Memória Roda Viva

Listar por: Entrevistas | Temas | Data

Eduardo José Farah

26/6/1989

O presidente da Federação Paulista de Futebol discute a fórmula do Campeonato Paulista de 1989, defende as arbitragens e questiona o comandante da seleção brasileira Sebastião Lazaroni

Baixe o player Flash para assistir esse vídeo.

     
     

Luis Alberto Volpe: Boa noite. Estamos começando mais um Roda Viva. Este programa é transmitido ao vivo pela rádio Cultura AM e pelas TVs Educativas do Piauí, Ceará, Porto Alegre, Espírito Santo e TV Cultura de Curitiba e ainda retransmitido pelas TVs educativas do Mato Grosso do Sul e da Bahia. O convidado do Roda Viva dessa noite é o presidente da Federação Paulista de Futebol, Eduardo José Farah. Para entrevistar Eduardo José Farah convidamos os seguintes jornalistas: Michel Laurence, diretor de redação de Esportes da TV Bandeirantes; Mário Sérgio Venditti, repórter especial da revista Placar, Ailton Fernandes, repórter do Jornal da Tarde; Nélson Nunes, editor de esportes da Gazeta Esportiva; Roberto Avallone, diretor de esportes da TV Gazeta e repórter especial do Jornal da Tarde; Gustavo Assumpção, editor de esportes da TV Cultura; Flávio Gomes, editor adjunto de esportes da Folha de S. Paulo. Na platéia, assistem ao programa convidados da produção. Eduardo José Farah é advogado e nasceu em Campinas há 54 anos. Foi presidente do Guarani, presidente do Tribunal de Justiça Desportiva e diretor administrativo da CBF na gestão Octávio Pinto Guimarães (1986-1989). Eleito para a presidência da Federação Paulista há dois anos. Farah prometeu, durante a campanha, fortalecer os clubes do interior. Coincidência ou não, em 1988, o Guarani de Campinas foi um dos finalistas [o campeão foi o Carinthians]. E agora, no atual campeonato, o São José, de São José dos Campos, também aparece como um dos candidatos ao título de campeão paulista [o São Paulo sagrou-se campeão em 1989. O São José foi vice]. Bem, presidente, pelos resultados, seus objetivos parecem que foram atingidos. Mas agora, na final, com um clube do interior, os dois jogos finais serão disputados no Morumbi aqui na capital. Tem alguma certa incoerência nesse regulamento, ou não?

Eduardo José Farah: Muito boa noite aos companheiros dirigentes do futebol de São Paulo que aqui estão. Meus companheiros de diretoria, meu vice-presidente Antonio Gebran, o Rubens Approbato Machado, senhores que fazem à comunicação desportiva deste estado. Não é incoerência. É, aliás, mais uma motivação para que os clubes do interior acreditem em si mesmos e façam investimentos patrimoniais, colocando os seus estádios em condições de disputa de final de campeonato. Nem os clubes do interior ainda acreditaram na possibilidade de disputarem finais de campeonato. Mas eu tenho absoluta convicção que, a partir de agora, teremos estádios de trinta a quarenta mil torcedores no interior, como são os estádios do Guarani, Botafogo, América de Rio Preto e de Limeira, a Internacional. E, conseqüentemente, o São José, agora chegando na final, há de construir um estádio a altura de disputar títulos.

Luis Alberto Volpe: Muito bem. Nós vamos fazer uma rodada inicial. Cada jornalista faz uma pergunta e daí em diante a palavra está livre. Vamos começar com o Michel.

Michel Laurence: Presidente, o senhor ainda há pouco me perguntou que nota eu daria ao Campeonato Paulista. E eu gostaria saber que nota o senhor daria ao Campeonato Paulista realizado pelo senhor? 

Eduardo José Farah: Eu daria uma nota por volta de sete, sete e meio. Não haverá nunca um campeonato que atenda definitivamente os interesses de todos os clubes de futebol. Uma, porque se dirige com muita emoção. Outra, porque o regulamento, a partir de um determinado momento do campeonato, passa a ser um carrasco do clube. A gente começa com vinte e dois clubes alegres, contentes. Na sua metade, teremos aí dez ou 12 clubes contentes. Depois teremos quatro, e agora, teremos apenas dois. E, a partir de domingo, teremos apenas um clube efetivamente contente. É lógico que o clube que chega à final, à semifinal, também continua contente. O futebol é regido por emoções. O Palmeiras, por exemplo, estar fora desse Campeonato não deixa de ser desportivamente uma injustiça. Mas, na prática, na efetiva execução do campeonato, eu entendo que o Palmeiras perdeu para si mesmo. Porque disputou oito pontos na terceira fase e ganhou apenas quatro, enquanto Bragantino ganhou seis. Essa foi exatamente a situação de Palmeiras e do seu grupo. [Palmeiras, Paulista de 1989]

Luis Alberto Volpe: Mário Sérgio Venditti.

Mário Sérgio Venditti: Presidente, o senhor, há duas semanas aproximadamente, recebeu dois telefonemas com ameaças. Por que essas ameaças, o senhor angariou muitas inimizades durante sua gestão? E o senhor já sabe, já tem alguma suspeita de quem fez essas ameaças? Teriam sido juízes que estão afastados do quadro de árbitros da Federação Paulista? 

Eduardo José Farah: Não, eu sinceramente não recebi qualquer tipo de ameaça. Aconteceram algumas ameaças aos companheiros de diretoria, que naturalmente atingem a mim. São ameaças naturais, como existem clubes descontentes em um determinado momento do campeonato, existem elementos profissionais que, em outras épocas, trabalharam e agora não estão sendo utilizados pelo futebol. Não existe lista negra ou mau árbitro, ou árbitro honesto ou desonesto, isso é um problema absolutamente circunstancial. O que nos interessa é a convocação do árbitro para apitar com competência. Nós discutimos apenas a situação de competência do árbitro, na atualidade do futebol, e ele é afastado simplesmente por essa razão. As listas negras acontecem por culpa dos próprios árbitros. Mas nós estamos muito contentes nessa área, a arbitragem de São Paulo hoje, sem dúvida nenhuma, é a melhor do país e uma das melhores do mundo.

Gustavo Assumpção: E com relação ao Romualdo Arppi Filho, que apitou a Copa do Mundo, e não apita mais o futebol paulista?

Eduardo José Farah: O Romualdo é um árbitro de competência internacional. Haja vista que já apitou uma final de Copa do Mundo. Mas a comissão de arbitragem é como o técnico Sebastião Lazaroni [técnico do Brasil na Copa do Mundo de 1990]. A ele, compete convocar jogadores. E à comissão, compete convocar os árbitros, entendendo não utilizar o Romualdo, que é meu amigo particular. E eu respeito essa posição da comissão.

Gustavo Assumpção: Não existe um veto seu assim, digamos?

Eduardo José Farah: Não há veto. Muito pelo contrário, quando surgem convites para árbitro estarem em outros estados, nós temos indicado o Romualdo, e eu o considero um grande árbitro.

Ailton Fernandes: Doutor Farah, eu queria mudar um pouco a área. Falar em CBF e lembrar o seguinte: na campanha do Ricardo Teixeira, o senhor foi uma das pessoas que mais batalhou pela candidatura dele. Até trouxe ele aqui para uma entrevista coletiva no prédio da Federação, onde, naquela época, o senhor contou para a gente e para todos os jornalistas que São Paulo teria finalmente voz ativa na administração do futebol brasileiro, que São Paulo teria cargos tipo chefe da delegação. Até o senhor teria sido indicado e passou a bola para o Adilson Monteiro Alves. E hoje nós estamos vendo que São Paulo não tem sequer um jogador na Seleção Brasileira. O que aconteceu? O senhor foi traído ou tudo que o senhor falou não passou de balela?

Luis Alberto Volpe: Farah, aproveitando a pergunta do Ailton, Pedro Lima, do Jardim São Paulo, pergunta se o senhor faz parte de algum movimento para mudar a CBF para Brasília? O senhor é a favor ou contra a essa mudança? E Nilton, de Santana: "O que o senhor vai fazer contra a cariocagem da CBF"?

Eduardo José Farah: Bem, quando apoiamos o Ricardo Teixeira, nós o apoiamos como empresário bem sucedido, um jovem interessado em fazer uma administração séria, jamais o apoiamos com a pretensão de fazer convocação de jogadores. Nós entendemos que o treinador da Seleção Brasileira é um homem da confiança do presidente da CBF. O que nós vamos fazer e devemos fazer é criticar o treinador e pedir até a sua substituição, se necessário for, a partir do momento que ele convoca vinte e quatro jogadores que, no entendimento dele, Lazaroni, são os melhores do país e ele não apresenta o trabalho compatível com essa convocação. Nós não temos a pretensão e não teremos nunca de influir na convocação desse ou daquele jogador. Nós não fazemos parte do shopping center italiano [referência à grande contratação de atletas brasileiros por equipes da Itália]. Nós administramos futebol com o espírito absolutamente desportivo. Não queremos vender jogador de nenhum time de São Paulo, nenhum time de São Paulo me pediu para vender jogador.

Michel Laurence: Por quê? O técnico da seleção brasileira está querendo vender um jogador?

Eduardo José Farah: Não existe naturalmente...

Roberto Avallone: Quem disse isso foi o presidente do Atlético Mineiro, Afonso Paulino, dizendo que a Seleção Brasileira, realmente hoje, é um shopping center. E que muitos jogadores estão sendo convocados para serem vendidos. Agora, isso não vem de agora, hein, presidente?

Eduardo José Farah: Eu ia exatamente por esse caminho. Esclarecer que já é uma prática natural no futebol mundial; e brasileiro um pouco mais, coincidência um pouco maior. O que eu quero deixar claro é que São Paulo não tem esse tipo de pretensão. Não sei se está acontecendo lá. De acordo com informações que recebi da imprensa que acompanhou a Seleção Brasileira, no hall do hotel que estavam hospedados, havia quarenta intermediários tentando vender jogadores.

Roberto Avallone: Também acompanhei.

Eduardo José Farah: Então, entendo que a CBF precisa, antes de mais nada, autoridade. E eu espero, do presidente Ricardo Teixeira, [que] fale como presidente, que o diretor fale como diretor e que o treinador fale como treinador, e que saiba que ele é pago pelo torcedor de futebol. Ele recebe o seu salário, deve recebê-lo em dia, para prestar um bom trabalho ao futebol brasileiro. Não sei se o Lazaroni atenderá os interesses do futebol brasileiro, até agora não.

Luis Alberto Volpe: Nelson.

Nélson Nunes: Farah, quando você votou, ou pelo menos apoiou o Ricardo Teixeira, você tinha a opção de apoiar a candidatura do Nabi Abi Chedid [(1932-2006) advogado e deputado estadual de São Paulo. Foi presidente da Federação Paulista de Futebol entre 1979 e 1981. Ainda chefiou a delegação brasileira na Copa do Mundo de 1986] e você sempre defendeu a força, a maior participação do futebol paulista a nível de decisão na CBF. Por que você não apoiou Nabi se, na Copa de 1986, no México, eu cansei de te ver ao lado do Nabi fazendo parte, inclusive, de um esquema de mordomia que a CBF arrumou naquela Copa? O que teria acontecido com você e o Nabi para que houvesse, na época da eleição, essa dissensão tão forte?

Eduardo José Farah: Bem, eu vou pegar pelo meio da sua pergunta, porque o Nelson realmente é um rapaz muito competente. Nós realmente nos encontramos, almoçamos em um restaurante vizinho, em mesas vizinhas e eu nunca usufruí de mordomia ainda no futebol brasileiro. Talvez venha a usufruir em determinado momento. Eu acompanho futebol, porque gosto de futebol. Desde 1948, quando o Guarani disputava a segunda divisão. Mas sempre com mordomia própria e de acordo com a minha possibilidade de mordomia. Fui ao México como diretor administrativo da CBF. Fizemos um trabalho que resultou no menor gasto, em termos de Seleção, de todos os tempos. Você sabe que eu lutei muito para que os gastos se concentrassem absolutamente no necessário. Entendo que o Nabi fez uma administração, em termos administrativos para São Paulo, razoável. E entendo que ele fez uma má administração na CBF, razão porque divergimos. E no momento em que divergíamos, eu não pude ver no Nabi uma reeleição tranqüila e sequer assegurada. O Nabi, naquele momento, não teria mais que quatro ou cinco votos. E, como disse anteriormente, o Ricardo representa um mentalidade administrativa mais jovem que está chegando. E tem um handicap [um histórico, uma característica] que alguém tenta colocar como defeito, mas eu entendo realmente uma qualidade, que ele é genro do João Havelange. E um homem, sendo genro do presidente da Fifa, se não vem a merecer nenhum tipo de benéfice – e espero que não venha a receber – há de merecer, no mínimo, um atendimento compatível com os maiores países do mundo. E o Ricardo Teixeira começa uma administração excelente na CBF. Para você ter uma idéia, na volta dessa excursão, o caixa da CBF é da ordem de um bilhão e meio de cruzeiros ou de cruzados novos, um bilhão e meio de cruzados novos. Ele poderá pagar o salário do Careca [atacante, começou sua carreira no Guarani, de Campinas. Em 1989 era jogador do Nápoli, na Itália, junto com Maradona], do Muller [atacante, jogou nos quatro grandes clubes paulistas: Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo. Integrou a Seleção nas Copas de 1986, 1990 e 2004. Em 1989 era jogador do Torino, da Itália], do Geovani [jogou pelo Vasco antes de ir ao exterior], que agora é jogador do Bologna e outros salários, que você sabe que são milionários, desses jogadores que estão sendo convocados do exterior. Não se pode fazer futebol com chapéu na mão. Futebol hoje é um esporte caro, tão caro quanto o tênis, tão caro quanto o basquete, o vôlei. Há de se pagar salários elevados, viagens são caras, os hotéis cinco, seis, sete estrelas são caríssimos. Então, ele precisava de caixa. Agora, não sei se vale a pena levar uma seleção para a Europa, correr os riscos que correu para fazer esse caixa, não sei, talvez eu não fizesse. Mas tem que se respeitar a mentalidade que ele introduziu na CBF, para que tenha condições de cobrir essas despesas. Porque ele pegou, realmente, a CBF, em uma situação muito difícil, em termos de dinheiro.

Gustavo Assumpção: Qual situação exatamente?

Eduardo José Farah: Na época?

Gustavo Assumpção: É.

Eduardo José Farah: Deficitária.

Gustavo Assumpção: De quanto?

Eduardo José Farah: De quanto exatamente eu não sei. O balancete estava mais ou menos zerado. Mas ele alegava um déficit da ordem de duzentos, trezentos mil cruzados novos.

Gustavo Assumpção: E como que surgiu isso daí?

Eduardo José Farah: Isso precisaria analisar o balanço todinho da administração anterior, mas logicamente é das despesas.

Gustavo Assumpção: Você trabalhou na administração anterior, não é?

Eduardo José Farah: Quando eu saí tinha oitenta mil cruzados novos em caixa. Mas não havia ainda as despesas de Seleção, de viagem, seleção de juniores, é muito difícil te dar informações detalhadas. Mas eu não tenho nenhuma dúvida que Otávio Pinto Guimarães [ex-presidente da CBF] pode ter qualquer tipo de defeito, mas é homem da maior seriedade. 

Roberto Avallone: Vou bater na madeira, não é Farah?

Eduardo José Farah: Não. Foram 18 anos...

Roberto Avallone: Otávio Pinto Guimarães, bater na madeira.

Eduardo José Farah: Tudo bem, eu entendo o seu ponto de vista. Mas em termos de honorabilidade... ele foi 18 anos presidente da Federação Carioca e saiu de lá morando em um apartamento de dois quartos. É um homem pobre, é um funcionário aposentado do Banco do Brasil, um homem muito sério. 

Luis Alberto Volpe: Farah, para fechar essa primeira rodada, o Flávio Gomes.

Flávio Gomes: Presidente. É mais ou menos consenso que o campeonato de turno e returno com pontos corridos é o campeonato mais justo. Por mais que os outros torcedores de times, que não seja o Palmeiras, estejam contentes, a desclassificação do Palmeiras foi uma grande injustiça neste campeonato. Eu queria saber quem é o gênio matemático que cria essas fórmulas de campeonatos por turnos, returnos, octogonais, hexagonais. Ou se é a Federação que propõe esses campeonatos para os clubes aprovarem. Não vai me dizer que o conselho arbitral aprova esses campeonatos, mas quem é que cria esses torneis fantásticos que a gente tem?

Eduardo José Farah: Não. Em primeiro lugar, eu não vou dizer a você quem fez ou quem não fez. Porque eu, por hábito, assumo, junto com os clubes, esse negócio de dizer: “ele vem de herança maldita, que não faz parte do meu vocabulário”. Primeiro, segundo o mesmo espírito que levam homens, que organizam Formula 1, a fazer circuito misto, a fazer corrida de rua, a querer agora parar trinta segundos na primeira vitória, sessenta segundos na segunda e assim por diante. Por que isso? Porque a partir do momento que o cidadão tem uma máquina muito superior aos segundos, ele tem que criar alguma coisa possível para tornar competitivo aquele tipo de disputa. Mas no futebol, propriamente, eu não faço dois turnos e os clubes não aprovam, nem o projeto de dois turnos, ida e volta com 18 ou 16 ou 20 ou 22 turnos, que atualmente é impossível no Brasil. Por que impossível? Porque você precisaria, no momento, para fazer um campeonato com dois turnos jogando 20 clubes ida e volta, todos contra todos, seis meses jogando quartas e domingos. E é impossível. Haja vista que estamos entrando no dia 2 de julho agora, invadindo já o calendário da CBF...

Flávio Gomes: Quer dizer que o senhor inchou o Campeonato Paulista, que podia ter 16 clubes tranqüilamente. O senhor vai deixar a Federação com 24 clubes no Campeonato Paulista?

Eduardo José Farah:
Eu não enchi. Se você pensar em inchar, você vai chegar à conclusão que uma empresa do porte de uma multinacional não devia ter dez mil funcionários, devia ter só quatro mil...

Flávio Gomes: É diferente.

Eduardo José Farah: Que uma faculdade ou uma cidade universitária deve ter só duzentos alunos.

Flávio Gomes: É diferente. A qualidade de um campeonato, ela é inversamente proporcional ao número de clubes que disputam entre eles.

Eduardo José Farah: Eu não acho que a qualidade se conserta com subtração, eu entendo que a qualidade se corrige com racionalização.

Michel Laurence: Mas presidente...

Eduardo José Farah: Por que não dois grupos? Por que não quatro grupos?

Michel Laurence: Presidente. De qualquer formar, os clubes paulistas estão enfraquecendo. Porque nenhum jogador paulista foi convocado para seleção brasileira, à exceção dos estrangeiros, que estão jogando lá na Itália. Portanto, decaiu, mesmo o senhor tomando providências para que o campeonato fosse mais...

Gustavo Assumpção: E nessa década São Paulo ganhou apenas um título. O São Paulo, em 1986...

Roberto Avallone: A nível brasileiro [Campeonato Brasileiro]. Bela pergunta.

Eduardo José Farah: Nos últimos 18 anos, a Seleção Brasileira que menos jogou, que menos jogadores levaram de São Paulo, levou de oito a doze. E não ganhamos nada também. Não quer dizer que esses jogadores de futebol de São Paulo sejam tão ruins. Talvez o técnico não seja tão bom. Vamos aguardar.

Roberto Avallone: Eu acho que o Flávio teve uma pergunta realmente importante sobre como fazer um campeonato sem “encher a canga”. Agora, rola na Federação uma proposta que foi copiada de uma revista argentina. Porque a Argentina, quando adotou essa fórmula, teve renda de até de um milhão de dólares, que poderia solucionar a falta de tempo e racionalizar, como o senhor disse, o campeonato metropolitano com 10 clubes, o campeonato do interior com 10 clubes. Então, já teria um título campeão metropolitano, não seria um torneio inútil. E depois o estadual, com os três primeiros classificados desse metropolitano e do interior. Por que não se faz isso? Qual é a resistência? Existe uma resistência política contra essa idéia?

Eduardo José Farah: Não. Nós começamos exatamente a fazer isso. Se você analisar, friamente, você vai notar que nós temos doze clubes na área semi-metropolitana, que é o caminho para metropolitana. E temos outro grupo interiorano. Já fizemos isso em 1988. Mas veja bem, Avallone, presta atenção, você que é um estudioso, o João Havelange é considerado um bom presidente na Fifa?

Roberto Avallone: Foi tricampeão.

Eduardo José Farah: Então, é um bom presidente na Fifa!

Roberto Avallone: É.

Eduardo José Farah: Ele abriu a Oceania, ele abriu a África, ele abriu tudo. E ele pegou a Copa do Mundo com 14 clubes, e tem 24 hoje. E eu não leio nada dizendo que o João Havelange está inchando a Copa do Mundo.

Roberto Avallone: Mas é diferente, ainda mais regional...

Eduardo José Farah: Não ultrapassa trinta dias.

Roberto Avallone: É diferente. Ragional é regional. O Rio, por exemplo, tem a Taça Guanabara, a Taça Rio. O basquete tem o campeonato metropolitano, campeonato do interior e estadual. Acho que seria uma forma muito mais racional de nivelar as equipes e todo mundo teria chance de ser campeão estadual, mas já com o título rolando. Então, assim, não teríamos torneios inúteis.

Eduardo José Farah: Talvez, a melhor solução seja um campeonato com grupos: ida e volta, talvez. É o nosso pensamento para 1990, a preparação de um campeonato com grupos, jogando apenas nos grupos com ida e volta [cada equipe se enfrenta duas vezes, uma em seu campo e outra no campo do adversário].  Já tenho consultado a maioria dos presidentes, principalmente do interior, porque o interior está muito preocupado em fazer campeonatos racionais. Não se equivoque que o interior não prejudica o futebol de São Paulo. Muito pelo contrário, o interior acata a maioria dos projetos que atendam os interesses do futebol de São Paulo. O que eles não querem, e nós também não queremos, é marginalizá-los. Você não pode comparar o futebol brasileiro e de São Paulo, principalmente, com o de Portugal, por exemplo. Portugal tem dez milhões de habitantes, a segunda divisão de Portugal tem quarenta clubes. E você vê que o esporte, que tem uma potência em Portugal, esteve às portas da falência.

Flávio Gomes: O senhor não acha que o torcedor palmeirense, por exemplo, se acha um tanto quanto enganado neste ano? O cara foi lá, 23 jogos, viu o seu time ganhar todos. Chegou à nova fase perdeu um. Estamos fora...

Eduardo José Farah: Eu acho que sim.

Flávio Gomes: Eu me sentiria enganado.

Eduardo José Farah: Eu acho que você se sentiria enganado, a grande maioria dos torcedores se encontram nesse estado de raciocínio...

Flávio Gomes:
Não tenho menor gosto para...

Eduardo José Farah:
Mas eu não penso assim, porque o torcedor está emotivamente raciocinando, e eu tenho que raciocinar com a razão. Para mim, é tão importante que chegue o São José quanto o Palmeiras. Agora, se eu pensar apenas em comercialização do campeonato, é uma pena que o Palmeiras não tenha chegado.
 

Mário Sérgio Venditti: Presidente, aproveitando a pergunta do Flávio a respeito do Palmeiras, o senhor já disse que o Palmeiras cometeu uns erros que fizeram, que provocaram a sua desclassificação. Quer dizer, o time contrata bons jogadores, forma um evento de primeira qualidade, é primeiro em número de pontos, ganha a taça dos invictos, tem a defesa menos vazada, é o primeiro nas arrecadações... Quer dizer, quais foram os erros que o Palmeiras cometeu, em sua opinião, presidente?

Eduardo José Farah: Na minha opinião, o Palmeiras vive um momento de pressão, o que é natural, porque é um clube no porte do Palmeiras com conquistas internacionais e nacionais significativas. Ele está ansioso pela conquista do título. Então, foi jogar, por exemplo, com o Bragantino, para ganhar a taça dos invictos, que é da maior relevância para o futebol de São Paulo. Mas eu entendo que gastou combustível exageradamente [O Palmeiras venceu o primeiro jogo, no Palestra Itália, por 2 a 0. Perdeu o segundo, em Bragança, por 3 a 0].

Mário Sérgio Venditti: E em um estádio que não existe nenhuma condição de se praticar futebol...

Eduardo José Farah: Aí vamos entrar em uma área patrimonial. Precisamos distinguir a área desportiva da patrimonial. Depois nós podemos discutir o estádio do Bragantino.

Roberto Avallone: O São Paulo provou que lá é possível vencer. [O São Paulo venceu as duas partidas das semifinais contra o Bragantino. Por 0 a 2 em Bragança e por 1 a 0 em São Paulo]

Mário Sérgio Venditti:  Mas a Federação precisa zelar pela segurança da torcida também. Lá é um verdadeiro alçapão.

Eduardo José Farah: Não houve uma única briga! Veja bem, há que se raciocinar. Primeiro, o que significa a situação do Palmeiras? E, depois, o que significa a situação do São Paulo? Por exemplo, o São Paulo foi jogar em Bragança e não houve briga, por quê? Porque o São Paulo nessa última década, aproveitando a linha de raciocínio do Avallone, que eu concordo, ganhou muitos títulos, e quando não ganhou, disputou os títulos. O Palmeiras não, o Palmeiras tem que comparar  com a época do Corinthians até 1977 [o Corinthians ficou por quase 23 anos sem vencer nenhum campeonato. O jejum acabou em 1977, com a conquista do Campeonato Paulista sobre a Ponte Preta]. Então, está sob pressão. O dirigente moderno, hoje... o dirigente do Palmeiras é um grupo de homens modernos. O Facchina [Carlos Facchina Nunes, foi presidente do Palmeiras de 1989 a 1992] é um excelente presidente, o Márcio Papa é um excelente dirigente, todo o grupo diretivo do Palmeiras está imbuído de fazer uma equipe, a médio prazo. Mas aconteceu um fenômeno no Palmeiras, mudou e deu certo muito rapidamente. Só que... o doente, há treze meses tomando canja, foi comer feijoada um dia e complicou.

Nélson Nunes:  Você percebe que essa forma de campeonato tua...

Eduardo José Farah: Minha não. [De] Todos, do estado de São Paulo...

Nélson Nunes: Você diz que assumiu a sua...

Eduardo José Farah: Eu assumo, lógico. Nossa então.

Nélson Nunes: Você percebe que essa fórmula permite aberração. A final vai ser disputada sem que um dos três clubes que mais investiram esteja disputando, que foram: o Palmeiras, a Portuguesa e o Guarani. Quem mais contratou, quem mais investiu, quem mais trouxe jogadores, está fora.

Eduardo José Farah: Mas você, analisando por essa mesma linha, os dois melhores campeonatos de São Paulo nos últimos vinte anos aconteceram em 1977 e 1978. Em 1978, 1979 Guarani e Ponte Preta deveriam receber o prêmio de campeão, quando não foi o Guarani e nem foi a Ponte Preta que chegaram com o maior número de pontos [Em 1977, disputaram a final Corinthians e Ponte Preta, com vitória do Corinthians. Em 1978, a final foi disputada entre Santos e São Paulo, com vitória do primeiro, tendo batido o Guarani na semifinal. Em 1979, o Corinthians venceu novamente a Ponte Preta nas finais]. E ganhou o título, o Corinthians, São Paulo etc. A injustiça da fórmula, desportivamente falando, só se corrige com turno e returno. Mas para turno e returno há que se ter um calendário adequado com a circunstância brasileira. Nós não temos que copiar o calendário da Europa. Nós temos que fazer um calendário próprio, nacional. Mas há uma interdependência com a sul-americana, há uma interdependência com a Fifa [entidade máxima do futebol mundial], com o COI [Comitê Olímpico Internacional], todos os órgãos internacionais. Então, nós temos que dar tempo ao tempo. Vamos corrigir aos poucos. Racionalizar é a solução para o futebol brasileiro, essa é a minha tese.

Nélson Nunes:  A forma de disputa do Campeonato em 1990 pode ser idêntica a essa, desse ano?

Eduardo José Farah: Não será nem parecida se depender de mim. Vou submeter aos clubes.

[...]: Bom, nós estamos falando de...

Eduardo José Farah: Eu acho que tem que mudar. Há que se inovar também. Porque o que fizemos foi bom, mas não é o ideal ainda, é assim que todos nós pensamos.

Ailton Fernandes: Nesse sentido, doutor Farah, foi um retrocesso a suspensão por dois anos do rebaixamento [Em 1988 e 1989 não houve rebaixamento para a segunda divisão do futebol paulista].

Eduardo José Farah: Eu entendo que não. Eu entendo que teve defeitos. Mas nós temos hoje, em São Paulo, dos 22 clubes, pelo menos vinte, ou 19 com um superávit de tranqüilidade para montar equipe em 1990. Todos os clubes têm, hoje, condições melhores. Mas tirou um pouco a motivação, em alguns pontos, do campeonato. Nós entendemos que aconteceram erros, não é o melhor campeonato. Tanto não é que vamos mudar.

Ailton Fernandes: Nesse aspecto o rebaixamento deve voltar?

Eduardo José Farah: Deve voltar.

Ailton Fernandes: Deve voltar ou vai voltar?

Eduardo José Farah: Deve voltar racionalmente.

Luis Alberto Volpe: Farah, além do regulamento, outra preocupação dos telespectadores, como o Nilton de Oliveira, é sobre a evasão de renda. Nilton de Oliveira, da Vila Estela pergunta. Como o senhor explica, no jogo São Paulo e Bragantino, no sábado, que tinha quarenta e sete mil pagantes e a renda deu duzentos e nove mil cruzados?

Eduardo José Farah: Duzentos e dezenove mil.

Luis Alberto Volpe: Duzentos e dezenove mil cruzados. E no jogo Corinthians e São José tinham quarenta e três mil pagantes, um público menor, e a renda foi de duzentos e trinta mil cruzados. Uma renda maior para um público menor.

Eduardo José Farah: Não, eu vou até ajudar esse telespectador que fez essa pergunta. Eu sei que ele está preocupado com as coisas do futebol, mas não é por aí que há de se encontrar evasão. Houve mais cadeiras numeradas no jogo do Corinthians por razões até estranhas, do que no jogo do São Paulo. Não tão estranhas, porque os são-paulinos têm a posse de muitas cadeiras cativas. Então, o mesmo preço que paga em uma arquibancada, paga na cativa o torcedor do São Paulo. Há evasão por outro caminho, há invasão e evasão, mas nós corrigimos muito isso, felizmente. O público que estava sábado no jogo do São Paulo e Bragantino surpreendeu até a nós, dirigentes da Federação, mas é exatamente o que lá estava. E a média de preço que, no jogo do Corinthians foi de 5,80 centavos, no jogo do São Paulo foi menor que 5 cruzados. Porque aí teve menos numeradas, aí não houve evasão rendas.

Luis Alberto Volpe: Avallone.

Roberto Avallone: Eu acho que, com o adeus palestrino, com o adeus corintiano, eu acho que a grande pergunta seria o seguinte: o maior vexame da seleção brasileira ao longo dos tempos [é] que... na verdade, fomos goleados por 7 a 1. 2 a 1 da Suécia, 4 a 0 da Dinamarca, que é o Lazaroni diz que é um futebol alegrinho, como o Zagallo disse da Holanda [Na Copa do Mundo de 1974, o técnico da Seleção Brasileira Zagallo chamou a Holanda de "futebol alegrinho", desprezando-a. O Brasil acabou desclassificado pela Holanda], do Cruyff [Johan Cruyff, jogador da Holanda]. 1 a 0 com a Suíça e 0 a 0 com os reservas do Milan sem o Gullit [Avallone refere-se a uma sequência de resultados negativos da Seleção que, somados, resultam em 7 a 1]. O seguinte: o senhor disse “não sei se o Lazaroni vai ser o ideal”. Pois bem, se não é o ideal, aponte, seja agora um esportista a falar, quem é que resolve o negócio na seleção brasileira?

Eduardo José Farah: Isso eu estou muito à vontade. Se entregassem a mim a seleção brasileira já, o meu supervisor chama-se Telê Santana e o meu técnico chama-se Carlos Alberto Silva. Esta seria a dupla, eu nunca entregaria à seleção a um único homem, como não se entrega a CBF a um único presidente.

Nélson Nunes:  Mas você continuaria com Eurico Miranda de diretor de futebol?

Eduardo José Farah: Eurico Miranda é um dirigente competente e foi escolhido pelo Ricardo Teixeira. E eu escolho a minha equipe e o Ricardo Teixeira escolhe a dele. Eu, aqui em São Paulo, eu tenho a minha equipe, meu maior respeito a Eurico Miranda, nada contra. Mas não sei se ele seria o meu diretor de futebol, eu nem gosto de diretor de futebol na CBF. Eu teria um departamento técnico. Diretor de futebol, eu convidaria na época de seleção, só.

Michel Laurence: Presidente, o senhor, a semana passada, eu vi uma entrevista sua dizendo que iria ao Rio para conversar com o Ricardo Teixeira a respeito da Seleção Brasileira. E que, se o senhor não fosse chamado, o senhor iria por sua conta cobrar dele algumas providências. O senhor acha que a Seleção está no caos assim total e que precisa de uma intervenção, precisa da... o Ricardo Teixeira não está administrando bem a seleção?

Eduardo José Farah: Não, sinceramente não. Não acho que é um caos ainda. Conversei hoje por uma hora com Ricardo Teixeira. Dizia a ele que havia algum descontentamento de São Paulo, inclusive por parte da imprensa, com a não convocação dos jogadores de São Paulo. E dizia ainda a ele que o Bismark [meio-campista, então jogador do Vasco da Gama] fez um péssimo campeonato carioca e que não é um especialista na posição. E ele poderia tranqüilamente dar lugar, por exemplo, ao João Paulo, do Guarani.

Michel Laurence: Perfeito.

Eduardo José Farah: Eu entendo que o Marcelo [Marceli Dijan, zagueiro], do Corinthians é um jogador mais interessante para o futuro brasileiro, do que o Mauro Galvão [zagueiro, então jogador do Botafogo] que lá está. E poderia fazer uma série de comentários a respeito de convocações. Respondeu-me o presidente que não interferiria nunca na convocação. Então, disse a ele que restava agora à posição de presidente, de exigir do “Seu” Lazaroni um trabalho compatível com esse direto que ele tem de convocar sozinho. Caso contrário, ele coloca em risco o patrimônio dos clubes, que são os jogadores. E isso, São Paulo não vai pactuar nunca.

Michel Laurence: Quer dizer que essa convocação atingiu frontalmente a sua administração no futebol de São Paulo?

Eduardo José Farah: Atingiu, porque atinge os clubes de São Paulo. A partir do momento que a convocação gera descontentamento nos clubes de São Paulo, atinge o futebol de São Paulo. Se eu for compelido a virar oposição ao Ricardo Teixeira, representando os interesses dos clubes de São Paulo, eu viraria no mesmo dia. Porque eu tenho o dever de representar os interesses dos clubes. Eu, circunstancialmente, sou presidente da Federação, mas não sou o dono da Federação. Eu tenho que fazer o que os clubes querem.

Luis Alberto Volpe: Farah, como é que você vê esse boicote da torcida baiana à Copa América?

Eduardo José Farah: Não sou favorável a esse tipo de providência. Eu entendo que o presidente da Federação Baiana deva tomar uma posição contrária ao atual estado de coisa da Seleção. Mas deve até prestigiar a Seleção. O boicote não é construtivo. Eu não pactuo com esse tipo de mensagem.

Ailton Fernandes: Aproveitando esse gancho... Deixa eu só aproveitar esse gancho.

[Interrompido]

Gustavo Assumpção: O fato de o Campeonato Paulista ter invadido um pouco o calendário da CBF não seria uma justificativa para a não convocação dos jogadores do São Paulo, no caso?

Eduardo José Farah: Não, porque nós conversamos e fizemos uma reunião demorada com o diretor de futebol da CBF. O Campeonato era para terminar no dia 09 de Julho...

Gustavo Assumpção: Mas começa sábado a Copa América. E o Campeonato Paulista começa domingo.

Eduardo José Farah: Não, mas eu vou responder. O campeonato era para terminar no dia 9 de julho. Atendendo uma solicitação do diretor da CBF, nós vamos encerrá-lo no dia 2 e teríamos encerrado no dia 25, se não fosse à greve geral de São Paulo [em 14 e 15 de março de 1989 ocorreu uma greve geral, convocada pelas principais centrais sindicais], onde perdemos uma rodada [dia 15 caiu em uma quarta-feira, quando costumam acontecer jogos]. E o problema com a Sunab [Superintendência Nacional de Abastecimento. Responsável pelo controle de preços durante um período da economia brasileira], quando perdemos duas rodadas. Esta é a razão de estarmos invadindo o mês de julho, não é a vontade de São Paulo. Foram circunstâncias sumamente atenuantes que nos levaram a isso.

Nélson Nunes: Agora, voltando ao assunto CBF. Você disse agora há pouco que considera uma virtude o fato de o Ricardo Teixeira ser genro do Havelange, quando muita gente acha que é um defeito.

Eduardo José Farah: Muita gente não, alguns. 

Nélsono Nunes: E eu te pergunto: você acha que é um defeito ou uma virtude o Ricardo Teixeira vir a público dizer que não entende nada de futebol? E ele dirige a CBF?

Eduardo José Farah: Eu acho uma virtude.

Nélson Nunes: Você acha uma virtude?

Eduardo José Farah: Eu não tenho circunstancialmente que eleger um presidente da República que seja presidente experiente, porque ele nunca foi. Quem lidera hoje as pesquisas neste país não sabe nada de presidência da República, mas ele deve ter competência suficiente para escolher uma equipe de trabalho compatível com aquilo que ele buscou. Se o Ricardo Teixeira colocar os homens no lugar certo e pessoas competentes, ele faz uma excelente administração. E não precisa nem entender se a bola é redonda ou quadrada, o que ele não pode é delegar a incompetência. Aí ele coloca em risco o futebol brasileiro.

Mário Sérgio Venditti: Mas é isso o que está acontecendo, presidente.

Gustavo Assumpção: Mas é isso que está acontecendo.

Mário Sérgio Venditti: Eurico Miranda.

Eduardo José Farah: Ele ainda não tem convicção disso. Eu tenho certeza de que, a partir do momento que Ricardo Teixeira tenha convicção de que pôs pessoa errada no lugar certo, ele vai colocar pessoa certa no lugar certo.

Mário Sérgio Venditti:  Você acha que o Nabi Abi Chedid [dirigente esportivo, então presidente do Bragantino. Foi presidente da FPF] pode voltar para a CBF na gestão Ricardo Teixeira?

Eduardo José Farah: Não sei, talvez sim. O Ricardo Teixeira que tem o poder pra escolher.

Gustavo Assumpção: E a respeito do Havelange, o que ele fez realmente de prático para o futebol brasileiro como presidente da Fifa?

Eduardo José Farah: Bem, o Corinthians...

Gustavo Assumpção: A Copa do Mundo seria no Brasil em 1994, foi para os Estados Unidos.

Eduardo José Farah: Os corintianos dizem que o João Mendonça Falcão, que foi um bom presidente da Federação, esteve lá por quinze anos, e o Corinthians não conseguiu ganhar nenhum título. Depois veio o José Emilio, que é um empresário bem sucedido e um excelente presidente, administrou com muita capacidade a Federação. E o Corinthians também não ganhou nada, o Havelange, desde 1974...

Gustavo Assumpção: Que tipo de benefício o Havelange...

Eduardo José Farah: ...presidente da Fifa e o Brasil não ganhou nada.

Gustavo Assumpção: Mas que tipo de benefício ele fez?

Eduardo José Farah: Melhorou milhares de incidentes. Ele aumentou o número de clubes na Copa do Mundo. Ele transformou a Fifa hoje em um... Praticamente a Fifa é um país dentro de outro país; tem auto-suficiência, tem muito dinheiro, abriu espaço para ser indicado para o prêmio Nobel da Paz. Ele fez muita coisa, vocês devem reconhecer.

Gustavo Assumpção: Eu sei, mas não seria...

Roberto Avallone: Não seria [nada para] o futebol brasileiro especificamente.

Gustavo Assumpção: Exato.

Roberto Avallone: Pediria licença ao Volpe para um momento de reflexão, porque acho que aqui ninguém tem obrigação de ser bairrista. Eu acho que a gente sempre reverenciou os grandes talentos, acho que a Seleção Brasileira deve ser formada pelos talentos emergentes do Brasil ou de fora - no caso o Careca, que é um centroavante fora de série. A gente discute: bom, poderia ser o João Paulo, poderia, mas seria o João Paulo, um Mané Garrincha? Seria um jogador fora de série? Também não é lá essas coisas. Poderia ser o Bernardo [volante], que foi o que desfalcou o São Paulo. O Alemão [volante, então no Nápoli] que foi para o... O Alemão, que teve quarenta dias de hepatite. Agora, quem é o craque fora de sério? E até acho que o Edu [Edu Manga, meio-campista, então do Palmeiras] merecia uma chance, mereceria uma chance. Agora quem é, realmente, o grande craque que ficou ausente? Tem que te falar: faltou Djalma Santos [(1929) jogador de futebol pela Portuguesa, Palmeiras e Atlético Paranaense nas décadas de 1950 e 1960. É considerado um dos melhores laterais-direita da história do futebol brasileiro. Substituiu o títular Le Sordi na Copa do Mundo de 1958, se tornando titular da seleção], que seria um absurdo. Faltou Julinho [Julinho Botelho, ponta-direita, jogou pela Fiorentina, Palmeiras e Seleção Brasileira durante os anos 1950 e 1960], o Pelé nem me diga, mas quem é o grande craque do futebol paulista, acima de qualquer suspeita?

Eduardo José Farah: Sinceramente, eu fiz a mesma pergunta hoje. E concordo com a sua pergunta e não tenho resposta. Mas eu diria que, talvez, politicamente, e é quando se fala politicamente, não é só política, propriamente dita. Há política desportiva. E o terceiro goleiro pudesse ser de São Paulo, que não ia causar nenhum mal à Seleção.

Roberto Avallone: Poderia ser, não ia fazer nem bem, nem mal, poderia ser.

Eduardo José Farah: Agora, tem alguém em São Paulo que está efetivamente faltando à Seleção? Não tem, como não tem nenhum carioca que está salvando à seleção, ou nenhum baiano. Nós estamos carentes de jogadores, os bons foram buscar lá fora, Careca... Nesse meio, Romário, Giovane, são os jogadores hoje que, realmente, se destacam. E eu entendo até que a convocação é de boa para ótima. Talvez tenha faltado alguma habilidade política desportiva.

Ailton Fernandes: Doutor Farah, eu queria retomar só uma pergunta do telespectador em relação ao boicote à Copa América, puxando para outro lado a conversa. São Paulo não almoçou com o presidente da Federação? E, em nenhum momento, pensou em trazer uma dessas chaves para São Paulo?

Eduardo José Farah: Não, não pensei. Não gosto da Copa América, ela não gera nenhum resultado positivo para o futebol brasileiro e eu entendo que, se nós ficássemos fazendo preparação durante o mês todo, seria muito mais produtivo para as eliminatórias. Ela não será uma copa rentável. Ela será deficitária, mas o Brasil não tem nada com isso, é um problema da [Confederação] Sul-americana. Mas realmente a Copa América foi acertada na administração anterior. Isso não significa que a administração anterior errou, entendi que trazendo a Copa para cá é uma forma de melhorar o relacionamento com os países sul-americanos. Talvez traga algum resultado, em termos de organização, espero que traga. Mas, para a seleção propriamente dita, eu não sou favorável à Copa América.

Roberto Avallone: Agora, me parece... Michel que vê a Copa do Mundo desde 1966, não é Michel? E eu acompanho a Copa do Mundo pelo rádio desde 1950, e ao vivo desde 1974. Então, ficou pairando uma pergunta no ar: mas se o Lazaroni convocou, fez uma convocação de boa para ótima, por que criticar tanto o Lazaroni? É que é inconcebível. É inconcebível um técnico classificar a Dinamarca, que teve uma brilhante performance na Copa do México, de futebol alegrinho, como o Zagallo fez na Holanda. Então, a gente corre o risco aqui de “queimar a língua”. Daqui a pouco o Brasil ganha a Copa América, ganha as eliminatórias, ganha a Copa do Mundo que não seria nenhum absurdo, aí o “Tião” Lazaroni fica o herói. Então, aonde estava o erro? Acontece que o Bilardo [técnico da Argentina na Copa do Mundo de 1986. A seleção foi a campeã desse mundial, com destaque para a atuação de Diego Maradona], que não foi nenhum grande técnico, também foi campeão do mundo. O erro está no método, o erro está no desconhecimento de uma Dinamarca, assim como o Zagallo fez em relação à Holanda. O senhor concorda com isso? Até o Michel poderia entrar nessa história.

Eduardo José Farah: Não, acho sua colocação perfeita. Entendo até que foi mais fácil para o Lazaroni convocar, porque se você vai construir um prédio e só existem três marcas de cimento, a possibilidade de erros sua é muito menor do que se tivesse quarenta marcas de cimento. Talvez se você não souber usar o cimento, o fato de você ter comprado a melhor marca não significa que você é um homem competente. Então, ele escolheu 24 jogadores, que eu não discuto a capacidade dos 24, eu quero saber se ele vai saber trabalhar bem com os 24. É exatamente o que eu coloquei para o presidente da CBF.

Michel Laurence: Presidente, essa pergunta do Avallone é uma coisa interessante. Por que o futebol brasileiro não evolui taticamente? Por que nós não temos um técnico tipo Rinus Michels [técnico da Holanda em 1974. Sua equipe ficou conhecida como "carrossel holandês" ou "laranja mecânica"] que revoluciona o futebol? Não surge mais, porque o último grande revolucionário do futebol brasileiro em termos de tática foi um homem chamado Martim Francisco, que inventou 4-2-4 [4 zagueiros, 2 meio-campists e 4 atacantes]. Isso nos idos de 1954, e de lá para cá nenhum grande técnico, nenhum homem que acompanha a evolução do futebol mundial. Não temos nenhum representante nosso na Europa participando de grandes times, vamos dizer, tecnicamente. Temos vários técnicos na Arábia, nos países do Oriente, mas nenhum técnico nosso na Europa. Por que isso, por que não tem?

Eduardo José Farah: Bem, eu, como vocês, nós somos jovens na geração...

Roberto Avallone: Garotões não é? Não é verdade?  

Eduardo José Farah: É uma geração de garotos de 31 anos [ironiza]. Nós fomos a algumas Copas do Mundo, essas desculpas que eu ouvi agora... Essa é uma desculpa realmente moderna: estamos muito atrasados taticamente em relação à Europa.

Michel Laurence: Mas se nós fomos ver é verdade.

Eduardo José Farah: Não é tão verdade assim e não é esse exagero tamanho. Há uma discrepância, o que significa isso? Se você analisar bem o que está acontecendo no atletismo mundial, você vai notar que os países mais atrasados, da África, estão  ganhando as competições, principalmente as competições de larga distância, nas Olimpíadas. Enfim, talvez o Brasil tenha cometido um erro muito grave...

Michel Laurence: É um corredor...

Eduardo José Farah: Vários...

Michel Laurence: Um corredor ou meia dúzia de corredores...

Eduardo José Farah: Meia dúzia, meia dúzia é muito no atletismo...

Michel Laurence: Que participam da maratona e que podem ganhar uma corrida. Mas o resultado geral de uma Olimpíada, em todos os esportes, aponta a União Soviética e os Estados Unidos como um...

Eduardo José Farah: É, mais se você caminhar por aí é pior. Nós vamos por aí... Agora, o futebol é um esporte não muito representativo até nas Olimpíadas. Se formos por ai é muito pior, porque o que aconteceu com a Dinamarca não é tanta competência da Dinamarca, é muita incompetência nossa [referindo-se à derrota então recente do Brasil]. Porque já na Copa, da Espanha...  

Roberto Avallone: [Copa] Do México, do México! [tenta corrigir Farah afirmando o resultado ter acontecido em 1986, na Copa do México]

Eduardo José Farah: ...a Dinamarca deu de 5 a 1...

Roberto Avallone: [Copa] Do México!

Eduardo José Farah: Do México, 5 a 1 da Espanha... [A Dinamarca perdeu para a Espanha por 5 a 1, nas oitavas de final da Copa de 1986]

Roberto Avallone: 6 a 1 no Uruguai...

Eduardo José Farah: 6 a 1 no Uruguai... [Em 1986, a Dinamarca, que estreava em Copas do Mundo, aplicou, logo na segunda partida, uma goleada de 6 a 1 sobre o Uruguai. Foi a primeira colocada em seu grupo, vencendo também a Alemanha Ocidental, vice-campeã do torneio. A seleção foi apelidada de "Dinamáquina", mas foi desclassificada pela Espanha].

Roberto Avallone: Pereira era o titular da Espanha.

Eduardo José Farah: Então, não é nenhuma novidade o que está acontecendo com a Dinamarca. Agora, nós começamos a passar com o trem daqui até a Dinamarca e fomos catando jogador nas estações. Aí eles chegaram lá “olha, você apresenta o Joãozinho, te apresento o Alfredo, Al fredo esse é o Carlinhos, Carlinhos aquele é o Américo”...

Michel Laurence: Há alguns anos atrás, a gente ia lá e enfiava 5, 6 neles. E não tinha problema algum.

Roberto Avallone: Mas tinha Pelé, tinha Mané...

Eduardo José Farah: Não, alguns anos atrás.

Roberto Avallone: Eu concordo com você, Michel, agora...

Michel Laurence: Eu estou prestando aqui uma homenagem ao Flávio Prado, que outro dia defendeu essa tese comigo. Hoje em dia...

Eduardo José Farah: É um saudosista, Flávio Prado é um saudosista, um competente saudosista, como eu.

Michel Laurence: Não, ao contrário. Ele diz o seguinte: que os nossos jogadores, hoje em dia, precisam de um técnico competente, porque nós não temos mais a técnica que nós tínhamos no tempo de Garrincha, de Pelé, de Djalma Santos, Nilton Santos. Esses monstros sagrados, nós já não temos mais esses jogadores.

Eduardo José Farah: Eu fico muito preocupado quando você fala isso e vou dar algumas colocações que você vai concordar comigo. Júlio César [zagueiro] foi para a França [deixou o Guarani e foi para o Montpellier] e foi considerado um dos cinco melhores jogadores da França, o Baltazar [Conhecido como o "Artilheiro de Deus". Ganhou notoriedade pelo Grêmio, ao ser campeão brasileiro em 1981. Depois, teve passagens apagadas por vários clubes brasileiros (Palmeiras, Flamengo, Botafogo) e tornou-se ídolo no Atlético de Madrid], que não serviu para a maioria dos clubes brasileiros, é o artilheiro na Espanha, o Careca foi para a Itália, e é o artilheiro ou segundo ou terceiro na Itália, não foi o primeiro por circunstâncias. Então, isso é muito relativo.

Roberto Avallone: Então, o Michel tem razão. Agora, eu pergunto uma coisa, eu pergunto uma coisa com sinceridade, presidente. Eu estou aqui à vontade, faça um mea culpa também, eu acho que os cartolas [dirigentes esportivos] têm culpa nisso, porque no Brasil é tudo muito imediatista: ou ganha... o Carabina [Valdemar Carabina, técnico]... [O] São José ficou invicto 14 jogos e [Carabina] foi demitido... [Depois de quatro empates consecutivos, Carabina foi demitido do comando da equipe]

Eduardo José Farah: É verdade.  

Roberto Avallone: Então, qual foi o país que mais vezes chegou a uma final de Copa do Mundo? Não foi o Brasil. 

Eduardo José Farah: A Alemanha.

Roberto Avallone: Foi a Alemanha, 5 vezes. Por quê? Porque veio de uma escola. Em 1954 era o Sepp Herberger [Josef "Sepp" Herberger, treinou a Alemanha de 1936 a 1964. Venceu a Copa de 1954], que tinha como auxiliar o Helmut Schön [técnico que treinou a Alemanha de 1964 a 1978. Venceu a Copa de 1974], que tinha como auxiliar o Jupp Derwall [treinou a Alemanha de 1978 a 1984]. Então, havia uma seqüência de escola. Quem, no Brasil, admitiria um Rinus Michel que inventou aquele carrossel holandês [tática de jogo] vendo círculos concêntricos de uma piscina? Ele via que preenchia todos os espaços. Vai falar isso para o cartola do Bragantino, ou do São José, ou do Guarani, ou do Palmeiras, ou do Corinthians. Quem vai ter paciência de esperar um esquema tático ser desenvolvido ao ponto de se tornar imbatível? 

Eduardo José Farah: A tese é boa, e a mim não atinge não, porque eu entendo que o cartola é o grande culpado mesmo. O que falta, na verdade, é o dirigente contratar executivos competentes. Eu entendo que uma potência como a CBF, que tem a melhor mercadoria do mundo na mão, poderia ter quatro, cinco executivos do maior nível internacional.

Gustavo Assumpção: Remunerados?

Eduardo José Farah: Lógico.

Flávio Gomes: O senhor tem na Federação quatro ou cinco executivos competentes?

Eduardo José Farah: Eu ainda não tenho os quatro, cinco, porque estou fazendo caixa para isso. Mas já temos três, nós temos três gerências hoje: uma gerência executiva, uma administrativa e uma financeira. Não se faz empresa com sonho e muito menos se organiza uma empresa com incompetentes. Você deve deixar de ganhar para ganhar. Eu acho que o futebol... o grande defeito do futebol no Brasil é que nós fomos para a Europa cedo demais aprender física, preparo físico. Nós deveríamos ter ido aprender como se administra futebol. Nisso é que nós estamos atrasados uns vinte anos. Mas como time de futebol, o Brasil, com esses 24 jogadores bem administrados, pode disputar a Copa do Mundo na Itália [de 1990]. Agora, não sei se o Lazaroni... é isso que eu quis dizer e vou repetir: [Não sei se o Lazaroni] tem capacidade suficiente – espero que tenha – para dirigir esses 24 jogadores.

Gustavo Assumpção:  Você falou em preparo físico. Você acha que o excesso de preparo físico tolhe um pouco da técnica dos jogadores brasileiros?

Eduardo José Farah: Eu acho que você não pode plantar trigo no norte e plantar laranja no sul, talvez seja esse o tipo de comparação. Eu acho que tem que se dar, ao jogador brasileiro, que tem um biofísico diferente do europeu, um tratamento físico adequado para o Brasil. Quando se for disputar uma Copa do Mundo, dependendo na Itália ou no México, ou no Chile, o preparo físico teria que ser adequado para aquele tipo de Copa do Mundo. O que nós não podemos fazer é coisa genérica. 

Gustavo Assumpção: Copiar o modelo?

Eduardo José Farah: "Fizeram assim na Rússia e vamos fazer assim no Brasil". Isso eu sou contra.

Gustavo Assumpção: Mas, taticamente, também está se copiando o modelo europeu, não é?

Eduardo José Farah: Eu não sei. O basquete brasileiro sai daqui e é um dos cinco melhores do mundo, o vôlei sai daqui e é um dos cincos melhores do mundo, e há uma fila de clubes europeus querendo levar jogadores do Brasil. Eu acho que está faltando realmente um pouco de competência para dirigir.

Roberto Avallone: Organização.

Ailton Fernandes: Farah, deixa eu retomar um pouquinho. Falar um pouquinho do nosso futebol doméstico. A gente tem visto...

Luis Alberto Volpe: Essa pergunta tem direto à resposta. E depois nós fazemos um intervalo.

Ailton Fernandes: A gente tem visto... Tudo bem, a gente tem visto muitas faixas nos estádios no interior, mesmo aqui em São Paulo, de apoio ao seu nome. Você já está fazendo campanha para reeleição, ou isso é um apoio espontâneo?

Gustavo Assumpção: Para a CBF, não é?

Eduardo José Farah: Não, eu entendo que... 

Luis Alberto Volpe: Essa é uma pergunta de vários telespectadores.

Eduardo José Farah: Se eu vier a ser candidato à reeleição, ela deverá acontecer por um trabalho competente.

Ailton Fernandes: Essas faixas, então, são espontâneas?

Eduardo José Farah: Eu não pretendo disputar eleição mais. Eu vou prestar três anos de serviços ao futebol de São Paulo, porque eu me dispus a isso, e se eu fizer uma boa administração, cumprir a minha obrigação – e eu espero cumprir - depois espero receber, de cada companheiro dirigente, de cada presidente de clube, apenas o seguinte: "Farah, você cumpriu o seu dever". E aí eu vou estar muito satisfeito. 

Gustavo Assumpção: E a CBF?

Eduardo José Farah: A CBF não faz parte dos meus sonhos.

Gustavo Assumpção: Não mesmo?!

Eduardo José Farah: Não mesmo.

Ailton Fernandes: Quer dizer que, neste momento, o senhor não é candidato à reeleição na Federação?

Eduardo José Farah: Não. Aliás eu já comentei com os 22 clubes e pedi a eles que arrumassem um candidato para as próximas eleições.

Nélson Nunes: E acharam?

Eduardo José Farah: Não sei, não perguntei ainda, tem tempo para isso..

Gustavo Assumpção: E o indicado quem é?

Eduardo José Farah: Entre os 22 [clubes] existem pelo menos 60% [de dirigentes] que tem competência para ser o presidente da Federação.

[alguém suspira ironicamente]

Luis Alberto Volpe: Farah, uma grande preocupação de vários telespectadores é com a segurança nos estádios. Maria Tereza Medeiros, da Vila Madalena, diz que vai assistir à final do Campeonato Paulista, [e pergunta] se estará proibida a entrada de torcedores com bandeiras e mastros? O José Tadeu Afonso, de Sertãozinho, diz que ficou impressionado com a falta de segurança no estádio do Inter de Bebedouro e [pergunta] se há algum tipo de fiscalização nos estádios da segunda divisão? E o Eduardo Costa, de Jundiaí, pergunta quando que a Federação terá um Tribunal Esportivo para punir a violência das torcidas e jogadores?

Eduardo José Farah: Essa é uma preocupação, realmente, que todos nós estamos interessados em solucionar. Nós tivemos por volta de 250 jogos neste Campeonato, dois deles com tumultos desagradáveis, como o acontecido em Bragança e aquele acontecido em Sorocaba, e um pequeno tumulto entre torcedores da Portuguesa e a Polícia Militar no estádio do Canindé. Pode ir tranqüila assistir as finais. Nós temos um sistema montado para as duas partidas com a Polícia Militar e [daremos] total tranqüilidade ao torcedor. Já vivemos um momento de tranqüilidade nos últimos jogos, e eu tenho absoluta convicção de que as torcidas do São Paulo e São José vão se portar à altura de finais de campeonato do porte de São Paulo, que é o mais importante do país. No que se refere aos estádios do interior, por coincidência, a Polícia Militar da região de Bebedouro me mandou um relatório do estádio e nós demos um prazo de 30 dias ao clube para corrigir as deficiências que apresentam naquela localidade. E, dentro de 30 dias, nosso departamento técnico irá fazer uma vistoria no Internacional de Bebedouro. 

Luis Alberto Volpe: E sobre a idéia de criar um tribunal para as torcidas?

Eduardo José Farah: Não há necessidade de criar-se um tribunal para isso. Basta que no próximo regulamento do campeonato tenhamos dispositivos próprios para punir esse tipo de anomalia que acontece nos estádios. Já notamos isso e o nosso departamento jurídico está preparando, para o próximo regulamento, vários dispositivos para coibir esse tipo de violência nos estádios.

Roberto Avallone: Presidente, agora vamos tentar penetrar um pouquinho nos bastidores do nosso futebol. O senhor é um homem experiente, que já conhece todos os bastidores. Uma vez lhe perguntei se havia mutreta em futebol e o senhor disse que sim, publicamente. Por que contam muitas histórias, quase nenhuma delas provadas. O que houve com o Rui Rei [jogador da Ponte Preta que foi expulso aos 16 minutos do primeiro tempo na final do Campeonato Paulista. No ano seguinte o jogador foi contratado pelo Corinthians], por exemplo, em 1977, naquela decisão entre Ponte Preta e Corinthians? Teria sido pênalti contra o São Paulo naquela decisão do Campeonato Brasileiro, Guarani e São Paulo, em 1986? Dá alguns exemplos de mutretas, alguns exemplos...

Gustavo Assumpção: Deixa eu complementar aqui.

Roberto Avallone: Pois não.

Gustavo Assumpção: O São Paulo participou de sete, praticamente, das nove decisões deste ano. Será que ele teria alguma influência, alguma força grande lá na Federação?

Eduardo José Farah: Em 1960, foi fundado o estado da Guanabara. E acontecia o concurso de Miss Brasil, e nós patrocinávamos esse concurso. E recebemos um telefonema do presidente Juscelino Kubitschek, que a Miss Brasil deveria ser a Gina Macpherson, que era a Miss Guanabara. A mulher mais bonita do concurso era uma moça de Caratinga, eu não me lembro o nome, mas tenho a fotografia, e a eleita foi Gina Macpherson. Só de pescoço ela tinha 42 centímetros. Há mutreta em concurso de Miss Universo, em Fórmula 1, em boxe, natação, em todas as atividades. Por que existem maus e bons elementos em toda atividade. No futebol, existe.

Roberto Avallone: Em sua opinião, o que houve com o Rui Rei? Não estou acusando aqui o Rui Rei, ninguém, nem o Aragão [José de Assis Aragão, árbitro] naquele jogo, absolutamente, seguinte...

Nélson Nunes: Dulcídio [Dulcídio Wanderley Boschillia, juiz que expulsou Rui Rei.]

Roberto Avallone: Do Dulcídio no jogo da Ponte Preta, o Aragão nos jogos de Campinas: São Paulo e Guarani. Não estou acusando. Agora, na sua opinião, o que houve...

Eduardo José Farah: Eu vou aproveitar...

Roberto Avallone: Porque o Rui Rei aos 9 minutos, aconteceu aquilo, porque um pênalti tão claro não foi dado...?

Eduardo José Farah: Na minha opinião, vivíamos um momento de grande emoção. Corinthians vinha de vinte e tantos anos de jejum em termos de campeonato, e aquele ambiente de festa, carregado em alguns momentos, atingia o árbitro, o jogador, o torcedor, o dirigente, todos, mas vou aproveitar a resposta do Vicente Matheus no programa que fizemos em uma emissora no sábado. Ele disse: “que todos os males do mundo me aconteçam, se eu tiver algum acerto quando eu errei”, fico com a palavra do Vicente Matheus.

Gustavo Assumpção: Presidente, e com relação ao São Paulo, ele teria alguma força para disputar tantas vezes a final assim? 

Eduardo José Farah: Lógico.

Gustavo Assumpção: Na Federação?

Eduardo José Farah: Não. Tem força, contratou excelente jogador. Tem o Careca, há 31 anos o melhor centroavante do mundo [Careca seria o melhor centroavante dos últimos 31 anos].

Gustavo Assumpção: Mas alguns gols do São Paulo foram irregulares durante essa campanha.

Eduardo José Farah: Alguns gols do São Paulo foram irregulares, muitos gols do Brasil em Copa do Mundo foram irregulares. Nas Olimpíadas, o Brasil foi prejudicado pelo árbitro russo.

Gustavo Assumpção: Então, mas não era coincidência?

Eduardo José Farah: Contra a Espanha, o Brasil foi ajudado por um árbitro russo e assim por diante. Isso acontece no dia a dia. Por isso o futebol não é arbitrado por computador, no dia que for não acontecerá.

Gustavo Assumpção: Agora, em relação aos juízes, que tipo de exame é feito com os juízes, exame de vista, algum tipo...

Eduardo José Farah: Oftalmológico, exames físicos...

Gustavo Assumpção: É que a gente vê muitas vezes juízes mal colocados. Às vezes, talvez, não vêem direto... 

Eduardo José Farah: Você dirige?

Gustavo Assumpção: Sim.

Eduardo José Farah: Já bateram no seu carro?

Gustavo Assumpção: Já.

Eduardo José Farah: O cara faz exame da vista, faz exame de volante, ele faz inclusive exame de motor para saber alguma coisa sobre motor, como é que mexe essa peça e bate no seu carro

Gustavo Assumpção: O juiz não é uma peça. É diferente, você não pode pegar um exemplo assim...

Eduardo José Farah: Existem milhares de exemplos, não é um, tomara fosse um. A cada vinte carros que estão na rua nove foram já abalrroados por outro.

Gustavo Assumpção: E qual é a freqüência desses exames nos juízes e árbitros?

Eduardo José Farah: Normalmente... Por exemplo, recentemente tivemos dúvidas sobre um árbitro, mandamos ele fazer um exame. Agora, normalmente, antes de cada inscrição, ele tem que apresentar todos os exames. E a cada momento que a comissão julgar necessário faz exame. Mas um árbitro até sofre vários exames, porque ao iniciar a sua inscrição para a Federação, ele fez exames. Agora, para entrar no quadro nacional, faz outro exame. Então, não é esse o problema da arbitragem...

Gustavo Assumpção: Qual é?

Eduardo José Farah: O ser humano, ele precisaria, um computador no braço direito...

Gustavo Assumpção: E você é favorável a isso?

Eduardo José Farah: E precisaria de um vídeo no braço esquerdo, e congelar a imagem. Se ele congelar a imagem, não erra mais.

Gustavo Assumpção: E você é favorável à informatização da arbitragem?

Eduardo José Farah: Da arbitragem eu seria, mas é impossível, no carro de Fórmula 1 já estamos andando com a câmera de televisão. Talvez aconteça na arbitragem.

Gustavo Assumpção: Talvez no telão, assim, não sei.

Eduardo José Farah: Não, talvez, não é...

Roberto Avallone: Se houvesse isso ontem teriam sido apitados dois pênaltis claríssimos, não é? Um no Cláudio Adão [jogador do Corinthians], e o outro no Tita [jogador do São José]. [No dia anterior ao da realização da entrevista, o Corinthians foi derrotado pelo São José pelo placar de 1 a 0 no tempo regulamentar e 2 a 0 na prorrogação. Assim, o São José classificou-se para as finais].

Eduardo José Farah: E que tal aquele pênalti que tirou aquele clube alemão com Napoli, foi pênalti? Quando foi, não deu, quando não foi, deu, todo mundo viu, é verdade ou não é? Isto acontece no mundo inteiro.

Roberto Avallone: Mas porque não um replay, porque não? Já que vivemos na era da informática, porque a tecnologia não vem para ajudar o futebol paulista.

Eduardo José Farah: Vamos aguardar a próxima Copa do Mundo, eles devem implantar isso. Sinceramente, eu soube que deve[-se] implantar o telão nos estádios obrigatoriamente. E talvez seja uma grande solução. Eu concordo com você, há de se dar ao árbitro uma responsabilidade maior sobre os atos praticados, porque o árbitro é um poder discricionário.

Michel Laurence: O futebol americano tem...

Gustavo Assumpção: Por isso que não pode fazer aquela comparação...

Michel Laurence: Um juiz se comunica com três outros juízes lá em cima, que vêem o lance apitado numa televisão e comunicam ao árbitro da partida. O que eles acharam do lance, o que aconteceu realmente... Porque eles vêm o lance de vários ângulos, não é? E analisam a posição do árbitro naquele momento. Ele só penaliza o clube se os três árbitros lá de cima concordarem que houve uma falta.

Gustavo Assumpção: Consenso, não é? Entre eles.

Nélson Nunes: Completamente cabível.

Eduardo José Farah: Eu acho que... eu tenho uma mentalidade muito moderna no que se refere ao futebol. Eu acho que as regras do futebol estão arcaicas. Há de se reformular muito...

Roberto Avallone: Totalmente. Futebol ... e lateral é com a mão [dá ênfase na palavra futebol, que junta as palávas pé e bola (no original em inglês)].

Eduardo José Farah: Nós precisamos mudar muita coisa. Por exemplo, o treinador de futebol, não pode ser uma estátua no campo, ele tem que ter uma atividade mais constante...

Michel Laurence: O senhor defendeu essa tese agora há pouco, não é?

Eduardo José Farah: Eu acho que devia parar a partida pelo menos dois minutos no primeiro tempo, dois minutos do segundo, deixar o treinador dar instruções...

Gustavo Assumpção: E parar o cronômetro também?

Eduardo José Farah: Tudo, lógico. Eu acho que o futebol deveria ter 35 minutos em cada tempo de bola corrida. Mas isso não depende nem de São Paulo nem do Brasil, depende da International Board [que determina as regras] que... a idade lá é 940 anos para sete pessoas [brinca com a idade avançada dos membros].

Ailton Fernandes: Farah, deixa eu retomar uma coisa que o Avallone perguntou, mas por outro enfoque. O Avallone falou nas mutretas e tal, um pouquinho antes do senhor assumir a presidência da Federação. O senhor acompanhou a administração do então presidente José Maria Marin. O senhor tomou conhecimento de diversas irregularidades na administração do Marin, como empregados fantasmas e outras coisas que a gente teve a oportunidade de constatar na administração. Por que o senhor não fez uma devassa? Por que o senhor não denunciou as coisas que o senhor tinha conhecimento em relação à nefasta administração do seu José Maria Marin [advogado e político, foi presidente da FPF de 1982 a 1988, por dois mandatos. Foi governador do estado de São Paulo por oito meses, substituindo inteirinamente Paulo Maluf, entre 1982 e 1983. Durante os anos 1950, foi jogador do São Paulo Futebol Clube]?

Eduardo José Farah: Bem. Eu não entendo a coisa dessa maneira. Primeiro lugar, eu fui eleito o presidente da Federação e não o presidente do Tribunal de Contas. Segundo, não sei se existiram esses empregados fantasmas a que você se referiu. Eu sei que havia essas denúncias. Eu assumi e a Federação tinha 114 funcionários. Hoje nós temos 51 funcionários... 

Ailton Fernandes: Até em relação – só dando um gancho – em relação até... a situação financeira da casa era bem caótica. Sei que hoje a situação é totalmente diferente. Quer dizer, o senhor pegou a máquina com inúmeros problemas, que o senhor tinha conhecimento, porque o senhor estava trabalhando diretamente lá, até exercendo cargo como presidente em exercício. Por que o senhor não tornou público as coisas que o senhor sabia?

Eduardo José Farah: Eu acho que você tem que respeitar cada estilo administrativo. O fato de uma entidade chegar à final de um mandato de um presidente e com estaca zero, não significa que aconteceram desonestidades. O estilo administrativo é muito importante. Tem pessoas que tratam o futebol, administrativamente falando, por lazer, tem outras que assumem a entidade como uma empresa. Há presidentes que assumem por imposição de companheiros, mas o tempo que ele tem para se dedicar à entidade não é suficientemente grande, ou suficientemente necessário para uma administração compatível com as necessidades da entidade. Eu assumi a Federação com uma série de compromissos. Entre esses compromissos, transformá-la em uma empresa. E os presidentes de clubes de todas as divisões têm me empurrado esse tipo de administração com apoio. Os presidentes custearam todas as despesas que nós aplicamos, e não reclamam, porque sabem que o reverso disso será a devolução desse dinheiro aos clubes. Porque a Federação pertence aos clubes. E os clubes pertencem às suas coletividades. Não se faz uma administração séria se não fizer o desporto sério. Se você pré-determinar, em qualquer tipo de esporte que você participe, quem serão os disputantes do título, ou quem serão os disputantes do rebaixamento, aquilo passa a ser uma máfia ao meu dispor. Nós fazemos futebol porque gostamos de fazer futebol. Eu disse que, para mim, não é nenhum sacrifício dirigir a Federação, porque eu fui lá, sabendo de todos os problemas que ela representava e do tempo que iria absolver. Eu faço isso porque gosto, porque muita gente está contente, graças a Deus. Porque eu sou criticado, e respeito essa crítica, ela é construtiva, me ajuda corrigir erros. Porque eu tenho vários companheiros que se dedicam, como eu, para fazer o futebol de São Paulo um futebol sério e grandioso.

Luis Alberto Volpe: Farah, o Celso Buschetta, do Tatuapé, quer saber qual o clube que se encaixa melhor aos clubes europeus, enquanto administração? Qual o clube que você considera o clube modelo aqui em São Paulo?

Eduardo José Farah: Em termos de mentalidade empresarial, buscando ao merchandising adequado para o futebol, ainda que não atingindo os objetivos. E, no meu entendimento, o clube que se assemelha aos clubes americanos, italianos é o São Paulo Futebol Clube.

Mário Sérgio Venditti: Presidente, ainda na linha de bastidores: na véspera da decisão do Campeonato Paulista do ano passado, entre Guarani e Corinthians, o senhor teria dito a uma pessoa que, no domingo, iria entregar o troféu de Campeão para o Guarani. E essa pessoa respondeu: “mas como? O Corinthians também é um grande time e tem condições de ser campeão”. E o senhor retrucou: “não, você é muito novo, você não entende dessas coisas, o Guarani vai ser campeão”. Você esperava que um Viola cruzasse o seu caminho, presidente? [Na final contra o Guarani, já na prorrogação, o atacante Viola fez o gol que deu o título à equipe paulistana. O primeiro jogo foi 1 a 1 e o segundo, em Campinas, foi 0 a 0. Na prorrogação, 1 a 0.]

Eduardo José Farah: Eu não sei se as paredes da sala estão transparentes assim. Eu, para falar um negócio desses, eu teria que falar, no mínimo, ao lado de São Pedro. Olha, eu não tenho nenhuma pretensão de que o Guarani seja campeão, em qualquer tipo de administração, que não seja ganho no campo de jogo. Eu garanto a você que eu nunca disse isso a essa pessoa. E ele está equivocado. Talvez ele tenha feito confusão, porque eu não vou prejulgar uma pessoa que eu não conheço, também eu não sei o que quer dizer essa linha de bastidores. O que você quer dizer com isso, para [eu] poder saber?

Mário Sérgio Venditti: Que existem mutretas nos bastidores do futebol.

Eduardo José Farah: Só...

Roberto Avallone: Como o senhor disse: existem mutretas.

Eduardo José Farah: Não, a linha de bastidores me preocupa muito, porque diziam...

Roberto Avallone: A linha de raciocínio dele, do tema.

Eduardo José Farah: Diziam as más línguas que o Palmeiras não tinha nenhuma força na Federação. Posteriormente diziam que o Corinthians tinha grande força na Federação. E eu disse há pouco que o Corinthians conseguiu fazer, por 15 anos, o presidente da Federação. Foi Mendonça Falcão. E depois, por mais seis [anos], outro presidente, o José Ermírio Moraes [presidente da FPF no início dos anos 1970], dois homens que fizeram carreira importante no futebol e não ganharam nada. E o Palmeiras teve um período que ganhou tudo. Então, esse negócio de ter força de bastidores, se você não arrumar um Careca, se você não arrumar um Edu, um Romário, um Giovane, não adianta ter força na Federação. Ninguém tem mais força no futebol brasileiro que o Ferreira Pinto, que lá está [aponta para pessoa na platéia que é mostrada, em seguida, pela câmera]. Mas ele não montou time para disputar título...

Nélson Nunes: Farah, você não acha que quando aqueles 12 clubes que passaram para a terceira fase se reuniram e decidiram tirar da comissão de arbitragem o poder de escala dos árbitros, não foi evidente que se suspeitava que o Palmeiras era beneficiado pela presidência do Mustafá Contursi no departamento de árbitros [Mustafá Contursi, presidente do Palmeiras entre 1993 e 2005. Em 1989, já era conselheiro vitalício do clube]?

Eduardo José Farah: Talvez até suspeitassem, mas não foi evidente, e eu te explico porquê. Não é novidade sorteio [de árbitros] no futebol de São Paulo, o Adílson [Adílson Monteiro Alvez. Ex-diretor de futebol do Corinthians. Mais tarde, tornou-se deputado. Foi chefe da comissão de arbitragem] fez no ano passado sorteio, só que ele fez porque quis fazer, essa foi a diferença. E nós, agora, criamos um campeonato diferencial e trouxemos três árbitros do Rio de Janeiro. Então, alguns dirigentes entenderam - entre eles o [do] São José, que aí está - que o sorteio seria uma boa forma, e nós entendemos que seria, e eu podia ter mudado isso nessa fase do quadrangular, e não mudamos. Eu não vejo mal nenhum em transformar uma coisa transparente em super transparente, não há mal nenhum...

Gustavo Assumpção: Mas as opções... 

Eduardo José Farah: Porque não sorteio? Me dá uma razão para não fazer. Mas se o senhor Mustafá, desculpe só para concluir, se o senhor Mustafá diz: "não quero sorteio", aí, talvez aí sim, ele tivesse caracterizando esse tipo de mal. Eu acho que ele fez muito bem em concordar. E eu, de imediato, concordei, porque foi uma boa providência para o futebol, não traz mal nenhum. Tomara todos tivessem o discernimento e a coragem de mudar as regras do critério em benefício dos clubes. Não há Federação sem clube, se os 12 clubes querem isso, nós temos que fazer isso ou ir para casa.

Gustavo Assumpção: Tudo bem o sorteio, mas as opções devem as melhores, né? Que o senhor teve...

Eduardo José Farah: Lógico. 

Gustavo Assumpção: E quanto ao veto ao Dulcídio no jogo do Palmeiras?

Eduardo José Farah: Não houve veto ao Dulcídio...

Gustavo Assumpção: Ele foi sorteado e depois foi trocado.

Eduardo José Farah: Não houve, eu vou explicar porquê. O meu amigo Dulcídio estava sendo indiciado num inquérito, a pedido de dois jogadores do Palmeiras. Seria de bom senso preservar o Dulcídio. Então, eu, às três horas da tarde, disse ao João Zaforlin e ao Lucas Neto [repórteres], que o Dulcídio não entraria no sorteio. Por um erro da comissão - e o Reinaldo, está aqui na casa, faz parte da comissão - colocou por engano a bolinha número 2 no sorteio. E, coincidentemente, saiu o número 2. Mas o Dulcídio já estava fora do sorteio. O Palmeiras não fez qualquer veto ao Dulcídio, não fez qualquer reparo a ele participar ou não do sorteio. A Federação, no sentido de preservar a figura humana do cidadão Dulcídio, retirou o seu nome dos sorteios dos jogos do Palmeiras, no que fez muito bem e eu teria repetido.

Nélson Nunes: E também tirou do Bragantino e do Novorizontino [que disputaram os jogos com o Palmeiras]

Eduardo José Farah: Porque estava diretamente ligado ao interesse do Palmeiras. Se ele tivesse a infelicidade de cometer um equívoco naquele jogo, talvez não julgassem como equívoco. Tiramos daquele sorteio. 

Gustavo Assumpção: E se o Wright [José Roberto Wright, árbitro] for escolhido para a final? Ele há pouco tempo atrás, o Coritiba, não é...?

Eduardo José Farah: Mas já está definido isso. Os dois clubes como um acordo, já escolheram dois trios, um liderado pelo Dulcídio e o outro pelo Aragão, em homenagem, inclusive, aos árbitros paulistas.

Ailton Fernandes: Doutor Farah, aproveitando o gancho dos juízes. É verdade que os juízes de São Paulo que estão com uma pendência, reivindicando vínculo empregatício, esses árbitros não poderão trabalhar no Campeonato Brasileiro se não retirarem essa pendência?

Eduardo José Farah: Não poderão, não deverão, e ano que vem não trabalharam no futebol de São Paulo. Explico para você com toda a simplicidade, qualquer leigo em termos de matéria trabalhista vai entender. Um árbitro tem o poder discricionário. Eu, teoricamente, seria o patrão e empregador do árbitro. Se eu entrar no campo, ele pode me expulsar. Onde está a hierarquia? Onde está á subserviência? Não existe nenhuma forma legal. O [...] apitou por um ano no Sul, ele foi árbitro e ele fez o país inteiro dizendo: “é uma afronta à dignidade humana a pretensão de vínculo empregatício com a Federação”. Então, entendo até, em um ato não muito digno, aqueles que participam de ação trabalhista contra a Federação. E assim entende a grande maioria dos árbitros, eu tenho certeza que eles vão acabar tirando...

Ailton Fernandes: E que essa pendência, sem querer ficar duvidando dos árbitros, que não é meu caso, essa pendência está uma demanda tão... Há tanto tempo, porque essa proibição só agora?

Eduardo José Farah: Porque eu assumi a Federação como empresa, não como lazer. Seria cômodo para dizer: o próximo que resolva o problema, mas eu não penso assim. Eu assumo tudo, e vou assumir isso até o fim. Vai me custar quanto for. E eu vou chegar, se Deus quiser, à conclusão do convencimento do árbitro de que não pode existir vínculo empregatício. Nós não pretendemos tirar nenhum direito do árbitro, as maiores taxas de arbitragem são pagas no futebol de São Paulo hoje. E o árbitro que... se você sabe disso, tem auto-suficiência até como árbitro, mas vínculo empregatício não é um árbitro honesto.

Roberto Avallone: Farah, sem querer acusar ninguém, ainda entrando em juízes. Parece meio fascinante penetrar nos bastidores do futebol. Então, existia no Largo Paissandu, [no] Ponto Chique [restaurante] onde se encontra aí o João Edson, um juiz da época, ele falava: "eu sou um ladrão". Hoje não se fala mais nisso e não se pode provar. Agora, de que forma se suborna um juiz? Por dinheiro, ou por tráfico de influência. Esse sorrisinho do Farah é revelador. Acontece o seguinte...

Eduardo José Farah: A pergunta é triste...

Roberto Avallone: Pois é, porque a pergunta é a seguinte...

Eduardo José Farah: Mas merece resposta .

Roberto Avallone: Sem acusar, sempre sem acusar... O Leivinha [jogador do Palmeiras], por exemplo, em 1971 [final do Campeonato Paulista], fez um belíssimo gol de cabeça contra o São Paulo. O Armando Marques disse que foi com a mão. E ele [Marques] me disse dois anos depois, na Áustria, que realmente havia errado... 

Eduardo José Farah: Errado mesmo.

Roberto Avallone: Esse mesmo Armando Marques, em 1973 conseguiu a proeza de dividir um título ao meio: Santos e Portuguesa, por um erro de aritmética [Campeonato Paulista de 1973]. E, no entanto, esse Armando Marques atravessou os tempos como o mito da nossa arbitragem. Eu pergunto, sem acusar o Armando Marques, evidentemente. De que maneira se faz um suborno?

Eduardo José Farah: Eu entendo por subornar, primeiro lugar, precisa ter dinheiro de caixa dois, não pode ser com cheque, é arrumar alguém que queira receber dinheiro e dar um monte de dinheiro para ele, assim que se faz suborno.

Roberto Avallone: Só, não tem tráfico de influência, tal vem aqui...

Eduardo José Farah: Não. Não sei...

Roberto Avallone: Apita aqui que eu te escalo ali, como que é o negócio...

Eduardo José Farah: Um cara que está namorando...

Roberto Avallone: Conta pra mim Farah, você conhece os bastidores, não pode ser.

[Risos]

Eduardo José Farah: Não, eu falo com você com clareza, você sabe que eu sou um homem que conto as histórias conforme a clareza. Um rapaz que vai namorar uma garota. Ele, para subornar a garota, tomar um beijo da garota, ele tem que ter um papo com poder de sedução. Eu não sei se existe possibilidade de subornar o árbitro e de que forma se suborna o árbitro. Em 1967, acusaram, por intermédio de uma revista que era a revista O Cruzeiro, de maior circulação nesse país, o Romualdo Arppi Filho..  Você não lembra dessa história?

Roberto Avallone: Não, eu não lembro dessa história não.

Eduardo José Farah: O cidadão que o denunciou chamava–se senhor Carlos Gomes, por coincidência era um jornalista. E ele me citou como conhecedor do fato. E eu acusei o senhor Carlos Gomes. Porque não existe corrupção unilateral, ela tem que ser bilateral, e pra mim o corruptor é mais criminoso que o corrupto. E, a partir do momento que eu concorde que existe corrupção de árbitros, eu estou denegrindo mais do que está denegrida a atual posição do dirigente do futebol. Por isso eu prefiro sinceramente ... 

Roberto Avallone: Silenciar. 

Eduardo José Farah: Ser sonhador e saudosista...

Roberto Avallone: E silenciar. 

Eduardo José Farah: E acreditar que [em] nenhuma categoria, nem de advogados, nem de engenheiros, nem de jornalistas, exista corrupção. Porque me dá muita tristeza pensar na possibilidade do fato...

Flávio Gomes: O Ricardo Teixeira se elegeu a presidente da CBF. E se falou, a imprensa falou muito que ele gastou milhões para se eleger a presidência da CBF...

Eduardo José Farah: A imprensa não falou não. Quem falou foi o Nabi [Nabi Abi Chedid] que foi ontem no programa, no sábado no programa do Roberto [Avallone].

Flávio Gomes: Ele falou através da imprensa e como o Ricardo não respondeu, eu imagino que o Ricardo tenha gasto milhões para se eleger presidente da CBF. Queria saber quanto custa para se eleger presidente da Federação Paulista. E gostaria de saber se o executivo Farah recebe um salário da empresa Federação Paulista de Futebol.

Eduardo José Farah: Não, não recebo. E para se eleger presidente da Federação custa caro. Tanto custa caro, que eu fiz pelo menos oito páginas na Gazeta Esportiva, páginas inteiras de propaganda, e os clubes pagavam essas propagandas, aqui estão vários clubes, Nacional e outros, que pagaram parte dessa publicidade. Eu só cheguei à presidência da Federação, graças à vontade dos clubes que gastaram dinheiro para isso, me apoiando publicamente. E eu tenho exatamente 12 quadros na Federação com as páginas dos jornais, custa caro. 

Luis Alberto Volpe: Michel.

Michel Laurence: Presidente. O senhor falou que era um sonhador. Mas vamos botar os pés no chão, durante o Campeonato Paulista não houve exame antidoping...

Eduardo José Farah: Houve.

Michel Laurence: Houve?

Eduardo José Farah: Nessa fase...

Michel Laurence: A decisiva, agora?

Eduardo José Farah: Do quadrangular.

Michel Laurence: Porque...

Eduardo José Farah: No campeonato não houve.

Michel Laurence: Por que que não tem exame antidoping? E se tem nas partidas finais é uma desconfiança, o que é?

Eduardo José Farah: Não, não é... Vou te explicar, você tem razão. A pergunta é perfeitamente importante. Lamentavelmente ...

Michel Laurence: Porque houve um exemplo muito caro, na minha opinião, sem querer acusar pessoas, como diz o Avallone, mas...

Roberto Avallone: Pelo amor de Deus, hein Michel, sem querer acusar ninguém, apenas fico lembrando fatos.

Michel Laurence: Mas houve dois comportamentos bem distintos nessa fase final, tanto de um clube do interior quanto de clubes da capital. Houve, visivelmente, dois comportamentos bem distintos. Isso... não poderia ser feito o exame antidoping durante o campeonato normalmente?

Eduardo José Farah: Lamentavelmente não. Não temos ainda uma série de laboratórios especializados nesse tipo de exame. Temos a USP, temos a possibilidade de fazer no Jóquei Clube. Está, agora, sendo constituído um laboratório no Rio de Janeiro da maior competência por influencia da Fifa e da CBF para atender o futebol brasileiro. Não se faz exame antidoping neste país, a não ser em São Paulo, e nós tivemos muitos problemas para a conclusão dos exames. Eu conversei com o doutor Osmar de Oliveira, que é o responsável ainda por esse setor na Federação, e ele não viu possibilidade de fazê-lo durante todo o campeonato. Porém, nessa fase final, como o número de exames é muito reduzido, é um em cada rodada, nós podemos atender e fazer. E, para o próximo ano, ou montaremos um laboratório em comum com a CBF, esse do Rio de Janeiro, ou vamos estudar uma fórmula adequada. De momento, é difícil exame antidoping no país.

Luis Alberto Volpe: E a Federação tem um controle sobre esse exame antidoping?

Eduardo José Farah: Sim, nós mandamos o material para o laboratório e recebemos um relatório, posteriormente, do exame.

Roberto Avallone: Porque o Mário Sérgio [Mário Sérgio Pontes de Paiva], segundo a revista Placar, se dopava há muito tempo e só foi apanhado no Palmeiras.

Eduardo José Farah: E outros.

Luis Alberto Volpe: Porque... o seguinte Farah: o funcionário da Federação que atuou no jogo Bragantino e São Paulo foi procurar a equipe da TV Cultura pedindo uma carona para ir a São Paulo, porque tinha perdido o carro da Federação, o deixaram lá.

Eduardo José Farah: Não, a Federação não tem nada a ver, me fizeram essa pergunta hoje, por isso eu estou perfeitamente a par do assunto. Não compete à Federação nem levar o responsável pelo exame, nem trazer ele de volta.

Luis Alberto Volpe: Mas não é uma situação preocupante essa?

Eduardo José Farah: Não, eu vou conversar com o doutor Osmar, eu acho que aí houve qualquer coisa, porque eles têm competência suficiente para ir e voltar. Não sei o que aconteceu. Talvez, em função do isolamento do carro, tenha se perdido esse funcionário do laboratório, mas eu desconheço a matéria. Não é competência da Federação nem levá-lo, nem trazê-lo, porque é sigiloso o exame. Ninguém sabe quem está indo e que tipo de exame será feito e com quem, isso é de livre escolha do doutor Osmar de Oliveira. Ele poderá responder sobre o assunto.

Michel Laurence: Porque é feito exame antidoping só nas... sem contar a parte financeira, sem contar a falta de laboratório, porque só na parte final é feito?

Eduardo José Farah: Bem, no ano passado não fizemos nem na parte final. Há uma grande dificuldade de se fazer esses exames adequadamente. Não se justificaria em uma rodada com 11 jogos fazer exame antidoping em um único clube, em um único jogo. Eu entendo que seria injusto, até. Teremos que fazer em uma rodada de 11 jogos, no mínimo 3 jogos, não havia condições técnicas para que fizéssemos isso. Em primeiro lugar, a coleta do material é feita em cidades a 400, 500 quilômetros [da Capital]. Esse material tem que retornar à Capital devidamente embalado. Teríamos que ter um freezer, alguma coisa apropriada. Porque chegou a ser alegado, o Mário Sergio alegou que o material não era dele, era de terceiros. Então, nós não temos uma tecnologia adequada para exame antidoping ainda.

Michel Laurence: Eu só quero saber por que passamos o campeonato inteiro sem antidoping? Aí, quando chega à fase final, tem exame antidoping. Por quê? O que vai mudar?

Eduardo José Farah: Você mora em casa ou apartamento?

Michel Laurence: Eu moro em apartamento.

Eduardo José Farah: Apartamento. Você tem mais de 20 parentes?

Michel Laurence: Não.

Eduardo José Farah: Eu tenho mais de cinqüenta, não posso fazer almoço em casa. Se fizer, posso convidar quatro só. Senão, tenho que levá-los a um clube. Então, eu expliquei e vou ratificar, eu não posso pensar em exame antidoping. Eu, pelo menos, em uma administração que pretende agir com muita seriedade...

Michel Laurence: Se passamos o campeonato inteiro sem exame antidoping, por que fazer nos últimos jogos?

Eduardo José Farah: Porque eu poderia fazer em um volume de jogos não superior a quatro, ou a dois, ou a três, mas em 11 jogos era totalmente impossível. Tanto é mais fácil para mim fazer um exame antidoping em um jogo final, que joga um clube só. Agora para satisfazer a sua curiosidade dentro do espírito do raciocínio que você está encaminhando, que eu entendo, o Ceará pediu, em uma ocasião, para fazer o exame antidoping. Jogavam Fortaleza e Ceará. E deu positivo para os dois clubes.

[Risos]

Roberto Avallone: Parece Campeonato Baiano.

Gustavo Assumpção: Presidente, senhor você falou em mentalidade empresarial no futebol, que ela é necessária mesmo, até de gente remunerada. Agora, o que você acha da presença de políticos no futebol?

Eduardo José Farah: Desde que o político não misture a atividade, acho perfeito. Não vejo mal nenhum.

Gustavo Assumpção: Mas é possível isso?

Eduardo José Farah: É quase impossível. Mas o Adílson Monteiro Alves conseguiu.

Roberto Avallone: Ou seja, é quase impossível, mal é mal...

Eduardo José Farah: O Adílson Monteiro Alves conseguiu, porque ele tem uma mentalidade desportiva, ele passou um ano no departamento de árbitro, que é o mais importante da Federação, um dos mais importantes, e não fez muito.

Gustavo Assumpção: E você acha que o futebol elege?

Eduardo José Farah: Eu acho que não.

Gustavo Assumpção: Não elege?

Roberto Avallone: Qual é a pior espécie de político: o político profissional, ou aquele político dos bastidores, que vive se vangloriando de ter poder na Federação, como o senhor sabe muito [um] bem caso típico que tem no nosso futebol paulista? Qual é a pior espécie do político?

Eduardo José Farah: É a pior espécie de qualquer ser humano, o aproveitador, o incompetente, aquele que coloca o interesse pessoal acima dos interesses coletivos, aquele que procura promoção de ordem pessoal, aquele que busca tirar vantagem da cada atividade que pratica. Então, o homem tem que ser um pouco sonhador, um pouco saudosista, um pouco realista e, acima de tudo, mais certo do que errado. Porque eu não sou perfeito, eu sou um homem com defeitos e qualidades, que acerta e que erra, mas eu procuro sempre no dia a dia tentar acertar mais do que errar. Agora, quem pretende usar de qualquer tipo de atividade para tirar vantagem... até o cigarro faz a falência.

Roberto Avallone: Até por vaidade: "Eu mando". "Tem que fazer, se não tá na minha mão" [imita].

Gustavo Assumpção: Para se manter em evidência também.

Eduardo José Farah: Quem diz que manda geralmente não manda nada.

Luis Alberto Volpe: Mário Sergio está querendo fazer uma pergunta.

Roberto Avallone: Será que não manda não?

Eduardo José Farah: Não, não manda, quem manda não precisa falar.

Mário Sérgio Venditti: Presidente, o senhor que gosta de fazer comparações do futebol com circunstâncias do cotidiano, o senhor chamou a Copa do ano passado de torneio caça-níqueis. Mas o Campeonato Paulista deste ano está apresentando uma média de público de 8149 torcedores. Quer dizer, presidente, não está indo pelo mesmo caminho do torneio caça-níqueis? E uma outra perguntinha: o que a Federação Paulista tem feito, em termos efetivos, para combater um velho problema que é a evasão de renda?

Eduardo José Farah: A Copa União, do ano passado, teve um pouco menos de 13 mil torcedores. Na terceira fase deste campeonato [Paulista], o Palmeiras, teve um público médio de 42 mil torcedores. Isso significa que, mesmo com a presença honrosa desportivamente, mas deficitária em arrecadação do Juventus, do Santo André, do Bragantino, do São Bento, o Palmeiras conseguiu um público de 42 mil torcedores. Você que vê futebol e faz futebol sabe que essa média é superior aos jogos da Copa do Mundo de qualquer uma das Copas do Mundo. Então, aqui não é um futebol caça-níquel...

Mário Sérgio Venditti: O Palmeiras, na ocasião... 

Eduardo José Farah: A Copa União, respondendo à sua pergunta: a Copa União eu entendi que é um torneio caça-níquel, porque ele não se constituiu dos melhores, tecnicamente. Ele foi criado no interesse momentâneo, de um grupo que pretendia criar uma firma de merchandising. Tanto que transformou a firma em uma "segunda CBF". Exorbitou os direitos que tinha, cometeu equívocos graves, mas deixou uma bela lição: de como fazer campeonato, que futebol é uma mercadoria que pode ser muito bem vendida e que o presidente Facchina [Carlos Facchina Nunes, então presidente do Clube dos 13], que aí está, hoje presidente por uns tempos, mentalizou os seus companheiros de que o grupo deve tratar de merchandising e contestar o que a CBF fizer de errado. O que é mais do que justo e o clube pode fazer isso isoladamente. Então, o Clube dos 13, em um determinado momento...  embora o caso Miguel Aidar [Carlos Miguel Aidar, advogado, ex-presidente do São Paulo, co-fundador e primeiro presidente do Clube dos 13]... eu gosto de dar nome aos bois, eu considero ele um moço competente, é meu amigo particular. Ele não dominou momentaneamente nem a vaidade, nem o poder. Se ele tivesse conseguido isso, ele seria - e será no futuro, porque ele está ai ainda, se voltar na atividade - um grande dirigente. Mas o Clube dos 13 foi um péssimo exemplo de clube privê e eu espero que ele se reformule e readquira sua postura adequada - que é fazer merchandising no futebol - e não tenha influência na escolha de quem participa de campeonato, nem de regulamento, nem de tabela, nem de negociação isolada.

Gustavo Assumpção: O que você acha do fim dos campeonatos estaduais, uma proposta dos Clube dos 13?

Eduardo José Farah: Eu acho que devia acabar com as prefeituras, com o governo do estado, fazer tudo um cacique só. [Risos] 

Mário Sérgio Venditti: Presidente, voltando ainda ao problema da evasão, presidente, o problema da evasão de renda, um velho problema do nosso futebol.   

Eduardo José Farah: Evasão de renda é um problema sério em qualquer lugar, até no cinema brasileiro.

Luis Alberto Volpe: Por que até hoje não foram instalados catracas eletrônicas, pergunta do Person Martini.  

Eduardo José Farah: Foram instaladas as catracas, mas foram péssimas no Pacaembu, porque a eficiência dessas catracas não atende ainda o fluxo de público nos estádios. Talvez no futuro, instalando catracas similares às dos mêtros, por exemplo, tenhamos possibilidade de melhorar. Mas, para corrigir a evasão de renda, não precisa catraca, precisa numerar os [assentos dos] estádios. E esse é o caminho que o futebol de São Paulo vai atingir muito breve.

Ailton Fernandes: Doutor Farah, eu queria aproveitar [e] voltar a falar do Campeonato Paulista. E saber, a partir da fórmula do campeonato deste ano, com os três pontos, com os jogos empatados sem gols, nos pênaltis, se essa fórmula te agradou [No Campeonato Paulista de 1989 a vitória por três gols ou mais valia três pontos; a vitória com dois gols ou menos, dois pontos; o empate com gols valia um ponto; e o empate sem gols era decidido em cobrança de pênaltis, com o vencedor levando um ponto]. Como você viu essa experiência? E se ela pode ser repetida no Campeonato Paulista do ano que vem.

Eduardo José Farah: A fórmula foi boa, sinceramente, foi uma boa fórmula, tem erros...

Gustavo Assumpção: Aumentou a média de gols?

Eduardo José Farah: De gols aumentou muito. Nós temos uma média de dois pontos qualquer coisa de gols, o que é muito parecido com a média de gols na Itália, uma boa média. Deveríamos atingir uma média de 10 mil torcedores, em termos de arrecadação. Os clubes, na sua maioria, tiveram um bom fluxo de dinheiro neste campeonato, mas temos que mudar, tem que inovar, não é o campeonato ideal.

Ailton Fernandes: Não digo essa fórmula. Eu quero saber da fórmula de três pontos.

Eduardo José Farah: Não essa fórmula, eu não repetiria a fórmula, eu não repetiria, eu não repetiria nenhum tipo de fórmula...   

Ailton Fernandes: Você achou que é mais uma... O senhor achou que os times passaram a jogar mais agressivamente com essa...

Eduardo José Farah: Eu não teria suspendido, por exemplo, os três gols, nem a penalidade aplicada no zero a zero. Eu acho que a pior coisa que pode acontecer em um jogo de futebol para um torcedor que paga é zero a zero.

Gustavo Assumpção: É, mas o Guarani e Portuguesa empataram em três a três e estão com um ponto só, e fizeram 6 gols.

Eduardo José Farah: É, mas isso é circunstancial, poderia acontecer um empate de oito a oito, mas não acontece, não acontecem 200 empates...

Gustavo Assumpção: Então, daí seria meio injusto.

Eduardo José Farah: Eu fiz um levantamento sobre isso e vou lhe dar alguns dados. Nós tivemos, por exemplo, 13% de 0 a 0 nesse campeonato. Nós tivemos 24% de 0 a 0 em jogos noturnos, contra 8% mais ou menos em jogos diurnos...

Roberto Avallone: A noite favorece mais? 

Eduardo José Farah: A noite prejudica, porque...

Gustavo Assumpção: Enxaqueca.

Eduardo José Farah: Não há treinamento noturno no Brasil. Você me diga qual clube faz treinamento para jogar à noite, nenhum....

Roberto Avallone: Nenhum que eu conheça.

Eduardo José Farah: Nunca se fez, nem a Seleção Brasileira.

Roberto Avallone: Um bom levantamento, agora, presidente...

Eduardo José Farah: Outra coisa, tivemos 15,90% de partidas com três ou mais gols...

Gustavo Assumpção: 15.

Eduardo José Farah: É um índice muito bom.

Roberto Avallone: É, até porque a primeira fase foi disputada por clubes mais fortes contra os clubes mais fracos. Mas uma fórmula, aliás, não é bem fórmula, uma inovação, uma volta às origens que eu considerei da maior importância neste campeonato, que eu daria a nota de sete e meio. O futebol voltou a ser rediscutido, é a volta do Campeonato dos Aspirantes, que é da maior importância. Não só para revelar jogador, como para manter a forma dos jogadores, que estão jogando, o Campeonato dos Aspirantes está nos planos?

Eduardo José Farah: Sem dúvida nenhuma. Aliás, você me lembra uma coisa muito importante. Nós recebemos já três propostas de três redes de televisão para adquirir o Campeonato dos Aspirantes. Mas nós vamos preservar o direito de quem iniciou conosco e perdeu junto, porque os clubes estão gastando dinheiro nos Aspirantes e não estão ganhando nada. Futebol não é para ganhar, mas é pelo menos para você manter despesas exageradas, e nós vamos estudar, o Campeonato dos Aspirantes será um campeonato rentável a partir de 1990.

Gustavo Assumpção: [Vou] Falar um pouco da final aqui. A respeito dos gandulas, tem sido um problema...

Eduardo José Farah: É um problema muito sério.  

Gustavo Assumpção: Como é que vocês estão...

Eduardo José Farah: Nós vamos colocar no regulamento...

Gustavo Assumpção: Porque são... Os gandulas, agora, serão do São Paulo, não é? Jogam no Morumbi? 

Eduardo José Farah: Não, são da Federação. Nos dois próximos jogos, gandulas da Federação...

Gustavo Assumpção: Só agora, não é? Antes é... Como no caso do... Que ele tinha comentado. E antes?

Eduardo José Farah: Tem o pipoqueiro, que fica na frente da Federação...

Gustavo Assumpção: Não, não vem com... Não dá.

Eduardo José Farah: Mas deixa eu contar, é sério. Tem um pipoqueiro em frente à Federação que o Marin costumava, todo dia, ao sair, comprar um pacote de pipoca. Ele está reclamando vínculo empregatício. Você já pensou levar gandula em todo jogo o que vai acontecer? Não! Vou arrumar mais uns 400 [com] reclamação trabalhista...

Luis Alberto Volpe: O Nelson quer fazer uma pergunta. 

Eduardo José Farah: Então, qual é a solução? Nós vamos colocar, no próximo regulamento, que um gandula terá a idade mínima de 18 anos; eles terão que estar inscritos na Federação; terão que apresentar seu cartão de inscrição; e ele estará sujeito a todas as penalidades previstas no código disciplinar. Segundo, nós baixamos uma norma, uma resolução que se o gandula interferir na competição, isso aconteceu na divisão especial, quando o gandula tirou a bola que ia entrando no gol...

Gustavo Assumpção: Impedindo gol. 

Eduardo José Farah: O clube perderá os pontos e três mandos de jogo. Nós estamos tomando providências.

Luis Alberto Volpe: Nós temos apenas dois minutos, o Nelson, o Avallone, e o Michel para encerrar.

Nélson Nunes: Farah, o Avallone e o Michel lembraram do Pelé, Garrincha, e meu medo é mais do presente. A gente teve eliminatórias aí, podemos até não ganhar do Chile, aliás, segundo o Aravena [Orlando Aravena], técnico do Chile, o Brasil não é páreo para ele. Você, como dirigente, já parou para pensar as conseqüências de uma desclassificação do Brasil, nessa que seria a primeira Copa do Mundo em que o futebol brasileiro não participaria? Seria um bem ou um mal para o futebol brasileiro?     

Eduardo José Farah: Seria um mal terrível. Seria a mesma coisa de você acabar com a merenda escolar. O povo brasileiro não vai tolerar de nenhuma maneira essa desgraça. Isso poderá até acontecer, mas será uma desgraça nacional maior que a inflação de 30% ao mês. E eu tenho certeza que isso não vai acontecer, porque eu acredito na competência do presidente Ricardo Teixeira. Ele há de mudar, se necessário for, mas se o Brasil não se classificar jogando contra Chile e Venezuela, realmente nós estamos atrasados mais de trinta anos.

Nélson Nunes: Falaram que o Havelange vai cuidar da torcida.  

Eduardo José Farah: Eu acho que o Ricardo Teixeira tem escola suficiente para tomar uma atitude.

Luis Alberto Volpe: Avallone.

Roberto Avallone: Bem eu só queria lembrar aqui que a Argentina já foi desclassificada e foi campeã do mundo depois. Mas eu queria citar aqui, na TV Cultura, quanto ao caso do gandula, que me parece muito importante, a TV Cultura mostrou no jogo, na própria TV Cultura, o gandula salvou um gol... 

Eduardo José Farah: É verdade.

Luis Alberto Volpe: Perfeito. Muito bem. O nosso tempo está esgotado, estamos chegando ao final do Roda Viva, gostaríamos de agradecer ao presidente José Farah, aos jornalistas convidados, aos convidados da produção, aos telespectadores que participaram, as perguntas que não foram respondidas serão todas encaminhadas ao presidente Eduardo José Farah, Roda Viva volta na próxima segunda-feira às 9:30, boa noite.  

Sobre o projeto | Quem somos | Fale Conosco