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Rogério Ceni

30/10/2006

Ao estabelecer marca como goleiro que mais gols fez no futebol, defensor do São Paulo fala de Seleção Brasileira e de seus planos para o futuro

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Paulo Markun: Boa noite. Depois de uma campanha [eleitoral] marcada por ataques de todos os lados, vamos falar um pouco de defesa. Ele tem tudo que um bom goleiro pode ter e precisa ter: agilidade, reflexo, posicionamento e as melhores saídas de bola, mas tem uma coisa a mais do que os outros, faz gols. Já fez tantos que se tornou recordista. É o goleiro que marcou mais gols na história do futebol mundial. O Roda Viva entrevista esta noite Rogério Ceni, que acaba de completar 700 partidas como titular do São Paulo e já é considerado o maior ídolo da história do clube. O Roda Viva começa num instante.

[intervalo]

Paulo Markun: O torcedor veste a camisa de Rogério Ceni e Rogério Ceni veste a camisa do São Paulo. Um dos jogadores mais bem pagos do Brasil, o goleiro são-paulino tem com o time uma ligação maior do que o salário. Rogério Ceni comprou um título de sócio do clube, planeja ajudar na direção e, quem sabe, chegar um dia à presidência. Deixar o São Paulo é difícil, é quase uma obsessão que já mantém Rogério há 16 anos no Tricolor.

[Comentarista]: Rogério Ceni nasceu em Pato Branco, no Paraná, mas foi no Mato Grosso, na cidade de Sinop que começou a carreira como jogador. Antes, chegou a praticar tênis e vôlei. Goleiro reserva do time da cidade, assumiu o posto pela primeira vez em 1990, depois que dois colegas se machucaram. Não saiu mais do gol do time do Sinop, que naquele ano conquistou o título estadual. Em setembro do mesmo ano, fez um teste no São Paulo e recebeu convite para fazer parte do elenco. Em agosto de 1992, Rogério Ceni sentou no banco de reservas pela primeira vez. A estréia ocorreu um ano depois, na Espanha, numa partida contra o Terenife. Foi nesse ano que conquistou, como titular, a Copa São Paulo de Juniores. No banco, foi campeão da Recopa-Sulamericana, Super Copa da Libertadores e a Libertadores da América, além do Mundial Interclubes. Rogério Ceni assumiu a camisa número 1 do São Paulo em 1997, depois que o goleiro Zetti deixou o clube. Fez fama, conquistou títulos, mas também arrumou alguns inimigos. Foi acusado, por conselheiros do São Paulo, de ser marqueteiro e individualista. Conhecido por falar o que pensa, afirmou que basta ter opinião para ser polêmico. Em 2001, teve a maior crise no clube, foi afastado do elenco por quase um mês pelo presidente, após uma frustrada transferência para o Arsenal, da Inglaterra. Ceni teve algumas passagens pela Seleção Brasileira. Num amistoso para comemorar o centenário do Barcelona, em 1999, foi criticado pelos gols no empate em 2 a 2. Em 2002, Luis Felipe Scolari [conhecido como Felipão, técnico da Seleção Brasileira em 2002, na conquista do penta-campeonato na Copa da Mundo. Técnico da Seleção de Portugal a partir de 2003] levou Rogério Ceni para disputar o mundial na Ásia, para ser o terceiro goleiro do Brasil ao lado de Marcos e Dida. Na Alemanha, Carlos Alberto Parreira [técnico da Seleção em 1983, 1984, 1991, e de 2003 a 2006] também convocou o goleiro do São Paulo para completar o grupo que tentava a conquista do sexto título mundial. As defesas o transformaram em um ídolo da torcida Tricolor, mas foram os gols que o diferenciaram dos demais goleiros. E foi justamente Muricy Ramalho, atual treinador do São Paulo, que lhe deu a primeira chance, em 1997. Dia 15 de fevereiro, contra o União São João de Araras, Rogério Ceni iniciou a saga de gols que o consagraram como goleiro artilheiro. Depois desse, foram outros tantos, de falta e de pênalti. Gols que o transformaram no goleiro que mais balançou as redes adversárias. O goleiro paraguaio, Chilavert [totalizou 62 gols em partidas oficiais: 45 de pênaltis, 15 de falta e dois com a bola em jogo], apesar de não ser considerado um rival, foi superado no ano passado quando Ceni anotou o seu gol [de número] 63. Bateu o recorde na partida contra o Cruzeiro, este ano. Após o time estar perdendo por 2 a 0, Rogério Ceni apareceu. Defendeu um pênalti, fez um gol de falta e ainda anotou outro de pênalti. No total, tem 66 gols, sendo 43 de falta e outros 23 de pênalti. Sábado, contra o Figueirense, Rogério Ceni completou 700 partidas como titular com a camisa do São Paulo. O goleiro é casado e tem duas filhas.

Paulo Markun: Para entrevistar Rogério Ceni, nós convidamos: Raul Plasmann, ex-goleiro e comentarista da TV Record; Mauro Naves, repórter esportivo da TV Globo; Hélio Alcântara, apresentador e diretor do programa Grandes Momentos do Esporte, da TV Cultura; Marília Ruiz, colunista do jornal Lance!; Vladir Lemos, apresentador do programa Cartão Verde, da TV Cultura; Luiz Gonzaga Belluzzo, economista e palmeirense; e Wagner Vilaron, repórter e colunista esportivo do jornal Diário de São Paulo. Temos também a participação do cartunista Paulo Caruso, registrando em seus desenhos os momentos e os flagrantes do programa. O Roda Viva é transmitido em rede nacional de TV para todo o Brasil. Bem, boa noite Rogério, eu queria dizer que eu sou um corinthiano, mas sou um péssimo corinthiano. Aliás...

Rogério Ceni: [interrompendo] Você é mais um corinthiano dessa vida.

Paulo Markun: Eu sempre fui um péssimo esportista, tão ruim que, quando eu era garoto, só me deixavam jogar no gol quando a bola era minha. Eu queria perguntar, a partir disso, o seguinte: por que é que você foi parar no gol?

Rogério Ceni: Primeiramente boa noite a todos. É um prazer estar aqui. Eu trabalhava no Banco do Brasil, na agência em Sinop, no Mato Grosso. Meu chefe era o goleiro e eu jogava na linha, eu sempre gostei de jogar futebol na linha e, num desses dias, meu chefe faltou ao jogo na Associação Atlética do Banco do Brasil. Eu, como mais jovem da turma, me propus, por educação, ir ao gol. Fiz uma boa partida e o pessoal...

Paulo Markun: [interrompendo] Quer dizer, não foi por vontade, foi meio...

Rogério Ceni: [interrompendo] Foi por livre e espontânea pressão. Aí eu fui pro gol, joguei bem, meu chefe acabou nunca mais sendo o titular. Eles quiseram que eu continuasse jogando no gol, daí então veio a oportunidade do Sinop Futebol Clube, que é o time da minha cidade, de me convidar para fazer parte do elenco daquele ano. O time não tinha muitas condições financeiras para trazer todos os jogadores de fora da cidade, então eu fui como terceiro goleiro do Sinop Futebol Clube. Os dois primeiros goleiros acabaram se machucando, eu entrei no meio da competição, nós fomos campeões. Foi a primeira vez que uma equipe do interior do estado do Mato Grosso se  sagrou campeã mato-grossense e aí eu vim fazer testes em São Paulo.

Paulo Markun: O que é que um goleiro precisa de ter acima de tudo?

Rogério Ceni: Acima de tudo? Personalidade. Mas isso é apenas um dentre os vários quesitos que são necessários para você se tornar, não é nem um grande goleiro, mas sim um bom profissional na sua área. Eu acho que você tem que ter muito profissionalismo, tem que ter muita noção de espaço, direção, força. Enfim, eu acho que tem que ter várias coisas que você tem que se aprimorar, crescer para ser um grande goleiro, além de sorte.

Hélio Alcântara: Rogério, nesse meio que a gente se conhece, no futebol... eu queria saber, aliás, sua opinião sobre o meio do futebol. Você está há 16 anos, pelo menos como profissional, precisa ter mais personalidade ainda?

Rogério Ceni: No nosso país precisa ter muita. Além de personalidade, para crescer num grande clube, você tem que ter um excepcional profissionalismo, mas você tem que lidar com muitas situações difíceis, atípicas. O Brasil é um país que cobra muito dos seus jogadores, tendo em vista o que aconteceu com a Seleção neste último ano [disputando a Copa do Mundo de 2006, na Alemanha, o Brasil foi derrotado pela França nas quartas de final]. A imprensa brasileira é uma imprensa difícil, muitas vezes, de se lidar. A necessidade de notícias, de fatos novos... são vários veículos de comunicação. Então, você tem que estar todo dia se justificando, todo dia você tem que estar provando alguma coisa, diferentemente de outros países, que são tão apaixonados como o brasileiro é pelo futebol, mas encaram esse tipo de situação de uma forma diferente.

Hélio Alcântara: Mas será que é diferente mesmo?

Rogério Ceni: Acho que sim. Em alguns países... Eu vejo, por exemplo, a Inglaterra. Como nós temos o Refis [clínica de reabilitação e fisioterapia], e vários jogadores se tratam no Refis, você colhe opiniões e experiências de diversos jogadores. Júlio Batista, por exemplo, que jogou no São Paulo e que hoje está no Arsenal, na Inglaterra, ele está fazendo tratamento no CT e treinamento fechado.

Paulo Markun: CT é o centro de treinamento, né?

Rogério Ceni: É, CT é o centro de treinamento. Nosso centro de treinamento aqui na Barra Funda, aqui do lado da TV Cultura. Ele fala que os treinamentos lá são fechados à imprensa, quer dizer, jornalista não entra. No Real Madrid, os treinamentos são abertos à imprensa. Então, existe em cada país, primeiro, a exploração do marketing esportivo, que é muito grande. Por exemplo, na Espanha, você pega um time como o Real Madrid, a necessidade de exposição, de mídia, daqueles jogadores, para se pagar os altos salários desses jogadores, é muito grande. A Inglaterra é um país mais fechado, focado no profissionalismo, é um país que também tem a imprensa numa área mais restrita.

Vladir Lemos: Rogério, você chegou, em 2000, a falar que gostava de ler jornal, mas pulava o caderno de esportes. Eu queria saber se você mudou ou se continua pulando?

Rogério Ceni: Não, eu gostava de ler jornal, gosto muito de ler jornal. Eu gosto de notícias pontuais. Eu gosto de coisas que acontecem, não sou muito de ler livros, coisas assim. Eu gosto da notícia pontual, mas em alguns veículos de comunicação, o caderno de esportes ainda continua sendo um caderno "pulável".

Vladimir Lemos: Por quê?

Rogério Ceni: Porque são muito fracos, muito ruins. E alguns não, alguns são bons, alguns... existem jornais, principalmente os mais especializados em esportes, que têm cadernos ótimos, tem coisas bacanas, muita informação esportiva. Existem alguns jornais que pararam no tempo, que fecham o seu caderno de notícias esportivas muito cedo, e aí não tem a notícia da forma que a gente gostaria de ver, ou não dão uma... existem jornais que são imensos, mas dão um espaço muito pequeno para área esportiva. Deveriam melhorar, na minha opinião.

Wagner Vilanon: Que formato é esse que você gostaria de ler, Rogério? Qual é um bom jornal, qual é ruim?

Rogério Ceni: Não é que é um bom jornal. Um bom jornal no sentido informativo, de você ter muitas fotos, de você ter entrevistas, que é o Lance!, que é um jornal, para mim, na minha opinião, o jornal que  hoje mais trata direto. Mas nós temos outros jornais que são bons, jornais que têm muita qualidade em outros cadernos, que são super bons em outros cadernos, mas no caderno de esportes eles deixam a desejar.

Marília Ruiz: Rogério, você acabou de falar do Lance!, eu agradeço o elogio ao jornal. Eu queria voltar ao fato do país ter uma imprensa que cobra muito o jogador. Por que o jogador não cobra muito o seu dirigente? Você é um jogador diferenciado, todo mundo sabe disso, a imprensa toda reputa isso a você, que você e alguns outros jogadores são diferenciados em relação ao que a gente chama de goleiros. Por que o sindicado no Brasil é tão fraco? Porque na Argentina cobra-se tanto, mas os jogadores também cobram de volta, por que aqui não?

Rogério Ceni: Olha, eu acho que... eu não tenho, por exemplo, queixas a fazer dos meus dirigentes. Se um dia as tiver, não é através da imprensa que eu as farei.

Marília Ruiz: Não, não falo nem em relação a fazer isso por meio da imprensa, mas aqui não existe uma movimentação. Houve uma tentativa de se fazer uma greve, a cerca de dois anos por causa da... que foi fracassada.

Rogério Ceni: Porque a categoria, no nosso país, infelizmente, não é tão unida como na Argentina. Aliás, o nosso país é muito diferente da Argentina. Você vê todas as situações econômicas que a Argentina passou, e o povo [brasileiro] tem características diferentes do povo argentino. Eu acho que isso se estende também ao futebol.

Luiz Gonzaga Belluzzo: Rogério, você que é um goleiro que tem habilidades com os pés - acho que eu conheço dois que tem, você e o Van Der Sars [Edwin Van Der Sars, atleta holandês]. Se você... Veja-se jogando com a camisa do Palmeiras, atacando o São Paulo, você no gol.

Rogério Ceni: Agora que eu entendi porque você é economista e palmeirense [risos].

Luiz Gonzaga Belluzzo: Como é que você chutaria? Como é que você faria o gol? De que jeito você chutaria, por cima, por baixo, como é que é? Bateria devagar, com força?

Rogério Ceni: Essa possibilidade, ela infelizmente não vai se concretizar.

Luiz Gonzaga Belluzzo: Eu queria que você respondesse, como é que você bateria?

Rogério Ceni: Para fazer o gol em mim mesmo?

Luiz Gonzaga Belluzzo: É, para fazer o gol em você mesmo.

Rogério Ceni: Ah, não posso dizer nunca, senão as pessoas vão saber qual é o modo mais fácil de colocar a bola para dentro.

Luiz Gonzaga Belluzzo: Então, vou te fazer uma outra pergunta: dos atacantes brasileiros contra os quais você jogou, qual que você acha mais...

Rogério Ceni: [interrompendo] Os melhores finalizadores de área que eu enfrentei foram Romário e Bebeto [atacantes que tiveram destaque na Copa do Mundo de 1994]. Os dois jogadores melhores que eu enfrentei, não coloco os que jogaram comigo, mas que eu enfrentei, Romário e Bebeto, sem dúvida. Dentro da área, no modo de concluir, foram os dois.

Luiz Gonzaga Belluzzo: Mas você mesmo não quer dizer como é que você chutaria em você?

Rogério Ceni: De jeito nenhum.

Mauro Naves: Rogério, nessa minha primeira participação, eu queria fugir um pouco do "futebolês" e te perguntar se você se considera muito político, se você fez questão de votar ontem e se você faz questão, se possível, de fazer um pouco a cabeça da torcida que tem você como ídolo? Quando você está dando um autógrafo, nesse tempo todo aí que a gente estava, nessas campanhas, se te perguntaram, você disse em quem votou, fez questão de dizer: “Ó vai comigo, nessa, tal”? E se você tivesse sido eleito ontem no lugar do Lula [presidente eleito do Brasil em 2002 e reeleito em 2006], qual que seria o seu primeiro ato? O que te incomoda muito que você já chegava lá e falava: “Isso eu vou mudar no Brasil”?

Rogério Ceni: Olha, tem tanta coisa para mudar que uma coisa não seria suficiente. Eu votei no Alckmin [Geraldo Alckmin, ex-governador de São Paulo e candidato à presidência da República em 2006. Foi derrotado por Lula no segundo turno] ontem, pelo fato de achar que o presidente da República que teve a chance, nos últimos quatro anos de governar o país. Ele não conseguiu, na minha opinião, fazer o que... na minha opinião, não conseguiu exercer um grande mandato. O que eu faria? Olha, tanto um como outro falam muito na desigualdade social que existe no nosso país, né? A gente vê isso sendo tratado, abordado, esse fato como uma coisa... Só que eu estou vendo é que realmente está diminuindo a desigualdade social, só que ela está se nivelando num nível tão baixo que não seria isso que eu tentaria fazer como governante deste país.

Mauro Naves: [interrompendo] É o que mais te incomoda?

Rogério Ceni: É o que mais me incomoda. Porque através de, quer dizer, logicamente que o principal de tudo, tudo que é voltado para a educação, vai se refletir no futuro. Pode ser daqui dez, daqui 15, daqui vinte anos e vai melhorar nosso país. Mas a desigualdade social, ela traz muita coisa ruim para gente. Agora, do modo, na minha opinião, como foi feito nesses últimos quatro anos, e o grande medo que eu tenho é dos próximos quatro anos, afinal de contas esse governo ele não tem mais condições de se eleger depois desses quatro anos, por já ter sido reeleito. Meu medo é que a igualdade que eles tanto propõem, seja num nível muito baixo, quem é pobre vai para a miséria, quem é de classe média está se caminhando para a pobreza. Os grandes bancos têm os maiores faturamentos de todos os tempos e políticos que a gente vê na televisão - só que não pode colocar numa regra geral, tem gente ainda muito boa representando este país - mas aqueles que são comprovadamente corruptos ou que tiveram atos corruptos, continuam ainda sem uma grande punição.

Paulo Markun: Esse discurso que você acaba de fazer é usual no seu meio? Quer dizer, o jogador de futebol fala de política, o jogador de futebol discute outras coisas?

Rogério Ceni: Não é o jogador de futebol, o povo brasileiro em geral, ele não...

Paulo Markun: [interrompendo] Só em eleição.

Rogério Ceni: Só em época de eleição e para presidente da República. Para outros cargos, por exemplo, que não tem grande destaque, como deputados, na época de prefeitos, vereadores e tal. Eu acho que o país, em geral, ele não tem tanto interesse assim. Então, o que eu vejo? Por exemplo, Bolsa Família, Bolsa Educação [programas desenvolvidos pelo governo federal para tentar reduzir a pobreza no país]. Eu acho que isso é muito legal se for o complemento do salário de um cidadão brasileiro. Por que qual é o grande motivo de você se sentir bem na vida? É você ter um emprego. Então, o que o cidadão quer, [o que] ele deveria querer? Ele deveria querer um emprego e, logicamente pela situação precária econômica que o nosso país tem, isso deveria servir como um complemento salarial. Hoje a gente vê muitas... hoje, um emprego é tão difícil de conseguir em cidades do interior, de você conseguir gente para trabalhar, porque a pessoa raciocina assim: “Não, mas eu tenho Bolsa Família, Bolsa Escola. Isso me dá cento e tantos reais [gesticulando]. Eu prefiro ficar em casa do que arriscar ter que trabalhar”. Então, assim, eu vejo que seria muito legal tudo isso que é feito, é uma idéia louvável, mas como um complemento salarial. Porque eu vejo isso como um fator determinante para o não crescimento do nosso país.

Raul Plasmann: Rogério, há uma série de coincidências aqui, boas para mim, em relação a você. Nós nascemos no Paraná, você nasceu em Pato Branco, eu nasci em Antonina, pertinho ali de Curitiba. Você fez 17 jogos pela Seleção Brasileira, eu fiz 17 jogos pela Seleção do Brasil. Você estreou na Espanha, o primeiro jogo seu foi na Espanha contra o Tenerife e eu fiz uma estréia também na Espanha, com o Flamengo e La Coruña [time espanhol] contra o Real Madrid. E pena que, coincidentemente, eu não bato falta, não batia falta como você.

Rogério Ceni: Nunca é tarde [risos].

Raul Plasmann: Foi uma pena muito grande. Eu gostaria de perguntar para você o seguinte: nós falamos de política aqui, conversamos a respeito de política, tivemos as eleições agora. Você acha que o esporte pode ser uma ferramenta para tirar, por exemplo, a garotada... é uma maneira de prevenção de doença? O esporte mostra o caminho, nós sabemos disso, e geralmente mostra o bom caminho. Você acha que essa é uma ferramenta importante que o Brasil não está usando, pelo menos os seus dirigentes, os seus políticos? Eu acho que eles estão pensando muito mais em construir hospitais do que fazer a prevenção embaixo.

Rogério Ceni: É porque hospital é material. Hospital está lá, é de concreto, é palpável. Agora, eu acho que tem muita gente, por exemplo, como essas fundações, que é a Gol de Letra [fundação que tem o objetivo de auxiliar crianças de famílias de baixa renda através do desenvolvimento pelo esporte], do Raí, do Leonardo [ex-jogadores da Seleção Brasileira] cuidando cada vez mais da criança. O Cafu lançando a fundação dele. Há muita preocupação da iniciativa privada em ajudar [gesticulando], formar escolinhas de futebol, só que o problema é que o futebol ainda é uma ilusão para o brasileiro. O futebol é a válvula de escape que o pai de família pensa para o filho ter sucesso e conseguir ser alguém na vida. Só que quem consegue chegar no ponto mais alto no futebol é uma extrema minoria. As outras pessoas não se preparam para o que pode não dar certo na carreira.

Raul Plasmann: Eu gostaria só de te interromper um pouquinho, para direcionar. Eu estou falando não especificamente do futebol em si, estou dizendo o seguinte: o governo entrar pesado na base em todos os esportes, como Cuba fez, algum tempo atrás...

[...]: [interrompendo] Nas escolas?

Raul Plasmann: Nas escolas, para que o país realmente se torne um país de esportista também, não...

Rogério Ceni: [interrompendo] Pelo tamanho que nós somos, pela população que nós temos deveríamos ser um país, em Olimpíadas, com muito mais. Cuba, como é o exemplo que você citou, que é um país deste tamanhinho [faz o gesto de pequeno com as mãos] perto do Brasil e a quantidade de medalhas... então, eu acho que no nosso país, o problema é que investir neste tipo de [ação]... não tem retorno, sabe, não tem retorno de tanto voto. São coisas que são mais palpáveis e que dão mais retorno para o governo. Agora, é um país que não tem outra alternativa a não ser investir ou tentar ajudar a criançada que vai se desenvolvendo no nosso país com o esporte. Porque nós não temos condições financeiras para pensar em qual outra coisa que conseguiríamos fazer hoje, no nosso país, que não fosse através do nosso esporte? Então, eu acho que deveria, sim, existir um incentivo muito maior, por parte do governo, para que a criança pudesse, além de praticar o esporte, pudesse ter um acompanhamento de estudos. Agora, isso é o que eu falo, é um investimento na educação que é o principal de tudo. Pode não dar retorno amanhã, mas daqui a dez, daqui a vinte, daqui a trinta anos, nós teremos, sem dúvida nenhuma, um país melhor, se olhado por este lado.

Paulo Markun: Rogério, vamos fazer um rápido intervalo. Voltamos num instante com Roda Viva. A gente volta já, já.

[intervalo]

Paulo Markun: Estamos de volta com o Roda Viva, hoje entrevistando o goleiro do São Paulo, Rogério Ceni. Rogério, eu queria saber como é que você consegue comandar o time, acompanhar o que se passa lá do gol se metade do campo você pouco vê, que é o ataque?

Rogério Ceni: Não é comandar o time. Quem está atrás sempre tem uma visão privilegiada. O jogo dentro do campo é um, o jogo quando eu chego na minha casa e assisto o tape pela televisão é completamente diferente.

Paulo Markun: Qual é o melhor?

Rogério Ceni: Depende, depende muito. Às vezes, no jogo no campo, você acha que foi um jogo fenomenal, quando você chega em casa: “pôxa, mas foi só isso”. E às vezes você vê o jogo, você participa do jogo e acha que foi meio chato. Chega em casa o jogo parece que foi numa velocidade muito maior. Agora, é uma vantagem para o goleiro, ele ter o campo todo à frente. É uma necessidade do goleiro, ele ter esta voz ativa dentro do campo. Afinal de contas, ele é o que menos corre. Ele é o que mais está descansado, é o que tem a melhor visão do jogo, cabe a ele falar mais.

Paulo Markun: Mas não é usual o goleiro ter este tipo de função. Ele fica ali parece que dormindo.

Rogério Ceni: Não, não hoje. A maioria dos goleiros evoluíram e participam muito mais. Muitos participavam já na época do Raul.

Raul Plasmann: Aliás, foi a posição que mais progrediu nesses 15, vinte anos para cá, e o Rogério é a própria evolução da espécie. Você pode ver, nós tivemos aí o Jorge Campos [ex-atacante do Bahia, Vitória e Atlético Mineiro], que é habilidoso, mas ele era atacante primeiro, ele era atacante mesmo, jogava inclusive nos jogos como atacante depois ia para o gol, uma bagunça, né? Eu acho meio esquisito isso aí. Depois vamos pegar o Chilavert que batia, mas era pancada, não era muito com jeito, o negócio dele era meio na ignorância. Agora, depois nós tivemos Van Der Sars que é o melhor deles que eu vi aí, fora os estrangeiros, para sair jogando, é muito tranqüilo. Inclusive, a equipe dele já sabe disso, evidentemente, toca para ele quando aperta e começa sair jogando como se fosse um volante.

Paulo Markun: Pergunta de leigo, nesse negócio não é mais certo ter cada  macaco no seu galho? Quer dizer, o goleiro defende, o atacante ataca, se o goleiro...

Raul Plasmann: [interrompendo] Fica numa mesmice e nada acontece diferente.

Rogério Ceni: No futebol moderno não cabe mais isso. No futebol moderno, é obrigatório [o goleiro] ele saber jogar com os pés porque ele é o primeiro cara a dar o lançamento, a repor a bola com qualidade. O centroavante, se ele não der um combate para ajudar na marcação, vai estourar lá atrás.

Raul Plasmann: O Rogério está falando uma coisa importantíssima e é bom que a gente chame a atenção sobre isso. Muita gente sabe disso porque não é nenhuma coisa fantástica, mas o goleiro, há alguns anos atrás, ele apenas dava um bico para frente, chutão. Hoje não, hoje ele é responsável pelo contra ataque, pelo início de uma jogada. Quando o lance está na intermediária, o volante ou o zagueiro atrasa para ele, é uma jogada que pode ser ensaiada, para ele já sair rápido, atrair. Então, o goleiro tem uma participação fundamental hoje no jogo, inclusive para virar o jogo.

Rogério Ceni: Isso não aparece tanto na televisão porque, normalmente, o lance seguido de uma defesa do goleiro vem o replay da jogada e desaparece o primeiro passo do goleiro. Eles dão o corte para mostrar o replay e desaparece, por isso não é tão notado.

Hélio Alcântara: O Rogério, Markun, faz isso muito bem, liga rapidamente da defesa para o contra ataque. Eu queria saber de você o seguinte, Rogério, se você concorda com isso e quem são os goleiros aqui no Brasil que fazem isso melhor? Você tem algum fora do país também que você olha e fala: “esse cara sabe fazer”.

Rogério Ceni: O goleiro que hoje está no nosso país, mas que é de fora, que fazia isso com perfeição, está hoje no Atlético Paranaense, jogou estes dias, está na reserva, que é o Navarro Montoya. É um goleiro colombiano que jogou durante muitos anos no Boca [Boca Juniors, time argentino] e foi um dos caras que me deixou mais impressionados. Uma vez eu fui jogar na La Bombonera [estádio oficial do Boca Juniors], eu estava na reserva, em 1992, 1993, nós enfrentamos o Boca Juniors e ele, para o lado esquerdo, ele repõe com o pé direito e, para o lado direito, ele repõe com o pé esquerdo com a mesma qualidade. Eu já treinava, mas foi onde eu comecei a perceber a importância, a elegância, a facilidade de se jogar dessa maneira. Isso me tocou bastante.

Vladir Lemos: Rogério, falando em treinar, eu queria despertar uma conversa um pouco sobre a sua técnica, da maneira que você conseguiu chegar a essa precisão. Lembro de você fazer um treinamento e lembro de vocês brincando depois de um treino praticamente acabado. A brincadeira não era exatamente fazer um gol, era acertar atrás.

Rogério Ceni: É quando eu comecei a bater faltas?

Vladir Lemos: Não, você já estava consagrado, mas continuava brincando assim.

Rogério Ceni: Hoje, até hoje a gente faz isso. Isso é uma brincadeira antiga, mas isso não é das faltas. A gente posiciona as bolas.

Vladir Lemos: Mas isso ajuda a precisão.

Rogério Ceni: Ajuda a você ter noção de força para você colocar espaço, distância, vento, que é uma coisa muito importante. É uma competição que a gente faz, a gente aposta caixa de refrigerante.

Mauro Naves: Só que você não consegue hoje bater tantas vezes como você batia antes.

Rogério Ceni: As faltas não, esse tipo de batida...

Mauro Naves: [interrompendo] Cem, 150 de treino.

Rogério Ceni: As faltas? Não, bato 30, 40 faltas.

Mauro Naves: Já bateu cem no passado.

Rogério Ceni: No começo de minha carreira, eu batia por volta de cem faltas todos os dias.

Mauro Naves: Por causa do joelho, idade?

Rogério Ceni: Hoje eu tenho duas artroscopias no joelho direito, uma no esquerdo. E a musculatura, tenho muitas lesões musculares que, pelo fato de você estar iniciando a carreira, você vai para o sacrifício, apesar que eu sou meio assim até hoje, mas você tem a lesão, não cura direito e aí você tem as seqüelas futuras que a dor... ela vem. Até hoje, eu não tenho condições de bater cem faltas antes de um dia de jogo, porque eu tenho uma lesão na perna se eu bater cem faltas...

Marília Ruiz: Rogério, ainda sobre esta sua habilidade com o pé, o Zetti, por exemplo, é um goleiro que ganhou mais títulos que você no São Paulo, mas ele mesmo aponta você como mais ídolo hoje da torcida do que ele foi na época e que ele é hoje. As pesquisas de jornais, de sites, apontam você como mais ídolo que o Raí, que também ganhou mais títulos que você. Consagrado e tendo esse lastro de confiança da torcida, você pensa em jogar uma partida na linha?

Rogério Ceni: Não, eu acho que não, fugiria um pouco do profissionalismo. Já foi pensado, inclusive.

Marília Ruiz: Já foi pensado em 2003, na última rodada.

Rogério Ceni: E eu torci o tornozelo num jogo contra o River Plate [time argentino], numa dividida, eu acabei tendo uma torção forte no tornozelo. Eu joguei o último jogo do Campeonato Brasileiro, a gente já classificado para a Libertadores, sem chance de título, joguei no gol e com muita dor, então não deu para fazer isso. Mas parando, pensando com sensatez, eu acho que não deveria, não caberia essa situação. Aí sim seria uma inversão de valores, cada um na sua. É mesma coisa que você querer botar um centroavante no gol, acho que aí perderia um pouco o foco.

Mauro Naves: Você começou batendo falta porque o ataque não estava atacando, ou seja, o Muricy só deixou ele bater porque ninguém lá fazia gol de falta, aí o cara chegou e falou: “o melhor é o goleiro”.

Rogério Ceni: No ano que eu comecei a bater faltas, o São Paulo fez um gol de faltas só, no ano todo. Aí eu chegava mais cedo aos treinamentos, pegava uma barreira móvel, um saco com vinte bolas. Foi uma das coisas que eu aprendi com o Telê, chegar sempre meia hora mais cedo. Aí eu ia lá, alongava e começava a bater. Bater, bater, foi onde eu fui pegando.

Raul Plasmann: O Telê colocava uma camisa na rede para...

Rogério Ceni: [interrompendo] Colocava uma camisa nos dois ângulos para você treinar.

Raul Plasmann: Quando é que vai sair um gol de bola, sem ser bola parada?

Rogério Ceni: O meu?

Raul Plasmann: É.

Rogério Ceni: Não, eu não tenho condições. O máximo que eu posso fazer é como foi contra o Cruzeiro, aquele toque, o Souza parou e bateu porque não vou fazer uma loucura de sair correndo pelo campo, porque eu não tenho a velocidade que um jogador de linha tem.

Raul Plasmann: Tem que ter responsabilidade.

Rogério Ceni: Aí é pro Jorge Campos, que o Plasmann falou, ou jogando na linha, como a Marília falou.

Wagner Vilaron: O que o Markun falou no início do bloco, ainda sobre "cada macaco no seu galho", muita gente se incomoda com o goleiro de repente fazendo funções diferentes da de defender. Coisas de bastidores assim, historinhas de campo, alguém já chegou para você, dentro do campo, algum jogador ou o próprio goleiro pedindo para que você não cobrasse a falta, achando que fosse ser humilhado ou coisa assim?

Rogério Ceni: Não, humilhado não, mas é lógico que, especialmente no começo da carreira, existia um preconceito muito grande. Você olhava para os outros jogadores e via que existia uma relutância em aceitar.

Wagner Vilaron: Do próprio time ou do adversário?

Rogério Ceni: Do próprio time, é claro.

Paulo Markun: E foi o técnico que te deu força?

Rogério Ceni: Foi. Duas pessoas me ajudaram muito nesse negócio de faltas, o Rojas [chileno, ex-goleiro do São Paulo e da seleção de seu país] que era meu treinador. Incentivou muito isso e o próprio Muricy, no quesito faltas. Assim, foram as duas pessoas que mais me apoiaram, me deram força para isso.

Luiz Gonzaga Belluzzo: Rogério, eu tenho a maior admiração pela sua habilidade em bater faltas. Qual é a sensação que você teve naquele jogo com o Fluminense que você bateu, a bola sobrou para o Roger e o Roger meteu a bola?

Rogério Ceni: Veja bem, nesse jogo que você está falando, eu bati, converti um gol, estava três a dois o jogo, a bola entrou e eu fui passar pela torcida comemorando, como sempre faço nos gols, só que os jogadores pularam. O Gustavo Nery pulou no meu pescoço e eu não conseguia falar. Eu vi que o lance estava no meio do campo já, só que eu não conseguia sair, tinham três jogadores em volta e eu não conseguia nem falar. O gol, logicamente ele foi validado, foi quatro a três o jogo, mas ele foi feito de forma irregular. Nós éramos quatro jogadores para cá, no campo do Fluminense e para cá tinha...

Luiz Gonzaga Belluzzo: [interrompendo] Esse foi o único gol que você tomou batendo falta?

Rogério Ceni: Não, dois. Eu tomei esse gol fazendo um gol e tomei um gol contra o Santos onde eu bati, deu na barreira, a bola volta no Cicinho, dá na perna do Cicinho, volta para o jogador do Santos e, no contra ataque, eles fazem um gol.

Raul Plasmann: Rogério você se preocupa, na hora da cobrança, que a bola não toque na barreira? É uma preocupação muito grande, né?

Rogério Ceni: Eu tento bater a falta no extremo [para] que ela consiga andar na maior velocidade possível, seja no canto do goleiro ou por cima da barreira e fazendo uma parábola que ela não encontre ninguém da barreira. Logicamente que nem sempre você consegue, mas é a grande diferença. Porque um jogador de linha, ele bate a falta com muito mais tranqüilidade que eu. Se ele errar, está tudo posicionado. Eu, apesar do treinamento, de posicionamento pré-definido, eu sinto que eu não posso ter um erro grotesco numa falta.

Paulo Markun: Já que você falou aí da imprensa esportiva, eu queria proporcionar aos telespectadores um momento singular. Nós temos aí duas falhas suas, eu queria que você narrasse, não como locutor esportivo, mas como...

Rogério Ceni: Duas falhas minhas que eu narrasse, que eu comentasse?

Paulo Markun: Que você comentasse. A gente vê, porque nós já passamos uma dos seus gols de falta, mas você estava falando e não foi possível de comentar, agora vamos ver. Roda, por favor [começam a passar as falhas do goleiro em campo]. Esse aí que jogo é?

Rogério Ceni: Não lembro que jogo foi, mas foi feio o negócio [risos]. Esse jogo eu lembro, deixa eu ver, não esse não foi, esse não foi gol. Esse jogo nós ganhamos, esse gol foi contra o Guarani. Nesse jogo estava ventando muito no Morumbi [estádio oficial do São Paulo], a bola pegou um efeito desgraçado e eu me atrapalhei e foi gol mesmo. Depois eu reclamei com o bandeira, mas a bola não tinha... esse é o gol que nós acabamos de comentar. E esse jogo é o Guarani inclusive, no VT [vídeo tape] anterior [que] você passou, o primeiro lance, na abertura do programa, é um pênalti que eu defendo exatamente naquele jogo do Guarani onde eu falhei. É a estréia do Souza, o Souza que hoje joga no América de Natal, foi a estréia do Souza nesse jogo e nós vencemos o Guarani por dois a um. E aquele outro que eu vou pegar de frente, que ela bate no meu peito, bate na mão e volta, se não me engano foi contra o Figueirense, um três a um, eu não consigo lembrar a equipe. Foi três a um para nós nesse jogo, com uma falha minha.

Paulo Markun: Uma pergunta óbvia, eu acho que essas são, às vezes, as melhores, ainda mais quando o perguntador entende pouco do assunto, como é o caso hoje. Eu tenho trauma de futebol pela incompetência juvenil: um jogador de ataque, quando perde um gol, o torcedor reclama meia hora. Um goleiro quando toma um frango, o torcedor discute uma semana, por quê?

Rogério Ceni: Porque o goleiro é a última barreira que existe para a bola chegar ao objetivo final do jogo, que são as redes. Então, não tem como uma falha do goleiro não ser mais lembrada.

Paulo Markun: Isso não te incomoda?

Rogério Ceni: Não, não isso está incluso no pacote que é ser goleiro, está incluso na minha profissão. As falhas, elas aconteceram, logicamente, em bem menor números em 700 jogos, do que as grandes defesas, do que o sucesso em geral. Mas elas estão conjugadas a isso. Você quando escolhe ser goleiro, você tem que lembrar que é um pacote que vem com determinados lances como esses. Esses ainda são tranqüilos porque foram em jogos comuns e que não afetaram no resultado final. Teve outros piores que resultaram em derrota, então eu acho...

Mauro Naves: [interrompendo] O que é mais gostoso, fazer um gol ou defender um pênalti, Rogério?

Rogério Ceni: Na hora em que os caras batem pênalti é melhor defender o pênalti, na hora  que tem a falta é melhor fazer o gol.

Mauro Naves: Aquela vibração interna, tem diferença? Tem diferença até no jeito de você comemorar?

Rogério Ceni: Por exemplo, o São Paulo, em Rosário, um jogo que vocês [Rede Globo] fizeram e que você lembra muito bem. O último pênalti teria que defender, eu defendi. Fiz o meu gol logo em seguida, defendi o outro pênalti. Quer dizer, cada momento é um momento especial. Para o goleiro, tudo que envolve sucesso tem que ser especial, porque é uma profissão difícil [gesticulando], é uma profissão [em] que você é crucificado a cada mínimo erro ou, às vezes, sem até o próprio erro, julgado por pessoas que nunca jogaram naquela posição.

Mauro Naves: Seria o caso da Seleção Brasileira, por exemplo? O Luxemburgo [ex-técnico da Seleção Brasileira, do Real Madrid e de vários times de futebol no Brasil], teve aquele problema todo. No começo do programa a gente viu os gols contra a Espanha e que você teria saído dizendo: “Eu não falhei” e o Luxemburgo falou: “Tomou dois gols, ele falhou e tal”. Muita gente diz que você não voltou à seleção do Luxemburgo porque não assumiu o erro dos gols que a gente mostrou aí no começo do programa.

Rogério Ceni: Veja bem, não fosse...

Mauro Naves: Ali você falhou, não falhou?

Rogério Ceni: Não fosse pelas duas falhas, teria sido uma partida perfeita porque foram muitas bolas ao gol. Eu sei que é uma frase que dá até para dar risada, se não fossem as falhas teria sido uma partida perfeita, é uma coisa meio óbvia.

Mauro Naves: Você assumiu aquelas falhas?

Rogério Ceni: Assumi sim, eu não disse que não tinha sido falhas. Agora, foi uma partida com tantas bolas que vieram no gol e um jogo... você já trabalhou nesse campo, grama baixinha, garoando, ventando, um jogo difícil de se jogar. Só não foi mais difícil que o da Rússia, que nós fomos com -17 o C , mas um jogo que não era fácil, viu, cara. E, assim, foram bolas perfeitas, mas eu dei azar porque quando eu erro dá gol. Eu erro e não tenho sorte de alguém tirar, uma coisa assim, a bola entra. Eu realmente falhei no jogo, mas foi uma partida, assim, ótima, como muitas participações durante o jogo, incluindo essas duas falhas. Pode ser que eu não tenha voltado por isso, pode até ser.

Paulo Markun: Para garantir a justiça, eu queria agora mostrar um outro pacote aí de imagens.

Rogério Ceni: De falhas?

Paulo Markun: Não, não, ao contrário, de defesas [risos].

Rogério Ceni: Ah, que bom.

Paulo Markun: Aí você pode também, se você lembrar de alguma coisa [são mostradas mais imagens].

Rogério Ceni: Esse pênalti foi no mesmo jogo do gol de faltas que eu fiz, no quatro a três. Este é o pênalti que eu falei daquele gol da falha. Esta bola também foi importante contra o Deportivo Táchira [time venezuelano] pela Libertadores. Eu fiz um gol neste jogo.

Marília Ruiz: Rogério, a gente está vendo umas defesas suas. Eu aproveito para perguntar: você se adianta na hora de defender pênalti?

Rogério Ceni: Eu faço o mesmo movimento que qualquer outro goleiro faz.

Marília Ruiz: Por que você briga tanto com essa história?

Rogério Ceni: Não me adianto mais. Não me adianto mais, acabou de ser repetido um pênalti, ai.

Marília Ruiz: Mas pode se adiantar ou não pode se adiantar?

Rogério Ceni: Não pode. A regra diz que não pode.

Marília Ruiz: Mas porque que você acha que é perseguição? Tem um jornalista esportivo que você acha que te persegue por causa disso.

Rogério Ceni: Não, eu não acho que é perseguição, eu levo tudo na esportiva. Eu só acho assim, é uma perseguição porque a mesma conotação dada aos pênaltis que eu defendo não são dadas às outras questões. Mas eu entendo que tem a audiência do programa, tem tudo isso.

Marília Ruiz: Mas você se adianta?

Rogério Ceni: Como qualquer outro goleiro.

Luiz Gonzaga Belluzzo: Rogério, quantas vezes o juizes mandaram voltar o pênalti que você defendeu?

Rogério Ceni: Eu acho que ao todo, na carreira, uns cinco, na minha carreira.

Vladir Lemos: Agora, Rogério só para testar se você realmente leva tudo na esportiva. Essa questão que a Marília levantou, desse jornalista que pega no seu pé dizendo que você se adianta. Depois disso também houve uma outra muito famosa também com a Milly Lacombe no ar, no Sportv, uma discussão sua. Eu queria que você falasse. Aí a minha curiosidade, e a pergunta é simples: você processou a Milly Lacombe?

Rogério Ceni: Com relação ao Milton Neves, com relação ao jornalista, o Milton, não tem problema nenhum em falar o nome dele.

Vladir Lemos: Se você quiser, até com as suas palavras [pode] explicar o ocorrido, que era a proposta do Aresenal, que você teria recebido.

Rogério Ceni: Com relação à Milly, eu nem posso falar desse assunto porque foi instaurado, logicamente, um processo e ele segue em segredo de Justiça. Então, eu não teria como comentar qualquer coisa enquanto não seja julgado esse processo.

Hélio Alcântara: Mas eu posso perguntar uma coisa, então, Rogério? Em relação à postura da imprensa, você acha que falta precisão, conhecimento? Eu não estou falando de má fé, porque má fé acho que tem em todo lugar. Enfim, você acha que existe isso, quer dizer, falta precisão no jornalista esportivo, falta clareza, conhecimento?

Rogério Ceni: Olha, para muitos falta, assim como para muitos jogadores também falta conhecimento de determinadas coisas. Como para muitos advogados, médicos e em outras áreas. Eu acho que não é diferente, o jornalismo não é diferente. Eu vejo ótimos jornalistas, excelentes jornalistas que analisam de forma muito coerente.

Hélio Alcântara: Eu sei, é que é uma resposta diplomática essa sua.

Rogério Ceni: Não é diplomática, é uma resposta minha.

Hélio Alcântara: A maioria é assim ou não?

Rogério Ceni: Olha, tem muita gente muito boa, tem muita gente mais ou menos e tem gente despreparada, isso é uma coisa.

Hélio Alcântara: É que vocês lidam todo os dias com esse pessoal.

Rogério Ceni: É, mas pode [haver gente despreparada], em todas as áreas. Eu acho que isso não é um demérito para o jornalista, tem muito jornalista de altíssimo nível.

Paulo Markun: Mas há uma declaração sua numa entrevista que você diz o seguinte: “Eu não entendo como é que estes caras comentam isso, se eu vejo treino de um jogo entre jornalistas, é tudo um bando de perna de pau”.

Rogério Ceni: Isso não, isso é mais um comentário muito mais no sentido de brincadeira. Eu assisto mesmo porque há o jogo da imprensa contra...

Paulo Markun: [interrompendo] E deve ser um bando de perna de pau mesmo.

Rogério Ceni: ...contra a comissão técnica, então a gente vê, mas isso não tem nada a ver, porque eu  também  não entendo, não estudei política e me vejo no direito de dar uma posição sobre política.

Vladir Lemos: É uma relação que piora através dos tempos? Eu digo isso pela história recente, o Corinthians ficar sem falar com os jornalistas, o Palmeiras também.

Rogério Ceni: Aconteceu, por exemplo, no Mundial de clubes, lá, que nós não demos entrevista depois do primeiro jogo, por uma situação que foi colocada de prêmio que não teria sido acertada, e do Amoroso [ex-atacante] que tinha o contrato, uma coisa assim. Contrato é uma coisa muito particular dele. A premiação não houve nem discussão, o São Paulo disse: “Nós vamos dar isso, isso, isso para os jogadores para serem campeões do mundo”.

Vladir Lemos: Mas a relação piora através do tempo, com a sua experiência?

Rogério Ceni: Com a imprensa?

Vladir Lemos: É.

Rogério Ceni: Para mim, melhorou muito. Evoluiu muito, primeiro porque eu sou uma pessoa mais madura. Eu acho que você também vai aprendendo a administrar de forma melhor, a entender as pessoas de forma melhor. Mas, para mim, melhorou muito o relacionamento com a imprensa.

Vladir Lemos: Depois da derrota do Fluminense, no último jogo, uma coisa que me chamou a atenção foi a entrevista do Pedrinho. Os jornalistas foram falar com ele, e ele falou, olhou para os jornalistas e falou: “Meu, eu estava no vestiário e avisei todo mundo que eu não tinha mais o que falar. Meu time perdeu”. Na verdade, isso me parece uma postura muito mais correta do que deixar de falar com a imprensa.

Rogério Ceni: Esse raciocínio, que na época nós, por decisão das pessoas envolvidas mais no assunto e tudo. “Não, nós não vamos falar com a imprensa em sinal de protesto, tal”. Para ser sincero, eu não era a favor daquilo, mas eu penso que um grupo é um grupo. Só que quando saíram, os jogadores: “Ó, pergunta para o capitão”. Mas, peraí, o capitão não estava disposto a falar, sabe? É uma realidade. Então, hoje, qualquer coisa que seja feita nesse sentido, para mim, eu não participo. Eu prefiro ir lá e dizer: “Olha, eu não tenho o que falar para vocês” ou “Eu não gostaria de falar”, mas ficar em silêncio... Agora, respeito também a atitude, acho que cada grupo é um grupo, cada momento é um momento. Hoje, eu vejo que não é muito favorável esse negócio de: “Não nós não vamos falar hoje, vamos falar amanhã”, porque cria uma série... assim como tem pessoas irresponsáveis, [tem] jornalista irresponsável que joga jogador contra a torcida: “Ó tem aquele grupinho”. No Mundial, diziam que nós tínhamos oito grupos diferentes e nós éramos 23 jogadores. Então, cada grupo era no máximo de três ou tinha grupo de um só,  não sei se pode existir.

Paulo Markun: O duro é se eles tiverem discordância entre si ou consigo mesmo [risos]. Vamos fazer mais um rápido intervalo. A gente volta já, já.

[intervalo]

Paulo Markun: Estamos de volta com o Roda Viva, esta noite entrevistando o goleiro do São Paulo Futebol Clube, Rogério Ceni. E agora temos uma pergunta do outro goleiro do São Paulo, do ex-goleiro Zetti, titular do time nos primeiros anos de Ceni no clube.

Zetti [em pergunta gravada]: Minha pergunta é bem direta: eu queria saber do Rogério se ele pretende chegar aí aos mil jogos. Eu acho que é uma marca maravilhosa. Ou se ele tem um pensamento, de repente, [de] chegar até a marca do Pelé, por que não? Eu acho que ele tem idade para isso, é jovem. Espero que isso aconteça, porque ele já faz parte do futebol brasileiro, do futebol mundial, não só pelos gols, pelas grandes defesas, é um dos maiores atletas da história do  São Paulo. Sem dúvida, o maior, não um dos, o maior atleta da história do São Paulo. Valeu, um grande abraço.

Paulo Markun: Só para acrescentar, eu coloco a pergunta de Roberson Costa, de Santa Cruz do Rio Pardo, que diz o seguinte: se você acha que pode chegar aos 100 gols?

Rogério Ceni: Primeiro queria mandar um grande abraço para o Zetti, tenho certeza que deve estar assistindo o programa. Foi como um irmão aqui em São Paulo para mim, um cara que... eu sempre falava para ele que eu desejava coisas futuras melhores para ele do que até para mim, porque foi um grande cara [com] que eu trabalhei. Eu tenho uma admiração muito grande pelo Zetti. E chegar aos mil jogos, acho que não vai ter condições, não. Eu acho que aí os joelhos não agüentam até lá. Vamos chegar mais para frente um pouco, eu espero pode chegar, fazer um bom número de jogos. Eu acho que, assim, em porcentagem, seria mais fácil chegar aos cem gols do Roberson aí, que perguntou, do que chegar aos mil jogos. Bater o Pelé então, mil e cento e lá vai, né? Aí não.

Mauro Naves: Você tem que jogar 60 jogos em média, mais uns cinco anos, 60 por ano, para você... você vai jogar até quando?

Rogério Ceni: Eu imagino - eu não posso prever - vou jogar até o dia em que eu me sentir em condições, bem fisicamente e interessado pelo jogo, motivado pelo jogo. Mas acredito que até os 37 [anos].

Paulo Markun: Quer dizer que nós vamos ter que te aquentar mais uns cinco anos [risos]?

Rogério Ceni: É, você vai ter que me suportar mais uns quatro anos.

Paulo Markun: Só um pouquinho. Pergunta de Thiago Vicente, de Bebedouro, São Paulo, que gostaria de saber se você pensa em seguir a carreira de treinador como fez o Zetti.

Rogério Ceni: Não, não é uma coisa que me atrai muito. Eu vivo há 16 anos, 17 quase, porque eu joguei no Mato Grosso, mas lá eu estava na minha casa, morando com os meus pais. Eu vivo há 16 anos no futebol, a gente viaja muito, sai para um lugar, para outro, pára muito pouco em casa. A profissão de treinador é ainda muito pior porque, no nosso país, se você perder quatro, três em seguida, quatro em seguida o cara te manda embora no dia seguinte. Aí você tem que mudar de cidade, de estado, aí a família fica meio que jogada para um lado, para o outro. Eu gostaria de saber o caminho de volta para a minha casa todos os dias.

Hélio Alcântara: Por isso o poder? O poder te atraí? Quer dizer, você quando pensa:  “Talvez eu seja o presidente desse clube”?

Rogério Ceni: Não, eu nunca, veja bem, eu nunca falei que eu vou ser presidente do São Paulo. A imprensa sempre me perguntou se eu desejava ser presidente do São Paulo. Eu sempre falei que eu gostaria de colaborar com o São Paulo Futebol Clube numa maneira que fosse, uma maneira ideal, não necessariamente sendo presidente dessa entidade. Eu acho que hoje, por exemplo, existem muito mais pessoas preparadas do que eu para assumir essa função. Agora, eu gostaria, logicamente, de poder retribuir ao clube um pouco do que ele fez mas, logicamente, existe sempre uma troca. Eu trabalhei muito para o clube e o clube fez muito por mim, mas eu gostaria de poder retribuir pós-goleiro, pós-futebol.

Marília Ruiz: Mas aí a gente cai numa tradição péssima no Brasil, que não aproveita nenhum dos seus ex-atletas. A gente não tem nenhuma tradição, aqui no Brasil, de aproveitar ex-atletas. Inclusive no São Paulo, que é um clube referenciado por ser diferenciado. Tentou uma tentativa com o Raí, fracassada, que não deu certo, então o que você vai fazer diferente para que com você funcione? O que você faz, você se prepara como?

Rogério Ceni: O São Paulo ainda tem uma identificação com seus ex-atletas, mais no sentido de treinador de categorias de base, preparadores físicos e na parte social também. O São Paulo emprega muitos grandes jogadores do passado. Eu penso que na área de futebol, em si, eu possa dar muita colaboração no sentido da praticidade, na prática, de ter trabalhado tanto tempo com isso.

Marília Ruiz: Mesma coisa que o Leonardo faz no Milan?

Rogério Ceni: O Leonardo, eu acho que é fora do comum. O Leonardo, para mim, assim é um jogador, atleta profissional mais inteligente com quem eu trabalhei, mais bem preparado para exercer... fala cinco línguas. Eu acho que é um cara assim... e depois é um cara assim limpo, claro, é um cara fácil de se conversar, não tem como não gostar do Leonardo. Agora, eu acho que poderia dar uma... Eu sei como é o São Paulo, como vive o São Paulo, como respira o São Paulo no dia-a-dia. Então eu gostaria, quem sabe, de poder exercer um cargo onde eu pudesse ter esse contato direto com o atleta ,no futuro, depois de deixar de ser um atleta, não como treinador, que eu não me sinto tão confortável nessa posição. E não necessariamente como presidente.

Marília Ruiz: Você quer o emprego do Marco Aurélio Cunha [superintendente de futebol do São Paulo], é isso?

Rogério Ceni: Não quero tomar o emprego do Marco Aurélio, muito pelo contrário. O Marco Aurélio é extremamente competente e talvez até preparado, tão bem preparado que possa exercer a função de presidente, futuramente.

Luiz Gonzaga Belluzzo: Rogério, você que é uma pessoa que tem uma capacidade verbal anormal no meio onde você trabalha, o que você poderia fazer pela sua classe? Porque você disse muito bem no começo, que os que chegam ao sucesso e ganham muito dinheiro são poucos, a grande maioria, nós sabemos, jogam com salários baixos e terminam a carreira, às vezes, melancolicamente. O que você faria?

Mauro Naves: Eu aproveito para dizer, o Marco Aurélio Cunha, eu falei com ele sábado, eu falei: “me faça uma pergunta que eu vou levar para o Rogério”. Ela acabou de citar o Marco Aurélio e foi exatamente o Marco Aurélio que me disse hoje por telefone: “Mauro, eu pensei na pergunta, ele é tão imprescindível ao futebol que essa história de São Paulo eu acho pouco para ele. Ele teria que fazer algo para a classe, do jeito que ele é, ganha acima da média e tal”.

Rogério Ceni: Hoje, o que melhor, no momento, se pode fazer, é o exemplo que você pode dar de seriedade, de profissionalismo. Agora, é uma classe sofrida no nosso país. Eu acho que resiste, e mudou-se a lei a pouco tempo atrás, mais ainda ela... o Brasil hoje deve ter em torno de 16 mil atletas profissionais registrados em federações. A grande maioria desses atletas, talvez, sei lá, 80% para mais, vivam de um a dois salários mínimos. Aí eu vou te dizer, quanta gente formada em medicina, quantos advogados existem no Brasil se formando, alguns, como foi capa da revista Veja, se não me engano na semana passada ou retrasada, os grandes escritórios de advocacia do país cuidam de contas excepcionais e conseguem ter uma arrecadação fantástica. Há advogados que trabalham, mesmo pagando uma faculdade caríssima, que vão começar trabalhando... então, existe um afunilamento natural para você ter sucesso.

Paulo Markun: Mas advogado não tem peneira.

Rogério Ceni: Claro que tem peneira. Hoje tem um exame da OAB que você vê 10% dos advogados passando.

Paulo Markun: Não, espera um pouquinho Rogério, mas o que eu digo é o seguinte: a peneira, e aí é alguma coisa, disso eu conheço, até por proximidade de familiares que jogaram futebol, a peneira não é uma coisa muito correta, tem de tudo ali.

Rogério Ceni: Não é que não é uma coisa correta, mas é um modo de avaliar que dificilmente você vai conseguir ver todas qualidades daquele menino. Primeiro, se ele tem um treino para fazer, o nervosismo que ele passa naquele treino, naquele primeiro treino. Às vezes, são muitos garotos, você não tem condição de analisar. Como o Cafu, por exemplo, [fez] mais de dez testes e foi se tornar o cara que mais jogos fez pela Seleção Brasileira. Às vezes você não tem o tempo para ser avaliado de forma correta. Voltando só na classe, que é uma coisa super importante, eu acho assim, que não é que o sindicato seja mal administrado ou coisa assim, mas ele não tem a força realmente, porque não existe uma união tão grande dos atletas, sabe?

Marília Ruiz: Não é nem entre os menores, uma pergunta que eu fiz para você antes. Os 20% ou 5% que ganham o que você ganha ou que estão em times grandes como você, também não são unidos. Vocês também jogam mais jogos do que deveriam, não têm as férias que deveriam e nem vocês estão bem representados.

Rogério Ceni: Mas, culturalmente, nosso país foi politicamente formado assim.

Vladir Lemos: Você se sente explorado em algumas horas?

Rogério Ceni: Não, não me sinto explorado, não me sinto explorado.

Mauro Naves: Você tem que se sentir um privilegiado...

Rogério Ceni: Eu me sinto um privilegiado.

Marília Ruiz: Ele tem direito a férias de trinta dias, coisa que ele não consegue.

Rogério Ceni: No ano passado, por exemplo, nós não tivemos. Mas existe sempre um diálogo entre a diretoria. Eu falo no nosso time, no nosso caso, existe sempre.

Mauro Naves: Entre a diretoria e você, né, Rogério? Você responde por tudo lá.

Rogério Ceni: Não. E difícil você botar 25 jogadores dentro de uma sala de um diretor para conversar com um diretor. Então sempre existem... eu não gosto. [aponta para Belluzzo]

Luiz Gonzaga Belluzzo: [interrompendo] Eu não sou diretor de nada.

Rogério Ceni: Não, eu sei, pela experiência sua. Então, é sempre normal que você tenha dois. Eu nunca vou sozinho, eu não gosto de conversar sozinho, mas sempre tem dois ou três pela classe.

Luiz Gonzaga Belluzzo: Sabe o que eu queria falar, especificamente? Da coisa do sistema de previdência dos jogadores. Porque é a coisa mais dolorosa para quem gosta de futebol, como eu, é ver um grande jogador terminar a vida de uma maneira melancólica. Será que nem nisso o sindicato é capaz de pensar num sistema de previdenciário para os jogadores. Isso significa... todos os sistemas previdenciários são baseados nas solidariedades. Isso me faz pensar que os jogadores de futebol são poucos solidários uns com os outros.

Rogério Ceni: Eu acho que, assim... nessa profissão ou em outras profissões que você tem uma camada muito pequena de gente que chega ao sucesso, não existe uma solidariedade mesmo tão grande. Por exemplo, agora depois do acidente com o Weverson e com o Bruno [Em agosto de 2006, ambos estavam em carro envolvido em acidente. Weverson morreu e Bruno ficou tetraplégico], o doutor Juvenal veio até conversar comigo da gente fazer um fundo, descontar da parte de premiação. Eu acho mais justo [descontar] da parte salarial. Quem ganha mais consegue conceder um valor um pouco maior para que façam um fundo assistencial para cada clube. Mas, para atingir o país todo, o número de jogadores que existem em todos os clubes, mesmo assim, com isso a gente não conseguiria atingir. Teria que ter também talvez até grandes empresários.

Hélio Alcântara: A CBF [Confederação Brasileira de Futebol]. A CBF não tem nenhuma participação.

Paulo Markun: Rogério, só um segundinho, nós vamos fazer um rápido intervalo e a gente volta já, já.

[intervalo]

Paulo Markun: O Roda Viva entrevista esta noite, Rogério Ceni, goleiro titular do São Paulo, o goleiro do mundo que mais gols fez. Vamos agora conferir a pergunta do ex-jogador Neto, que já atuou nos quatros grandes clubes em São Paulo e, assim como Rogério, ele também ganhou fama como cobrador de faltas.

Neto [em pergunta gravada]: Eu sou um fã incondicional do Rogério Ceni, acho que o centro de treinamento do São Paulo deveria se chamar Centro de Treinamento Rogério Ceni. Até porque ele merece isso, porque é uma pessoa maravilhosa, meu amigo particular. Eu queria perguntar para você, eu que tive uma carreira onde tive altos e baixos, como faz para você manter essa regularidade toda sua nesses dez anos como titular da equipe do São Paulo? O que te faz acordar todos os dias e continuar sendo o Rogério Ceni que você é, tanto dentro como fora de campo? Um beijão para você, Rogério.

Rogério Ceni: Agradeço, né, o Neto. O Neto é fantástico. O Neto, no quesito faltas, foi um jogador com quem eu mais aprendi vendo bater faltas. Não era jogador do meu time, era jogador do time da Marília [Ruiz] aí, do Corinthians.

Marília Ruiz: Não, não é meu, não. Se fosse meu estava melhor.

Rogério Ceni: Mas é o jogador que mais se aproxima do [meu] estilo. É uma figura fantástica, é difícil um profissional ter sucesso em duas profissões em uma vida só. E o Neto conseguiu todo sucesso como atleta, como jogador e hoje como comentarista esportivo também, vem ganhando cada vez mais fãs. Então, assim, eu tenho um carinho super especial pelo Neto. Um cara fora de série. Ele não teve altos e baixos, isso é conversa fiada dele, ele sempre esteve numa posição muito elevada no futebol brasileiro

Wagner Vilaron: Que engordava.

Rogério Ceni: Que engordava nada, ele gordo era melhor que muita gente magra. E o que eu tento fazer, o que... Eu acordo todo dia, é quando eu olho para as minhas filhas, eu olho para a minha esposa e vejo que Deus me deu muita coisa boa e que a vida é uma só. E eu, quando eu chego, o momento mais feliz da minha vida é o caminho que eu faço da minha casa para o centro de treinamento, que eu entro... qual pessoa neste mundo não gostaria, em vez de trabalhar em um escritório ou num estúdio... quem é advogado sabe, fica sentado em uma mesa cheio de livros, quem é publicitário tentando desenhar, ter idéias ali, quem não gostaria de trabalhar a céu aberto, mesmo que seja embaixo de chuva?

Paulo Markun: Enfrentando pênalti?

Rogério Ceni: Não tem problema. Gente, é uma das profissões mais prazerosas. Apesar de que eu falo que o futebol em si, profissional, não é tão saudável. Não pense que futebol é esporte que você corre. Você, às vezes, ultrapassa seus limites, tanto psicologicamente, você tem que ter muita força psicológica. Você ultrapassa seus limites físicos, muitas vezes. Mas, gente, é a paixão da minha vida e no clube que eu jogo, eu não poderia jamais dizer que eu não amo o futebol.

Wagner Vilaron: E o que mudou nesses anos, Rogério? Estou te fazendo esta pergunta, pelo seguinte: há questão de quatro anos mais ou menos, eu não lembro exatamente o ano, mas eu estive lá no CT do São Paulo para fazer o dia do São Paulo.

Rogério Ceni: Faz tempo que você não vai lá.

Wagner Vilaron: É verdade, faz tempo que eu não apareço lá. Era seu aniversário, não sei se era um dia depois, dois dias depois, e você estava meio deprê, reclamando, acho que 30 ou 31  anos você estava fazendo: “Pô acho que eu estou pensando em parar, não sei que”.

Mauro Naves: Faz quatro ou cinco anos [risos]?

Wagner Vilaron: Eu fiquei assim porque a gente tem a mesma idade, falei: pô, mas ele tem a mesma idade do que eu.

Rogério Ceni: Inclusive temos mais características semelhantes.

Wagner Vilaron: Exatamente. E ele está reclamando, estou sentindo meio deprimido, que será que aconteceu? Até escrevi uma matéria sobre isso. Agora estou te vendo bem animado, o que aconteceu nesse meio tempo, são os títulos? Porque naquela época tinha aquela coisa que: “Rogério é um grande cobrador de falta, um grande goleiro, mas não ganha títulos”. De dois ou três anos para cá você estourou nesse quesito, isso te deu uma motivação?

Rogério Ceni: "Não ganha título" é [um conceito] muito subjetivo. Porque você ganha o Campeonato Paulista: “o Campeonato Paulista não é um grande título”. Se ganha o Rio - São Paulo, também não é um grande título. Nós fomos campeões da Conmebol [campeonato da Confederação Sulamericana de Futebol. Transformou-se na Copa Sulamericana], com um time reserva que revelou grandes talentos do futebol brasileiro, e não era grande título. Você ganha de novo o Paulista, não é grande título, torneios internacionais, que são torneios pequenos, lógico, mas também não valem nada. Então, só valia para mim se eu ganhasse a Libertadores, porque a história do São Paulo era ter vencido a Libertadores e Mundial. Então, a partir disso se deu, se colocou uma valorização até maior do que merecida por mim. Agora, eu hoje venho todos os dias motivado para jogar, para treinar, porque hoje o time que eu jogo demonstra confiança, demonstra sentido de coletividade, de objetividade. O São Paulo há dois anos vem jogando cada competição com chance de ser campeão. Nós chegamos a todas finais, então isso motiva, dá muito mais prazer.

Vladir Lemos: Falta um gol pela Seleção, Rogério, por exemplo? Um gol pela Seleção que uma coisa que o Chilavert, o paraguaio, vive falando. Quando eu vou falar com ele sobre você, ele sempre diz: “Mas eu fiz gol pela Seleção”.

Rogério Ceni: Como é que você pode querer comparar a representatividade do futebol paraguaio no cenário mundial com o futebol brasileiro?

Vladir Lemos: Não, mas para você pessoalmente, é alguma coisa que você almejou algum dia fazer um gol?

Rogério Ceni: Não, não, não tenho.

Mauro Naves: Não sei se com a Libertadores aí, antes de citar, ter sido penta campeão. Quer dizer, você se sente sem graça de ter sido penta campeão [Rogério esteve na Seleção Brasileira que disputou e venceu a Copa de 2002, mas foi o goleiro reserva] por não ter jogado?

Rogério Ceni: Não, não. Eu acho que a valorização é a mesma. Todos atletas te valorizam muito. Eu não pude jogar naquela Copa em 2002, mas eu acho que foi uma evolução, um salto muito grande na minha carreira,

Luiz Gonzaga Belluzzo: Na Seleção Brasileira, que goleiro você escalaria em 2002?

Rogério Ceni: Em 2002? Ah, é difícil, eu acho que os três estavam muito bem preparados.

Luiz Gonzaga Belluzzo: [...] que era o Marcos

Rogério Ceni: O Marcos fez um baita papel. Foi, para mim, junto com o Kahn [Oliver Kahn, goleiro alemão, foi premiado como o melhor goleiro da Copa de 2002. A imprensa brasileira considera que Marcos foi melhor]... é que o Marcos se destacou muito no final e o Kahn se destacou muito, levou a seleção da Alemanha nas costas até o final e falhou.

[...]: E quem você levaria?

Rogério Ceni: Eu levaria o Gomes para a Seleção Brasileira, que é um menino ótimo, de muito bom caráter. Tem muitos outros jogadores jovens aí que merecem, além do Dida.

Marília Ruiz: Falando em Seleção Brasileira, hoje saiu uma convocação.

Rogério Ceni: Hoje foi convocado Júlio César e o Elton. E o Elton também eu acho muito bom goleiro.

Marília Ruiz: Mais uma vez você ficou fora da convocação. Você acha que nessa seleção do Dunga [técnico da Seleção Brasileira a partir de 2006] você não tem chance por causa da idade ou você não tem chance porque ainda existe algum resquício do problema da Copa de Confederações de 1997? Você tem um bom relacionamento com o Dunga?

Rogério Ceni: Tenho, das poucas vezes que eu o encontrei foi sempre muito gentil, muito educado comigo. Não tenho problema nenhum, acho que ele está fazendo experiências novas, pegando jogadores jovens que talvez ele tenha certeza que esses jogadores estarão à disposição dele para uma eventual convocação.

Marília Ruiz: Então porque o Mineiro sim, você não?

Rogério Ceni: Porque eu acho que o Mineiro, aos 34 anos, ele tem condições de estar presente numa Copa do Mundo. Eu conheço o Mineiro porque eu trabalho todo dia com ele. O Mineiro vai correr até os 38, 39 [anos] do mesmo jeito que ele corre hoje. Eu acho que é mais do que merecedor de que ele esteja lá. Eu torço muito para que ele esteja. Agora, é uma opção do treinador sem problema nenhum, é uma renovação da Seleção.

Raul Plasmann: Sem sombra de dúvida o Dunga, Rogério, está fazendo experiências com aqueles que ele não conhece bem em termos de Seleção do Brasil. No seu caso, vamos dizer, hipoteticamente falando: “O Rogério eu sei quem é, ele esteve na Seleção, campeão do mundo, eu não preciso testar”.

Rogério Ceni: Eu acho que ele só vai convocar o Dida, o Marcos ou eu no momento em que ele achar: primeiro, que seja necessário, que com os goleiros mais jovens ele não tenha a confiança necessária para uma Copa do Mundo. Se estivermos bem fisicamente daqui a três, quatro anos, se estivermos jogando bem daqui a três ou quatro anos. Não vejo a necessidade de fazer uma experiência com goleiros com trinta e poucos anos, eu acho que ele está correto. A experiência tem que ser feita com moleques de 25, 24, 23, 26 anos.

Marília Ruiz: Então, por que não o Diego, do Palmeiras? Não estava jogando mais do que o Elton?

Rogério Ceni: Olha, o Diego é um goleiro que acabou de despontar para o futebol, né? Na minha opinião. Ele está [há] 18 jogos [por] aí, jogando pelo Palmeiras. Então, a princípio aparenta ser um ótimo goleiro, está se destacando, jogando muito bem, mas eu vejo ainda como um pouco cedo demais a convocação para a Seleção Brasileira. Se ele mantiver esse nível mais um ano, eu acredito que a possibilidade dele, se ele se mantiver como titular do Palmeiras e jogando bem, a possibilidade de ele chegar à Seleção é muito grande.

Hélio Alcântara: Rogério, sem pensar no Marcos, no Dida, nos seus concorrentes, vamos dizer assim. No íntimo, você sabe, quer dizer, qual é a Copa que você sabia que você tinha condições plenas de ser o camisa 1?

Rogério Ceni: Que eu tinha condições técnicas e físicas para jogar? As duas copas.

Hélio Alcântara: As duas?

Rogério Ceni: As duas copas, de 2002 e 2006.

Hélio Alcântara: Ásia e Alemanha?

Rogério Ceni: Eu tinha condições de entrar em campo e jogar, como o Marcos estava super bem preparado e como o Dida, mesmo não ganhando, estive muito bem nessas.

Hélio Alcântara: Uma delas doeu mais, ou não, lá dentro?

Rogério Ceni: Não, nenhuma doeu, foi muito pelo contrário. Foi um prazer muito grande poder ter feito parte de duas Copas do Mundo e ganhando uma. Quantos grandes jogadores que passaram pelo futebol brasileiro e não conseguiram estar presente numa Copa do Mundo?

Hélio Alcântara: Mas você sabe que não é a mesma coisa, lógico?

Rogério Ceni: Depende para quem vê. Eu sou campeão do mundo. Se você for procurar lá no site da CBF...

Mauro Naves: De todas as copas, de 1970 para cá, dois goleiros não jogaram, ficaram fora, todas elas. Em todas as Copas os dois reservas não jogaram. Então, você também não foi uma exceção ficando fora, como você não era o titular, entendeu? Mas é que uns... o Gilmar [goleiro], em 1994 se sente campeão, está sempre homenageado. Você fala muito em Libertadores e muito pouco no penta.

Rogério Ceni: Todas as Copas, menos 2006.  Em 2006, dois goleiros brasileiros jogaram.

Mauro Naves: Não, sim, mas você fala muito da Libertadores, evidente que você já ama o São Paulo e tal, mas você fala muito pouco do penta campeonato, parece que não te deu aquele prazer.

Rogério Ceni: Eu tenho uma identificação com o São Paulo. Você não pode querer comparar com a Seleção Brasileira com o São Paulo. É a mesma coisa você comparar a casa que você mora todos os dias com o fim de ano num determinado hotel que você vai. A Seleção é muito importante, eu trato com o mesmo profissionalismo e com a mesma seriedade que eu trato meu clube, mas eu vivo muito mais no São Paulo.

Mauro Naves: Por falar em casa, você faz questão absoluta de manter a sua privacidade. Eu não me lembro de nenhuma matéria dentro da sua casa expondo, a sua casa, nem nada. É você que não quer ou é a sua mulher? Porque com as filhas, até você de vez em quando você pode até aparecer com elas, se não me engano já até apareceu, eu vi elas em campo.

Rogério Ceni: Uma única vez elas entraram em campo comigo.

Mauro Naves: Entraram no campo com você. Mas a sua mulher, principalmente, você evita muito ou ela evita, não sei. Quem manda na sua casa, Rogério? No time do São Paulo mais ou menos eu tenho idéia.

Rogério Ceni: Não existe quem manda, eu acho...

Mauro Naves: [interrompendo] Não naquele sentido: “Lá em casa não mando eu, manda ela, tal”. Ela que não quer se expor, ou é você que não quer mesmo expor a família?

Rogério Ceni: Veja bem, um problema seríssimo que a gente enfrenta de segurança no nosso país, você expor a tua família a qualquer risco é muito delicado. Então, assim, e outra coisa...

Mauro Naves: [interrompendo] Não é por temperamento, é por esse motivo de segurança, mesmo?

Rogério Ceni: Não, por esse motivo e outra coisa, o único lugar onde eu posso descansar e ter paz é dentro da minha casa. Então, no restante dos lugares, você é uma figura pública, você tem que atender as pessoas, você vai jogar as pessoas estão te vendo, vai treinar, as pessoas estão te vendo, sai na rua... então, eu preciso de ter um único espaço para poder ter a cabeça no lugar.

Mauro Naves: Jogadores jantam na sua casa? Você tem amigos jogadores que vão a sua casa e você vai na casa dos amigos?

Rogério Ceni: Já jantaram na minha casa. O roupeiro já jantou na minha casa e o presidente do clube já jantou na minha casa.

Mauro Naves: Mas é comum, você tem muita amizade com os jogadores?

Rogério Ceni: Não, não, não. Há dois anos eu não tenho jantar na minha casa. Eu tenho duas filhas e eu ajudo a cuidar das minhas filhas. Elas vão dormir às 10:30 h da noite, eu tenho que ajudar a dar mamadeira, tenho que fazer o "mamá" das crianças, eu tenho que pegar no colo. Eu que coloco todas as vezes elas no berço, quando eu estou em casa, então eu ajudo muito. Depois que você tem filhos, principalmente nessa fase, faz dois anos que eu não assisto um filme e eu sou apaixonado por cinema, faz dois anos que eu não vou ao cinema. Então, a tua vida muda depois que você tem filhos.

Mauro Naves: Antes você gostava, cinema, teatro, tudo?

Rogério Ceni: Sou apaixonado por restaurantes, se eu fui cinco vezes jantar fora nos últimos dois anos, foi muito. Então, a vida mudou pela necessidade. Graças a Deus que mudou porque eu tenho duas crianças lindas.

Paulo Markun: Recentemente, você protagonizou uma cena que foi muito discutida, que foi o fato de você jogar a medalha para a torcida. Eu sei que você já respondeu isso, mas eu queria que você respondesse aqui, por que é que você fez isso?

Rogério Ceni: Primeiro, porque nós acabamos de perder um campeonato, recebi a medalha de prata. O torcedor, mesmo o São Paulo perdendo esse jogo, que não estava em um número excepcional assim no Morumbi... mas tinha uns 20, 23 mil torcedores da Recopa, contra o Boca. Tinha uma ala de deficientes físicos, que fica embaixo, é um espaço reservado embaixo junto, provavelmente, com seus acompanhantes. Essas pessoas aplaudiam e gritavam, mesmo com o São Paulo tendo perdido, e eu joguei essa medalha em direção a essas pessoas. E não vou ser hipócrita aqui em dizer que eu não fiquei feliz com o vice-campeonato. Agora, em nenhum momento foi para denegrir a imagem do torneio, como tentaram...

Paulo Markun: Seria hipócrita em dizer que você ficou feliz, quer dizer, você não ficou feliz?

Rogério Ceni: Não, não fiquei feliz em ter sido vice-campeão. No dia que eu ficar feliz em ser vice-campeão, aí é hora de eu parar mesmo de jogar. Agora, não tem problema, fica tranqüilo o torcedor são-paulino, se a gente ganhar o Campeonato Brasileiro, eu me comprometo a jogar a de ouro para o torcedor [gesticulando], para que eu não tenha mais que responder essa pergunta.

Paulo Markun: Por que a Seleção Brasileira não foi hexa? Pergunta de Alexandre, de São Paulo. Não vale responder porque teve menos gol do que o outro.

Rogério Ceni: Olha, a Seleção, ela tentou fazer um trabalho extremamente positivo e tentar vencer. Eu acho que as equipes se prepararam melhor para jogar contra o Brasil, porque o Brasil já tinha sido campeão em 2002, o Brasil era completamente favorito [é exibido um desenho de Ceni]... que desenho é esse, meu Deus do céu?

Paulo Markun: Isso é você cuidando das filhas...

Rogério Ceni: Ah, está certo. Eu acho que as seleções se prepararam de forma melhor. A gente teve uma preparação diferente de 2002, uma coisa muito mais aberta ao público.

Hélio Alcântara: Diferente é pior?

Rogério Ceni: Olha, não julgo se é pior ou se é melhor, diferente no sentido que você treinar com cinco mil pessoas assistindo você. Se escapar uma bola, os caras te vaiam, se você fizesse uma defesa, os caras te aplaudem, parecia que era jogo.

Mauro Naves: O próprio Parreira admitiu isso em entrevista, que deveria ter treinado aqui no Brasil.

Rogério Ceni: Não precisa nem ser no Brasil, mas talvez com um pouco mais de privacidade, acho que isso tirou um pouco a concentração.

Luiz Gonzaga Belluzzo: Rogério, um membro da delegação, cujo nome não vou falar aqui, disse que, na verdade, os jogadores, eles eram celebridades que eventualmente jogavam futebol naquele momento. Você faria esse mesmo juízo?

Rogério Ceni: Não, não. Mesmo porque eu não gosto de julgar as coisas, os fatos, depois que aconteceram.

Luiz Gonzaga Belluzzo: Eu estou te contando como o cara me relatou.

Rogério Ceni: Sim, claro. Eu acho assim, que a visão que vocês tem da Copa, os jornalistas e cidadãos comuns que assistiram e puderam acompanhar, porque foi uma cobertura, não digo 100% porque não entraram no quarto, mas da concentração para fora, trajeto do ônibus...

Luiz Gonzaga Belluzzo: Até entraram, até entraram, fizeram matérias com o Kaká, por exemplo, ali no quarto...

Rogério Ceni: Mas foram matérias isoladas. Agora, cada um pode tirar a conclusão que melhor convier para a pessoa. Eu vejo como um grupo que queria vencer, que tinha seus desejos, seus anseios e que não jogou um grande futebol. [Vejo] Que é passível de um atleta não desenvolver o seu melhor dentro de uma competição, ou melhor, é possível você perder.

Luiz Gonzaga Belluzzo: Eu vou completar, você acha que o brasileiro recebe naturalmente uma derrota, que é uma coisa natural no futebol, ele recebe naturalmente quando isso ocorre com a Seleção Brasileira ou ele acha que nós sempre perdemos para nós mesmos? Não tem um adversário, o adversário não jogou nada.

Rogério Ceni: O cidadão brasileiro, ele entende muito da opinião formada pelos comentaristas de televisão, pelas pessoas que levam as imagens e opiniões para o público brasileiro. Ele vai muito por esse lado.

[...]: Todo brasileiro acha alguma coisa do futebol, Rogério, independentemente do comentarista.

Rogério Ceni: É, mas existe uma tendência muito grande a se seguir o que é comentado. Agora, nem poderia ser diferente. Eu acho que o brasileiro ele tem que reagir, não aceitar o fracasso da forma como foi.

Luiz Gonzaga Belluzzo: Você não acha que isso é uma falta de educação esportiva? Porque no jogo você perde, o fato de você perder e ganhar é natural.

Rogério Ceni: Não, não, não, é natural. O fato, assim, o que as pessoas entenderam, pelo jeito, no nosso país, foi que não pareceu que houve uma entrega total. Ao menos essa é a impressão que a gente sente voltando.

Vladir Lemos: É errôneo isso, essa coisa que ficou da Copa? Assim a imprensa noticiou...

Rogério Ceni: Eu acho que todo mundo tentou fazer o seu melhor. As coisas não se encontraram, não deram certas, mas todos tentaram fazer o melhor.

Paulo Markun: Você acredita em sorte?

Rogério Ceni: Se eu acredito em sorte? Não, eu acredito em competência. Sorte, uma pequena pitada de 1%, talvez, mas eu acredito em competência e capacidade.

Wagner Vilaron: O Brasil tem competência para realizar a Copa de 2014?

Rogério Ceni: Nunca. Nunca e depois tem... competência? Hoje não tem, pode ser que em 2014, tenha. Agora, isso é um problema terciário perto das dificuldades que este país enfrenta. Eu acho que é muito legal o povo brasileiro pode ver uma Copa no nosso país, é muito bacana. Mas com os problemas que nós temos no nosso país, querer construir estádio para Copa do Mundo.

Wagner Vilaron: Mas você se engajaria numa campanha pró-2014 [em 2007, o Brasil foi eleito sede da Copa do Mundo de 2014]?

Mauro Naves: Você é contra, Rogério?

Rogério Ceni: Eu não sou contra, eu acho muito legal, gente, muito bacana. Resolvamos primeiro todos os outros problemas do país, aí tudo bem, eu concordo. E outra coisa, o não aceitar do cidadão brasileiro, o futebol brasileiro, perder uma Copa do Mundo, ou jogar da maneira como jogou, como é julgado pelas pessoas, eu só gostaria que fosse o mesmo sentimento sobre o político brasileiro, sobre a parte política brasileira, que o cidadão brasileiro fosse como é na Argentina, por exemplo. Que ele também não aceitasse tudo que é imposto goela abaixo para o cidadão brasileiro.

Paulo Markun:  [interrompendo] Com a mesma indignação.

Rogério Ceni: Com a mesma indignação, que você fosse para a frente da televisão para... ouvi esses dias, o jogador do Coritiba: "Vá lá na frente do Palácio do Planalto, faça o mesmo com os políticos que regem o nosso país que corrompem o nosso país".

Wagner Vilaron: Rogério, vão falar que você está incentivando a violência.

Rogério Ceni: Não, não estou incentivando a violência, estou incentivando a cobrança. Assim como é cobrado o atleta no seu clube de futebol, na sua seleção, o político também seja cobrado da mesma maneira.

Hélio Alcântara: Rogério, a sua opinião sobre um senhor chamado, Ricardo Teixeira [presidente da CBF desde 1989].

Rogério Ceni: Olha eu não tenho... eu nunca convivi com uma proximidade com ele. Poucas as vezes eu o vi, eu não posso emitir uma opinião sobre uma pessoa que eu não tenho conhecimento.

[...]: Como presidente da CBF também não?

Rogério Ceni: Olha, a parte administrativa é uma parte que não existe uma proximidade tão grande. Eu só acho assim, o que eu acho ruim é o tempo que se permanece muito prolongado no poder, em qualquer atividade, não só na Confederação Brasileira de Futebol. Mas eu não posso falar mal dele, ele nunca me fez nada para que eu falasse mal dele.

Vladir Lemos: Nosso futebol é bem administrado, Rogério? Você falou administrativamente, é bem administrado, na sua opinião?

Rogério Ceni: O futebol da CBF, o futebol de clubes?

Vladir Lemos: Em geral.

Rogério Ceni: Não, lógico que não é bem administrado. Há exceções de clubes que tem uma boa administração, mas não é de uma forma geral, senão nós não estaríamos na crise que estamos, aliás, o país não é bem administrado.

Paulo Markun: Última pergunta, nosso tempo está acabando, é o seguinte: o que é que você ainda espera fazer como jogador de futebol?

Rogério Ceni: Olha, eu espero ter o prazer de jogar futebol a cada dia que eu entro em campo. Eu espero jamais querer jogar futebol com o meu nome, ou com minha história. Eu quero jogar futebol com a minha capacidade e com o meu condicionamento físico, emocional a cada dia. A cada dia que eu entro em campo eu quero ser merecedor de estar ali dentro do campo.

Paulo Markun: Rogério Ceni muito obrigado pela sua entrevista, obrigado aos nossos entrevistadores, a você que está em casa e nós estaremos aqui na próxima segunda-feira as 10:40 h da noite. Uma ótima semana e até segunda.

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