eu fui mais bem recebida do que aqui.

Omar Jubran
: É mesmo?

Inezita Barroso
: É. Eles gostam, eles querem ver uma coisa diferente que não seja a música deles.

Omar Jubran: É exatamente isso.

Inezita Barroso: Então não adianta você ir lá fora para cantar músicas deles.

Omar Jubran: Quer dizer, a curiosidade pelo novo é isso que eles esperam a expectativa?

Inezita Barroso: É. Pelo ritmo principalmente, porque em nenhum país do mundo tem tantos ritmos como o Brasil, nenhum!

Omar Jubran: Certo.

Inezita Barroso
: Então, aquilo encanta, eles ficam... Às vezes nem entendem a letra em alguns países, mas eles amam aquela cadência, aquela coisa diferente de uma música para outra, não é aquela coisa igual, sempre.

Omar Jubran: Você teve...

Lázaro de Oliveira: Não é a toa que o Milionário e José Rico [dupla de música sertaneja] fazem sucesso na China, não é?

Inezita Barroso: Foi, pois é...

Assis Angelo: Inezita, este ano aqui foi um ano político, eleitoralmente falando, muito dificilmente, eu não me lembro de ter visto você em palanque nenhum, nunca na verdade, embora nos anos 60 você tenha gravado um disco para o Adhemar de Barros [(1901-2001), um dos políticos mais importantes do processo de industrialização do país após a Revolução de 1930, tendo governado São Paulo entre 1938 e 1941 como interventor e de 1947 a 1951 e de 1963 a 1968 como governador eleito pelo povo] ... Muitos artistas fizeram aquilo lá [referindo-se a grandes nomes da música popular brasileira e que se envolveram em campanhas eleitorais como intérpretes de jingles políticos], Nelson Gonçalves [(1919-1998) foi um dos maiores cantores do Brasil, com destaque para "A volta do boêmio" e "Caminhemos"], Isaura Garcia [(1919-1993) autora de sucessos como "E Daí?" e "Só louco"], Luiz Vieira [autor de "Prelúdio para ninar gente grande", ou "Menino passarinho" e "Paz do meu amor"], Luiz Gonzaga [(1912-1989) também conhecido como Gonzagão, é considerado o "rei do baião", gênero musical que o consagrou, com destaque para "Asa Branca", escrita em parceria com Humberto Teixeira em 1947 e "Qui nem jiló". É pai de "Gonzaguinha", um dos maiores nomes da música popular brasileira]...

Inezita Barroso
: O que eu fiz?

Assis Angelo: O quê? Aí você fez!

Inezita Barroso: Eu não me lembro.

Assis Angelo
: Aí você fez. É o seguinte, você foi amiga de governadores, de presidentes como Juscelino Kubitschek [(1902-1976), médico, militar e político brasileiro, conhecido como JK, foi presidente do Brasil entre 1956 e 1961. Com estilo arrojado e inovador seu governo é lembrado pelo desenvolvimentismo, e seu nome é referência para políticos de várias tendências. Foi o responsável pela construção da nova capital federal, Brasília, e tinha como lema "cinquenta anos em cinco"] por exemplo, Jânio Quadros [(1917-1992), presidente do Brasil no período de janeiro a agosto de 1961, data em que renunciou ao governo, num fato obscuro e que marcou a história política brasileira] A amizade com políticos é bom para o artista. Você tem alguma curiosidade, alguma coisa que aconteceu na sua vida junto com esses políticos?

Inezita Barroso: Não, eu nunca encarei isso como proveito, como uma coisa, não, nada, inclusive fui muito amiga do Juscelino Kubitschek antes dele ser presidente. Hervê Cordovil [(1914-1979), eclético pianista, arranjador e compositor, destacando-se com "Sabiá lá na gaiola" e com a versão brasileira de "Biquíni de bolinha amarelinha"] me levou a Belo Horizonte, ele [Juscelino Kubitschek] era governador de Minas, era um cara genial o Juscelino, e eu tenho uma história esquisita com ele.

Assis Angelo
: Qual é?

Inezita Barroso: Ele gostava muito de mim e das músicas, principalmente as músicas mineiras e paulistas e tal. E volta e meia ele dizia, precisa cantar no Palácio, já era presidente, e um dia eu recebo um telefonema, de tarde lá, e falou: eu estou convidando você para vir para Brasília. Eu falei: "Mas quem está falando?". Ele falou: "É o Jussa". Falei: "Jussa, quem é Jussa? Gozação! Você não tem o que fazer, vagabundo?". Bati o telefone! [Risos] Dali a pouco, tocou de novo: "Eu sou o assessor do presidente...". Era ele mesmo que estava falando, eu queria morrer! [Risos]

Assis Angelo: Essas...

Inezita Barroso: "Mas você pode vir?". Eu falei: "Vou, eu vou sim!". Aí ele marcou o dia e tudo. Mandou um cachê enorme, que eu nunca tinha recebido na minha vida! E em dinheiro! A passagem... Aí eu comprei o maior vestido da paróquia, na maior loja de São Paulo. Cheguei lá no Palácio, tinha aqueles guardas assim: "Pode entrar, pode entrar", e eu fui entrando. Falei: "Deve ser uma festa lá no fundo, maravilhosa!". Chego lá, naquele salão enorme, ele - sentado em um sofá, de meia, com os pés cruzados em cima da mesa - falou: "Pode ir tirando o salto que eu sei que você morre de dor no pé". Olha, essa noite acabou tarde! Ele mandou chamar o Madrigal [pequeno coro] em Belo Horizonte, de avião, [e] ele tocou, cantou... Olha, ficamos ali nos divertindo! Era muito gostoso isso, muito.

Assis Angelo: Essas histórias, Inezita, por exemplo... não existe livro sobre você. O Lúcio Rangel [(1914-1979), jornalista, crítico musical e perquisador] nos anos 60, publicou um livro [Samba, jazz e outras notas, Ediouro] reunindo, fazendo alguns perfis de alguns artistas brasileiros importantes, naturalmente, e você é perfilada lá em algumas páginas e tal... 

Inezita Barroso
: Eu era importante [riso]!

Assis Angelo: Mas nunca se escreveu um livro contando a história da Inezita Barroso. E mais ainda: a própria Inezita Barroso ainda não escreveu um livro contando suas histórias, seus causos, como esse registro...

Paulo Markun
: Mas o Arley Pereira [(1935-2007), cronista e jornalista, autor da coleção em quarenta capítulos de A história do samba, da Editora Globo, dentre outras obras] não está escrevendo?

Muibo César Cury: O Arley Pereira está preparando...

Assis Angelo: Vai sair?

Muibo César Cury: Vai sair! Está preparando sobre...

Paulo Markun: A Inezita não respondeu em...

Muibo César Cury: A Inezita Barroso...

Suzana Salles: Não respondeu, está em silêncio...

Muibo César Cury: Era um dos quais eu li a respeito...

Inezita Barroso: Eu espero, eu sou esperança...

Muibo César Cury: De que Arley Pereira tem muito conhecimento da carreira da Inezita, está preparando um livro especial...

Paulo Markun: Sim, mas uma biografia autorizada, você cedeu o material pra ele pesquisar, não foi?

Inezita Barroso
: Cedi, mas acho que ele ficou meio com preguiça, porque são 25 álbuns gordos assim [mostra com o indicador e o polegar a espessura do álbum. Risos]. Ele ainda está no quarto!

Suzana Salles: Inezita, você falou do Hervê Cordovil. Uma das músicas, eu sou sua fã de carteirinha, não é...

Inezita Barroso
: Obrigado.

Suzana Salles: [continuando] Então, você já me fez chorar muito ouvindo o "Funeral dum rei Nagô", do Hekel Tavares [e Murilo Araújo] orquestrado pelo...

Inezita Barroso: Por ele.

Suzana Salles: ... pelo Hervê Cordovil. Então, essa convivência com o Hervê, como foi? Eu gostaria muito de saber...

Paulo Markun: Só para aproveitar uma carona, Celso Códis, do Caxingui que faz essa pergunta e ainda diz o seguinte, que eu não sei qual é o episódio, mas eu vou botar na roda, que diz o seguinte, sou amigo do Hervê Cordovil e gostaria de saber se você se lembra quando encontrou com ele no elevador da Rádio Record?

Inezita Barroso
: E muito, como me lembro!

Paulo Markun
: Como foi essa...

Inezita Barroso: Com muita saudade, trabalhei com ele na Record muitos anos e a Record naquele tempo tinha duas orquestras, uma para TV e outra para rádio, a coisa era bem feita...

Suzana Salles: Era.

Inezita Barroso
: Então o Hervê trabalhava comigo, toda semana eu cantava cinco músicas, no meu programa, diferentes e ele orquestrava as cinco, fazia os arranjos com o maior carinho, às vezes até no final por telefone. É assim, olha: lá, lá ri. Pode ensaiar amanhã. Já levava tudo pronto...

Suzana Salles: E a gravação era 1, 2, 3...

Inezita Barroso: E saia...

Suzana Salles: Todo mundo, ao mesmo tempo?

Inezita Barroso: Saia, e coisas interessantes que qualquer dia eu ainda vou contar quando eu puder sentar e escrever alguma coisa, eu gravei uma música que se chama "Mercedes da onda" que é da Cecília Meirelles a poesia e naquele tempo estava aparecendo a câmara de eco, câmara de eco e não sei o que, todo mundo falava nisso, mais o estúdio da Record na Quintino [Rua Quintino Bocaiúva] era tudo caído, cheio de tabiques, de cortinho, de coisas, e tinha um corredor com uma porta caindo e eu estava ensaiando para gravar no palco, a gente gravava ali na raça com a orquestra...

Suzana Salles
: É.

Inezita Barroso
: E ele lá regendo, eu falei, dá licença um pouco o meu nariz está escorrendo, falei, vou buscar um papelzinho lá e tal, e quando eu saí ele falou: "Você vai demorar?" Eu falei: "não!" [Hervê fala] "Fica aí onde você está, pára, pára!".

Suzana Salles
: A câmara de eco estava aí...

Inezita Barroso
: O que é, o que eu fiz? Deu um som lindo aqui, é um câmara de eco isso aí...

Paulo Markun: Era o corredor...

Inezita Barroso: O corredorzinho com a porta toda capenga. E sabe que eu gravei a música, você pode verificar na gravação, você jura que é uma câmara de eco mesmo...

Suzana Salles: E foi no corredor?

Inezita Barroso
: Corredor caindo a porta.

Assis Angelo: Inezita...

Entrevistador: Produziu a câmara de eco...

Assis Angelo: Tem cinco anos, entre 53 e 58, você emplacou, portanto os seus primeiros discos três clássicos, quer dizer, a "Ronda" do Paulo Vanzolini em 53, do outro lado do mesmo disco a "Moda da pinga" e em 58 "Lampião de gás" [de Zica Bergami, compositora, cantora, desenhista, escritora, só começou a se destacar com o "Lampião de gás"].

Inezita Barroso: Foi...

Assis Angelo: Eu não sei se alguma dessas músicas são da tua preferência, qual delas é a sua preferida, você, por exemplo, qual a música que você mais gosta do seu repertório, que você mesmo tenha gravado que muitos artistas dizem, eu não ouço meus discos, é tudo mentira, na verdade. Agora você...

Renato Teixeira: Não é não, você que...  

Assis Angelo: Não é não, Renato.

Inezita Barroso: Olha, são tantas músicas! Eu só gravo o que eu gosto, quer dizer: eu gosto de tudo!

Assis Angelo
: Então três que você realmente põe em primeira na lista.

Inezita Barroso: Não tenho, não tenho assim essa escala de coisas não, gosto muito do "Lampião de gás", canto até hoje porque pedem, hoje ainda cantei de tarde.

Assis Angelo: Você gravou essa música na íntegra, me parece que você...

Inezita Barroso: Não...

Assis Angelo: Não gravou toda a letra, não?

Inezita Barroso: Não, a Zica não era uma profissional, a Zica é uma criatura fantástica...

Assis Angelo: Aliás, maravilhosa.

Inezita Barroso: E ela chegou no corredor da Record, aquele corredor da porta caída e eu estava ensaiando com o Hervê e falou, eu trouxe uma música aqui para você da minha autoria, quando eu olhei não parava mais de desenrolar aquilo, tudo isso! Aí o Hervê ficou olhando assim... Deixa ver. E tinha a partitura, aí ele sentou no piano, partitura para piano mesmo, simples, sentou e falou, essa música é boa, mas vamos cortar uns versos, não vai caber no LP [long play, disco de vinil, comportava a gravação de um número maior de músicas]. Já era LP de 12 polegadas de vinilzão, e daí um dia eu estava gravando com ele o primeiro de 12 polegadas, o grandão, e faltava a última faixa, eu com gripe, espirando, o coral impaciente, a orquestra cansada! [Hervê fala] "Tenho que entregar isto hoje de noite na Copacabana porque se eu não entregar não vai sair o disco, então eu tenho que entregar. O que você vai cantar?" Eu falei: não sei. "Canta aquela música daquela senhora que trouxe aqui a música..."

Assis Angelo: Ainda bem que ele colocou...

Inezita Barroso
: "Eu vou cortar aqui, eu vou cortar aqui, o coral não precisa cantar, não precisa da letra, só cantarola", por isso que o coral, lai, raí, lai, lá, deu um arzinho francês, bom daí eu falei: mas que ótimo! Quando chegou na hora da bandinha, você sabe que aquilo foi gravado quase de ouvido, porque tinha uma guia de piano só, daí o coral já estava ali, eu morrendo, estava com febre, daí eu cantei aquilo lendo, claro, eu não ia decorar na hora aquilo e gostei, falei: puxa acho que vai ser bom! Ele chegou, "vamos mudar de tom aqui", aí chegava na hora da banda ele: "passa para si menor", o pessoal [Inezita cantarola tam, tam, tam, tam  tcham ...], aí o prato lá se animou, tem aquele prato escandaloso, ficou uma banda mesmo, agora volta, agora volta. Olha só como é que foi gravado!

Assis Angelo: E fez sucesso imediatamente, tanto que um ano depois foi gravado em 78 rotações em japonês.

Inezita Barroso: Foi em japonês.

Assis Angelo: Em japonês não é?

Inezita Barroso: Foi, foi.

Assis Angelo: "Ronda" teve depois, também, muitas gravações, só uma no exterior que eu saiba, lá na Suíça para aquelas bandas lá, não é?

Inezita Barroso: Mas "Ronda" é muito típico.

Assis Angelo: É bem forte.

Inezita Barroso: É muito nosso, a letra não pode interessar muito para eles.

Assis Angelo
: Pois é, agora "Lampião de gás" foi...

Inezita Barroso
: "Lampião de gás", não sei se vocês se lembram do campeonato do mundo em 58?

Assis Angelo: Claro.

Inezita Barroso: Tinha aqueles balões, era novidade, no Anhangabaú tocava o dia inteiro o "Lampião de gás", o pessoal dizia: eu não agüento mais! Mas daí quando chegou no ano concorreu com o Nat King Cole [cantor norte-americano que fez sucesso na América Latina, na década de 1950, cantando músicas em espanhol com destaque para "Catito"]

[...] Hum! [exclama admirado, espécie de elogio]

Inezita Barroso: [continuando] disco de ouro, aí o Nat King Cole lá: "catito, catito, catito mio", e o "Lampião" deu um baile nele, ganhou fácil.

[...] Quer dizer que os...

Renato Teixeira: Você sabe que no Largo de São Francisco ainda todo o sistema de iluminação a gás ainda existe em São Paulo?

Inezita Barroso
: É.

Renato Teixeira: E disse que dá até para recuperar?

Inezita Barroso: Mas no Pátio do Colégio também tem.

Entrevistador: Pode ter plano...

Inezita Barroso: Pena que está destruído, só o que ficou lá dentro que está bom.

Assis Angelo: Viu Renato, daqui a pouquinho vai ter trem também na região da Luz [região central da cidade de São Paulo, onde se encontra a Estação da Luz, cujo prédio foi tombado pelo Patrimônio Histórico].

Suzana Salles: É.

Assis Angelo: Dá para recuperar essas coisas.

Renato Teixeira
: Recuperar essas coisas, inaugurar lampião de gás...

Assis Angelo: Exatamente.

Paulo Markun
: Inezita, Márcia Palma aqui de Brasília jornalista vai direto ao ponto e pergunta o seguinte: por que você não libera as informações que vem coletando ao longo dos anos?

Inezita Barroso: Olha, são assim, quando você recolhe o folclore a música não está pronta, então você ouve uma cantiga de roda na rua da Bahia, você ouve uma música de ninar, são curtas, então precisa a pessoa fazer uma adaptação nesse tema e dizer, adaptado por fulano, do folclore brasileiro ou DP, Domínio Público. Só que eu me aborreci muito, porque muita gente assinou o nomão lá, recebeu os direitos e é música folclore, está assim, não vou citar nomes porque são nomes muito conhecidos, está cheio...

Renato Teixeira: Inezita, mas se você não der o nome o dinheiro vai para onde? 

Inezita Barroso: Se não puser o nome? Se você der adaptação você ganha menos, é uma adaptação de uma propriedade do povo...

Assis Angelo: No seu novo disco...

Inezita Barroso
: Agora se você roubar o povo é meio chato.

Assis Angelo: Inezita no seu novo disco vai ter alguma música entre aspas nova do folclore, alguma gravação?

Inezita Barroso: Não, gravação diferente que tem lá são dois sambas inéditos do Paulo Vanzolini que nem ele lembrava.

Assis Angelo
: Eu sei quais são.

Paulo Markun
: Você poderia...

Inezita Barroso
: Eu fiz isso? [imita o Paulo falando]

Assis Angelo
: Na sua casa nos anos 50?

Inezita Barroso: Na minha casa.

Assis Angelo
: Você me contou, eu tenho uma cópia disso.

Paulo Markun
: Não tem como mostrar um pedacinho para nós?

Inezita Barroso
: Não tenho, não tenho porque o arranjo foi feito por um conjunto e fica meio pelado com o violão, com viola.

Lázaro de Oliveira
: Inezita me explica uma coisa, de uns cinco anos para cá, talvez seis, existe uma busca desenfreada pela cultura, por exemplo, essa semana está sendo lançado em Salvador uma gravação sobre parlendas [versos com rimas para divertir ou memorizar brincadeiras] do recôncavo baiano. Como é que você explica que de repente essas coisas passam a interessar, possa interessar ao grande público ou até o investimento mesmo de gravar e recolher isso?

Inezita Barroso: Olha, sempre interessaram ao público, sempre, sempre. Só que São Paulo não sei por que ficou para trás. Então: [dizem] É coisa caipira, não tem valor! São Paulo não tem samba e outras besteiras parecidas.

Assis Angelo: Mas será que é por que não aparece na mídia? Esse tipo de música, o folclore não aparece na mídia, pega aí um jornal, uma Folha [de S. Paulo], um Estado [de S. Paulo] [principais jornais paulistas] você acha um monte de informação, por exemplo, de música de tilintar, ou seja, muito comercial, sem qualidade artística.

Inezita Barroso: É claro.

Lázaro de Oliveira
: Mas todo produto apresentado com uma pesquisa séria, eles passam em todos os grandes jornais, é dado esse espaço, quer dizer, eu acho que público existe de alguma maneira, quer dizer, estão interessados.

Inezita Barroso: Existe só que a maioria não tem cultura para apreciar aquilo, acham que é uma coisa fácil: ah, isso aí poxa! É brinquedo de criança, musiquinha de criança!

Lázaro de Oliveira: Verdade!

Inezita Barroso: Sabe, então o valor está justamente na simplicidade em dizer uma coisa simples, mas grande.

Lázaro de Oliveira: Deve ser uma coisa simples, vai direto ao coração do público, não?

Inezita Barroso
: Define a personalidade do mundo.

Lázaro de Oliveira: Mas se é tão simples assim vai direto ao coração do público.

Inezita Barroso
: Vai, vai, mas...

Assis Angelo: Então não precisa ter a sapiência de saber que foi colhida no recôncavo, ele é uma coisa direta, ele vai direto ao coração.

Inezita Barroso: Os outros estados [brasileiros] cultivam muito mais isso.

Assis Angelo: Você acha que a mídia dá a atenção necessária a esse tipo de trabalho de música, é essa a questão que eu estou querendo botar...

Inezita Barroso: Não.

Assis Angelo: Por exemplo, no Brasil, vamos falar de São Paulo. São Paulo aqui a TV Cultura lhe dá esse espaço fantástico, há 22 anos você mostra...

Inezita Barroso: Que eu agarrei não é! [riso] 22 anos...

Assis Angelo: Pois é, então você mostra isso com toda a categoria e mostra realmente o que é do povo.

Inezita Barroso: E tem gente para mostrar.

Assis Angelo: Eu vou até dizer uma coisinha aqui, Markun, rapidamente. Eu tenho, há cinco anos, um programa na Rádio Capital que é líder de audiência, 300 mil pessoas por minuto me ouvindo, ou seja, você já foi lá, o Rolando Boldrin [1936, destacou-se na realização dos programas Som Brasil (TV Globo), Empório Brasil (TV Bandeirantes), Empório Brasileiro (SBT) e Sr. Brasil na TV Cultura, dedicados à música brasileira de inspiração regional com repertório de canções caipiras, cateretês, toadas e modas, é também cantor constando entre suas gravações: "Eu, a viola e Deus" e "Vida marvada"] já foi lá, tanta gente bonita já foi lá mostrando, o Renato Teixeira, mostrando exatamente, a Suzana, mostrando exatamente a qualidade musical que o Brasil tem, mas você não acha nas outras emissoras de rádio, nas outras emissoras de televisão, quer dizer, a TV Cultura oferece isso dai, então se mostra mais vezes através do jornal, do rádio, da televisão, da revista, multiplicasse esse tipo de informação, eu quero crer que todo mundo, ou uma parcela muito grande da população, tomaria conhecimento desse trabalho recolhido do seio do povo e naturalmente nós nos enriqueceríamos com isso, isso não acontece, porém. Daí está talvez o entrave dessa coisa toda.

Inezita Barroso: Não, mas daí eu volto à criança novamente. A criança é a coisa ideal para receber isso porque está com o ouvido, não têm veneno no ouvido, não ouviu outras coisas, então ela não tem nada. Então é uma coisa muito simples que ela guarda. Se fosse incentivado na escola, vamos fazer isso, essa música é do Ceará vamos cantar, vamos cantar a música do Rio Grande do Sul o ritmo é assim, ensine a criança porque não tem o que fazer até 15 anos, 18...

Assis Angelo: E a professora Inezita Barroso, se houve muitas outras professoras e professores ensinando nas escolas como você durante um certo período fez...

Inezita Barroso: Eu faço, estou há 20 anos aí.

Assis Angelo: É o caminho.

Inezita Barroso: Mas é gente mais velha.

Assis Angelo: Mas seria o caminho.

Inezita Barroso: Aí quando eu dou uma chamada, eles: puxa é mesmo! Falei: vamos lá pesquisar meu, vai ler no livro!

Assis Angelo: Ou seja, música popular poderia virar matéria curricular na rede pública, por exemplo, de ensino...

Inezita Barroso: Eu acho, eu acho.

Paulo Markun: Já foi não é?

Assis Angelo: Já foi.

Inezita Barroso: Já foi.

Paulo Markun: É bom lembrar isso.

Inezita Barroso: Já foi já tiraram.

Assis Angelo: É verdade.

Paulo Markun: Eu já toquei muito em orfeão! [coro escolar]

Inezita Barroso: Então...

Lázaro de Oliveira: Inezita, eu vou fazer uma viagem pelo interior de São Paulo, que hoje está coberta pelas TVs e não sei o quê. O que eu distingo que é folclore ou não?

Inezita Barroso: Olha, geralmente a música de viola, de viola, só a viola, ela vem do folclore, ela tem uma raiz, os ritmos também, conforme a região do estado tem ritmos maravilhosos!

Assis Angelo: Aliás, você poderia definir o que é folclore.

Inezita Barroso: Eu, eu lá sei! Patativa do Assaré [como era chamado Antônio Gonçalves da Silva (1909-2002), poeta nascido em Assaré, sul do Ceará, cantador da existência e escritor. Escreveu poemas, repentes e literatura de cordel, tornando-se doutor honoris causa de pelo menos três universidades, apesar de ter freqüentado escola apenas por seis meses] que falou-me.

Assis Angelo: O Câmara Cascudo [Luís da Câmara Cascudo (1898-1986) autor do Dicionário do Folclore, escreveu também Civilização e cultura e História da alimentação no Brasil, foi um grande ensaísta com mais de cem títulos entre livros, traduções, opúsculos e artigos, destacando-se, ainda, como o antropólogo das superstições, etnólogo dos costumes, sociólogo do açúcar e historiador dos gestos] é que dizia, não é, que [o folclore] é a reunião de tudo o que o povo faz espontaneamente, tudo isso é folclore, não é? Quer dizer, vai desde a fala, o gesto, ele dizia assim para mim, meu filho, eu perguntei para ele, o Câmara Cascudo há muito tempo lá na casa dele, eu disse: mestre o que é cultura popular, o que é folclore? "Meu filho é isso aqui, até isso aqui é folclore, é o gesticular porque ninguém vai falar, se tem dois braços, ninguém fala sem se movimentar. Então é a forma de você se fazer bem entendido, pela fala, pelo comportamento, pelo que você come, pelo que você faz, pela escrita, pelo que recolhe, quer dizer, tudo isso é folclore, ou seja, é o universo, é conhecimento!"

Inezita Barroso: Agora vocês lá do Nordeste, do Norte, vocês têm muita chance de fazer, tem muito jeito de fazer, aqui a coisa já está assim máquina.

Assis Angelo: Tem uma coisa com ele, isso aí é folclore, se fala de forma pejorativa não é?

Inezita Barroso: É, fala.

Assis Angelo: É uma outra história danada.

Inezita Barroso: É também.

Assis Angelo: Não se ensina na escola o que é folclore.

Inezita Barroso: É também.

Assis Angelo: Você vai e passa em uma livraria, você não acha, por exemplo, livros fáceis sobre o folclore.

Inezita Barroso: Mas eu tenho mais uma piadinha verdadeira, uma professora do maternal, as minhas netas cursavam essa escola, dois anos de idade, três, faz uma palestra, arrisca uma palestra para essa criançada? Falei: vamos lá! Levei o violão, levei slide, a criançada toda no chão, toda bonitinha, a professora, silêncio, tudo quietinho assistindo, amaram. Aí contei a história do corvo, do sapo que entrou no violão do corvo, foi dançar no céu, eles morreram de rir, olha a imaginação, um pequenininho assim, falou: "aquela ave eu tô vendo o corvo lá, olha lá, ele tá lá e o do lado cadê, está lá". O que sonha uma criança dessa, como vê as coisas, aí acabou a palestra, eles cantaram, fizeram uma roda, brincamos e tal, aí tem uma coisinha assim, veio do meu lado e falou: "quer dizer que o folclore é a senhora". A professora falou tanto!

Assis Angelo: Tanto!

Inezita Barroso: Ela vem aí, ele pensou que eu fosse...

Omar Jubran: Aliás, Inezita você...

Assis Angelo: Ele não estava de todo errado assim.

Omar Jubran: Você Inezita...

Suzana Salles: Inezita...

Omar Jubran: Por favor...

Suzana Salles: É o nome...

Paulo Markun: Estão chamando por você, Inezita.

Omar Jubran: Eu só queria te fazer uma pergunta, a gente tem a Inezita Barroso cantora, a Inezita Barroso professora, antes pesquisadora, professora, atriz, apresentadora. O que Inezita Barroso falta fazer dentro da sua carreira ou se já teve vontade de fazer algo mais e não teve oportunidade?

Inezita Barroso: Tem muita coisa para fazer, muita, muita...

Omar Jubran: Então vamos lá.

Inezita Barroso: Eu me realizei muito nesse show agora do Sesc Ipiranga [Serviço Social do Comércio localizado no Bairro Ipiranga, São Paulo, entre outras atividades o Sesc se projeta na promoção de atividades culturais] com o "Auto de Natal", eu achei que pelo menos eu consegui as crianças participando, foi muito bonito, eu estou preparando um de São João também das festas juninas, muito sério, muito bonito que eu quero também ter crianças, e vários outros assuntos que eu quero abordar, quero fazer uma folia de reis muito séria, muito bem estudada, muito bem cantada e tocada, sabe, não essas coitadinho, pobrinho que aparece assim na na nim... [cantarola imitando timidez]

Omar Jubran: Então foi muito interessante você ter tido o espaço até para fazer...

Inezita Barroso: Direito, não é?

Omar Jubran: Foi interessante ter esse espaço?

Inezita Barroso: Foi.

Omar Jubran: Porque isso, eu lembro as nossas conversas, batalhava muito para fazer, entrava ano e saía ano e...

Inezita Barroso: É.

Omar Jubran
: A idéia na cabeça, mas não...

Inezita Barroso: Chegou, demorou 40 anos, até que enfim não morri...

Omar Jubran: Até que enfim, faz parte.

Paulo Markun
: Inezita.

Inezita Barroso: Perguntem.

Paulo Markun: Nosso tempo está acabando e eu queria te pedir para terminar você cantando.

Inezita Barroso: Está bom, então eu vou terminar com uma do Cornélio Pires, pode?

Paulo Markun: Claro.

Inezita Barroso
: Uma viagem que ele fez a São Paulo.

Paulo Markun: Eu queria só dizer que as perguntas que não foram respondidas, e são muitas, e há inclusive pedidos específicos, por exemplo, de cantar a música X ou até de gente como Heleni Belmonte que quer saber a letra inteira de uma música, eu vou passar para você para eventualmente você responder.

Inezita Barroso: Eu passo para ela. "Bonde camarão" [sussurrando]. É, já tem um pedido, ele adivinhou. O Cornélio vinha a São Paulo, capital, e foi o primeiro a fazer isso, trazendo duplas caipiras, violeiros e tal. Fazia palestras, conferências e exibia aquelas duplas e ao mesmo tempo ele fazia as poesias dele muito boas, muito interessantes, ele conta uma viagem que ele fez de bonde camarão, aquele bonde fechado, vermelho que você punha a moedinha em uma caixa de vidro, saía honestamente, ninguém te cobrava, mas você pagava, e as peripécias que aconteciam nesse bonde camarão. Um dos últimos a sair da linha foi o de Santo Amaro que não era muito vermelho, tinha uns amarelos no meio e as Perdizes [bairros de São Paulo] onde eu morava que saiu muito casamento naquele bonde camarão. Então, as peripécias do Cornélio. [tocando e cantando] "Aqui em São Paulo o que mais me amola, é esses bonde que nem gaiola. Cheguei abrir uma portinhola, levei um tranco e quebrei a viola, inda pus dinheiro na caixa da esmola. Entrô um véio se facerando, levou um tranco e foi cambetiando, bejou uma véia e saiu bufando, sentô do lado e agarrô assuando, pra mode o vizinho tá catingando. Entrô uma moça se arrequebrando, e no meu colo ela foi sentando, pra mode o bonde que tava andando, sem a tarzinha tá esperando, eu falo craro eu fiquei gostando. Entrô um padre bem barrigudo, levou um tranco dos bem graúdo, deu um abraço num bigodudo, um protestando dos carrancudu, que deu cavaco com o batinudu. Eu vô me embora pra minha terra, essa porquera inda acaba em guerra, e esse povo ainda sobe a serra, pra morde a light que os dente ferra, nos passagero que grita e berra". [Aplausos]

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