Memória Roda Viva

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Luiz Felipe Scolari

11/5/2005

Tendo levado o Brasil ao título de penta campeão do mundo de futebol, Felipão fala sobre novos desafios e sobre seu relacionamento com os jogadores

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Paulo Markun: Boa noite. Que a vida é dura todo mundo concorda e que é possível conviver com altos e baixos também, mas para algumas pessoas não tem muito meio termo. Por exemplo, um técnico de futebol. Se tudo der certo, ele vira estrela, ganha prestígio, dinheiro e adeus vida dura. Mas se as coisas derem errada a culpa é só dele, cai em desgraça com todo mundo e adeus vida boa. Hoje nós entrevistamos um personagem para quem as coisas deram muito certo. No centro do Roda Viva, Luiz Felipe Scolari, o Felipão, que já se deu bem em campos brasileiros e agora quer conquistar a Europa no comando da Seleção Portuguesa de Futebol [Felipão é o técnico da Seleção Portuguesa desde 2003].

[Comentarista]: Mais que jogar, ele sempre gostou de mandar e conquistar vitórias com mais músculo que arte. É o futebol força de Felipão ou Luiz Felipe Scolari, gaúcho de Passo Fundo, filho de Benjamin, um dos melhores zagueiros do sul na década de 1940. Antes de estrear como técnico do CSA de Alagoas, em 1982, Felipão atuou na posição do pai e jogou quase 10 anos no Aimoré, Novo Hamburgo, Caxias e Juventude, de Caxias do Sul, e no próprio CSA. Para se firmar como treinador, arriscou de tudo. Em 1987, foi para o Kuwait, depois Arábia Saudita e Japão, mas voltou logo. Levou o Criciúma de Santa Catarina até à vitória da Copa Brasil em 1991. A carreira deslanchou e Scolari foi para o Grêmio, de Porto Alegre, onde conquistou a Libertadores [Copa Libertadores da América] de 1995 e o Brasileiro [Campeonato Brasileiro] de 1996. Consagrado, chegou ao Palmeiras em 1997 e levou o time à maior conquista de toda a sua história: a Libertadores de 1999. No horizonte de Scolari, só faltava a Seleção Brasileira, e ela veio rápido. Em 2001, ao vestir o agasalho do selecionado brasileiro, Felipão surgiu como uma espécie de salvador num momento complicado da pátria de chuteiras, amargou derrotas na classificação para o Mundial de 2002 e amargou o desgaste por cortar Romário [Felipão preferiu levar para a Copa de 2002 o atacante Luisão. Naquele ano, mesmo sem Romário, o Brasil foi campeão da disputa]. Pôs ordem na casa e, na bacia das almas, arranjou a vaga. Foi quando o Brasil, transformado em família Scolari, embarcou para a Coréia e Japão para conquistar o penta. Para o salvador da pátria, a chave que lhe abriu as portas do futebol europeu como técnico da Seleção Portuguesa.

Paulo Markun: Para entrevistar o técnico Luiz Felipe Scolari nós convidamos Kitty Balieiro, chefe de redação do Canal ESPN Brasil; Marcello Lima, repórter esportivo da rádio Joven Pan; Hélio Alcântara, chefe de redação de esporte da TV Cultura e apresentador do Grandes Momentos do Esporte; Ruy Carlos Ostermann, colunista do jornal Zero Hora, comentarista esportivo e apresentador do programa Debates Esportivos, da rádio Gaúcha, e autor do livro Felipão, a alma do penta; Luis Antônio Prósperi, repórter de esportes do Jornal da Tarde; Juca Kfouri, colunista esportivo e apresentador do programa Cartão Verde, da TV Cultura; Paulo Lima, editor da revista Trip. Ali do alto, o cartunista Paulo Caruso acompanha com pincel e tinta os flagrantes e momentos da peleja, ou melhor, da entrevista. Boa noite, Felipão.

Luiz Felipe Scolari: Boa noite.

Paulo Markun: Queria começar com o seguinte: Vale essa história, quer dizer, o técnico é realmente o culpado de tudo que acontece de ruim e fatura quando o time vai bem?

Luiz Felipe Scolari: Ele é culpado...

Paulo Markun: Na cabeça das pessoas?

Luiz Felipe Scolari: É, na conjuntura de algumas situações há quem imagine que o único errado num jogo de futebol seja o técnico, aí ele arca com as conseqüências e também ganha muito de prestígio. À medida que a equipe que dirige tenha resultados negativos, já é um pouco mais diluído, aí então essa situação de vitorioso, mas ele também ganha muito, sim, quando é vitorioso.

Paulo Markun: Agora, com 11 jogadores em campo, muitas vezes são sujeitos que ganham um bom dinheiro fazendo aquilo ali, acham que sabem tudo daquela atividade, certamente acham que sabem mais do que o técnico, indiscutivelmente. Como é que se consegue pilotar esse time?

Luiz Felipe Scolari: O grande problema do técnico não é hoje a parte técnica, não é hoje fazer com que o jogador chute a bola de uma forma assim ou assado, o grande dilema do técnico, atualmente, no mundo todo, é dirigir essas estrelas, organizar e trabalhar com o ego desse pessoal. Quem souber conduzir um grupo e quem souber montar um grupo, fazer com que esse grupo tenha algumas cedências de ego para benefício de um conjunto é o grande vencedor. Isso é o mais difícil no momento.

Juca Kfouri: Quer dizer que o treinador hoje, Felipão, precisa entender mais de psicologia do que propriamente tática de jogo?

Luiz Felipe Scolari: Porque, veja bem, Juca, principalmente nós do Brasil, todo mundo sabe muito de futebol, conhece bastante futebol, desde a várzea até o profissional. As jogadas são praticamente parecidas, a ultrapassagem praticamente idêntica, ou por fora ou por dentro, é tudo mais ou menos a cópia de um e do outro ali, dá quase tudo igual. Quem souber se relacionar melhor, quem souber tirar proveito daquela situação, do grupo em prol do final, e trabalhar, é o que vai ser o vencedor.

Juca Kfouri: Em que medida ter jogado futebol ajuda nesse aspecto, Felipão?

Luiz Felipe Scolari: Ajuda e bem, hein. Porque fui homenageado, na segunda-feira, como um dos melhores zagueiros de todos os tempos.

Juca Kfouri: Só pode ter sido lá em Porto Alegre.

Luiz Felipe Scolari: Eu não sei quem inventou isso, mas tudo bem, eu aceito [risos].

Juca Kfouri: Claro.

Luiz Felipe Scolari: Não foi ruim, eu aceito. Eu queria te dizer que quando a gente jogou, nós, com maior projeção, menor projeção, vivenciamos certas situações que quem não jogou não tem o conhecimento exato. Imagina, mas não vivenciou aquilo, não presenciou, não participou. Fica mais fácil para a gente, então, falar alguma coisa, mostrar ou dizer aos nossos atletas de que forma aquilo já foi vivido [gesticulando], para que eles saibam que, em determinados momentos, a pessoa que os dirige já passou por aquilo, que eles não pensem que aquilo ali é uma novidade, pode ser uma novidade, mas a gente já passou.

Ruy Carlos Ostermann: Senhor Scolari, hoje repetistes, de algum modo, mas uma afirmação já fizestes dois dias atrás ou um dia atrás, de que, em qualquer parte do mundo, não importa qual país, nem a tradição do futebol em que lá se executa, se joga do mesmo jeito. Até estendeste isto para o trabalho da imprensa, do jornalismo esportivo, de que é a mesma coisa em qualquer parte do mundo. Explica um pouco isso, isso me intrigou.

Luiz Felipe Scolari: O pessoal da imprensa tinha me solicitado, no Sul, a respeito desse assunto, e eu disse que é igual, é igual. Porque todo mundo quer uma situação de proveito, quer tirar alguma coisa de algo que vai acontecer ou que sabe ou que... Então isso é aqui, é na Europa, é nos países árabes, em qualquer lugar.

Paulo Markun: Jornalista atrapalha em todo canto?

Luiz Felipe Scolari: Não, não atrapalha, mas ele tem sua forma de agir e é assim. Eu, ainda ontem conversando com o pessoal de Portugal a respeito da próxima convocação, por problemas que estão surgindo de lesões, tudo mais, final de campeonato, eu disse: “Olha, eu vou convocar fulano de tal, mas provavelmente ele tem alguns interesses e não vai dar entrevista para o site, ok?” “Mas eu tenho que fazer o meu trabalho” [referindo-se à frase do jornalista]. “Está bom, mas você já está avisado. É porque eu já tenho o conhecimento de que não vai dar. Então, faça o teu trabalho, vai receber um não”, é assim.

Ruy Carlos Ostermann: Isso te afeta?

Luiz Felipe Scolari: Não me afeta, mas eu quero um relacionamento simples e bem direcionado. Se a gente diz, porque a gente tem a informação do atleta: “Não vai dar entrevista” e a pessoa diz: “Mas eu tenho...”, a gente tem também que entender que é  função...

Ruy Carlos Ostermann: [interrompendo] É tu que tens que dar essa informação?

Luiz Felipe Scolari: Não, esse é um assunto controverso, que vai surgir por causa de convocações que devem acontecer, e aí a gente já está correndo na frente, que é para evitar problemas.

Juca Kfouri: Agora, a pressão que você sente lá é igual à pressão que você sentia aqui, técnico da Seleção Brasileira e técnico da Seleção Portuguesa?

Luiz Felipe Scolari: Não, é diferente. Eu lá tenho um pouquinho de pressão, eu sofri um pouco de pressão, porque era estrangeiro.

Juca Kfouri: Por isso?

Luiz Felipe Scolari: É. Tirei lugar de alguém [Não parece se referir necessariamente a ele mas Agostinho Oliveira foi o técnico anterior, entre 2002 e 2003] lá, então, até conseguir mostrar aos técnicos que lá estão e às pessoas e ao povo, principalmente, de que eu fui para trabalhar pela Seleção Portuguesa, integrado num processo e tudo mais, levou um certo tempo. Nesse tempo, tiveram alguns resultados que não foram bons para mim, por exemplo, um resultado de 3 a 0 num jogo com a Espanha, em casa, perdendo. E a rivalidade existente entre Portugal e Espanha, eu no caso não era sabedor dessa rivalidade, o quanto era importante, então, sofri muito. Só que depois, aos poucos, as coisas foram correndo já um pouquinho melhor e chegado o [...] foi tranqüila a aceitação, mudou porque viram que realmente eu estava lá como profissional, mas também com amor naquilo que fazia.

Juca Kfouri: Todo mundo joga igual mesmo?

Luiz Felipe Scolari: Olha, parecido. Existe hoje uma situação no mundo, inclusive eu li há pouco tempo, lá em Portugal, a maioria das equipes estão jogando no 3-5-2 [referindo-se ao esquema tático de jogo]. Algumas equipes, e eu digo que futuramente, ainda para quem gosta de futebol bem aberto, esse não vai nem comentar nem entrar em campo, porque a maioria das equipes vão jogar com 4-4-1-1, vai ser mais fechado ainda.

Ruy Carlos Ostermann: 4-4-1-1?

Luiz Felipe Scolari: É. Vai ser a ocupação de espaço, já está horrível. Quem gosta do futebol alegre, aquele futebol de 1914 e 1915, não existe mais, este também já vai ficar mais brabo ainda porque...

Juca Kfouri: [interrompendo] Estamos perdidos, agora, se deixar os dois gaúchos aqui, agora não vai. Futebol de 1914 e 1915, vocês ouviram isso.

Ruy Carlos Ostermann: De 1914, 1915, mas não é o teu.

Juca Kfouri: Não é o meu, eu sou romântico.

Luiz Felipe Scolari: Vai continuar romântico e vai morrer romântico porque vai mudar tudo, está mudando.

Juca Kfouri: Você é a favor de que tire jogador, faça 10 contra 10 para melhorar esta questão do espaço?

Luiz Felipe Scolari: Nunca pensei profundamente, mas acho que sim. Porque hoje está provado, a gente sabe que... Bom, a gente tinha aquela estatística de 1970 que eram 6 quilômetros e meio, e a estatística de 2002...

Paulo Markun: [interrompendo] 6 quilômetros e meio de?

Luiz Felipe Scolari: Corria o jogador, percurso dentro de campo, e hoje faz 13.

Hélio Alcântara: Felipão, estou com o livro aqui do professor Ruy Carlos Ostermann, Felipão, a alma do penta. Tem aqui, na página 65, que fez muito em cima dos seus [relatos], uma espécie de diário da Copa, né?

Luiz Felipe Scolari: Foi.

Hélio Alcântara: E tem um trecho aqui que você diz assim: “Noto que ainda falta uma palestra motivacional interessante e busco numa fábula, que é a Flauta mágica [fábula que conta a história de um caçador que encontra um feiticeiro que lhe entrega uma flauta para hipnotizar animais ferozes durante as caçadas. Depois de matar vários animais, o caçador teve que enfrentar a fúria de um leão surdo que, como não podia escutar o som do instrumento, atacou os amigos do caçador]”. Como que você fez isso durante a Copa do Mundo, quer dizer, era um grupo homogêneo? Você falava da mesma maneira para todos eles? Você tinha um jogador mais experiente, Cafu [lateral direito. No Brasil, jogou pelo São Paulo e Palmeiras], já tinha disputado duas copas, e você tinha jogadores bastante novos, Kléberson [meio-campista. No Brasil, jogou pelo Atlético-PR e Flamengo], por exemplo. Como é que você fazia para se dirigir a eles todos?

Luiz Felipe Scolari: Eu tinha, claro que, no geral, a mesma dinâmica, mas alguns, em uma ou outra situação, um contato um pouco mais específico para alguma finalidade que eu queria. Tínhamos lá no hotel um corredor, acho que eram uns 100 metros, e que aquele pessoal jogava, antes dos jogos, golfe. Ali é que eu usava para brincar com o pessoal e, dando uma mensagenzinha, eu usava, claro, fábulas, usava algumas histórias que eram interessantes. Fazia uma ou outra colocação que interessava para um ou outro, mas aquilo bem íntimo. Agora, veja bem, eu não devo ter contado nunca, mas quando eu perdi o Emerson [o então capitão deslocou o ombro em um treino antes do primeiro jogo. Cafu acabou substituindo o jogador na função] de capitão, eu fiquei meio apavorado no momento. Aí falei com a doutora Regina Brandão, que é a pessoa que me dá, que me norteia para determinados assuntos, principalmente da parte psicológica, ela me disse: “Faça isso, Felipe, veja isso de uma forma diferente”. Eu fiz a escolha de um capitão, mas ninguém sabe como que foi a escolha. Fiz a escolha do Cafu como o mais internacional e aquela pessoa que eu tinha também um bom relacionamento, mas eu entendia que o Cafu sozinho não poderia comandar aquele grupo, aí escolhi o Roberto Carlos [lateral esquerdo. No Brasil jogou pelo União São João e Palmeiras]. Todo mundo vai dizer: “O Roberto Carlos?”. Sim, o Roberto Carlos porque é o que mais fala, eu disse para o Roberto Carlos quando eu o escolhi: “Tu é o maior bocão”, por isso que tu está sendo escolhido. Ele ficou assim: “Tá bom”. Aí escolhi o Roque Júnior [zagueiro. No Brasil jogou pelo Palmeiras], que ninguém queria nem na Seleção, à exceção de alguns palmeirenses aqui. Mas que é uma das pessoas mais cultas que eu conheci e que tinha um comando, uma liderança em termos defensivos, que os outros não tinham. Aí Ronaldo [atacante. No Brasil jogou pelo Cruzeiro], por que Ronaldo? Porque, tecnicamente, o Ronaldo era o que nós tínhamos de melhor tecnicamente e que precisava de uma oportunidade naquele momento. E Rivaldo [meio-campista. No Brasil jogou pelo Mogi Mirim, Corinthians e Palmeiras]. Quando eu chamei o Rivaldo, todo mundo ficou assim [faz um gesto de que os jogadores não gostaram] com o Rivaldo e nem bom dia disseram. O Rivaldo é aquela pessoa que entra quieto e sai mais quieto. “Como capitão?”. Capitão porque a liderança que o Rivaldo tinha com a bola era fantástica. Aí montei: “Vocês vão ser os meus cinco capitães, só que um vai ter que fazer o sorteio" Aí o escolhido quem é? O Cafu. E ali eu fiz, realmente, com que o grupo ficasse homogêneo, tivesse união. Um só, quem sabe, poderia passar uma mensagem de acordo com o que o atleta queria, não com o que eu queria, mas com cinco, eu já tinha 20% do grupo.

Juca Kfouri: Você é um gaúcho com comportamento de PSB [Partido Socialista Brasileiro] mineiro, quer dizer, você achou um jeito de contentar todo mundo.

Luiz Felipe Scolari: Claro, claro. Mas essa é a forma de trabalhar. O pessoal pensa, imagina que, inclusive tem apelido aqui que eu sou o sargentão. Está bom, até um certo ponto faz bem.

Paulo Markun: Quer dizer, ajoelhar no milho, ninguém ajoelha?

Luiz Felipe Scolari: Não. Essa imagem, para o jogador, me serve, está ótimo. Porque existe um pouco de respeito: “Olha ele é meio sargentão”. Então, o pessoal respeita um pouquinho a mais. Mas não é assim que eu trabalho, trabalho bem integrado, todo meu grupo pode emitir parecer, pode dar opinião. Eu já disse algumas vezes, eu tenho cara de burro, mas não sou burro. Então, eu ouço, de vez em quando, o que me interessa, o que não me interessa eu não ouço [gesticulando]. Então, faço aquilo que mais ou menos é o comum e o normal de um diretor de uma empresa.

Luiz Antônio Prósperi: Eu queria voltar um pouquinho. No começo do programa, você disse que um técnico, para vencer hoje, precisa saber lidar com as vaidades, o estrelismo, um pouco dessa coisa. O jogador hoje é quase que um símbolo mais do que um jogador, ele é um artista pop, alguma coisa assim. Antigamente não tinha isso, quando que o futebol começou a ... Por exemplo, o Pelé não era uma estrela, Garrincha [(1933-1983)] não era, Beckenbauer [Franz Beckenbauer. Técnico e ex-jogador alemão] não era uma estrela?

Luiz Felipe Scolari: Eram, eram, mais era diferente. O profissionalismo começou forte, forte mesmo, a partir de 1985, 1990, olha, 1990. Porque uma coisa eu quero te dizer, Prósperi, quero te dizer uma coisa. Hoje, para nós, é mais difícil fazer com que o jogador tenha amor a aquilo que faz do que ensinar a ser profissional. Ele parece que já nasce profissional. Há 20 anos atrás, 30 anos atrás, era amor, era muito mais por amor que tu jogavas. Também recebia e tal, mas hoje, tu tens que ensinar ele a gostar do futebol.

Luiz Antônio Prósperi: Mas não é um paradoxo o que se paga, o que se movimenta em torno do jogador hoje?

Luiz Felipe Scolari: Sim, é um paradoxo, mas é assim hoje.

Kitty Balieiro: Nesse sentido, um jogador tipo metrossexual, como David Beckham [atacante inglês], que faz essa pose toda de popstar, e ganha até como uma grande estrela mundial. Um jogador como David Beckham teria lugar numa seleção sua, Felipe?

Luiz Felipe Scolari: Tem lugar, porque no íntimo e no vestiário é bem diferente. Eu já cansei de dizer que, no Brasil, eu vi algumas vezes, as pessoas me perguntam sobre um determinado atleta português que joga na Seleção e que tem uma imagem fora do vestiário de bem carrancudo, bem sério coisa e tal, mas que é uma liderança fantástica e dentro do vestiário é uma alegria infernal.

Juca Kfouri: O Figo [meio-campista] nesse caso?

Luiz Felipe Scolari: Pode ser.

Kitty Balieiro: Mas os compromissos fora dos horários do treino não atrapalham?

Luiz Felipe Scolari: Aí é outro assunto. Aí quem contrata, quem monta uma empresa e quem faz tudo isso tem que arcar com as conseqüências. O Real Madri não é um time de futebol [gesticulando], é uma empresa, é uma empresa que vende a imagem, coisa e tal. Se vende a imagem, ele tem que liberar o cara de um treinamento para ele ir lá, que depois vai fazer falta na frente. O Vanderlei [referindo-se ao então técnico brasileiro do time, Vanderlei Luxemburgo. Luxemburgo treinou o Real Madri entre os anos de 2004 e 2005] está fazendo algumas coisas lá que o pessoal está meio assustado: treino em dois turnos, concentração. Melhorou [o desempenho do time].

Kitty Balieiro: Voltou a ganhar, né?

Luiz Felipe Scolari: É o que eu quero te dizer, tem que correr os riscos. Se tu queres vender uma imagem de empresa e de metrossexual, não sei nem o que é isso, mas tudo bem [risos]. Se quer vender isso, arca com as conseqüências. Agora, se quer vender futebol, titulo, vitória, é diferente.

Marcello Lima: Agora, como lidar com elencos rachados, Felipe? Eu lembro que em 1999, depois que o Palmeiras ganhou a Libertadores, você quis trazer o Romário para disputar o Mundial e não trouxe com medo de causar ciumeira no elenco. Como que funciona isso aí, você lidar com elenco rachado, dá para lidar com isso?

Luiz Felipe Scolari: Quem sabe até tenha sido um grande erro meu, porque eu não consegui unir o time para o jogo lá em Tóquio. Porque depois da conquista da Libertadores, muitos dos atletas que tiveram atitudes maravilhosas naquela conquista, participando fora de campo, às vezes nem [tanto] dentro de campo, mudaram radicalmente. E a gente foi tentando contemporizar uma coisinha aqui, uma coisa ali, e tentando voltar ao espírito em Tóquio e não conseguimos. Se eu tivesse bancado aquilo que eu queria, quem sabe: “Está bom, sou eu mesmo o sargentão que está tomando conta aqui, quem não quiser não vai”, quem sabe teria até vencido. Mas fiz aquilo que achei que devia fazer para ajeitar o grupo, mas não foi ajeitado, não.

Ruy Carlos Ostermann: Não faltam dirigentes aí? Porque o técnico tem de assumir a presidência, vice-presidência, o futebol, a tesouraria [gesticulando], o relações públicas, por quê? Não só técnico?

Luiz Felipe Scolari: Porque o técnico, o interesse dele é o grupo, a vitória, não tem outros interesses. Os dirigentes têm outros interesses, têm outros envolvimentos e aí, quem sabe, direcione, e aí fica pior ainda.

Paulo Markun: Felipão vamos fazer um rápido intervalo, menor de que [de] qualquer jogo de futebol. Voltamos daqui a pouco com Roda Viva. A gente volta já já.

[intervalo]

[Comentarista]: Gol é golo, goleiro é guarda-redes, camisa é camisola. Felipão teve de aprender mais que isso para lidar com o futebol português. Logo de cara, foi rejeitado por torcedores e jornalistas que não queriam um estrangeiro no comando da seleção, mas sim o famoso José Mourinho [José Mourinho, técnico português que hoje dirige o inglês Chelsea, já dirigiu o português Benfica e, em 2003, dirigia o também português Porto. Nunca foi técnico da seleção de seu país]. Scolari agüentou firme, até porque estava tendo o aval da Federação Portuguesa de Futebol. Teve que agüentar mais ao barrar Vitor Baía [Depois que Scolari assumiu a seleção, Baía nunca mais foi escalado], goleiro, aliás, guarda-redes, e ídolo do país. Teve também um relacionamento turbulento com Figo, outra estrela lusitana e quase piorou as coisas ao escalar Deco, paulista que se naturalizara português. Mas Deco ajudou a transformar tudo em alegria ao quebrar um tabu de 37 anos. Fez o gol da vitória no amistoso onde a seleção de Portugal bateu o Brasil, penta campeão do mundo. Felipão conquistou aos poucos os jogadores, torcida e imprensa. Sofreu derrotas pesadas, como os 3 a 0 que levou da rival Espanha nos preparativos da Eurocopa de 2004, mas chegou à final junto com a Grécia. Não foi campeão, mas o vice foi festejado em Portugal.

Paulo Markun: Felipão, lá em Portugal o que é que fez mudar a sua situação? Quer dizer, o que conquistou o país, foram os resultados ou foi o jeitinho, entrar devargazinho?

Luiz Felipe Scolari: Os resultados até a Euro foram resultados, poderia se dizer, normais, menos o banho de bola que a gente levou, lá em Guimarães, da Espanha. Mas o que mudou foi o nosso trabalho junto à imprensa e com os atletas na fase de preparação para a Euro. Nós lá trabalhamos com portões abertos, o pessoal ficava à vontade para tirar as imagens que queria e tudo mais e começou um relacionamento bem melhor, e os atletas participaram também. E começou, então, uma onda a favor da seleção, porque também os estádios ficaram prontos [pontuando com os dedos], os acessos ficaram prontos, as estradas prontas, tudo, ficou tudo... Só que estavam esperando o quê? Se a segurança ia funcionar, se a equipe ia dar certo. Bom, aí foi o primeiro jogo, perdemos [suspira]. Perdemos, mas o pessoal, ainda assim, mesmo lá no Porto, que eu tinha tido um outro probleminha com um dirigente, foi maravilho, valorizou, nos incentivou. A gente buscou, já no segundo, terceiro, quarto jogo em diante, as vitórias. Foram acontecendo as vitórias e aquela situação de envolvimento que eu, sem querer ou sem preparar, fiz com que o povo pensasse novamente no hino, na bandeira, porque vi uma senhora, mais ou menos de 80 anos, com a bandeira no último dia de preparação. Fez com que voltasse aquela alegria ao povo português, voltassem a valorizar o símbolo...

Paulo Markun: [interrompendo] A tal da auto-estima.

Luiz Felipe Scolari: Auto-estima, valorização dos símbolos, e aquilo foi uma corrente e aí foi maravilhoso, essa foi a modificação que aconteceu.

Paulo Lima: Eu estava ouvindo você falar no primeiro bloco. É interessante que você mesmo fez analogia, parece que você fala hoje como um dirigente de empresa. Ao mesmo tempo, você diz que o Real Madrid é uma empresa e administra como tal, o time de futebol é outra coisa. Mas o fato é que hoje, você conversa com qualquer gestor de alto nível ele está falando de relacionamento humano, a agenda dele é muito mais voltada para relacionamento humano do que para tecnologia, para técnicas de produção. Pelo que você está falando, é mais ou menos assim hoje com técnico de futebol do teu nível, então, a gente está falando de gente. Eu sei que na seleção você tinha uma assessoria, psicologia etc. Agora, como que é para você, que lá em Portugal deve ter enfrentado uma situação de estresse psicológico, você chega num país diferente, a reação da imprensa existe, existe um processo quase que de rejeição natural. Como que você lida com a tua parte emocional, você tem algum tipo de assessoria, de leitura, de técnica para segurar todo esse estresse?

Luiz Felipe Scolari: Olha, eu te digo assim: A minha assessoria, no caso tenho uma assessoria esportista naturalmente, coisa e tal, mas aquilo ali mais direcionado com esporte, mas a gente leva também para o outro lado também quando precisa, mas as coisas que eu me apego para direcionar o meu trabalho, realmente, são as pessoas que estão em volta de mim, são as pessoas que trabalham comigo. Eu tive apoio do Murtosa [Flávio Murtosa, treinador adjunto da seleção de Portugal], que é uma pessoa maravilhosa, o Darlan, do diretor do meu departamento que, aos poucos, foi me dando uma visão de tudo que aconteceu nos últimos 15 anos e fui me apegando a uma ou outra pessoa que pudesse me dar alguma coisa a mais para que eu pudesse penetrar no coração do pessoal de Portugal e soubessem quem eu sou realmente. Uma das pessoas que mais ajudou-me nesse sentido foi o Roberto Leal [cantor português], que vem ao Brasil, é tratado aqui de uma forma maravilhosa e que lá me recebeu, me disse: “Olha, Felipe, em Portugal é assim, assim, assim” e até, por sinal, ajudou-me lá com uma música, um fado português cantado no ritmo do Olodum [grupo cultural e musical de Salvador].

Paulo Lima: Você sofreu no começo lá?

Luiz Felipe Scolari: Sofri, fiquei, claro, os primeiros 4, 5 meses foram difíceis. Eu via um pouco de rejeição, tudo mais, mas eu tenho que também mostrar a pessoa que eu sou. E quando tu mostras, quando tu fazes de coração, pode ter rejeição, mas daqui a pouco as pessoas vão ver: “Não é possível que seja hipócrita ou cínico e faça isso. Ele é assim mesmo e vai continuar, vamos entrar nesse processo e pronto”, aí as coisas foram assim. Agora, eu caminho todas as manhãs junto com a minha esposa, quando não estou com minha esposa está o Murtosinha, a gente caminha lá 7, 8 quilômetros. Eu jogo tênis, eu tenho lá uma vida tranqüila, que me dão oportunidade de fazer aquilo que, no Brasil, eu não fazia, eu faço lá com gosto. Eu, todas as manhãs ou no início da tarde, eu vou para a Federação, fico lá 3 horas. Eu tenho entendimento desde a categoria sub-15 ao sub-21, está todo mundo no mesmo departamento. Quer dizer, aos poucos eu fui quebrando as resistências, depois a resistência normal do povo que me encontra na rua, um me encontra e vê que...

Paulo Markun: [interrompendo] Lá é Felipão ou Scolari?

Luiz Felipe Scolari: Lá é Scolari. [o povo] Me encontra e faz uma pergunta, eu respondo. Aquilo vai passando, sabe as coisas boas como as ruins, né?, e assim foi.

Kitty Balieiro: Durante a Euro, o senhor viveu uma situação polêmica, também parecida com que você tinha vivido aqui com relação ao Romário. Então, eu vou repetir uma pergunta que o nosso repórter lá da ESPN Brasil [canal de esportes transmitido em sinal fechado] fez para você durante a gravação do especial, o André Kfouri [jornalista], que é para explicar: O Vitor Baía foi o seu Romário de Portugal? E, tendo tido já essa experiência com Romário aqui no Brasil, ajudou você lidar com essa situação lá em Portugal?

Luiz Felipe Scolari: Mais ou menos foi a mesma coisa, mais ou menos, mas nem tanto. Ajudou, sim, ajudou porque eu já tinha vivido aqui, como eu falei anteriormente ao Juca: Quando tu vivências uma situação, aquilo ali está no teu dia-a-dia, no teu currículo, já sabes o que aconteceu. Então, eu levei que era normal aquilo ali, o assunto foi encaminhado pelo pessoal de imprensa como entendia o pessoal de imprensa e, na minha parte, como eu entendia, que era a parte técnica.

Paulo Markun: Só que o goleiro lá não era tão tinhoso quanto o baixinho?

Luiz Felipe Scolari: Não, é que o Vitor, inclusive, tem feito campanhas muito boas, só que eu tenho um processo de renovação e entendi e defini que dois ou três dos guarda-redes que lá estão mereciam a minha confiança.

Paulo Markun: Guarda-redes, muito boa [risos].

[...]: Camisolas ia distribuir todas.

Juca Kfouri: Scolari, estou aqui na bicha [fila] para fazer-lhe a pergunta [fala com sotaque português e todos riem]. Ninguém, nenhum espírito de porco da imprensa, como nós somos e gostamos de ser tratados, disse, depois da final, depois da derrota contra a Grécia: “O Vitor Baía pegava aquela bola”?

Luiz Felipe Scolari: Não, ninguém, ninguém. Mesmo que tenha havido ali um problema de colocação de A, de B ou de C, mas ali o erro, nós assumimos, todos nós e tudo mais, e ali foi a vitória da qualidade da Grécia que tinha um muro intransponível, ou seja, o nosso individual não conseguiu ser superior ao coletivo. Nós tínhamos, numa soma geral, provavelmente, 8 a 3 ou 7 a 4, no mínimo, melhores atletas individualmente que a Grécia. A Grécia [era] coletivamente fantástica, nós não conseguimos. Eles fizeram gol, quer dizer, eu falo para as empresas, quando eu faço uma palestra, que eles tinham um produto para vender, só um, a minha empresa tinha uns quatro ou cinco, porque o produto dessa empresa aí, a tal de Grécia, não era bom, meu Deus do céu.

Marcello Lima: Esse negócio de gíria, como que você lidou lá em Portugal? Eu me lembro de uma passagem na Eurocopa, muito engraçada, o repórter perguntou como que foi o jogo e você disse: “Foi na base do bumba meu boi”, no final do jogo, o repórter virou e falou: “Esse é o Felipão com a tática bunda de boi” [risos].

Paulo Markun: Foi assim?

Marcello Lima: Foi.

Luiz Felipe Scolari: Não, foi o tradutor, tem o rapaz que trabalha comigo, o assessor de imprensa...

[...]:  [interrompendo] Acho que você fez de propósito [risos].

Luiz Felipe Scolari: Tinha um assessor de imprensa que passava para o inglês e tal. Eu falei que o time adversário jogou bumba meu boi, ele não sabia o que era, deixei quieto [gesticulando], também assumo de vez em quando umas brincadeiras, aí ele olhou para mim, ele traduziu como bunda de boi, ninguém entendeu nada. Eu também não falei nada, mas depois aquilo ficou, foi para a história.

Ruy Carlos Ostermann: O José Saramago, que é prêmio Nobel de literatura, se faz uma palestra aqui no Brasil há setores altamente intelectuais que sorriem de expressões que ele usa, que não são absolutamente do nosso uso. Então, quer dizer, não se trata de uma questão do futebol, mas no futebol ele se acentua muito, porque você é um técnico que tem que motivar seus jogadores, tem que falar perto deles. Você tem que fazer adaptações da linguagem?

Luiz Felipe Scolari: É, eu agora já não falo mais goleiro.

Paulo Markun: Nem gol, fala golo.

Luiz Felipe Scolari: Com 2 anos lá, eu tenho que... algumas coisas... Camisola, guarda-rede, então algumas coisas eu coloco, equipa, tudo bem, de vez em quando tu ainda voltas ao antigo, que é aquilo que tu sempre falastes e tal, mas algumas coisas tu vai te adaptando àquela situação. O próprio, meu menino de 13 anos, o Fabrício, há pouco dias chegou em casa e disse que estava magoado. Aí eu olhei para ele eu falei: “Não, tu não estás magoado, tu estás lesionado”. “Pai todos os meus amigos falam magoado”. “Então continua, está bom, tá magoado”. Porque na escola ele já...

Juca Kfouri: Tirando Chico Buarque [cantor e compositor brasileiro] e voltando um pouco mais para cá. Esta terra ainda vai cumprir o seu ideal de se tornar uma imensa Portugal, você acha, o Brasil?

Luiz Felipe Scolari: Não sei não, acho que não. O Brasil tem identidade própria, é diferente, é diferente.

Juca Kfouri: Mas do ponto de vista da organização do futebol, da casa cheia, do espírito?

Luiz Felipe Scolari: Juca, a gente aqui também imagina que lá tudo é maravilha.

Juca Kfouri: Não é?

Luiz Felipe Scolari: É bom, mas também vamos deixar até ali. Tem coisas ótimas lá, tem organização, tem muita coisa boa, mas o que o brasileiro tem também, tem uma alegria, tem uma jovialidade, tem um espírito.

Paulo Markun: Estás com saudades?

Luiz Felipe Scolari: Não estou com saudade, eu gosto de Portugal, eu venho aqui passo três, quatro, cinco dias e volto correndo, volto correndo, sinto falta dos meus amigos lá de Portugal, sinto falta da cidade onde eu moro, sinto falta, porque eu estou bem ambientado.

Paulo Markun: É Cascais, né?

Luiz Felipe Scolari: É Cascais, eu moro em Cascais. Agora, nós aqui é outra forma de ver. Eles são muito retraídos, são muito tímidos, eles têm medo de se expressar e de mostrar alegria ou tristeza. Agora, já na nossa seleção não, já na nossa seleção está bonito.

Juca Kfouri: Mas você teve que mudar isso?

Luiz Felipe Scolari: Tive não, eu tenho um que muda para mim que é o Murtosa, ele é uma figura, então essa parte eu deixo para o baixinho.

Luiz Antônio Prósperi: Tem uma questão aqui, que a gente falou, do problema Vitor Baía e Romário, mas eu acho que o maior problema foi o Deco.

Luiz Felipe Scolari: Não, não, não foi o Deco, não.

Luiz Antônio Prósperi: Para emendar a pergunta é o seguinte: O Deco é um brasileiro naturalizado português. O Brasil exporta uma média de 150 jogadores para Portugal por ano, quer dizer, a influência lá é muito grande, tem times lá que devem ter onze brasileiros jogando.

Luiz Felipe Scolari: Eu tenho 42%, se eu não me engano, na estatística, de atletas estrangeiros jogando em Portugal. O meu leque de convocações, as minhas opções são de 60%.

Luiz Antônio Prósperi: Nisso que eu queria chegar. Então, como que você trabalha isso, se você teria condição de levar mais um brasileiro para jogar na seleção.

Luiz Felipe Scolari: Veja bem, por lei, vou completar o quinto ou sexto ano em Portugal com residência, eu tenho condições de requerer a cidadania.

Luiz Antônio Próseri: Você montaria uma seleção brasileira lá?

Luiz Felipe Scolari: Isso é permitido, isso é a lei, se a lei permite, tu podes montar.

Juca Kfouri: Mas eles aceitariam?

Luiz Felipe Scolari: Não aceitariam, mas a lei diz isso. Mesma coisa se tu vais jogar na Espanha. Depois de 2 anos com residência na Espanha, tu podes ter a naturização.

Ruy Carlos Ostermann: O Liedson está a quanto tempo lá?

Luiz Felipe Scolari: Acho que 1 ano, 1 ano e pouco. 2 anos, diz o assessor ali, o Acácio [uma das pessoas que acompanham a entrevista na platéia], sabe tudo.

Paulo Markun: Acácio, da Federação Portuguesa.

Ruy Carlos Ostermann: Ele se desmanchava pelo Liedson, por isso que eu estou perguntando, se desmanchava em elogios.

Luiz Felipe Scolari: Acho um grande jogador, foi artilheiro o ano passado, é artilheiro este ano, tem grandes clubes para atender, ele é diferente, ele tem um....

Luiz Antônio Prósperi: [interrompendo] Você compraria essa briga, Felipe?

Luiz Felipe Scolari: Não, não. Veja bem, se eu, por lei, tenho condições de comprar uma briga, eu compro. Agora se eu não tenho condições porque eu vou estar... Se não existe... Está documentado, eu posso, foi o caso do Deco. O Deco não aconteceu nada, o Deco [que se naturalizou português] tinha a lei a favor dele. O que foi perguntado ao Figo foi se ele fazia naturalização espanhola. A rivalidade [junta os dedos indicadores] Espanha e Portugal jamais permitiria que o Figo imaginasse uma resposta diferente. O Figo disse o normal: “Eu não”. Aquilo foi: “Olha, o Figo não quer...”, não é nada disso. Primeiro dia que chegou o Deco, o primeiro a trabalhar com o Deco na parte de aquecimento foi o Figo, não tem nada.

Juca Kfouri: É como perguntar para um gaúcho se ele se naturalizaria brasileiro, por exemplo.

Luiz Felipe Scolari: Mais ou menos isso.

Paulo Lima: Eu queria saber o seguinte: foi falado aqui do David Beckham, que é o metrossexual da vez, e a gente tem aqui no Brasil uma espécie de meio metrossexual que é o Romário [risos]. Eu queria saber se você assistiu à despedida do Romário [em 2002, foi à televisão pedir para ser convocado por Felipão. Em 2004, fez seu jogo de despedida da seleção] e se você sentiu algum tipo de remorso na despedida dele?

Luiz Felipe Scolari: Eu? Não.

Paulo Lima: O que você sentiu quando viu...

Luiz Felipe Scolari: Eu gosto dele, tenho amizade, se a gente se encontrar conversa normalmente, mas eu tenho que fazer a minha opção e, na minha opção, eu não tenho amizade, eu tenho o meu futuro e eu trabalho para isso. Se eu entendi que, naquela oportunidade, tecnicamente não era importante, pronto, tenho que definir assim e defino. Agora, se ganhar ou perder tenho que assumir os riscos e os compromissos. E fiquei feliz que ele continua aí ainda. Agora, acho que já abandonou o futebol se eu não me engano.

[...]: Não, não. Está no Vasco [ficou no Vasco até 2008] e no futebol de areia.

Luiz Felipe Scolari: No futebol de areia também, eu vi até ontem, ganharam de 4 a 1, alguma coisa assim.

[...]: Ele quer sair mais não consegue.

Luiz Felipe Scolari: É [está] no sangue. Mas ele também entendeu o meu posicionamento.

Paulo Markun: Olhando o seu retrospecto de passagens pelo futebol do Oriente Médio, pelo Japão, futebol brasileiro, as passagens no exterior são curtas, a de Portugal será longa?

Luiz Felipe Scolari: Não, são não.

Paulo Markun: 2 anos.

Luiz Felipe Scolari: Tive 3 anos no Kuwait, 3 anos na Arábia.

Paulo Markun: 6 anos?

Luiz Felipe Scolari: Tive 6 anos. No Japão foi curta porque aí o Palmeiras estava bravo ainda com o Grêmio e disse: “Vamos trazer aquele rapaz que tinha ganho alguns jogos da gente para cá”, e aí vim para o Palmeiras. Porque eu ainda falo que no Japão é muito bom de trabalhar, a gente vive muito bem, coisa e tal, mas ainda falta um pouquinho do espírito que eu gosto nos meus times: saber porque fazem aquilo, me perguntarem porque tem que dar 20 voltas no campo, 100 chutes para cá, pra lá. Lá tu mandas fazer, eles fazem, não perguntam. Eles são obrigados.

Paulo Markun: Isso é ruim?

Luiz Felipe Scolari: É a cultura, então, é serviçal e eu não gosto assim, eu gosto que...

Juca Kfouri: [interrompendo] É outro paradoxo, Felipão, do sargentão. Em tese, o sonho do sargentão é que ele dê uma ordem e a tropa cumpra sem perguntar, você quer que cumpra mais quer que te pergunte?

Luiz Felipe Scolari: Claro, eu quero que eles saibam porque eles estão fazendo, eu quero que eles entendam. Até porque, mais tarde eu vou corrigir, porque que eu vou fazer, porque eu fiz isso ou aquilo. Agora... E outra coisa, eu perdi um jogo para, agora não me recordo o time, 2 a 0, 3 a 0. Todos os meus jogadores saíram aplaudidos, eu também aplaudido. Como que pode perder de 3 a 0 e ser aplaudido? Aí falei com o meu presidente: “Não, aqui isso é comum". Como que é? E prêmio porque jogaram o jogo. O que é? Prêmio porque entraram em campo e jogaram, depois de 3 a 0, a gente era líder. Não, não, não aceito, vamos mudar isso aqui. Aí, para mudar, tinha que ir uma ordem para o presidente da empresa que passava... Então, eu disse: “Não, não”, aí veio o Palmeiras, o Palmeiras cobriu lá uns custos que tinha de multa, coisa e tal, eu vim embora. Mas eu já fiquei fora do Brasil praticamente 7 anos.

Paulo Markun: Ou seja, não esperemos o Felipão por aqui tão cedo?

Luiz Felipe Scolari: Não, não. Olha, eu acho que por uns 3 ou 4 anos não me esperem de volta não. Está muito bom, gosto de lá, meu filho faz a faculdade, quero ver se ainda fico mais um ano.

Juca Kfouri: Então preste bem atenção na pergunta que o Hélio fez e pense bem antes de responder, faz favor.

Luiz Felipe Scolari: Um dia eu encontrei o [...] no aeroporto e nos conhecemos, ficamos conversando bastante tempo ali e tudo mais.

Juca Kfouri: O senhor ficou impressionado com ele.

Luiz Felipe Scolari: Não, um cara bem relacionado, ele destrincha o assunto assim na hora, gostei, gosto assim. Daí falou: “Ah, Felipe vem”. “Não, não venho não, muito obrigado”, ele já mandou recado por um empresário português duas vezes: “Quer voltar?”, “Não, agora não, estou bem em Portugal”.

Paulo Markun: Como nós estamos gravando o programa hoje, terça-feira, em que o Corinthians está sem técnico, eu queria deixar registrado, quer dizer, não foi este o objetivo da sua vinda ao Brasil, nem criar nenhuma conversar nessa direção?

Luiz Felipe Scolari: Nada disso, o meu objetivo nesta vinda ao Brasil foi a participação, em Porto Alegre, de um evento maravilhoso, que é há 15 anos organizado por um jornalista gaúcho. Ele premiou os melhores zagueiros do Rio Grande do Sul e do mundo, eu fui incluído, fazer o quê.

Juca Kfouri: Figueroa [chileno, foi zagueiro do Internacional-RS], Ramos Delgado [referindo-se a antigos jogadores do Sul do Brasil] ...

Luiz Felipe Scolari: Airton Pavilhão, daí tinha Felipão...

Juca Kfouri: Entendi, tinha o pessoal do futebol de salão...

Paulo Markun: [interrompendo] Só registrando, a gravação é hoje, quarta, dia 11.

Luiz Felipe Scolari: Eu vim para esse evento, vim para um outro evento de uma participação de uma palestra, duas palestras que eu fiz já uma, eu vou fazer uma amanhã.

Juca Kfouri: E fundamentalmente para o Roda Viva, evidentemente.

Luiz Felipe Scolari: E o compromisso com vocês.

Ruy Carlos Ostermann: Agora, não há ninguém, absolutamente ninguém, que não possa imaginar que você veio porque... é impossível.

Luiz Felipe Scolari: Disse a vocês que hoje de manhã 8 horas tinha uma repórter lá no hotel e quase que eu disse, que quase ia fazer uma... Ia dizer: “Olha, me espere às 11”, imagine a confusão que ia dar, mais aí depois eu tive... Não vou fazer isso.

Marcello Lima: Você pensa em fazer a vontade da dona Olga, sua esposa, de você dirigir o São Paulo algum dia, porque ela é são-paulina?

Luiz Felipe Scolari: Pela Olga eu tenho que dirigir o São Paulo e o Internacional, porque ela é sempre do contra. Eu tenho 32 anos de casado, eu não sei como é que eu ainda, né? Eu gremista e ela colorado [pontuando com os dedos], eu vim para o Palmeiras, tenho um pouco de Palmeiras agora, ela são-paulina. Lá ela não pode torcer para ninguém.

Juca Kfouri: Nesse particular, Felipe, aproveitando a primeira pergunta do Markun na abertura do programa: Família de treinador sofre demais?

Luiz Felipe Scolari: Sofre, tem que ser bem organizada porque senão dá problema.

Juca Kfouri: Que tipo de problema?

Luiz Felipe Scolari: Confusão, separação.

Juca Kfouri: Assim?

Luiz Felipe Scolari: Claro, porque se ela não estiver consciente que tudo aquilo que acontece na vida do treinador, das mudanças e tudo mais. Tu sabes muito bem que a Olga é professora de biologia, com pós-graduação. Abandonou tudo para se dedicar a quê? Ao marido, que é técnico, aos filhos e tudo mais. Quer dizer, ela não fez uma opção errada, pelo menos fez uma opção pelos filhos, é ótimo, que é a única coisa... É o que mais a gente imagina que eles sejam de bom na vida.

Ruy Carlos Ostermann: Mas se não tivesse a estrutura que tu tens, eu a conheço, sou teu amigo e conheço, a Olga é uma pessoa admirável, teus filhos são maravilhosos, te dão apoio, mas se não tiver isto um técnico....

Luiz Felipe Scolari: [interrompendo] É problema. E os envolvimentos dos técnicos, as facilidades que têm para os técnicos, as festas que existem. Meu filho, se não tiver os pezinhos no chão...

Juca Kfouri: Agora, dona Olga, pós-graduada em biologia, na verdade aguarde o doutorado dela, porque, para uma bióloga, imagine que campo de estudo [risos].

Luiz Felipe Scolari: Ela já está formada.

Juca Kfouri: Vai ser um doutorado.

Luiz Felipe Scolari: Ela já está formada, Juca.

Paulo Markun: Nós vamos fazer um rápido intervalo e voltamos daqui a pouco com Roda Viva. A gente volta já, já.

[intervalo]

[Comentarista]: Sargentão, durão, paizão e amigo. Luiz Felipe Scolari é tudo isso, amado e odiado. Personalidade forte e fama de teimoso. Discute com facilidade, compra briga, se for preciso, na hora de defender as posições que toma. Bateu o pé diante da pressão coletiva e deixou Romário de fora da seleção em 2001. Nem as lágrimas do baixinho comoveram o paizão Scolari. Ele queria disciplina e queria Ronaldo, o fenômeno, mais magro também. O gorduchinho fechou a boca. Quem tem Felipão como treinador aprende uma coisa antes de tudo: respeitar o espírito da família Scolari. O gaúcho que estudou duro, e formou-se em educação física para ser técnico, aprendeu mais que contornar bolas. Negocia a cada dificuldade, estabelece limites, distribui afagos para quem defende bem o time, cobra união e faz todo mundo andar na linha. Deixa claro que pisar na bola só se for assim tranqüilo, sentado num banco.

Paulo Markun: Felipão, de onde surgiu essa história do sargentão, como é que começou isso e se disseminou tão fortemente para ficar um carimbo?

Luiz Felipe Scolari: Eu penso porque eu sou discípulo...

Paulo Markun: [interrompendo] É coisa de gaúcho?

Luiz Felipe Scolari: Aí também, porque eu sou discípulo tanto na parte técnica, do capitão Carlos Froner [morreu em 2002. Carlos Froner dirigiu Scolari no time do Caxias]. O capitão [era chamado assim por ter sido militar] Carlos Froner é que, praticamente, direcionou a minha forma de trabalhar e isso [gira as mãos], por eu sempre estar falando nesse assunto ou sempre comentar que foi o capitão... Capitão deve ser o sargento, ficou mais ou menos assim. Também porque, em determinados momentos, eu tomei uma postura de força, dizendo: “É isso, é isso e acabou”, de certo foi por isso.

Ruy Carlos Ostermann: Escuta, tu também és tão conhecido, até mais, como paizão.

Paulo Markun: A família Scolari.

Ruy Carlos Ostermann: É contrário do sargento, constitui a família Scolari, mais quem [...] aí?

Luiz Felipe Scolari: É que, às vezes, eu tenho o estilo sargentão dentro de campo. De vez em quando precisa dar um basta lá num assunto. E lá em Portugal, por exemplo, é a história de irem treinar sem caneleta, tu fala uma vez, fala a segunda, eles estão te testando, eles estão medindo força, está bom, tu vai olhando quem é que veio sem, depois na terceira tu chuta o balde. Então, é por causa disso que... Tu vais apalpando e eles vão te apalpando, vão vendo até aonde que tu cedes. Daqui a pouquinho, tu vês que vai perder o controle, tu [bate na palma da mão]...

Ruy Carlos Ostermann: E o paizão?

Luiz Felipe Scolari: O paizão é por todo o resto. Depois do problema, tu conversas com um amigo, aquilo ali passou e encerrou. Acho que essa é uma das virtudes que eu tenho, eu faço e acabou e encerrou. Daí depois...

[...]: O senhor marca, volta atrás?

Luiz Felipe Scolari: Não marco, aquilo embaça.

[...]: Não carrega mágoa no futuro?

Luiz Felipe Scolari: Eu não, na hora vou explodir e terminou a explosão e acabou, meia hora, meio dia, um dia e nunca mais.

Juca Kfouri: Deixa eu te fazer uma pergunta que as pessoas fazem para mim, e é o nosso papel, você sabe muito bem, tentar interpretar.

Luiz Felipe Scolari: É o papel do jornalista.

Juca Kfouri: Não vou aqui fazer uma pergunta que eu faria em nome de outro, que é uma forma cômoda de se eximir, porque eu também tenho essa curiosidade. Estaria correto dizer o seguinte, Felipão, que você, quando assumiu a Seleção Brasileira, assumiu com carta branca, você era a mão que podia salvar a CBF [Confederação Brasileira de Futebol]. O Brasil todo queria você, a Seleção estava mal, era você. Daí você foi e impôs seu estilo inteiramente, foi assim até ganhar o penta campeonato. 24 horas depois que você tinha ganho o penta campeonato... Porque qual é a pergunta que as pessoas fazem: “Mas porque o Felipão não continuou? Ganhou uma Copa tão brilhantemente, sete jogos, sete vitórias, porque não continuou?” Eu costumo dizer: “Não continuou porque sabia que, a partir do momento que ganhou a Copa, a relação com a CBF mudaria e que aquele estilo ‘vamos fazer exatamente tudo como eu quero’ já não vai ser assim, vai ter que acomodar aqui, acomodar ali, fazer um jogo na China". Tem algum sentido isso?

Ruy Carlos Ostermann: Deixa eu só fazer uma... Tu falaste 24 horas depois? Foi 12, 8 depois do jogo, eu sou testemunha disso. Eu fui até o hotel onde eles estavam comemorando umas 2, 3 horas depois, aí ele me puxou e disse: “Tô fora”.

Luiz Felipe Scolari: Mas se no meio do jogo da final tinha gente ainda me criticando, gente importante, então o que eu estou fazendo aqui? Depois, o projeto que eu tinha, era um projeto que não fechava com aquela idéia do presidente. Porque o presidente já tinha vivido a situação de envolvimento do técnico da Seleção principal trabalhar com a Seleção sub 21. Eu queria 21 e principal. Eu queria 4 anos para formar, ir puxando [gesticulando], mas eu queria conhecer quem jogava na 21, quais os defeitos, como é que se relacionava. Como o presidente já tinha vivido isso e entendia que se fosse mal a sub 21 ia ter que fazer algumas mudanças e tal, ele disse: “Olha o projeto é assim, o organograma é esse”. Eu ainda perguntei ao presidente: “Presidente, se o senhor fosse o Luiz Felipe?” Ele fala: “Eu não ficava”. “Muito obrigado o senhor é meu amigo”. E continuamos uma amizade maravilhosa, meu trabalho terminou, sinto falta do CBF? Sinto, sinto falta do ambiente da Seleção. Olha, foi um ambiente maravilhoso que eu não imaginava existir...

Paulo Markun: [interrompendo] Voltaria para a seleção, eventualmente?

Luiz Felipe Scolari: Não imaginava que fosse assim.

Juca Kfouri:  Mas foi você que fez.

Luiz Felipe Scolari: Eu fui um dos participantes, Juca. Eu jogo a bola, se os outros não jogarem comigo, eu não tenho time. Então eu jogo sozinho? Não pode. Eu tenho uma função, essa função eu faço de acordo com os meus ideais e passo para os outros também a possibilidade de se integrar e aquilo que a gente imagina, se eles entenderem essa idéia correta. Claro que, no caminho, a gente, de vez em quando, traça outros rumos, mas aquilo aconteceu, não vou mais, está ótimo.

Paulo Markun: Mas voltaria, eventualmente? Porque há declarações suas de que: “Está bom, se amanhã ou sei lá quando”...

Luiz Felipe Scolari: Voltaria sim, um dia, se fosse convidado, precisasse, voltaria. O que eu vivi na Seleção me fez mudar totalmente o que eu pensava de seleções e de ambiente da Seleção Brasileira. Foi maravilhoso e isso eu não posso esquecer. Agora, é claro que sempre existe uma ou outra coisinha.

Hélio Alcântara: Felipe, tem um assunto peculiar, acho que diz respeito especialmente a você. Os gansos na sua vida, eles continuam ou não?

Paulo Markun: Vai ter que explicar o que é porque tem público que não sabe o que é.

Hélio Alcântara: Uma tática [de jogo], certo, o vôo dos gansos, não é isso? Aí você pode complementar.

Luiz Felipe Scolari: Como agora o pessoal divulgou, busquei outras alternativas, eu tenho feito outras coisas. Também muito menos do que aqui, porque lá eu fui obrigado a desenvolver uma outra técnica. Como aqui eu trabalho em grupo e o grupo aceita de uma forma espetacular e tem outro tipo de atitude, lá eu tive que trabalhar muito individualmente.

Hélio Alcântara: O senhor está falando de povo?

Luiz Felipe Scolari: Não, não, em equipe, de jogadores. Lá eu não faço... A motivação em grupo, geralmente, é feita na véspera do jogo com algumas coisas, mas eu tenho agido muito mais individualmente. Porque, culturalmente e pela análise da doutora Regina, nem vou mais falar doutora porque eu não gosto, pela análise da Regina, eu deveria começar a ter esse relacionamento muito mais individual para depois eu chegar, quem sabe, classificando para a Copa do Mundo de 2006 [a Seleção de Portugal participou da Copa do Mundo de 2006, que aconteceu na Alemanha, e ficou em quarto lugar, uma das melhores classificações da equipe em 40 anos], eu tenha a possibilidade de fazer, mais ou menos, o mesmo projeto que foi feito no Brasil, mas por enquanto...

Hélio Alcântara: Você tem um [projeto] similar?

Luiz Felipe Scolari: Tenho, tenho. Na Euro, por exemplo, eu visitava o quarto dos atletas, eu visitava o quarto daquele possível substituto no jogo, porque eu imaginava o jogo, definia quem, hipoteticamente, poderia substituir ou ganhando ou perdendo. Eu ia já fazendo substituições antes do jogo para que eu desse aquele: “Olha, tu vais amanhã entrar”, quando ele entrava: “O homem falou ontem”, e aí levava lá uma historinha, levava coisa que aconteceu comigo, deixava um bilhetinho embaixo da porta. Ainda a gente faz, uma ou outra vez, uma colocação que nós fazíamos na Seleção Brasileira, mas mudei bastante até chegar, quem sabe, a ponto de um dia eu...

Juca Kfouri: [interrompendo] Como é o papel do Murtosa, que você contou para nós que o Murtosa está impossível. Quando estão você e o Murtosa esperando os jogadores chegarem para o treino, como é que a coisa acontece?

Luiz Felipe Scolari: Eu sempre digo que o Murtosa é mais primeiro do que segundo, mas o segundo é muito importante na vida do primeiro, porque se for ele a mesma imagem do primeiro, ou se for aquela carranca que, às vezes eu tenho, os jogadores não querem ver... E o Murtosa é tudo aquilo que, às vezes, eu não aparento. Então, os jogadores chegam para o estágio, para concentração, quando eles chegam lá a gente está lá embaixo, eu, Murtosa, o treinador de goleiros, de guarda-redes, o Brassard lá. Eles vão reto cumprimentar o Murtosa e já traçam ali uma estratégia para o treino, o que eles vão fazer no treino e depois do treino qual é a brincadeira que eles vão fazer, porque no time deles já testaram, querem testar com Murtosa, e o Murtosa se presta para aquilo. Quando ele joga, ele rouba dos caras, sabe, eu digo que ele é um vigarista, os caras adoram. Depois que eles cumprimentaram o Murtosa, eles vem para mim: “E aí mister, tudo bem, tudo bem”.

Juca Kfouri: Mister.

Luiz Felipe Scolari: Lá é mister: “E aí mister tudo bem”. Já acertaram com o baixinho o que vão fazer depois do treino. De vez em quando eu estou lá: “Murtosa tem 10, 15 no ônibus, só tu e dois três”. Ele bate pênalti, ele bate falta, ele faz um joguinho de um toque, dois toques, chuta no cara, uma figura. Nosso presidente, o Gilberto Madaíl, gosta de mim, mas adora o Murtosa. E o Murtosa tem uma coisa, o Murtosa ele é descendente de Murtosa [cidade portuguesa, situada no distrito de Aveiro com cerca de 3 mil habitantes], ao lado ali de Aveiro e tal. Tem uma imagem, baixinho, bigode, coisa e tal.

Paulo Markun: Nós vamos fazer mais um intervalo, daqui a pouco voltamos com Roda Viva. A gente volta já, já.

[intervalo]

[Comentarista]: Aos 56 anos e quase 40 de futebol, Luiz Felipe Scolari colecionou muitas vitórias, mas várias delas escondem lembrança de decepções. No Grêmio, foi triste voltar de Tóquio derrotado, no final do Mundial Interclubes de 1995. Mas em 1996 veio a alegria, o Grêmio bateu a Portuguesa por 2 a 0 e foi campeão brasileiro. No Palmeiras, outra cicatriz, perdeu para o Manchester na final de interclubes mundial de 1999, também no Japão. Mas conseguiu a grande vitória do verdão no mesmo ano, a Libertadores de 1999. Em 2001, quando preparava a Seleção Brasileira para o mundial, perdeu de 2 a 0 para Honduras ficando fora da Copa América, uma grande frustração. Precisou dar duro depois para classificar o Brasil, mas no final a recompensa veio com o penta campeonato. Em Portugal, também foi quase assim, na fase preparatória para Eurocopa 2004 a Seleção Portuguesa perdeu feio da rival Espanha. Era um amistoso, mais foi difícil de engolir. Ao cabo, tudo deu certo e os portugueses foram vice-campeões da Europa.

Paulo Markun: Felipão, eu tenho a idéia de que a gente aprende, na verdade, na vida, é com fracasso, não é com a vitória, não é com o sucesso. Porque se repetir o sucesso, deixa de ser sucesso, vira outra coisa.

Luiz Felipe Scolari: Eu li esses dias, não sei quem é, foi uma pessoa famosa, parece que americana, uma marca de carro, agora não me recordo, que disse que a mãe dele disse, o pai dele disse, que ele caiu: “Quem não sabe perder, não sabe ganhar”.

Paulo Markun: Pois é, agora como é que lida quando o começa a perder uma atrás da outra? Rezar?

Luiz Felipe Scolari: Tem que buscar. Hoje, com as informações que tu tens, com toda estatística a tua disposição. O desenvolvimento está ali para trabalhar, tu tens que ter alguma situação. Se tu analisares bem vai que está errada ou senão auto-análise do grupo que tu contrataste. Foi uma péssima contratação tua ou tu fizestes escolhas que não tem nada a ver com aquilo que tu imaginas, aí tens que se fazer a troca.

Kitty Balieiro: Por falar em grupo, Luiz Felipe, você acredita que grupo de jogadores pode derrubar técnico?

Luiz Felipe Scolari: Derrubam, mas não... Eu sei o que tu mais ou menos imaginas, mas não da forma como estavam se referindo aí, algumas pessoas, o fulano chutou um pênalti fora, não é assim, eles derrubam...

Kitty Balieiro: [interrompendo] Não é dentro do campo?

Luiz Felipe Scolari: É indo para a noite, não treinando com afinco [pontuando com os dedos], conversando lá dizendo: “Se der deu, se não, não deu”, derruba assim.

Kitty Balieiro: Não dentro do campo?

Luiz Felipe Scolari: Mas não assim. O fulano estava imaginando, a mim custa acreditar, pelo amor de Deus, o cara que faz isso ele tem mais que ser fuzilado.

Juca Kfouri: Com você nunca aconteceu?

Luiz Felipe Scolari: Não aconteceu, mas eu já tive dúvidas, aí eu corri atrás de desfazer alguma coisa.

Luiz Antônio Prósperi: Tenho duas curiosidades. A primeira se você tem contrato até final da Copa de 2006, classificando Portugal. Mas um projeto de ficar mais um pouco na Europa. Diz por aí que você já tem um palavreado com Barcelona, um projeto de Barcelona montado em cima de brasileiros. Queria saber, você fica na Europa depois?

Luiz Felipe Scolari: Eu fico, claro que eu vou ficar. Veja bem, não é verdade, eu apenas colaborei, quando perguntado sobre um outro jogador, pelo Sandro Rossel, que era da Nike, pelo técnico que era da Nike, que me ajudaram muito na Seleção Brasileira, perguntaram sobre Belletti [Juliano Belletti, jogador brasileiro], personalidade do Belletti, sobre Deco. Eu disse aquilo que eu conhecia, eles contrataram. O resto, quem vendeu, quem comprou eles, não quero saber.

Luiz Antônio Prósperi: Mas uma hipótese.

Luiz Felipe Scolari: Não é hipótese, eu tenho hipóteses diferentes, sim, até pode ser [na] seleção que eu permaneça.

Luiz Antônio Prósperi: Uma outra curiosidade, nas vésperas da Copa você apostou muito no Ronaldo e no Rivaldo que, na linguagem, estavam baleados com o joelho, tanto Rivaldo, como Ronaldo. Você calculou aquele risco?

Luiz Felipe Scolari: Calculei, mas aí é que está o grande trabalho de equipe. Eu sempre coloquei, e volto aqui a dizer, é o melhor lugar para dizer, não fui eu quem bancou o Ronaldo foi doutor Runco [José Luiz Runco, especialista em cirurgia do joelho]. Eu acreditava no doutor Runco, aí é que está o grande mérito de quem dirige uma equipe, uma empresa, qualquer coisa, é acreditar nas pessoas que estão do teu lado que vão te dizer: “Olha, é isso”. “Agora, tu te garantes?” Ele falou: “Eu garanto que Ronaldo vai estar em condições, tem que seguir isso aqui”, eu posso seguir.

Hélio Alcântara: Mas você acreditou nele também, no Ronaldo?

Luiz Felipe Scolari: Claro que eu acreditei no Ronaldo, acreditei nele, sim, mas tinha alguém por traz do Ronaldo que era o doutor Runco que dizia: “Segue isso aqui” [batendo uma mão na outra], depois veio o trabalho dos preparadores físicos, do Paulo Paixão e do Darlan que seguiram. Depois veio o grande fisioterapeuta da Seleção, que para mim é um dos melhores do mundo que é o Ozan [Luis Ângelo Ozan], e aquilo tudo foi uma estradinha [faz o gesto de seguir um caminho], o jogador também queria. Porque gente, tu queres ter alguém trabalhando bem, com vontade é ter fome. Tu tens alguém que está rico que nem o Juca, aí fica fácil!

Ruy Carlos Ostermann:  Luisão [atacante. Iniciou no Guarani e jogou por diversos clubes brasileiros] também está dentro dessa aposta. Até falo dele porque ele está começando a fazer gol outra vez, está voltando, acho importante isso.

Luiz Felipe Scolari: Sim, Luisão, era uma aposta minha, eu confiava nele e foi importante, porque no jogo que precisou, no início, ele estava lá, foi pênalti. Se não foi pênalti, a nosso favor é [risos].

Paulo Lima: Queria fazer uma pergunta que interessa bastante a todo mundo, acho que deve interessar a você e, certamente, a essa fila de jornalistas que está aí fora te esperando. Teve, recentemente aqui no Brasil, uma polêmica muito grande com relação a jornalista que faz merchandising. Não sei se você pode acompanhar, mas é um assunto seriíssimo e dividiu a imprensa e os observadores em dois grupos, até o Juca que está aqui defende que o jornalista não deve fazer merchandising de nenhum tipo, propaganda etc. Tiveram episódios até fora do esporte, como Joelmir Beting [jornalista da área econômica] etc. Agora tem até personagem cômico, tem um personagem num programa de humor aí, Merchaneves [fazendo uma referência ao personagem do programa Pânico que caricatura o jornalista esportivo Milton Neves] etc. Como que é a tua visão, no estilo Felipão. Jornalista pode ou não pode fazer propaganda e merchandising?

Luiz Felipe Scolari: Propaganda, propaganda ele pode fazer, o que ele não pode é se beneficiar das informações que ele tem e de usar isso em termos de atletas e  compra e venda. Se ele está trabalhando na imprensa, ele tem que fazer aquilo da imprensa e acabou. Agora, ele usar isso e usar uma parte...

Paulo Markun: Virar a cartola.

Luiz Felipe Scolari: Virar cartola, investir no jogador ou passar aqui, receber daqui e dali, não. Eu não concordo, ou ele é jornalista ou não é. A mesma coisa que eu digo, quem não é jornalista, por exemplo, e vai depois como jornalista para a Copa do Mundo, que moleza, hein?

Kitty Balieiro: É verdade.

Luiz Felipe Scolari: Outro faz o curso e aquilo. Quem não é jornalista não vai [referindo-se a comentaristas que não são jornalistas]: “Ah, porque jogou bola”, jogou bola [batendo uma mão na outra], tem que ter curso, é assim que tem que ser. Acho que, se o jornalista for se beneficiar por alguma coisa, eu não concordo, ou ele é jornalista ou ele é diretor ou ele é empresário.

Juca Kfouri: Você se arrepende de ter feito aquele elogio ao Pinochet [(1915-2006), Augusto Pinochet, general do exército chileno e presidente do Chile durante os anos de 1973 a 1990. Governou com poderes de ditador, depois de liderar um golpe militar que derrubou o governo do presidente socialista legalmente eleito, Salvador Allende], que tanta crítica te custou, ou não?

Luiz Felipe Scolari: Não, não porque algumas pessoas levaram para outro lado. O  que eu vou fazer, o que penso não é assim? Se eles querem levar que levem. Eu quis dizer que o Pinochet fez muita coisa para o Chile, iniciou uma nova etapa no Chile. Agora, quantos que ele matou lá no estádio, eu não sei. Para chegar num ponto bom, num ponto que o Chile cresceu, alguma coisa tinha que ser feita, foi ele. Iniciou, fez a parte boa, fez a parte ruim, a parte ruim eu não conto, eu só conto a parte boa. Eu fiz um elogio de que foi assim. Aí os caras disseram que eu sou do regime tal, eu não sei nem que regime existe. Quem sabe seja até uma alienação minha ruim. Mas eu sou ainda a pessoa, não vejo partido, não vejo regime, não vejo nada. Só fiz um elogio pelo que eu conhecia do Chile. Até hoje de noite eu vou jantar com um chileno que esteve lá no Grêmio, o Cristian Lopes, que é um empresário, uma pessoa que me recebeu no Chile muito bem: “Olha, depois do Pinochet nós começamos isso, começamos aquilo, nosso índice de analfabetismo foi ótimo, nós melhoramos a nossa situação financeira”. “Está bom, e o errado?” “O errado nem te falo”.

[...]: Mas o Brasil não está precisando de alguém como ele nesse momento?

Luiz Felipe Scolari: Olha, as pessoas ficam bravas comigo, mas eu digo uma coisa: Liberdade, liberdade. Democracia com esculhambação, faz o quê? Às vezes é bom dar um "pára, te quieto" e vamos fazer isso, daqui para frente vamos ver o que vai acontecer.

Ruy Carlos Ostermann: Pensa sempre como um time de futebol.

Luiz Felipe Scolari: É claro, está bom, dá liberdade. Hoje, no Brasil, tu não podes falar uma palavra qualquer porque é racismo, tu não podes falar uma outra, porque se tu falares é processado, falar em homossexual está processado, falar preto é processado.

Paulo Markun: Como que você vê o caso do Grafite [referindo-se ao caso de racismo que o jogador Grafite, então do São Paulo, havia sofrido do jogador argentino, Leandro Desábato, em campo]?

Luiz Felipe Scolari: Besteira absoluta.

Paulo Markun: De quem?

Luiz Felipe Scolari: De todos. Maior palhaçada.

Ruy Carlos Ostermann:  De todos?

Luiz Felipe Scolari: De todos claro, porque dentro de campo pode chamar de quê?

Ruy Carlos Ostermann: Isso é sabido.

Luiz Felipe Scolari: Pode chamar de que dentro de campo? Quer que eu diga que pode chamar?

Ruy Carlos Ostermann:  Não, não, não, o Markum não deixa.

Luiz Felipe Scolari: Pode chamar de tudo, só não pode chamar de quê? De preto. Besteira, besteira, está dentro de campo é outra vida, os caras levaram isso aí... É porque era um time argentino. Palhaçada, palhaçada total.

Luiz Antonio Prósperi: Mas lá na Europa é diferente, né, Felipe, movimento de torcida, pelo menos, em relação aos jogadores, já é uma outra história.

Luiz Felipe Scolari: É um pouquinho diferente também, isso aí é outra bobagem. Eu estou ali, e eles dizendo: “Burro, burro”, é a mesma coisa [todos falam ao mesmo tempo].

Kitty Balieiro: Mas é que tem uma certa diferença, né, Felipe? Quando uma torcida que grita burro, burro, para o técnico está se referindo, simplesmente, a uma situação de jogo. Quando torcidas organizadas da Inglaterra, Itália, da Espanha gritam palavras nazistas, de cunho totalmente racista aí é uma situação um pouco mais perigosa. Tem que prestar um pouco mais de atenção.

Luiz Felipe Scolari: Mas o que é que a gente sempre foi como jogador, como técnico, o que é que vocês sempre dizem a nós e todo mundo diz: “O que vem lá de fora entra aqui e sai aqui” [fazendo o gesto de entrar por um ouvido e sair pelo outro]. Você está jogando bola, está fazendo o que gosta, tu achas que alguém vai escutar o que o outro está falando lá? Escuta se ele quer, senão não escuta. Prenderam, pá, pá, depois pagaram mico porque não sei se aquilo foi dito. Olha, futebol é totalmente diferente. Dentro de campo, meus amigos, esqueçam.

Ruy Carlos Ostermann: Acho que nesse aspecto é interessante porque o grande público nem sempre lida bem com isso, até porque a gente não lida muito com esse assunto. Mas a linguagem dentro do campo de futebol, por exemplo, as televisões tem colocado microfones perto dos técnicos, atrás dos goleiros, e agora vem a [...] dizer: “Não, os caras não têm comportamento”. Mas não põe microfone, mas não põe o microfone, por favor, por favor, tem que respeitar a intimidade do jogo que é de uma privacidade indecorosa muitas vezes. O que eles dizem e fazem dentro do campo é impressionante.

Paulo Markun: Mais ou menos que nem uma redação [de jornalismo], só que tem aquela bola [risos]

Luiz Felipe Scolari: Lá no Palmeiras ficavam bravo comigo, o pessoal das televisões, porque eles colocavam aquele negócio para escutar, quando eu chegava já tirava, chutava.

Juca Kfouri: Tu tiravas?

Luiz Felipe Scolari: Eles ficavam bravos.

Ruy Carlos Ostermann: Dava um tiro de meta no microfone.

Luiz Felipe Scolari: Dizem que eu era o sargento, o ignorante coisa e tal. Não é para colocar, pronto, então não coloca. Que nem fizeram para mim, colocaram lá um microfone dentro de uma janela, lá por traz, escondido, e depois vieram dizer que aquilo lá era furo jornalístico [refere-se ao episódio ocorrido durante as semi-finais da Copa Libartadores de 2000. Derrotado no primeiro jogo, o então técnico do Palmeiras, em reunião com seus comandados, pediu que se portassem de maneira mais dura em campo. A Rede Globo conseguiu gravar a conversa e Scolari foi acusado de incitar a vilência. No segundo jogo o Palmeiras venceu o rival Corinthians e se classificou para as finais em disputa de pênaltis]. É sem-vergonhice, aquilo é sem-vergonhice, invadiu a minha privacidade, pronto é assim que tem, mas não...

Ruy Carlos Ostermann: [interrompendo] Aí são dois lados complicados. Nós jornalistas [todos fala ao mesmo tempo]... Eu acho que nós jornalistas temos que começar a pensar exatamente nesse fenômeno popular e intenso do futebol e começar a estabelecer algumas leis de comportamento. Porque se ele levar assim: “Ah, não, numa sociedade não se pode dizer isso”, mas o que dizem na sociedade, meu Deus.

Luiz Felipe Scolari: E nós, lá dentro do campo ou dentro do vestiário, é totalmente diferente o nosso palavreado.

Paulo Markun: Felipão, você estava dizendo antes do intervalo, aqui, e foi um papo super interessante, que era de certas atitudes e comportamento dos jogadores, de como o sujeito sai da concentração, que lá chama outra coisa, como é que chama?

Luiz Felipe Scolari: Balneário ou estágio.

Paulo Markun: Estágio para o jogo, e que antigamente o jogador ele ia quieto, entrava mudo e saia calado.

Luiz Felipe Scolari: Antigamente lá, o que existia, era um técnico, alguns anteriores a mim lá, um ou outro, que diziam que tinham que ir para o estádio concentrados.

Paulo Markun: Para o matadouro.

Luiz Felipe Scolari: Concentrados era sair do hotel em silêncio e chegar em silêncio.

Paulo Markun: Você mudou isso?

Luiz Felipe Scolari: Claro, isso aí não existe, porque em convívio com Ronaldinho Gaúcho você tem que mudar. Se ele pudesse entrava dentro de campo com pandeiro, ele entrava e provavelmente fazia jogadas maravilhosas com o pandeiro também. O que a gente foi tentando implementar, e depois mudou já no primeiro dia, no segundo jogo, música e tal, aí o pessoal caiu no espírito.

Juca Kfouri: Samba ou fado?

Luiz Felipe Scolari: Samba, fado. O fado do Roberto Leal [cantor português] com Olodum [grupo musical baiano], quando eu vi estava lá o pessoal fazendo com camisola [faz o gesto de girar a camisa nos estádios], fazendo trenzinho e cantando. Por quê? Porque é uma coisa que vai para o jogo descontraído. Pelo amor de Deus, você chegar lá nervoso ainda tem que enfrentar aqueles adversários, então vai para o jogo descontraído e bem organizado, sabe o que tem que fazer.

Paulo Markun: Tem superstição lá em Portugal?

Luiz Felipe Scolari: Têm algumas superstições como aqui no Brasil. Uma que eu conheci lá foi essa: O ônibus, com o treinador, o ônibus, quando tinha que dar ré desciam todos os jogadores, não aceitavam [risos].

Paulo Markun: Que era para não andar para trás. Você tem superstição, você tem alguma superstição?

Luiz Felipe Scolari: Não, eu não tenho. Minha superstição, aquilo que eu levei para Portugal e que, aos poucos foi aceito, foi a Nossa Senhora do Caravajo e Nossa Senhora de Fátima, que estão ali, e uma pequena oração que não é comum ainda lá em Portugal.

PauloMarkun: Para finalizar, muito curto. Você acha que Brasil e Portugal se enfrentam na próxima Copa [os dois times não se enfrentaram, o Brasil foi desclassificado antes de Portugal]?

Luiz Felipe Scolari: Eu penso que o Brasil já tem 90% da classificação garantida e nós não. Nós temos, inclusive agora dia 4 de junho e 8 de junho, duas decisões. Se nós vencermos esses dois jogos, um jogo em Lisboa contra Tchecoslováquia [República Tcheca, Scolari equivoca-se usando o antigo nome do país], o outro na Espanha, eu diria para ti que as nossas chances de classificação passam a ser também de 90%. Depois nós temos três jogos dentro de Portugal. De quatro precisamos ganhar dois. Então, os dois jogos que podem decidir a nossa classificação em junho agora, depois de junho, dia 8 de madrugada, se tu me ligares eu digo [se] a gente vai se encontrar, sim ou não.

Paulo Markun: Gostaria dessa hipótese?

Luiz Felipe Scolari: Claro que gostaria, seria ótimo, porque é sinal de que nós estaríamos na Copa e que poderíamos cruzar ou na primeira, segunda, terceira fase. Na final era maravilhoso.

Juca Kfouri: Para quem? Comemora dos dois lados?

Luiz Felipe Scolari: Comemora dos dois lados [risos]. Não sei se eles iriam aceitar, mas seria interessante.

Paulo Markun: Luiz Felipe Scolari, muito obrigado pela sua entrevista, obrigado aos nossos entrevistadores e a você que está em casa. Na próxima segunda estaremos aqui com mais um Roda Viva, uma ótima semana e até segunda.

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