Memória Roda Viva

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Lobão

12/8/2002

Conhecido por sua rebeldia musical, Lobão fala da sua trajetória artística, das produções independentes e discute pirataria e a nova proposta de lei de numeração de CDs

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Paulo Markun: Boa noite. Ele já foi um dos personagens mais polêmicos e rebeldes do rock brasileiro, questionador. Ultimamente vem fazendo incursões mais políticas. Surgiu na linha de frente de um movimento de artistas defendendo a numeração dos CDs, além de outros controles, como forma de proteger melhor os direitos autorais no Brasil. O cantor e compositor Lobão, um dos responsáveis por essa campanha e pela polêmica que surgiu em torno da questão é o convidado desta noite do programa Roda Viva.

[Comentarista]: É só clicar para ouvir. É só clicar para ver. O lobo mau não está mais na floresta, está na internet -  www.lobao.com.br - é acessar o endereço e entrar no universo paralelo de Lobão. O menu cheio de alternativas oferece informações sobre tudo: os shows, músicos, contatos, fotos, vídeos, compra de CDs, a discografia de Lobão, a história de Lobão. Aos quarenta e cinco anos João Luís Woerdenbag, carioca da zona Sul que surgiu como baterista de banda de rock nos anos 1980 e depois virou guitarrista, cantor e compositor, já conta mais de vinte anos de atribulada carreira artística. Crítico e provocador, cumpriu o modelo de roqueiro rebelde, virou Lobão, criando desafetos e fama de mau. Um dia, ele que havia brigado com tanta gente, brigou também com o rock e passou a buscar na música popular brasileira mais referências para a sua produção musical. Vieram novas críticas, disseram que o novo Lobão misturou samba com rock e ficou careta, de qualquer forma ficou mais comportado, mas permaneceu crítico e provocador. Nos últimos anos, desentendeu-se com gravadoras por considerar cínica a campanha contra a pirataria. Tornou-se independente e passou a gravar os seus próprios CDs que são vendidos em bancas de jornal e pela internet a preço mais barato que os lançamentos vendidos em lojas. E são CDs numerados, como ele quer que aconteça com todos os CDs distribuídos pelas gravadoras. Junto com Beth Carvalho [Elizabeth Santos Leal de Carvalho; 1946; cantora e compositora], Lobão buscou apoio da classe artística e de políticos para a aprovação da lei que obriga a numeração de CDs e também de livros para proteger direitos autorais. O projeto foi aprovado na Câmara e no Senado, mas acabou vetado pelo presidente Fernando Henrique [Fernando Henrique Cardoso; 1931; sociólogo e ex-presidente do Brasil no período de 1995-2002] com apoio de um grupo de artistas, por conta de problemas no texto original e da polêmica entre os próprios músicos e as gravadoras. A polêmica ainda está no ar enquanto se aguarda a decisão do grupo especial anunciado pelo governo para rediscutir o projeto de lei e tentar contornar conflitos e conciliar interesses.

Paulo Markun: Bem, para entrevistar o cantor e compositor Lobão nós convidamos: Pedro Alexandre Sanches, repórter e crítico musical da Folha de S. Paulo; Antônio Carlos Miguel, crítico musical do Jornal O Globo; Paulo Lima, editor da revista Trip; Adriana Veri Silva, editora da revista e do site Primeira Leitura; Lázaro de Oliveira, jornalista do programa Metrópolis aqui da TV Cultura; e Eduardo Muszkat do conselho diretor da Associação Brasileira de Música Independente, presidente da gravadora MCD World Music e diretor superintendente da Brasil Music and Arts. O Roda Viva é transmitido em rede nacional para todos os estado brasileiros e também para Brasília. Boa noite, Lobão.

Lobão: Boa noite, Paulo.

Paulo Markun: Olha aqui, a gente tem uma informação - eu sei que você tem também ela - que hoje aconteceu, à tarde, pela primeira vez, a reunião desse grupo de trabalho que vai propor os atos necessários para numeração e identificação dos fonogramas e das obras literárias artísticas ou científicas. Eram vinte e sete pessoas presentes, contando os representantes do governo. E a informação que nós tivemos, que eu queria conferir com você, é que o resultado foi positivo, parece que até o dia 19 de agosto todos do grupo de trabalho receberão a minuta de um novo decreto. No dia 22 acontece a segunda reunião para discutir [de] ponta a ponta. Esse decreto terá vinte dias de consulta pública e o término do trabalho está marcado para o dia 12 de setembro com a aprovação por todos do documento, que será encaminhado ao presidente da República. Agora, você não era para estar lá?

Lobão: Eu não sei, eu não acredito, eu estou muito satisfeito de não estar lá a princípio. Primeiro porque a luta minha, o Frejat [Roberto Frejat; 1962; cantor, compositor e guitarrista. Integrante do Barão Vermelho]], Beth [Elizabeth Santos Leal de Carvalho; 1946; cantora e compositora], toda a nossa luta foi de uma representatividade e a coisa aconteceu muito, muito repentinamente. A deputada federal Tânia Soares [deputada pelo PCdoB], eu tinha entrado em contato com ela há um ano e meio, dois anos, na época das eleições ela assumiu a titularidade de deputada e ela tinha lido a revista Caros Amigos.

Paulo Markun: Isso, uma entrevista sua.

Lobão: Zeca Baleiro [José Ribamar Coelho Santos; 1966; cantor e compositor], Nehemias [Nehemias Gueiros Jr., advogado especializado em direito autoral, show business e internet, professor da Fundação Getúlio Vargas-RJ], foi uma entrevista muito importante que a gente deu naquela época, e falamos sobre tudo isso que aconteceu, e ela estava constituindo uma pauta, né?, e ela telefonou para mim e falou: “olha, eu queria fazer uma participação sobre a luta de vocês”. A gente queria, a gente até já tinha falado de político que não resolvia nada e aquela coisa toda e ela falou: “olha, nós cremos que a classe política está interessada sim, que a gente pode”. E eu meio cético, confesso a você que eu falei: “olha, entrou uma mulher aí como se fosse pedir um sanduíche para viagem, dá uma numeração para viagem”. É... Bom, o que aconteceu, para minha surpresa, um ano e meio depois, agora, cerca de dois meses, três meses atrás, antes da Copa né, um pouco antes, a Tânia me telefona dizendo: “olha, foi aprovado por unanimidade na Câmara”. E a partir dali eu me senti compelido a fazer alguma coisa para dar seguimento à coisa. Foi uma vitória histórica naquele momento e eu até tentei, naquele momento, me reunir com ela e saber o que a gente podia engendrar em relação aquilo. Bom, aí comecei, eu e Regina, a gente começou a procurar telefones de artistas, que a gente tem uma classe muito difusa, então conseguimos falar com fulano, beltrano. Primeiro nós falamos com a Tânia lá no Rio, encontrei com ela antes disso tudo umas duas vezes, foi em Aracajú que eu estava fazendo show lá, depois no Rio que eu já estava mais articulado e naquela ocasião eu já estava pensando na transição. Até o Senado a gente precisa de entrar publicamente, a gente estava pensando “vai ter Copa do Mundo", se era melhor esperar, mas com esse negócio de eleição a gente não tinha tempo né... Então, o que aconteceu? A gente falou: “bom, esta semana nós vamos ter que acelerar isso”. E eu consegui, por intermédio de amigos meus, o telefone do gabinete do ministro da Justiça e prontamente fui atendido. Eu telefonei: “olha, eu sou Lobão e quero dizer que eu preciso de uma audiência”. Consegui a audiência logo na semana seguinte, no que eu consegui a audiência eu falei: “bom, eu vou precisar de gente”, porque essa representatividade não é minha. Aí eu comecei a falar com gente, a gente começou a falar com vários artistas e aí veio a Beth, nossa querida Beth Carvalho, que foi a pessoa que de primeira hora entrou na coisa, falou: “olha, tenho, tenho, tenho, eu vou, eu vou pegar um vôo para Brasília quinta-feira que vem". Ela imediatamente entrou, a gente tentou muito falar com outros artistas, mas tem problema de agenda. Enfim, por essas e por outras entramos nós dois, e assim, tipo, não tinha outro tipo de coisa. Agora, é claro que a gente entrou, a gente deu muito a cara a tapa etc e tal, a gente se sente muito dentro do projeto, mas é um projeto mais de todos, de todo mundo que pratica, que é autor, né?, é de todos, isso é uma coisa para todo mundo. Então, quando eu verifiquei posteriormente que a coisa começou a ter forma, de uma maneira inclusive surpreendente, diga-se de passagem, certas conjecturas que “Lobão não representa classe, porque tem desafeto ou coisa parecida”, além de eu ter achado surpreendente, é praticamente, pragmaticamente eu pensei assim: bom, eu preciso sair de cena, porque o que importa é a coisa em si. Nessa o Frejat entrou na coisa definitivamente, assim como nós conseguimos a assinatura de mais de quinhentos artistas, autores, intelectuais e tudo mais. Houve várias orquestrações etc e tal, no sentido de me tirar da parada, o que para mim de uma certa... como eu falei para você, eu não tenho, eu não tenho essa queda toda para isso, não. Eu só, eu só me senti legitimado a fazer porque há mais de quinze anos que eu batalho nisso, desde que eu assinei os contratos eu faço, desde a primeira vez que as idéias não corresponderam aos fatos, quando eu comecei a tocar “Me chama”, foi uma música super executada e depois vou perguntar e: "vendeu vinte mil cópias, vinte e cinco". Eu falei: “mas espera como é que vocês fazem?”, “isso é a minha palavra contra a sua”, “ah tá”, então comecei a ver que era isso era um tabu incrível, você fala isso e sai tiroteio. E agora hoje em dia está configurado isso tudo, agora no segundo estágio da coisa, quando já, já tinha entrado o Frejat, nós estávamos com Nehemias, Beth Carvalho. A Beth mesmo sugeriu que o sindicato dos músicos seria uma boa representação e nisso já foi, houve uma, uma coisa não sei da onde que elegeram o Frejat e o Ivan, o que eu acho...

Paulo Markun: O Ivan Lins [Ivan Guimarães Lins; 1945; cantor e compositor]?

Lobão: O Ivan Lins e o Roberto Frejat. O Frejat, eu acho que ele, tipo, foi o Ivan, inclusive, que dizem que bateu um bolão. Valeu, Ivan. Achei isso ótimo. Falei com o Frejat agora por telefone, nós temos as notícias quentes da coisa e está dado o histórico, então, agora o que aconteceu que o Frejat agora... Nós todos agora estamos nos reunindo, isso também está dando uma experiência classista na nossa classe muito salutar, sabe? A gente está falando com as pessoas, as pessoas se falam, se comunicam, dão opinião, vão às reuniões, a gente está indo a reuniões sistemáticas da [...] com o sindicato dos músicos.

Paulo Markun: A impressão que você tem é que a numeração vai sair?

Lobão: Não tenha dúvida. Nós já tínhamos essa impressão, porque é um... nós estamos pleiteando isso, nós somos autores, não pode haver uma coisa assim: “vocês não apitam”. Afinal de contas aquela produção toda é nossa, nós somos, é nosso patrimônio que está lá, eles estão cuidando do nosso patrimônio, né? Não pode haver essa refração “Não” ou retaliações pessoais ou coisas... São muito feias [as coisas] que estão acontecendo e que são feias, constrangedoramente feias, para quem fica reputando dessa maneira e querendo despotencializar o discurso “mas isso é ingenuidade, tem que assinar do próprio punho” e coisas desse gênero, isso não acontece. A Receita Federal está de olho, é evidente que o que nós queremos dizer é que assim, essas coisas sobre suspeição etc e tal, é evidente que há suspeição; se você não tem uma instrumentação que possibilite incriminar nem inocentar e eles ficam recusando com vários tipos de prosopopéias e proselitismos retóricos a gente tem que entender o seguinte: a numeração não legitima, distingue o que é pirata do que não é pirata, afinal de contas, se você tem uma produção de milhões de unidades, né?, e essas unidades não são contabilizadas, você vai ter apenas... A única opção é você suspeitar, porque você não pode nunca nem essa coisa de auditoria, porque eles falam em auditoria. Primeiro que auditoria é um tabu, se você fizer uma auditoria você entra pro movimento dos sem volta, você não vai e volta para gravadora. E fora a auditoria, se você for a fundo numa auditoria você não vai encontrar nada a não ser a palavra física de um cara que vai dizer “foi isso” arbitrando, porque não tem como você saber quanto foi fabricado e quanto foi vendido.

Lázaro de Oliveira: Lobão, só deixa eu fazer uma pergunta que é o seguinte. Não corre o risco de vocês nadarem, nadarem e morrerem na praia?

Lobão: Não.

Lázaro de Oliveira:Tem uma experiência recente que é da Ancine [Agência Nacional do Cinema]. Todo cineasta desse país querendo substituir a Embrafilme. Fizeram, apostaram... E hoje é uma grande frustração na classe dos cineastas. Você não acha que isso possa acontecer com vocês? Presta atenção: dia 19 tem discussão ponto por ponto, dia 22 já tem a aprovação da minuta. Não é muito pouco tempo? Quer dizer, não pode haver aí uma frustração que pode prejudicar, não?

Lobão: Olha, esse risco sempre se corre, mas se a gente ficar pensando que a tradição prevalecerá, de que a bagunça está instaurada, a gente nunca vai modificar. Então, você não vai fazer absolutamente nada e vai ficar numa terra de ninguém. Eu acho que é sempre muito salutar você acreditar na palavra empenhada. Eu não sei, eu tenho um feeling, eu tenho um feeling, não somente hoje em dia, eu não somente tenho esse feeling não, mas há maiores evidências de que é bom para todo mundo, é bom para classe artística.

Lázaro de Oliveira: Você confia no pessoal que está representando vocês?

Lobão: Eu confio plenamente.

Antônio Carlos Miguel: Agora, Lobão, no primeiro momento a lei foi enviada ao Congresso e acabou sendo vetada pelo presidente. E nesse percurso houve, não só oposição da indústria do disco, ferrenha oposição, mas como também de alguns artistas da classe.

Lobão: É verdade.

Antônio Carlos Miguel: Então, vocês não acompanharam o projeto de lei que a deputada encaminhou?

Lobão: Não, foi uma bela pergunta Antônio Carlos, porque é o seguinte, é o que eu tinha falado no início. O projeto da deputada é excelente, está entendendo? O problema é que começaram a interpretar a lei, principalmente a parte da assinatura de próprio punho.

Adriana Veri Silva: Você pode explicar isso definitivamente, qual é a proposta?

Lobão: Ah, sim. Vou começar por explicar, é que seria obrigatória a assinatura presente do autor.

[ ]: Disco a disco.

Lobão: Assinatura presente do autor, o que é ótimo, você assina, o presidente do Banco Central assina a cédula? Não, a assinatura está presente, mas você... não está com o seu punho autografando. Então eu acho que a coisa é tão absurda de você chegar e pleitear, argumentar com isso que a ignorância, a ignorância é muito além da ignorância, sabe? Agora, eu acho...

Antônio Carlos Miguel: Você falou que o argumento dos que foram contra era que cada disco, um a um, teria que ser assinado, o que é uma loucura.

Lobão: Mas quem é que imagina...

Adriana Veri Silva: Por cada um dos músicos.

Antônio Carlos Miguel: Pela lei diria isso.

Lobão: O que eu acho... A lei não diz isso, a lei diz que tem que estar presente a sua assinatura, agora o fato de você interpretar...

Antônio Carlos Miguel: Certo, então...

Lobão: Que você vai dar autógrafo no seu...

Adriana Veri Silva: Manual...

Lobão: Isso é coisa de quem é maluco.

Antônio Carlos Miguel: Certo.

Lobão: Afinal de contas eu tentei falar isso o tempo todo, agora uma coisa grave que eu acho que nesse meio tempo - eu penso assim - quanto ao executivo ficar defendendo, dando uma de “João sem braço” na parada e começar querer lançar mão de qualquer tipo de argumento para defender o seu, tá... É uma classe que está defendendo seus interesses, sejam eles espúrios ou não. Agora, a classe musical, alguém falar que pode desconfiar sobre isso também, acho plausível. Agora, pessoas, principalmente que entraram em contato conosco sabendo que nós estávamos tentando um esboço classista, muito bem organizado, diga-se de passagem, muito bem embasado, ao contrário das prerrogativas, especulações em relação a isso, então, pessoas que assinaram, telefonaram, empenharam a sua palavra, no mínimo, se quisessem discordar, que viessem falar conosco primeiro dizendo: “Olha, rapaz, você está querendo fazer assinar, por que você está querendo que eu assine isso? Não, estou fora”. Alguns fizeram isso e eu respeito. Agora um cara que mesmo mal informado né?, fale: “olha aqui, você me fez...”. Aí você vai dizer: "olha, não é bem assim, não é nada disso”. Agora, pessoas que empenharam as suas palavras, artistas que empenharam a sua palavra em relação a isso e cometeram a bazófia - não é verdade? - de falarem uma coisa, dizerem outra, ou não, muito pelo contrário, escreverem carta para o presidente da República, darem uma de pessoas onipresentes, oniscientes e onipotentes em relação a nossa classe foi um desserviço. Foi uma coisa horrorosa, uma coisa que definha o passado, inclusive glorioso dessas pessoas em detrimento de uma mácula irreparável que isso vai perdurar em toda história.

Pedro Alexandre Sanches: Lobão, por que você acha que essas pessoas fizeram isso, mudaram de opinião?

Lobão: Olha, Pedro, eu não sei, eu não sei. Agora, eu acho o seguinte, eu teria, gostaria muito que todos esses artistas que estão metidos nessa... Há indícios de ameaça, há, eu estou sendo retalhado...

Adriana Veri Silva: Que ameaças? Que ameaças?

[...]: Como assim?

Lobão: Por exemplo, eu estou sendo ameaçado por uma coisa ridiculamente interessante. Eu lancei um disco, A vida é doce, inclusive morrendo de medo, eu dei até uma entrevista para o Pedro, que eu estava morrendo de medo, isso em 99, porque eu sabia que eu estava fundando, entre aspas, um movimento dos sem volta. Porque, assim, você vai querer reivindicar alguma coisa da gravadora, você tem uma retaliação, você tem ameaças e sempre foi assim, quando achei que a minha situação estava insustentável na gravadora diante de anos e anos de querelas, brigas e não chegar a um acordo., e a situação ao meu ver piorando no sentido de você ter a sua liberdade artística, principalmente, além, além dos direitos patrimoniais e tudo ser uma bagunça, uma bagunça e uma coisa horrorosa. Você não tem... hoje em dia, a gravadora, a indústria fonográfica, gente tentando te regurgitar, tentando regurgitar seus sucessos. Você vê pessoas que passam pela regularidade... “então regrava lá”, porque querem lucro fácil. Então, a partir daquilo junto com essa coisa da pirataria me indignou muito né? Então eu saí, quando saí com esse movimento dos sem volta eu pensei assim: eu vou ficar ameaçadíssimo e não sei o quê. Por isso que, poxa, agora que o presidente da Universal, Marcelo Castelo Branco, veio com uma história interessantíssima de que eu estaria devendo uma quantia por causa do Zeca Baleiro ter participado no meu disco. Zeca Baleiro que é meu amigo, que nós participamos de entrevista juntos, eu cedi, começou a história inclusive eu cedendo um fonograma para ser regravado "Nostalgia da modernidade" [música do CD de mesmo nome, gravado em 1995], ...que muito me envaideceu, e eu voltei convidando a ele, ele como artista, que tem o personalizadíssimo direito de ser o autor de si próprio, eu falei assim: “olha, eu estou com uma...”. Eu não sabia nem se eu ia conseguir lançar o disco na banca, então, eu tomei todas as cautelas possíveis e legais etc e tal para lançar o disco, né? e ter todos os problemas sanados. Então, eu perguntei a quem de direito era, que era o Zeca Baleiro, e o presidente diretor dono da gravadora dele - porque o Zeca Baleiro sempre tomou atitude de independência, ele tem uma gravadora independente - aí vem um cara outro dia, o nosso querido Marcelo Castelo Branco, atualmente Capitão Gancho, Capitão Gancho, sabe? Que agora ele pousou de Capitão Gancho na Marília Gabriela. Queria muito fazer o programa da Marília também para falar de algumas coisas sobre isso. Mas veio nosso querido Marcelo Castelo Branco [presidente da Universal] dizer que eu estou há 32 meses faltando, como se eu estivesse fugindo, ele simplesmente... Primeiro, pelo que me consta, a Universal é uma distribuidora da MZA [gravadora de Zeca Baleiro], não tem nada a declarar. Eu tive meu, meu, minha coisa com o Zeca Baleiro e com o Mazolla, que é o presidente da MZA e o dono, já tinham me anistiado disso, nós mandamos vários e-mails perguntando quanto do contrato, quando me aparece absurdamente... para vocês entenderem. Agora, na semana passada, depois de ausência total, eles me vêm com uma minuta, quer dizer, não tem contrato nenhum, dizendo que eles querem dezenove por cento, dezenove por cento pró-rata, quer dizer, da capa para o Zeca, né? Então, isso é um absurdo, porque isso nem, nem um dos maiores baluartes da música recebem isso.

Lázaro de Oliveira: Olha, mas independente disso, nunca a pressão das gravadoras... não vai, não vai pesar nessas condições em Brasília? Não estão colocando desse jeito?

Lobão: Não acredito, não acredito, eu sou um cara otimista, eu acredito que a humanidade está crescendo, o universo está em expansão e eu não sou daquela filosofia de Hegel [1790-1831, filósofo alemão. É autor da obra de referência em ciências sociais Fenomenologia do espírito] , da filosofia de surfarmos na merda, eu acho que a gente não pode se admitir “estou na merda e na merda eu vou surfar para poder me...”. Não acredito nisso, eu sou um cara super otimista, eu tenho uma trajetória, inclusive que me legitima dentro do que eu penso, se a tradição é de uma merda, da coisa da habilidade brasileira do “jeitinho”, isso não me comove, apesar dos fatos de ter Nelson Rodrigues, lutarei sempre para empreender coisas legais, porque eu acredito que está coberto de razão, eu acho que além de tudo isso é de interesse, não só dos artistas, como das próprias gravadoras que vão sair da peça desagradabilíssima...

Eduardo Muszkat: Pois é, mas da onde? 

Lobão: ...de piratas oficiais.

Eduardo Muszkat: Falando das gravadoras.

Lobão: É um pirata moral, não é verdade?

Eduardo Muszkat: Lobão, falando das gravadoras aqui.

Lobão: E por quê? Porque não numerado vai conseguir arrecadar mais.

Eduardo Muszkat: Você não imagina que talvez esses artistas que você está dizendo que falaram contra a lei, porque mudaram, viraram a casaca, podem ter lido mesmo a lei e dito: “olha, essa lei está mal escrita”.

Lobão: Pode.

Eduardo Muszkat: “Ela não pode ser implementada”. 

Lobão: Pode.

Eduardo Muszkat: “Ela não vai ajudar em nada, que é a grande questão”...

Lobão: Pode, mas não consegue entrar na justiça.

Eduardo Muszkat: “Não ajuda em nada.”

Lobão: Espera aí.

Eduardo Muszkat: Então, não é que eles viraram a casaca, não é?

Lobão: Viraram pelo seguinte: você pensa em termos de classe e está todo mundo reunido achando, vamos supor, que eu esteja errado, mas que todos quinhentos signatários estejam errados! Compromisso é compromisso, já te dizia a lei da própria malandragem, certo? Então, compromisso é compromisso, fulano assinou. Agora, quem se comprometeu achar que está errado?! Sabe o que mandávamos na nossa circular? Qualquer dúvida, qualquer idiossincrasia nos remetam as suas dúvidas.

[...]: Deixa eu dar...

Lobão: Para que possam... Deixa só eu terminar. Para que possam justamente você ser, ou vocês refazerem sua opinião, como de repente, vocês fazerem uma ruptura, e aí sim, aí sim teria legitimidade moral de poder reclamar.

Eduardo Muszkat: Mas enquanto isso aprova-se uma lei que no seu texto é absurda, e engessa tudo e...

Lobão: Não é absurdo, tanto é que nós vamos numerar Eduardo, não é absurda.

Eduardo Muszkat: Não é a numeração, não sou contra a numeração, mas a lei que já estava escrita era absurda.

Lobão: Mas a lei... O que eu quero dizer que é inteligente no projeto da lei da Tânia, porque é uma lei sucinta que pressupõe-se que uma vez sancionada aconteceria a mesma coisa que está acontecendo agora, ou seja, no meio daquele negócio todo, nós recebemos zilhões de telefonemas e contatos com indústrias especializadas em numeração e nós evoluímos 300% nisso, quer dizer, não só numeração como em colografia, código e tudo mais.

Eduardo Muszkat: Mas então, valeu a pena esses artistas terem levantado a voz contra?

Lobão: Não.

Eduardo Muszkat: E a lei agora permite que ela seja melhorada e não aprovada, o que você está falando é o correto?

Lobão: Não, não senhor, porque o barulho desses artistas arruína, arruinaria o projeto, porque uma das propostas de um desses artistas era colocar novamente para o Congresso. E se fosse, Eduardo, nós iríamos para o espaço, está entendendo? Então, isso foi uma leviandade, isso tem que deixar bem claro, leviandade seríssima.

Eduardo Muszkat: E não vai voltar para o Congresso agora? A comissão não volta para o Congresso?

Lobão: Claro que não, para a comissão não, a comissão vai demorar.

Adriana Veri Silva: Da Comissão vai à sanção presidencial.

Lobão: Exatamente.

[...]: Não, é um decreto, vai ser levado à decreto.

Lobão: No decreto a Comissão ela vai simplesmente, o que vai realmente acontecer, não vai haver se vai numerar ou não vai numerar, vai se numerar, o que se discute nessa... Isso é que é o trunfo nosso e o que vai se discutir é o que nós pleiteamos desde o início, era como se numerar, porque ninguém detém uma coisa [...], [...] pioneira no mundo. Então o que é absurdo é pleitear uma numeração, como a minha numeração nos meus discos, todos sabem que eu sempre falei, ela é inócua no sentido técnico, porque ela só é política no sentido de que ela, ela faz uma pressão fundamental em dizer que a numeração é barata, custa um centavo e é célere na logística. Então o que nos faltava justamente eram métodos factíveis, exeqüíveis, de poder colocar a numeração como uma questão de proficiência dentro do mercado e isso nós conseguimos. Portanto, respondendo a sua pergunta, foi a maior cagada essa coisa que os artistas fizeram.

Lázaro de Oliveira: Lobão, por que você disse que é a favor da pirataria paraguaia?

Lobão: Eu não falei isso, eu falei, eu dei a seguinte declaração em um programa de televisão que me valeu a rescisão com a Universal, inclusive, por telegrama. Me disseram assim: “a pirataria...”, lançaram um anúncio em 1998 da DPZ fazendo uma coisa ridícula: “que eu não ouço, não vou matar a cultura brasileira, com paladinos de alguma coisa”. E aí que eu falo que é ausência de moral, e o que aconteceu? Eu estava no ShopTime, um programa simpaticíssimo de venda, a gente estava lá fazendo meu disco, dando jabá do Noite, fazendo meu disco, tocando na gestão da Universal, disco Noite [gravado por Lobão em 1998], excelente disco, diga-se de passagem, aí o negócio foi o seguinte, o cara... E tava naquela coisa toda, o clamor da pirataria e eu fui um dos responsáveis, ainda me orgulho disso, de ter esvaziado com aquela propaganda, aí eu fui o primeiro artista que falou... Aí o cara falou: “E aí Lobão, o seu disco aqui não é pirata. O que você acha sobre pirataria?” O Rodolfo Bottino, foi o Bottino, filho do Bottino, aí eu falei assim: “rapaz, entre a pirataria oficial e a pirataria paraguaia eu acho mais romântica a paraguaia”. O que eu quis dizer com isso? Com que direito eu estou, estou há muito tempo no [na indústria do] disco, então, eu vejo tantas pessoas serem vitimadas, como que uma indústria fonográfica - e nós conhecemos a fundo - pois já que está, tem alguma moral, alguma moral de ficar dando tacape em camelô! Se nós sabemos que o preço é "escorchante" do disco, a política de preço, então... A indústria fonográfica parece um campeonato, parece o Ricardo Teixeira [Ricardo Terra Teixeira, presidente da Confederação Brasileira de Futebol], parece o Caixa D’Água [Eduardo Viana (1939-2006), dirigente de futebol], era uma coisa assim. Porém, como grande um campeonato de futebol, riquíssimo, nós temos público, somos pentacampeões, no entanto, é uma porcaria e a mesma coisa é com as gravadoras. Agora, quando eu falei isso, é assim, exatamente disse a eles a numeração, se não numera... o que é pior, se você for analisar o peso ético nas coisas, ainda são multinacionais que são hospedadas no Brasil que podem desviar... Suspeitamos, podemos suspeitar, milhões, sei lá, pontos de receitas que pode replicar.

Pedro Alexandre Sanches: Suspeitamos ou temos provas?

Lobão: Não temos. Exatamente isso que nós falamos antes, não tem...

Pedro Alexandre Sanches: Você tem, que é uma coisa que você falava daquele projeto de lei que afirmava que a maioria das empresas eram do mal.

Lobão: Suspeitas disso, na verdade.

Pedro Alexandre Sanches: E ninguém apresentou provas até agora e nem vocês, existem provas?

Lobão: Mas quanto às indústrias, falam principalmente dos escândalos de credibilidade que tem nos Estados Unidos, no mundo todo. Tem um monte de executivo sendo algemando por aí, todo mundo sabe que a falcatrua impera e que o projeto neoliberal mesmo de capitalismo selvagem é uma coisa que impele a falcatrua. Isso é uma coisa que está absolutamente comprovada, ninguém está querendo colocar aqui que a indústria fonográfica é mais ou menos bandida do que qualquer modelo aqui.

Pedro Alexandre Sanches: Você já foi roubado?

Lobão: Suspeito, evidentemente suspeito, você acha que...

Pedro Alexandre Sanches: Conta isso, conta a história.

Lobão: Eu só posso suspeitar Pedro, eu acho assim, eu acho que qualquer artista em qualquer situação, se você não verificar um contrato... é de causar náuseas, qualquer contrato. Primeiro é contrato-padrão, você olha, como você tem um contrato-padrão se o contrato é uma negociação? Como é que você pode ter um padrão de contrato? Para começar daí, fora se for entrar em detalhes sobre isso, eu quero dizer o seguinte: as leis de direito autoral do Brasil, as leis de apropriação de uso de telefonograma, Karaokê... Outro dia eu estava, agora, eu estava no hotel agora, nosso querido Eldorado [Eldorado Boulevard Hotel, na capital paulista], tenho um amigo, um amigo, um garoto popular que falou assim para mim: “Porra, eu estava agora fazendo um karaokê de 'Me chama'[uma das canções mais famosas de Lobão]” eu sou um dos caras que mais fabricam karaokê e você acha que tem alguém que toma conta? Milhões e milhões de karaokê só prá escolher um ponto assim, você lá no karaokê né?, como que você vai receber? Já recebeu alguma coisa sobre videokê e karaokê?”

Antônio Carlos Miguel: Lobão, no disco da banca, o primeiro, você carimbou um preço, além de numerar: R$ 14,90.

Lobão: R$ 14,90

Antônio Carlos Miguel: E você vendeu quanto desse disco?

Lobão: Nós prensamos cinqüenta mil na primeira tiragem e cinqüenta mil na segunda tiragem, nós vendemos aproximadamente cem mil cópias, noventa e sete mil.

Antônio Carlos Miguel: E o disco de grande gravadora que você mais vendeu chegou a quanto?

Lobão: Foi o Vida bandida [CD gravado por Lobão em 1987], foi trezentos e cinqüenta mil com o auxilio da prisão [Na época, Lobão foi preso por porte de drogas]. Inclusive foi uma coisa que eu não tinha muita noção, quando saí da...

Antônio Carlos Miguel: Lobão, no total você têm recebido mais pelo a Vida é doce [CD independente gravado por Lobão em 1999. Foi vendido nas bancas, por R$ 14,99, com cópias numeradas]?

Lobão: Muito mais, proporcionalmente muito mais.

Antônio Carlos Miguel: Alta produção com preço mais barato, você recebeu mais?

Lobão: Meu slogan sempre foi esse: “quer acabar com a pirataria? Abaixem o preço.” Porque vocês hão de convir o seguinte: que o preço do CD atualmente é como aquele negócio do microondas. Lança um produto, você hoje em dia tem produção, você pode produzir seus discos, você pode prensar seus discos. Antigamente as gravadoras tinham um monopólio de toda a manufatura do produto, hoje em dia nada praticamente, nada, passa por tudo terceirizado. Então, você pode diminuir o preço do CD, inclusive. O CD em relação ao vinil é um preço muito mais barato.

Adriana Veri Silva: Mas baixar o preço é uma decisão simplesmente política das gravadoras? Dá uma receita. O que faz para baixar os preços das grandes gravadoras, o que nós devemos fazer?

Lobão: Diminuir o lucro. Tem que diminuir lucro do produto, que...

Adriana Veri Silva: Simplesmente a decisão é política?

Lobão: Evidentemente já não tem, na lei da oferta e da procura, já não tem mais, as pessoas conseguem por três reais, você não vai diminuir o preço para três reais que não dá, mas por oito, seis, nove e noventa, onze, por aí, tem que diminuir o preço, porque senão...Tem uma coisa que, por exemplo, eu soube que as gravadoras grandes, a Som Livre, a Abril e a Universal, estão, estão fazendo um negócio de CD legal para Criança Esperança, para atrair simpatia. Olha, quer atrair a simpatia do consumidor, abaixa o preço, abaixa o preço, porque é possível. O que eu estou tentando fazer é mostrar que sem lucro fácil com disco de qualidade feito no maior capricho, bacaninha, o disco ele pode se... Inclusive, a própria numeração, dizem que dobra o preço do...

Adriana Veri Silva: É um argumento bom.

Lobão: Isso é mentira, então, o que eu acho é o seguinte, dá para fazer lucro, dá para fazer lucro, dá para ser legal, agora e o jabá, né? É aquela coisa.

Adriana Veri Silva: Agora, a numeração aumenta o preço em quanto? Você tem esse cálculo?

Lobão: Um centavo, dois, no máximo três centavos.

Paulo Markun: Duas perguntas aqui de telespectadores, Lobão, é de Jamerson de Lima, que tem 23 anos e é de Camaragibe, em Pernambuco, que diz o seguinte: As gravadoras negam, veementemente, os donos das rádios também dizem que isso também não existe, mas na prática todo mundo sabe, segundo ele, que o jabá existe e promove artistas ao estrelato. Será que já não está na hora de promover uma campanha nacional para denunciar e erradicar o jabá? Um dos maiores problemas da indústria fonográfica brasileira, senão, como explicar o caso do Lobão, que é bom, que tem uma legião de fãs pelo país, vendeu milhares de CDs nas bancas, mas que não toca nas rádios? E Vagner, da Vila Assis, diz o seguinte, é um bairro aqui de São Paulo [refere-se à Vila Assis]: Lobão, gosto muito da sua atitude, sou da Vila Assis de São Paulo e gostaria de lhe perguntar o que você acha das tais rádios rock que continuam tocando os mesmos hits das décadas passadas, será que o jabá é eterno?

Lobão: Olha, eu quero, primeiro de tudo, antes de responder, eu quero mandar um abraço para a rapaziada, porque eu tenho recebido muito, muito apoio de todo mundo, sabe? Todos os lugares que eu estou indo e viajando e tocando show, e-mails, mandar um abração para a rapaziada. Esse negócio do jabá... Olha só, há várias maneiras de se pensar sobre jabá.

Paulo Markun: Vamos só explicar o que é jabá, porque tem gente que não sabe o que é.

Lobão: Jabá é uma propina, uma corrupção, uma corrupção do espaço público, ou seja, a pessoa leiloa o que você pode imaginar pelo hit parade, as músicas mais tocadas na rádio, isso tudo é comprado, né? Suspeita-se, mas isso é comprado e todo mundo sabe. E nos Estados Unidos já tem uma lei de criminalização do jabá. Inclusive, eu acho que vamos pleitear essa lei o mais rápido possível. Agora, o que a numeração tem a ver com o jabá? Se as nossas suspeitas forem procedentes, por exemplo, nós sabemos que as gravadoras são muito organizadas no seguinte ponto: se você vai num cafezinho e você está indo a trabalho, há divulgação, você vai, toma um cafezinho na outra, você, tudo é computado, você sabe da onde vem todo o dinheiro de verba para todas as suas atividades, né? Tudo, tudo é extremamente computado, menos a sua execução sobre o jabá, o jabá ninguém sabe da onde vem. Então, nossas suspeitas recaem sobre desconto de ICMS [Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços], você sabe que as gravadoras têm 70% de desconto de ICMS?

Eduardo Muszkat: 65 agora.

Lobão: Ah, que maravilha!

Eduardo Muszkat: Está caindo até a zero daqui a dois anos.

Lobão: Maravilha, né? porque...

Eduardo Muszkat: E o disco vai ficar 20% mais caro.

Lobão: Não, acho que o ICMS é uma questão de possessão. Você não sabe para onde vai esse dinheiro. O que basicamente seria para ajudar artistas nobres, certo? Então, eu acho que esse dinheiro ele é bem-vindo para todos nós, o desconto, se uma vez ele é bem aplicado, agora, se há suspeita, se ninguém olha a parte de uma gravadora, se não leva um monte como pré-falimentares... estão todas pra fechar, contudo, a gravadora tem um monte de carro importado.

Eduardo Muszkat: Se elas estão pré-falimentares e, no entanto, você disse há pouco tempo atrás que o lucro é absurdo, onde é que está a ousadia?

Lobão: Esse lucro é absurdo, eu não sei para onde vai, inclusive, talvez pela própria corrupção que possa haver, porque ter jabá, tem um, essa coisa do jabá amigo, agora está rolando até um escarcéu do próprio jabá.

Antônio Carlos Miguel: Na época que você era artista de ponta, Lobão, nos anos 1980, com Vida bandida, você vendia 350 mil, quer dizer, algum caso de jabá que você tenha participado, o artista acompanha isto?

Lobão: Não, imagina.

Antônio Carlos Miguel: Isso é feito nos gabinetes lá?

Lobão: Não. Mesmo porque, Antônio Carlos, as minhas músicas, todas se você for desde "Me chama", eu me lembro assim é...  eu mostrando a primeira vez o "Me chama", já tinha sido gravado pela Marina [Marina Correia Lima,  cantora e compositora], inclusive eu toquei bateria com ela, ela estava no primeiro lugar nas paradas, eu pensei que, eu sou um cara que eu acho que eu devia gravar a versão definitiva de "Me chama", que ia ser eu. Porque eu acho que eu tinha precariedade e terror necessário para gravar aquela coisa dramática do "Me chama" e foi o que aconteceu, gravei e eu falei para a gravadora: olha, é aqui essa música de trabalho do Ronaldo foi pra guerra [CD gravado por Lobão em 1984]... Bom, para encurtar a história o cara falou: “jamais vai tocar no rádio”. Então, em seguida, Vida bandida: “jamais ia tocar no rádio”. "Revanche": "jamais". "Decadência", "jamais". Então eles sempre investiram, se é que investiram, sempre em músicas obscuras como "Os tipos que eu não fui", que nem eu mesmo fui, que nem eu mesmo me lembro...

Pedro Alexandre Sanches: Mas essas músicas tocaram.

Adriana Veri Silva: Você não foi, por quê?

Pedro Alexandre Sanches: Por que alguém pagou para rádio?

Lobão: Nos anos 1980, Pedro, havia jabá pra chuchu, eu lembro da época do Big Boy [pseudônimo de Newton Alvarenga Duarte (1943-1977), importante disc jockey e locutor de sua época], nós já sabíamos, o fato é que...

Paulo Markun: Tem uma história que você citou numa entrevista, você e quem? Nelsinho Mota [Nelson Cândido Motta Filho, jornalista, compositor, escritor, roteirista, produtor musical e letrista], é isso? Não, você e Lulu Santos [Luiz Maurício Pragana dos Santos, cantor e compositor]?

Lobão: É isso, que eu acredito em Papai Noel, Big Boy nosso ídolo, tinha coisa para tocar desde aquela época, o jabá, é para se tocar. Agora, por exemplo, "Me chama", eu soube foi uma execução espontânea porque ninguém queria a música, ninguém acreditava, o cara falava assim: “uma música romântica”. O assunto direto da minha..., “tem que se tocar sussurrando no ouvido da namorada, você esganiçado, você não pode, isso não vai acontecer nada, eu rasgo o meu diploma de diretor artístico”... Pô, foi a música mais executada da década, mas tinha uma coisa, Paulo, naquela época existia uma coisa chamada execução espontânea, sim. Você há de convir, por exemplo, que o Vida bandida não precisava de jabá. Eu estava preso, estava em todas os noticiários criminais, em páginas e páginas da criminalidade, eu era o Belo [Marcelo Pires Vieira, cantor. Foi preso por tráfico de drogas e associação para o tráfico] daquela época. Então, só que eu tinha vontade de ser “bad boy”, então, não tinha esse choque térmico da moral, as pessoas gostavam mesmo. From hell e o caramba a quatro. Então, a hora que eu comecei a verificar que só podia tocar com o jabá foi que eu percebi... Posso estar errado, [mas] foi depois de 1988 quando, aquela do ano, a mais do Sarney [refere-se à música "O eleito", do disco Cuidado, de 1988. A música era um questionamento ao presidente eleito por voto indireto]... Sabe o que isso tem a ver com as coisas? Porque os caras, para votarem no Congresso Nacional a permanência por mais um ano de nosso querido Sarney...

Adriana Veri Silva: Cinco anos.

Lobão: Distribuíram...

Adriana Veri Silva: Quatro ou cinco anos.

Lobão: ...Zilhões, quatrocentos, quinhentas concessões públicas de rádio, aí foram várias cadeias, está entendendo? E ali o jabá se engessou, porque aí as pessoas com... para pagar você tocando pelo menos cinco, seis capitais ou, ou, ou... Várias rádios viraram cadeia de rede de rádio.  

Antônio Carlos Miguel: Vou mudar um pouco de assunto, você falou que você era o Belo do momento, da época, então tem diversos...

Lobão: Tadinho do Belo, diga-se de passagem.

Antônio Carlos Miguel: Exemplos na tua obra: "Vida bandida", "Bangu 1..." ["Bangu 1 X Polícia 0", música do disco O inferno é fogo, de 1991]...

Lobão: "... Polícia 0".

Antônio Carlos Miguel: Polícia 0. Hoje o placar deve estar um pouco mais...

Lobão: Mais avançado, em dez vezes.

Antônio Carlos Miguel: Então, há uma mudança, há um momento em que esse, como você mesmo se auto intitulava, doidão de plantão, vira esse artista mais politizado, preocupado com os... Há um momento em que há uma certa troca?

Lobão: Eu estava vendo isso na apresentação do programa, mas isso não procede.

Antônio Carlos Miguel: Ou você convive aí com o doidão de plantão e com o político atual?

Lobão: Eu, quando falo de doidão de plantão, Antônio Carlos, eu estou caricaturando o próprio estigma que faziam de mim.

Antônio Carlos Miguel: Certo.

Lobão: Eu sempre me achei um cara, dentro de todas as minhas fases, eu sou muito, pô, eu sempre estive fazendo campanhas de políticos que eu, que eu, eu sempre estive agitando em campanha de políticos que eu acredito, eu sempre tive músicas como "Revanche", como "Sob o sol de Parador", músicas dentro do meu repertório que sempre... "Vida bandida" para mim é uma atitude política, a minha, a minha luta inclusive contra as... em relação ao ponto de vista político das drogas sempre foi uma luta política, nunca foi uma luta pessoal. Eu acho que não, eu sempre fui uma pessoa articulada pra caramba.

Eduardo Muszkat: Lobão, você é um exemplo, você é um ídolo, tem um secto de seguidores. Eu estive lá em Fortaleza com você aquele dia em que ousei levantar a voz contra você e quase me lincharam.

Lobão: Mas você não falou coisas muito interessantes, Eduardo, poxa.

Eduardo Muszkat: Então tá, mas a coisa é a seguinte: você como exemplo na hora que você fala da pirataria, como assim: "eu prefiro a pirataria paraguaia"?

Lobão: Eu não falei que eu prefiro.

Eduardo Muszkat: Não, assim...

Lobão: Falei que eu acho mais romântico.

Eduardo Muszkat: Exatamente, na hora que você dá um romantismo, assim, a essa questão da pirataria, não fica uma coisa assim de que comprar disco pirata é romântico, é legal comprar disco pirata?

Lobão: Não.

Eduardo Muszkat: E, portanto, é...

Lobão: Fala isso pro Hermeto Pascoal [Hermeto Pascoal, compositor e multi-instrumentista], você fala pro Ed Motta [Eduardo Motta, cantor e compositor], todas essas pessoas, vários artistas, comprem disco pirata.

Eduardo Muszkat: Mas não está na hora de falar contra?

Lobão: Não.

Eduardo Muszkat: Quer dizer, comprar um disco pirata é que nem comprar um celular roubado?

Lobão: Não, olha só...

Eduardo Muszkat: Se custa muito caro, não comprem.

Lobão: Não, você pensa bem, eu além de... eu sou autor, então, eu também estou perdendo dinheiro com venda. Mas para você ver a discrepância, eu não sou...  

Eduardo Muszkat: Pois é, você está dando exemplo para essa molecada toda estar comprando disco pirata na rua achando que é legal. "O Lobão disse que é para comprar disco pirata".

Lobão: Mas eu acho que é sim, Eduardo, na medida em que, se nada for feito... por exemplo, você entra dentro de uma gravadora e o jargão é assim: “olha, você vai ganhar dinheiro com show”.

Eduardo Muszkat: Não, vamos brigar com quem está roubando legalmente.

Lobão: Mas eu não falei...

Eduardo Muszkat: Mas então?

Lobão: Eu não falei compre disco pirata. Eu fui alertar, olha só, eticamente, entre a pirataria oficial e a pirataria paraguaia... mas primeiro nós temos que saber que o núcleo oficial é uma grandessíssima sacanagem, primeiro.

[...]: Você diria isso se você...

Lobão: Depois, depois a gente vê a pirataria, porque é outra coisa, eu vou te dizer.

Eduardo Muszkat: Então vamos roubar tudo, não é?

Lobão: Não senhor, eu estou falando aquilo.

Eduardo Muszkat: Não.

Lobão: Eu estou falando sobre a merda, não é isso não. Eu acho o seguinte, nós temos que sim desarticular essa bagunça que está instaurada, porque outra coisa que eu queria dizer de uma forma, com sintonia...

Eduardo Muszkat: Vamos fazer as duas coisas.

Lobão: Mas a pirataria é um sintoma, a doença também está na indústria. Eu acho o seguinte, a mesma coisa que eu falei, diminuir o preço é uma medida que, se você quer comprar, porra, você acha que é o seguinte...

Eduardo Muszkat: Isso. Não comprem o pirata nem o oficial que está muito caro. Aí vão ter que abaixar o preço.

Lobão: É muito revoltante, é muito mais eloqüente, pô. Eu ganhei o prêmio de personalidade do ano justamente porque repercutiu uma coisa muito mais importante do que essa declaração que você está me falando, que foi um cara como eu sair de uma gravadora e, ao invés de ficar jogando pedras, disse: “compre disco pirata”. Isso, em momento nenhum eu falei, eu falei isso: “querem acabar com a pirataria? Numerem o disco e abaixem o preço". E foi o que eu fiz.

Eduardo Muszkat: Mas será? Não tem efeito, disco pirata todo mundo sabe qual é, número, não é número...

Lobão: Mas não é isso, eu estou dizendo que numerar, eu falei isso desde o início, numerar legitima ética e moralmente o sujeito que está indo contra [a pirataria]. Como é que eu posso ir contra a pirataria de um camelô, uma faxineira, quando multinacionais instauradas no Brasil, hospedadas, pagam impostos e que agem dessa maneira?

Eduardo Muszkat: É não confundir as duas coisas, entendeu?

Lobão: Não, mas quem está confundindo são eles, não eu.

Paulo Lima: Deixa eu justificar o meu cachê aqui. Vamos virar um pouquinho, a gente está falando muito de... vamos falar um pouquinho de festa.

Lobão: Isso.

Paulo Lima: Teve festa do Caetano [Caetano Veloso, cantor e compositor] esses dias, ele fez sessenta anos, então vocês tiveram aquela discussão, aquele debate na mídia e depois fizeram as pazes.

Lobão: Fizemos as pazes na Trip [revista editada por Paulo Lima], na segunda entrevista.

Paulo Lima: É, tipo, fui padrinho dessa...

Lobão: Testemunha.

Paulo Lima: Desse caso de amor aí, e agora ele apoiou essa história, essa reivindicação. E depois desapoiou, parece que disse de que não entendeu bem e que não era bem aquilo e que não concordava com o ataque às gravadoras etc. E retirou o apoio. Como é que você está hoje com o Caetano?

Lobão: Pô, Paulinho, eu falei. É a mesma coisa que eu falei, é uma atitude execrável, entendeu? Como é que eu estou com Caetano? Aquela entrevista na Trip foi excelente, agora, diga-se de passagem que, fazer as pazes ou não fazer as pazes, primeiro que a gente não tinha brigado, a gente continua com as mesmas diferenças e irreconciliáveis pontos de vista morais, éticos, estéticos e o caralho a quatro, entendeu? Eu sempre admirei o Caetano, sempre admirei, sempre falei: "Caetano, num dos seus piores momentos eu lhe defenderei com unhas e dentes” e é uma coisa... Agora nesse ponto ele errou, mais uma vez ele está, está infelizmente nos...

[...]: Porque que você acha?

Lobão: Nos seus sessenta anos com uma história que eu acho admirável, ele fazer essa violenta cagada com ele próprio, porque é constrangedor o que ele fez. Eu só rebati na Folha o que ele escreveu, para mim ficaria até cômodo dizer... Eu acho que ele deveria falar comigo, ele deveria telefonar para mim, eu serei um amor de pessoa como sou, sabe? Vou entender a hora que ele telefonar para mim. Ele e o Gil [Gilberto Passos Gil Moreira, cantor, compositor e político], basicamente. Os outros, quando falo outros falo do Lulu, falo da Rita [Rita Lee Jones, cantora e compositora]. Eles não falaram ou se recusaram a falar comigo, pelo menos tomando atitude [...] em relação à minha pessoa, eu respeito, agora quem falou...

Pedro Alexandre Sanches: Porque que... É normal que as gravadoras odeiem o que você fala, mas porque que a Rita Lee, o Caetano Veloso, o Gilberto Gil, Lulu Santos passam a te criticar e a dizer que não apóiam o projeto porque é o Lobão que está tocando, o que é que, o que acontece entre vocês?

Lobão: Olha, antes de dizer o porquê, vamos atentar para uma outra coisa: você não acha que é uma infantilidade, uma situação de pré-infância uma pessoa num momento de classe, mesmo quando você está brincando, “o Lobão é chato, feio, burro”, no momento como esse, pô, você acha que eu, pessoalmente, por mais...Eu sou um grande atirador, sou uma metralhadora giratória, porra, falo de Deus e o mundo. Agora, eu sou um cara que tem honestidade e telefona para fulano, beltrano, independente do que eu acho, porque é uma classe que tem que ser unida e as pessoas têm que entender que uma classe unida não significa que você vai tomar um cafezinho ou fazer uma parceria com a pessoa. Eu não coaduno com a maioria de destinos que existem por aí e não é por isso que eu não vou respeitar as pessoas como classe, como trabalho, tá? Agora, entrar no setor pessoal, as pessoas têm todo direito de me odiarem, coisa que eu duvido muito, porque eu sou um amor de pessoa.

[todos falam ao mesmo tempo]

Lobão: Confronto pessoal, isso condiria a esse tipo de sensação, mas tudo bem, agora colocar isso aqui... Isso é uma coisa ridícula.

Pedro Alexandre Sanches: Colocar uma posição deles, do Caetano e do Gil vem sendo a mesma dos patrões dos donos das gravadoras, têm raiva de você.

Lobão: Aí você está entrando num terreno muito mais adequado para... Eu acho que é muito mais uma tomada de lado do que eu ser propriamente chato, feio, burro e o que eu posso ser...

Adriana Veri Silva: Mas depois dessa polêmica toda vai dar pra conseguir consenso para que a classe...?

Lobão: Claro.  

Adriana Veri Silva: Porque você está otimista e disse que vai...

Lobão: A classe, o negócio é o seguinte, a classe, Adriana, é o seguinte, a nossa classe está firmemente fechada, porque parece que ameniza, não, por meia dúzia de três ou quatro, inclusive muito localizada, olha só: Sandy & Junior [Sandy Leah Lima, cantora; e Durval Lima Junior, cantor], Chitãozinho e Xororó [José Lima Sobrinho e Durval de Lima, cantores e compositores], Caetano Veloso, Lulu Santos é uma turma muito localizada. Nós temos quinhentas assinaturas, você quer ver? Chico Buarque [Francisco Buarque de Holanda Ferreira, cantor, compositor, escritor e dramaturgo], Oscar Niemeyer [Oscar Ribeiro de Almeida de Niemeyer Soares, arquiteto], Zeca Pagodinho [Jessé Gomes da Silva Filho, cantor e compositor], Zeca Baleiro, Beth Carvalho, Almir Guineto [Almir de Souza Serra, sambista e compositor brasileiro], Marisa Monte [Marisa de Azevedo Monte, cantora e compositora], Rappa, Sepultura, Jota Quest, Ira etc etc etc. Então, nós temos quinhentas pessoas muito mais fundamentadas, inclusive numericamente.

Adriana Veri Silva: Você está ganhando no número?

Lobão: Não é nem no número, é muito mais que número, na qualidade mesmo dessas pessoas, né? Você tem a mesma qualidade do que algumas outras ali e com muito mais intensidade, com muito mais legitimidade.

Paulo Lima: Bom, falando em numeração, como é que está sendo os quarenta e cinco anos? Como é que é?

Lobão: Quarenta e quatro, eu ainda não fiz quarenta e cinco.

Paulo Lima: Pois é. Como é que é isso aí? O que tem de bom e de ruim nos quarenta e quatro anos?

Lobão: Olha, cara, eu sinceramente, eu acho que eu estou numa fase esplendorosa da minha vida e eu só posso te dizer isso. É... Ainda não senti peso de algum tipo de idade, eu não sinto isso, eu me sinto um aprendiz, tá? Eu me sinto um cara que, eu sou um cara que está sempre pensando o que eu vou aprender na próxima, no próximo dia e talvez isso me traga alguma jovialidade, porque eu não sou dono de verdade nenhuma, entendeu? Então eu sou uma pessoa que está aprendendo o tempo todo: “agora eu vou aprender um instrumento novo, agora eu vou ler uma anotação nova, e eu estou sempre procurando”. Então esse eu acho que é o diapasão da minha vida, o que me sustenta.

Lázaro de Oliveira: Lobão, nessa crise que a indústria fonográfica está passando existem algumas discussões, uma a gente chegou a ter: que elas não descobrem os valores localizados. Nós vimos lá em Fortaleza um bando de gente, você disse que tem artistas também, músicos, em Porto Alegre. A minha discussão está colocada no seguinte: se você tem essas produções locais, não competiria no futuro, por exemplo, que as gravadoras, as grandes gravadoras fossem distribuidoras desses produtos do que produzir disco já que elas têm uma dimensão tão...

Lobão: Lógico, está terceirizando tanto, né? Lázaro... Isso foi uma coisa que ficou, inclusive, é correlata, que é uma estatística que estávamos conversando anteriormente. Nós sabemos agora, através de um relatório da Zona Franca de Manaus, que já 45% da produção de disco do Brasil já é independente. Então você pensa também que é a ordem natural das coisas, até esse achatamento, mp3 e banca, vamos dizer assim, com os camelôs aqui, o que acontece? Esse processo já de terceirização das gravadoras, porque é uma coisa irreversível também, né? Você vê, uma das coisas que... eu saí das gravadoras é assim, vou citar um exemplo assim: o departamento, depois dizem que eu sou um cara mercadológico, é claro que eu sou cara marketeiro de primeira vista, todo artista devia ser, senão você entra na parte de marketing numa gravadora, geralmente o departamento de marketing da gravadora, vamos supor, tem o Alexandre Pires [cantor romântico] e tem o Sepultura [banda de trash metal] , eles colocam nos mesmos programas, você está entendendo? É burro, é uma coisa burra. Então eles têm toda, eles estão cara a cara com o gol e sempre estão perdendo.

Eduardo Muszkat: Ô Lobão, você está falando sempre como artista, eu queria chamar agora o Lobão que é dono de uma gravadora. Em 1999, quando você entrou no mercado independente...

Lobão: Industrial.

Eduardo Muszkat: Você entrou, não como artista, mas sim como dono de gravadora, está certo? Em 1999 também nasceu a Associação Brasileira da Música Independente [ABMI], quer dizer, nasceu como AMI e virou Associação [Brasileira] no ano passado. Eu queria saber como é que a gente faz para o Lobão, empresário, vir ajudar e trabalhar com outros modelos para que a gente possa conseguir que a indústria independente chegue lá onde você e eu queremos que ela chegue.

Lobão: Olha, Eduardo, eu sou, como falei para vocês, eu sou um cara que estou super entusiasmado, eu tenho muita coisa para aprender com vocês, eu aprendi muitas coisas. Inclusive, eu vou dizer uma coisa, esse negócio, eles sempre jogavam essa parada de numeração e sempre era convencido na raiz. Então essa coisa de ter saído a campo, eu morri de medo, eu só quero dizer isso, isso é uma coisa que muito, muito exponencial dentro desse negócio todo e que me custou muito emocionalmente poder entrar nessa de fazer a gravadora né? Então acho que isso tem um futuro enorme, nós falamos na Associação Gaúcha de Discos Independentes que eu me filiei, que é muito bem organizada, isso tem que promover festivais e eu estou a fim de lançar uma revista até o final do ano só, sobretudo, só para publico independente. Isso é uma coisa, um projeto que eu estou a fim de fazer, fazer uma revista talvez bimestral e lançar de repente um CD, com esses CDs todos através de uma publicação, né? Um CD, você compra a revista em território nacional e de repente lança um CD de uma banda, de um artista novo e atender para esse público. Porque eu acho que é um publico que é órfão hoje em dia, né?... E nós sabemos disso Eduardo, conta comigo que eu... [Lobão lançou a Outra Coisa, revista de música contendo um CD independente a cada edição].

Eduardo Muszkat: Vou até te dizer: de 12 a 15 de setembro, já faço aqui uma propagandinha, vai ter a nossa primeira assembléia anual com uma série de shows no SESC Pompéia. E eu quero te convidar em nome da Associação de brasileira dos palestrantes lá.

Lobão: Pô, maravilha Eduardo, isso eu acho...

Eduardo Muszkat: Vai ajudar a gente a levar essa bandeira das, das gravadoras independentes.

Lobão: Eu acho isso uma excelente idéia e eu acho assim. Eu nunca me achei talhado para essas funções não, mas eu lhe digo, estava lendo uma reportagem do Public Enemy [grupo americano importante de hip hop] e eu tinha um preconceito muito grande para métodos sobre palestras, palestras em universidades. Eu achava assim, uma coisa fora do meu contexto. Mas aí eu falei: "vamos fazer palestra". Aí, foi muito legal, porque eu fui fazer palestra para duzentos e cinqüenta nessa...

Eduardo Muszkat: Mas essa não vai ser remunerada, hein!

Lobão: Não, mas eu até faço, quando eu posso eu descolo uma grana sim, mas quando não posso, quando não tem, a gente tem aquela coisa de olhar para a cara das pessoas e vê quando pode, quando não pode, a gente vai...

Eduardo Muszkat: Assim pela causa.

Lobão: Porque o que me venceu, a situação que me ganhou foi o fato de eu poder ter entrado em contato com o público universitário. Tipo eu faço tudo que aquele cara falou, eu fui para o Brasil, vi o cara tocar lá no sul, você vai tocar e os caras pedem as músicas que não tocam na rádio, toca "A vida é doce", "Por onde você vai", todo mundo canta as músicas novas, por quê? Porque eu fiz muita palestra, fiz muito corpo a corpo e eu acho que a gente tem novos tipos de metodologia. A gente tinha sim, mesmo com as premissas da nossa Associação é... Rádio, a gente tem que ver a coisa do jabá, pô, é que toda garotada fica vendo, porra, quando a gente faz uma caricatura das rádios rock que a gente acabou não respondendo, é assim, eu faço uma brincadeira assim, você liga uma rádio rock entra tocando Dire Straits, "Sultans of swing", né? ["Sultans of swing" foi gravada pelo Dire Straits em 1978], de quinhentos e trinta e dois anos atrás, enquanto tem mil coisas acontecendo. E eu acho também assim, o fruto do meu entusiasmo é de passar esse entusiasmo para as pessoas.

Paulo Markun: Por que você acha que só tocam essas músicas antigas? É o jabá

Lobão: Eu acho que é o jabá ocioso, o tempo do espaço ocioso.

Paulo Markun: Quer dizer, é a falta do jabá?

Lobão: É o espaço ocioso.

Paulo Markun: Se ninguém bota grana toca aquilo que ninguém... É isso?

Lobão: É claro, flashback total! E eu sou o rei... e uma coisa muito interessante é que eu sou o cara dramaticamente exilado nas rádios pelos meus próprios sucessos, está entendendo? Aí o cara me ouve “Oh, o Lobão está falando aí porque não toca em rádio". Porque está careca de ouvir "Me chama, "Chorando no campo”. Toco, mas eu sou exilado pelo meu sucesso, o que é uma coisa, aí vem o nosso querido Capitão Gancho, o Marcelo Castelo Branco, dizer que “olha, por que o Lobão não pára de dizer essas besteiras?”. Besteiras é isso que eu estou falando. “...e volta a fazer músicas como 'Me chama'”? É porque eu não posso tocar nas rádios e ele, tadinho, presidente de uma gravadora, não pode ver que eu estou muito melhor como compositor, faço músicas muito mais legais, inclusive, apesar de eu adorar "Me chama", acho uma música sensacional. Eu sou o cara que mais fez música nos anos 1990. Inclusive, me dei o luxo de fazer disco ao vivo, agora, para poder mostrar as músicas. Eu falei, se agora vai tocar nas rádios e eu colocar as quatro músicas de sucesso, eu vou botar a "A vida é doce", botar se... Veio para as rádios, mas não tocam.

Pedro Alexandre Sanches: Lobão, quando você lançou esse disco ao vivo você falou numa entrevista, aparentemente em tom de brincadeira ali, que os presidentes das gravadoras deviam ser todos demitidos. “Eles não existem mais e vou acabar com eles, esse é o meu plano”. Parece uma brincadeira, mas com esse lance da numeração, agora, isso é uma coisa que você está fazendo?

Lobão: Ficou uma coisa patética, né?

Pedro Alexandre Sanches: Você está se vingando das gravadoras que te rejeitaram assim?

Lobão: Olha, eu posso te dizer uma coisa, Pedro, eu poderia te dizer até numa questão, não digo nem no tom muito de brincadeira, mas vingança talvez não, mas eu estou lutando pelo meu direito, sim. Eu posso te dizer que [tem] um pouco de ira, um pouco de indignação são salutérrimas, sabe? Eu sou indignado mesmo, sou puto com os caras mesmo. Agora, sem ressentimento, pessoalmente jogaria botão, iria tomar uma água de coco com qualquer um deles, agora, institucionalmente eles são meus inimigos até que me provem o contrário.

Pedro Alexandre Sanches:  Mas, [se] dentro das gravadoras você não estaria fazendo isso. Assim como a Rita Lee, o Caetano Veloso?

Lobão: Eu estaria morto né, Pedro? Eu estaria, tecnicamente, eu estaria morto, né? Eu produzi um monte de CDs na década de 1990 que não aconteceu nada. E, depois, vem um... Pô, faz aí, regurgita um "Me chama" aí para viagem, queriam que eu fizesse...

Antônio Carlos Miguel: Lembrando do "Me chama", você hoje é o único artista da geração dos anos 1980 e 1990, gravado pelo ícone maior do senhor Gilberto e você deu uma declaração dizendo que odeia a gravação.

Lobão: Eu até posso falar dele...

Antônio Carlos Miguel Foi uma brincadeira?

Lobão: Foi uma brincadeira, poxa! Outra coisa, tanto o João Gilberto [João Gilberto do Prado Pereira de Oliveira, cantor e compositor] como assim... Eu sou muito grato ao João, não só por ele ter gravado, evidentemente, mas assim, o cuidado que ele teve em me mostrar, assim, ele falou: “olha, eu não quero que você fique assim, que você fique assado”. Eu fiz para basicamente chutar o ícone, mas eu espero que ele entenda isso, porque é também, não é só uma brincadeira não, porque politicamente eu acho necessário, isso é um outro motivo, mas depois a gente pode também chegar lá. Mas o João foi muito correto, eu gostaria que todo mundo que fosse gravar "Me chama" - eu sou muito ciumento com as minhas músicas - telefonassem e me dessem um arranjo, ele me mostrou oito versões, porra, a Simone lá quando gravou também, eu sou muito grato a essas pessoas.

Paulo Markun: Pergunta do Leandro, de Tucuruvi, aqui de São Paulo, que é baterista: qual conselho que você daria para uma banda que está começando agora? Procurar uma pequena ou uma grande gravadora? Ou procurar nenhuma gravadora?

Lobão: Não, procura uma pequena, rapaz, procura uma pequena. Porque primeiro se vocês, se vocês forem para uma grande eles vão te olhar... independente de vocês serem bons ou maus, espero que vocês sejam bons, eles vão mudar seu topete, provavelmente vão colocar uma música do diretor artístico que geralmente é compositor, né?, botam uma música e aí sim ela toca no rádio. Então, pô, de repente vai trocar a tua... “essa banda não tem, esse nome é muito ruim” que é uma coisa mais parecida com Mamonas Assassinas [banda de rock humorístico de grande sucesso em meados dos anos 1990], eles têm uma fixação com Mamonas Assassinas. Então, rapaz, não, não faça isso, porque, olha, é horrível. E outra coisa, eu não recomendo e não vai dar em nada, eu acho. Eu queria complementar aquela coisa de 2002, eu acho que em 1982 começou uma coisa interessante, aconteceu meio que espontaneamente, meio caoticamente e mudou tudo, porra, tem diretor de gravadora, não vou dizer o nome, que pô, a Blitz [banda de pop rock do início dos anos 1980], eu tocava na Blitz e eu fiz a Blitz e eles não queriam: “rock não dá, eu pago um...”. Eles adoram pagar almoço caríssimo em lugares em que vinho é mais de mil dólares, sendo que estavam devendo para um amigo meu que operou, até hoje está devendo. Então, acho que em 2002, vinte anos depois, a tendência inexorável é você ter um movimento substancial, como já está tendo, de músicas, vários festivais no Brasil inteiro, você vê em Goiânia, você vê no Espírito Santo, você vem em Aracaju, você vê em João Pessoa, você vê em Natal, você vê em várias cidades e festivais independente com públicos independentes e você viu isso em Fortaleza. Você vai em todas as cidades e você vê prateleiras de discos independentes. Isso só não vê quem está investindo em prova de cantores de churrascaria no Fama [programa de talentos musicais da TV Globo], né? Os caras estão achando que aquilo vai dar certo, acham que vão vender milhões de dólares.

Paulo Markun: Amélia Duarte, de Campinas, que é dona de casa pergunta justamente isso: O que é que você pensa desses programas de calouros que dão, que estão dando alto índices de audiência? Como é o caso do Raul Gil [Raul Gil, apresentador de programa de televisão] e do Fama e o que você pensa de alguns calouros que em pouco tempo saem gravando discos?

Lobão: Não, eu acho calouro ótimo, eu acho esse programa do Raul Gil, programa de calouro sempre foi legal, bacanérrimo. Agora, você ter um programa de calouro tendo professor para o calouro, aí é muito humilhante, né? Eu estava vendo uma menina muito simpática, eu estava vendo aí: “Ah se eu fosse marinheiro” cantando, aí aparece uma professora de expressão corporal: “não, faz uma ondulação para mostrar que...”, eu falei "gente, me livre do que eu estou vendo, pelo amor de Deus!!" Eles acham que isso é uma coisa, pode até ter audiência... Agora, você acha que o festival da Globo, não aconteceu nada, né? Eu acho que em termos de você tomar consciência das pessoas, isso eu falo como um marqueteiro, viu? Eu vou dizer o seguinte:  as pessoas ficam humilhadas. Hoje eu vi no Fama, eu assisto esses programas... Tinha uma cara que, pô, teve uma atitude sensacional e estava gravando a música e pela primeira vez tomou uma atitude “porra, mas essa gravação é uma merda, essa base aqui está horrível e esse teclado é... olha só, pô, cadê a percussão?” e não sei o quê... Conselho de um careca que rola lá: “aceita tudo, aceita assim”. O que é isso? Um professor, pô, uma única atitude saudável do cara de se rebelar, porque a rebeldia pode ser salubérrima, você está entendendo? Então cara, é um laboratório de encolhimento e humilhação e cerceamento da liberdade do artista.

Pedro Alexandre Sanches: É como se fosse uma aula de como indústria funciona? Seria colocado assim?

Lobão: É uma aula de como a indústria funciona.

Lázaro de Oliveira: Agora, explica desde o início...

Lobão: Sabão em pó que canta, eles querem adestrar o artista para não ter, para os únicos contestadores serem o Caetano e o Gil de vinte, trinta anos atrás, e terem aquilo com distanciamento histórico e higienizado. Porque você não vai ter ninguém fazendo nenhuma marola nos dias atuais, a gente precisa de uma coisa maior, a gente precisa de um maremoto para fazer e mudar essas coisas. A gente não precisa de pessoas bem comportadas nesse terreno, a gente precisa de pessoas mais arrogantes, mais ousadas, mais tinhosas, né? O artista tem que ser tinhoso, o artista em si.

Lázaro de Oliveira: Tem que ser ele.

Lobão: Tem que ser um desafiador, cara.

Lázaro de Oliveira: Sim, mas ele tem que ser ele.

Lobão: Para você desafiar, você tem que ser você, você tem que estar no seu eixo, senão você leva uma rasteira logo na cara.

Pedro Alexandre Sanches: Mesmo você já está numa geração que você é um rebelde tardio, tinha que ser os caras mais jovens para fazerem o papel que você está fazendo.

Lobão: Não, mas eu acho que tem muitos rebeldes atuais, eu sou um cara que continuo sendo o que eu sempre fui, né? Eu não consigo, inclusive, o início daqui assim quando falei que eu era... falaram que eu era careta, né? Tocando samba. Isso foi um dos discos mais interessantes que eu fiz, que era do maior estilo de rebeldia, me aprofundava no cancioneiro da música popular brasileira pré- bossa nova, até porque o festival da canção tinha sonoridade fixa, podia ser a maior rebeldia, o maior tapa no rock’n roll e as pessoas não entendem isso até hoje. Agora, eu acho que eu sou um rebelde com causa, com calça, avec elegância e estou aí. Em qualquer adesão estou achando, pô.

Paulo Lima: E o disco dos Racionais novo?

Lobão: Isso, pô.

Paulo Lima: A atitude dos Racionais. O que você acha?

Lobão: Pô, você falou uma coisa sensacional, acho que os Racionais... você vê, um disco de vinte e três reais, né? Eles ficaram presos na Sony um tempão, demorou porque eles assinaram um contrato de distribuição e depois eles quiseram reconsiderar isso e não rolou. E eles estão lançando um disco duplo a 23 reais, né? E já foi pirateado, e já venderam mais de cem mil cópias nos primeiros dois dias. Eu acho que os Racionais são um dos maiores ícones atualmente, né, Racionais, o próprio hip hop. É uma das coisas que lavam a alma da gente em termos de atitude, né? Comportamento. É um dos grandes paradoxos interessantíssimos. As músicas mais modernas que a gente faz em termos de eletrônica e tudo mais vem do gueto, né? Não só como concepção moderna esteticamente, como atitude, como poética, poética, esse ultimo disco "Vida loka" ["Vida loka" é, na verdade, uma das faixas do disco Nada como um dia após o outro dia] do Racionais tem cada letra assim inacreditável.

Paulo Markun: Vamos começar aqui com uma rápida rodada de perguntas de telespectadores: Cizenando Calisto, que é de Taubaté, cidade daqui do interior de São Paulo, pergunta qual é a sua opinião sobre a questão do mp3 e se você sabe de algum projeto para impedir essa proliferação em alta velocidade desse formato de áudio.

Lobão: É, eu acho o seguinte, o mp3, há vários estudos, estudos da internet que verificam que isso foi uma coisa que foi implantada na internet e é muito difícil de  ser retroagido. Eu acho sinceramente que o mp3 não me causa muita espécie, eu acho que o mp3 é uma espécie de depurador do que o cara vai comprar, isso, isso, isso vai aferir muito.

Paulo Markun: Uma amostra grátis?

Lobão: É. Como você, você, veja só, minha tese é um pouco controversa, mas se, veja assim: você por meios atuais, você tem somente uma possibilidade de divulgar seu disco, você entra numa gravadora, a gravadora paga o jabá na rádio, a música toca, toca, toca, toca e você não recebe os seus direitos autorais porque as rádios são umas das maiores sonegadoras de direito autoral que tem, né? Isso é um problema, então você é lesado em duas vias de maneira execrável, né? Você não recebe, você paga para tocar e não recebe quando toca. Pronto, aí você compara com o mp3. Eu, por exemplo, eu baixo. No meu site tem um monte de música para baixarem, porque eu comecei a ver isso quando comecei, fiz um teste quando fui lançar A vida é doce. Sem saber muito bem o que era, botei uma música lá e em duas semanas deu 270 mil downloads. Pô, aí eu vou nos lugares e as pessoas cantam a música, a música, então, inclusive, é esquisitíssima, não é nada parecido com "Me chama", as pessoas cantam, é meio hip hop, uma coisa meio trip hop. Então, o que eu acho [é] que o mp3 é excelente. Assim, você faz música honesta. E o modelo do mp3, o cara vai querer comprar o CD, eu sou daqueles cara que acredita que o cara que gosta de você, se gosta do seu CD, se ouve três, quatro músicas, que aquele disco vale a pena ser comprado, ele vai comprar, então eu, na minha opinião, o mp3 ele dá uma possibilidade de escolha do que você vai comprar.

Adriana Veri Silva: O CD então, como suporte, como produto, assim como o livro, o produto em papel não morre. Você é dessa opinião?

Lobão: Eu não acredito nisso, sinceramente, é aquela coisa, todo mundo fica “Ai meu Deus!”. Eu acho que o suporte vai existir, porque o suporte, a não ser que você depois, você possa no futuro, mais a médio prazo, você possa imprimir tudo no, provavelmente você vai imprimir tudo isso via internet, né? Oficialmente, você, mas você vai ter um suporte que você vai ter que ter um conceito do disco todo, eu acho que você vai ter que ter. Se você tiver uma concepção, porque eu acho que um disco é muito parecido com um livro, a não ser que... Por exemplo, eu fiz duas músicas, dois singles, então você faz os singles, agora, quando você quiser fazer uma reunião de músicas, sempre você vai ter um mercado em que a pessoa vai querer saber o que você está falando.

Adriana Veri Silva: Aí nessa hipótese o problema é das gravadoras.

Lobão: Não, eu não acho não.

Adriana Veri Silva: Porque ficou uma coisa muito mais individual, passa pelo computador, você vai e monta seu CD em casa.

Lobão: Não, eu acho que foi... vai ter um interface com as gravadoras, porque eu acho que elas devem estar acelerando nesse processo, né? De você poder baixar pela internet músicas que você compra, você imprime a capa e você imprime, eu acho que isso vai acontecer. Quero esclarecer uma coisa em relação às gravadoras, as gravadoras têm um papel importantíssimo, se não tivessem eu acho que a gente não estaria discutindo isso tudo aqui, então, acho que tem aquela coisa de demitir. Tem muito executivo de gravadora que veio oriundo de supermercado, né? Então pô, a gente tinha que botar nas gravadoras pessoas que, a princípio, gostassem de música e não os que não gostassem. Que entendessem, isso é fundamental, na medida que isso acontecer, aliada a tecnologias novas as gravadoras vão ter um papel muito importante sim, eu espero, eu espero e torço para isso.

Adriana Veri Silva: Você quer que elas tenham um papel mais artístico do que de marketing?

Lobão: Não, não.

Adriana Veri Silva: Ou as duas coisas?

Lobão: Eu acho que você, eu acho que o aspecto de um artista está envolvido diretamente no marketing, as pessoas envolvem “marketing é vagabundo né, o artístico é sublime”.

Adriana Veri Silva: Sublime, no seu caso.

Lobão: Não, não o que eu tento fazer no meu empreendimento é mostrar que o lucro fácil é que deve ser um pouco deixado de mão, mesmo por que com o lucro fácil você fica meio flácido em termos empresariais. Então, você tem sempre que manter um catálogo e um repertório, por que aí você excita a sua criatividade mercadológica, e você desafia o mercado e impõe ao mercado. Inclusive, porque com inteligência você consegue fazer isso, determinados tipos de paradigmas que somente um conglomerado inteligente e sensível pode fazer.

Paulo Markun: Lobão, o Ricardo Gomes Filho, que é jornalista aqui de São Paulo diz o seguinte, que numa entrevista na Universidade Cruzeiro do Sul, a Unicsul da Zona Leste aqui de São Paulo, no ano passado, você defendeu o funk e disse que era o ritmo era um movimento genuinamente popular, nascido na pobreza do Rio, massificado pela cultura popular. E que era uma pedrada na face da classe média tradicional. Pergunta: quais são os aspectos que levam você a essa conclusão já que, segundo ele, o funk é um ritmo nascido no gueto norte americano, não é genuíno, mas é um produto vendável e foi massificado pelos programas de TV, sobretudo aqueles produzidos em Jacarepaguá, por essa mesma classe tradicional que é a classe média.

Lobão: É, essa é uma bela abordagem, é o seguinte: as pessoas têm que entender que o funk, quando digo funk carioca, ele é muito execrado, a princípio. Eu pessoalmente não luto. Minhas fontes de observação, no hip hop eu já tenho muitas coisas que eu pego, agora o funk, eu acho que essa coisa de ficar atacando funk como uma coisa moralista. As pessoas têm que entender que o funk feito nos subúrbios do Rio de Janeiro relativo à umbigada no início do século era visto como uma coisa imoral, as pessoas tendem a fazer isso, né? Tendem a colocar a coisa de maneira maniqueísta, enquanto que eu acho que tem muita coisa de samba de roda, ou seja, tem uma linguagem muito própria quando diz a coisa americanizada. Quem sou eu para dizer? que eu sou uma cara colonizadérrimo. Eu acho que somos frutos dessa colonização, inclusive, a nossa história da música popular brasileira nos trata muito como párias, isso eu não digo nem ao funk, mas eu, o rock brasileiro, isso tudo depois da bossa nova e da Tropicália todos são colocados como verdadeiros párias. Não há um peso assim digno no que a gente faz. Então, quem sou eu para ficar dizendo que isso é mais ou menos digno, eu acho que tem que ser respeitado como estilo criativo, tem suas idiossincrasias, têm problemas de violência, de uma área que é violenta, mas eu acho que é um erro ficar falando do funk nesse aspecto aí.

Paulo Markun: O Rodrigo Fernandes, que é aqui do ABC, pergunta: O que é que você acha dos novos artistas da geração do rock nacional e o que é que você está escutando ultimamente? E menciona o show que você vai fazer no dia 31 de agosto no Sesc Santo André. Aliás, tem diversas pessoas falando desse show, uns dizendo que não vai ter, vai ter?

Lobão: É, teve aquele problema de ser cancelado, não sei se vai ter, não sei se não vai ter, depois a gente vai...

Paulo Markun: Apurar.

Lobão: Apurar, eu acho o seguinte sobre o...

Paulo Markun: Grupos novos e o que você está ouvindo?

Lobão: Grupos novos... Têm muitos grupos interessantes cara. Lá no Rio tem assim, tem o Vulgue Tolstoi, tem o Carne de Segunda, tem o Leela, tem a Bia Grabois, o BNegão que vai lançar um disco que eu espero que seja pelo Universo Paralelo. Nós temos a Rebecca da Matta, tem o Maurício Negão lá no Rio, nós temos o Cidadão Instigado, tem o Divine em Brasília, tem o Neura, porra, tem uma porrada. Olha, tem um monte de coisas excelentes com propostas, tem os Cascavelettes, que é um puta grupo de rockabille sensação, tem um grupo de rockabille na Bahia, em Curitiba, que são incríveis, entendeu? Tem o Rogério Skylab, pô, tem uma porrada, o que não falta são discos de artistas dessa nova safra que não estão por aí, que não estão no mainstream e que são, geralmente, o que eu acredito que vá fazer a diferença nesse, nesse início de década que nós estamos vivendo. O que eu estou ouvindo é isso, e de fora eu tenho ouvido muito PJ Harvey, tenho ouvido Radiohead, Primal Scream... É por aí.

Lázaro de Oliveira: Lobão,  existe uma experiência muito curiosa com relação a esses novos grupos, vou lembrar que o Claudinho & Buchecha [Cláudio Rodrigues e Claucirlei Jovêncio de Souza, cantores e compositores de funk romântico], vou lembrar alguns grupos aqui na periferia de São Paulo que tiveram uma grande aceitação na sua comunidade ou na Zona Leste, ou na Zona Norte, através das chamadas rádios comunitárias e eles não tocavam em rádio, eles tocavam em rádios comunitárias. Você acha que é uma maneira desse pessoal ter a sua expressão independente do que a classe média branca pensa?

Lobão: Meu, eu acho que tem, eu acho que tem e há esse conflito constante. Você vê que o negócio do Bonde do Tigrão [grupo de funk] foi muito engraçado, mas um movimento de marketing equivocado, né? Porque estava na época do Rock in Rio, as gravadoras investiram uma grana na ressurreição do rock’n roll, rolou no carnaval o Bonde do Tigrão, você lembra?

Lázaro de Oliveira Lembro.

Lobão: “Tá dominado, tá tudo dominado”. Nossa, sensacional essa música “Tá dominado, tá tudo dominado” [refere-se ao funk "Tá tudo dominado"], têm coisas sensacionais que acontecem. Agora, as rádios comunitárias são outro problema, que eu comecei a falar de rádio comunitária há uns três anos atrás, deu o maior tiroteio, o maior pega para capar sobre a legalização. Outro dia lá em Fortaleza, pô, gente, uma homenagem sensacional de um grupo de meninas assim de seis, sete anos que entraram no meu camarim tocando "Me chama" com umas guitarras de pau. E eles são programadores de rádios comunitárias e de televisão comunitária, e tem uma escola. Mas aí, a polícia foi lá e fechou, você está entendendo? Toda hora fecham rádios comunitárias, então, essa coisa da legalização da rádio e não é só legalização pela lei que tem agora não, é dar lucro a essas rádios, essas rádios poderem fazer um, fazerem as suas propagandas da “padaria do Seu Manoel”, porra, sabe, ter uma coisa que dê lucro, aumente o ranking...

Lázaro de Oliveira Você acha que isso legitima os lucros?

Lobão: Ô, eu estou falando, eu acho que isso nem, isso não interfere muito em relação ao que eles estão fazendo, porque o que eles estão fazendo é justamente à margem disso tudo. Vai continuar fazendo, como o rap aqui de São Paulo se sustentou muito sobre rádios comunitárias e isso é uma realidade, é mais ou menos uma coisa de, um paradigma, universo paralelo mesmo, né? Porque você vê que isso é uma coisa que acontece no país e no mundo também essa, desde hackers, são entidades que estão, estão fazendo um ruído.

Lázaro de Oliveira Bagunçando.

Lobão: Bagunçando o coreto.

Pedro Alexandre Sanches: Lobão, na sua visão elas pagariam direito autoral? Se as rádios comunitárias forem legalizadas?

Lobão: Sim, pô, isso seria inclusive um exemplo para as rádios oficiais, não é verdade? Que não pagam, há dúvida se há inadimplência ou sonegação, mas entre a inadimplência e a sonegação, vocês podem escolher porque as duas, das duas maneiras o dinheiro não vem para gente, né?

Paulo Lima: A gente está falando só de rádio, vamos falar um pouquinho de televisão também.

Lobão: Oba.

Paulo Lima: Como é que é a MTV, por exemplo, para você, como que você vê a postura, o trabalho que eles fazem em favor da música, enfim, como é a tua visão desse canal de comunicação?

Lobão: Tem muitas coisas que eu gosto da MTV, né? A MTV eu acho que é uma coisa muito, é multifacetada, têm coisas excelentes que eu acho sensacionais e que poderiam ser mais empreendidas no sentido de ousarem um pouco mais. E tem coisa que realmente eu não acho, acho a maior besteira, uma verdadeira besteira, mas eu acho ótimo, eu aprendo muitas coisas e me informo muito com a MTV ainda.

Paulo Lima: Esses discos acústicos que são lançados através da MTV e tal, como é que você vê?

Lobão: Olha rapaz, têm coisas boas. O disco da Cássia Eller [Cássia Rejane Eller (1962-2001), cantora e violinista] é muito bom, o disco da Cássia Eller é excelente, sabe? O do Jorge Ben [Jorge Duílio Lima Meneses, cantor e compositor], cara, sinceramente, o primeiro disco é sensacional... Mas agora o problema [é] que você... sabe qual é o problema? É que vira uma ponte de safena, o próprio Jorge Ben dizia “porra bicho, eu estou cheio de música, eu não queria gravar”. O fato de um cantor, um compositor da estirpe do Jorge Ben Jor querer gravar, ele tinha que gravar a hora que ele quisesse "tá, grava, depois a gente grava”, mas não pode. Isso eu nem sei se, pô, é culpa da MTV totalmente, é imposição de uma gravadora que usa aquilo como se fosse um spa, seja sei lá como for, mas eu acho que num formato acústico tem coisas muito boas. Principalmente coisas lá de fora, eu acho que tem coisas mais interessantes, tem também muita coisa que pegam muito pesado, que são muito ruins mas, pô, só o fato da Cássia já valeu, o Jorge Ben, eu não me lembro de outro que tenha sido sensacional.... Aquela que fez o novo agora, qual o nome dela? Aquela dos Fugees, Feeds...

Pedro Alexandre Sanches: Lauryn Hill [Lauryn Noel Hill, cantora e atriz. Pertenceu ao grupo Fugees].

Lobão: Lauryn Hill fez um sensacional agora, só com músicas inéditas.

Antônio Carlos Miguel Lobão, já no seu terceiro disco, O rock errou [CD gravado por Lobão em 1986] né? Você gravou com Elza Soares [Elza Soares, cantora e compositora]?

Lobão: É verdade.

Antônio Carlos Miguel Tem seu flerte lá com a Mangueira, bateria na Mangueira, parceria.

Lobão: Não, Mangueira saiu só em 88.

Antônio Carlos Miguel: Não, estou dizendo na seqüência.

Lobão: Sim.

Antônio Carlos Miguel Seguindo. É teve um período que você parou de gravar e ficou estudando clássico, violão clássico.

Lobão: É, eu estava me recuperando da minha mão [Lobão teve um acidente de motocicleta que paralisou parte de mão], também que eu fiquei paralisado...

Antônio Carlos Miguel: Têm diversos flertes de você com a música brasileira, mas pelo que você está falando agora, pelo que você anda ouvindo e pelos seus últimos discos, você é essencialmente roqueiro, ou não?

Lobão: Eu adorei essa sua pergunta, porque eu sempre me engajei, sempre, desde que eu me entendo por gente, a mesma coisa do rock’n roll, eu sempre fui, eu sempre digo assim: eu sou músico, não sou engenheiro, eu sou popular, não sou erudito, sou brasileiro, não sou chinês, portanto, eu sou músico popular brasileiro. Esse flerte com a música popular brasileira, ele é muito saudável porque eu componho música popular brasileira, eu nunca fui alfabetizado fora do país, se alguém quiser pagar a conta fala com o governo que me educou assim, eu sou fruto de Ipanema, eu sou cidadão ipanemense, eu faço a mais genuína musica de Ipanema da minha década, da minha geração, e é isso que eu fico brigando. Porque quando falam que eu não faço rock é uma questão política para mostrar. Eu falo: "você me respeita, rapaz". Mas por quê? Essas incursões na música brasileira, além de me ventilarem de uma maneira salutérrima... eu adoro tocar um chorinho singelo, está entendendo? Eu tenho conhecimento de causa né, então, eu tenho aquela coisa, se eu não quero entortar uma harmonia, às vezes eu entorto, mas eu não... As pessoas têm que entender que é um conceito e não uma precariedade ou, talvez, a precariedade seja o conceito né? Então, as pessoas têm que entender isso, se eu não faço “papauera, birabira” [canta imitando o estilo da bossa nova], é porque eu acho feio, eu acho inadequado. Ou se eu quero tocar igual ao João Gilberto é porque o meu físico não está propenso a isso, e não que nós sejamos piores ou menos dotados quanto a isso. Por isso é que eu não sou roqueiro, inclusive, a palavra “roqueiro” ela não me soa bonita, né? Ela não soa bonita e [como se alguém dissesse que] eu não sou um músico popular brasileiro. E eu faço parte da MPB, né?...

Adriana Veri Silva: Mas tem alguma herança...?

Lobão: Na linhagem do Pixinguinha [Alfredo da Rocha Vianna Filho (1897-1973), cantor e compositor], Tom Jobim [Tom Jobim (1927-2004), cantor, compositor e pianista], eu, vírgula, isso é, isso que eu queria dizer.

Adriana Veri Silva: Você disse que pertence a uma geração. E ficou uma herança dessa geração? Você estava citando os vinte anos.

Lobão: Olha...

Adriana Veri Silva: Entre 1982 e 2002.

Lobão: Não, quando eu estou falando sobre isso é eu estou vendo que está havendo um outro influxo de inspiração e vida. Agora, herança só história vai dizer, só quando estivermos mortos.

Antônio Carlos Miguel Mas dos seus companheiros de geração, quem você acha que o trabalho ficou, assim, pra gente lembrar? Barão...

Lobão: Ah não, tem muitas coisas pô, Cazuza [Agenor de Miranda Araújo Neto (1958-1990), cantor e compositor] pô, tem música que eu estou fazendo do Cazuza agora, estou fazendo parceria com o Cazuza de músicas inéditas, o Cazuza é um. O Renato [Renato Manfredini Júnior, mais conhecido como Renato Russo (1960-1996), cantor e compositor. Foi integrante da banda Legião Urbana] o Júlio Barroso [Júlio Barroso (1954-1984), cantor, compositor e jornalista. Foi o líder da banda Gang 90 e as Absurdetes. Morreu em queda da janela de seu apartamento.], nós temos o Ira, o Titãs, o Arnaldo Antunes [Arnaldo Antunes, cantor, compositor e poeta. Foi membro dos Titãs], sabe? Isso tudo é uma coisa que realmente foi, uma coisa substancial e você veja também uma coisa que eu estava percebendo... Na nossa geração, sou um severo crítico da minha geração, mas eu tenho assim uma coisa de que vê que nós... a hora que nós recebemos várias baixas, eu me lembro no enterro do Júlio Barroso, falando com o Cazuza: “Cazuza, estamos órfãos, o que vai acontecer”? Porque o Júlio era um grande... você conheceu o Júlio, era um grande articulador intelectual, era um cara que era um gênio, tinha uma cultura geral incrível. E a gente perdeu um cara que era um pouquinho mais velho que a gente e que dava livro, aplicava gente de mil coisas, sabia de tudo e eu falei para o Cazuza: “Cara, a gente agora está desarticulado”. E nós tivemos baixas muito fortes. O Cazuza, o Júlio, o Renato. E você veja só, a Tropicália teve algumas baixas, o Torquato [Torquato Neto (1944-1972), letrista poeta e jornalista, foi uma das figuras mais influentes da Tropicália], nós tivemos o Hélio [Hélio Oiticica (1937-1980), artista plástico. Autor da obra Tropicális, que deu nome ao movimento e ofereceu referenciais estéticos] etc e tal. Mas nós tivemos muito, depois veio o Chico Science [Francisco de Assis França (1966-1997), cantor e compositor. Foi membro do grupo Chico Science e a Nação Zumbi], pô, a Cássia Eller. Então, eu, porra, agora eu sou o que a gente está falando, né? Perder esse tipo de pessoas e continuar de uma forma ou de outra meio tonto, meio já cambaleando, mas com integridade e respondendo ainda pelo seu trabalho, isso é uma vitória.

Paulo Markun: O Aldo de Sousa. Espera só um pouquinho, Eduardo, é que o estudante do Rio de Janeiro pergunta se você ainda mantém as críticas duras e ferrenhas que sustentava contra o Herbert Vianna [Herbert Lemos de Sousa Vianna, cantor e compositor. Membro da banda Paralamas do Sucesso] antes do acidente.

Lobão: Olha, eu vou dizer uma coisa, ainda bem que ele falou, já localizou tudo, né? Eu acho o seguinte, mediante a certos fatos na vida que a gente presencia, testemunha, é uma coisa, fica muito, fica muito aquém [frente] determinados fatos que são muito traumáticos, muito. E você tem que respeitar, porque é uma coisa que é maior que a vida, você está entendendo? É uma coisa que nos toma de repente a vida e eu acho que... eu tenho respeito por tudo que acontece desse jeito, eu não tenho condição de sentir nenhum tipo de ressentimento nem desde a hora que isso aconteceu. Eu só fico pensando que ele se restabeleça e é uma coisa que ainda é indelével para ele, é uma tragédia e eu respeito muito, respeito a luta dele, [que] ele tem. Ele é pai, tem filhos para criar e eu torço por ele, eu não tenho como ser de outro jeito.

Eduardo Muszkat: Você, falando como um músico popular brasileiro, eu queria saber de você como é que você vê o mercado internacional para música brasileira em geral, para música brasileira independente, para sua música. E se você está de alguma forma indo atrás desse mercado. Não sei se você sabe, o ano que vem o Brasil vai ser o foco da feira mais importante de música mundial que é a [...] pela primeira vez na história.

Lobão: Pô, legal, né?

Eduardo Muszkat: Isso [é] o Brasil que é entre as três maiores potências musicais do mundo. Como é que você vê esse mercado? E o que é que você está fazendo como gravador?

Lobão: Eu acho importante, eu acho importante. É uma coisa que, eu não sei, eu acho que a gente, eu acho um pouco perigoso, porque a gente tem uma síndrome meio de “ah, tocou lá fora”. A gente já muda todo o comportamento, não sei se isso é muito bom não, eu acho que a gente tem muito ainda o que fazer aqui para consolidar inclusive uma identidade, se é que isso é possível. Mas, por exemplo, aí você começa a exportar Sandy e Junior achando que é legal, entendeu? Vender vinte e cinco mil cópias e, sabe, é mais ou menos isse ou começar achar que música de elevador é uma coisa representativa [referência à bossa nova]. Eu acho que a gente tem muito o que contar, primeiro com a nossa auto-estima em relação ao que nós fazemos. E o que vier em termos internacionais, eu não sei ainda, eu não sei ainda, eu tenho muita vontade de fazer show lá fora. Eu tenho feito, eu tive propostas para fazer, mas eu acho que basicamente está numa bagunça muito grande e tem que organizar essa casa agora aqui, até para a gente poder pensar direito o que fazer. Exportar o quê da gente? Porque a gente ainda não... a gente está falando aqui, agora, e nós temos uma crise de auto-imagem terrível, rock ainda é uma coisa pária e a gente...

Eduardo Muszkat: Mas a música brasileira é hiper-valorizada lá fora. Por que não exportar e fazer isso da imagem brasileira?

Lobão: Eu não sei, cara, olha... Eu tenho sérios senões em relação a isso, porque eu, eu acho assim, isso aí vai até o conceito de antropofagia na Semana de Arte Moderna. Eu estava falando com um amigo meu, o Daniel Lins, a gente estava conversando. Pô, Daniel, um filósofo, e mora em Fortaleza. A gente estava no aeroporto em Porto Alegre conversando e, sabe, falando dessa coisa de antropofagia e aí ele falou de um site maravilhoso. Porque a gente usa isso e a gente vai chegar até lá no negócio do mercado. A gente usa antropofagia, antropofagia, eu estava falando sobre isso que eu estava achando muito desconfortável essa coisa, aí ele falou assim: “A gente não ama o que come”, né? Então, você está entendendo? Quando a gente não ama o que come, então é difícil a antropofagia... Parece um ressentimento conceitual, bom, o que é que eu quero dizer com isso? O ressentimento conceitual da antropofagia recai sobre a habilidade, o que seria habilidade? Assim, o artesão, o pré-artístico. Então, nós somos o país da habilidade, do jeitinho brasileiro, entendeu? Então, nós vendemos o primitivo, o exótico, o balangandânico, por exemplo, sem querer. Nada mal a Carmem Miranda [Carmem Miranda (1909-1955), cantora e atriz], mas a Carmem Miranda é um anti-ícone para a gente, porque é uma coisa que é o fake do fake do fake. E a nossa auto estima que é baixa, baixíssima basicamente, a gente fica orgulhoso, pô, a gente representando uma política da...

Eduardo Muszkat: E a Bebel Gilberto [Isabel Gilberto de Oliveira, cantora e compositora, filha de João Gilberto - tido como o inventor da batida da bossa nova - e Miúcha, também cantora e irmã de Chico Buarque] aí que, por exemplo, vendeu quinhentas mil cópias?

Lobão: Vou chegar até lá, eu vou chegar lá, eu vou chegar lá. Então, a gente fica embevecido, eu acho a Bebel um amor de pessoa, eu conheço a Bebel. Mas eu acho que exportar bossa nova, você vê a rapaziada ouvindo bossa nova. Eu não ouço bossa nova, eu respeito a bossa nova, mas acho um anacronismo machadiano, sabe? Com várias varizes por todos os membros, você está entendendo? É uma forma, eu falo, é o falso absoluto, é como você achar lindo a Vênus de Milo [famosa escultura grega cujos braços foram danificados e descartados com o tempo] com dois braços, é bacana, é bem feito, mas não quer dizer nada, é aquela coisa, é ausência de...

Antônio Carlos Miguel: Mas tem bossa nova com eletrônica.

Lobão: Não.

Antônio Carlos Miguel Está rolando mil coisas... Não é uma coisa congelada.

Lobão: Sim, mas ai é um direito.

Antônio Carlos Miguel Mas se está congelada...

Lobão: Sim, sim, mas...

Antônio Carlos Miguel: Independente de estar congelada está muito quente também.

Lobão: Sim, sim, eu acho que, eu acho fake, isso é um ponto, eu acho que isso é fake [usa o termo em inglês por diversas vezes, no sentido de algo falso, artificial].

Antônio Carlos Miguel: É uma questão de gosto.

Lobão: Fake, não é uma questão de gosto não, é uma questão de ponto de vista antropológico, eu acho que é.

Pedro Alexandre Sanches: Mas você fez isso com o samba, ou não?

Lobão: Não.

Pedro Alexandre Sanches: Misturando samba com eletrônico é a mesma coisa que a Bebel faz.

Lobão: Não, não é isso, eu não estou falando da mistura nem nada não, estou falando que nosso orgulho, o que eu quero falar é uma coisa muito localizada.

[...]: Sentimento nacionalista.

Lobão: Olha só, o nosso orgulho endêmico com a bossa nova é alguma coisa que eu acho que é meio necrófago, é uma coisa esquisitíssima. Eu acho a bossa nova ótima, eu acho bacana todo mundo misturar aquelas coisas com coisas, eu pessoalmente... Têm coisas legais, coisas super criativas, principalmente com eletrônico, mas olha, “papauera berabera” é muito, muito desagradável, eu acho desagradável, eu não acho que representa a nossa rapaziada aqui, você está entendendo? Eu falo isso, porque eu falo “porra, eu estou fazendo uma música há vinte anos, esses caras estão fazendo bossa nova”. Eu talvez eu tenha uma parada que é a seguinte: às vezes, você vê que no meu disco tem "amanheceu na lagoa", talvez eu faça bossa nova.

Adriana Veri Silva: Mais fraquinho assim.

Lobão: Não, eu faço legal, eu sei fazer, mas eu acho que quando eu faço, porque eu faço... e eu sinto uma coisa inorgânica, eu sei fazer. Faço até choro, vou até às lágrimas, porque acho que isso até faço bem, mas eu sinto “não é isso”. Por isso que eu volto a fazer barulho e sou violento, mas é que quando eu falo isso eu sinto uma necessidade histórica de estar fazendo aquilo, quando eu falo “eu” eu falo do coletivo, sabendo que isso é sempre colocado à margem da produção. E quando vamos fazer uma coisa para exportação, a gente exporta bossa nova e isso realmente eu acho um erro histórico, porque não rola, pô! Senão eu estava aqui “papauê”, porque eu sei tocar uma bossa nova sensacional, agora, acho que...

Antônio Carlos Miguel: Então, a sua questão com o João Gilberto e "Me chama" passa por aí então?

Lobão: Eu acho que ele está no estilo dele, eu acho bacana ele fazer aquilo, agora, eu não vou, por causa disso, tocar. Vou tocar "Me chama" do jeito clássico que foi nascido que é da maneira que eu toco, que eu acho que é o correto de se tocar.

Paulo Markun: Lobão.

Lobão: É assim que se grava "Me chama", senão não teria feito áudio “aonde está você? Me telefona”, não é assim.

Paulo Markun: É que nosso tempo está acabando, a última pergunta. Mas eu queria antes deixar um registro de várias ligações aqui, Leonardo Copi, da Vila Mazzei, de São Paulo, Sandro Stecanelli, de Caxias do Sul, Rio Grande do Sul, Jorge de Salvador e Eduardo Azevedo, de Araraquara, São Paulo. Todos eles querem saber como entrar em contato com o seu Universo Paralelo, se você pode lançar uma banda, se pode abrir os seus shows, como quem tem uma banda de hip hop e assim por diante. Como é que entra em contato com você?

Lobão: Olha, rapaziada, vocês entram em contato pelo site e pelo e-mail lobao.com.br, né, que é o site. Ou lobao@lobao.com.br sem o til.

Paulo Markun: E, para finalizar, o Rubens Nogueira da Vila Madalena faz a pergunta que eu acho que pode fechar isso, que é o seguinte: "como anda a sua vida musical e quando que você vai lançar o seu próximo trabalho?"

Lobão: Pô, mas que curiosidade, eu estou fazendo pô! Eu fiz uma música chamada "Capitão gancho". Fiz e eu estou fazendo um repertório legal, estou fazendo músicas com o Cazuza, já estou com o disco pronto, basicamente. Só estou esperando o disco ao vivo, nós temos várias coisas para fazer. Aliás, eu já estou tocando as músicas novas e várias músicas novas vou começar a gravar o disco agora com Plínio e vou ver como está soando. Porque agora eu vou tocar guitarra. Agora sou guitarrista, abandonei o violão clássico, porque eu falo da bossa nova porque tocar chorinho, toco chorinho, Villa-Lobos, amo tocar Villa-Lobos, todo o repertório Villa-Lobos. Agora eu estou tocando guitarra, nunca toquei guitarra assim, então eu quero experimentar essas sonoridades é... de guitarrista agora, virei um guitarrista, sou um Jimmy Hendrix [Jimmy Hendrix (1942-1970), cantor, compositor e guitarrista] da guitarra “chibdibaudon” [imitando tocar uma guitarra]. Então, eu estou lá fazendo e nós temos muitos shows por aí, temos muita coisa, meu power trio [banda de três integrantes, com baixo, guitarra e bateria] está maravilhoso, estou adorando tocar ao vivo, nossos shows estão esfuziantes e provavelmente vai sair um disco exclusivo esfuziante também, evidente, né? Com uma linguagem extremamente revolucionária, aquelas coisas todas, e eu acho que é isso, eu acho que vocês têm que entender que esse entusiasmo que a gente falou... só para alinhavar aquilo tudo... a gente tem que ter um determinado tipo de paudurescência, sabe? Que é uma espécie de empreendimento entusiasmante e passar isso para a rapaziada, porque o universo está em expansão e nós temos que ter na cabeça não essa coisa de “não, o mundo é assim”, não, não, o mundo é sempre transformado. Eu estou lendo livros assim de pessoas extremamente otimistas e eu acredito nisso, o universo está em expansão, a gente que faz a hora, a gente que determina as coisas, o mundo era bem pior quando Newton [Isaac Newton, (1643-1727), cientista, físico e matemático. Conhecido por descrever a lei da gravidade] deixou a maçã cair, viu a maçã cair, devia ser um desalento naquela época, não é verdade? Agora é muito melhor, provavelmente daqui a cem anos estará muito melhor, se não tivermos explodido o planeta, não é verdade? É isso aí, ao ícone, ao Universo Paralelo. Estou feliz.

Paulo Markun: Obrigado, Lobão. Obrigado vocês que estão em casa, aos nossos entrevistadores. Nós voltamos na próxima segunda-feira com mais um Roda Viva, uma ótima semana e até lá.      

 

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