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Michael Bloomberg

16/10/2000

O desempenho da Bloomberg, uma das maiores agências americanas de notícias, projeções sobre o futuro da internet e a possibilidade de uma carreira política são os temas desta entrevista

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Paulo Markun: Boa noite! Ele é considerado um mito de Wall Street [rua considerada o coração financeiro da cidade de Nova Iorque, nos Estados Unidos]. Pioneiro do jornalismo eletrônico especializado em notícias sobre finanças e negócios, expandiu a idéia para vários países e se tornou uma milionária estrela da mídia norte-americana. No centro do Roda Viva esta noite, Michael Bloomberg, criador e dono da Agência de Notícias Bloomberg.

[Comentarista]: A idéia surgiu nos anos de 1980. E a Bloomberg nasceu já se identificando como o primeiro maior jornal eletrônico dos Estados Unidos. Com escritório num endereço nobre de Nova Iorque, a Avenida Park, a agência procurou se diferenciar de tudo, e começar pela recepção, dominada por um grande aquário e uma lanchonete, onde tudo é de graça. No décimo andar, o coração do negócio, uma bateria de computadores que processa números e textos que chegam de todas as parte do mundo. A redação é formada só por profissionais especializados. Eles se dividem em setores que cobrem o mundo financeiro, acompanhando não só o movimento das bolsas mais importantes como também o valor de cada ação. Todos esses dados são organizados e distribuídos para os terminais dos clientes Bloomberg. Em geral, bancos e empresas que, de posse dessas informações, podem tomar decisões mais rápidas, fechar negócios ou até mesmo fazer transações financeiras imediatas no próprio terminal. Michael Bloomberg tinha 41 anos quando foi demitido de uma corretora de Nova Iorque e teve a idéia de criar a agência. Conseguiu um primeiro cliente e depois vieram outros, fazendo o negócio se expandir. Em vinte anos, a Bloomberg se tornou uma das vinte maiores empresas norte-americanas. Hoje, ela está presente em 100 países, inclusive o Brasil, onde a agência também opera um canal de televisão a cabo com sua inconfundível tela: informações sobre bolsas, finanças, valores de ações... correm na parte debaixo do vídeo. A parte de cima fica dividida entre notícias rápidas, escritas, e uma área onde os apresentadores se revesam com notícários durante 24 horas por dia.

Paulo Markun: Para entrevistar Michael Bloomberg convidamos: Rodrigo Mesquita, diretor da Agência Estado; Noênio Spinola, diretor de comunicação da BMF, a Bolsa Mercantil de Futuros; Cida Damasco, editora executiva da Gazeta Mercantil; Andréa Fornes, redatora chefe do jornal Último Segundo do Portal IG; o escritor Ivan Sant'Anna; Fátima Turci, apresentadora do programa Economia e Negócios da Rede Mulher; e Álvaro Almeida, sócio e diretor da Tempestade, empresa fornecedora de conteúdo para a internet. Boa noite, Bloomberg.

Michael Bloomberg: [Cumprimenta balançando a cabeça]

Paulo Markun: Eu queria começar com a notícia que saiu na primeira edição publicada no Brasil da revista Forbes [revista americana especializada em finança e negócios], em que diz que a Bloomberg está comemorando um recorde de vendas de assinaturas, festeja os números de faturamento e de resultado da empresa, e diz que acha - a revista - que talvez fosse o momento de vender a Bloomberg. Então nada melhor do que perguntar para quem pode fazer esse negócio [risos] se existe essa perspectiva.

Michael Bloomberg: A empresa não está à venda. Não há motivo para vendê-la. Não sei por que escreveram isso, não foi dito nada.

Fátima Turci: Um dos fatores para que essa notícia tenha gerado uma especulação no mercado, realmente é uma tendência da própria economia mundial hoje, em particular da economia brasileira, que é o chamado vestir a noiva [sorri]. Ou seja, quando a empresa está realmente com muito dinheiro, muito bem, saudável, com uma rentabilidade boa, como é o caso da Bloomberg, é a melhor hora se não de vender a sua totalidade, pelo menos uma parte. O segundo fator é uma possível candidatura sua à prefeitura de Nova York.

Michael Bloomberg: [sorri] Uma nova carreira é sempre possível para mim. Eu sempre digo... que não quero fazer a mesma coisa para sempre. Dirijo a empresa há 20 anos, fiquei 15 anos no emprego anterior, antes de ser demitido. Talvez, nos próximos anos, eu deva tentar outra coisa. E acho que a empresa ficaria melhor se, após 20 anos, outra pessoa assumisse. Eu acredito nesse processo de renovação. Isso não significa que a empresa esteja à venda. Posso mudar de carreira e continuar como dono da empresa [cruza as mãos]. Não vejo por que vender a empresa. Ela está indo bem, melhor do que nunca, e, se a idéia é vender quando tudo está bem e não quando há problemas, também para isso deve haver um motivo. Não tenho planos de vender e não sei de onde surgiu essa história. 

Álvaro Almeida: Dentro dessa perspectiva, para onde a Bloomberg pode crescer? Quer dizer, quais mercados, quais atividades?

Michael Bloomberg: Mais da metade das nossas operações está fora dos Estados Unidos. O que eu venho tentando fazer é deslocar a sede, que fica em Nova Iorque, para diferentes lugares do mundo. As operações de TV são controladas em Londres agora, as operações de futuros se concentram lá, parte do comércio de dados é controlada em Tóquio [capital do Japão]. Estamos querendo estabelecer operações em São Paulo. Uma empresa globalizada precisa marcar presença em todos os mercados, em diferentes produtos e ter o poder descentralizado mundo afora. Acho que nosso grande potencial agora, com a expansão do mercado de capitais no Brasil, em vários países, é procurar crescer junto com eles. Os mercados de capitais tradicionais vão crescer mais lentamente que os mercados emergentes. Assim, o potencial da empresa está fora dos Estados Unidos, talvez também fora do Leste Europeu. Ele está no resto do mundo.

Ivan Sant'Anna: O senhor saiu da Salomon Brothers em 1980, 81 e começou...

Michael Bloomberg: Eu fui demitido da Salomon. [risos]

Ivan Sant' Anna: Eu li isso no seu livro. Em 1981 o senhor iniciou o seu negócio que prosperou muito nesses 19 anos. Agora, por coincidência nesses 19 anos o mercado de ações de Nova Iorque tem tido uma alta considerável, desde o Paul Volker [um dos mais renomados economistas americanos. Presidente do Banco Central americano de 1979 a 1987] no Fed [Federal Reserve, o Banco Central americano] até hoje uma alta secular, uma alta de 18 anos.  Não seria a hora... O senhor acredita que o negócio continuará prosperando tanto se o mercado entrar num prolongado mercado de baixa?

Michael Bloomberg: Nós costumamos dizer: “antes ter sorte que inteligência”. Acho que tivemos muita sorte, não porque eu pudesse prever o futuro, mas, como fui demitido, fundei uma nova empresa naquele momento. Você tem razão, os mercados se expandiram. Não apenas cresceram, mas ficaram maiores, mais profundos, o volume das negociações aumentou, envolvendo mais países. São coisas boas para o nosso negócio. Eu acho...

Ivan Sant' Anna:[interrompendo] Ou quem sabe o mercado subiu por causa da Bloomberg, não?

Michael Bloomberg: [cruzando as mãos] Eu gostaria de acreditar que sim, mas não tenho um ego tão grande assim para acreditar nisso. [risos] No entanto, acho que a grande mudança nos últimos 20 anos reside no fato de que os intermediários há 20 anos, concentravam toda a informação. Hoje, os gerentes de investimentos, os que compram, têm até mais informações. Isso fica evidente nos salários de gente que trabalha com vendas, em comparação com quem compra. Há 20 anos, você enriquecia trabalhando para um intermediário. Hoje, você tem as mesmas chances com um gerente, alguém que administre um fundo de investimentos ou de pensão. Isso porque a informação é muito mais equilibrada, não só para o nosso sistema, mas para uma porção de sistemas. Tudo isso nivelou a área de atuação. Sua pergunta é se teríamos sucesso num mercado retraído. Seria mais difícil crescer, mas o fato é que, quando as coisas vão mal, a tendência é encontrar as operações, ter menos fornecedores e, se a empresa for boa, vai se manter como fornecedora e pode até crescer mais [gesticulando]. Talvez não tão rápido quanto em momentos mais favoráveis.

Noenio Spinola: Há um ditado de Chicago que diz: “Se o céu estiver caindo, venda céu”. Mas eu gostaria de perguntar sobre a explicação que você deu para a sua companhia. Parece que a sua estratégia é pensar globalmente e agir localmente. Ora, países e economias emergentes geram preços, geram informações. Price Discovery, descoberta do preço, é a matéria-prima de empresas como a sua. Como você equilibra o price discovery, ou a descoberta de preços, nos grandes centros de liquidez e a descoberta de preços também nas economias locais e emergentes?

Michael Bloomberg: A grande diferença entre o mercado de capitais americano e quase todos os outros é o volume de informação disponível. Se eu fosse dar um conselho - não deveria fazer isso - mas se fosse aconselhar outros países na forma de expandir sua economia, eu diria que é preciso ter um mercado de capitais forte. Sem se levantar dinheiro não se constroem empresas, não se criam empregos. Para se ter um mercado de capitais forte é preciso revelar todas as informações. Se as pessoas tiverem confiança nas informações, elas investem no mercado. Se acharem que há omissão de dados, o investimento não será tão alto. Dou muito mérito à Comissão de Valores Mobiliários, comandada por Arthur Levitt nos EUA, assim como a Bob Rubin e Larry Summers, do Tesouro, ou ainda Alan Greenspan, do Banco Central. A CVM teve grande participação no nosso sucesso nos últimos 10 ou 15 anos, assim como as outras instituições. Mercados de capitais fortes geram dinheiro e empregos, e isso gera arrecadação para ajudar os que não estão incluídos.

 Rodrigo Mesquita: O Media Labies Loing School, há um ano e meio atrás... eu não sei bem a área, o que eles fizeram lá, realmente, falaram que depois das três grandes convergências que é mídia, som e texto, que cuja síntese é a internet, nós estamos vivendo agora um processo no ambiente de negócio, das grandes convergências. Que seriam convergências entre pesquisa e desenvolvimento de produto. A convergência entre precificação e um processo contínuo de negociação com o mercado. A convergência entre design e engenharia. A convergência entre mercados e redes de comunicação. A convergência entre front e back office. E a convergência entre conteúdos e transações. Na visão deles isso vai chegar até na indústria de bens de serviço para o grande público. Mas num primeiro momento, empresas como a sua, totalmente virtual, são uma síntese dessa situação. Quer dizer, o seu front office é o seu display de apresentação para o mercado. O seu back office é a forma onde você controla todo o seu negócio, que também é remotamente. Como é que o senhor vê esse ambiente com o desenvolvimento da internet, com a internet vindo a ser no futuro uma ferramenta de tão fácil utilização quanto é um terminal seu hoje para o mercado financeiro?

Michael Bloomberg: É preciso ter cuidado na diferenciação entre o que a tecnologia pode oferecer e a forma como ela é efetivamente usada. A internet é uma ferramenta útil, mas é apenas uma extensão da comunicação eletrônica, que existe desde que Samuel Morse inventou o telégrafo. Por suas características, ela é útil em alguns aspectos, mas não em todos. Se você quiser trocar informações com apenas uma pessoa, não deve usar a internet, porque ela é adequada para trocar dados com todos, mas o processo é mais lento quando é no "mano a mano" o tempo todo. A internet supera outros meios de comunicação eletrônica porque permite acesso ao mundo todo, passando informações a muita gente que você não conhece. Na sua empresa, isso não substitui áreas como marketing, produção, contabilidade, administração. Qualquer um dos processos básicos. Quem acha que a internet é um novo paradigma está muito enganado. Essa tecnologia permite aperfeiçoar o produto, mas ela não substitui as pessoas, não muda os negócios fundamentais. Isso pode ser visto na ascensão e queda das ações de empresas da internet mundo afora. No início, as pessoas não entendiam bem o que poderia ser feito. Quando a fria realidade veio à tona, as ações caíram. Os grandes beneficiários da tecnologia são as empresas que já tinham operações sólidas e são capazes de adotar novas ferramentas, incluindo a internet, mas não só. Assim se aperfeiçoam os negócios, a eficácia aumenta, é possível contratar mais gente, falar com mais clientes, vender mais, reduzir custos. Mas a internet - e o Media Lab tem muita culpa nisso - cria expectativas distantes da realidade [gesticulando]. A internet por si só não vai deixar sua marca na história como algo revolucionário, causando impacto como o telefone ou como o avião, nesse mesmo sentido.

 Andrea Fornes: Falando ainda sobre internet, o senhor desenvolveu o primeiro terminal [de acesso à internet] em meados de 1980, na década de 1980. Eu gostaria de saber que mudanças a internet forçou no seu negócio?

Michael Bloomberg: Não muitas, porque fazemos coisas que as outras empresas estão começando a fazer na internet. Se você analisar, fomos uma empresa pioneira e lucrativa na internet, se entendermos esse negócio como venda de bens, serviços e informação de modo eletrônico, pela rede. A internet permitiu que reduzíssemos custos, porque os clientes nos acessam via internet, e são eles que pagam pela comunicação. A internet apresenta dois problemas. Primeiro: ainda não é tão confiável e consistente quanto uma rede privada. Será dentro de alguns anos em boa parte do mundo, mas ainda não chegamos lá. Os profissionais ainda não podem usar a internet se precisarem sempre de informações ao simples toque de um botão. Quem trabalha com valores mobiliários sabe disso. Sem as cotações, não é possível trabalhar. É diferente de receber um e-mail de um amigo. Se não chegar em 5 minutos, não faz mal. Então o primeiro problema é que a internet ainda não é consistente e boa o bastante, mas será. O outro problema é mais sério. Trata-se da segurança. A rede está aberta a todos, e isso inclui pessoas com propósitos malévolos, assim como pessoas bem intencionadas. Isso vai criar problemas no futuro. Por mais que procurem garantias de segurança, alguém sempre vai achar uma brecha.

Cida Damasco: Por favor, ainda em relação às modificações impostas pela internet. O que a internet está fazendo em termos de adaptação do conteúdo e do próprio formato do noticiário de economia, finanças e negócios?

 Michael Bloomberg: O acesso à informação é mais rápido [juntando as mãos]. Esse é o grande trunfo. O perigo é que, em prol da velocidade, acabamos esquecendo análise, qualidade, precisão, vigor e profundidade [pontuando com a mão esquerda]. Não sei bem se o acesso instantâneo à informação é necessariamente bom. É com isso que eu trabalho [sorri], então espero que as pessoas se interessem, mas é preciso refletir, pôr idéias em contexto, entender o que está havendo, pensar antes de agir. Enquanto toda essa tecnologia nos é apresentada , nós cometemos um erro, sobretudo com computadores. Na realidade, ao usar computadores, alguém chuta dois números, divide um pelo outro, e uma pessoa que não sabe o que faz toma uma decisão com base na quarta casa decimal do resultado. É absurdo, porque os números iniciais foram chutados. A pergunta não é o que fulano deveria fazer, mas que fatores ele deveria usar para tomar uma decisão. Não acho que a tecnologia, nem mesmo a internet tenham melhorado nossa forma de obter informações. Como vemos os dados na tela, tendemos a achar que eles têm mais valor que a própria realidade.

Paulo Markun: O senhor teria sido vítima... teria sido não, foi vítima, segundo a notícia publicada no Washington Post [jornal americano de circulação diária. Um dos mais lidos do país] e republicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, do dia 16 de agosto, de um esquema de extorsão através, justamente, da ação de hackers, que teriam envolvido dois habitantes do Cazaquistão [país transcontinental, com terras nos continentes europeu e asiático]  Eu queria que o senhor explicasse como é que foi isso e como é que terminou essa história? Porque a notícia diz que o senhor reuniu-se com esse sujeito num hotel de Londres naquela época, e que isso acabou terminando com a prisão dessas pessoas. É isso?

Michael Bloomberg: Recebi um e-mail de alguém, na época não sabíamos quem era, dizendo que eles poderiam invadir nosso sistema e, em troca de dinheiro, diriam como haviam feito isso e como prevenir novos ataques. Temos uma equipe de analistas que ficam atentos o tempo todo aos ataques dos quais somos vítimas 30 ou 40 vezes a cada noite. Assim como outros grupos, mas nós sabemos que eles ocorrem, e pudemos observar essas pessoas. Não permitimos que a invasão fosse muito longe, apenas o suficiente para eles não desistirem e para podermos rastreá-los e identificá-los. Minha primeira providência foi ligar para o FBI [Federal Bureau of Investigation] que é nosso órgão nacional de investigação. Conheço gente lá, já cooperamos com eles antes. Então falei sobre os piratas de computador e sobre a extorsão, perguntei se eles gostariam de assumir o caso, e eles aceitaram. Ao longo de três ou quatro meses, não sei bem, continuamos nos comunicando, eles eram bloqueados toda vez que tentavam atacar, e começamos a rastreá-los para saber quem eram e de onde eram. Sabíamos o que iriam fazer antes mesmo que começassem. Enquanto isso fui negociando com eles via e-mail. Quis que eles fossem para Nova Iorque, e não deu certo, mas combinamos de nos encontrar em Londres. O Departamento de Justiça e o FBI [cruza as mãos] negociaram com a New Scotland Yard [instituição fundada em 1829 e responsável pelo policiamento da grande Londres], e um deles havia contatado as autoridades do Cazaquistão, que era o país até onde nós havíamos rastreado. Em Londres, eles foram seguidos, depois tive uma reunião com eles, nós conversamos, e ao final do encontro eles foram detidos. Hoje estão presos em Londres. Esperamos que sejam extraditados para os EUA. Uma das vantagens de Londres para nós era que os dois países têm um acordo de extraditação. Nos EUA, eles irão a julgamento, e esperamos que sejam condenados e que fiquem presos por um bom tempo [balança a cabeça em sinal de aprovação]. Acho que todos deveriam entender que não é possível tentar extorquir empresas achando que a internet garante anonimato. É preciso entender que o mundo é bem mais esperto do que se pensa. Acho que o grande perigo é que as empresas na maioria têm medo de chamar a polícia quando sofrem um ataque. Isso é muito ruim. Porque, se você permitir, eles vão agir. Se os piratas acharem que podem derrotar você, vão fazer isso uma vez após a outra [fazendo o gesto ‘uma após a outra” com as mãos]. As empresas e os indivíduos devem defender seus direitos. Às vezes isso é muito difícil, basta pensar nos grandes patriotas de qualquer país na história que fizeram isso, mas, se isso não for feito, vamos cair na corrupção e no totalitarismo, que são piores que qualquer pagamento que você tenha de fazer para pegar gente assim.

Paulo Markun: Mas de todo modo, essa história, digamos assim, não é muito edificante para aqueles teóricos que dizem que o comércio eletrônico, por exemplo, vai substituir todas as outras formas de comércio e de que não há nenhum risco de se fazer negócios, através, por exemplo, da internet.

Michael Bloomberg: Em primeiro lugar, não acho que o e-commerce [comércio através da internet] vá substituir todas as outras formas de comércio. Ao contrário. Tudo indica que o e-commerce tem seu espaço, assim como os catálogos enviados pelo correio, que você usa para telefonar, falar com uma pessoa e informar seu número de cartão e depois receber a mercadoria pelo correio. Muita gente ainda prefere ter contato com o produto, tocá-lo e senti-lo, e com um vendedor que fale sobre o produto. Na verdade, muitos produtos são vendidos e não comprados. Se o supermercado vendesse só o que as pessoas vão comprar, iria à falência. A verdade é que nós compramos muito mais do que imaginamos. Os riscos do e-commerce são bem maiores para fornecedores e empresas do que para os indivíduos. Se você perde o seu cartão de crédito, não vai à falência, o volume de negócios não é tão grande, muitos países e empresas têm um limite, e no e-commerce é a mesma coisa. É um problema grave para empresas e fornecedores, mas não para o consumidor.

Paulo Markun: Ok. Nós vamos fazer um rápido intervalo e a Roda Viva volta daqui instantes.

[Intervalo]

Paulo Markun: Estamos de volta com o Roda Viva, esta noite entrevistando o empresário Michael Bloomberg, criador da Agência de Notícias Bloomberg. Álvaro, por favor, a sua pergunta.

Álvaro Almeida: Mr. Bloomberg, falando um pouco mais de segurança, o seu serviço de notícias... de informações ganhou muito poder, porque ele é observado e acompanhado por todos os mercados. Nesse sentido, há muitas fontes de mercado que poderiam se interessar em manipular as informações que são divulgadas, para obter ganhos. Qual é a política da Bloomberg para se proteger disso?

Michael Bloomberg: Em primeiro lugar, nenhuma política é perfeita. Você tem razão, muita gente quer manipular os dados, embora a grande ameaça seja o fato de muito mais gente omitir dados. O problema, no sentido amplo, é que as empresas não querem divulgar coisas ruins, os analistas não querem dizer que erraram, ninguém quer falar sobre os problemas de segurança, falhas de computadores ou coisas assim. Esses problemas são sérios. Quem tem muitas ações quer divulgar dados positivos e omitir os negativos, quem tem poucas ações quer o contrário, e algumas pessoas divulgam notícias falsas, acho que isso é o mais grave. Recentemente recebemos uma, que nos foi enviada por uma agência de notícias que deveria verificar se as informações procediam. Um ex-funcionário que conhecia bem todos os códigos da empresa inventou e divulgou uma história para provocar queda das ações. Elas realmente caíram, eles pararam de comercializar, e elas subiram de novo. Sempre há esse perigo. Os grupos mais respeitáveis da imprensa têm sempre duas fontes para cada matéria. Isso reduz muito o risco. Acho que muitos grupos que são grandes e experientes conseguem perceber se uma notícia faz sentido. Se não fizer, eles fazem novas verificações [franze a testa]. Nesse caso recente que eu mencionei, da notícia falsa, a empresa era a Amulex [empresa americana de engenharia de otimização de produção inaugurada em 1971], a informação veio de uma de nossas três fontes cujo trabalho é verificar a veracidade dos fatos, e nosso editor simplesmente publicou o texto. Não reescrevemos, apenas publicamos. Era uma matéria importante, que deveria ter sido checada. Não sei se eu ou você teríamos feito isso, mas, quando a empresa publica uma notícia ruim, é preciso ter mais cuidado, sobretudo porque ainda era cedo. É fácil ter um melhor julgamento que o editor nesse caso, no entanto, quase sempre os mercados são precisos, assim como as matérias, mas muitas vezes não queremos ouvir a verdade. Quando um repórter nosso faz uma matéria sobre ganhos baixos ou problemas numa empresa, caso haja mais de uma fonte [faz gestos de separação com as mãos], posso avaliar a veracidade da matéria de acordo com a queixa da empresa citada. Quanto maior a queixa, maior a minha confiança na matéria [sorri].

Andrea Fornes: A Bloomberg vende um serviço que é bastante especializado e é indispensável para algumas empresas. Por essa razão custa em média mais de mil dólares por mês. Eu gostaria de saber como o senhor, como dono dessa empresa, o que o senhor pensa de empresas como o Napster?

Michael Bloomberg: [faz uma pausa] A proteção dos direitos autorais é muito importante. Parece ótimo que o mundo todo tenha acesso gratuito à informação, a todo tipo de informação. Infelizmente, a idéia só não é boa para os autores. Se você não proteger os direitos autorais, ninguém vai criar coisas novas. Isso se aplica a livros, a música, a televisão, qualquer coisa. Embora eu aprecie a habilidade dos piratas ou dos programadores para burlar a lei, acredito que, sem proteger os direitos autorais, não teremos mais coisas novas. Minha posição é defender as pessoas que criaram o material. Acho que a Napster e outras empresas, porque há outras bem mais perigosas, mais difíceis de deter. Acho que devem ser impedidas de atuar. Se você escreve um livro, merece receber pelo seu esforço. Uma biblioteca não impede isso porque, apesar dela, muita gente compra o livro. Se você grava uma música, divulgá-la na internet vai reduzir muito os seus ganhos, e não temos o direito de nos apossar dos frutos do seu trabalho de graça.

Andrea Forbes: E essa solução seria... O senhor falou que precisaria de uma solução para acabar com esse problema. A solução seria acabar com o Napster ou passar a se cobrar pela música que a pessoa vai adquirir?

Michael Bloomberg: É seu direito protegê-lo para ganhar a vida com ele. Há muitas soluções, mas elas precisam ser práticas, para que possam ser implementadas. Infelizmente, muitas pessoas não são honestas como nós. Se elas puderem se apossar de algo sem pagar, vão fazer isso. Acho que seriam feitas mais cópias ilegais de livros se fosse fácil e barato fazê-las. No entanto, o processo todo toma tempo, e às vezes sai mais caro que o próprio livro. Dessa forma, quase ninguém faz cópias de livros. O futuro, contudo, estará nos livros eletrônicos, acho que é uma tecnologia que vem para ficar e, nesse caso, a cópia é bem mais fácil. Pode haver uma lei contra a reprodução, mas fazer cumprir essa lei é um grande problema. Por enquanto, ao passo que alguns criam mecanismos para proteger os direitos autorais, outros se esforçam para burlar esses mecanismos. Como empresa do ramo de informação, temos exatamente o mesmo problema. As pessoas tentam se apossar do nosso serviço o tempo todo. O que nos protege é o nosso conteúdo, que sempre muda. Se você viesse à noite com uma arma e roubasse todas as nossas informações, elas só seriam úteis por alguns dias, porque seu valor se perde rapidamente [abre as mãos]. Isso não acontece com canções e livros. A proteção que nós temos não se aplica aos outros gêneros.

Cida Damasco: O senhor acha que a legislação atual de proteção dos direitos autorais, ela é adequada para esse mundo de internet? Se discute isso não só em relação a direitos autorais como a várias outras questões, até a questão tributária. Ou seja, dá para aplicar a legislação atual, ou tudo tem que ser rediscutido e renegociado nessa área?

Michael Bloomberg: Um dos grandes problemas é que o processo político, em quase todos os lugares, tem limites que a tecnologia está removendo. Temos governos cuja autoridade termina num rio, numa cadeia de montanhas ou no mar. Alguns governos dirigem povos com base no idioma que falam. A tecnologia eliminou esses limites. Você vê que os políticos não aceitam isso, porque eles têm duas funções. Uma é comandar, a outra é redistribuir a riqueza. É difícil fazer isso quando a pessoa ou objeto que eles querem comandar ou de cuja riqueza eles querem se apossar pode se livrar da autoridade deles facilmente. Feliz ou infelizmente, dependendo de que lado está [sorri], é cada vez mais difícil fazer isso. Temos de resolver esses problemas, porque qualquer pessoa racional admitiria que não quer esse tipo de ação do governo. A diferença entre liberais e conservadores [mexe as mãos de um lado para o outro] é admitir uma interferência maior ou menor. Todos aceitam a existência de uma lei contra homicídios, por exemplo, ou dos impostos para custear os bombeiros, a polícia, a educação e o saneamento. Queremos uma certa carga de comando e taxação, mas empresas e indivíduos hoje têm uma mobilidade que nunca tiveram antes. Ninguém ainda teve boas idéias para resolver esse problema.

Ivan Sant'Anna: Senhor Bloomberg, eu sou escritor, mas antes de ser escritor... aliás, no meu livro de maior sucesso um magnata de Wall Street derruba todos os mercados do mundo através de um sistema como o seu. Através de colt machines [um injetor de máquina automático que fazia parte dos equipamentos da marinha americana] ele derruba os mercados [risos]. Mas antes de eu ser escritor, eu era operador de mercado. Quando eu comecei no mercado em 1958, - 8 anos antes de você - eu tinha apenas o telefone e para saber notícias eu tinha um teletipo da Reuters [uma das maiores agências americanas de notícias], ou alguma outra agência. Mais tarde eu acompanhei como operador toda a evolução do sistema de comunicações no mercado. Até o momento em que você pode traçar gráficos na máquina, marcar pontos técnicos de análise técnica, enfim, interagir com o computador através de uma empresa de software e de comunicações. Agora, eu pergunto: “em que futuro, e qual será mais ou menos o tempo que o trader vai poder fazer de casa não só o acompanhamento do mercado como até entrar no mercado, comprar ações, vender ações, comprar commodites [títulos correspondentes a negociações com produtos agropecuários, metais, minérios e outros produtos primários nas bolsas de mercadorias] vender commodites, fazer tudo através de um sistema como o seu”? Sem o uso de mesa de operações, e sem o uso de bolsas. O senhor acredita que isso vai acontecer?

Michael Bloomberg: [de braços cruzados] Acho que é possível fazer tudo em casa, [descruza os braços e gesticula] é possível fazer tudo eletronicamente, mas nada indica que o resultado seria melhor ou tão bom quanto na forma tradicional [faz sinal de aspas com as mãos]. As empresas pararam de cogitar essa possibilidade porque grande parte do trabalho consiste em conversar em volta do bebedouro. Mandar e-mail é diferente de digitar mensagens no teclado ou falar ao telefone. Negociamos diariamente ao telefone, mas continuamos visitando os clientes, cumprimentando-os, olhando nos seus olhos, talvez fazendo uma refeição juntos. O fato de um analista, um corretor, um administrador de carteira ou um investidor de risco conseguirem informações eletronicamente não elimina a necessidade de parar e refletir. Nada indica que toda a tecnologia aplicada ao ambiente de trabalho, - não só no setor financeiro, em todas as áreas - tenha reduzido o número de tarefas. Vou dar alguns exemplos. Muita gente hoje dispõe de voice mails e e-mails. Num dia normal, devo receber uns 100 voice mails e uns 100 e-mails, mas a freqüência com que falo com alguém face a face ou ainda por telefone não diminuiu nada. Os e-mails e v-mails são material extra. Eles não substituíram as velhas formas de comunicação. No caso da tecnologia para funcionários em escritórios [pontuando com as mãos], foram investidos trilhões de dólares na aquisição de tecnologia. Quase todo funcionário de colarinho branco hoje trabalha com um PC. No entanto, a venda per capita de papel para escritórios vem subindo anualmente, já há 25 anos. Portanto, dispor dessas ferramentas não elimina a necessidade das coisas antigas. Mesmo tendo modernizado muito o setor financeiro e podendo negociar ao toque de um botão, não podemos apertar o botão e decidir racionalmente qual ação vender, analisar se é uma boa venda, encontrar razões para vender. Isso difere muito da automatização da parte mecânica da transferência. No que diz respeito ao processo intelectual, não se sabe se o computador pode ter um desempenho melhor que seres humanos. Se você analisar, não vai encontrar prova alguma de que a administração de investimentos tenha médias melhores hoje do que antes. A faixa entre o melhor e o pior desempenho segue a média geral. Sempre foi assim e sempre será, apesar da tecnologia e dos terminais Bloomberg que espero que comprem [risos].

 Fátima Turci Bem, essa sua última resposta juntando com a última do bloco anterior me deixa um pouco assustada quanto ao rumo que as empresas, em geral, estão tomando com relação ao e-commerce. As empresas estão investindo bilhões de dólares em e-commerce. E estamos falando de empresas de desenvolvimento de software, empresas que estão desenvolvendo programas, e as próprias empresas que estão disponibilizando os seus produtos para uma venda hoje muito focada no comércio eletrônico. O senhor diria que essas empresas - eu tenho três perguntas, que eu não agüento aqui de ansiedade [risos] - estão gastando e jogando dinheiro fora? Elas estão investindo errado? Nesse cenário de futurologia estão apostando numa área errada? Aí a minha segunda pergunta: como que a Bloomberg quer ser conhecida nos próximos 20 anos? Se o senhor vai para a política o ano que vem, qual a missão que o senhor vai deixar ao seu sucessor? Ela quer ser conhecida como uma empresa de conteúdo, para que área de conteúdo específico? Quer ser uma grande agência de notícia, mais genérica, quer ir para a televisão, para a internet, para todos os meios, o que é, para a gente juntar esse e-commerce com Bloomberg e imaginar um pouco o futuro?

Michael Bloomberg: Eu precisaria de uma hora para responder isso, mas vou tentar. [risos] Acho que, não a maioria, muitas empresas estão equivocadas nessa pressa para implementar soluções via internet. O fundamental é ter um modelo eficaz de negócios. De posse disso, você pode analisar as formas como a tecnologia pode aumentar a eficácia, melhorar o acesso aos clientes, essas coisas, em vez de se preocupar com um repórter que escreveu uma matéria sobre uma empresa considerada atrasada porque não tem uma estratégia para a internet. Algumas empresas não precisam disso, não faz parte de suas operações. Se a função da sua empresa é aparar a grama de jardins, seria bom ter um site, mas talvez ninguém use. É melhor não desviar recursos de equipamentos e salários para adquirir tecnologia. As empresas que lidam com tecnologia querem isso, mas o interesse não é seu, é deles. Essa é a grande lição. As empresas compravam qualquer coisa, mesmo que não fizesse sentido algum porque a idéia era ser a primeira. Costumamos dizer o seguinte: “Dá para ver quem são os vanguardistas. São os que têm as flechas nas costas”. Não vou dizer que você não deva sair na frente, mas é preciso ter cuidado. A meu ver, o que acontece nessas empresas é que, embora a tecnologia exija estudo e aprendizado, ela é sempre deixada a cargo de técnicos. Se você pergunta à administração se os técnicos seriam chamados para gerir a empresa, percebe que isso nunca foi considerado. No entanto, recai sobre eles a responsabilidade de tomar uma decisão que talvez seja a mais importante no futuro próximo da empresa. É preciso parar e refletir se a tecnologia é necessária, não ter pressa, comprar em vez de fazer, - as empresas inventam empreitadas que não cumprem - estabelecer 90% de ganhos, porque os últimos 10% nunca vêem, e explicar... Eu tenho uma regra. Quando chego à minha casa, devo ser capaz de explicar às minhas duas filhas o que eu fiz, sem esconder nada. Se eu fizer isso, terei uma vida bem decente. O mesmo acontece com administradores. Devem poder explicar por que precisam da tecnologia, por que vai funcionar e ser utilizada. Se tentarem isso, vão ver que muita coisa é inútil, que não há pressa, que não há aplicação em seus negócios. Quanto ao legado, que você perguntou, somos uma empresa de conteúdo. Começamos construindo nosso próprio hardware, antes dos PCs. Paramos de fazer isso, hoje compramos equipamento. Utilizávamos apenas uma rede, hoje usamos várias, a nossa, a internet, redes particulares. Antes usávamos apenas terminais, hoje temos TV, rádio, diversos recursos, um web site na internet. [junta as mãos] Queremos explorar todas as plataformas e meios de comunicação, distribuir informação das formas mais diversas [gesticulando] . Acho que as empresas da mídia precisam disso. Se a empresa se restringir a uma única área, vai sobreviver, mas vai crescer menos. É preciso fazer tudo. A única coisa que não fazemos é publicar um jornal, embora tenhamos publicações internas, e nosso serviço seja usado por outros jornais. O jornalista não é de uma única área. A empresa o obriga a diversificar.

Fátima Turci: Nessa sua resposta está implícita a distribuição de informações mais genéricas do que as atuais? Quer dizer, utilizando todos esses meios, os meios disponíveis possíveis, mas distribuindo informações mais genéricas do que a hoje a Bloomberg faz?

Michael Bloomberg: Vamos distribuir informação de forma a cobrar por ela, além de pagar e ter lucro. Você distribui diferentes tipos de informação, dependendo da disposição do cliente em pagar e de sua sofisticação. Um produto que custa US$1.285 ao mês não é adequado para as pessoas comuns. Estas devem acessar nosso site, que é gratuito. Não podem usar o serviço de US$1.285 e não podem pagar por ele. Por outro lado, o site não basta para um profissional.

Noenio Spínola: Por razões profissionais eu sou um usuário dos seus terminais há vários anos...

Michael Bloomberg: Thank you [obrigado]!

Noenio Spínola: Welcome [de nada]! [risos] E pela manhã você oferece gratuitamente, via internet Bloomberg... thank you [obrigado] Eu tenho visto que vocês estão investindo muito na Bloomberg University. Você acredita em educação, e o seu terminal é ao mesmo tempo um terminal de informação e um terminal de reciclagem profissional. Há cinco anos ou seis anos atrás [1995, 1994], você não via a Bloomberg oferecendo simultaneamente o terminal clássico e a opção da internet. A minha pergunta é: “em que velocidade você acredita que a intranet, as extranets e as internets [gesticulando] estarão integradas profissionalmente, e qual o papel do treinamento e da reciclagem profissional nesse processo de integração dos três círculos”?

Michael Bloomberg: São coisas diferentes. No treinamento, nós queremos formar o homem. Então, quanto mais sofisticado o público, mais vai querer nossos produtos e ferramentas. Temos muito interesse em treinar as pessoas nos mais recentes métodos de análise... ou mostrar a elas novos mercados, porque vendemos as ferramentas de que elas vão precisar e a informação de que precisam para fazer isso. A idéia da universidade não é dar formação ao mundo, é formar pessoas para que queiram comprar mais do nosso produto. Quanto ao uso da internet, acho que em 2 anos [2002], não muito menos nem muito mais, em várias partes do mundo a rede será rápida e confiável e poderemos abrir mão de redes privadas, a extranet, e forçar o acesso do cliente via internet. Espero que até lá o problema da segurança esteja superado, se não a transição não será possível, mas isso é muito diferente do tradicional. Na internet, as pessoas imaginam um site gratuito, mas não pretendemos divulgar informações de graça. O processo é caro, temos mais de 70 mil funcionários, que coletam dados e ajudam na distribuição deles. Eles também precisam ganhar a vida, como eu.

Rodrigo Mesquita: Voltando um pouco à minha primeira pergunta e também a uma coisa que foi aqui recorrente durante todo o programa. Quando a gente fala em internet, está falando basicamente de uma rede de comunicação global. Ela é fruto de um processo de desenvolvimento que começou com as redes locais dentro das empresas. Aqui no Brasil, em 1988, as únicas empresas que sabiam o que era rede de comunicação e os únicos profissionais que sabiam trabalhar com computador, razoavelmente, eram os profissionais do mercado financeiro. Nem nas empresas jornalísticas esse processo estava se iniciando.  De 1988 para cá [ano 2000], a internet veio ao público com uma cara gráfica, com todas as funcionalidades dela, em 1994, 1995. Num mercado como o norte-americano, onde as redes físicas estavam disseminadas na economia, e isso também explica a eficiência e competição e a competência da economia americana. Quer dizer, houve uma ligação da economia que já estava ligada em redes com seus principais fornecedores, algumas vezes com o seu principal público, se conectou a internet multiplicando as suas possibilidades, alavancando as suas possibilidades tremendamente. Aqui no Brasil você ainda está num processo como esse. Na maior parte do mundo, pelo menos 60% do público que usa computador, tem dificuldades tremendas para usar um computador... tem medo de usar um computador. Nós vamos sair de pelo menos uma geração para o público ter tanta intimidade e tanta facilidade com o computador, quanto você tem hoje com o telefone fixo, não o telefone celular. A sua empresa é um fenômeno desse processo. Ela não existiria, não teria dimensão que ela tem, se não fossem as redes de comunicação. O senhor não acha que a sua posição em relação à internet... evidentemente que você não pode pensar que o comércio virtual vai amanhã dar resultados, e que ele vai ser absolutamente avassalador. As pessoas precisam de relações pessoais e tudo. Nós estamos num processo que é muito difícil prever o que vai acontecer. O senhor não acha que a sua posição em relação à internet é um pouco conservadora em função de uma empresa que teve até uma vantagem por não ter redes públicas... ela surgiu onde... um dos fatores estratégicos do negócio era você ter capacidade para você desenvolver a sua rede de distribuição, e hoje você tem uma rede pública e a possibilidade de especialistas desenvolverem conteúdos específicos para trabalharem também no seu mercado. Quer dizer, não é uma posição um pouco conservadora, não é um pouco atrevido demais dizer que a aviação vai ter mais impacto sobre a economia do que um processo das redes de comunicação, não só a internet?

Michael Bloomberg: Quero dizer uma coisa. Minha mãe tem 91 anos, e há dois meses ela me ligou para perguntar que tipo de computador deveria comprar. Eu disse que compraria um para ela, mas perguntei por que ia querer um computador. Ela respondeu que “todo mundo” acessava a internet, e ela deveria saber do que se tratava. Para falar comigo, ela pode telefonar, não precisa mandar um e-mail, mas comprei o computador para ela, enviei um técnico para treiná-la em Boston, e agora ela vive fazendo perguntas malucas sobre a internet. Ela já sabe mais do que eu, e eu sou bem mais novo [sorri]. As pessoas não têm medo necessariamente [cruza as mãos]. Você disse que 60% das pessoas têm medo, mas cerca de 50 a 60% das pessoas no mundo nunca telefonaram. Então estamos falando de um grupo menor de pessoas. Se me considero conservador? Acho que tudo vai ser uma grande rede. Não duvido disso [gesticula]. A tecnologia fica melhor e mais barata, há cada vez mais integração. Um dia sua máquina lava-louças vai ter um chip que transmitirá sinais dentro da casa, e algo na casa fará a comunicação com a internet para avisar ao fabricante que ela está com problemas, o defeito poderá ser diagnosticado on line, talvez até solucionado dependendo do caso. Não devemos achar, no entanto, que a internet substitua alguma coisa. O fato de tudo estar em rede não muda de fato muita coisa. Ela nos permite fazer coisas novas, mas não me julgo conservador a princípio. Ainda vai demorar muito para todos fazermos compras em casa, frente a um teclado, e não estarei vivo para ver isso.

Rodrigo Mesquita: O senhor concordaria que o ambiente das redes é o ambiente da expansão do conhecimento humano, da expansão do espaço cultural, do ser, do indivíduo, da sociedade, do espaço econômico, do espaço político, do espaço social? Assim como nós saímos da Europa, do Mediterrâneo por uma necessidade nos anos 1500 [período das grandes navegações, de descobertas de terras além da Europa], agora nós estamos passando por um espaço virtual, por uma necessidade cultural, econômica, política e social também. É a nova fronteira da humanidade.

Michael Bloomberg: Não há nada demais em dispor dessa tecnologia. Algumas pessoas vão usá-la, cada vez mais gente vai usá-la, mas sem uma linha telefônica não se usa a internet. A diferença entre ricos e pobres na era digital é que os pobres na maioria não têm telefone. Dizem que é o grande problema, mas eles não sabem ler, não têm o que comer. Esses são os grandes problemas. Não importa se eles não podem acessar o site do Henry James [escritor americano, naturalizado britânico, autor de vários livros importantes para a literatura inglesa]. Quem vende tecnologia, computadores, ISP e telefones quer que você acredite que os pobres precisem de acesso à internet, mas não é esse o grande problema, não podemos esquecer isso. Mesmo dentro do grupo que tenha linha telefônica, não fica claro por que deveriam ter contato contínuo, ou por que isso seria vantajoso. Vamos pensar num aparelho inventado há 60 anos, que era uma grande promessa. Era uma tecnologia, que aumentaria a distância entre ricos e pobres, porque seu preço era muito alto [gesticulando]. O aparelho daria acesso à cultura e treinamento, você aprenderia mais e teria empregos melhores, mas os pobres não teriam acesso, ficariam à margem. Alguns políticos quiseram proibir essa tecnologia. Estou falando da televisão, e a história foi bem diferente. A televisão foi a pior coisa que já aconteceu aos pobres, porque eles pararam de ler, os pais põem os filhos diante da TV à noite, em vez de conversar com eles, criamos expectativas irreais nas pessoas pobres, que acham que todo mundo é lindo, vive em casas lindas...  

[intervalo]

Paulo Markun: Voltamos com a Roda Viva, que esta noite entrevista o empresário de comunicação Michael Bloomberg. No livro que o senhor publicou, Bloomberg by Bloomberg [livro editado em 1998], o senhor faz uma competente mistura de autobiografia, promoção da sua empresa e, ao mesmo tempo, tem algumas pitadas de livro de aconselhamento, digamos assim. E é justamente sobre esse enfoque que eu gostaria de fazer uma pergunta. Surpreendentemente para quem está acostumado a ler esses livros que têm soluções mágicas para todas as coisas do mundo, o senhor caminha numa outra direção e diz, entre outras coisas, que o segredo do sucesso é mais ou menos trabalhar muito, ter bastante sorte e corrigir o percurso à medida em que a realidade vai mudando. O senhor diz textualmente, na tradução brasileira: “Tanto nos negócios quanto em casa, eu nunca deixo os planejamentos influenciarem a minha forma de agir”. O senhor diz que a vida funciona da seguinte forma: “que são pequenas oportunidades surpreendentes e a gente vai capturando essas oportunidades e construindo um caminho”. Eu queria que o senhor explicasse melhor isso, que eu tenho certeza, é uma tese que o senhor defende.

Michael Bloomberg: Talvez os outros sejam mais capazes e consigam fazer planos para o futuro. Eu não consigo [sorri]. Minha experiência ao conhecer esses planos me diz que eles são inúteis. Não que as pessoas que tentam prever o futuro sejam burras, ou mesmo desonestas, mas não é possível fazer isso de verdade. Sempre acontece algo inesperado e, se você tiver planos rígidos que não podem ser mudados, vai ter em mãos as ferramentas erradas ou vai estar no lugar errado. Algumas coisas acontecem por sorte, e só o que podemos fazer é nos preparar para reagir no momento certo. Ler, por exemplo, é uma habilidade muito útil, mas planejar o que ler até o fim da vida não faz sentido. Nesse caso, você estará preso, ao passo que de outra forma poderá se adaptar. Isso vale também para ética no trabalho, para conhecimentos de matemática e história, para perceber como as coisas se encaixam. Podemos falar muito sobre uma boa formação clássica, e quando as empresas reclamam da formação dos funcionários porque as escolas não cumprem sua função - imagino que essa reclamação também exista aqui - querem dizer, na verdade, que esses funcionários não têm os fundamentos nem a habilidade básica de pensar e não têm a ética desejada. Não se pode aprender nada sobre tecnologia no colégio que tenha alguma remota utilidade depois. A tecnologia aprendida hoje estará obsoleta amanhã. Aprender a usar um processador de textos ou como um computador funciona, por exemplo, não faz sentido. Aprender a datilografar talvez seja mais útil, mas talvez até isso seja substituído pelo sistema de reconhecimento de voz ou de leitura cerebral um dia, nunca se sabe. Os antigos valores ficam mais importantes à medida que temos mais tecnologia e comunicação. Seus filhos devem aprender os antigos valores. Saber ler, escrever e calcular é cada vez mais importante. A comunicação dá mais opções ao consumidor. Se você é escritor, mais gente terá acesso ao seu trabalho, isso é bom, mas também ao trabalho de outros escritores, isso é mau. Isso significa que você deve estar acima da média, dominando antigos conhecimentos, e as coisas novas você aprende rápido. Também é verdade que, com o avanço da tecnologia, temos menos necessidade dela. Os valores antigos ficam mais importantes e você precisa saber cada vez menos sobre a tecnologia. Por exemplo, quando o automóvel foi inventado, as pessoas paravam na estrada, erguiam o capô e mexiam no motor. Era preciso entender de motores de combustão interna para dirigir um carro logo no início. Hoje, você nem precisa abrir o capô. O que você poderia fazer? o que verificar? É ridículo. Não é preciso entender de carros, é mais fácil dirigi-los hoje, mas é preciso ter melhor senso e saber que é perigoso correr, que causará mais estragos a 120 por hora do que a 30 por hora, que não se deve beber e dirigir, é preciso saber para onde você quer ir, pois hoje se pode ir a mais lugares. Há outros exemplos que mostram que a tecnologia vai ficando mais complexa, internamente, mas o resultado externo é uma simplicidade maior. Hoje, usamos vários controles remotos, mas há aparelhos que você pode usar para dizer o programa que quer ver, sua voz será decodificada e a TV será ligada. É essa a onda do futuro.

Fátima Turci: Nessa suas observações, eu perguntaria: “esse seu conservadorismo de hoje é nítido em todas as respostas, um old fashion, uma constante busca por valores, não há aqui qualquer juízo de valor da minha parte...

Michael Bloomberg: [interrompendo] Eu sou prático, não sou conservador. É bem diferente.  Sou a favor das mudanças, mas mudanças por mudanças ou que não serão úteis não são os nossos ideais. As tecnologias adotadas são aquelas que agregam valor às pessoas, e que você não percebe que está adquirindo. O celular é um bom exemplo de tecnologia adotada. Ele funciona como as linhas convencionais, não há diferenças além do botão enviar. Fora isso, você disca, fala e ouve do mesmo modo. E com o celular você pode sair de casa. Então, o celular deu certo porque agrega valor e é fácil de usar, só isso. O que não é verdade em relação a muitas dessas outras coisas.

Cida Damasceno: Nós atravessamos um período em que as empresas recorriam sempre aos super especialistas. A mão-de-obra dos super especialistas. Isso continua valendo nesse novo cenário, nesse mundo de mudanças mais rápidas, mais velozes ou aquele generalista que se adapta com mais facilidade às mudanças passou a ser novamente requisitado?

Michael Bloomberg: Se eu fosse contratar alguém, minha opção seria o generalista capaz de pensar, porque ele pode usar a tecnologia para ter acesso aos fatos. Por exemplo, em nossa empresa, mudamos o estilo das recepcionistas. Em vez de atender ao telefone e passar a ligação a alguém, elas hoje são capazes até de resolver sua dúvida ou de ajudar a formulá-la para que nosso especialista possa entendê-la melhor. Hoje é preciso ter mais contato pessoal com o cliente, não menos. Essa é a falha fundamental do chamado modelo da internet [fazendo gesto de aspas] Esse modelo só dá certo, em termos de lucratividade, se a tecnologia substituir as pessoas. Você pode argumentar comigo: mas, basicamente, três pessoas numa garagem, com um PC moderno de mil dólares, eles podem substituir a maior empresa do mundo. Os analistas escrevem sobre isso, talvez você escreva também, porque está na moda, mas isso é ridículo, na verdade não é o que acontece no mundo real. A tecnologia melhora a produtividade. Em vez de reduzir o quadro, as empresas contratam mais. Em todas as grandes cidades do mundo, há cada vez menos terrenos disponíveis do que antes. As empresas sentem falta de gente para contratar e de espaço para se instalar. Isso não ocorreria se as empresas substituíssem as pessoas por tecnologia. Muita gente diz que é cada vez mais difícil usar a tecnologia e que as pessoas mais desesperadas, sobretudo os pobres, vão ficar para trás. Isso não é verdade também. Como eu já disse antes, melhores tecnologias são as mais fáceis de usar. Se você observar um país como os EUA, onde há um alto nível de automação e onde gastam-se trilhões de dólares em tecnologia, vai perceber que o nível de desemprego está batendo recordes de tão baixo, e não é um recorde inexpressivo; é um recorde significativo. A tecnologia abriu espaço no mercado de trabalho para pessoas que não tinham habilidade antes e tornou-as mais produtivas do que poderiam ser, porque se ocupa de tarefas que elas não executariam. Pode ser trabalho braçal, intelectual ou interativo, mas muito mais gente sem habilidades específicas conseguiu se colocar no mercado do que em qualquer outra época. Não que a educação não seja uma necessidade, ou que a tecnologia seja a cura de todos os males da sociedade. Mas essa tecnologia está sendo adotada na forma correta por empresas, governos e organizações bem administrados, permitindo que se aperfeiçoem ainda mais. Para as empresas mal administradas, a tecnologia não é a solução, muito pelo contrário. Elas vão investir tanto que vão quebrar mais rapidamente.

Rodrigo Mesquita: No seu livro [Bloomberg by Bloomberg]tem uma parte muito interessante em que o senhor fala do ponto de vista do empreendedor que está desenvolvendo suas idéias. E, na época, o senhor dizia: “Tenha muito medo. Afaste o que você puder dos consultores. Porque eles vão pedir para você fazer projeções de 5,  10 anos num ambiente de negócios em que nem negócio tradicional você consegue projetar uma receita de 2 ou 3 anos”. Hoje, países não centrais como o Brasil, as consultorias aumentaram barbaramente o mercado: Mackenzie, Buzares, Anos Consult [empresas de consultoria financeira], o diabo... aí atrás de projetos de internet. Que conselhos o senhor daria para os empresários brasileiros nesse sentido?

Michael Bloomberg: Se você trabalha com consultoria, continue. Deve estar ganhando bem [risos]. Não vejo problemas em chamar alguém de fora para analisar os seus problemas de forma diferente. Não vejo problemas em chamar alguém de fora para ajudar a resolver uma questão política, porque se uma outra pessoa sugere alguma coisa, fica mais fácil vender a idéia. Contudo, não vejo soluções fáceis para problemas complexos, e não acho que gente de fora possa resolvê-los. Muitas empresas teriam melhores resultados se ouvissem mais os seus funcionários - até mais embaixo na hierarquia -, que podem ter boas idéias, ou se percebessem que não têm controle sobre certas coisas [gesticulando]. Os administradores deveriam reconhecer que ter sucesso envolve muita sorte e que saber fazer uma coisa não significa saber fazer várias outras coisas. Na consultoria, existe um problema: a idéia é dar o melhor conselho, mas se a idéia for continuar o que você está fazendo, eles não ganham nada, ou não são chamados de novo. É essa a razão implícita pela qual eles recomendam mudanças, que muitas vezes não são necessárias. E mesmo quando eles recomendam mudanças, elas devem ser aceitas pelo administrador que os contratou: afinal eles precisam ganhar a vida como nós, sustentar a família etc., e não é uma boa atitude dizer que os outros são burros. Os consultores sempre dizem aos administradores - ou a quem quer que os contrate - que eles estão fazendo as coisas corretas e que poderiam fazer outras também. Na verdade, às vezes a empresa deve mesmo mudar, alguns consultores dão bons conselhos, mas duvido que um dia eles digam: O grande problema na sua empresa é que você é um péssimo administrador, deveria se aposentar hoje, sem receber nada, e colocaríamos alguém no seu lugar. Mais provavelmente do que qualquer outra coisa.

Andrea Fornes: Ainda sobre o seu livro, o senhor tem um jeito um pouco irônico quando fala dos concorrentes e adversários, como se fossem até desprezíveis. Eu queria saber se é assim que o senhor encara a concorrência, e qual seria o principal concorrente da Bloomberg? Se é a Reuters [uma das maiores agências de notícias americana] ou não.

Michael Bloomberg: Sempre digo aos funcionários que, quando perguntarem sobre a diferença entre o nosso produto e o produto da concorrência [gesticulando aspas com as mãos], a única resposta possível é: “Senhor ou senhora, permita-me dizer como nosso produto pode ajudar você. Não somos especialistas nos outros produtos, você teria de falar com outra pessoa”. Eu não entendo quando as pessoas de uma empresa falam de outra empresa do mesmo ramo, ou similar. Por que fazer propaganda? Por que despertar no interlocutor a necessidade de ligar para outra empresa? Eu não diria aqui quem são nossos concorrentes, cada área tem suas particularidades, assim como seus clientes [gesticulando]. Muitos clientes nossos podem dizer que somos os únicos que oferecem esse serviço. Outros dirão que não, que é possível escolher entre várias empresas. Não vim aqui para falar dos produtos dos outros, nem para fazer publicidade para eles.

Noenio Spínola: De qualquer maneira você vive num mundo competitivo. Quando você vive num mundo competitivo, ou você adota uma estratégia local ou uma estratégia global? Como você concilia a estratégia global da sua empresa com o cenário local, como o brasileiro? Essa é a minha primeira pergunta. A segunda, mais ou menos na mesma linha: você mencionou o telefone celular. O telefone celular no Brasil teve um grande sucesso, porque sendo um país pobre, ele foi simplesmente mais rápido. Este é um problema local. Esta é uma solução local. Como você vê a sua empresa no contexto da global competion, da competição global? A Reuters inclusive. Como você vê a sua empresa no ambiente competitivo brasileiro?

Michael Bloomberg: Não sei o que essa empresa [Reuters] que você mencionou faz [risos], não sou especialista nisso, mas acho que há três estratégias, e não só a local e a global. Eu diria local, internacional e global. A local é vender seu produto na sua área. A internacional é vendê-lo mundo afora. A global é produzir no mundo todo, de acordo com os gostos e as necessidades locais de cada um dos públicos. Dizem que não se sobrevive com uma estratégia local, embora a livraria da esquina, a quitanda ou a confeitaria consigam sobreviver localmente, e não vejo por que ou como elas deveriam se expandir. Para os fabricantes, foi moda há alguns anos, em diferentes momentos, dependendo do local, operar no mercado internacional, o que tem a seguinte vantagem: seu custo não aumenta, porque você usa o produto local, mas você vende no mundo todo, há mais consumidores em potencial. Os ganhos sobem, mas os custos não, e o lucro aumenta, a diferença entre ganho e custo. Essa era uma grande idéia. No entanto, veio a tecnologia, e vamos nos concentrar na internet aqui. O que a internet fez para o consumidor foi eliminar diversas barreiras, permitindo contato com produtos antes inacessíveis. Antes da internet, você tinha acesso apenas a produtos locais. Agora, você tem acesso a produtos do mundo todo. Como consumidor você tem mais opções. Se você tem opções, comprar um produto feito em outro país, de acordo com as necessidades e gostos daquele público, fica menos atraente. Se antes aquele produto era a única opção, você comprava, mas agora você vê muitas outras coisas, que lhe permitem escolher, tendo poder de negociar e exigir que os produtos se adaptem à sua necessidade. A estratégia em questão não é internacional, a local e a global, mas a local, que basta para o restaurante da esquina, e a global, necessária para você crescer e vender mais em todos os lugares. Isso é bom para o consumidor, mas ao mesmo tempo em que a tecnologia dá mais opções para o consumidor selecionar e negociar, ela não ajuda intermediários e fornecedores. Ela reduz o contato que gera o ganho do intermediário, e, portanto sua renda cai, e o fornecedor precisa estar mais atento para satisfazer às necessidades do consumidor. O que significa maior custo para os produtos. Dizem que muitas empresas vão ganhar mais com a internet, mas eu não vejo isso, pelo contrário. Entendo os benefícios para o consumidor, mas não acho que será mais fácil para as empresas. Elas terão mais dificuldades. Eu sempre digo que teremos de trabalhar mais duro no futuro, porque nossos clientes vão exigir mais e, se não atendermos à demanda, vamos falir. Isso vale para qualquer área.

Paulo Markun: Mr. Michael, o nosso tempo está acabando e nós teríamos mais perguntas inscritas, mas eu tenho a responsabilidade de encerrar o programa. Eu queria encerrar com uma pergunta curta, para a qual eu não consegui encontrar resposta nem no livro do senhor, nem no material de pesquisa que a gente teve, porque há dados conflitantes. O senhor saiu em 1981, foi demitido da Salomon Brothers e levou 10 milhões de dólares. Em algum lugar eu li que o senhor investiu 300 mil dólares no seu negócio. Em outro lugar que o senhor investiu 4 milhões de dólares. Eu queria saber quanto foi investido e se esse é um bom conceito. Investir um pouco e guardar um pouco também.

Michael Bloomberg: [sorri] Comecei com US$300 mil, e por três anos mensalmente fui injetando mais dinheiro, porque minha estimativa estava muito errada. Quando começamos a obter lucro, eu já havia investido US$4 milhões.

Paulo Markun: Ou seja, ainda sobrou alguma coisa daquele começo e essa é uma boa receita talvez?

Michael Bloomberg: Sobrou um pouco. Ninguém precisa ter pena de mim. [risos]

Paulo Markun: Muito obrigado pela sua entrevista. Obrigado aos nossos entrevistadores e a você que está em casa. O Roda Viva volta na próxima segunda-feira, sempre às 10:30 da noite. Uma ótima semana, uma boa noite e até lá!

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