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Bernardinho

8/1/2007

Disciplina, seriedade, compromisso e sacrifício são itens fundamentais para um atleta bem sucedido, segundo o técnico da Seleção Masculina de Vôlei

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Programa gravado

Paulo Markun: Boa noite! Ele já levou muita bronca na rua de gente que repreendia por gritar demais com as meninas e por ser muito duro com os meninos. É parte da imagem criada como treinador exigente, perfeccionista e obstinado. O Roda Viva entrevista, esta noite, Bernardo Rocha de Resende, o técnico Bernardinho, que consolidou a Seleção Masculina como potência do vôlei mundial. Bernardinho foi escolhido pelo Comitê Olímpico Brasileiro como melhor técnico de 2006. É a quarta vez que ele recebe essa premiação, as outras foram em 2002,2003 e 2004. Este ano o prêmio foi dado pela atuação dele à frente da Seleção Brasileira Masculina de Vôlei. Vencedor em 2006 do hexacampeonato da Liga Mundial na Rússia e do bicampeonato mundial no Japão. Mais pontos na carreira do treinador que faz a seleção suar a camisa.

[Vídeo comentado]:  Transformando suor em ouro é o título do livro onde Bernardinho conta histórias do voleibol brasileiro, vitórias, resultados, relatos de conquista e de sua própria vida e carreira. Carioca nascido e criado em Copacabana, formou-se em economia na Universidade Católica do Rio, mas, por influência dos primeiros treinadores, o pai Condorcet [Resende] e o técnico Bené, do Fluminense, Bernardinho decidiu-se pelo vôlei e começou a jogar seriamente aos 11 anos. Aos 17 chegou à Seleção Brasileira, onde se firmou nos anos 80, sob o comando do técnico Bebeto de Freitas. Primeiro reserva de William, Bernardinho viveu uma das eras mais vitoriosas do vôlei brasileiro ao lado de Renan, Bernard e Montanaro, grupo que mais tarde ficou conhecido como “a geração de prata”. Em 1988 foi assistente de Bebeto e, no ano seguinte, se lançou numa aventura italiana ao ser convidado e aceitar dirigir o time feminino de vôlei do Peruggia. Ficou na Itália até 1993, quando voltou e foi comandar as meninas do Brasil. Técnico da Seleção Brasileira Feminina por sete anos, Bernardinho diz no livro que a medição de força com as cubanas marcou aquela fase, quando as meninas conseguiram a primeira medalha olímpica na história da seleção feminina. Era para ser ouro na aposta de muitos, mas as cubanas endureceram em um jogo que ficou na memória pelas provocações e pela briga final, um acontecimento raro nesse esporte. Restou o bronze para as brasileiras. Mas a “era Bernardinho” também foi marcada por dezenas de vitórias importantes, entre elas a medalha de ouro nos Jogos Panamericanos de Winnipeg, em 1999, no Canadá, e a medalha de bronze nos jogos olímpicos de Sidney na Austrália. Para o técnico, foi a consolidação da carreira e do estilo durão, exigente, muitas vezes nervoso e bravo que custou as broncas recebidas na rua, mas que também lhe valeu o convite para comandar a seleção masculina em 2001. Apostando tudo em trabalho, treino e suor, Bernardinho partiu em busca do ouro, conduziu os meninos do vôlei a uma rotina de vitórias, chegando à medalha olímpica de ouro em Atenas 2004 e, agora, aos títulos de campeão da Liga Mundial pela sexta vez e a conquista do bicampeonato mundial no Japão. A Seleção Masculina Brasileira terminou 2006 em primeiro lugar no ranking da Federação Internacional do Vôlei e Bernardinho fechou a temporada firmando a imagem  de um especialista em formar equipes. Desde os tempos da seleção feminina, é convidado por empresas para dar palestras sobre liderança e sobre a relação que o esporte tem com [o] mundo corporativo. Disciplina, persistência, motivação, planejamento de trabalho em equipe trazem resultados não só nas quadras, mas também no desempenho empresarial e na própria vida das pessoas, diz Bernardinho. Em 2003 ele criou o Instituto Compartilhar, uma organização civil sem fins comerciais voltada para o desenvolvimento humano através do esporte. O instituto trabalha com crianças e adolescentes e tem vários programas de ação esportiva e de educação.

Paulo Markun: Para entrevistar o técnico da Seleção Brasileira de Vôlei, Bernardinho, nós convidamos Mariana Lajolo, repórter de esportes do jornal Folha de S. Paulo; Hélio Alcântara, apresentador e diretor do programa Grandes momentos do esporte, da TV Cultura; Soninha Francine, vereadora, apresentadora e comentarista da ESPN Brasil, colunista do Caderno de Esporte da Folha de S. Paulo e presidente do Instituto Gol Brasil, que defende os direitos dos torcedores; Sérgio Mindlin, empresário; Maria Inês Felippe, consultora de recursos humanos e inovação aplicada ao negócio, vice-presidente da Associação Paulista dos Administradores de Recursos Humanos e membro atuante da Associação Brasileira de Recursos Humanos. Também está conosco Nely Caixeta, jornalista de economia e negócios e sócia da Totum Excelência Editorial. Também temos a participação do cartunista Paulo Caruso registrando em seus desenhos os momentos e os flagrantes do programa. Boa noite, Bernardinho!

Bernardinho: Boa noite, Paulo!

Paulo Markun: Queria começar pelo final, fazer uma pergunta que certamente não vai ser o objeto central da conversa nossa aqui. Eu li no seu livro, Transformando suor em ouro, aliás, muito bem articulado, eu li a maior parte das entrevistas que você concedeu para a imprensa escrita nos últimos tempos e não vi em nenhum desses momentos a palavra “prazer”! Você fala em paixão, obstinação, determinação, crença, suor, esticar a zona de desconforto. Onde é que na sua vida se encaixa o prazer?

Bernardinho: Eu acho que [em] tudo aquilo que a gente faz com paixão há o prazer envolvido. Porque, muitas vezes, as pessoas ligam o prazer a uma coisa assim... meio que um relaxamento, igual à figura que nos vem à cabeça de uma rede armada entre dois coqueiros.

Paulo Markun: Você nunca está na rede?

Bernardinho: Não, nessa não! Entre dois postes e uma quadra [risos], em geral é nessa! Mas eu tenho um enorme prazer em estar ali, como acredito que a minha seleção, que esse grupo que hoje eu comando tem um prazer enorme em estar nesse momento de tensão. Eu acho que ela se caracteriza por dar o seu melhor nos momentos de maior cobrança. E tem que ter prazer em fazer isso e tem que ter não apenas a competência, mas se sentir confortável em momentos que parecem muito inconfortáveis, desconfortáveis, perdão, que eu acho que é um pouco a característica desse grupo. Não teria como você estar – com esse grupo são seis anos, quase treze à frente de seleções–... se não desse prazer, não seria possível.

Paulo Markun: Eu vou insistir na zona de desconforto para você, que é a seguinte: fora isso, onde é que você tem prazer, satisfação? Quer dizer, essa idéia da rede armada entre dois coqueiros jamais estaria presente no seu dia-a-dia?

Bernardinho: Não, porque não é uma coisa assim... “Olha, escolha alguma coisa que te dê prazer para você fazer, dar uma parada”. Mas não seria isso que eu faria não. Se eu for pra praia relaxar eu vou querer andar, caminhar, fazer algum esporte, mergulhar com a minha filha. Isso me daria prazer, então alguma coisa que tenha... vinculado com algum tipo de atividade. Pode parecer que “puxa, mas vai andar na areia, vai cansar e tal”. Não! Para mim é prazeroso. Então, o prazer está, assim, em ler um bom livro, que é quando eu me abstraio um pouco da tensão durante os campeonatos. Eu realmente consigo entrar na história, é o único momento que eu consigo. Vou parar, vou dar uma descansada e relaxar... eu começo...

Paulo Markun: Um filme, por exemplo, não te desliga da vida?

Bernardinho: Um filme, eventualmente, sim, mas é muito mais complicado nas viagens e tal, mas eventualmente sim. Mas os livros me transportam a essa zona de conforto, dando assim, no mínimo, a zona de conforto de um outro personagem do livro, que não é a minha. Mas com certeza o porto seguro, o equilíbrio é a família. É estar com meus pais, com meus irmãos, com a Fernanda [Venturini, ex-jogadora de vôlei na posição de levantadora], minha esposa, com os filhos. Embora meu filho [Bruno Mossa Resende, filho do casamento de Bernardinho com a ex-jogadora de vôlei Vera Mossa] também esteja jogando, eu confesso que eu não sei se eu fico mais tenso nas quadras ou assistindo ele jogar. Eu não vou ao ginásio, eu vejo ele de casa. Então, eu morava num condomínio de dois andares e eu ia assistir [a]os jogos dele nas finais do ano passado – que ele, enfim, acabou conquistando o campeonato brasileiro– no segundo andar do apartamento, sozinho, né, assim meio... Você fica muito mais tenso porque você não pode participar, você não tem como ajudar e você não quer que ele se frustre de forma alguma.

Hélio Alcântara: Bernardo, você, como está dito no livro, você veio de uma família, quer dizer, você nasceu em uma família de classe média alta, no Rio de Janeiro. Então pressupõe-se que você não teve que lutar desde cedo para sobreviver, para ir atrás das coisas, assim, dessa maneira que todo mundo conhece. Onde é que você então descolou essa busca pela excelência – que é um termo que você usa, inclusive, no seu livro–, essa gana de buscar quase a perfeição nas coisas que você faz?

Bernardinho: Eu acho que isso é uma coisa que foi... claro, tem alguma coisa da minha característica própria, mas várias pessoas talvez tenham me colocado nessa estrada, a começar pelos meus pais. A minha mãe era aquela que acordava a gente às seis da manhã para ir nadar e a gente... friozinho, quer dizer, no Rio, friozinho, às seis da manhã, é sempre desconfortável. E aí, puxava e tal, vem e tal e levava para nadar. Depois, só ao longo dos anos, muito tempo depois, reconhecemos a importância daquela coisa que parecia meio ditatorial, do esporte, que era a parte dela de nos levar, mas que era importante para a nossa saúde, enfim, prática esportiva de uma forma geral. E meu pai nessa questão de sempre nos orientar no sentido de façam o que façam, né, buscar primeiro a integridade moral; segundo, a competência profissional; terceiro, solidariedade social. É um pouco da origem positivista dele, mas os valores que ele passava, então, essa questão de estar sempre buscando a sua competência, buscando compartilhar isso com os outros, fazer sempre o melhor. E o meu primeiro treinador, o Bené, que é aquele que me desafiava, conhecendo a minha limitação técnica, a voltar e fazer, né, a fazer um pouco melhor, isso realmente foi construindo em mim um pouco dessa minha linha de personalidade, de estar sempre querendo um pouco mais, meio que quase que um inconformismo de imaginar que pode ser feito alguma coisa melhor. Então acho que [é] esse somatório de experiências, de convívio com pessoas que talvez tenha me colocado um pouco nessa linha.

Hélio Alcântara: Essas frases vêm do teu pai ou não?

Bernardinho: Várias delas.

Hélio Alcântara: Várias?

Bernardinho: Ah, com certeza! Muita das coisas que ele continua dizendo continuam muito vivas na minha cabeça.

Soninha Francine: Bernardinho, qual foi o momento exato em que o Brasil perdeu um economista? E o que exatamente tinha te levado para economia?

Bernardinho: Olha, na realidade, quando eu entrei para a faculdade, na PUC do Rio de Janeiro, a monitora, meus pais diziam: “Matemática é muito importante, desenvolve raciocínio lógico”. Para engenharia, que foi meu primeiro curso, você pode depois migrar para onde você quiser. Embora eu praticasse voleibol, era a minha grande paixão, eu até então não tinha percebido o quão grande era. Eu me lembro do Montanaro – só voltando até um pouquinho à sua pergunta–... Porque alguém de classe média alta – alta, meu pai era um advogado bem-sucedido–... porque que eu continuava jogando e, às vezes, num sacrifício que nós fazíamos, dormindo embaixo de arquibancada, comendo aquela comida que eles comem nas concentrações pelo Brasil afora, pelo mundo, às vezes, em certas situações que não é exatamente hoje, mas há 20 anos, 25 era assim que a coisa... E o Montanaro, um dos grandes jogadores da Seleção de Prata, perguntava: “Bernardinho, por que isso? Larga isso, é muito sacrifício, vai pra casa estudar, ajudar seu pai, trabalhar”. E eu descobri, então, que o que me movia não era a necessidade, que a gente é movido a duas, basicamente... duas molas propulsores: a necessidade ou a paixão. A minha maior era a paixão, não era a necessidade. Mas, voltando um pouco a essa questão dos números, e era um pouco o sonho dos meus pais, que eu me formasse em alguma coisa que me desse a condição de ter uma vida profissional segura. E aí, então, eu fiz engenharia, mas achei assim... concluí a parte básica toda em engenharia, mas eu não gostava da engenharia e migrei para economia. E o que me seduziu  na economia, mais do que apenas realmente muitos temas interessantes  a sociologia, antropologia, uma série de coisas ligadas mais à questão humana, ciência humana, depois eu vi que ela ajudou em muitas outras coisas na vida, no meu dia-a-dia como treinador–... foram os professores que me seduziram. Mais uma vez as pessoas nos influindo. Como meu primeiro treinador, antigos professores, André Lara Resende, Paulo Guedes, fiz cursos com vários dos grandes economistas oriundos da PUC, que estavam lá naquele momento...

Paulo Markun: Você chegou a ter aula com o Pedro Malan?

Bernardinho: Pedro Malan não foi meu professor...

Paulo Markun: Porque ele era da economia...

Bernardinho: Também. José Márcio Camargo, Eduardo Amadeo, vários deles foram meus professores e aquilo, o brilhantismo e a competência dessas pessoas, me seduziu absolutamente! Quer dizer, eu me lembro até que o André Lara Resende me levou para fazer um estágio e ele dava um curso, chamava Moeda e Bancos. E quando ele foi distribuir as provas, ele deu, não sei, por ordem de graus e a primeira nota era a minha, eu tinha tirado, sei lá, um 8,5. Ele olhou: “Vem cá, quem é esse Bernardo?” Na época eu não era, assim, Bernardinho, eu era um banco da geração de prata. “Sou eu, professor!” “Eu não te vejo muito aqui!” [risos] Eu viajava muito, já, para jogar. Mas eu não tinha colado, não. Eu levava matéria, eu tinha amigos que me possibilitaram, eu tinha uma equipe que me possibilitou concluir esse meu primeiro projeto. E isso me seduziu muito, as pessoas realmente... eu estudei muito.  E aí eu fui fazer um estágio, mas era o ano de 1984, o ano das Olimpíadas de Los Angeles. Ir a uma Olimpíada, com a chance de uma medalha, como nós acabamos concluindo, era uma coisa muita mais sedutora do que o estágio num grande banco...

Nely Caixeta: Alguma coisa você aprendeu das suas aulas de economia, alguma coisa que você transporta para sua...?

Bernardinho: Muita coisa....

Nely Caixeta: Porque seus professores, eles foram... em economia, eles são monetaristas ortodoxos e você é bastante ortodoxo como treinador. Alguma inspiração?

Bernardinho: Nem todos são ortodoxos, mas são todos... tem lá enfim, pessoas, aliás, o Paulo Guedes, com certeza é um monetarista, mas muitas das coisas que um economista, às vezes, faz, ele tenta extrapolar para o futuro: determinar padrões. E o que a gente faz? Quando eu estudo o adversário, eu tento determinar o padrão de comportamento dele, extrapolar o futuro. Que tipo de jogada ele vai fazer nessa circunstância X ou Y? É isso o que eu faço o tempo todo. E também determinar um padrão para nós jogarmos, extrapolar o futuro em relação a um atleta, quanto ao que que ele pode ou não contribuir, de que maneira nós vamos chegar em 2008. As pessoas já falam hoje que a seleção vai chegar com uma faixa etária elevada. Mas, aí, o que é que eu faço? Eu estudo o passado, ou seja, as teorias do passado. Em 2004, diziam: “Nenhuma equipe tinha ganho a Liga Mundial e a Olimpíada no mesmo ano”. Aí eu fui ver e não era verdade, porque a Holanda ganhou, então é a Holanda. “Ah, vai chegar a antiga”. Mas em 1976 a Polônia foi campeã olímpica com a equipe mais velha da competição, longe de ser a equipe menos motivada, menos capaz.

Paulo Markun: Mas tinha um técnico meio carrasco, até o apelido dele era esse.

Bernardinho: Era, era.... Eu sempre pergunto isso para as pessoas. Quem de nós não teve um carrasco, entre aspas, na nossa vida e depois a gente não tenha reconhecido o valor dele como tendo nos desafiado um ponto além daquele que a gente imaginava poder?

Maria Inês Fellipe: Bernardinho, a gente tem percebido muito, no mundo corporativo, dentro das empresas, a preocupação muito forte na preparação das suas lideranças e também das suas equipes. Então a gente começa a perceber uma característica muito forte, que é o que você está trazendo até agora, da paixão, por gostar, o sentir prazer naquilo que faz e tal. E hoje o que nós mais trabalhamos nas empresas é o interesse e o foco no objetivo que cada liderança deve ter como também na maneira como liderar sua equipe. Então, acho que são duas grandes vertentes: uma é o foco no resultado e nos fatores motivacionais. E também a gente percebe, pelo menos em algumas falas dos nossos clientes, as diferenças, no que diz respeito à liderança, de grupo de mulheres e liderança de grupo de homens. Tenho que clientes que falam assim: “Maria Inês, quando eu vou negociar com uma mulher, me dá um pouco a sensação de que eu já entro perdendo. Ou então eu sinto que, quando eu tenho que liderar uma mulher, é mais difícil do que um homem”. E, às vezes, a gente também vê o contrário. Como que isso funciona dentro do esporte? Liderança de grupo de mulheres e liderança de grupo de homens?

Bernardinho: É, há diferenças. No que diz respeito ao treinamento, quer dizer, a base do processo de preparação é a mesma. A mulher tem uma resistência ao processo, à dor mesmo, porque muitas vezes o processo é doloroso efetivamente, porque nós mexemos com o físico, então ela tem uma resistência muito grande. No nosso caso, a questão técnica preponderante, os fundamentos têm que ser muito mais trabalhados, porque ela não consegue compensar fisicamente algum erro do ponto de vista...  a precisão tem que ser muito maior no feminino. E, aí, é uma questão bastante técnica. No que diz respeito ao relacionamento, à liderança, questão de motivação, desafio, cobrança, eu acho que basicamente é uma questão emocional. E emocional vinculada muito mais à questão cultural. Claro que há as questões hormonais, embora o dia... que nós [homens], sem as razões hormonais, também tenhamos os nossos dias, mas o fato é que há obviamente isso, então você [deve] tentar entender um pouco mais. Mas há uma coisa que eu acho que facilita, na minha opinião facilita, um aspecto, que é você ler os sinais. A mulher não tem nenhum problema em emitir, demonstrar o que está sentindo, enquanto que o homem, na nossa cultura, é mais reservado, “homem que é homem não chora”, aquela coisa toda. Então você não sabe exatamente o que está se passando. Aí, quando você estica a corda demais, ela tende a estourar e você não percebeu o que estava esticando demais. A mulher vai chorar, ela vai demonstrar e você então recolhe um pouco a corda. Mas a questão é essa, se você esticar um pouquinho e tal,  a tendência de deixar fluir a emoção, é que ela leva para o lado pessoal: “Ah, ele não gosta de mim! E depois se transforma entre o racional e profissional para o pessoal, onde você tem que trabalhar isso. E como lidar com momento de grande tensão? Então é uma coisa que tem que ser preparada, trabalhada. Então, essa questão do emocional tem que ser muito mais bem cuidada com as mulheres em função de elas deixarem que esse lado domine tremendamente o outro.

Hélio Alcântara: Você já entrou perdendo com elas? [risos]

Bernardinho: Elas continuam no poder, mas eu acho que a gente...

Maria Inês Felippe: Mas no fim você acaba ganhando...

Bernardinho: Sem dúvida....

Maria Inês Felippe: A sua sensação é de perda, mas na realidade você está fazendo com que elas consigam atingir um objetivo que estava muito bem traçado.

Bernardinho: Eu, por exemplo, tenho sempre uma mulher na minha comissão técnica, porque  o voleibol é uma atividade [em] que você não pode ter uma equipe mista, pela questão física, além da potência etc. Então, eu tenho porque significa ter alguém com uma ótica, uma visão própria, e que te ajuda muita nessas questões de tentar entender as coisas, como é que você lida, “atenção aqui”, “que questão tá pegando?”... Eu não tenho, ainda, ela tem essa coisa, esse lado muito mais desenvolvido, a tendência é essa. Mas eu acho que... inclusive, eu brinco que a gente está perdendo, com a sensação de que elas estão comandando. E a questão é você ser a ferramenta realmente para que elas possam realizar. São ambiciosas, são profissionais, querem chegar... Eu tenho, assim, um grande prazer em trabalhar com elas.

Maria Inês Felippe: Você trouxe um aspecto interessante que a gente sempre ressalta, principalmente dentro das empresas, que as empresas compram mão-de-obra e, de brinde, levam o cérebro, quer dizer, está alguma coisa estranha, né? A gente pode aproveitar da mão-de-obra, mas também do cérebro, das emoções etc. E aí tem esse equilíbrio muito forte, como você está colocando, da razão e da emoção. Como fica essa questão do uso do pensamento, não somente da técnica – como é muito forte–, mas como fica para você, na sua liderança e na sua formação de equipe, a utilização do pensamento, da forma criativa, da maneira como as pessoas imaginam e propõem?

Bernardinho: Eu acho, basicamente, que a gente convoca – no caso eu não compro, eu convoco– é a capacidade de realizar. E aí está envolvida a questão do pensamento, da inteligência das pessoas com a sua capacidade técnica, física e técnica. E eu digo, eu não tenho nenhum serviço e nenhum produto, eu só tenho gente, de [...] e performance. Eu sou quase um profissional de RH, eu tenho uma firma de treinamento de pessoas, quer dizer, o que eu faço é desenvolver pessoas, acho que esse é o meu diferencial. Essa questão da tecnologia, quanto tempo dura uma nova jogada no mercado de hoje? Ou seja, quanto tempo os adversários levam para ver uma nova jogada? Jogamos ontem, já viram ontem ao vivo. No Japão, vêem via internet, se não foi ao vivo, lá, vão ver amanhã. Então, nós temos que ter pessoas comprometidas, preparadas, capazes, inteligentes, de estar sempre provendo alguma coisa nova que gere esse diferencial que nos faz continuar vencendo, essa é a questão. E não é uma coisa simples porque nós também estamos num mundo de grande visibilidade, grandes visibilidades geram muitas vezes egos e vaidades fora do controle. E aí está o grande vilão dessa história da construção de equipes, onde a inteligência pode ser, de uma certa forma, aplainada por uma questão de uma vaidade fora de controle. Isso é o que a gente tem que estar monitorando o tempo todo e se monitorando também.

Paulo Markun: Bernardinho, vamos fazer um  intervalo e voltamos num instante com o Roda Viva que esta noite tem na platéia José Henrique Amorin, diretor de esportes do Esporte Clube Pinheiros, Paula Fernando Donádio, estudante de jornalismo, e Bruno Secon, jornalista.

[intervalo]

Paulo Markun: Voltamos com o Roda Viva, que entrevista hoje Bernardinho, técnico da Seleção Brasileira Masculina de Vôlei. Bernardinho lançou um livro agora, no final de 2006, em que conta histórias do vôlei brasileiro e de sua carreira. Ele começou a jogar vôlei aos 11 anos e chegou à Seleção Brasileira no início dos anos 80. Fez parte da “geração de prata” e depois começou a trabalhar como treinador. Ficou três anos na Itália e, nos anos 90, de volta ao Brasil, comandou a Seleção Feminina. Desde 2001 é o técnico da Seleção Masculina, ouro em Atenas em 2004 e bicampeã mundial no Japão em 2006, um desempenho que colocou o Brasil em primeiro lugar no ranking da Federação Internacional de Vôlei. Bernardinho, o cantor e compositor Nando Reis tem uma pergunta sobre o desentendimento ocorrido no Japão e como você fez para administrar tantos talentos. Vamos ver.

[VT de Nando Reis]: Bernardinho, sou eu, Nando. Queria, em primeiro lugar, dizer que eu te admiro, dar os parabéns pela conquista. Dizer que você é um desses exemplos que ainda é capaz de mostrar que o Brasil pode salvar o Brasil. E a minha pergunta é a seguinte. Nesse último, houve um jogo na Liga [em] que teve um desentendimento entre o Ricardinho e o resto da equipe que gerou uma espécie de mal-estar. Queria que você contasse um pouco como você administrou esse episódio e dissesse como a competitividade interna de uma equipe pode ser um fator de força e não apenas de cisão?

Bernardinho: É, achei que ficou bastante evidente a questão do... esse tipo de “quase-conflito”, no sentido dessa discussão e interpelação que aconteceu e se tornou um pouco mais acentuada nessa partida do campeonato mundial contra a Bulgária, ela realmente foi um momento delicado. Mas, depois do problema acontecido, eu dei uma entrevista dizendo que isso é bastante natural, no nosso dia-a-dia isso acontece tremendamente. E eu comecei a pensar “será que eles não ultrapassaram um pouco a linha do respeito, de alguma coisa?” Pode ser que sim, até porque, na forma, sob tensão, todos nós vamos errar, o que não podia haver naquele momento ali era qualquer dúvida em relação à intenção da história. E que aquele verdadeiro sentimento permeava aquele grupo, né? E aí eu fui para o hotel pensando nessas coisas todas e eu vi que o que existia na realidade era uma grande confiança entre eles. Eles não se melindram ou não se seguram cobrar, eles querem cobrar porque todos eles querem demais um objetivo que é de todos, mas cada um da sua forma cobra. Então houve  uma cobrança, talvez um pouco dura demais, e a reação saiu numa extensão que não foi a melhor, houve uma discussão, mas um dia depois.... Eu não resolvi nada, eu até marquei de nós sairmos dali, nós estávamos em Hiroshima e iríamos para a última fase, semifinal e final em Tóquio, tivemos dois dias de intervalo. No segundo dia, eu fui estudar nosso adversário, que era Sérvia e Montenegro. Eu marquei uma reunião à noite, para nós vermos os vídeos, reunião técnica, e disse aos jogadores o seguinte, aos líderes principalmente, que naquele momento eu não queria trazer o Ricardinho, que era um dos líderes e estava envolvido como protagonista da discussão, eu chamei o Gustavo [Endres, atua como meio de rede] e Giba [Gilberto Amauri de Godoy Filho, atua como ponta], que estavam mais como interlocutores, mediadores da história e disse: “olha, vocês vão conversar, eu não vou conversar. Isso é uma coisa que tem que ser resolvida aqui – eu virei para...– se é o caso a gente conversa depois”... E disse: “a reunião está marcada para as nove, nós temos das nove às onze para estudar os adversários, eu só chego às nove e meia. Antes eu quero que vocês conversem, depois nós vamos seguir em frente”. E eu, quando eu cheguei para a reunião, o Giba foi lá fora, o Gustavo e [falaram] : “Olha, nos dá mais dez minutos”. Ou seja, eles queriam poder olhar nos olhos dos outros, conversar, abrir o coração, dizer o que tinha acontecido. O interessante é que, na partida seguinte, contra Sérvia e Montenegro, foi uma partida um pouco de altos e baixos e terminou num crescente muito bom, depois a final. Teve uma cena [a] que eu assisti aqui no Rio, depois, no Brasil, perdão, do Ricardinho e do Sérgio, que tinham sido dois protagonistas da discussão, rolando no chão. [risos] E cenas efusivas de grande carinho, eu falei “calma”! Ou seja, o fato é que não havia dúvidas quanto à intenção do outro ou o sentimento que permeava. No final da competição, houve  uma declaração muito interessante de um dos rapazes, dizendo o seguinte: “Nós vamos ganhar, nós vamos perder, nós vamos ter nossas discussões, mas o que nós queremos levar daqui é que, daqui a dez anos, quando a gente se encontrar ou se telefonar, alguém tiver precisando de ajuda, o outro vai estar aqui para ajudar! Como está hoje. E que isso realmente perdure, essa é a essência dessas gerações. Medalhas e troféus terão bastantes ou não, né? Mas isso nós não podemos deixar de forma nenhuma escapar, então acho que isso representa bem aquilo que a gente talvez tenha construído ao longo desses seis anos.

Sérgio Mindlin: Bernardinho, eu queria retomar um tema que você falou no início – dos valores que o seu pai colocou– e um era o comprometimento social. E você criou um instituto em Curitiba, o Instituto Compartilhar. Fala um pouquinho desse trabalho e como é que você leva essa experiência da quadra para essa questão do desenvolvimento social.

Bernardinho: No esporte, na realidade, há muitos anos, eu me lembro que nós fomos fazer jogos amistosos, treinamentos, quando eu jogava na seleção, em presídios, no sentido de trazer alguma coisa para os presos, esporte, trazer outras coisas, enfim. Eu comecei a me questionar do porquê dessas coisas, como é que você pode dividir um pouco daquilo que você faz, daquilo que você representa com os outros. Há dez anos nós criamos um projeto patrocinado pela Unilever em Curitiba, isso despertou realmente o interesse de me envolver formalmente com um projeto dessa natureza. Quer dizer, propiciar a prática esportiva para os jovens, tentando, através da prática esportiva, transmitir alguns valores. A questão da socialização, das relações... no voleibol é isso, você troca bolas o tempo todo, então você está o tempo todo interagindo com alguém. Disciplina, o respeito às regras, às normas, a proatividade, enfim, o trabalho da auto-estima, isso foi sendo construído. Não existia um projeto claro, a gente foi, a quatro mãos, construindo, quer dizer, a minha equipe técnica com o pessoal da empresa, e isso foi sendo construído. E eu, além dessa questão do projeto que é bancado e mantido pela empresa, eu queria fazer uma coisa minha, porque o esporte começou a me dar coisas e condições que eu jamais imaginei ter. E, principalmente, me deu a oportunidade, mais do que qualquer outra coisa, do que bens financeiros. Se eu chego hoje em algum lugar, as pessoas talvez queiram tomar um cafezinho comigo, não sei se eles vão me patrocinar em alguma coisa, mas certamente eles vão me ouvir hoje. Pode ser que... eu me perca, não, mas é natural, é do esporte. Então eu comecei a ver que o nome do instituto é Compartilhar, porque a idéia era compartilhar aquilo que o esporte tinha me dado com outras pessoas. E é uma coisa, uma imagem que eu ouço, que é muito interessante, e eu vi na apresentação de Londres, que acabou conquistando o direito de sediar as Olimpíadas de 2012. Eles têm um vídeo muito interessante, onde falam dessa questão do esporte olímpico, como a importância dessa massificação e a possibilidade de tantos jovens praticarem esporte. Quantos jovens são necessários praticando esporte para se formar um campeão olímpico? Milhares, dezenas de milhares, centenas de milhares... E eu digo o seguinte: mais importante não é formar o campeão olímpico, isso é a cereja do bolo! O mais importante é você prover às centenas de milhares, dezenas de milhares a possibilidade de prática esportiva. Quando houve essa discussão recente sobre a questão da cultura e do esporte e eu cheguei do Japão e me vi envolvido nessa questão... e um país que pretende, ou enfim... para privilegiar uma área ou fomentar o esporte ou a cultura tem que fazer uma coisa em detrimento da outra ou entrar nessa discussão do que é importante, quer dizer, contemplaremos apenas uma, não pode ser levado a sério. Porque ambos são extremamente importantes no que diz respeito ao processo de educação. Antes de falar de educação, a gente fala de instrução, a gente fala de uma série de outros valores, que vem de onde? Vem da prática esportiva, vem às vezes de uma questão religiosa, do culto, vem de uma série de manifestações em formas de cultura, da arte, do teatro, vem da escola. Se nós tivéssemos ainda a escola como... Houve uma grande deterioração na questão educacional do país, isso é claro.

Sérgio Mindlin: E não seria o caso de incentivar muito mais o esporte na escola?

Bernardinho: Com certeza, inclusive hoje nossos projetos são quase todos... quase todos vinculados às escolas. Há praças públicas também nesses projetos que nós co-apoiamos ou financiamos diretamente pelo instituto, eles estão vinculados a isso, porque o habitat natural está ali. Então ele terá instrução, terá prática esportiva, terá uma série de possibilidades de respeito a manifestações culturais. É dança, é teatro, é música, enfim, uma série de coisas importantes. E eu acho que isso realmente forma um cidadão completo, está aí uma possibilidade que só a escola pode fazer.

Nely Caixeta: Como que você vê o futuro do vôlei no Brasil, porque ainda hoje é um esporte de classe média. Você acha que ele pode...

Bernardinho: Já, já não dá....

Nely Caixeta: Não concorrer com o futebol, mas caminhar para ser um esporte de massa?

Bernardinho: Acho que concorrer não é realmente nossa intenção, acho que é [uma questão] de mercado, há possibilidade para todos. Hoje já não é mais um esporte de classe média, eu posso dizer que não. Por exemplo, há na Seleção Brasileira o Sérgio, o Escadinha, nosso  líbero [atleta especializado nos fundamentos que são realizados com mais freqüência no fundo da quadra como recepção e defesa], que veio de Pirituba, que é um rapaz de classe baixa, veio de uma condição realmente, extremamente desfavorável, de baixa renda, de uma comunidade até com problemas sociais sérios. Eu até costumo dizer, não sei se o apelido dele veio daí, mas existe um criminoso no Rio de Janeiro, o Escadinha, eu digo “nós temos um Escadinha do bem”. Ele escolheu uma estrada diferente, que não foi mais fácil, num primeiro momento não foi mais fácil, mas ele embocou naquilo e correu atrás, ele foi fazer... Então eu acho que o esporte tem essa capacidade de gerar isso também, como a cultura. Não existe um instrumento de transformação, embora esse termo seja muito banalizado, hoje, mas é um fato, se a pessoa tiver um talento, um jovem tiver um talento para música, ele rapidamente pode ser usado, para o futebol... Então, essa é uma condição que ele não teria de outra forma. O processo de educação é um processo mais longo, mais demorado e o esporte idem. Então, hoje, o esporte, o voleibol é um esporte bastante massificado. O meu medo hoje é que a gente incorra naquela mania de sucesso, imaginar que nós vivemos num mundo ideal onde o voleibol é a solução para tudo e que a gente deixe de privilegiar coisa importante. O que acontece? Num país com poucas oportunidades, o jovem, quando ele entra no esporte, a família começa a fomentar e diz para ele assim: “Larga tudo e se dedica a isso! Você vai ser nosso arrimo de família e transformar a nossa vida.” E realmente é o ponto de vista financeiro, isso é muito perigoso! Porque... quantos que começam chegam ao topo da pirâmide? São centenas de milhares que vão abandonar o processo de educação e qualquer oportunidade desse tipo e vão se dedicar a isso. E muitos deles vão ficar no meio do caminho e vão certamente ter problemas no futuro.

Sérgio Mindlin: Não deviam abandonar a educação.

Bernardinho: De forma alguma! Então nós temos responsabilidade sobre isso e essa é uma preocupação porque é muito difícil, quando você está vendo sucesso, cobrar de alguém isso. Até os próprios pais, às vezes de origem humilde, não entendem isso, não percebem que o garoto começa a financiar a casa... como é que eles vão contrariar o garoto? Já aconteceu comigo... de jogadores, de eu ir ao pai e dizer: “eu vou fazer isso, eu vou apertar”! “Não, não precisa!” Porque ela é quem mantinha a casa, entendeu? Então é muito complicado! Tem que estar atento a isso.

Mariana Lajolo: Bernardo, nessa geração acontece um fenômeno curioso, até porque a maioria dos jogadores, nossos ídolos joga fora do país, você vira um pouco o centro das atenções. Então, hoje você é palestrante, é escritor, é um exemplo que todo mundo cita, inclusive seus professores de economia. E virou também garoto-propaganda, sua imagem é vista pelas empresas como um ideal, se associar a sua imagem... Como é que você está lidando com essa situação de ser um ídolo pop também [risos], de ser um grande...

Bernardinho: Eu digo o seguinte, eu digo até para os jogadores isso. Às vezes, quando você vai mensurar, os jogadores são profissionais, têm uma carreira de tempo delimitado, curta ou menos curta, mas é curta se você parar para pensar em perspectiva de vida. Eu disse a eles: “eu só faço isso porque vocês não estão aqui, senão isso seria dividido”. É um Giba, um Ricardinho, André [Heller, jogador que se destaca pela potência de seus ataques (cortadas) e pela eficiência de seus bloqueios contra os adversários], enfim, se tivessem aqui certamente... Agora, voleibol, bacana e tal. Quem tem aqui? Ou traz ele aqui. Alguns podem ser especificamente para mim, mas muitos são... é a imagem do voleibol. Eu digo, eu não sou um... Quando eu vou ganhar o troféu de melhor treinador, eu estou representando o melhor da equipe, não é individual aquele prêmio, é a melhor equipe, o melhor grupo, que fez um bom trabalho, o melhor projeto coletivo. Eu sou um porta-troféus, não é um porta-voz, é um porta-troféus. Eu vou receber pelo grupo.

Paulo Markun: Mas tem a ver com a imagem que você manifesta na quadra. Você não é o treinador que fica lá quietinho, de terno e gravata ali e faz assim “vem prá, vai prá lá”!

Bernardinho: Mas nada adiantaria também...

Paulo Markun: Você é um cara sanguíneo!

Bernardinho: Mas nada adiantaria a minha forma se ela não tivesse repercussão dentro da equipe. É a equipe que possibilita isso. Se as coisas dessem errado, é o tipo da coisa, quando ganha, “não, o cara, tal, sanguíneo faz etc. e tal. Se  desse errado, “louco, destemperado, etc. etc.!” [risos] É exatamente assim! Quer dizer, eu sou eu, independente[mente] da forma, se ela é a melhor ou não, ela é minha, porque certamente não é a melhor, mas é a minha.

Hélio Alcântara: Você citou o Bené. No começo você citou o Bené como seu primeiro treinador, um cara muito importante, né? Ele era bem mais velho do que você. Então, entende-se o seguinte: é quase um mestre, um cara que viveu mais que eu e tal e me traz muitos ensinamentos. Você não é tão mais velho que os seus atletas na seleção. Como é que você se impôs também? Claro, respeito, trabalho, dedicação, suor etc., mas você usou também a palavra carrasco – o apelido daquele técnico da Polônia– e você disse o seguinte: “Bom, todos nós temos alguém que a gente reconhece o valor, acaba reconhecendo o valor por ter sido assim, assado”. O medo faz parte, quer dizer, você impor a coisa na base do medo, o cara fazer porque tem medo de você?

Bernardinho: Isso é impossível! Até um menino, uma criança pode ter medo, mas um homem desses não vai ter medo de nada. O que ele quer é conquistar. No meu caso, ele disse para mim: “Ah, porque a gente pegou e transformou”. Como o Brasil tinha, no caso do masculino, especificamente, agora, e no feminino lá atrás, é uma equipe que vinha, digamos, engatinhando, vinha patinando, não conseguia bons resultados. Então estavam muito abertas [as jogadoras], disponíveis; o convencimento foi muito fácil. E a única forma que eu conheço e cada vez mais eu leio a respeito e adoro quando eu vejo teses que defendem a minha teoria de que, cada vez mais, o talento, isso pode parecer talvez um pouco de uma heresia dos nichos de futebol, ele é secundário. O grande talento é você conseguir se focar e trabalhar duro na direção daquele foco. Fala-se de Daniel Woods [escalador americano], fala-se de uma série de grandes atletas do mundo onde... “Ah, não, o cara encontrou o talento dele, ele encontrou o lado do esporte mais correto e deu certo ali". Não, é muito mais a questão dele ter trabalhado. Foco, trabalhar duro, saber lidar com isso é extremamente importante. Mas o que houve foi um grande processo de convencimento, uma construção. Primeira coisa, quem imaginava que, alguns anos atrás, para quem acompanha voleibol... que o Ricardinho pudesse suplantar o Maurício. Isso aconteceu pelo trabalho duro. Eu me lembro que, em 2001 ou 2002, o Ricardinho estava sem equipe e eu o ofereci, entre aspas, para vários clubes italianos e ninguém quis. Em 2002 ele foi, ele nos possibilitou a primeira grande vitória no mundial e realmente nos deu algo mais no Mundial da Argentina, em 2002, e, de lá para cá, ele vem sendo um dos nossos grandes diferenciais. Então, quer dizer, ele acreditou nisso, ele trabalhou muito, é claro que hoje ele resiste. Quando a pessoa chega numa certa condição, “porra, para quê tanto?” Mas, quando o cara pára e lembra, ele vê que é necessário “tanto”, ela não precisa treinar menos! “Ah, ele agora tá mais velho, tá com mais idade, menos”. Não é menos. Os grandes virtuosos da música chegam aos 80,90 anos. “Quanto tempo você pratica por dia”? “Seis horas”. Se eu ficar um dia sem treinar, eu sinto; se eu ficar dois, minha esposa sente; se eu ficar três, o mundo inteiro vai saber! Não é verdade? Então essa é a questão que a gente tem que estar sempre recondicionando, reforçando, o que não é simples! Quando eles conseguem fazer bem, daí vem a motivação. Quando você realiza, consegue fazer bem, não há nada mais prazeroso do que você... Nossa! Essa sensação de dever cumprido e da evolução. Eu digo que o grande prazer que todos nós temos é de um crescimento permanente. Não adianta você se comparar com os outros, tem que se comparar com você ontem, com você no passado. O que eu fiz ontem? Como é que eu posso melhorar?

Paulo Markun: O primeiro mandamento. [risos]

Maria Inês Felippe: Um aspecto interessante que você comentou um pouco, desse trabalho social que você faz na formação desses jovens... Então, o que a gente percebe no esporte, de uma forma geral, é que as pessoas vêm sempre de uma família muito humilde, que consegue, lá, um... enfim, vai fazendo sua carreira de forma muito tranqüila, humilde, com muito esforço, com muita garra, como acontece dentro das empresas. O estagiário que entra com muita garra, com muita vontade de aprender... e ele vai galgando um espaço maior. E aí ele chega, às vezes, num cargo de destaque ou num cargo de liderança ou ele é uma pessoa que teve um resultado legal e acaba sendo evidenciado, como o esportista também. E essas pessoas se tornam extremamente vaidosas e arrogantes, isso é um aspecto que está sendo trabalhado muito nas empresas, esse lado da vaidade e da arrogância. Como você trabalha isso junto com o seu grupo de esportistas? E volto a dizer... a diferença entre o homem e a mulher, como que é essa questão de arrogância e vaidade?

Bernardinho: Olha, acho que isso aí não é [questão] de gênero, não, isso aí é do ser humano. A mídia é algo sedutor. Alguém que vem de origem humilde, de repente, se vê nas televisões, nos jornais, onde quer que seja, talvez caia nessa armadilha de imaginar quê... Eu brinco dizendo, o pessoal não gosta quando eu digo, mas muitas vezes a mídia tem papéis do tipo: quando você ganha eles tentam fazer crer que é você é melhor do que você é na realidade. E você se ilude com isso! E quando você perde, eles pintam um quadro mostrando que você é bem pior do que você é. E você se deprime com isso! Então eu costumo dizer que, com certeza, é extremamente importante o papel da mídia nessa história toda, mas a gente que tomar muito cuidado para não entrar nesse tipo de problema, para as vaidades não... Agora, o grande desafio quando alguém é elevado a uma situação de... Como é que se diz? Ele é promovido, ele se torna titular, por exemplo, um ícone da seleção, de um time ou de uma empresa. Que ele continue demonstrando para ele continuar liderando. Uma coisa é ele ser chefe, outra coisa é ele ser líder. Uma coisa é ele ser um líder ali dentro, outra coisa é você ter uma faixa de capitão, uma coisa que depende... A questão é a seguinte: ele vai ter que, para continuar inspirando as pessoas, demonstrar aquele mesmo nível de obstinação, determinação que ele demonstrava antes. Há uma frase muito interessante, está até no livro, do Bill Russel [William Fenton Russell, atuava como pivô do Boston Celtics e é lembrado como um maiores jogadores da história da NBA, a liga de basquete norte-americana, com onze títulos], que foi um grande campeão de basquetebol, ele dizia o seguinte... Ele compara o ego à energia, ele usa a fórmula ego = mc2. Se bem utilizado, o ego, ou seja, a sua identidade própria, essa coisa de você querer fazer bem, criar esse ego coletivo, que ainda é mais importante, como a energia, se bem utilizada, ela move o mundo. Se mal utilizada ou mal direcionada, ela é danosa. Então é uma questão que a gente tem que realmente estar muito atento e é um dos grandes vilões no que diz respeito à constituição da equipe e à manutenção dos bons resultados.

Paulo Markun: Bernardinho, vamos para mais um intervalo e voltamos já, já com o Roda Viva, acompanhado esta noite na platéia por Fernanda Pajares, estudante de jornalismo; Felipe Reis, historiador forense, e Vanessa Oliveira, estudante de jornalismo. A gente volta já, já!

[intervalo]

Paulo Markun: O Roda Viva está entrevistando hoje Bernardo Rocha de Rezende, o Bernardinho, técnico da Seleção Brasileira Masculina de Vôlei. Bernardinho, eu vi uma entrevista recente em que você comentava a escalação do time do presidente Lula. O time não está escalado ainda para o segundo turno, para o segundo round desse jogo. Mas o que eu queria perguntar, não exatamente para você repetir o que você mencionou, mas isto, se realmente essa transposição que se faz, a própria mídia faz com muita freqüência, de algo que acontece num campo de esporte para um país faz sentido?

Bernardinho: Guardadas as devidas proporções – e elas são, digamos, numericamente e proporcionalmente bastante diferentes–, algum sentido faz. É sempre um time, sempre gente, há um objetivo comum.

Paulo Markun: Um país é um time?

Bernardinho: Deveria ser. Acho que o grande problema está aí, não se vê como um time.

Sérgio Mindlin: Mas é viável um time desse tamanho?

Bernardinho: Por que não?

Sérgio Mindlin: Coordenar tudo isso?

Bernardinho: Acho que tem que ter coordenadores, não adianta você imaginar que vai ter um líder só, carismático, tal, porque isso não existe nem num time de quinze. Tem que ter líderes ali dentro da quadra e que, de uma certa forma, estejam alinhados com um projeto que é de todos nós. O que eu vejo hoje é muita gente buscando um prêmio individual, mas não pensando no resultado final da história, “ah, fiz o meu”. Fiz o meu e o time perdeu, o que adianta? E quando eu falo a questão de você ser o selecionador de um universo de pessoas, vamos escolher os melhores. Quem são os melhores? Não sou um profundo conhecedor de política, mas claro que existem compromissos, comprometimentos que, às vezes, se amarram para fazer alguma coisa, mas um país não pode prescindir de talentos nas mais diversas áreas para poder transformar a atuação dessa equipe.

Paulo Markun: O fato de Cuba ser uma potência no esporte tem alguma coisa a ver com esse sistema que existe em Cuba, de promoção do esporte de cima para baixo, que envolve a mobilização da sociedade...

Bernardinho: Eles têm um projeto extremamente bem elaborado, como em outras áreas, a educação, a saúde e tal, embora estejam com muitos problemas. Mas tem um quê, também, na questão do esporte, de uma propaganda do sistema, ou seja, eles também querem mostrar que o sistema do sistema é extremamente eficiente: “Vejam nossos esportistas.” É claro que formar um time numa ilha com alguns milhões... você controla, monitora, às vezes, de uma forma, não através do convencimento, mas consegue fazer. Agora, há um projeto. Há um outro sentido de motivação dos atletas cubanos, infelizmente – porque eu não estou aqui, de forma alguma, para criticar o sistema–, que eles se motivam assim: “Eu vou praticar bem porque é a única forma, de repente, de eu sair dessa situação de dificuldade, quem sabe fugir, escapar?” É o que acontece muitas vezes, os atletas cubanos acabam desertando, saindo nas viagens, aconteceu muito no voleibol também. Então há outros [casos] que aconteceram, no Leste europeu, na época da Cortina de Ferro, também queriam mostrar, de uma certa forma, essa capacidade, essa superioridade através dos resultados esportivos.

Paulo Markun: E quando a gente tem países como Sérvia e Montenegro? Certamente, como nome, para gente, não é uma tradição. Embora tenha uma força...

Bernardinho: A última competição em que competiram como tal foi essa do Japão. Na realidade, sendo uma fração da antiga Iugoslávia, que era um país, a antiga Iugoslávia e suas atuais configurações que têm... é o brasileiro da  Europa, todos dizem isso, no futebol. Em todos os esportes coletivos com bola eles são bons. É o basquetebol, [em] que eles são fantásticos, todas aquelas nações ali. Futebol, voleibol, futebol de salão, também muito habilidosos, bons jogadores; handball, enfim, water polo, então eles têm essa característica, nisto eles são extremamente competentes, no que diz respeito a gerir equipes. Os treinadores dessas nações giram o mundo em várias áreas, porque são muito competentes no que diz respeito a essa questão de montar equipes. Não sei exatamente de onde vem isso, mas é uma característica trabalhada por eles, então há muitos países que têm essa qualidade. Hoje a Rússia é a grande herdeira da União Soviética, mas há outras nações da antiga União Soviética que hoje estão voltando a crescer. Houve o primeiro baque da questão financeira também, econômica etc. e tal e hoje eles estão se reestruturando e retomando seu espaço no que diz respeito ao mundo esportivo.

Paulo Markun: No caso do voleibol, então, só o dinheiro não resolve. Você não faz um “dream team”, um Barcelona, um Real Madrid?

Bernardinho: Eu acho que só isso não resolve em nenhuma área. Tá claro, aí, a... Quando aconteceu a Copa do Mundo e várias comparações foram feitas... primeiro, criticar depois da coisa acontecida é fácil, você não está ali, é tão simples! Só não perde quem não joga. Jogou, você pode perder. Mas o fato é que eu não estou aqui para criticar, eu estou aqui para aprender! Que lição podemos extrair daquela experiência? A lição mais clara é que o talento, por si só, não basta. O dinheiro pode até comprar o talento, mas ele não basta! Tem que haver comprometimento, trabalho. Temos agora o Internacional sendo campeão do mundo contra uma equipe muito superior. Se apenas a questão econômica bastasse, não precisaria nem jogar. Quem investiu mais? “Ah, desse aqui, 100 milhões de euros, desse aqui, 100 milhões de reais”. Portanto ganhou, não entra em campo, já dá o troféu.

Nely Caixeta: Você sabe farejar um craque? Quando você começa a lidar, treinar uma equipe, você sabe qual é aquele talento que mais no futuro ele vai despontar como maior que um jogador comum?

Bernardinho: Eu acho que o tempo desenvolveu em mim uma capacidade de perceber algumas qualidades. Até que ponto ele vai se transformar realmente depende de uma série de circunstâncias e de situações. Mas eu, por exemplo, na questão do Ricardinho, eu acreditei quando muitos ainda tinham dúvida e outros mais... eu acreditei! Quer dizer, nós vimos que ali tinha um potencial diferente. Eu vejo, assim, digamos, eu hoje desenvolvi essa capacidade... os números são muito importantes. Eu leio muito a respeito de equipes que usam, no esporte americano, que é muito profissional, e o americano que tem muito essa obsessão por números... É claro que é o número analisado sob uma questão também intuitiva... em que momento, em que situação, não é apenas o número seco! Mas é muito importante a gente olhar, “ah, aquele cara tem um biotipo, aquele cara tem muito talento”. Mas quanto efetivamente ele produz de resultados? Então você vê o track record, o histórico desse cara. Então você viu que ele não produziu, mas ele atuou muito bem aqui, olha como ele trouxe para equipe um crescimento. Eu acho que, assim, nós desenvolvemos uma capacidade de avaliar potenciais interessantes.

Soninha Francine: E avaliar um jogador que pode vir a ser um bom técnico? Você fica pensando nisso também?

Bernardinho: Eu penso nisso às vezes. Eu acho, quer dizer, há uma certa tendência – tendência que normalmente não é uma regra – do grande jogador, daquele que tinha uma boa dose de talento, foi determinado e por isso se transformou num superjogador, ter uma certa dificuldade. É como o treino da Fernanda, que tem um talento tremendo. A impressão que eu tenho é que ela tem pouca paciência com os outros no seguinte aspecto: parece tão fácil! Para mim nunca foi fácil, eu entendo que existe um processo por trás dessa história. Um dos desmentidos dessa regra é o Renan, que é um ex-treinador e foi excepcionalmente bom jogador. Mas ele teve um primeiro momento, assim, ele hoje... e também, no final de carreira dele, percebeu muito isso, ele é muito inteligente, então isso fez com que ele não se iludisse com a questão apenas do talento e percebesse isso. Mas eu acho que o técnico, com o tempo, com o estudo, ele começa a perceber realmente quais são as características... O que eu busco hoje? Qual a minha fonte de estudos, qual o meu foco de estudo? Tentar entender o porquê de as coisas darem certo ou darem errado. Por que uma empresa tem sucesso e outra não? Por que um time tem sucesso e outro não? Por que um programa tem sucesso e outro não? E o que que envolve isso? Que pessoas tão envolvidas com isso? Que tipo de preparação, comprometimento? E o que eu posso trazer dessas experiências e lições para o meu ambiente de trabalho?

Nely Caixeta: E qual a conclusão que você tirou da sua atual equipe? Por que que ela foi bem-sucedida?

Bernardinho: Porque eu acho que eu tive a sorte também, essa grande oportunidade de encontrar e me deparar com uma geração de bons, de ótimos talentos, mas de uma complementaridade fantástica, ou seja, eles têm uma capacidade de, ao estar juntos, produzir alguma coisa que nenhum deles sozinho consegue produzir. Muitos deles não levam seus times à final lá no campeonato italiano, poucos ganharam títulos etc. e tal. Mas quando se juntam... Houve, até, agora há pouco, recentemente, uma crítica ao Giba, se é que é possível fazer uma crítica, nesse momento, a ele, tudo que ele fez de tão bom, aí, nesses últimos anos. Mas o fato é [que] os dirigentes do time dele disseram: “Poxa vida, ele não joga tão bem no time quanto joga na seleção.” De tanto ouvir isso, de tanto as pessoas... de gente criticar, ele teve um desafogo, soltou alguma coisa do tipo: “Então contrata o Ricardinho, o André Heller, que eu vou jogar bem! Eu preciso dos caras para ter essa atuação de gala que ele andou tendo nas últimas competições! E isso obviamente não agradou seus companheiros de clube! Mas, vem cá, um mínimo de bom senso, percebam que, ali nós temos já seis anos de tal,tal, tal... e ele, que obviamente pela generosidade e tal, ninguém ficou chateado com ele, continua ganhando lá as partidas, mas é claro que isso não é uma... Mas ele queria mostrar o seguinte: “Eu dependo disso!” Eu me lembro que – acho que conto isso também no livro– entre 2003 e 2004... eu, todo domingo, entro para ver as atuações dos nossos jogadores lá fora. Todo domingo! Quero perceber como é que eles estão atuando, ou seja, eu vejo o rendimento deles, porque tem percentuais. Não joga, eu fico preocupado, machucou, não foi, eu ligo, enfim, eu fico monitorando os caras. E até 2004, antes das Olimpíadas, eu ficava – ano olímpico, né?– extremamente preocupado com as atuações. Num determinado domingo, os oito brasileiros que estavam lá e que iam para a Olimpíada tinham perdido os jogos. E, aí, eu fiquei muito preocupado. Mas como perdeu? Estão mal, ih, não vai dar certo”... Enfim, você fica desesperado! E aí, um deles me respondeu: “Bernardo, nós somos bons, muito bons, mas nós fazemos a diferença juntos! E a conclusão a que eu cheguei é esta: não adianta eu ter, se nós não tivermos realmente... não adianta eu ter um bom e o outro excelente, mas fazendo a mesma coisa. Todos eles se complementam, um é mais virtuoso, o outro é mais construído e tem essa eficiência aqui e isso gera isso!

Nely Caixeta: Tranqüilidade num momento decisivo...

Bernardinho: O outro é agressivo....

Sérgio Mindlin: Bernardo, retomando um pouco a questão que você colocou de que dinheiro não faz toda a diferença. Mas está faltando dinheiro no esporte? Falta no esporte profissional ou mais no amador, toda essa discussão da Lei de Incentivo parece que esta mais direcionada para [o] amador, não é isso?

Bernardinho: É. Inclusive o futebol, até profissional, ele não é contemplado com nenhum tipo de... isso pelo menos é o que eu li, que eu sei a respeito dessa Lei do Incentivo ao esporte. É exatamente você poder criar efetivamente, sustentar uma política esportiva. Não existe hoje.

Sérgio Mindlin: Mas o que seria uma política esportiva?

Bernardinho: É claro que nós temos que tomar muito cuidado, tem que existir... porque, como tudo neste país, onde há verba, há interesses. Portanto, que a gente tenha muito cuidado, até porque o esporte tem dado bons exemplos de superação, de coisas positivas. O Orlando falou uma coisa: “Não, o Brasil que pode”. Mas ele tem que querer modificar o Brasil! Então o esporte tem dado uma série de demonstrações. Longe de ser eu, há n protagonistas desse tipo de exemplo. Então, falta sim, o esporte olímpico, para que a gente possa realmente ampliar essa base de praticantes. Mais importante do que isso: a capacitação e o incentivo aos professores de esporte. Que é aquilo que falta ao Brasil, não é verdade? Não há como você formar, eu pergunto a vocês o seguinte. Nós temos aqui um ginásio coberto com ar condicionado, bacana, e um professor, um treinador que sai para falar ao celular, vai fumar um cigarro lá fora... E um outro ali, uma quadra descoberta, com uma rede meio furada, uma bola velha, mas com um cara que é fantástico, ele desafia, ele vai, ele cobra. Você ia botar seu filho para jogar em qual time? [Em] Qual escolinha ele vai aprender? Naquela ou naquela? O que falta não é um grande ginásio com ar condicionado. Ok, podemos certamente melhorar as instalações e precisamos, mas nós precisamos capacitar gente que realmente transforme as pessoas. Para isso, você precisa de uma política esportiva. Chegou um ponto, num certo momento, na nossa vida nacional, que a educação física foi tornada não-obrigatória. Aí, nós realmente estamos abrindo mão de tudo aquilo que é importante!

Sérgio Mindlin: A polêmica parece ser entre cultura e esporte. Então você falou agora que é preciso pegar o professor de educação física, professor de esporte, tal... Mas o professor, professor de qualquer matéria na escola pública, hoje, também não é valorizado...

Bernardinho: Mas eu quis usar o termo professor para não caracterizar apenas esportes, que seria do treinador. É o professor! Como um todo, é claro! O último livro que eu li do doutor Antônio Ermírio [de Moraes, empresário paulista, presidente do Conselho de Administração do Grupo Votorantim] é Educação, pelo amor de Deus!  É uma coletânea de crônicas dele falando disso, que sempre me reforça. Você vê ele falando há 20 anos atrás e as coisas continuam, talvez, nos afligindo ainda mais hoje. Então, com certeza, esse é mais importante ainda do que você [...] o esporte. Se nós não tivermos bons professores em todas as áreas, nós vamos criar um gargalo, que a gente está percebendo em muitas áreas hoje da atividade nacional, não temos um técnico para cuidar do Cindacta [Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo é o nome das unidades que executam as atividades de controle do tráfego aéreo comercial e militar, vigilância do espaço aéreo e comando das ações de defesa aérea no Brasil], das questões da aviação. Em tudo! Vamos chegar, daqui a pouco, com um gargalo [em] que não vai ter mais solução se nós não atacarmos efetivamente esse problema da educação em todas as suas áreas e direções.

Maria Inês Felippe: Agora tem um aspecto, Bernardinho, que você colocou, essa questão da educação, extremamente pertinente. Mas, por outro lado, a gente tem uma educação assim: o aluno, em primeiro lugar... quem teve mais notas, o aluno de maior sucesso. E aí os professores incentivam mais isso; esquecem, às vezes, os outros. Como também, dentro de empresa, hoje a gente percebe muito isso bem claramente, o quanto se evidenciam determinadas pessoas. E tem um discurso, dentro das empresas, muito forte, de que nós fazemos parte de um time, eu dependo do outro, um precisa do outro, exatamente essa fala que é percebida também dentro do esporte, que ninguém consegue fazer nada sozinho. Só que, na hora do “vamo vê”, é um pega prá capá, né? É um querendo comer mesmo o estômago do outro, alguns cenários que hoje a gente vê em empresas, [em] que a própria liderança incentiva essa competição interna entre as pessoas. Só que, quando esse profissional vai para o mercado, ele não consegue concorrer com os outros profissionais que também estão buscando sua fatia no mercado. O cliente de fora vê essa competição interna. Então, como que você, na prática, efetivamente... Às vezes, [em] muitas palestras que você dá, que a gente tá sempre te acompanhando... então as pessoas vão, assistem, aprendem, se sensibilizam só que voltam no ambiente de trabalho, volta tudo a zero. Como você, como líder, lida com a competição interna dentro da sua equipe? Você já falou um pouco que tem a “lavação de roupa suja” etc. Mas, no concreto, vamos pensar bem mais profundamente, como que efetivamente os caras colaboram entre si?

Bernardinho: A concorrência, é óbvio que ela existe, todos querem ser titulares, querem jogar, querem mais espaço, então ela é efetiva, ela é sadia desde o momento em que ela propicia o crescimento das partes. O Giovanni ficou no banco por um algum tempo e foi importante nesse último ciclo para nós, foi fundamental. E nos treinamentos ele desafiava os outros a treinarem mais. Então há uma competição, mas nesse sentido altruísta de dizer: “Olha, é o jogo do ganha- ganha, você vai jogar bem, eu não vou nem precisar entrar, mas nós vamos ganhar! Então a questão é essa. E essa questão de você privilegiar um em detrimento do outro... Em tese, no esporte, quem é o menos importante? Quem fica no banco. Portanto... mas quando é que ele entra? Quando é que aquele que parece menos importante é chamado a atuar? Quando o outro não está atuando bem. Ele tem uma função diferente, ele não é menos importante. Ele vai entrar para virar o jogo, para criar um situação que o outro não está conseguindo fazer. E essa questão de você privilegiar leva a empresa, na minha opinião, a cometer erros, a avaliar mal o seu papel.  Eu pergunto para vocês o seguinte. Uma empresa que trabalha no ramo de distribuição do combustível. Eu não entendo muito desse ramo, mas, enfim, quem parece menos importante? O frentista, hoje, que põe a gasolina no nosso carro. E gasolina é commodity, ou seja, para mim, se é A, B ou C, se o carro está andando, está bom. Agora, quem é para nós, consumidores, o mais importante?

Maria Inês Felippe: É ele [o frentista], o que trata direto com o cliente!

Bernardinho: Não é o diretor: é ele! Portanto eu digo o seguinte, essa questão de você entender a importância realmente das peças... Eu tenho uma jogadora que foi, assim, um exemplo de, o quanto eu... embora parecesse desvalorizada lá atrás, hoje ela está muito valorizada, mais do que merecidamente, pela pessoa e pela atleta que é, que era a Fofão. Ela teve à frente uma jogadora como a Fernanda, ficou mais tempo no banco, mas a importância dela dentro da nossa estrutura foi de tal ordem, que ela hoje é uma das líderes e uma peça fundamental na atual estrutura, em que ela é a titular. Embora no banco, muitas vezes, e talvez vista de fora como tendo menos espaço, menos atenção, o que não é verdade, entendeu? Porque nós vamos precisar. E então, inclusive, assim, talvez o exemplo e a consciência... Porque, vocês falam: “Ah, mas o cara volta”... Até porque uma palestra é uma coisa pontual. Isso é um processo, como a motivação, como a preparação. Véspera não é preparação, é desespero! Você tem que estar disposto a trabalhar nesse processo e entender os valores que sedimentam esse excesso, o que realmente são os pilares que sustentam esse processo.

Paulo Markun: Bernardinho, mais um intervalo e a gente lembra que a entrevista de hoje também é acompanhada na platéia por Heloísa de Souza Oliveira, estudante; Renan de Simoni, estudante de jornalismo e Silvio Roberto Forte, técnico de vôlei do Esporte Clube Pinheiros. A gente volta já, já.

[intervalo]

Paulo Markun: Voltamos com Roda Viva que esta noite entrevista Bernardinho, técnico da Seleção Brasileira Masculina de Vôlei. Bernardinho ganhou o Bicampeonato Mundial do Japão em 2006 e o time brasileiro está no primeiro lugar no ranking da Federação Internacional de Vôlei. Vamos ver uma pergunta do seu ex-companheiro de seleção e profissão, Montanaro, atual gerente do departamento de vôlei do Santander Banespa, que ele quer saber alguma coisa sobre o seu sucesso.

[VT de Montanaro]: Bernardo, você começou como treinador em 1988, como assistente técnico do Bebeto de Freitas, na Seleção Brasileira, Olimpíadas de Seul, na Coréia. Depois teve uma brilhante passagem pelo voleibol feminino, no campeonato italiano, chegou à final sem ter uma superequipe na mão. Passou também por uma equipe masculina, ainda no campeonato italiano –Modena, que alternou bons e maus momentos, algumas derrotas por 3X2. Finalmente, em 1994, você voltou para o Brasil como técnico da Seleção Feminina. E, de lá para cá, os números falam por si sós, resultados maravilhosos, incríveis até! Eu quero saber de você, na sua auto-análise, auto-avaliação, o que melhorou no treinador Bernardinho, o que você buscou mais? Liderança, um aprimoramento técnico, aprofundamento nos estudos com relação ao voleibol? O que que você fez para ter um resultado tão expressivo, números tão significativos e tantos resultados frente às seleções masculina e feminina também?

Bernardinho: Mais uma vez que, primeiro... Fez uma grande propaganda, amigo é para isso, para te levantar. O fato é que o processo, o que eu... quando eu fui para a Itália começar, efetivamente, que eu fui assistente técnico em 1988 e em 1989 eu fui para Itália... E ali eu percebi que eu conhecia muito pouco da questão [de] lidar com gente, ou seja, eu era um jogador, dava-se a relação, mas na relação de gerenciamento, de motivação, de desafio, de liderança... Então eu comecei a me envolver realmente com o processo de aprendizado de o que faz as pessoas quererem lutar por uma causa, o que faz as pessoas quererem se dedicar ao processo de preparação da forma que deve ser feita. Então, de lá para cá, eu acho que o que eu tenho tentado aprender a desenvolver mais é a questão de pessoas. Entender as pessoas, motivar as pessoas, preparar as pessoas. Conhecer, tentar entender suas limitações, suas qualidades e aí tentar jogar com isso no bom sentido de criar a melhor equipe. Entender mais as dinâmicas dos grupos, dos times, que é uma coisa bastante própria, é quase como um indivíduo, quando ele se forma. E talvez o que tenha me trazido até esse ponto, hoje, a nós, as equipes e tal, é um sentimento que permeia um pouco a nossa vida, que é esse inconformismo. Eu tenho um pouco de insegurança, “ah, o cara tal”. Mas eu tenho, assim, aquela coisa... O inconformismo se confluindo com essa questão de eu imaginar que eu não sei ainda bastante...

Paulo Markun: Tem a ver com a insônia? [risos]

Bernardinho: Tem a ver com insônia também, te leva a isso, você não pára de pensar: “mas como é que vai ser esse jogo hoje? Eu não estudei o suficiente, acho que eu não sei tanto”. Depois, quando você se depara com a prova, às vezes, você vê que estava suficientemente preparado. Mas, anteriormente há a angústia: “será que eu estou? Será que eu me preparei?” Por isso é que eu valorizo tanto a questão da preparação. Mas o fato é que eu acho que talvez [seja] o quê da minha insegurança me mostrando a importância de se preparar em todos os quesitos. Então a questão do estudo é fundamental, ou seja, ver e tentar extrair daquelas partidas, daqueles treinamentos... Eu, na Itália, ia assistir a treino de garotada mirim, infantil [categorias de faixa etária do voleibol referentes aos jovens praticantes], por quê? Aqui você trabalha o básico, fundamento básico, você constrói o atleta. Ali é mais estratégico, é tático, mas não pode esquecer de você estar reforçando a questão dos fundamentos que dizem respeito à sua atividade. Então tudo serve como lição! O mundo nos oferece muitas lições, não podemos abrir mão disso.

Hélio Alcântara: Só para complementar essa pergunta do Montanaro. Você, no início, quer dizer, relativamente no início, como técnico de vôlei, quando você assumiu a Seleção Brasileira com as garotas, será que um dos primeiros ensinamentos para você, nessa coisa de conhecer gente tal, mulheres principalmente, foi naquele episódio ou naqueles episódios, não sei bem se houve mais de um, você muito irritado com uma derrota, foi para o vestiário, já louco para dar uma bronca em todo mundo, quando chegou lá o vestiário [estava] fechado, a porta fechada. [risos] Uma tática delas, de trocarem de roupa cada uma em um momento, para não levarem a bronca? Quando você entrou você já tava mais calmo?

Bernardinho: É, eu aprendi o seguinte, não adianta, de cabeça quente querer... mas na hora você quer chutar umas canelas! Você entra ali frustrado e quer botar para fora... Isso aconteceu pela primeira vez, depois eu aprendi e já não ia correndo bater na porta. E a diferença do time masculino é esta, que no masculino você pode entrar de qualquer maneira, você não precisa esperar. Mas o fato é que são lições, não adianta você querer descontar a sua frustração, porque tem muito ah... Primeira coisa, jamais atribuí a outros ou a qualquer pessoa uma derrota, porque eu tenho a plena convicção... Eu fico me monitorando: será que isso não é arrogância, imaginar que eu sou o principal responsável? Mas, como comandante, de alguma maneira eu fui responsável. Tenho grande parcela de responsabilidade. Então é você poder fazer com que sua consciência volte a dominar sua emoção e você diga “não, pera aí!” Vai sofrer um pouco, primeiro, se criticar, antes de ir para lá para criticar alguém ou fazer alguma coisa desse tipo. Então, com certeza essa é...

Hélio Alcântara: É um aprendizado...

Bernardinho: Com certeza! Todas essas pequenas histórias e, às vezes, brincadeiras que tem no livro foram lições.

Soninha Francine: A gente vive comparando futebol e vôlei, gestão de um e outro, geralmente bem desfavorável ao futebol, e tem uma passagem sua na Itália... que você começou no Peruggia, ia muito bem, aí a uma certa altura, começa a atrasar salário, as condições vão piorando, aí você sai do Peruggia e depois recebe vários convites para voltar, aparentemente vantajosos para você, mas fala: “Olha, não adianta, ou vocês consertam, aí, a estrutura ou eu não vou conseguir fazer um bom trabalho.” Que é um pouco a atitude que a gente sente falta, às vezes, no futebol, por exemplo. Você teve várias decisões desse tipo na sua vida? A sensibilidade para não entrar em roubada também te ajudou a ....

Bernardinho: Eu entrei em algumas e aí eu começava a identificar quais eram os sinais de roubada. Eram ambições extremas, em que condições? Você acaba se... ilusão de “ah, vamos fazer e vamos acontecer”. Em Modena, eu tinha que telefonar para pedir dinheiro, para botar gasolina no carro, para você ir viajar, para visitar a família. Quatro meses sem salário, não tinha... e ganhava pouco, muito pouco, você não tem noção de quão pouco era. Eu tinha um carro em Peruggia [em] que, no inverno, eu botava esparadrapo para fechar os buracos. Mas eu queria testar e ver se era possível viver da minha grande paixão, por isso eu fui. Mas, certamente, sem isso, nada é possível, sem uma estrutura. Não temos uma estrutura ideal, mas temos uma estrutura sempre melhor; você está sempre trabalhando para melhorar a estrutura [em] que você trabalha. Não é ideal porque não existe o ideal, mas no vôlei, hoje, existe uma estrutura. E eu acho que as comparações são muitas vezes injustas porque é o momento etc. e tal e há muitos clubes, muitas seleções com uma grande estrutura, no futebol também. Mas, de um modo geral, a gente quer comparar dois extremos em situações momentâneas. Mas com certeza o que o voleibol... o porquê do voleibol ter sucesso hoje? Não é porque o Bernardinho, não é porque isso e porque aquilo. Não é uma pessoa. É uma estrutura, é um projeto. Houve uma profissionalização do sistema nos anos 1980. Com o doutor Nuzman [Carlos Arthur Nuzman, presidente do Comitê Olímpico Brasileiro], Bebeto de Freitas foi, sob a condição de treinador, competente e tal... profissionalização. Segundo, investimento na base, planejamento. Há uma declaração do Nuzman, em 1975, quando ele volta do Pan-americano [Jogos Pan-americanos realizados na Cidade do México], que foi reencontrada agora, foi repassada agora num programa sobre voleibol: “Podem me cobrar, porque nós vamos ter resultado em tanto tempo”. Ele acreditava que patrocínio forte... Eu me lembro que em 1980, nas Olimpíadas de 1980, eu vi o Nuzman sentado numa arquibancada ao lado de um senhor que eu não conhecia, depois eu descobri que ele era o Braguinha, Antônio Carlos de Almeida Braga, um dos mecenas do esporte no Brasil. Foi com o tênis, com... tal, com tantos, [Ayrton] Senna, [Nelson] Piquet, [Emerson] Fittipaldi, e tal, e com o voleibol. O Nuzman disse a ele:  “Nós precisamos de patrocínio para que a gente possa realmente fazer esse salto final.” Ele fez a equipe, a equipe na época era  a Atlântica-Boa Vista, no Rio de Janeiro, incentivou o desafio da Pirelli. O presidente da Pirelli, na época, fazia [...] São Paulo, criou-se aquela grande disputa, que foi o primeiro grande “boom” do voleibol, então isso tudo. E hoje, muito bem, o atual presidente [da Confederação Brasileira de Vôlei], o Ary Graça, não apreendeu os segmentos, mas foi agregando coisas na continuidade desse processo. Volto a dizer, longe de estarmos numa situação ideal, mas temos uma estrutura que nos permite realmente implementar um trabalho de qualidade.

Soninha Francine: Mas o Pan [referência ao XV Jogos Pan-americanos, realizados na cidade do Rio de Janeiro, de 13 a 29 de julho de 2007] te tira o sono? Não a medalha, que a gente não tem, mas a preparação?

Bernardinho: Do Pan, da estrutura do Pan? Nós temos ali, envolvidos, a seara municipal, estadual e federal, então você coloca três forças dessa natureza, que são importantes para a realização, financiamento e a realização das coisas, isso te preocupa. Mas o Comitê Olímpico já deu provas da sua capacidade de realizar coisas, grandes eventos, tal. Claro que o Pan tem uma dimensão bastante diferente, mas eu acredito que as coisas vão acabar acontecendo bem. Claro que a medalha também me tira o sono porque é uma pressão muito grande. O que eu quero combater é as pessoas falarem assim: “Ah, você, às vezes, cerceia o talento, porque você fala sempre [?]”. De forma alguma, eu quero ter os talentos ali do meu lado, então eu não quero que as pessoas, que é um pouco da nossa cultura, pensem que o “jeitinho” vai ser jeitinho para tudo. Um jeitinho, esse talento, essa intuição, essa criatividade no final da preparação, maravilha! Ou faz! Mas sem esse processo todo, anterior, não vai resolver nada.

Sérgio Mindlin: Bernardinho, mudando de tema, um problema grave na sociedade hoje são as drogas. Diz-se que o esporte ajuda a combater as drogas, mas elas são um problema no esporte?

Bernardinho: São um problema no mundo...

Sérgio Mindlin: Com os jogadores?

Bernardinho: O que eu digo – e até eu vi um episódio no passado– é que o percentual disso, no voleibol, eu tenho plena convicção de que ele é muito menor do que qualquer outra área, no mundo como um todo. Não vamos, aqui, entrar em questões moralistas, isso com certeza é um problema, e nós temos que certamente estar... Eu acho que o esporte é uma oportunidade de ocupação e de atividade que, muitas vezes, tira o rapaz dessa questão do interesse de outras coisas, drogas e bebidas. Hoje, a bebida é um problema muito sério entre os jovens, seriíssimo! E que afeta realmente os atletas também, mas acho que numa menor escala do que aqueles que não praticam. Então é uma oportunidade que nós queremos dar, não é uma solução para todas as nossas mazelas da sociedade, de forma alguma. Nós temos até, no instituto, um programa que é a favor da conscientização, com depoimentos de vários atletas sobre a questão da bebida. E o jovem realmente acha que ele não tem limites, não tem problema nenhum e bebe e acontecem desastres como estão acontecendo, uma série de problemas de violência etc. Então, esse é um problema, sim, como nós temos muitos outros. Mas tudo isso passa pela questão da educação, da conscientização e o esporte é uma peça importante nesse processo todo, é uma ferramenta importante.

Sérgio Mindlin: Essa afluência financeira decorrente do sucesso é um perigo para isso?

Bernardinho: É claro, porque, como em tudo, né, você... o que acontece? Eu acho que o dinheiro, quando vem em excesso para pessoas que não estão preparadas para fazer um bom uso disso... podem cair naquelas coisas de festas, noitadas e, de repente, uma coisa que é interessante porque te leva a um êxtase qualquer,  a uma situação dessas, você acaba caindo nessa armadilha. E uma série de pessoas que, muitas vezes, cercam esses jovens que acabam sendo bem-sucedidos financeiramente e, com isso, tentando se beneficiar disso, mostrando as coisas que parecem ser a vida fácil, interessante! “Para que acordar cedo, treinar? Que coisa mais chata, vamos fazer outras coisas que são muito mais, que parecem agradáveis”...

Paulo Markun: Essa coisa de você puxar o horário de treinamento sempre e cada vez mais cedo é só maldade? [risos]

Bernardinho: Pouquinho, tem um pouquinho de maldade...

Paulo Markun: Eu queria que você explicasse essa coisa que eu falei no começo, a tal zona de desconforto..

Bernardinho: Eu brinco dizendo que hoje eu sou muito mais um provedor de zona de desconforto do que um treinador. O que que eu tenho que fazer? Eu tenho que testar o comprometimento dos campeões. Ou seja, será que eles ainda estão dispostos a fazer aquilo que fizeram no ano passado para continuar sendo vitoriosos? Esta pergunta que nós nos colocamos: até que ponto eu quero continuar me sacrificando? Porque há sacrifícios obviamente claros e uma das coisas, entre 2002 e 2004, principalmente, depois do primeiro grande título mundial, foi jogar uma hora para baixo o treinamento: de nove para as oito, de oito para as sete. Nós treinávamos às sete da manhã no ano olímpico, com a intenção de quê? De desenvolver aquilo que eu chamo que é o senso de merecimento, de você ter a consciência de que tudo aquilo que era possível ser feito ter sido feito, que você fez realmente sacrifícios que te fortalecem no momento da grande decisão! “Esse cara não vai ganhar porque eu dei tanto por onde! Como o outro que, de repente, está numa boa, treinando um pouco menos, já realizado, para dizer: “Poxa, para que eu vou correr atrás?” Eu tinha um amigo meu, que corria maratona, que era um cara bem de vida, ele dizia: “Bernardo, eu corro muito bem os 42 km iniciais, mas os 190 metros finais pra mim é sofrer”. Falei: “Por quê”?  “Vem alguém correndo atrás de um prato de comida, o cara passa por mim e eu não tô querendo um prato de comida, para que eu vou me dar um pouquinho mais?” Entendeu? Então, talvez faltasse a ele essa motivação da necessidade, de se criar até, muitas vezes, a necessidade, essa coisa do reconhecimento do próprio sacrifício, entendeu?

Maria Inês Felippe: Bernardinho, a gente percebe, assim, as pessoas buscando muito o poder. Desculpa voltar para o mundo corporativo, porque é o mundo que eu vivo. Eu até brinco que eu não consigo nem esquentar água, eu vivo só o mundo corporativo. Então as pessoas, cada vez mais, buscam muito o poder, poder, poder. Aí, é uma pergunta bem pessoal, existe uma fala de que o poder é solitário. Você sente o poder como solitário?

Bernardinho: Eu acho que toda decisão, no final das contas, alguém que está no poder momentaneamente, no sentido da determinação final dessa decisão, ele é solitário. Eu me lembro que antes das Olimpíadas, quando eu cortei o último atleta, que foi o Henrique, eu passei uma noite em claro na Cidade Luz, que foi Paris. Então eu conversei com os meus companheiros de comissão técnica, meus braços direitos, todo mundo, vi todos os números, vi fitas, revi de quem eu precisaria mais, para eu poder tomar a decisão técnica. E eu costumo dizer – fazendo uma paralelo com mundo corporativo–  que cortar alguém é pior que demitir alguém, porque há outras empresas no mercado, seleção só tem uma. Você treina durante 20 anos para uma Olimpíada e alguém tem que cortar alguém e esse alguém sou eu. Então você gera uma frustração terrível a essa pessoa, que vai permanecer para o resto da vida dela. Então eu diria que tem muita solidão, sim, quando você [se] senta ali, no cume da montanha, e olha para dentro e fala “é por aqui” e aí você vai... Há muito de informação e há muito de intuição. Eu costumo dizer que, antes de um corte, lembra das meninas? Elas previam elas tinham uma tremenda sensibilidadequando é que ia ter corte. Eu não dizia nada – tá mal, vai ter corte–,  eu ficava arrasado e elas já sabiam que ia ter alguma decisão desse tipo. Os caras não tão nem aí! “Junta ali pra reunião”... Opa! Susto! Eu costumo dizer que eu sento durante uma noite, sozinho, onde eu estiver, no hotel, pego uma poltrona mais confortável e fico esperando uma luz divina, sabe, uma coisa assim que venha do além e me ilumine para eu tomar a melhor decisão. Eu costumo dizer que essas decisões realmente só são tomadas depois de muita transpiração, no sentido de você estudar para tentar tomar uma decisão. De repente vem uma idéia. A Filó [Ericléia Bodziak], em 1996, eu mantive uma jogadora chamada Filó em detrimento de uma outra muito boa e ela fez o último ponto da Olimpíada [Olimpíadas de Atlanta]. Até que ponto que a coisa foi intuição ou realmente eu imaginava que aquela era a questão técnica a ser feita? O André Heller, que estava disputando com o Henrique, acabou sendo o titular na Olimpíada. Então, tem um pouco de intuição e muito de estudo também nessa história.

Paulo Markun: Bernardinho, nosso tempo está acabando, última pergunta. O seu discurso dá a impressão de que, na fábula entre a cigarra e a formiga, você é muito mais formiga do que cigarra evidentemente. Mas eu fico pensando, usando uma comparação com o futebol – e eu não sou craque em nenhum esporte, que é a seguinte: um grande jogador, para mim, sempre foi o Ademir da Guia [um dos melhores jogadores de futebol do Brasil, é considerado o maior ídolo da história do Palmeiras], porque parecia que ele não estava fazendo nada em campo e ele fazia exatamente o que era necessário sem a sensação de que ele estava batalhando, [se] sacrificando muito. Imagino que ele se preparava como muitos. Você acha que esse tipo de liderança, esse tipo de posição dentro de campo ou mesmo na condição de técnico... é possível dar bom resultado? Quer dizer, é possível ser um pouco cigarra nesse processo ou só a formiga vai ganhar o jogo?

Bernardinho: Acho que é necessário termos cigarra dentro da equipe. Quer dizer, eu não sou, mas eu sou uma peça, um vinte avos de uma estrutura. Então eu tenho minha função de... não sei se tem a formiga-mãe, como tem a abelha, no sentido de estar ali puxando a fila. Mas volto um pouco ao Ricardinho, que faz coisas que parecem fáceis demais, só que ele repetiu isso centenas de vezes no treinamento. Quando o pessoal vê: “Puxa, parece tão fácil, natural!” Só que foi fruto de um processo de... como acredito que outros grandes jogadores, como no caso do Ademir da Guia, a gente via o cara fluindo ali, ele se preparou tremendamente como todos os outros. Às vezes, outro demonstra um esforço um maior porque ele tem um pouco menos desse dom, desse talento, dessa questão toda. Ele demonstra até, sua própria dificuldade, então ele tem que fazer um... até aparenta um sacrifício maior. Mas acho que é necessário. Quando eu montei a minha comissão técnica, trouxe profissionais das mais diversos áreas que dizem respeito a minha atividade, mas de características diferentes. Pessoas que não vão pela minha linha: do extremo, do excesso, que me puxam. E eu brigo, fico louco com eles, porque eu acho que eles pouco... Mas é um contraponto necessário. Um dos caras que eu chamei na primeira vez, logo, para formar a primeira equipe, foi o Renan [Dal Zotto, ex-jogador que defendeu a Seleção Brasileira de Vôlei dos 16 aos 29 anos como atacante e se tornou um treinador de sucesso]. Não é que ele seja a cigarra, no sentido de não querer trabalhar, mas ele é um talento, ele é um virtuoso que eu sei que eu não sou. Então é um cara que agregou muito, num primeiro momento, tenho certeza de que eu também agreguei à carreira dele, a gente está sempre trocando idéias. Então, eu digo, assim, que eu queria montar na minha equipe um conselho de administração, trazer pessoas para trabalharem e dividirem idéias e preocupações comigo; alguns com o talento da formiga, outros com a capacidade da cigarra, outros com a capacidade de trabalho da formiga para que a gente possa realmente tirar daí o melhor subproduto, o melhor resultado. Eu acho que essa é a minha característica, certamente não é a característica dos vitoriosos, dos caras de sucesso. Porque há pessoas talentosas que demonstram menos esforço e conseguem ir bem. Embora a minha teoria de que, mesmo eles, podem demonstrar menos, mas fazer muito também, se preparam muito para poder realizar aquilo de tão bonito que, às vezes, a gente vê, quando vê um grande músico, quando vê um grande artista. Quanto um Paulo Autran [(1922-2007), um dos maiores atores de teatro, cinema e televisão do Brasil. Entre os destaques de sua atuação, encontram-se o filme Terra em transe, de Glauber Rocha, e a novela Guerra dos sexos, de Silvio de Abreu - ver entrevista no Roda Viva], no teatro, não se preparou para aquilo, quanto ele faz, quanto de suor há por trás daquela história que muitas vezes para nós pode parecer muito fácil?

Paulo Markun: Para encerrar em ritmo de fábula, qual é a moral dessa história?

Bernardinho: A moral dessa história eu levei agora. O interessante é que o mais importante dessas histórias todas é a essência. Eu não quero que essa geração de craques que eu estou dirigindo hoje ou o que eu tenha feito no passado passe para a história ou que sirva de algum tipo de legado pelos resultados, pelos números, pelos troféus, mas pela essência, pelo trabalho, pela essência. Não digo nem de exemplo, mas de algumas lições que a gente pode estar suscitando nas pessoas. A essência, a [...] sempre me diz, não é a xícara mais bonita, mas o café. Então, que as relações construídas e que aquilo que a gente fez ao longo do tempo realmente sirva como alguma fonte de inspiração, alguma fonte de aprendizado, alguma fonte de questionamento, porque o questionamento é certamente a grande fonte de crescimento.

Paulo Markun: Bernardinho, muito obrigado pela sua entrevista, obrigado aos nossos entrevistadores e a você que está em casa.

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