Memória Roda Viva

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José Junior

21/5/2007

Abordar jovens na favela, mediar conflitos com os traficantes, lutar contra o consumo de drogas e, ainda, levar cultura e educação para a periferia do Rio são os principais desafios da ONG AfroReggae

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Paulo Markun: Boa noite. Ele nasceu e cresceu em bairros pobres do Rio de Janeiro. Desde cedo conviveu com a violência e com a falta de oportunidade para os jovens. Há 14 anos tenta mudar essa realidade trabalhando para resgatar a cidadania nas favelas, quebrar barreiras e também pela inclusão social e cultural das comunidades carentes da cidade. Durante esse trabalho chegou a mediar conflitos entre comunidades rivais cariocas. Na ONG que administra, coordena mais de 60 projetos e beneficia 2 mil pessoas diretamente pelas suas ações. Tem um orçamento em torno de 6 milhões de reais. O entrevistado desta noite é José Junior, fundador e coordenador do Grupo Cultural AfroReggae. O Roda Viva começa em instantes.

[intervalo]

Paulo Markun: José Junior foi entregador de jornal e animou festas de crianças fantasiado de super-herói. Mas, disposto a mudar a realidade da comunidade de Vigário Geral, tirou a fantasia de Batman e foi à luta com o que tinha de disponível – muita força de vontade.

[Comentarista]: José Junior nasceu em Ramos e cresceu nas ruas pobres no bairro da Lapa no Rio de Janeiro. Ele é fundador e coordenador do Grupo Cultural AfroReggae, que há 14 anos trabalha pela inclusão de jovens das comunidades carentes do Rio de Janeiro. O projeto ganhou destaque depois da chacina de Vigário Geral, em 1993, quando policiais invadiram a favela e assassinaram 21 moradores inocentes para vingar a morte de quatro policiais por traficantes. José Junior, que comandava nas favelas cariocas um jornalzinho, AfroReggae Notícias, ampliou a ação e conseguiu colocar a comunidade nas páginas de cultura dos jornais ao criar oficinas com aulas de reciclagem de lixo, percussão e dança afro. O AfroReggae tornou-se conhecido pelos projetos musicais, mas também tem a meta de criar mecanismos que possibilitem o surgimento de intelectuais na comunidade. O grupo trabalha para resgatar a cidadania nas favelas e quebrar barreiras sociais. Uma das missões do AfroReggae é tirar jovens do narcotráfico e do subemprego ao oferecer atividades que consigam atraí-los. Mediar conflitos entre comunidades rivais nunca esteve nos planos da organização, mas virou necessidade para evitar que as pessoas se matem e, principalmente, que inocentes sejam afetados. Atualmente o AfroReggae tem 61 projetos como banda de música, grupos de circo e teatro e um grupo de dança. Os núcleos de AfroReggae desenvolvem oficinas de cartum, violino, percussão e grafites. A ONG tem 176 pessoas na folha de pagamento entre profissionais e jovens em formação. Beneficia 2 mil pessoas diretamente pelas suas ações, já recebeu mais de 40 prêmios, nacionais e internacionais, e tem orçamento em torno de 6 milhões de reais em patrocínio, palestras, shows e vendas de CDs e DVDs. O grupo de música de Vigário Geral faz turnês pelo Brasil e exterior. Em 2006 abriu o show dos Rolling Stones em Copacabana, que levou mais de 1 milhão de pessoas à praia.

Paulo Markun: Para entrevistar o fundador e coordenador do Grupo Cultural AfroReggae, José Junior, nós convidamos Rappin Hood, do Rappy; Bruno Paes Manso, repórter do Jornal Estado de S.Paulo; Jorge Antonio Barros, editor adjunto da Editora Rio, do jornal O Globo e autor do blog Repórter de Crime; Âmbar de Barros, jornalista e fundadora da Andi, Agência de Notícias dos Direitos da Infância; Mario Cesar Carvalho, repórter especial do Jornal Folha de S. Paulo; e Paulo Lins, escritor e professor de literatura e roteirista de cinema. Também temos a participação de Paulo Caruso, o cartunista que registra nos seus desenhos os momentos e os flagrantes do programa. O Roda Viva é transmitido em rede nacional de TV, a TV pública para todo o Brasil. Boa noite. Eu queria saber o seguinte: nesse tempo todo que você se dedica a essa ONG, a essa luta, a coisa melhorou ou piorou?

José Junior: De diversas formas melhorou. Melhorou bastante, tem muita coisa positiva. Acredito hoje até que, no Rio de Janeiro, não só o trabalho do AfroReggae, mas tem outras ações positivas, como a Central Única das Favelas, Masmorra, são muitas ações que acabam ecoando bastante. Mas naturalmente, os veículos de comunicação não dão a mesma visibilidade que dão para a violência. O AfroReggae é até uma exceção. O AfroReggae  é uma instituição que tem muita visibilidade até, devido a parceria que ele tem com a TV Globo. A TV Globo hoje é uma das principais parceiras do AfroReggae,  fazendo que cada vez mais o AfroReggae tenha uma visibilidade. Até mesmo uma credibilidade muito grande em todo Brasil.

Paulo Markun: Agora, não é um problema de volume de coisas? Quer dizer, se você bota a violência num lado da balança e os diversos movimentos, tentativas, digamos, de enfrentar isso promovendo a inclusão social e etc, do outro, não é desequilibrado? Ainda, a violência não ganha disparado?

José Junior: A violência não ganha disparado se você pegar o universo de uma favela como o Complexo do Alemão, que tem saído bastante em todas as revistas, jornais como o paiol do narcotráfico. E acaba até demonizando muito essa comunidade, que tem em torno de 170 mil moradores e você não tem mil pessoas envolvidas com o crime. Então, você vê que é uma diferença muito grande, está falando em menos de 1% da população dessa comunidade que é envolvida com a criminalidade. Quando eu falo criminalidade, não é em função do narcotráfico não. Então, em termos das comunidades, hoje, [o Complexo do Alemão] é a que mais sofre em todos os sentidos com a violência. Era um grande pólo industrial em torno daquela comunidade, e hoje está abandonada. Ao mesmo tempo, há um investimento hoje do governo estadual do Rio de Janeiro, que eu acho que vai mudar muito a realidade daquela comunidade, eles vão estar investindo em torno de 500 milhões de reais em urbanização, criação de escola, hospitais. Tem muita coisa boa também acontecendo. Mas infelizmente, as notícias negativas e ruins acabam ocupando o espaço principal.

Bruno Paes Manso: Mas, hoje, se a gente for ficar com as estatísticas que mostram a violência, o Rio de Janeiro vem mantendo índices preocupantes de criminalidade, faz algum tempo. Até comparando com outros lugares do Brasil, São Paulo, por exemplo, teve uma queda de 60% nos últimos 6 anos em homicídios. E no Rio a gente percebe que existe um..., mantém o mesmo patamar alto de violência. Por que no Rio de Janeiro as coisas não..., pelo menos os índices não caem?

José Junior: Eu não sou da área de segurança pública, não me sinto nem com informações suficientes, não tenho dados para te responder isso. Mas eu acredito também que o Rio de Janeiro, ele vive uma certa segregação social muito grande. E, ao mesmo tempo, é a cidade mais democrática do Brasil. São poucas as cidades que você vê... Por exemplo, na praia de Ipanema, você consegue ver pessoas da classe média, classe alta misturadas com a favela, com artistas. Então, assim, eu acho que realmente tem os seus alarmantes, também tem muito a ver, porque o tráfico no Rio praticamente faliu. E com a falência do tráfico, a máquina não pode parar. Então, eles vão para as ruas, muitas vezes acabam cometendo assaltos, delitos e etc e tal. Eu digo para você o seguinte: o trabalho do AfroReggae, a gente consegue hoje tirar muitas pessoas do crime, e sem metodologia complexa. Na verdade, a questão da oportunidade, da auto-estima, pode parecer muito simples diante desse caos urbano, que não só o Rio de Janeiro vive, como o Brasil, como um todo. Você percebe que quando tem um tipo de investimento que vai em educação, cultura, geração de renda, você consegue, na verdade, diminuir bastante o índice de pessoas envolvidas com a criminalidade.

Paulo Lins: A pessoa sai da criminalidade, o cara está lá, está no tráfico de drogas, está há 10 anos. Como eu vi aqui na reportagem que eu li sobre você, sobre o AfroReggae. Ela sai de lá, ela vai fazer o quê? Ela vai ficar empregada no AfroReggae, ela vai fazer alguma coisa, ela tem emprego? O AfroReggae dá um caminho para essa pessoa seguir?

Mario Cesar Carvalho: Ela ganha salário? Porque é o seguinte: o tráfico, a impressão que se tem, é que ele seduz, porque ele é uma alternativa econômica muito eficiente.

Paulo Lins: Status também.

Mario Cesar Carvalho: Status e dinheiro em caixa, na carteira. O AfroReggae consegue trabalhar com esse mesmo poder?

José Junior: No caso de ganhos geral, como nas comunidades que nós estamos trabalhando, nós pagamos mais do que a boca de fumo, financeiramente falando.

Mario Cesar Carvalho: A boca de fumo é o seu padrão, você se compara com ela?

José Junior: Comparo na questão de metodologia, muitas vezes. A gente utiliza as mesmas técnicas de sedução, que muitas vezes o tráfico utiliza para atrair os jovens. O desejo de pertencer a um grupo estruturado, status e auto-estima. Tem uma questão que a gente fala bastante que é o seguinte: o jovem que está envolvido com tráfico, ele é um empreendedor. Se questiona as técnicas de empreendedorismo que ele utiliza. Quando você investe e você possibilita que ele possa colocar alguns desejos, no caso da gente, usamos muito através da música, da cultura, da arte, e algumas vezes focando, formando esse cara num multiplicador. Nós temos absorvido muita mão-de-obra, contratando essa mão-de-obra, fazendo com que essa mão-de-obra, ela possa estar atuando, ela possa estar trabalhando.

Mario Cesar Carvalho: Quantas pessoas? Só para ter uma idéia.

José Junior: No tráfico?

Mario Cesar Carvalho: Para quantos você paga salário?

José Junior: A nossa folha hoje está passando de 200.

Mario Cesar Carvalho: Você não se sente enxugando o gelo nessa luta..., que eu aparentemente... me parece desigual?

José Junior: Não me sinto, porque eu estou vendo cair, na verdade, a questão mesmo de mitificação. Hoje, o Rio de Janeiro produziu vários ícones no Rio de Janeiro, O Mv Bill [(1974-) cantor de rap. nasceu na cidade de Deus, bairro periférico do Rio de Janeiro que passou a ser famoso depois da publicação do livro Cidade de Deus e do filme homônimo, lançado em 2003. Inicou sua carreira musical em 1998 com o disco CDD Mandando fechado, ganhando prêmios em 2001 pelo rap "Soldado do morro". É autor, junto com Celso Athayde, do livro-documentário Falcão: meninos do tráfico], por exemplo, o que faz com que muitos jovens tentem se espelhar, seguir aquele caminho. Só que eu acho que faltam mais pessoas como Paulo Lins [(1958) escritor, nasceu no bairro Cidade de Deus. Formado em letras escreveu, em 1998, o livro Cidade de Deus, que virou filme de grande sucesso, em 2002], de verdade, que é uma pessoa que veio da Cidade de Deus, que é um grande intelectual, que é uma grande referência. Os jovens têm que começar a perceber pessoas como Paulo. Eu acho que são figuras fundamentais e importantes que, às vezes, o cara, ele prefere se identificar mais com AfroReggae, porque é artista, porque é mais na área cultural, do que numa figura como Paulo Lins. O AfroReggae quer formar novos Paulo Lins também. Acho que para a gente isso é importante. A gente não está formando ainda intelectuais, mas queremos formar.

Paulo Lins: Isso que eu ia te perguntar. Queria saber se existe um trabalho efetivo para formar engenheiro, que bote o sujeito no caminho da educação? Porque, não se pode pensar que todo..., como você mesmo fala, todo negro favelado vai virar artista ou jogador de futebol. Não vai. Então, há um trabalho efetivo, por exemplo, o Ceasm [Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré], o Jailson faz isso, há uma ligação com que pegue...

Paulo Markun: É preciso explicar para o Brasil inteiro o que quer dizer essas...siglas né...

Paulo Lins: Ceasme é um centro de...,Eu não sei. É um pré-vestibular dentro da favela do Maré, que já tem mais de 10 anos, que prepara o jovem para acompanhar a escola, para entrar na universidade. Então, existe assim uma ligação entre você e o pessoal do Ceasm, existe um trabalho, vocês pensam em fazer alguma coisa?

José Junior: Tenho uma simpatia muito grande. O trabalho deles é uma grande referência. Mas, agora, a gente acabou de fechar uma parceria com o Banco Real, que a gente vai trabalhar muito com crédito universitário voltado para essas comunidades, comunidades populares. Então, eu acho que vai ter um estímulo muito grande em cima disso.

Âmbar de Barros: Você falou em crédito escolar. Eu queria saber como você avalia e se há um impacto dessas políticas sociais do governo federal nas favelas em que vocês trabalham, especialmente o Pro-Uni e o Bolsa Família. Tem algum, os meninos estão conseguindo?

José Junior: Do AfroReggae ninguém está envolvido nesses programas sociais do governo federal. Na verdade, pode ser até ignorância da minha parte. Mas eu não conheço nenhuma organização que trabalhe com esses programas no Rio de Janeiro, deve ter muitas.

Âmbar de Barros: Não, a minha pergunta é se você nota alguma diferença nas comunidades em que vocês trabalham, algum impacto desses programas?

José Junior: Alguns programas... Vários programas do governo federal, sim. Esses dois, especificamente, não, eu não percebo.

Âmbar de Barros: Quais impactos?

Jorge Antônio de Barros: Eu queria voltar à questão do tráfico, se você me permite. Pesquisas mostram que um a cada quatro jovens acaba ingressando no tráfico de drogas hoje no Rio.

José Junior: Que pesquisa? Eu não conheço.

Jorge Antônio de Barros: Pesquisa? Se eu não me engano, uma pesquisa da Fio Cruz, que foi divulgada há algum tempo. De qualquer forma é grande o volume de jovens ainda ingressando no tráfico.

José Junior: É pouco, perto do impacto que tem, muito pouco. Na verdade, é tão pouco jovem envolvido com a criminalidade. Na verdade, o barulho que é muito grande.

Jorge Antônio de Barros: Mas, de qualquer forma, o que eu queria saber de você é o seguinte: como o chefe do tráfico, nessas áreas onde vocês atuam, encaram essa potencial redução da mão-de-obra, na medida em que vocês tiram os jovens do tráfico?

José Junior: A gente nunca teve problema. Isso não quer dizer que a gente não venha a ter.

Jorge Antônio de Barros: Nunca houve ameaças?

José Junior: Teve problemas. Na verdade, vou te falar, com o segundo, terceiro escalão, com o primeiro nunca teve. Nós somos uma das poucas organizações sociais no Rio de Janeiro que entra em qualquer favela, independendo da facção do narcotráfico.

Jorge Antônio de Barros: Inclusive favelas dominadas por milícias, 90% das favelas do Rio hoje são dominadas por milícias, que são formadas por ex-policiais, policiais civis e militares.

José Junior: Nós tínhamos um projeto com a prefeitura do Rio chamado Conexões Urbanas, que acontecia intervenções artísticas, sociais. Aconteceram em 46 comunidades no Rio. Independente da facção, independente do problema que tinha...

Jorge Antônio de Barros: Mesmo na área dominada por milícias?

José Junior: O projeto, ele foi até 2005. E as milícias [existem há] 1 ano e meio, 2 anos para cá. Já existiam algumas, uma em Jacarepaguá. As informações que chegam para nós, até de policiais que tem uma relação com as milícias, é que há uma simpatia muito grande pelo nosso trabalho. Se você perguntar por que, eu não sei te responder. Porque o tráfico tira a mão-de-obra deles? Este eu já entendo um pouco mais. Primeiro, porque hoje os educadores do AfroReggae, boa parte deles já foram do narcotráfico. Se você tiver vendo uma abordagem do AfroReggae numa boca de fumo, você não sabe quem é o traficante. Se é o nosso educador ou se é o bandido. Porque ele se veste de maneira igual, ele fala de maneira igual, ele usa técnicas parecidas. A gente chama até de narco-cultura, que é a metodologia utilizada, que vai além do poder paramilitar na venda de drogas.

Jorge Antônio de Barros: Isso tem ilícito, é verdade?

José Junior: Exatamente. O filme Cidade de Deus e o livro Cidade de Deus é narco-cultura. O próprio trabalho que o AfroReggae faz pega desses conceitos. Agora, quando você usa o nome narco ele pode ser mal interpretado também. Isso passa por comportamento, gastronomia, estética, passa por geração de renda ilícita.

Rappin Hood: Mais ou menos dentro disso que vocês estão falando, o hip-hop, hoje em dia, ele sofre de um preconceito. A gente tem problemas com a polícia. E dentro disso eu gostaria de saber, como é esse trabalho que vocês realizam junto com a PM [Polícia Militar]? Como é esse trabalho que vocês desenvolvem? Porque eu achava legal, a gente poder explicar o que é o hip-hop para a polícia brasileira.

Jorge Antônio de Barros: E eu acrescento: por que é que esse trabalho foi recusado no governo anterior do Rio de Janeiro?

José Junior: Olha, em 2002 um integrante do AfroReggae que também era do Rappa [grupo musical] tomou um tiro de fuzil no pé. Teve o pé estraçalhado. A gente ficou muito revoltado, fizemos um vídeo, esse vídeo ele ia passar..., 14 emissoras queriam passar esse filme. Mas na época o Arthur Lavínia assistiu e falou que a gente ia ganhar muitos processos. E eu até fiquei feliz de não ter passado, porque ele ia criar um problema maior do AfroReggae com a polícia, porque esse clipe ele mostrava arbitrariedade dos policiais, corrupção e violência. E aconteceu, nesse meio tempo também, uma pesquisa da professora Sílvia Ramos, chamada "Elementos suspeitos" [O estudo faz parte da iniciativa do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes. O nome do projeto é "Abordagem policial, estereótipos raciais e percepções da discriminação na cidade do Rio de Janeiro]. E nessa pesquisa, eu era a pessoa que batia todos os recordes de ser abordado nas blitz. A professora me perguntou assim: “mas porque você é tão parado?”. Professora eu saio de madrugada nas favelas mais violentas e tem operação policial. E eu estou sempre com quatro homens dentro do carro comigo. São esses conflitos bolhas, essas coisas. Então eles me param, só que com o tempo, eles começaram a me pedir CD e camisa, não era propina, não era corrupção. E eles ficavam... O AfroReggae tem CD, tem camisa, essa coisa e tal. Aí eu comecei achar isso um pouco engraçado, eu comecei andar com a camisa e com o CD. Até que teve uma cena que me marcou muito. Essa história, inclusive, esta semana eu contei ela várias vezes. Eu estava passando na Linha Vermelha [designação popular da Via Expressa Presidente João Goulart (RJ-071), no Rio de Janeiro, devido ao alto índice de tiroteios entre políciais e traficantes das 18 favelas que margeam a avenida], estava tendo um tiroteio muito grande, todo mundo estava andando na contramão, o policial falou: “você não, você fica”. Eu fiquei, estou acostumado com tiroteio, só que estava ficando muito intenso, e no decorrer do papo ele falou “eu te conheço, é do AfroReggae”. Falei "sou". Ele falou “Pô tem uma camisa e um CD”. Isso no meio do tiroteio, "tenho cinco, toma aí". Está liberado, quando dei a ré o outro policial gritou “vai aonde”, o amigo já me liberou, aí ele falou: “É do AfroReggae, está tranqüilo”. Aí ele falou: "E aí. Tem cinco camisa ali, “cinco? nós somos 20”. [risos] Mas aquilo não era propina, aquilo era querer... Eu senti que eles eram muito parecidos com as abordagens que a gente sofre nas favelas. Qualquer favela que a gente vai no Brasil pedem camisa e CD. Fiquei com isso na cabeça, procurei de novo a professora Sílvia Ramos. Falei: "professora, vamos fazer um trabalho com a polícia do Rio". E ela me falou o seguinte: “contra a polícia”. Falei "não, com a polícia". As mesmas oficinas, as mesmas técnicas que a gente faz na Vigário Geral, Parada de Lucas, Cantagalo, nós fazemos com a polícia. Ia acontecer no Rio de Janeiro, acabou não acontecendo por uma questão política. Nesse período, eu também tinha lançado um livro chamado Da favela para o mundo. Quando eu fui lançar em Belo Horizonte, o sub-secretário, quer dizer, secretário adjunto de Defesa Social, Luis Flávio, eu estava numa coletiva, ele ouviu eu falando desse projeto que estava parado. Ele falou: "vem fazer aqui em Minas Gerais". A gente tinha o patrocínio da Fundação Ford, mas não tinha dinheiro para passagem área, hospedagem. Fomos trabalhar com a polícia de Minas. Três dias antes de começar o projeto, não tinha nenhuma inscrição, aula de percussão, teatro, grafite, circo. Eu falei com o... Então, na época, comandante do vigésimo segundo batalhão, falei coronel "não tem ninguém inscritos", ele falou “fica tranqüilo”. Aquele jeito dele bem democrático: “Eu quero agora 80 voluntários! Você, você, você já são voluntários”. E aí tivemos 500 inscrições, sei lá quantas. No primeiro dia de aula os caras vêm de moletom, bermuda, vieram todos fardados, armados, com colete a prova de bala, totalmente injuriados e obrigados por estar ali. Mas no quarto dia nós já ganhamos os policiais. Hoje esse projeto é um projeto modelo. O governo do Aécio Neves [(1960-), governador de Minas Gerais, do PSDB, reeleito em 2006] tem um papel fundamental, porque ele encampou, ele chamou a responsabilidade para ele, para o gabinete. O que é muito interessante, você vê policiais em algumas escolas, algumas comunidades chegando de viatura, fardado e armado. Agora, a gente faz questão que eles andem fardado e armado, com instrumento de percussão, o policial fardado e armado ensinando o jovem a grafitar. Então, o projeto, ele ganhou essa dimensão muito grande e agora com esse novo governo. O governo do Sérgio Cabral [(1963-) governador do Rio de Janeiro a partir de 2006, do PMDB] em julho deve começar a implantar no Rio de Janeiro.

Rappin Hood: Você acredita que esse mesmo projeto pode ser abraçado pela PM de São Paulo e pode funcionar com o hip-hop paulistano?

José Junior: Eu acho que pode. Agora é o seguinte: na verdade, aqui em São Paulo, eu acho que o AfroReggae pode trazer um pouco da tecnologia social desenvolvida. Mas pessoas como você tem que abraçar. Algumas ONGs, como a própria Sou da Paz tem que abraçar. O Sou da Paz tem muito interesse de trazer esse projeto aqui em São Paulo. Em Minas Gerais deu certo porque o governo encampou, algumas instituições sociais encamparam também. A gente é de fora. Então, o importante é trazer o método que deu certo e ser adaptado, porque é diferente. Que nem o hip-hop, o hip-hop no Rio não é o mesmo sucesso que é em São Paulo, no Rio a coisa é mais do funk. Então, você tem que adaptar a cultura local e respeitar cada praça. Cada praça é uma realidade diferente, por mais que seja Brasil.

Paulo Markun: José, o jornalista e editor da revista Trip, Paulo Lima, tem uma pergunta sobre a participação da elite brasileira nesse processo de resgatar a cidadania da população. Vamos ver.

[VT dePaulo Lima]: Boa noite, Junior, é muito legal ver que você está aí no centro do Roda Viva. Acho que você merece mesmo. Este é um programa que tem importância pela reflexão que ele gera e acho que você é o cara. A gente tem conversado muito nos últimos tempos, eu sei que você tem sido um grande construtor de pontes entre o Brasil poderoso, a chamada elite, e o Brasil esquecido. Eu quero saber o seguinte: dessas pessoas poderosas com quem você tem interagido nos últimos tempos, que você tem conhecido e tem trazido para o lado de cá, qual a porcentagem desse pessoal que tem dinheiro, que tem poder, que tem influência, que está realmente entendendo o que está acontecendo no Brasil, situação de guerra, de desigualdade absoluta e que está com motivações genuínas de transformar essa realidade? E qual a porcentagem desse pessoal que só está indo na onda nesse movimento, nessa coisa que pega bem batalhar pela desigualdade, pelo fim da desigualdade, pela sustentabilidade, e todos esses movimentos recentes aí que a gente está vendo? Queria saber qual é a diferença, quer dizer, qual a quantidade de pessoas que você acha que está realmente entendendo o que está acontecendo?

José Junior: É uma boa pergunta. Eu tenho conversado muito com ele sobre isso. Mas a nível de porcentagem numérica, eu não sei. Mas esse projeto que ele falou, que é um projeto que você cria uma via de mão dupla. Tem uma pessoa, que para mim é o grande muso disso, que é o André Scarpa, que está aí na platéia, é uma pessoa que eu conheci há 2 anos e meio atrás. E desde que a gente construiu uma relação de parceria, ele tem aberto alguns espaços para a gente, até por ser filho de Paulo Sérgio Scarpa, da própria Fiesp [Federação das Indústrias do Estado de São Paulo], como uma gama de grandes empresários. Quando você citou que o AfroReggae hoje tem patrocínios que gera 6 milhões, ele foi uma das pessoas fundamentais no auxílio de capacitação de recursos para que a gente pudesse colocar o AfroReggae nessa linha de ponta. Na verdade, hoje, o AfroReggae não trabalha só nas favelas no Rio de Janeiro, o AfroReggae hoje está atuando em várias comunidades do Brasil, sem virar franquia, sem virar MacDonald’s, tem isso também. Quer dizer, você está levando, está exportando tudo que você conseguiu criar e que deu certo. Mas também estamos ocupando os espaços que são considerados o da elite, onde uma organização social, até então, nunca tinham ocupado. Então, acho que ele com a expertise que ele tem e também muito com..., Talvez pela própria família, pela energia que ele tem também, ele ajuda muito a gente nesse sentido. Ao mesmo tempo, a gente leva essa galera da Fiesp.... a gente está levando hoje jovens empresários para conhecer o universo, até então nunca imaginado por eles. Até porque hoje, os guetos eles se inverteram. Quem está no gueto hoje é quem tem dinheiro. É o cara que está "morado", está "eletrificado", está totalmente blindado. Então, o conceito de gueto mudou muito. A gente está querendo pensar hoje numa ponte de via de mão dupla, onde você está inter-quebrando classes sociais.

Paulo Markun: Você não respondeu a pergunta dele e eu vou insistir. A pergunta é o seguinte: não precisa dizer a porcentagem, mas tem muita gente na elite que faz isso só de onda, ou realmente essa elite entendeu: ou faz isso ou não sobrevive?

Mario Cesar Carvalho: Ou, dito de outra forma: você não acha engraçado que pessoas que não conhecem favelas em São Paulo, não tem a menor proximidade com nenhum movimento social em São Paulo, se aproximem do AfroReggae no Rio de Janeiro?

Paulo Lins: Por exemplo, eu não tenho uma disposição para fazer uma ONG e levar uma ONG como você leva. Isto depende de talento, depende de força de vontade, de querer fazer. Agora, eu posso muito bem ajudar quem faz. As pessoas estão fazendo isso, estão ajudando quem faz?

José Junior: Estão fazendo isso. Acho que algumas pessoas estão fazendo isso. Agora assim, falar por exemplo, de quem é oportunista eu não convivo com eles. Então, eu não posso falar. Eu convivo com pessoas que eu acredito, que acreditam naquilo que a gente está desenvolvendo. Eu acho que tem algumas pessoas hoje buscando fazer a diferença. Eu me considero, na verdade, um privilegiado por compartilhar essa relação. Dificilmente um grupo como AfroReggae chegaria aonde chegou se não tivesse tantas parcerias. Inclusive parceria com seu "Zezinho" do botequim também. A gente não pode esquecer que esse cara foi fundamental no começo do AfroReggae. Mas também tem parcerias hoje que nós consideramos muito fundamentais, estratégicas. No caso do AfroReggae, o AfroReggae hoje tem parceria com três grandes empresas, Natura, Petrobrás e Banco Real. Isso, para mim, é uma coisa muito legítima. Eu nunca poderia imaginar, há 10 anos atrás, que eu teria parceria com essas empresas. Eu nunca poderia imaginar, há 10 anos atrás, que nós iríamos ganhar um prêmio Faz a Diferença do jornal Globo, como personalidade do ano. Eu acho, também, que as pessoas estão mudando. Eu percebo essa mudança e percebo em todos os setores.

Paulo Lins: Agora, falar em droga na favela por exemplo. Qual o mais prejudicial à comunidade? A cocaína, a maconha ou o álcool?

José Junior: O álcool indiscutivelmente. A pior droga que existe para mim no mundo é o álcool. E, na favela, mais ainda. A gente fala muito na violência no crime. Mas a maior violência nessas comunidades é violência doméstica, principalmente do marido para com sua esposa, do marido para com seus filhos. O chefe de família hoje, principalmente aquele que está desempregado, está desestimulado, está ocioso. Ele geralmente está envolvido com bebida alcoólica. Eu tive experiência na minha família também, me marcou muito a questão de violência doméstica, e álcool, e droga também, que... Mais uma vez eu me digo privilegiado. Porque eu convivi muito com álcool, com droga e nunca experimentei, mas eu sou uma exceção. Comigo álcool, droga e tabaco, de tanto eu conviver com isso, me criou uma ojeriza. Mas o álcool, indiscutivelmente, é a pior droga que existe na camada popular.

Paulo Markun: José, vamos fazer um rápido intervalo com o Roda Viva que, esta noite, tem na platéia Chico Junior, jornalista, escritor e coordenador de comunicação do grupo AfroReggae; Sughi Okmuri, gerente de sustentabilidade da Natura; Ricardo Guimarães presidente da Thymus Branding e Daniela Rotir, jornalista. A gente volta já, já.

[intervalo]

Paulo Markun: Roda Viva entrevista esta noite José Junior, presidente do AfroReggae. O grupo que, há 14 anos busca resgatar a cidadania nas favelas e luta para quebrar as barreiras e pela inclusão das comunidades carentes do Rio de Janeiro. Junior você citou logo no começo do programa a idéia ou apresentou a idéia, de que a maior parte do problema da violência no Rio de Janeiro não é a violência em si, mas sim o barulho que se faz em torno dela.

José Junior: Tem violência, muita, mas o barulho é maior.

Paulo Markun: Ok. Eu só pergunto a você se não é mais ou menos esse o comportamento que os políticos usam. Por exemplo, quando dizem que o governo deles, "não é que o governo é ruim é que o governo é mal avaliado, porque a imprensa não abre espaço para as boas realizações". Isso não é um jeito de fugir do centro da questão, que é falta de política pública que você acabe ou reduza a violência?

José Junior: Concordo. Inclusive, eu acho que hoje, no Rio de Janeiro e algumas capitais do Brasil, as organizações não governamentais, que não foram criadas para assumir esse tipo de papel de política pública acabam sumindo. A gente recebe muitos convites, monta AfroReggae ali. Eu vou te falar, o AfroReggae não resolve o problema da violência, não resolve nem Vigário Geral onde está há 14 anos. Eu acho que resolve parte, ou até ameniza o problema. Existe, na verdade, um problema muito grande de violência no Rio de Janeiro. Eu cresci no meio dessa violência, eu sei, na verdade, que tem. Mas também existem outras ações, que são muito positivas, muito construtivas. Tanto é que, no nosso caso especifico, a gente está sendo contratado esse ano para fazer, para levar o projeto AfroReggae para Colômbia, Inglaterra, Alemanha, Estados Unidos, China, Índia. Então, alguma coisa está dando certo também. Existem outras experiências que dão certo também, que não tem visibilidade. Eu estava conversando com o amigo ali de Guarulhos, falando sobre isso. Tem muitos trabalhos hoje extremamente positivos, que as pessoas não conhecem, porque não tem visibilidade. Como eu não sou político, não tenho interesse nenhum, não sou ligado a governo nenhum, me sinto muito autônomo e independente de dar a minha opinião, a opinião que eu tenho é essa. E tenho certeza que milhões de brasileiros não concordam comigo e milhares, ou milhões de cariocas também não concordam. Mas é uma opinião pessoal de quem também está vivendo no meio do problema. Voltando a falar do Complexo do Alemão que, inclusive a [revista] Veja colocou duas ou três páginas agora. Tem uma violência real? Tem. Mas tem um comércio lícito fantástico, tem ações culturais, sociais, tem diversas atividades ali, que ninguém nunca ouviu falar. A própria escola de samba Imperatriz Leopoldinense, que é uma escola de samba conhecida e famosa que é da região, as pessoas não associam os bons resultados da escola com essa comunidade. Então, eu não acho que a imprensa está sendo errada, tem que falar dos problemas, o papel da imprensa é esse. Tem problemas, mas também tem muita coisa positiva que poderia ser mais mostrada e não é.

Âmbar de Barros: Quando você fala em metodologia, essa metodologia associada que vocês desenvolveram eu fico curiosa de tentar entender o que é, como que é. Quer dizer, qual é o conteúdo que vocês desenvolveram e que hoje interessa à Colômbia. Eu queria que você contasse um pouco também do que vocês estão fazendo na Colômbia. Mas eu fico me perguntando, como é que vocês fazem para... Vocês têm um centro de capacitação, como é que vocês selecionam os educadores e que tipo de formação eles recebem. Quer dizer, o que é essa metodologia?

José Junior: Na verdade, quando a gente fala de AfroReggae, o AfroReggae é uma instituição muito ligada à intuição, intuição mesmo. Tem pessoas que querem muita a questão técnica e matemática. Estão procurando a instituição errada. A gente não é assim. A gente trabalha com intuição, a gente respeita muito a cultura local e principalmente o saber popular. Então, essa metodologia, ela se faz, às vezes, por toque. Tocar na pessoa, olhar no olho, e reconhecer alguns talentos. Até o DVD que [o cineasta] Cacá Diegues fez com a gente, Nenhum motivo explica a guerra, eu falo que eu minto muito, minto bastante. Eu chego para uma pessoa que não tem talento nenhum e digo que ela tem talento. Eu faço todo um teatrinho, conto para as pessoas do AfroReggae e falo que vi um talento que nunca vi em lugar nenhum. E o cara acredita nisso. E passa de alguma maneira a acreditar naquilo que a gente está falando, porque nós somos referência para ele. Com relação ao exterior, por exemplo, eu vi na Colômbia agora, e vejo hoje, movimentos muito interessantes que estão criando na Colômbia. Eu vi coisas positivas em Bogotá. Esta é uma pesquisa das doze bibliotecas mais visitadas no mundo, três estão em Bogotá. Mas eu vi muita violência em Bogotá. Eu vi os paramilitares dominando o país quase como um todo. Eu tive em comunidades, eu tive em regiões, comoo São José do [...] que tinha um vilarejo de 2 mil habitantes e nos últimos 5 anos, 138 pessoas foram assassinadas. Isso não chega aqui. Até falei com o [jornal] Estado de S. Paulo, para mim, uma das coberturas mais imparciais sobre a Colômbia. Porque é uma veneração: que a Colômbia é isso, é aquilo. Tem muita coisa positiva na Colômbia, mas tem muita coisa negativa também. O próprio governo é acusado de ser corrupto, autoritário. Isso não está chegando aqui. Fala-se da redução dos índices da violência, mas não se fala dos pactos que foram feitos também. Isso tem que ser colocado, tem que ser dito.

Âmbar de Barros: Mas você chega lá, o que vocês organizam? Uma mesa redonda, vocês fazem...

José Junior: Isso aí não é a cara do AfroReggae.

Âmbar de Barros: Como que é exatamente, o que é?

José Junior: AfroReggae não faz mesa redonda. AfroReggae, vou te dar um exemplo, nesse momento a gente está na Inglaterra, a gente está com um grupo lá de dois educadores num bairro chamado Hackney em Londres. É um bairro que tem 92 idiomas. Estamos capacitando 30 educadores no conceito AfroReggae. Que conceito é esse? Aquele que entende narco-cultura, que assimila muitas coisas do errado e transforma no certo, isso é o efeito "Shiva". Shiva é uma divindade hindu [da Índia], que, primeiro destrói depois transforma. A gente se considera muito de maneira não religiosa de ser positiva. Varia muito, na Inglaterra esses 30 educadores estão sendo formados, eles estão pegando esses conceitos, que é de mediação de conflitos. Quando a gente fala em mediação de conflitos, que ainda não foi perguntado aqui. O que é mediar conflito em uma favela? É você sentar com o protagonista da guerra do conflito. Quem é esse conflitante, quem é esse protagonista? O tráfico, a polícia. Então, é você assumir, sem hipocrisia. Tem que ter algum tipo de intervenção, você pode até não concordar - eu não concordo com isso - mas é a forma que a gente trabalha.

Bruno Paes Manso: Isso é legal? Porque essa questão da narco-cultura que você fala e essa forma de abordar é uma coisa que você fala em entrevistas. [Não é como] Quando você chega e para, de repente, para um líder do tráfico, para alguém que trabalha no narcotráfico. Você muitas vezes, antes de ter o destaque que você tem e antes do AfroReggae ser o que é, você vestia um tênis Nike, caríssimo, que só era possível comprar em outro país para a pessoa ver o seu tênis. Aí, você falava: “olha, você pode conseguir esse tênis fora do narcotráfico”. Então, com isso você, dentro dessa narco-cultura que valoriza consumo e etc, você trazia ele para o seu lado. Mas, ao mesmo tempo, não falta uma visão crítica em relação a esse consumismo? Por exemplo, uma coisa que eu queria saber: um sujeito que não é do tráfico e não tem oportunidades, ele não acaba sendo subestimado? O bom, o cara interessante de se trazer não é o traficante? E aquele que, de repente, é um cara tranqüilo, humilde que tem dificuldades, como também o traficante tem, ele de repente não é valorizado no trabalho de vocês? Como isso funciona?

José Junior: A maioria das pessoas do AfroReggae não foram traficantes, tem muitos traficantes, mas a maioria não. Brinco inclusive, às vezes minha esposa fala: quando vocês pegam uma pessoa e a pessoa não tem talento para ser artista o que ele vira? Vira coordenador que nem eu! Acaba assumindo um cargo de gestão. Na verdade, essa coisa que você perguntou da própria Nike em si, hoje, por exemplo, eu não estou com roupa de abordagem. Este não é o tipo de figurino que se usa. Isto é figurino para vir aqui no Roda Viva.

Paulo Markun: Quem está com roupa de abordagem sou eu!

[risos]

José Junior: Você está com abordagem com político corrupto, esse é o figurino. [risos]

Jorge Antônio de Barros: Esta questão da mediação de conflitos, eu queria saber mais detalhes. Como você negocia, como você senta para conversar com traficante? Você leva essa conversa para a polícia?

José Junior: Claro que não. Se eu levar eu morro.

Jorge Antônio de Barros: Eu digo, nessa negociação pela paz, como é que a polícia participa desse processo também?

José Junior: Varia muito. Como eu falei que eu morro também, estou exagerando. O que acontece, muitas vezes [n]essas guerras entre facções, no caso de Vigário Geral e Parada de Lucas, [que] são duas favelas que a gente trabalha, existe uma guerra há 24 anos, 24 anos de guerra, de verdade. E começou por causa de uma partida de futebol, não foi por causa de ponto de venda de droga, futebol. Nós fazemos várias intervenções, numa fronteira de guerra. O quê delimita essa fronteira? Uma escola, toda furada por tiro. Um lado é proibido de cruzar o outro, só quem é do AfroReggae pode cruzar, mesmo sendo morador. Quando a gente quer fazer algumas intervenções a gente... Eu vivi situações já, que me marcaram muito. Foi quando a gente foi fazer um espetáculo de teatro na fronteira de Lucas e Vigário e, faltando cinco dias [para o] do espetáculo o conflito voltou de maneira muito intensa. E eu tive que sentar, pegar os dois líderes, levei para o meio da fronteira e consegui - a minha idéia era uma trégua de 24 horas - eu consegui isso por 18 dias. Vocês podem falar assim é tão pouco 18 dias, mas para lá é quase que infinito.

Paulo Markun: Menos bala perdida. 

José Junior: É. Então, assim, na verdade, bala perdida é uma bala achada, porque hoje em dia de perdida não tem nada. É uma situação que eu não me sinto confortável e nem à vontade, e nem falo com orgulho, de um produtor cultural, um representante social como eu tem que estar desenvolvendo isso. Mas também com a polícia, a gente está tendo uma relação hoje, inclusive, o próprio coronel Ubiratan, comandante geral da polícia do Rio de Janeiro, de muito diálogo. A vantagem que eu considero no Ubiratan é porque ele é negro, e veio do Jacarezinho. Então, o que estou falando aqui para vocês, para ele não é novidade nenhuma. Sempre teve interlocutores, pessoas que eram neutras, que não tem partido, ou seja, não tem facção. E quando você é neutro, você sofre muito, porque se, um dos usuários interpretar como tendencioso, você pode colocar a tua vida em risco.

Jorge Antônio de Barros: Nesse caso especificamente, você acha que o AfroReggae poderia colaborar intermediando esse conflito, para reduzir esse conflito lá nesse momento?

José Junior: Eu tive lá agora na sexta-feira. A Vila Cruzeiro teve um momento que também me marcou muito em 2002. Chico, que está ali, secretário de Comunicação do governo do estado, teve um problema muito grande lá, que teve impacto nacional e quem foi, de alguma maneira, parar a interrupção foi a gente. Eu não gosto de ficar falando, aquela mediação, foi a gente, aquilo... Porque, na verdade, esse tipo de visibilidade não é boa. A visibilidade que o AfroReggae tem para outras questões é muito positiva, mas isso não. Eu lembro uma época que a nossa amiga Laura, da Folha de S. Paulo, que o desejo maior dela era entrar no Complexo do Alemão e não conseguia entrar. E a gente levou a Laura para entrar lá e fez uma matéria, que eu considero muito positiva. Então, assim, isso varia muito. A credibilidade que a gente tem, tem muito a ver com a neutralidade e com a imparcialidade. Agora, antes do AfroReggae, eu vi muitas pessoas morrendo. Depois que nós criamos o AfroReggae, eu particularmente, nunca mais vi ninguém morrer perto de mim e nem do meu lado. A gente intervém muito. Isto eu tenho orgulho. Hoje dezenas de pessoas do AfroReggae fazem isso voluntariamente, porque não existe salário para quem faz mediação de conflito. Como eu vou contratar uma pessoa: "você vai lá mediar uma guerra, que o salário é esse", não existe. O cara tem que ser voluntário para fazer isso. Ele corre um alto risco de vida. Agora, um outro detalhe, todo mundo que faz mediação na AfroReggae teve perda. Ou perdeu parente, ou perdeu amigo, ou sofreu de algum tipo de violência. A gente não tem um mediador que nunca teve esse tipo de problema.

Paulo Markun: A doutora de psicologia social e coordenadora do Núcleo de Estudos da Violência, da USP, Nancy Cardia quer saber se o método usado por vocês pode ser usado de alguma forma na educação formal. Vamos ver a pergunta.

[VT de Nancy Cardia]: Boa noite! Eu tenho uma pergunta. É possível a gente traduzir técnicas que vocês tiveram que desenvolver para manter esses jovens e crianças que vocês atraem para as oficinas e para os projetos culturais que vocês tem, para mantê-los freqüentando, fazendo os trabalhos, fazendo as tarefas, aceitando as regras, aceitando os limites? Algo que vocês aprenderam ao longo desses anos todos de experiência, se isso não poderia ser traduzido em benefício da escola formal, para que alguns dos obstáculos que essa escola tem para atingir os objetivos educacionais sejam eliminados? Como experiências como essas do grupo Reggae poderiam ajudar a gente superar esse fracasso?

José Junior: Eu acho que elementos da metodologia sim, não tudo também. A gente tem participado de algumas ações na rede de ensino público, aonde, muitas vezes, o professor, ele é quase que agredido pelos alunos, da violência do próprio crescimento da criminalidade, e muitas vezes a gente... Tinha que criar um setor do AfroReggae, tipo 190 [referência ao número de telefone para chamar os bombeiros em situação de emergência] do AfroReggae, porque o que chega de problema meu irmão, que a gente... Às vezes, parece que a gente é bombeiro. Toda hora está pagando um incêndio. Você mal apaga um, nem apagou um, já está tendo que apagar o outro. E nesse caso, as escolas públicas principalmente, a gente é muito solicitado para estar fazendo intervenções. Muitas diretoras ligam, mandam e-mail e não tem como atender. Mas eu acho que elementos que a gente utiliza... A gente tem uma vontade de um dia, uma coisa muito simples, não sei se daria certo. Mas você ensinar história através da capoeira, você ensinar matemática com percussão, com música, que tem tudo a ver. Você criar alguns estímulos, porque os jovens não têm muito interesse de ir para a escola. Eu nem acho, quer dizer, com certeza, a culpa não é daquele profissional, mas é tudo muito difícil. O estímulo, a falta de investimento, as escolas desestruturadas. Saiu uma matéria no [jornal] Globo, você deve ter visto, que mostrou que, por exemplo, o ensino da rede pública do governo federal no Rio de Janeiro é melhor do que a rede particular. Isso eu atribuo muito a esses profissionais da educação, que tentam, o tempo inteiro, se reciclar, meio que isolados, meio que sozinhos. Claro que tem muita coisa que as secretarias tentam fazer. Mas a gente recebe muito e-mail e muitos telefonemas de professores, diretores de maneira isolada pedindo para a gente ajudar. Se a gente pode montar uma oficina ali, se a gente pode passar e dar uma palestra. Eu acho que é legal, mas não resolve.

Paulo Markun: Nós vamos fazer mais um rápido intervalo e voltamos daqui instantes com Roda Viva acompanhada esta noite na platéia por André Scarpa; Ivan Gianni, superintendente de comunicação social do Sesc de São Paulo; Denise Bragoto escritora, psicóloga e diretora da Associação Brasileira de Criatividade e Inovação e José Ribeiro, secretário geral da Odesca - Organização para Desenvolvimento Sociocultural da Comunidade Afrodescendente. A gente volta já, já.

[intervalo]

Paulo Markun: Voltamos com o Roda Viva que esta noite entrevista José Junior,  presidente do AfroReggae. Ele coordena mais de 60 projetos e beneficia  2 mil pessoas diretamente pelas suas ações. Eu queria recomeçar com a pergunta de Gustavo Filipe Miranda, do Rio de Janeiro, que pergunta o seguinte: porque algumas entidades fazem uma opção cultural para os gêneros musicais como hip-hop e a música afro e renegam gêneros nativos como o próprio funk no Rio de Janeiro? Eu acrescento o seguinte, pelo que eu vi no clipe vocês são mais ecléticos.

José Junior: A gente trabalha com tudo. Inclusive, esse clipe são pessoas da Parada de Lucas e Vigário Geral. A gente escolheu essa música mais por uma questão simbólica. No Rio, eu não vejo essa segregação tão forte, eu vejo mais aqui em São Paulo em relação ao funk e ao hip-hop. Não acho que tenha isso assim, primeiro que o funk no Rio é o ritmo dominante das favelas. Hoje em dia tem mais que o samba. Então, eu não vejo - pode ter - mas eu não consigo enxergar de uma maneira assim tão visível. Tinha uma galera do hip-hop, [n]uma época, que tinha alguma coisa de se agregar ao funk, mas hoje em dia eu vejo um respeito muito de ambas as partes.

Paulo Lins: Fala-se muito na questão do jovem, sempre jovem, e tudo isso porque o jovem está ligado diretamente a violência. As quadrilhas são compostas de jovens, só se fala em jovens. Mas na favela, tem uma parcela da população que são os idosos que ninguém fala, ninguém está preocupado. A mídia não está preocupada, ninguém está preocupado. Vocês tinham uma parceria com a Casa de Santa Ana, lá na Cidade de Deus, que até meu pai freqüentou, meu tio freqüentou. Essa parceria, como está o projeto do AfroReggae com os idosos, com outros segmentos da sociedade que mora na favela, nas proximidades da favela?

José Junior: Olha, a Casa de Santa Ana a gente sempre participava, AfroReggae sempre foi um parceiro. A Maria de Lurdes [criou o projeto casa Santa Ana na Cidade de Deus, que proporciona cuidados, aulas de artesanatos, entre outros, para a terceira idade que vive no bairro], por exemplo, que sempre foi uma batalhadora, uma guerreira, faz um trabalho super importante. E a nossa parceria que era para ser de 6 meses, durou 4 anos, foi até além. Só que nós percebemos que a marca AfroReggae estava aparecendo mais do que a dela. Isso não era justo, não era correto, porque o projeto era dela. Então a gente falou assim: “Lurdes, a gente vai continuar um tempo. Vamos implantar para você, na verdade, o sistema que a gente desenvolve. Mas a partir de agora até esse profissional do AfroReggae passa a ser da Casa Santa Ana”. E você falou uma coisa que é real, tem pouquíssima atividade para o terceiro setor, terceiro setor não, desculpe, terceira idade, e o próprio AfroReggae não trabalha com esse público. Até porque também é o seguinte: a gente tem até interesse, mas isso nós não sabemos fazer, a gente tem que aprender. É que nem trabalhar com meio ambiente. Tem um monte de coisa que o AfroReggae não trabalha, senão o Afroreggae  vira...

Paulo Lins: Não estou falando do AfroReggae, é que não tem.

José Junior: Não tem, eu só conheço a iniciativa dela em favela. No Rio de Janeiro tirou a Casa de Santa Ana não conheço outra.

Paulo Lins: Todos trabalham com jovem.

José Junior: Na verdade, as campanhas publicitárias são voltadas para os jovens. Os esportes são voltados para os jovens, os shows são voltados para os jovens...

Rappin Hood: Dentro dessa conversa sobre os jovens, o que você acha da redução da maioridade penal?

José Junior: Sou totalmente contra. Acho que não vai resolver nada. Passa para 16, passa para 14, passa para 12. Inclusive, a Âmbar é uma autoridade para falar dessa questão, isso não resolve nada. Existe até um trabalho, inclusive, agora no Degase [Departamento Geral das Ações Socioeducativas], que é a Febem [Fundação do Bem-Estar do Menor] do Rio de Janeiro, Paulo também conhece bem. É assim, você vê aquela molecada ali totalmente sem perspectiva, nenhuma. Ao mesmo tempo, cada vez mais jovem, cada vez mais violento, cada vez vivendo uma crueldade de todas as partes. Então, assim, nesse ponto, eu só não faço coro com aqueles desanimados que falam, “a situação está piorando” porque a gente está vendo também que existe uma iniciativa do governo federal e estadual, que mesmo não tendo bons resultados ainda, estão tentando. Eu acho que a tentativa, nesse momento de caos que a gente está vivendo, a gente deve dar mais um crédito. Porque você está percebendo hoje um público, que era também um público invisível. No caso da gente, quando nós começamos em Vigário Geral, há 14 anos atrás, ninguém queria trabalhar com esse público: o cara que é ocioso, que é envolvido com a criminalidade, que não aparecia. Hoje esse público aparece, porque ele saiu da favela. Essa violência rompeu fronteiras. Então, hoje ele é percebido. Mas essa guerra de Lucas e Vigário que tem há 24 anos, a maioria aqui nunca tinha ouvido falar dessa guerra, nem sabe. Acho que é a maior guerra que existe dentro do país. Quer dizer, o Brasil tem uma guerra que já dura 24 anos. Hoje já é mais divulgada, porque o AfroReggae está nas duas comunidades. Então, esse público ainda é um público que começa a ter visibilidade agora, muito mais pela questão caótica, muito mais pela questão da violência que ele está gerando em outras classes, do que por uma preocupação que exista em capacitar, em reverter, de oportunizar.

Paulo Lins: Tem um perfil da criança que vai entrar para a criminalidade? Você já conhece, pelas famílias, quem pode entrar, quem é propício a isso?

José Junior: Não. Sem querer ter preconceito, sem querer criar..., Vou te dar um exemplo do Paulo Neguelha, que você conheceu também, que era do Rappa também. Eu achava que ele ia ser bandido. E o Cuco, que é um traficante do Morro da Formiga, eu achava que ia ser artista. O Paulo virou artista e o Cuco virou traficante.

Bruno Paes Manso: Junior, depois que entra..., você falou que é um grande mentiroso quando você vai abordar para tentar tirar do tráfico. É possível tirar do tráfico falando a verdade para a pessoa, “olha você tem grandes chances de não fazer sucesso, de não ser um artista, mas a realidade é assim para muita gente e você tem que lidar com isso, com esses problemas da vida, vida dura”. É possível tirar as pessoas do tráfico falando a verdade?

José Junior: É possível sim. Na verdade, quando eu falei que eu minto, eu não minto só para quem está no tráfico não. Estou mentindo até para você e você não está percebendo ainda! É possível sim.

Bruno Paes Manso: Qual é a abordagem?

José Junior: O que tem crescido muito é a quantidade de pessoas com mais de 30 anos envolvida na criminalidade e que estão entrando no AfroReggae. A última grande aquisição é uma pessoa de 49 anos, que é o Norton que hoje... Até está nos assistindo agora. Eu tenho maior orgulho de ter o Norton. O Norton entrou no Afro Reggae no final do ano, tinha acabado de sair, passou boa parte da vida dele preso e hoje é um dos melhores palestrantes multiplicadores que nós temos. O Norton, por exemplo, eu não menti, e eu nem percebi que ele ia entrar para o AfroReggae. Ele estava com dificuldades, nós ajudamos, ajudamos financeiramente, acertando aluguel, e outras dificuldades que ele tinha sem nenhuma pretensão. Nós percebemos que ele tinha um grande talento na oratória e uma das coisas que ele faz bastante hoje é que, quando a gente tem problema, ele virou mediador interno do AfroReggae, dos conflitos do AfroReggae para com o AfroReggae, pela experiência que ele tem. Ele é uma das pessoas mais velhas hoje no grupo, e o cara tem um feeling, o cara tem um carisma impressionante.

Jorge Antônio de Barros: Você admite, Junior, que dentro do grupo os integrantes usem drogas?

José Junior: Não. A gente, inclusive, é muito severo com o uso de álcool e tabaco também. Primeiro porque a gente considera o álcool muito mais nocivo nessas comunidades do que a própria cocaína.

Jorge Antônio de Barros: Você é a favor da legalização das drogas?

José Junior: Sou contra. Totalmente contra.

Paulo Markun: Por quê?

José Junior: Porque, primeiro, se for legalizado acho que - talvez acho eu - quem vai ganhar é a indústria farmacêutica, de repente a Souza Cruz. E aquele cara que está na boca de fumo, o que vai ser feito com ele? Ele vai estar no negócio? Se ele estiver no negócio eu sou a favor, mas eu sei que ele não vai estar. Então, eu sou contra.

Paulo Markun: Uma pergunta de Jones de Jesus, de Brasília e Walter Afonso Rocinholi, de Juiz de Fora, Minas Gerais. Qual é a sua opinião sobre o sistema de cotas para negros das universidades? E o Jonas diz: “Sou negro, mas sou contra a política de cotas, nós somos tão capazes como qualquer outra pessoa e ninguém deve ter privilégio”. O que você pensa disso?

José Junior: Sou totalmente a favor. Acho fundamental, acho importante. E também fico muito feliz que hoje no Rio de Janeiro, principalmente, você vê a quantidade de pessoas negras que estão ingressando na universidade além da cota, de igual para igual. Mas eu acho que é super importante a política de cotas.

Paulo Markun: Por quê?

José Junior: Porque dá oportunidade. Porque existe um ensino fundamental que é falido, que é fracassado. A universidade pública ela foi criada também para uma camada popular que não tem acesso.

Paulo Markun: Vamos fazer mais um rápido intervalo e voltamos logo com a entrevista de hoje que é acompanhada também na nossa platéia por Maria Paes Barreto, analista de projetos; Mario Ozan Pereira, sociólogo e diretor social e de comunicação da Odesca; Simone de Andrade Pigler, advogada e mediadora; Renata Pacola, advogada e escritora e Dino Alves, ilustrador. A gente volta já, já.

[intervalo]

Paulo Markun: Você acompanha no Roda Viva desta noite a entrevista do presidente do grupo cultural AfroReggae José Junior. Pergunta de Ronaldo, do Rio de Janeiro é o seguinte: como é que os crimes envolvendo juízes e autoridades repercutem dentro das comunidades?

José Junior: Mal. As pessoas acham que tem impunidade e isso até estimula a questão da criminalidade. O cara acha que não vai acontecer nada com ele também. Então, esses maus exemplos, assim, influenciam muito, de verdade. Acho que acaba estimulando.

Bruno Paes Manso: Junior, quem movimenta mais o tráfico de drogas, o pobre ou o rico? O consumo do pobre ou o consumo do rico?

José Junior: Tem dois tipos de tráfico, o trafico da favela e o tráfico fora da favela. Qual seria?

Bruno Paes Manso: As bocas, o movimento de cocaína nos morros, etc.

José Junior: Atualmente, o índice de pessoas pobres tem crescido bastante. Na década de 1970, 1980 o consumo era mais externo. Hoje, o consumo interno cresceu muito. Mas a questão do tráfico em geral, o público externo é muito maior.

Mario Cesar Carvalho: Junior, dá para fazer uma parceria com a Rede Globo sem vender a alma? Pergunto isso porque em São Paulo tem uma avaliação dos Racionais [grupo de rap e hip-hop formado na periferia de São Paulo em 1988, por Mano Brown, Ice Blue, Edy Rock e KL Jay], por exemplo, que é um grupo de rap que é referência nacional. Eles dizem que a Globo usa esse tipo de projeto para limpar a imagem dela. O que você acha disso? A imagem do regime autoritário, a imagem atual de ficar despejando lixo diário na televisão?

José Junior: Eu respeito, sou fã dos Racionais. Já fiz várias parcerias com eles em favelas do Rio de Janeiro, respeito muito. Gosto muito, sou fã, a galera toda. Mas eu não concordo com essa afirmação não, no nosso caso, foi ao contrário. Inclusive, vou te falar que muitas mediações do AfroReggae, aonde não houve baixa [perda, morte - em linguagem militar], vou usar uma linguagem militar, da equipe do AfroReggae, devo muito á blindagem que a Globo faz em torno da nossa imagem. Eu tenho uma visão da TV Globo muito diferente. Como eu tenho acesso, desde o jornalismo até os donos, não esse acesso de vender a alma, não vendo a minha alma para a TV Globo. Me sinto bastante confortável em fazer críticas à TV Globo. Não me considero vendido. Não considero nós do morro vendidos, da nossa parte não. Há um trabalho de parceria, de fidelidade mútua. E me sinto completamente à vontade de vir na Record, ou aqui na Cultura, qualquer outro lugar, não tenho nenhum contrato, não tenho nada. Mas tenho uma relação de parceria que eu considero muito importante, que tem nos beneficiado muito. E também acho que beneficia bastante eles dentro dos conceitos que eles estão desenvolvendo, lá dentro da casa.

Bruno Paes Manso: E essa postura de não falar com o público, claro, o Rappin Hood está aqui é diferente e tal. Mas o Mano Brown [cantor de rap, vocalista do grupo Racionais MC's], ele lidera, é um modelo, muitas vezes vira referência para o rap aqui em São Paulo, em se recusar a falar...

José Junior: Acho o máximo.

Bruno Paes Manso: Por quê?

José Junior: Adoro, para eles e não para mim.

Bruno Paes Manso: E por que para você é importante falar?

José Junior: O [...] já até conversou comigo isso. Ele fala assim: “admiro muito o trabalho de vocês”. E esteve na favela com a gente várias vezes. Ele falou assim: “uma coisa que a gente queria muito fazer um dia, os Racionais, era montar um trabalho social”. Mas eu acho que para aquilo que ele propõe, para aquilo que ele é, eu acho fantástico. Eu acho que é o caminho que ele escolheu, eu respeito muito, como respeito muito o caminho do Rappin Hood, o seu caminho. Na verdade, acho que cada um tem o seu espaço, é seu caminho.

Paulo Markun: Vocês têm exigências grandes, do ponto de vista musical? Porque eu já vi trabalhos sociais que envolvem música que a qualidade é muito ruim. Quer dizer, porque está fazendo música com gente que não sabe música ou não tem, e aí, você não tem qualidade. Vocês têm isso aí, como que isso é mantido?

José Junior: Não entendi a pergunta.

Paulo Markun: O som que as bandas...

José Junior: Das 10 bandas?

Paulo Markun: É.

José Junior: Tem bandas que ainda o som é ruim, porque são bandas pedagógicas, então, estão aprendendo.

Paulo Markun: Mas tem uma escola? Quer dizer, o cara recebe algum tipo de aula?

José Junior: Aula todos os dias, aula todos os dias.

Paulo Markun: Cobrança de qualidade?

José Junior: Não. Mesmo o cara que trabalha com música, ou com teatro, ou com dança, ele tem que passar por todas as atividades das oficinas. Também no caso de comunicação. Tem todo um trabalho que é feito, e naturalmente, com esses apoios que a gente tem, com esses patrocínios todos, a gente está conseguindo fazer vários intercâmbios. A gente tem recebido pessoas do mundo todo, que querem conhecer o nosso trabalho, que querem fazer intercâmbio. A gente também, quando vai para a Inglaterra, vai para a Índia, a gente está indo lá para fazer uma qualificação naquele lugar. A gente aprende muito com eles também, musicalmente falando.

Jorge Antônio de Barros: Voltando, Junior, a essa questão da antecipação da maioridade penal. Me parece que, lamentavelmente, por um ponto, a sociedade está apavorada com a questão da violência e aposta em algumas saídas que, ao meu ver, são ruins. Mas eu queria saber como é que você lida com as críticas de setores da sociedade, caso de ONGs que defendem os direitos humanos, dizendo... Essas críticas dizem que [as ONGs] defendem direitos de bandidos. Como que você lida, como que você conversa com uma pessoa que tem essa crítica?

José Junior: A gente nunca foi acusado de defesa de bandido, por mais que a gente trabalhe com esse público também.

Jorge Antônio de Barros: Eu não estou falando especificamente do AfroReggae, estou falando em geral das ONGs dos direitos humanos.

José Junior: Eu sei. Mas hoje sabe o que acontece, a gente trabalha com a polícia também. Você pega assim, qual o grupo hoje neste país que trabalha com polícia e com jovem de favela? Tirando AfroReggae, você conhece algum? Talvez até por essa imparcialidade, neutralidade, a gente é muito, digamos, fora desse circuito. E essas colocações são colocações muito voltadas... Porque o que acontece, hoje, algumas pessoas estão com muita desesperança: eu apoio, eu acredito, visto, eu faço doação e não vejo resultado nenhum. Tem muito disso também. Mas acho que faz parte, as pessoas estão muito descrentes e, às vezes, na verdade, nem sempre tem que ir para o confronto. Eu respeito as opiniões, já ouvi pessoas falando dessa questão, que bandido tem de morrer, que esses caras não merecem uma outra oportunidade. E o meu trabalho é ao contrário. A gente acredita numa segunda, terceira, quarta, quinta, sexta chance para aquelas pessoas, para qualquer pessoa. O que mais temos no AfroReggae são pessoas que tiveram do outro lado. Não vou dizer nem o termo "recuperada", que eu não gosto. Eu acho que deram a volta por cima. Agora, isso não depende do AfroReggae. Acho que não depende nem do governo, também depende muito da pessoa.

Jorge Antônio de Barros: Qual a tua opinião sobre a ação do Caveirão, que é aquele veículo blindado que é usado pela PM nas favelas do Rio?

José Junior: Para proteger os policiais é fantástico, mas para o morador é péssimo. Hoje em dia, as crianças, se você perguntar qual é o novo bicho papão, as crianças da favela: “é o Caveirão”. Fora o terrorismo que é feito, muitas vezes, por alguns policiais, usando alto falante, dizendo que vão roubar a tua alma, eu vou te matar. Então, é um veículo que, se você analisar do ponto de vista militar, policial, ele é fundamental. [Do ponto de vista] Das comunidades é péssimo. É um veículo que tem provocado um índice de pessoas feridas, baleadas e mortas, gigantesco. Eu tive oportunidade de entrar no Caveirão, no décimo sexto batalhão. Fui lá ver, eu não consigo perceber como que eles conseguem mirar uma pessoa. Você já chegou a ver? É difícil, é complicado aquilo ali. Como você consegue ter uma mira exata, é muito complicado.

[ ]: É por isso que mata tanta gente.

José Junior: Pois é!

Rappin Hood: Como você vê... Uma vez eu fui no Rio de Janeiro e eu vi uma criançada brincando...

José Junior: Você vive no Rio de Janeiro, já virou carioca! [risos]

Rappin Hood: Eu vi uma situação engraçada. As crianças brincando de pega, pega, um esconde, esconde. E as crianças, um falava, “eu sou terceiro [Terceiro Comando]”, “eu sou o comando [Comando Vermelho]”. Bom o crime seduz muito. mas como você vê, de repente, crianças brincando assim?

José Junior: O mais impressionante é o seguinte: na década de 1970, 1980 as crianças brincavam de polícia e ladrão, a maioria queria ser a polícia. Hoje em dia todo mundo quer ser o ladrão, ou a grande maioria. Você falar, hoje, que o cara é policial é quase estar xingando. Eu acho que esse projeto que a gente faz com a polícia tem muito a ver também com o resgate da imagem do policial, porque tem muito policial bom. E com relação a essa questão das facções, "sou comando", "sou terceiro", isso tem muito a ver também com uma identificação. Você sabe que essa metodologia do tráfico, ela é muito time de futebol, clube de futebol, sou são paulino, sou flamenguista, sou comando, sou terceiro. Talvez a falta de identidade tenha gerado muito isso. E hoje tem um aspecto positivo com o crescimento de algumas organizações como a Cufa [Central Única das Favelas]. Você pega experiências... O próprio hip-hop, o próprio funk. Tem uma coisa que é muito interessante de falar, nenhum movimento no Rio de Janeiro gera mais recursos, mais renda para os jovens da favela do que o funk, mais do que o tráfico. E ninguém recupera mais gente - palavra que eu não gosto de utilizar, mas nesse caso vale a pena utilizar -  pessoas do crime, do que as igrejas evangélicas. É muito doido isso, mas é verdade.

[  ]: Vocês têm um trabalho em conjunto com as igrejas evangélicas?

José Junior: Tem um pastor no Rio chamado pastor Marcos, que é o maior mediador de conflito desse país, mais do que o AfroReggae. Ele entra em qualquer rebelião, em qualquer guerra e consegue acabar. AfroReggae não tem esperteza em rebelião, ele tem. Eu já vi ele tirar traficantes muito conhecidos, alguns até pop-stars, já foram capas de jornal e hoje estão na igreja dele. Eu participo assim, eu não sou membro da igreja, até dá para perceber pelo que eu visto. Mas eu sou um grande simpático à causa dele, uma pessoa que eu respeito muito. Eu tenho uma afinidade muito grande pelo trabalho que ele faz.

Paulo Markun: Você já se declarou religioso, não é isso?

José Junior: Sou eclético.

Paulo Markun: Eclético e religioso. O Cesar Murilo Ribeiro, de Itu, São Paulo, pergunta: se você acredita que a espiritualidade, independente da religião, pode intervir como mediadora de paz nesse campo de batalha social?

José Junior: Olha Paulo, quando eu vou fazer uma mediação, geralmente as mediações começam de madrugada, quando eu saio da minha casa - eu não moro mais no subúrbio, eu não moro mais em favela, eu moro na Zona Sul do Rio, eu moro na Glória - então, quando eu saio da minha casa para ir fazer uma mediação, eu tenho uma técnica minha pessoal que é ficar olhando para o espelho, para mim e minimamente controlar a minha expressão facial, para dar uma certa frieza, uma certa responsabilidade. E nessa hora eu busco muito à Deus, eu acredito muito nisso. Eu acho que, inclusive, a relação, no meu caso, eu tenho relação com várias divindades, seja Shiva, seja Ogum, seja Cristo, Nossa Senhora de Fátima. Eu tenho uma coisa muito forte com a religiosidade e com as divindades também. Então, isso me fortalece muito. Chega uma hora também que você, no meu caso, e vejo no caso de outras pessoas também, que você só tem aonde se agarrar, e no caso, à Deus. Inclusive, eu tenho várias tatuagens, todas elas são muito ligadas à questão da espiritualidade.

Paulo Lins: E as mulheres? Como é a participação das mulheres na criminalidade?

José Junior: Tem um índice grande. [risos] Até agora o Celso [Athayde, produtor do MV Bill, co-autor do livro, que depois se transformou em documentário, Falcão: meninos do tráfico]  está fazendo um livro, falando da versão do falcão feminino. Estou super curioso para ler esse livro. Mas você vê as mulheres participando, no caso do tráfico, muito como "cargueira", como pessoa que transporta, você vê alguns casos...

Paulo Markun: Quer dizer, o tráfico é machista?

José Junior: O tráfico é machista. E a mulher é vista como moeda de troca. Inclusive, alguns casos o cara até, o bandido acaba herdando a mulher do outro.

Paulo Markun: O funk é machista também?

José Junior: O funk já foi bastante machista. Tem o machismo das mulheres também, que é bem interessante. Elas acabam também assim, digamos, colocando em algumas letras, o homem como objeto sexual.

Âmbar de Barros O AfroReggae como é a relação de poder? Você é um grande líder lá.

José Junior: Você acha?

Âmbar de Barros: Eu acho.

José Junior: Obrigado.

Âmbar de Barros: Mas como é? Você divide isso, você tem um conselho? Tem mulheres que participam da direção, tem meninas que são educadoras, como é?

José Junior: A gente criou o projeto muito focado para essa coisa do jovem na favela, ocioso, subemprego e tráfico.

Âmbar de Barros: Mais meninos?

José Junior: Homem, totalmente homem. Só que com o decorrer do crescimento do projeto foram entrando algumas mulheres. E como que a gente começou a resolver essa questão da mulher dentro do AfroReggae? A gente começou criando duas bandas só de mulheres, uma de funk e uma de rock. Hoje, assim, na verdade, eu já fui muito centralizador. Hoje eu me dou o luxo, eu participo do comitê gestor do AfroReggae, mas tem praticamente 2 meses que eu não vou na reunião. Às vezes, tem decisões que não passam mais por mim, eu fico muito feliz por isso. Porque antes, eu tinha muita dificuldade em confiar nas pessoas, e hoje não. Hoje,o AfroReggae cresceu muito, tem mulheres hoje nesse comitê gestor, são nove pessoas, tem duas mulheres, é um conhecimento, antes só tinha homem. E cresce muito a quantidade de homossexuais em cargos de coordenação do AfroReggae e em cargos de jovens líderes, cresce bastante. Então, assim, hoje, inclusive eu acho, dos próximos coordenadores que serão promovidos, dois jovens são homossexuais assumidos. Ser homossexual na favela assumido é muito difícil. Já temos vários coordenadores homossexuais. Uma coisa também interessante. Quando nós fizemos o trabalho com a polícia em 2004, a coordenação era de dois homossexuais muito assumidos e tinha tudo para dar errado. Porque imagina, policiais sendo coordenados por pessoas declaradamente homossexuais, mas deu super certo. A gente acredita muito, mas no caso de crescimento dessas pessoas que são homossexuais, de mulheres, não é cota, é merecimento. Elas estão ganhando poder. Estão cada vez mais "empoderadas". Não porque é uma estratégia política, mas porque elas estão fazendo com que ocupe cada vez mais espaço.

Paulo Lins: Eu gostaria muito de voltar a questão da educação. Se a gente for ver isso historicamente, desde que começou o samba, desde Donga [(1890-1974) sambista], desde Pixinguinha, que a sociedade só se volta para o negro, para o favelado, para o pobre através da cultura. Então, eu quero enfatizar aqui a questão da educação. Eu acho que é primordial que a gente faça um trabalho direcionado para a recuperação escolar e um trabalho junto às escolas. O AfroReggae tem esse potencial. Seria muito interessante, para, justamente, a gente ver o negro na situação, o favelado pobre de maneira geral, tendo acesso a uma universidade, sendo doutor, fazendo uma boa universidade, voltando para a educação de forma efetiva. Isto é muito importante, eu sinto que é coisa mais importante que se tem que fazer para as crianças seria isso.

José Junior: O AfroReggae tem esse potencial e faz muito pouco na minha opinião. Eu digo isso sem nenhum pudor. Acho que poderia fazer mais. Faz muito pouco, perto do muito que ele faz em outras atividades. Então, a prioridade desse projeto é exatamente enfatizar isso que você falou. E está buscando muitas parcerias para isso. Acho que, nesse caso, o AfroReggae não tem que criar metodologia, tem que importar. Nem sempre tem que criar, só absorver.

Paulo Lins: Porque tem outras que fazem isso.

Bruno Paes Manso: Essa necessidade de ir buscar parcerias, essa necessidade de ter apoio, de ter parceiros, de pessoas dando dinheiro para desenvolver um trabalho, isso não tornou as ONGs hoje em dia, mais mansas. De certa forma, não poda a crítica, que sempre foi um papel das ONGs nos anos 1980, tanto que hoje chamam de organizações neo-governamentais.

José Junior: Eu nunca ouvi essa expressão.

Bruno Paes Manso: Que fazem um trabalho mais de parceiro. Mas que deixam um pouco de lado, críticas. Por exemplo, sobre o papel do governo em relação à educação, que é um papel fundamental, e que é mal feito. E esse papel de tentar ser parceiro, deixa um pouco de lado o papel de exercer a crítica. Você não acha que essa necessidade, ou essa busca de parceria e etc, não acaba deixando um pouco de lado esse papel de contestação que as ONGs tinham no começo dos anos 1980?

José Junior: Tem ainda. Eu concordo e discordo. Mas quando eu falei parceria para ele ali, eu falei parceria de metodologia e de uma outra organização seja governamental ou não governamental para o AfroReggae. O AfroReggae ficou 3 anos, seus primeiros anos não tinha apoio de ninguém, [tinha] uma coisa muito pontual, 500 reais de doação. Então, a gente aprendeu desde o começo a gerar recursos. Eu acredito que, no caso particular da gente, eu acredito que entre 7, 12 anos o AfroReggae vai se tornar uma empresa social, tem potencial de ser auto-sustentável. Eu acho que o grande passo que as organizações não-governamentais no Brasil terão que dar é de se transformar em auto-sustentável. É claro que tem instituições que trabalham, por exemplo, com aids, é muito difícil que a instituição seja auto-sustentável. Tem temas muitos difíceis, mas no nosso caso a gente lida com entretenimento. A gente faz shows hoje em Nova Iorque, faz shows em locais que geram recursos. Então, a gente tem esse potencial. Venda de livros, CDs, DVDs. Já fizemos três filmes, estamos fazendo outros dois filmes. Se eu disser que não tem recurso eu vou estar mentindo, sendo leviano, gera sim, estamos abrindo muito o mercado. Então, eu acho que talvez, a tendência hoje é, primeiro, o seguinte: uma coisa importante.... tem poucas organizações hoje tão dependentes da cooperação internacional como em 1980. Porque tinha uma contestação forte, mas também tinha uma dependência da Europa e dos Estados Unidos, hoje não. Boa parte das organizações brasileiras são financiadas por empresas brasileiras, pelo governo brasileiro. Então, tem aspectos positivos e aspectos muito negativos. Eu particularmente fui formado, eu sou um “produto”, de dois grandes protagonistas; um, um padre italiano que foi da Fase, que é a ONG mais antiga do Brasil, Lorenzo Zanetti, que foi meu guru na área social, já faleceu. O outro Wally Salomão [1943-2003, poeta, escritor, produtor cultural, autor de letras de músicas de sucesso, principalmente do Tropicalismo, foi muito ligado ao AfroReggae e era um dos principais assessores de Gilberto Gil no Ministério da Cultura, respondendo pela Secretaria Nacional da Leitura, quando morreu] totalmente ao contrário do Lorenzo, capitalismo, rebelde. Quando eu digo que tive dois gurus, não eram gurus assim de admiração somente. Eu não admirava tanto no começo, passei admirar anos depois. Mas eram as pessoas que me capacitaram, que me formaram. Hoje, eu tenho um terceiro guru, que está até ali presente que é o Ricardo Guimarães, que vem me ajudado muito com alguns conceitos, julgando a ética. Por mais que eu era uma pessoa ética, a minha visão de ética era muito limitada. Eu tenho muitas limitações, na questão mesmo no ensino eu sou um "puta" mau exemplo, nem tenho o primeiro grau. Na verdade, eu busco entender muito, busco ler, busco ouvir, eu tenho mais facilidade em aprender ouvindo do que lendo. Eu tenho dificuldade de leitura. Até hoje eu tenho dificuldade de leitura. Mas estimulo muito as pessoas do AfroReggae. Inclusive, agora, tem vários jovens indo para a universidade. Então, assim, acho que você está aberto para essas manifestações, você está aberto para essas influências. Eu considero super importante. E cada vez mais buscar autonomia e independência. Hoje, grupos como o AfroReggae, a grande maioria dos grupos hoje de impacto nacional são financiados pela Petrobras. A Petrobras hoje, tem um papel fundamental em grupos como AfroReggae e grupos como o Grupo Corpo, Companhia Débora Colker [companhias de dança]. Essa relação eu acho importante também, de troca e de fortalecimento.

Paulo Markun: O nosso tempo acabou, eu farei uma última pergunta...

José Junior: Leve, leve porque está acabando!

Paulo Markun: Se você tivesse um desejo só a realizar, nesse campo obviamente da sua ação social, quer dizer, se pudesse resolver um problema, qual seria?

José Junior: Não ter mais criança no narcotráfico.

Paulo Markun: Obrigado pela sua entrevista, obrigado aos nossos entrevistadores, a você que está em casa. Nós voltamos na segunda-feira, 10h30min da noite, 10h40 min da noite com mais um Roda Viva, uma ótima semana e até segunda.
 

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