Memória Roda Viva

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Geraldo Alckmin

3/7/2006

O então candidato do PSDB à Presidência da República fala sobre seus projetos e sobre a campanha de 2006

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Paulo Markun: Boa noite. Ele anunciou aqui, seis meses atrás, que entraria na corrida presidencial e, hoje, é o candidato que polariza com o PT [Partido dos Trabalhadores] a principal disputa das eleições de 2006. O Roda Viva, que acompanhou a formação do atual quadro eleitoral, vem discutindo as idéias que estão colocadas neste ano entrevistando os principais candidatos que se lançaram em campanha. O presidente Lula também foi convidado, mas não aceitou o nosso convite. O nosso entrevistado dessa noite é o candidato do PSDB [Partido da Social Democracia Brasileira] à Presidência da República, ex-governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. Geraldo Alckmin esteve no Roda Viva em dezembro do ano passado [2005] quando caminhava para seu último ano de governo em São Paulo em meio às especulações sobre quem seria o candidato do PSDB à Presidência da República: ele ou o prefeito José Serra. O partido ainda não havia decido e, por isso, nem um nem outro assumiam publicamente a intenção, mas foi só até aquele momento.

[vídeo arquivo de 12 de dezembro de 2005]

Paulo Markun: A primeira pergunta é a seguinte: o senhor é candidato ao governo de São... à Presidência da República?

Geraldo Alckmin: Sou.

Paulo Markun: Boa resposta [risos]. E como é que o senhor faz?

[fim do vídeo]

Paulo Markun: Nenhum de nós esperava aquela resposta tão clara e direta. O anúncio esquentou o noticiário político e a discussão interna no PSDB, onde outros nomes também eram apontados como possíveis candidatos: o do prefeito de São Paulo, José Serra; e o governador mineiro Aécio Neves. A disputa e a indefinição se arrastaram por mais de três meses. Uma novela que permitiu especulações e deu muito trabalho à cúpula do partido, mas o PSDB chegou a um acordo que resultou no seguinte: José Serra disputaria o governo de São Paulo e o candidato à Presidência da República seria Geraldo Alckmin. Aprovado por unanimidade na convenção nacional do PSDB, no mês passado, em Belo Horizonte, Geraldo Alckmin anunciou as bases do seu futuro programa de governo que podem ser conferidas no site do partido, www.psdb.org.br: mais crescimento econômico, menos imposto, mais emprego e educação, entre outros pontos. Em dobradinha com o PFL [Partido da Frente Liberal. Tornou-se Democratas em 2007], que escolheu o senador pernambucano José Jorge como vice do candidato tucano, Alckmin elegeu a política econômica como prioridade e colocou a experiência administrativa como seu principal diferencial. Disse que não faria uma campanha centrada em ataques pessoais, mas vem aumentando o tom das críticas ao governo Lula desde que começou a viajar em campanha pelo Brasil para comer barro, como ele gosta de dizer. Tem procurado popularidade especialmente no nordeste, onde além de tradicionais aliados do PSDB, passou a contar também com o apoio do PPS [Partido Popular Socialista] de Roberto Freire [presidente do PPS]. Médico anestesista que optou pela carreira política desde jovem, começou como vereador e depois foi prefeito de Pindamonhangaba, no Vale do Paraíba, onde nasceu. Foi também deputado estadual, duas vezes deputado federal, vice-governador de São Paulo e, com a morte de Mário Covas, em 2001, tornou-se governador, sendo reeleito em 2002. Aos 53 anos de idade, acumula 34 de vida política, 12 deles no Palácio dos Bandeirantes [sede oficial do governo do estado de São Paulo], de onde decolou sua candidatura à presidente da República.

Paulo Markun: Para entrevistar o candidato do PSDB à Presidência da República, Geraldo Alckmin, nós convidamos Renata Lo Prete, editora do "Painel" do jornal Folha de S. Paulo; Merval Pereira, colunista do jornal O Globo; Ricardo Noblat, autor do Blog do Noblat e colunista do jornal O Estado de S. Paulo; Hugo Studart, diretor de redação da revista Isto é em Brasília; Alexandre Machado, comentarista de política da TV Cultura e Fernando Mitre, diretor nacional de jornalismo da TV Bandeirantes. Também temos a participação do cartunista Paulo Caruso, registrando, em seus desenhos, os momentos e os flagrantes do programa. Boa noite, governador.

Geraldo Alckmin: Boa noite, Paulo Markun.

Paulo Markun: Eu queria começar pelo seguinte: O senhor, obviamente para se eleger, tem que ter mais voto do que o adversário, como [qualquer] pessoa que se submeta à regra da democracia. Eu queria saber como é que o senhor vai explicar para os 50% mais pobres do Brasil, que em 2004 tiveram uma renda crescendo 14%, que a sua proposta é melhor do que a do presidente Lula que, de uma forma ou de outra, se apresenta como responsável por esse crescimento.

Geraldo Alckmin: Paulo Markun, é exatamente para a população mais pobre que nós vamos trabalhar, para diminuir desigualdade regional e diminuir a pobreza. Para nós, o caminho para isso se chama crescimento econômico, é emprego e salário. Se nós formos verificar, o final do governo do presidente Fernando Henrique [presidente do Brasil de 1995 a 2002, um dos fundadores do PSDB] e hoje, quatro anos depois, o nível de desemprego se manteve inalterado, não caiu absolutamente nada, praticamente mais de 10% de desemprego. Veja que não conta que aquele desempregado que está há mais de três meses desempregado, quer dizer, e, às vezes, ele não procura o emprego exatamente pela sua dificuldade. O Brasil está crescendo menos da metade do que poderia crescer, o ano passado cresceu apenas mais que o Haiti, não há nada que possa explicar o Brasil crescer menos que o Paraguai, menos que o Uruguai, menos que a Bolívia, crescer metade quase do crescimento mundial, quase um terço dos países emergentes. Entendo que nós podemos dobrar o PIB [Produto Interno Bruto] com o conjunto de reformas, políticas macroeconômicas, microeconômicas e esse é o caminho para reduzir a pobreza. O que as pessoas querem, o que o jovem quer, é oportunidade, é ele poder ter um emprego. Você tendo mais emprego, você vai melhorar o salário.

Merval Pereira: [interrompendo] Governador.

Geraldo Alckmin: A renda está praticamente estabilizada, ela não melhorou, não melhorou por quê? Porque quando tem muita gente desempregada, o funcionário começa a ganhar um pouquinho mais, demite, demite e põe outro de menor salário.

Paulo Markun: O senhor não acha que é um argumento complexo para se explicar para pessoas que, de alguma forma, estão recebendo um dinheiro no final do mês que eles não recebiam no passado?

Geraldo Alckmin: Não. Certamente você está se referindo, Paulo Markun, ao Bolsa Família [programa brasileiro de transferência de renda contra a pobreza para famílias que recebem, por mês, até 100 reais per capta***].

Paulo Markun: Exatamente.

Geraldo Alckmin: Esse nós vamos manter, vamos ampliar, vamos aperfeiçoar. Nasceu conosco, o primeiro programa de complementação de renda do Brasil foi na prefeitura de Campinas, com o Zé Roberto Magalhães Teixeira [(1937, 1996), foi eleito vice-prefeito de Campinas em 1976 e prefeito em 1982 e em 1992. Foi um dos fundadores do PSBD]. O presidente Fernando Henrique criou essa rede de proteção social, era Bolsa Escola, vinculado à permanência do aluno na escola de sete a 14 anos; era o Bolsa Alimentação, vinculado à criança ir ao centro saúde e ter a vacinação, garantir a sua saúde; e era o Vale Gás. Unificou, mudou de nome, ampliou. Nós vamos manter, o Bolsa Família é um bom programa de proteção social.

Merval Pereira: [interrompendo] Governador.

Geraldo Alckmin: Mas nós vamos, só Merval antes, mas nos vamos o quê? Vamos agregar a isso a sua emancipação, que é através da escola. Ensino profissionalizante, ensino técnico para o jovem, filho dessas famílias, micro-crédito, para ele poder ser um empreendedor. Agora, o que interessa é emprego, nós vamos trabalhar para o Brasil crescer, esse é o esforço.

Merval Pereira Governador, o senhor...

Geraldo Alckmin: [interrompendo] Boa noite, Merval.

Merval Pereira: Boa noite. A segunda resposta que o senhor dá pegando exemplos do governo Fernando Henrique, é isso tudo que o Lula [presidente do Brasil de 2003 a 2010. Lula venceu a disputa eleitoral de 2006, sendo reeleito] quer, comparar o governo Fernando Henrique com o governo dele. O senhor está aceitando esse desafio ou está caindo na armadilha do presidente Lula?

Geraldo Alckmin: Não. Primeiro eu não me envergonho do governo do presidente Fernando Henrique. Eu entendo que é um atraso o governo não reconhecer o que foi feito pelo governo anterior, acho que é um atraso, isso é uma política atrasada. Muitos dos frutos que hoje o Brasil colhe foram plantados lá atrás, a estabilização da moeda... Hoje eu ouvi o presidente do PPS, Roberto Freire, falar que acabou a carestia. É exatamente isso, a minha geração não sabia o que era moeda estável, essa conquista nós devemos ao presidente Fernando Henrique. Agora, se o candidato Lula quiser discutir o passado, problema é dele, nós podemos discutir o governo Itamar [Itamar Franco. Assumiu a Presidência da República de 1992 a 1994, depois que Fernando Collor de Mello sofreu um processo de impeachment fundamentados em acusações de corrupção. Foi embaixador do Brasil na Itália], o governo Sarney [José Sarney. Presidente da República de 1985 a 1990], podemos ir voltando. Eu vou discutir o futuro, porque o que interessa ao povo brasileiro é o seguinte: quem pode fazer mais no governo do Brasil nos próximos quatro anos [sendo interrompido]. Essa é a questão, quem é que pode fazer mais.

Renata Lo Prete: Governador, o senhor tem criticado...

Geraldo Alckmin: [interrompendo] Boa noite, Renata

Renata Lo Prete: Boa noite. O senhor tem criticado, seguidamente, as taxas de juros elevadas. Eu quero saber do senhor o seguinte: O senhor acha que o juro é alto por culpa do déficit público ou por erro do Banco Central?

Geraldo Alckmin: Eu acho que ele é alto porque você está no piloto automático, o único instrumento é a taxa de juros. Como a política fiscal é ruim, a política monetária precisa ser dura demais. Como o governo não melhora a questão fiscal, que para mim é questão central, a política fiscal é ruim... Veja agora, só nos últimos meses, aumentou 1% o PIB de gastos correntes, qual a fórmula do governo Lula? Aumentar gastos correntes, aumentar imposto e cortar investimento. Eu vou fazer ao contrário, eu vou cortar gastos correntes, vou cortar imposto e vou aumentar investimento. Com a política fiscal ruim, você só tem um instrumento para segurar a inflação que é a política monetária, aí o Brasil não cresce [sendo interrompido]. Então, você fica numa armadilha, aí sim, de baixo crescimento. Não é possível o Brasil, um país vocacionado para crescer, ficar amarrado, parado, andando devagar, perdendo oportunidade.

Ricardo Noblat: Governador, boa noite.

Geraldo Alckmin: Boa noite, Noblat.

Ricardo Noblat: Todo presidente, todo candidato a presidente, quando chega lá, ou quando está perto de chegar lá, sempre promete mais crescimento, mais desenvolvimento da economia. O senhor está se comprometendo com isso e está dizendo um pouco como faria diferente. Porque, então, esse governo não faria diferente, é simples assim? Quer dizer, é apenas um hábito de voltar? Quer dizer, porque o governo não fez o país crescer mais? Porque se desviou do rumo, adotou políticas erradas? Eu queria que, se o senhor pudesse, fosse mais objetivo.

Geraldo Alckmin: Ok.

Ricardo Noblat: E, se pudesse, me dizer exatamente o que o senhor faria de diferente...

Geraldo Alckmin: Ok. Eu tenho impressão que o governo atual não acredita naquilo em que eu acredito. Por exemplo, eu acredito que a questão fiscal é uma questão importante. O Brasil, com 39% do PIB de carga tributária, carga tributária [igual à do] do Reino Unido, só que lá tem uma renda per capita de 30 mil dólares e nós temos uma renda per capita de seis mil dólares, vai ficar amarrado. Mas o governo não trabalhou para reduzir os gastos correntes, não acredita, nós já fizemos. São Paulo, quando o governador Mário Covas, Noblat, assumiu, ele não tinha dinheiro para pagar o salário dos funcionários públicos do estado. Os funcionários de São Paulo não receberam salário em janeiro de 1995, ele não tinha dinheiro e, no entanto, fez um ajuste fiscal, colocou as contas em dia, acabou do o déficit público, passou a ter superávit. Eu reduzi impostos de 200 produtos e serviços, reduzimos drasticamente, o álcool do automóvel etanol em São Paulo, é 12% a líquida, do Brasil inteiro é 25, fiz o maior programa para micro e pequena empresa, 617 mil micro e pequenas empresas hoje estão no Simples [imposto voltado para empresas pequenas com o objetivo de diminuir o pagamento de tributos. O imposto substitui outros seis federais] paulista, a micro não paga nada [sendo interrompido], a micro está zero. Agora, quais as reformas estruturantes que o governo fez? Nenhuma. Qual o corte de gastos, a qualidade do gasto público? Nenhuma, pelo contrário, passou para uma cultura de desperdício que vai desde um AeroLula [avião comprado por Lula no início de seu governo que levantou várias críticas por terem sido gastos mais de 900 milhões de reais], que pode parecer uma coisa pequena, mas que na realidade simboliza essa cultura do desperdício, indo até à questão do MLST [Movimento de Libertação dos Sem Terra].

Ricardo Noblat: Mas, quando o senhor fala que a carga tributária é grande, e de fato talvez seja até um pouco maior do que essa do que o senhor cita, essa carga cresceu estupidamente no governo anterior, no período anterior, do presidente Fernando Henrique Cardoso.

Geraldo Alckmin: Pois é, e se ela já era...

Ricardo Noblat: [interrompendo] O senhor achou uma política de alguma maneira...

Geraldo Alckmin: Não. Veja bem, o presidente Fernando Henrique pegou uma carga tributária e realmente houve um acréscimo, por quê? Porque com a inflação, você encobria uma série de custos, ele assumiu todas as dívidas dos estados e dos municípios, passou tudo para a União. Vou dar o exemplo de São Paulo, São Paulo devia aí 60 bilhões, essa dívida inteirinha passou para a União e o estado passou a pagar a União. Isso ocorreu para os 27 estados brasileiros, por quase todos os municípios, as capitais. É diferente. Olha, exatamente por já estar no patamar alto, deveria ir reduzindo, o que é que fez? Colocou mais um andar no prédio, você piorou, inclusive, a situação fiscal e esse modelo acabou. Ou nós fazemos a lição de casa ou não tem como andar [todos falam ao mesmo tempo]. Porque todo ano, Noblat, foi aumentar imposto e cortar investimento, não tem como aumentar mais imposto.

Fernando Mitre: Verdade.

Geraldo Alckmin: Não tem que cortar mais investimento. No ano passado, foi 0,4% o [crescimento do] PIB.

Fernando Mitre: Mas esse é o desafio, não há como aumentar imposto, evidentemente. Agora, cortar gasto. O senhor fala cortar com qualidade, cortar com uma atenção específica nesse ou naquele setor. Eu gostaria que o senhor exemplificasse.

Geraldo Alckmin: Ok.

Fernando Mitre: Porque cortar gasto com qualidade é uma expressão, mas na prática como é que isso se faz?

Gerado Alckmin: Vamos lá. Então, eu vou dar um exemplo para você, inicial, só um exemplo: compras eletrônicas. Nós economizamos, em três anos e meio, quatro bilhões de reais com compras eletrônicas, compramos 100 ambulâncias, pagamos 75, 25 é de graça, porque as montadoras disputam, leilão reverso. No estado economizamos quatro bilhões de reais, quanto foi pago de juros o ano passado? 156 bilhões de reais de juros, você está num círculo vicioso [gira os dedos]. Como não tem uma política fiscal de curto, médio, longo prazo boa, a política monetária tem que ser muito dura e aumenta a questão fiscal. Você aumenta a dívida, aumenta gasto com juros. Se nós conseguirmos fazer uma reforma que nos permita uma situação fiscal melhor, você vai entrar num círculo virtuoso, de redução de taxa de juros e de crescimento. Não tem solução sem o Brasil crescer. O Brasil crescendo, e você não deixando crescer gasto corrente, começa a abrir um espaço para poder diminuir imposto, para poder retomar a capacidade de investimento do Estado.

Hugo Studart: Governador, ainda nesta questão dos gastos públicos. O senhor fala gastar melhor, política fiscal. Afinal, não dá para cortar investimento, porque investimento está quase zero. Onde é que o senhor pretende cortar? O senhor pretende diminuir salário de funcionário público, demitir funcionário público ou cortar o Bolsa Família? Porque os gastos são todos nessas duas...

Geraldo Alckmin: Não, não. Eu não demiti nem o Mário Covas demitiu um funcionário público de São Paulo, ninguém foi demitido e deu para se ajustar. O que é que está acontecendo todo ano, Studart? Todo ano está acontecendo é que os gastos correntes crescem mais do que o crescimento da economia, crescem mais do que a arrecadação do Estado. Se nós tivermos um crescimento mais forte, segurarmos esses gastos, começa a melhorar, é possível, nós já provamos. Nós temos hoje menos imposto em São Paulo e vamos investir 9,1 bilhões de reais.

Hugo Standart: E a questão dos juros?

Geraldo Alckmin: Mas não é só São Paulo, você pega o estado do Ceará, o que foi feito? É choque de gestão, eficiência, gestão, fechar torneira, acabar com a roubalheira [gesticulando], melhorar a qualidade do gasto público, evitar gasto na atividade meio, melhorar gasto na atividade fim. Veja o que foi feito em Minas Gerais, no estado de Minas. Não tem mágica, não tem mágica, mas é possível avançar.

Alexandre Machado: Governador, boa noite.

Geraldo Alckmin: Boa noite, Alexandre Machado.

Alexandre Machado: Entre as possibilidades de racionalização no gasto público, há a questão previdenciária. O senhor não falou da questão previdenciária. O senhor tem um projeto em relação à questão previdenciária?

Geraldo Alckmin: A primeira, Alexandre Machado, é regulamentar a PEC [Proposta de Emenda à Constituição] que já foi votada, foi votada a PEC da previdência, que trata do setor público no Brasil, que tem o déficit da União superior a 40 bilhões de reais, em estados e municípios mais 40 bilhões de reais. Esquece o INSS [Instituto Nacional do Seguro Social], nós estamos falando só do setor público, só o setor público. Não é pagamento de benefício, é roubo, é déficit de 80 bilhões de reais. Nós aprovamos uma PEC que até hoje não foi regulamentada. A primeira coisa é votar essas leis complementares, regulamentar, e você criar os fundos de pensão, daqui para frente. Olha, funcionário entrou, quer aposentar com 20 mil reais, tudo bem, só que ele vai contribuir para isso, as novas aposentadorias. Nós não vamos resolver o problema do déficit de hoje, nós vamos criar o futuro melhor e, quanto mais rápido nós fizermos isso, melhor. A outra, Alexandre Machado, entra na previdência, o que é que está acontecendo com essas alíquotas altíssimas e com a grande intermediação [gesticulando], tributo, sobre intermediação de mão de obra? A informalidade, metade da mão da obra economicamente está na informalidade, não pagam a previdência, óbvio. Se nós conseguirmos diminuir a informalidade, e eu pretendo, no gabinete da Presidência, como fez o Tony Blair [primeiro ministro da Inglaterra de 1997 a 2007] na Inglaterra, ter um comitê de trabalho para reduzir impostos, analisar as cadeias produtivas, melhorar a eficiência e diminuir informalidades, inclusive combate duro contra os sonegadores. Nós vamos também ajudar na questão da receita para a previdência social.

Paulo Markun: Governador, eu queria mudar de assunto e a gente falar um pouquinho de educação. No programa anterior, com o candidato Cristovam Buarque [Candidato do PDT, Partido Democrático Trabalhista, à Presidência da República em 2006. Foi governador do Distrito Federal e ministro da Educação. Foi eleito senador em 2002], eu acabei dizendo que a gente estava só falado de educação, mas vários telespectadores tem essa questão como central, então vamos ver algumas perguntas, por favor.

Célia Maria de Faria [em pergunta gravada]: Qual será o seu projeto para educação? Porque a partir da educação é que nós vamos ter um futuro.

Maira Mariano [em pergunta gravada]: Eu gostaria de saber se o senhor pretende continuar com o processo de progressão continuada, se o senhor acha que deu certo, mesmo com alguns alunos que saem após o terceiro ano do ensino médio sem ter muito conhecimento.

Diego Rocha Santana [em pergunta gravada]: Está faltando professores nas escolas públicas. Se você for presidente, como é que você vai resolver isso?

Geraldo Alckmin: Ok. A questão da educação, eu colocaria, Markun, e respondendo aqui aos telespectadores, entre as três questões, para nós, mais prioritárias. O meu objetivo é, primeiro: princípios e valores, falar a verdade, assumir responsabilidade, honestidade, princípios e valores no governo; segundo: uma grande agenda de crescimento, uma obsessão pelo crescimento, emprego, renda, trabalho. Acho que nós podemos dobrar o Produto Interno Bruto brasileiro gerando mais emprego e renda. Terceiro, e dentro desse contexto, esse trio. A questão da educação. A prioridade, para mim, é educação básica, aí compreendida o ensino infantil, começando ali na creche, na pré-escola, o ensino fundamental e o ensino médio. Claro que o governo tem obrigações com o ensino universitário, pós graduação, tudo isso nós vamos fazer, mas vamos priorizar a qualidade da escola pública focado no professor e focado na permanência do aluno na escola. Professor é salário e preparo, ou seja, cursos de capacitação. O Fundef [Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério, é um mecanismo de distribuição de recursos voltados para a manutenção e desenvolvimento do ensino fundamental. Foi criado em 1996], do Paulo Renato [ministro da Educação durante o governo Fernando Henrique Cardoso], do Fernando Henrique, foi um avanço, nós universalizamos o ensino fundamental, demos um grade avanço, temos que universalizar, agora, o ensino infantil e o ensino médio. Aquele jovem que deixou de estudar, trazer de volta para ele pode voltar a estudar. O Fundef melhorou o salário do professor no Brasil inteiro, os professores passaram a ter uma remuneração melhor, porque 60% do dinheiro do fundo só pode ser gasto com o pagamento de salário dos profissionais da educação. Precisamos, agora, ter o Fundeb [Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica] que é o [gesticulando] ensino básico aí compreendido o ensino infantil, fundamental e médio, lamentavelmente.

Paulo Markun: O governo apresentou uma proposta nessa direção.

Geraldo Alckmin: E não foi voltado até hoje. O Fundeb, Markun, só existe na propaganda. Um dia desse, eu vi uma propaganda na televisão do Fundeb, o Fundeb não existe, até hoje não foi votado.

Ribardo Noblat: Mas por que não foi votado, governador?

Geraldo Alckmin: Uma boa pergunta, Noblat, o governo tem uma...

Ricardo Noblat: [interrompendo] Se eu soubesse que o senhor gosta tanto, eu já teria feito antes.

Geraldo Alckmin: O governo tem maioria para absorver o mensaleiro [referindo-se aos envolvidos no escândalo que ficou conhecido como mensalão, pagamentos teriam sido realizados a parlamentares em troca de apoio político], mas não tem maioria para aprovar o Fundeb? Na realidade...

Ricardo Noblat: [interrompendo] O PSDB lá não está criando nenhuma dificuldade no...

Geraldo Alckmin: Como?

Ricardo Noblat: Estou dizendo, o PSDB não está criando nenhuma dificuldade?

Geraldo Alckmin: O relator foi o senador José Jorge.

Ricardo Noblat: Sei.

Geraldo Alckmin: Foi o senador José Jorge. É interessante, quer dizer, o governo tem maioria para absolver os mensaleiros e não tem maioria para votar o Fundeb, não tem é empenho político nessa questão.

Ricardo Noblat: Agora, essa questão da educação...

Geraldo Alckmin: [interrompendo] Aliás, só pela questão do Fundeb, Noblat, o presidente Fernando Henrique, em menos de um ano, estava com o Fundef pronto, encaminhou no final de 1995, em 1996 foi aprovado. O governo levou quatro anos, praticamente, para mandar o projeto para o Congresso Nacional.

Ricardo Noblat: E porque o senhor acha que ele não manifesta interesse em aprovar? O que é que está emperrando, ele perdeu interesse por quê?

Geraldo Alckmin: Porque, na realidade, o governo não tem iniciativa, está paralisado, sob ponto de vista político. O governo, desde de dois anos, ele está inerte, quer dizer, ele sobrevive. Ele não tem maioria política, não tem capacidade de articulação, não tem iniciativa, mais ou menos sobrevive às denúncias de corrupção, mas só para concluir, Noblat, respondendo aqui ao Markun e à moça que perguntou, nós vamos trabalhar a questão do financiamento do ensino básico, salário de professor, como a questão do Fundef, que melhorou, a capacitação dos professores... Em São Paulo, todos os professores têm ensino superior, todos. Nós podemos ajudar, o governo federal, para que todo professor do Brasil possa ter também um ensino superior, um terceiro grau, e depois permanência do aluno a escola. O governador Mário Covas estabeleceu, em São Paulo, todos os alunos que tinham quatro horas aula, [foram para] cinco horas aula, eu passei para seis horas aula e 520  escolas em tempo integral. O aluno entra às sete da manhã e sai às quatro e dez da tarde. Nós podemos ir, gradualmente, no mínimo, quatro horas aula, quem já conseguiu quatro ir para cinco horas aula, quem já conseguiu de cinco ir para seis até chegar nas escolas de tempo integral. Progressão continuada [sendo interrompido], só respondendo à telespectadora, eu acho que ela precisa melhorar. Agora, essa cultura de reprovação me parece equivocada, é dar marcha ré, o que está provado hoje? O aluno que é reprovado, ele não melhora, ele piora porque fica numa defasagem de idade perante os seus colegas, ele não melhora, ele acaba é piorando e aí ele acaba abandonando a escola. A pior coisa que existe é evasão escolar, metade, praticamente, dos alunos que entram no primeiro ano do ensino médio não saem [sendo interrompido] e quase 40% sequer terminam a oitava série.

Fernando Mitre: Desculpe, governador, eu acho que o pior que pode ocorrer, na área de educação, e no Brasil acontece isso intensamente, é a má qualidade do professor, o professor despreparado. Não é nem por culpa dele. A reciclagem do professor, o senhor não acha que essa seria a meta número um?

Geraldo Alckmin: Perfeito.

Fernando Mitre: Aliás, porque que não se fala em estabelecer metas na educação?

Geraldo Alckmin: Mitre, eu estou plenamente de acordo, salário e capacitação, estou plenamente de acordo.

Merval Pereira: Aliás, porque que não se estabelecem metas não só para educação, na gestão, de maneira geral?

Ricardo Noblat: Exatamente.

Geraldo Alckmin: Olha, a palavra, para mim, é eficiência. Eficiência vale para tudo [sendo interrompido]. A qualidade da escola pública, esse é o caminho. Nós estabelecemos, aqui em São Paulo, no pagamento do abono do professor e do diretor de escola, critérios e eficiência.

Fernando Mitre: [interrompendo] Mas governador, o senhor foi contra...

Geraldo Alckmin: Por assiduidade, diretor gestão da escola, critérios e eficiências.

Fernando Mitre: Mas por que não estruturar isso em termos de metas?

Geraldo Alckmin: Plenamente de acordo.

Renata Lo Prete: Governador.

Fernando Mitre: Mas isso está no seu programa?

Geraldo Alckmin: Claro que vai estar, metas no Brasil inteiro. Presença do aluno na sala de aula, maior tempo de permanência na classe [pontuando com os dedos], avaliação dos alunos, estímulos às escolas para terem melhor gestão e melhor aprendizado. Eu acho que esses critérios de avaliação, nós precisamos ter em todos os programas do governo, saúde, educação, segurança, tudo. Não é possível... O povo brasileiro, Renata [sendo interrompido], só um segundo, pagou, até o 25 de julho, entre impostos, taxas e contribuições, 400 bilhões de reais. O governo, de maneira geral, se apropriou da sociedade, em menos de seis meses 400 bilhões e você...

Paulo Markun: [interrompendo] Não é só o governo federal, né?

Geraldo Alckmin: Não só o governo federal. E você não tem dinheiro para tapar buraco algum, para onde é que está indo esse dinheiro? [sendo interrompido] Se você analisar o custo de todos os programas, avaliação de todos os programas...

Merval Pereira: [interrompendo] O senhor promete a estabelecer critérios para cada pasta e o ministro responsável por cada pasta responder por essas metas e, se não cumprirem as metas, saem do seu ministério?

Geraldo Alckmin: Mas é obvio. A avaliação de programas e custo têm que ser uma marca da boa gestão. Quando eu falo choque de gestão, eu estou falando o seguinte: é para poder investir mais na educação, para poder investir mais na saúde, é uma cultura, cultura da qualidade do gasto. Para mim, o governo ético não é só o que não rouba e não deixa roubar, é muito mais do que isso, governo ético é eficiente, você não tem um governo ético que não é eficiente se você não faz os serviços de melhor qualidade.

Renata Lo Prete: Governador, ao lado da educação existe um outro tema, que também está no topo da agenda, que é o tema da segurança. Há um mês e meio nós tivemos, em São Paulo, um levante do PCC [Primeiro Comando da Capital, uma facção criminosa cujo comando está no estado de São Paulo], um levante que se desdobrou, que revelou uma estabilidade do sistema prisional que, em menor grau, perdura até hoje e que deixou claro, também, que havia, no governo de São Paulo, uma questão de gestão bastante complicada na área da segurança. Os dois secretários da área, o secretário da Segurança [Saulo de Castro Abreu Filho] e o secretário da Administração Penitenciária [Nagashi Furukawa. Pediu demissão do cargo em maio de 2006 por ser um dos secretários mais criticados de São Paulo***] não se entendiam, mal conversavam, aliás, não conversavam. O senhor não acha que essa situação, governador, é uma situação complicada para quem apresenta a questão da eficiência, a questão da qualidade da gestão como um diferencial em relação ao governo do presidente Lula?

Geraldo Alckmin: Olha, Renata, primeiro três questões importantes. Primeiro, a segurança pública, em São Paulo, me lembro quando o Mário Covas assumiu o segundo mandato, em 1999, acabou de assumir o segundo mandato: “minha meta é reduzir 50% o número de homicídios no estado de São Paulo”. Se o Mário Covas estivesse vivo, estaria hoje feliz porque nós já chegamos a 60%. Em 1999, morreram, aqui nesse estado, no ano, 12800 pessoas, depois veio caindo, 12 mil, 11 mil, 10 mil, nove mil, oito mil, o ano passado 7276. Eu, vindo para cá, liguei para o secretário da Segurança Pública do carro: “Doutor Saulo, por favor, eu quero janeiro a maio de 2006 comparado a janeiro a maio do ano passado”, e já pegou o ataques dessas organizações criminosas, aquelas mortes do mês de maio: “Geraldo, menos 17%”. Se continuar nesse ritmo, nós vamos ter, este ano, menos mil homicídios, vamos sair de 12800 para 6270, 6260. Isso significa o seguinte: que de cada 10 pessoas que morriam, seis deixaram de morrer, com a população aumentando. O problema de preso é verdade, porque que reduziram os índices? Porque prendeu. Nós temos 140 mil presos, temos [referindo-se ao estado de São Paulo] 22% da população brasileira, 44% da população carcerária, o que está acontecendo? É gente que está presa que não quer prisão dura, porque os membros dessa organização criminosa foram todos isolados ou em penitenciária de segurança máxima, que é Presidente Bernardes, ou em Presidente Venceslau. Estão totalmente isolados, é uma reação que o governo não pode voltar atrás, tem que ser duro, tem que ser firme, tem que fazer como fez na semana passada, a inteligência policial se antecipar à ação criminosa, prender quem tem que prender, são 300...

Paulo Markun: [interrompendo] Só um pouquinho, eu acho que não foi exatamente essa a questão.

Geraldo Alckmin: Eu entendo que está agindo de forma correta. Nós não podemos ter medo, recuar por medo de ação do crime, pelo contrário, tem que desorganizar, mas vou lhe dizer uma coisa, o que, geralmente, o governo federal faz? O presidente da República diz: “O problema não é comigo”, ele passa longe, ele não quer nem ouvir falar do tema. Você vê que o presidente Lula não dá uma palavra, parece que o Brasil não tem problema de segurança, ele foge: “Isso aí é dos estados que têm Polícia Militar, não é comigo”. Eu vou fazer o contrário, a responsabilidade pela segurança pública no Brasil é minha, o governo federal vai assumir a responsabilidade, vou criar o conselho nacional de segurança, chamar os 27 estados, fazer reformas constitucionais, código penal, código do processo, lei de execuções penais, polícia de fronteira. Nós estamos enxugando gelo na questão de arma. São Paulo pega uma arma a cada 14 minutos, por onde entram essas armas? Tráfico de arma escandaloso, contrabando escandaloso, não tem polícia de fronteira, reforçaram as forças armadas junto com a Polícia Federal. Recurso, recurso [sendo interrompido]. Inteligência e bancos de dados. Dá para avançar, as manifestações são localizadas.

Paulo Markun: [interrompendo] Não foi isso governador, não foi essa a pergunta.

Geraldo Alckmin: O problema é de direção nacional.

Paulo Markun: [todos falam ao mesmo tempo] A pergunta não foi essa, a pergunta foi se as desavenças entre dois secretários de governo não demonstravam...

Geraldo Alckmin: [interrompendo] Não, não Renata, acabei passando. Olha, natural, você tem um secretário que prende, que é o secretário da segurança pública, e olha que nós passamos de 50 mil para 140 mil presos.

Ricardo Noblat: E tem outro que dá televisão.

Geraldo Alckmin: Como?

Ricardo Noblat: Tem outro que dá televisão.

Geraldo Alckmin: Tem que administrar, o doutor Nagashi fez um grande trabalho. O que acontece no...

Renata Lo Prete: [interrompendo] Você acha que esse modelo está correto, governador?

Geraldo Alckmin: Eu acho que está correto, eu acho que está correto, por quê? Porque quem prende não deve tomar conta do preso, isso é uma lógica. Eu ouvi, um dia desses... Eu não me preocupo tanto com essa questão, o problema maior é cadeia do que penitenciária. Eu estou vindo de um programa da Marília Gabriela [apresentadora de programa de entrevistas]...

Renata Lo Prete: [interrompendo] Mas tem condição de ter na mesma área, e numa área tão sensível, dois secretários que não conversam, governador?

Geraldo Alckmin: Não existe isso. Eu fui governador seis anos e o doutor Nagashi e o doutor Saulo sempre trabalharam juntos. Agora, as pessoas não são obrigadas a pensar de forma igual, mas sempre trabalharam juntos. Olha, vou dar um exemplo para você, você quer uma maior contribuição do que essa? Quantos presos tinham nas cadeias das cidades de São Paulo? Eu, quando assumi o mandato do governador eleito, em 2002 [ficou no lugar de Mário Covas por conta de sua morte], no dia da posse, a minha declaração foi o seguinte: “Em dois anos, a cidade de São Paulo, que tem oito mil presos em cadeia de forma desumana, onde cabem 20 tem 200, com risco de fuga, de rebelião, não deixando a polícia trabalhar, não terá mais um preso em cadeia, nós vamos zerar”. São 93 distritos, não deu para fazer em 24 meses, eu fiz em 30 meses. Não tem um preso em cadeia em São Paulo, quem fez isso? Foi o doutor Nagashi. Quem foi o beneficiário? Foi a segurança pública, não se pode maximizar questões, um tem um estilo, o outro tem um estilo [sendo interrompido]. Na realidade, nós tivemos dois bons secretários, cada um na sua área, cada um com seu estilo.

Hugo Studart: Governador, sobre essa crise do PCC. Em maio, o governador Cláudio Lembo [assumiu o governo de São Paulo depois da renúncia de Alckmin para concorrer à presidência], na época, parece que demonstrou ficar um pouco magoado com o senhor, disse que talvez não tivesse recebido o devido apoio do senhor. Parece que a população também percebeu isso. O senhor caiu nas pesquisas exatamente por conta dessa crise do PCC, afinal o que aconteceu? Ou seja, o senhor se escondeu ou não se escondeu? Dá para o senhor explicar, agora, melhor o que aconteceu nos bastidores do PCC.

Geraldo Alckmin: Olha, eu já aprendi o seguinte: a melhor contribuição que um ex pode dar para o atual é não se miscuir em questão administrativa, a pior coisa é duplo comando, é dois quererem... Não, nós temos que ter até humildade, dizer: “olha, agora a responsabilidade está aqui”, então eu acho que agi de maneira corretíssima, eu não estava em São Paulo quando houve isso, estava na Bahia. Do celular eu telefonei, falei com o governador, lembro, eu falei: “olha eu vou passar você para o doutor Saulo, ele vai explicar para você o que houve, o que está acontecendo”. Mantive contatos permanentes, agora, eu não quero tirar autoridade de quem tem a responsabilidade e agiu de forma firme, correta. Tanto é que o problema não está resolvido, essa é uma guerra, Renata, permanente, e você tem que vencer batalha todo dia, tem dia que perde [sendo interrompido], mas é uma luta permanente.

Alexandre Machado: Governador, no cardápio dos políticos, em geral, dos candidatos, sempre tem um rol de assuntos tradicional, quer dizer, saúde, educação, crescimento e são problemas realmente importantes. Agora, nos últimos anos, nas últimas décadas, no Brasil, ocorreu um problema novo que foi o inchaço das grandes cidades, o surgimento de regiões metropolitanas, que são absolutamente desordenadas e que são o berço de grande parte dos desacertos sociais que existem no Brasil. Ainda hoje, fala-se muito do problema do campo, realmente existem problemas no campo, problema agrário, mas o grande problema nacional, o desastre social brasileiro, está nas regiões metropolitanas das grandes cidades. O que fazer com essas regiões, que são regiões que não conseguiram desenvolver políticas comuns? Porque aqui em São Paulo até se tentou, tempos atrás, que se criasse uma política metropolitana, mas isso esbarra com questões políticas muito complexas e são lugares onde as questões básicas da cidadania não são atendidas. Esse não é um grande problema, em termos nacionais?

Geraldo Alckmin: Esse é o centro do problema, se você for verificar, os grandes problemas de qualidade de vida estão nas regiões metropolitanas, especialmente segurança pública, decorrência da má ocupação do uso do solo, isso é nítido. Você pega uma cidade onde houve uma ocupação ordenada do uso do solo e aquela que não houve, você vê o reflexo disso na segurança pública, isso leva a quê? Nós temos que ter política pública urbana para região metropolitana de grande significado, saneamento básico, questão essencial, saúde da população, maior permanência do aluno na escola. Começar com as famílias dos jovens de maior vulnerabilidade social, qualificação profissional. Nós criamos uma rede de ensino técnico e de Fatecs [Faculdades de Tecnologia], na região metropolitana, impressionante. O ABC não tinha uma faculdade pública, hoje tem cinco faculdades de tecnologia, expandimos o ensino técnico e transporte na região metropolitana. Eu estou estudando, Alexandre Machado, uma proposta, estou calculando o custo dela, de tirar os tributos sobre o ônibus, sobre o óleo diesel, fazer um trabalho junto com as prefeituras e os estados para reduzir tarifas nas regiões metropolitanas. Então, o Mário Covas dizia o seguinte: “Aqui em São Paulo, você pegue a praça da Sé e faça 50 quilômetros no entorno da praça da Sé, 82% dos problemas estão aqui. Então, as grandes metrópoles do Brasil precisam ter um tratamento diferenciado [sendo interrompido]. Segurança, sistema viário, transporte de massa, saúde.

Alexandre Machado: Isso vai dar para fazer, no governo federal? 

Geraldo Alckmin: Tem que fazer. O governo federal tem que trabalhar junto com os estados e municípios articulando políticas públicas na região metropolitana.

Ricardo Noblat: Pegando uma carona na pergunta do nosso Alexandre, a questão agrária, questão de terra, e seguramente influi muito nessa migração violenta que o senhor tem para as grandes cidades, incha as grandes cidades. O que é que distinguiria, ou poderá distinguir, a política que o senhor pensa em ter para esse setor, caso se eleja, da política atual do governo Lula, em que será diferente?

Geraldo Alckmin: Olha, primeiro a política... Vamos lá, porque antes da agrária, agrícola, política agrícola. Nós estamos numa situação gravíssima, talvez a maior crise dos últimos 40 anos. Culminou com a saída do ministro Roberto Rodrigues [ministro da Agricultura de 2003 a 2006], diminuição de área plantada, problema de taxa de juros muito alta, câmbio que não é competitivo, plantou a três reais colheu a 2,40, plantou a 2,40 o dólar e colheu a 2,10, uma quebradeira. A agricultura mais competitiva dos trópicos está destruída, toda ela de grãos: soja, arroz, feijão, milho, algodão. Vai ter problema, ano que vem, que dizer [gesticulando], é impressionante como o governo pensa só na eleição, porque vai diminuir área plantada, diminui produtividade, mas daí já passou eleição, vai ter o efeito estilingue: aumento de preço de comida, problema de desemprego afetando indústria de máquina, não se imagina o tamanho da crise da agricultura e suas conseqüências na safra 2006, 2007. Então, a primeira coisa: política agrícola compatível com a estruturação do setor, a outra é reforma agrária, que eu sou favorável. Agora, reforma agrária é uma coisa, invasão de terra é outra coisa. Como é que se diminui pobreza? Emprego, o governo gera emprego de forma complementar, quem gera emprego é o setor privado, indústria, comércio, serviços, turismo, agricultura, eles que geram emprego, precisa ter investimento. Como é que você vai ter investimento se você não tem segurança jurídica? Invade fazenda, invade propriedade particular, invade e depreda a Câmara Federal [refere-se ao caso de invasão por integrantes do MLST, Movimento de Libertação dos Sem Terra, no dia 06 de junho de 2006], tudo isso mantido com o dinheiro público, o MLST, através da sua congênere, a [...] vai lá e é recebido pelo presidente Lula, um mês depois um milhão e duzentos na conta, aí vai e invade o prédio do Ministério da Fazenda, 30 dias depois, um milhão e novecentos na conta, tudo dinheiro público, mas é evidente que você não está ajudando. 

Ricardo Noblat: O senhor está responsabilizando o governo por isso?

Geraldo Alckmin: Mas é claro, mas é óbvio. Isso não é movimento social, isso é movimento político, manipulado, instrumentalizado e mantido com o dinheiro do povo.

Ricardo Noblat: [interrompendo] O senhor vai cortar as verbas?

Geraldo Alckmin: Que paga impostos, quando alguém, quem está nos ouvindo, compra uma bicicleta para o seu filho... Eu até fiz questão de pegar, no impostômetro lá, o preço, o imposto da bicicleta 48,9%. Metade do valor de uma bicicleta é imposto, uma bicicleta. Então, você está pagando, para quê? Para usar o dinheiro dessa forma? Não é possível [sendo interrompido]. No caso da Bolívia, um país invade, expropria os ativos da Petrobras, rasga contrato e o governo tem oposição dúbia, posição submissa. Olha, isso cria uma insegurança jurídica em toda América Latina. Nós não vamos tolerar este tipo de coisa, reforma agrária sim e não é jogar as pessoas na terra, é o que fazemos em São Paulo com o Itesp [Instituto de Terras do Estado de São Paulo], é assentar, colocar condições de crédito, infra-estrutura, apoio técnico para as pessoas poderem produzir, criar sua família, ter recursos, ter boa qualidade de vida.

Paulo Markun: Governador, tenho a pergunta aqui de Adilson Fernandes de São Paulo que quer saber o seguinte: “porque a oposição não pediu o impeachment do presidente Lula? Faltou competência?”

Geraldo Alckmin: Olha, o regime presidencialista, respondendo ao Adilson, é um regime mais engessado. Se o Brasil tivesse parlamentarismo, eu sou parlamentarista, o meu partido, o PSDB, tem no seu programa o parlamentarismo, primeiro o governo já tinha caído há muito tempo, a Câmara Federal já teria sido dissolvida e nós já teríamos convocado eleições gerais. Então, você dá estabilidade ao que deve ser estável, que é a chefia do Estado, e dá instabilidade ao que deve ser instável, que é governo. Agora, o modelo presidencialista é um modelo que é um trauma, a substituição é um processo.

Paulo Markun: Mas já passamos por ela.

Geraldo Alckmin: Já passamos, mas ela tem um... ela tem também um lado de natureza política, se teve um... Certamente, nenhum outro presidente teria a tolerância que o atual presidente teve, mas entendo que no modelo presidencialista é muito traumático esse processo. Eu sou um democrata, acho que o caminho é o caminho das urnas e está aí a eleição, vamos tratar de levar nossas propostas para o povo brasileiro.

Paulo Markun: Outra pergunta de telespectador relacionada com essa, Karen, estudante de Barretos, de São Paulo, quer saber o seguinte: “Para obter maioria no Congresso, com quais partidos o senhor fará aliança e com qual partido não dá para fazer aliança?” Porque isso tem a ver com a questão anterior.

Geraldo Alckmin: Olha, primeiro eu acho que nós já vamos ter uma coisa boa que é a clausula de desempenho ou de barreira. Hoje, nós temos quase 20 partidos com assento na Câmara Federal, deverão ficar sete ou oito; segundo, eu vou trabalhar para fazer a reforma política logo no comecinho do ano e, um item: fidelidade partidária, se tiver só esse item, fidelidade partidária, com sete, oito partidos já melhora muito a governabilidade, a outra é respeito. Na realidade, a relação do governo do PT é uma relação autoritária, autoritária com todos, com a imprensa, com a sociedade, com o poder legislativo, ela tem o viés autoritário, o mensalão é uma forma de viés autoritário. Acho que as relações precisam fazer de forma respeitosa, de forma firme, eu nunca tive esse problema, desde que fui prefeito, governador do estado, é possível, sim, construir maioria em torno do programa e um projeto nacional de desenvolvimento.

Ricardo Noblat: Governador, nessa proposta de reforma política que o senhor diz que enviará, caso se eleja, e tão logo se eleja, tem uma questão. Toda quinta feira, quando o senhor vai à Brasília ou nas últimas quintas feiras, o repórter sempre pergunta, o senhor sempre diz que é o problema do Congresso e sai de fininho da história, nunca dá a sua opinião. O senhor é favorável a acabar com a reeleição ou o senhor acha que não, que a reeleição deve continuar? Não me diga que isso é um problema do Congresso, porque o senhor diz toda quinta feira em Brasília.

Geraldo Alckmin: Eu vou, eu vou responder. Essa questão de reeleição, não é uma questão programática, tem gente que é a favor, tem gente que é contra.

Renata Lo Prete: O senhor é o quê?

Geraldo Alckmin: Eu, pessoalmente, sempre fui favorável, agora, entenda o seguinte...

Ricardo Noblat: Favorável à reeleição?

Geraldo Alckmin: Favorável à reeleição, agora, primeiro, ninguém é obrigado a ser candidato, ninguém é obrigado a ser candidato; segundo, você precisa ter regras, o que está acontecendo hoje no Brasil é um abuso e, se não tivesse a reeleição, muito abuso que acontece neste ano eleitoral não aconteceria [gesticulando]. Então, olha, se nós não tivermos regras mais firmes... Por exemplo, eu tive que renunciar ao governo do estado de São Paulo para poder ser candidato, o prefeito José Serra teve que renunciar à prefeitura de São Paulo para poder ser candidato, o presidente da República precisa ter, ao menos, um mínimo de regras, não pode ficar dependendo das virtudes do candidato, a utilização da máquina pública hoje é uma vergonha.

Paulo Markun: Mas o governador Aécio Neves não precisou renunciar [todos falam ao mesmo tempo].

Geraldo Alckmin: Eu sei, o que nós precisamos... nós precisamos ter regras mais claras.

Renata Lo Prete: Governador deixa eu...

Geraldo Alckmin: [interrompendo] Do que pode ou do que não pode ser feito.

Renata Lo Prete: Deixa eu fazer...

Fernando Mitre: [interrompendo] Mas, no seu projeto, o item é contemplado ou não é?

Geraldo Alckmin: Ele não concluiu... mas espera aí, diga lá.

Ricardo Noblat: Se o Mitre permite, e a Renata, eu queria que o senhor fosse até o fim, porque eu estou curiosíssimo como é que o senhor vai concluir: “Aí eu sou a favor ou sou contra”.

Geraldo Alckmin: Eu não sou contra a reeleição, não, não sou contra a reeleição.

Fernando Mitre: O senhor acha que deve ser mantida a reeleição?

Geraldo Alckmin: Com regras, regras claras, porque hoje o que está acontecendo [todos falam ao mesmo tempo]...

Fernando Mitre: Porque, primeiro, o senhor tem que responder o seguinte: no seu projeto de reforma política, que o senhor diz que vai enviar ao Congresso, como é que o item reeleição está contemplado?

Geraldo Alckmin: Não vou tomar conhecimento de reeleição, isso não é uma questão programática.

Ricardo Noblat: Agora está claro.

Fernando Mitre: Agora o senhor respondeu. 

Geraldo Alckmin: Para mim, questão programática é fidelidade partidária, para mim, questão de mérito é o parlamentarismo, não vou propor porque [sendo interrompido]... Porque houve um plebiscito, houve um plebiscito.

Ricardo Noblat: Eu quero lhe dizer que governador...

Geraldo Alckmin: [interrompendo] Agora, se você quer a minha opinião sobre a questão da reeleição, eu acho o seguinte: ou nós estabelecemos regras para evitar a utilização da máquina pública, para evitar abuso, ou de repente, é melhor acabar com a reeleição. Então, o fato é que a lei, até hoje, não foi votada. Você votou uma PEC, você votou uma PEC dizendo: “Olha, pode reeleger uma vez”, mas nunca votou a lei que estabelece as regras mínimas.

Ricardo Noblat: Eu acho que o senhor acaba de irritar profundamente o governador Aécio Neves, de Minas Gerais, e o candidato a governador de São Paulo, José Serra.

Geraldo Alckmin: Mas eu sou coerente, primeiro eu não sou obrigado a ser candidato, ninguém é obrigado a ser candidato, agora, eu não vou... A Constituição brasileira não pode andar ao sabor do oportunismo, ao sabor do interesse de A, B ou C, eu não sou obrigado a ser candidato [sendo interrompido]. Agora, a Constituição de um país são regras que devem ser estáveis, agora, quero deixar claro, muito dos abusos que estão acontecendo em eleição talvez não acontecessem se você tivesse uma regulamentação estabelecendo limites para quem está num cargo público na utilização da máquina pública.

Renata Lo Prete: Governador, só para ficar cristalino e irritar de uma vez as pessoas que o Noblat avisou que o senhor vai irritar [risos], existe um projeto tramitando na Câmara que acaba com a reeleição, esse projeto é inclusive de um deputado do seu partido.

Geraldo Alckmin: José Magalhães.

Renata Lo Prete: Exatamente. Se o senhor for eleito, o senhor vai endossar, vai mobilizar a sua base para a aprovação desse projeto, governador?

Geraldo Alckmin: Não. Os congressistas... Isso é emenda constitucional, presidente não vota e não veta. Os congressistas têm responsabilidade, sabem o que é de interesse do país e vão agir de acordo com assuntos sociais.

Ricardo Noblat: Mas o senhor falou de abusos.

Geraldo Alckmin: Agora, quero dizer mais, hein?, sou contra o mandato de cinco anos. Eu já ouvi aí o presidente Lula dizendo: “Vamos acabar com a reeleição e fazer mandato de cinco anos”. Eu sou contra, você vai ter eleição todo ano, quatro anos é mais do que suficiente para fazer um bom mandato. Se você começar trabalhando no primeiro dia, mandato de cinco anos vai significar descoincidir, ter eleição todo ano será muito ruim para o povo brasileiro.

Merval Pereira: Governador, voltando à questão da América Latina, América do Sul, amanhã, a Venezuela do presidente Hugo Chavez vai entrar oficialmente no Mercosul [Mercado Comum do Sul. Foi criado em 1991 com o objetivo de integrar, sob a forma de associações de livre comércio, países da América do Sul]. O senhor já se declarou a favor da Alca [Área de Livre Comércio entre as Américas], o senhor acha que a entrada do Chavez, da Venezuela, no Mercosul atrapalha ou ajuda o Mercosul?

Geraldo Alckmin: Olha Merval, primeiro, não é que eu seja favorável à Alca, eu sou favorável ao Brasil ter maior inserção internacional, aprofundar a sua inserção internacional, aumentar comércio exterior e buscar mercado. Então, a Alca, desde que haja reciprocidade, nós somos favoráveis. Se não se tiver reciprocidade, não. Agora, não se deve é de antemão dizer que é contra, não. Se houver reciprocidade, vamos avançar. O Mercosul deu marcha ré, nós, ao invés de aumentarmos a disputa, nós estamos aumentando o protecionismo, então, o Mercosul é ambicioso, ele é mais do que uma área de livre comércio, ele é uma união aduaneira e nós estamos fazendo furo nessa união aduaneira e nessa área de livre comércio muito maiores. Então, [ao] invés de melhorar o Mercosul, ao invés de aprimorar o Mercosul, nós não estamos fazendo isso. E mais, se mudou o Tratado de Assunção [tratado assinado em 1991 para a constituição de um mercado comum entre Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai] para a entrada da Venezuela porquê, normalmente, você tem que discutir, antes, a forma como entra o novo membro pleno no Mercosul. Como é que fica a tarifa externa comum? Isso aqui é uma união aduaneira, como é que vai ficar a tarifa? A Venezuela estava no Pacto Andino [união formada entre Peru, Equador, Colômbia e Venezuela com o objetivo de criar vantagem para seus países membros, em termos econômicos], agora vem para o Mercosul e nada disso foi discutido. Então, o interesse político, ideológico não pode estar à frente do interesse nacional. O presidente Lula coloca interesse ideológico, político, à frente do interesse nacional, veja o caso da Bolívia, a Venezuela foi contra o Brasil e agora o Brasil está de acordo em mudar o Tratado de Assunção. Não tenho nada contra a Venezuela entrar, eu acho até que é um país muito importante, seria muito bom, mas acho que as regras não podem ser mudadas ao sabor dos ventos.

Alexandre Machado: Governador, vamos falar de campanha? Aqui nós temos, acompanhando o senhor, as personalidades do PFL, as personalidades do PPS, o seu presidente, deputado Roberto Freire. Há um ambiente bastante animado de um início de campanha. Nesse início de campanha o PFL e o PPS estão batendo pesado, nos seus programas de televisão, e o PSDB tem mostrado, o senhor tem mostrado, a sua vida, a sua história. Isso tem um pouco a ver com o fato de pouca gente conhecê-lo em relação ao tanto que se conhece do presidente Lula. Como que vai ser a orientação dessa campanha? A campanha vai bater ou vai alisar? Como é que vai se chegar à conclusão do que é melhor, já que existe uma suposição de que bater muito não ganha voto?

Geraldo Alckmin: Olha, Alexandre Machado, em política não se obriga, em política se conquista. Nós vamos ter oportunidade de expor as nossas idéias, o que nós pretendemos, o projeto para o Brasil para os próximos 20 anos, o que dá para fazer, uma agenda nacional e o que dá para fazer em quatro anos, perseguir essas metas [gesticulando], trabalhar de manga arregaçada, não empurrar problema para frente, não adiá-lo, empurrar com a barriga, construir a maioria em torno desse projeto e mostrar o que nós já fizemos, porque, infelizmente, em política, há um abismo entre o falar e o fazer. Eu, agora pedi lá para um amigo, falei: “Levanta para mim os documento da eleição de 2002”, e eu vejo o que o Lula falou na eleição de 2002 e fico abismado com o comportamento dele no governo é diametralmente o oposto, por isso que o povo fica desiludido, como é que vai acreditar nas pessoas? Ele fala uma coisa e depois faz outra.

[...]: [interrompendo] Governador, você...

Geraldo Alckmin: Então, eu vou falar do que eu já fiz, porque é isso que dá credibilidade, confiança para mostrar que nós podemos fazer mais nos próximos quatro anos e também falar de princípios, de valores, que não é possível ter tanta coisa errada e nós perdemos a nossa capacidade de nos indignarmos frente ao que está errado.

Fernando Mitre: Governador, o senhor falou povo desiludido. Analisando as pesquisas, inclusive as últimas em que o senhor melhorou muito, não é esse o retrato que se vê. Entre 85% do total de eleitores do Brasil, 125, 123 milhões, 44% continuam com o Lula. O senhor está ali na base dos 20%, já melhorou, porque era pior, melhorou um pouquinho, agora isso.

Geraldo Alckmin: Não, veja, como 20? Você me reduziu 10 pontos.

Fernando Mitre: 85% que pertencem à famílias que ganham até cinco salários mínimos.

Geraldo Alckmin: Ah, pensei que era total.

Fernando Mitre: O senhor tem 41%, o senhor, desculpa, o Lula tem 41%, o senhor tem 20 ou 21%, não tenho certeza.

Geraldo Alckmin: Ok.

Fernando Mitre: Então, aí está o povo, aí está o povão, aí estão as classes populares, esses que estariam desiludidos, segundo o senhor que acabou de falar. Eu queria saber o seguinte: o que é que o senhor vai dizer especificamente para esse eleitor?

Geraldo Alckmin: Claro, claro.

Ricardo Noblat: Pois é, só um minutinho, ainda pegando a carona do Mitre, o presidente Lula, quer dizer, quando candidato, ele fez uma carta que ele chamou de carta aos brasileiros, na verdade foi mais uma carta ao mercado financeiro ali para acalmar, mostrar que ia cumprir os contratos assinados até... e tal. O senhor vai fazer uma carta a os pobres brasileiros? Eu acho que é um pouco isso.

Geraldo Alckmin: Eu acho que, veja bem, eu só...

Ricardo Noblat: [interrompendo] Como é que o senhor vai conquistar esse povo?

Fernando Mitre: Qual a mensagem que o senhor tem para essas classes populares que estão ali, 85% de 123 milhões?

Geraldo Alckmin: Veja bem, para isso tem campanha eleitoral. Eu sempre fui cuidadoso com essa questão de pesquisa, sempre tive cuidado, ela é correta sob o ponto de vista estatístico, é uma ciência, não tem que discutir, está correta, os números são corretos, só que a leitura precisa ser feita também de forma adequada. Você não tem intenção de voto neste momento, antes da campanha. Os temas das campanhas não foram colocados, não houve contraditório, os candidatos foram definidos esta semana, até ontem você não sabia nem quem eram os candidatos, a campanha não começou, então a pesquisa feita assim com tanta antecedência, ela retrata o nível de conhecimento, o nível de exposição na mídia. Quando eu fui candidato a governador do estado de São Paulo, no meu estado, eu não tinha 20% no dia 5 de julho, nós estamos hoje no dia...

Paulo Markun: Três.

Geraldo Alckmin: Três de julho. Eu não tinha 20%.

Fernando Mitre: [interrompendo] Esse crescimento, governador, como o senhor explica?     

Geraldo Alckmin: Eu vou chegar lá. O que aconteceu na campanha? À medida em que foi avançando a campanha, eu fui tendo a oportunidade de expor idéias, de mostrar o que... Eu ganhei em todas as áreas, se pegar aqui em São Paulo, todas as áreas... Aliás, é o contrário, geralmente quem é governo ganha no interior e perde na metrópole, eu tive 67% dos votos na região metropolitana, na capital de São Paulo. Em cada três eleitores, eu tive dois votos [faz o número dois com os dedos], independente de faixa de renda, de escolaridade [sendo interrompido], chegarei lá. Como é que nós passamos de 20 para 30%, 29 no DataFolha [instituto de pesquisa], 32% no Vox Populi [instituto de pesquisa]? Levando a mensagem, eu estou muito tranqüilo, tranqüilo, eu acho que nós temos que ir degrau a degrau, passo a passo, não tem mágica, falar a verdade. Acredito no povo, confio na democracia.

Paulo Markun: Governador, há uma...

Geraldo Alckmin: Eu acho que nós podemos fazer mais nos próximos quatro anos.

Paulo Markun: Há uma outra leitura das pesquisas que também é bastante firme, que é a seguinte: existe, no eleitorado brasileiro, desde antes de 2002, um terço dos eleitores que votam em Lula de qualquer maneira, um terço dos eleitores que não votam em Lula, no PT, de maneira nenhuma, e 40%, mais ou menos, que oscilam. São os eleitores que o Duda Mendonça [um dos mais importantes publicitários do Brasil. Responsável pela elaboração da campanha de Lula em 2002], marqueteiro do Lula disse que eram um pouco PT. Parte desse eleitorado está hoje com o Lula. Que mensagem o senhor passa para esses eleitores, que não são nem cá nem lá, no sentido de dizer que o senhor é melhor?

Geraldo Alckmin: Olha, a mensagem é de esperança, é de confiança, e mais, aqui, Paulo Markun, me permita, respondendo aqui também ao Noblat, qual a mensagem para a população mais pobre, que é a população que mais precisa? O Brasil crescendo 2,5, 3% ao ano, pouco mais que o crescimento demográfico, vai levar milênio para reduzir a pobreza. Eu acabei de chegar, agora, no começo do ano, da Índia, estive com o primeiro ministro, Manmohan Singh***, e ele dizendo: “Olha, para nós, crescer 8, 9% não é suficiente, nós precisamos, temos muita gente aqui pobre, passando dificuldade, abaixo da linha da pobreza, nós precisamos crescer dois dígitos”, o Brasil pode ter um crescimento, o dobro do que esta tendo. Agora, não com o presidente dizendo que o Brasil não tem pressa para crescer, mas se não tem pressa para crescer como é que vai diminuir a pobreza, sem emprego, sem salário? Evidente que esse não é o caminho [sendo interrompido], é o trabalho que realiza o ser humano. Investimento não cai do céu, você tem que ter um conjunto de reformas, de ações políticas para criar e estimular a atividade empreendedora.

Hugo Studart: Como é que o senhor vai se apresentar ao eleitorado? O senhor já... Assim, uma piada, aqui em São Paulo:“Geraldo Alckmin é picolé de chuchu”, o senhor, com muito sabor até, brincou até com esse apelido. Agora estão falando que o senhor é o novo Cristiano Machado [(1893 – 1953), ex-prefeito de Belo Horizonte] está sendo cristianizado, já foi comparado ao general Lott sem espada. Afinal, para o Geraldo Alckmin quem é Geraldo Alckmin?

Geraldo Alckmin: Olha, eu tenho uma enorme paciência, né [risos]? Na política precisa se ter, estou zen, né?

Hugo Studart: Aliás, o senhor tem conseguido, bravamente, superar todas essas dificuldades, mas como é que o senhor vai se apresentar ao eleitorado?

Geraldo Alckmin: Absolutamente zen [risos]. Os dias, o decorrer da campanha vão mostrar muita coisa, essa coisa de “picolé de chuchu” é o nosso amigo Zé Simão [colunista do jornal Folha de S. Paulo]. Eu levo na esportiva, isso aí faz parte, aliás, eu, inclusive, aceito crítica, aprendi o seguinte: a crítica não é à sua pessoa, se eu não fosse governador como eu fui, não seria criticado, é a o que você representa. A gente precisa entender a crítica política [sendo interrompido], precisa lembrar de Santo Agostinho, que dizia: “eu prefiro os que me criticam, porque me corrigem, aos que me adulam, porque me corrompem”. É engraçado, o PT que gostava de criticar, fica bravo quando é criticado [sendo interrompido]. Então, em relação também à colocação do chuchu, nenhum problema, eu levo na esportiva.

Renata Lo Prete: Governador, o senhor disse que se debruçou sobre declarações do presidente Lula na campanha de 2002 e ficou espantando de ver como aquilo não tinha conexão com a realidade, com que ele fez depois e tal. Hoje o senhor deu uma declaração dizendo que, se eleito, vai se revolucionar a maneira de se tratar com as emendas dos deputados ou não vai permitir que as emendas sejam liberadas dessa maneira, que a relação seja essa. O senhor não acha que essa seria uma declaração que, anos depois, a gente poderia estar aqui considerando mais uma declaração de campanha fantasiosa?

Geraldo Alckmin: Mas é para ser cobrado. Eu sou muito...

Renata Lo Prete: [interrompendo] Quer dizer, como é que o senhor faria isso, governador?

Geraldo Alckmin: Renata, eu sou muito cauteloso com as palavras, muito cauteloso. Então, veja bem, estou dizendo uma coisa que eu vou fazer. Emenda parlamentar é coisa correta, todo lugar do mundo... a atividade mais nobre do parlamento é o orçamento, é quando você estabelece as suas prioridades. Governar é escolher, dinheiro não dá para tudo, então, a discussão do orçamento é um momento alto e o governante é um só, o parlamento são todos, tem minoria, tem maioria, todos estão representados, é um momento importante. Agora, emenda parlamentar também é correta, deputado representa uma região, representa um setor, ele contribui com o orçamento, o que não pode é ter roubo, o que é que a operação sanguessuga [referindo-se ao caso de desvio de dinheiro público destinado à compra de ambulâncias]? É sobre preço na compra de ambulância, mas não é possível, que dizer, você admitir que de uma emenda parlamentar estão roubando dinheiro na cara do povo até em compra de ambulância? Evidente que precisa ter controle e não tem. A culpa toda vai para o legislativo, claro, que também tem culpa, mas de onde sai dinheiro? Sai do executivo. Então, você precisa ter controle, aliás, não só de emendas, hein?, tudo precisa ter controle. Eu pretendo fazer, em termos de gestão, uma grande revolução. Analisando, hoje, o governo federal, eu vejo que ele está há muitos quilômetros de distância, em matéria de gestão, de controle, do que muitos estados brasileiros.

Paulo Markun: Governador, pergunta de James Cemino, é repórter da revista Imprensa: “Todos conhecem as suas críticas ao candidato do PT. E quanto às propostas de Heloísa Helena [candidata derrotada à presidência da República em 2006] e Cristovam Buarque? O senhor considera as propostas desses dois candidatos melhores que as de Lula?"

Geraldo Alckmin: Olha, eu não conheço em detalhes, James né? James, eu não conheço detalhes das propostas dos candidatos, mas respeito os candidatos, vejo que o Cristovam tem abordado muito a questão educacional, que para mim está no centro das prioridades do país. Todos os países que cresceram, diminuíram pobreza, melhoraram distribuição de renda o fizeram através da educação e através do crescimento da economia em ciência, tecnologia, inovação tecnológica. Respeito muito os adversários e vou procurar levar a minha mensagem a os nossos eleitores.

Merval Pereira: Governador, eu queria saber o seguinte: o senhor mantém a sua agenda de viagem à Alemanha mesmo depois do Brasil ter sido derrotado?

Geraldo Alckmin: Eu não ia Merval, isso aí foi uma notícia que saiu na imprensa, mas eu não ia. O que eu estou, já tenho há algum tempo programado, é uma viagem, mas não em relação à questão da Copa do Mundo, é uma viagem à União Européia, uma viagem a Portugal, talvez Espanha, mas não tem relação com a Copa do Mundo.

Merval Pereira: Não ia para Alemanha?

Geraldo Alckmin: Não.

Merval Pereira: A Alemanha não está na está no roteiro?

Hugo Studart: Sobre o seu programa econômico, taxa de juros, o senhor pretende, se eleito, manter a política gradualista de cair os juros devagar e sempre, como Henrique Meirelles [então presidente do Banco Central do Brasil], ou acelerar um pouquinho? E uma segunda pergunta: o senhor pretende flexibilizar um pouco as metas de inflação para acelerar o crescimento ou manter a inflação sobre controle rígido?

Geraldo Alckmin: Não, inflação sobre o controle rígido, metas de inflação são importantes. O Brasil ainda tem uma memória inflacionária, então, é importante você estabelecer metas, talvez no futuro ateste...

Hugo Studart: Mas essas metas de 4%, essas metas rígidas?

Geraldo Alckmin: Não, eu acho que nós devemos persegui-las e pretendo, sim. Entendo que, com uma política fiscal de melhor qualidade, é possível ter taxa de juros menores. Se o Brasil quer ter uma inserção internacional, aprofundar o mercado, o comércio internacional, ele precisa ter juros, um pouco mais compatível com o juros internacional, câmbio um pouco mais competitivo e compatível com o cenário internacional. É obvio que nós precisamos ir caminhando, não há razão para o Brasil ser condenado a ter, o resto da vida, a maior taxa de juros do mundo, isso cria o custo, à oportunidade ruim a pessoa vai pensar duas vezes: “é melhor eu montar uma fábrica ou rolar dívida do governo e ganhar sem trabalhar?”.

Hugo Studart: Mas o senhor pretende colocar o seu dedo para acelerar um pouco mais a queda dos juros ou deixar...

Geraldo Alckmin: [interrompendo] Claro, a minha meta vai ser crescimento econômico, tudo vai ser trabalhado nesse sentido.

Fernando Mitre: Governador, na mesa do presidente Lula há um trecho de um decreto mudando as alíquotas, tornado as alíquotas mais exigentes em produtividade como critério para desapropriação de terra. O senhor assinaria esse decreto?

Geraldo Alckmin: Não, é preciso avaliar, nós estamos...

Hugo Studart: [interrompendo] Mas foi discutido

Geraldo Alckmin: Como?

Hugo Studart: Esse decreto foi discutido no Ministério, foi...

Geraldo Alckmin: Mas discutido para quê? Para desapropriação para efeito...

Hugo Studart: [interrompendo] É. Tornando mais exigentes os níveis de produtividade.

Paulo Markun: Facilitando a desapropriação.

Hugo Studart: Para garantir a propriedade, caso contrário, a definição passa a ser...

Geraldo Alckmin: Eu acho que precisa ter cuidado, precisa ter cuidado porquê? Com esse quadro grave que a agricultura brasileira está vivendo, nós vamos ter uma queda de produtividade enorme. Daqui a pouco, está tudo sujeito a desapropriação [sendo interrompido] porque vai haver uma queda de produtividade muito grande.

Hugo Studart: Já respondeu.

Alexandre Machado: Governador, a verticalização criou uma série de dificuldades para as ameaças políticas, o PSDB e o PFL conseguiram se juntar em grande parte dos estados, mas em alguns estados a coisa não funciona. Então, tem alguns lugares onde o senhor vai ter dois palanques, tanto no Rio Grande do Sul como no Rio de Janeiro, como no Ceará, como na Bahia. Como é que o senhor vai fazer nesses lugares?

Geraldo Alckmin: São poucos estados. Eu diria que nós fizemos um grande esforço e quero aqui registrar o esforço do presidente do meu partido, senador Tasso Jereissati [ex-governador do Ceará. Foi presidente do PSDB até 2007 e foi eleito senador em 2002], e do senador Jorge Bornhausen, por parte do PFL. Veja que a verticalização dificultou muito as coligações, o presidente da República está quase isolado, não conseguiu nem com o PSB [Partido Socialista Brasileiro] uma coligação. Nós conseguimos entre dois grandes partidos que, em um ou outro estado há mais de um palanque, isso não é problema, problema se eu não tivesse apoio.

Alexandre Machado: Mas o senhor vai nos dois palanques?

Geraldo Alckmin: Claro, óbvio.

Alexandre Machado: Mesmo na Bahia?

Geraldo Alckmin: Na Bahia só tem um, o PSDB não tem candidato a governador.

Ricardo Noblat: Mas o senhor não vai no palanque... Não, é minha pergunta, ainda [ri, referindo-se à chegada do fim do programa e a cada entrevistador ter somente mais uma pergunta].

Geraldo Alckmin: Mas o... Veja bem, nós temos lá dois bons senadores, eu não vou entrar nessa questão local. Nós vamos fazer uma campanha nacional.

Ricardo Noblat: Essa foi subsidiária, a pergunta é a seguinte: o senhor bate muito nessa questão da corrupção e da necessidade de regras mais rígidas e tudo. Por que o senhor não põe na internet, portanto dando bom exemplo e saindo na frente dos outros candidatos, as suas contas, as doações que o senhor realmente receberá para a campanha, a prestação de contas diária de campanha. Por que o senhor não põe isso na internet?

Geraldo Alckmin: Elas já irão, Noblat, duas vezes já ao longo da campanha. Primeiro, não começou ainda...

Ricardo Noblat: [interrompendo] Sim, mas eu estou dizendo quando começar, porque não faz isso diariamente? Duas vezes é o que...

Geraldo Alckmin: [interrompendo] Se nós pudermos fazer, ótimo, vamos verificar. Eu acho que o comitê financeiro vai avaliar, se nós pudermos fazer, nenhum problema. Isso vai ser em agosto, se não me engano, acho que é até que uma emenda do senador José Jorge, e depois em setembro.

Ricardo Noblat: Mas eu falo diário.

Geraldo Alckmin: Se puder, nenhum problema, nenhum problema. Agora, o que nós precisamos é o quê? É o que eu vou fazer, é uma campanha mais econômica. Já comecei nessa fase inicial, de discutir programa de governo, e absolutamente dentro da lei.

Renata Lo Prete: Governador, o senhor disse, no início da entrevista, que o governo Lula só formou maioria nos últimos tempos para absorver os mensaleiros. O senhor não acha que o PSDB cometeu um erro, e de certa maneira se descrenciou, ao fazer essa discussão, ao fazer todo tipo de acerto para salvar a pele do senador Eduardo Azeredo [ex-governador de Minas Gerais e senador pelo PSDB. Acusado de fazer campanha com caixa 2 abastecido pelo Valerioduto, esquema de captação de recursos não-declarados também usado no mensalão], que teve um envolvimento mais do que comprovado com o esquema de financiamento do Marcos Valério?

Geraldo Alckmin: Não, não houve nenhum acerto, né? O senador Eduardo Azeredo... sequer foi colocada em votação essa possibilidade, nenhum acerto, então...

Renata Lo Prete: Mas quem acompanha o Congresso sabe que houve muita negociação para que não se chegasse a esse ponto com o senador Eduardo Azeredo.

Geraldo Alckmin: Olha, ele já explicou, se houve erro apura. Agora, é bom também não misturar as coisas. O que é que houve? Foi campanha eleitoral, está errado? Está errado vai ter que punir, vai ter que responder por isso. Agora, o que houve no governo Lula é muito mais grave porque em 2003 não tinha campanha, 2005 não tinha campanha, aí não tem nada a ver. Campanha eleitoral já é grave, precisa ser apurado e punido, agora, o que houve é muito mais grave, porque não havia eleição, isso aí era pagamento de parlamentar com dinheiro público, desvio de dinheiro público, coisa grave, e não foi um fato isolado. Você vai verificar Ministério tal, Ministério tal, empresa tal, empresa tal... e o presidente dizer que não sabia? Não viu [gesticulando], não ouviu, não sabe do que se passa na sala ao lado?

Renata Lo Prete: Se eleito, o senhor faria alguma coisa para reabrir o processo dos mensaleiros ou o senhor acha que isso é assunto vencido?

Geraldo Alckmin: Esse é um assunto do Congresso Nacional. Eu vou agir para evitar que as coisas aconteçam, para evitar, para prevenir.

Ricardo Noblat: O senhor faria auditoria do governo Lula, se o senhor assumisse a presidência.

Geraldo Alckmin: Eu não vou... eu não quero ser presidente para revanchismo.

Ricardo Noblat: Certo.

Geraldo Alckmin: Agora, é óbvio que recuperar dinheiro que possa ter sido desviado... mas é obrigação de qualquer governante, mas não tenho o menor espírito de revanche. Eu não tenho uma visão, Noblat, patrimonialista, tomar o poder para o seu partido, para o seus amigos, para os seus companheiros, para os derrotados da eleição, aparelhar o Estado, nada disso [sendo interrompido], para mim, política é serviço, é trabalhar para melhorar a vida da população.

Paulo Markun: Nós temos um curto tempinho, eu vou fazer duas perguntas. A primeira é se o senhor acha que existe uma coisa boa no governo Lula ou é tudo ruim?

Geraldo Alckmin: Claro que deve ter muita coisa boa.

Paulo Markun: O senhor não conhece?

Geraldo Alckmin: A coisas boas, nós vamos continuar e ampliar e as coisas que não forem boas vamos corrigir.

Paulo Markun: A segunda pergunta é a seguinte: O senhor passa imagem de uma pessoa absolutamente controlada, eu não sei se eu já fiz essa pergunta para o senhor, mas eu acho que vale refazer. O que é que tira o senhor do sério? Ou existe alguma coisa?

Geraldo Alckmin: Olha, eu sou anestesista de formação médica, você imagina, você num meio de uma cirurgia o paciente ter um choque anafilático e você perder a cabeça, você se desesperar, não pode, né? Então, eu diria o seguinte...

Paulo Markun: [interrompendo] Mas o anestesista faz duas, três, no máximo quatro cirurgias por dia, o dia tem 24 horas, quer dizer, tem coisa que não são ali na mesa de operação.

Geraldo Alckmin: É. Eu procuro ter um pouco de paciência, porque, às vezes, a gente briga muito na política, Markun, pelo acessório. Eu não brigo pelo acessório, eu brigo pelo principal. Às vezes eu até sofro alguma injustiça, não respondo, toco para frente, porque eu não estou tão preocupado com o acessório, eu estou preocupado com o principal. Entendo que, se eu conseguir chegar lá, conseguir chegar ao segundo turno, conseguir ganhar a eleição, eu tenho confiança de que nós podemos fazer mais em benefício do povo brasileiro.

Paulo Markun: Governador, muito obrigado pela sua entrevista, obrigado aos nossos entrevistadores, a você que está em casa e nós estaremos aqui, na próxima segunda-feira, com mais um Roda Viva, uma ótima semana e até segunda.

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