Memória Roda Viva

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Paulo César Pinheiro

23/2/2004

O letrista e poeta fala de novas e antigas parcerias e comenta como articula as palavras com a melodia formando belas composições

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Paulo Markun: Boa noite. Ele nasceu à beira-mar, aprendeu a fazer poesia olhando para o mar e tornou-se um dos mais produtivos autores de letras da música popular brasileira, muitas delas feitas quase na areia. O Roda Viva entrevista esta noite o compositor e cantor Paulo César Pinheiro, autor de mais de 1500 composições, parceiro de dezenas de compositores brasileiros e agora, de certo modo, parceiro dele mesmo também.

[Comentarista]: A voz rouca e nostálgica ajuda a resgatar a melancolia do samba de que Paulo César Pinheiro diz sentir falta. O samba como choro de lamento, de tristeza, o samba que descente do negro escravo. Com voz de lamento, ele canta o samba ausente, os amores ausentes, as perdas e a saudade.

[Depoimento de Paulo César Pinheiro]: Nos últimos tempos, na última década pelo menos, morreram muitos parceiros meus, morreu Tom [Jobim (1927-1994), pianista e compositor, um dos músicos brasileiros mais reconhecidos internacionalmente], morreu Baden [Powell (1937-2000), violonista que compôs, juntamente com Paulo César Pinheiro, a música "Lapinha" que venceu a I Bienal do Samba], Mauro Duarte [(1930-1989), pianista e percussionista], Mauricio Tapajós [(1943-1995), músico e instrumentista. Teve diversas músicas gravadas na década de 1970, incluindo "Pesadelo", com Paulo César Pinheiro], Raphael Rabello [(1962-1995), violonista], João Nogueira [(1941-2000), cantor e compositor], então todas as idéias que eu tinha e passava muito para eles, não tinha mais para quem passar, aí eu comecei a fazer sozinho.

[Comentarista]: O Lamento do samba é o primeiro disco solo de Paulinho, depois de ter gravado oito com outros cantores e compositores e se tornado o letrista que mais parcerias fez na música popular brasileira. Pode-se dizer que ele compôs e cantou com todo mundo em trinta e cinco anos de carreira. Começou muito cedo, aos 15 anos fez a primeira música, "Viagem", com o primeiro parceiro, João de Aquino. Aos dezesseis começou a parceria com Baden Powell, quando teve sua primeira música gravada. "Na Penha", levada pela voz de Elis Regina, abriu caminho para a interminável lista de canções e parcerias que marcariam a obra do autor. Em todo o repertório, Paulo César Pinheiro carrega a marca do poeta que começou a se formar na infância. Filho de pais operários saiu do subúrbio fluminense de Leopoldina com a família para Jacarepaguá. Em São Cristóvão e depois Angra dos Reis, onde ao mar lançou o primeiro verso aos trezes anos, centenas de outros versos vieram e viraram música, poesia e viraram livros também. Canto brasileiro foi o primeiro deles, depois atabaques, violas e bambus e viola morena. Quando Paulo César Pinheiro se deu conta tinha muitos poemas falando de mar, por mais que falasse de vida, por mais que falasse de amor. Reuniu tudo e mais um pouco em um quarto livro, Clave de sal, que tem na capa uma pauta musical e um fundo de areia de mar. É a lembrança do areal das ilhas que pisou, das ondas por que vagou, do cais onde caminhou entre barcos, histórias de canoeiros e visagem de sereias e fantasmas, como ele diz, guardou tudo em seu espanto de menino e em seu alumbramento de poeta. O mar embrenhou nele e ficou.

O mar tem muito mistério, a vida muito segredo, o mar às vezes assusta, a vida às vezes dá medo. A gente é só marinheiro, a vida é como o oceano, no mar tem barco-fantasma, na vida tem desengano. O mar é pura aventura. A vida é a grande viagem.

É a poesia de quem tem sal no sangue, maresia nos olhos, corte de ostra na perna, remo e rumo no coração. Muitos poemas já viraram letras de músicas, outros ainda devem virar, é o mar ensinando a poesia e a poesia ensinando a canção com voz de lamento.

Paulo Markun: Para entrevistar o compositor e cantor Paulo César Pinheiro convidamos: Mauro Dias, jornalista e crítico de música; Eduardo Gudin, compositor, violonista e arranjador; Hugo Sukman, crítico de música e repórter de cultura do jornal O Globo; João Bosco Rabello, diretor da sucursal de Brasília do grupo de O Estado de S. Paulo; Magro Waghabi, cantor, produtor, arranjador e diretor musical do grupo MPB 4 e Pasquale Cipro Neto, professor de português e apresentador  do programa Nossa língua portuguesa, da Rádio Cultura AM e da TV Cultura. O Roda Viva, como você sabe, é transmitido em rede nacional para todos os estados brasileiros e também para Brasília. Hoje o programa não permite a participação do telespectador, porque está sendo gravado. Paulo César, boa noite.

Paulo César Pinheiro: Boa noite.

Paulo Markun: Vou começar com uma provocação, você se sente às vezes integrante de uma profissão quase que em extinção? Porque letrista de música, dá a impressão, vendo os novos músicos, que é uma raridade. Quer dizer, quase todo músico hoje é também cantor, porque é aí que ele fatura.

Paulo César Pinheiro: É verdade, às vezes me sinto, sim. Já comentei isso diversas vezes com amigos mais próximos, da dificuldade que eu vejo de aparecer alguém que tenha especificamente essa profissão. Normalmente, quando um compositor aparece, aparece fazendo as duas coisas e nem sempre uma coisa é maior do que a outra ou nem sempre ele faz disso o seu principal motivo de composição. Então, eu sinto falta de ver letristas novos aparecerem, digo isso até com muita consciência, porque sou muito procurado pelos mais novos. Tem meninos entre 18 e 25 anos que me procuram muito para fazer letras para músicas deles, e devia ter até alguém da idade naquele momento com o qual ele pudesse partilhar isso.

Paulo Markun: Agora você, se eu não estou enganado, você joga nas duas, ao contrário de outros letristas que são puramente o sujeito que coloca a letra da música de outro, você também faz composição, tanto que seu último disco, o Lamento do samba, é todo de composição, por isso que dá esse trocadilho parceiro de si mesmo, quer dizer, são letras e músicas suas.

Paulo César Pinheiro: Mas eu, quando comecei a escrever, comecei muito jovem, comecei com treze anos de idade. Acho que os primeiros versos já saíam com músicas por trás na cabeça, já tinha mais ou menos o caminho musical que eu queria para cada verso. É, mas como eu não tocava nenhum instrumento e nem toco, a música ficava mais guardada e eu mostrava mais o verso. Naquele momento eu tinha um vizinho em São Cristóvão, lugar onde me criei, subúrbio do Rio de Janeiro, que era o João de Aquino [(1945- ), violonista e compositor], que foi o meu primeiro parceiro que tocava violão e eu aí fui a ele para mostrar os versos e tal e a gente começou a fazer música juntos, foi o meu primeiro parceiro. E eu já mostrava com aquele canto, alguns desses versos, com cantos que eu já tinha na cabeça.

Paulo Markun: Já tinha uma melodia ali por trás, subrepticiamente?

Paulo César Pinheiro: É, por trás, exatamente, já tinha... eu já enfiava minha canção ali, mas começamos a fazer a parceria, o João muito mais compositor de melodia, jamais fez letras, e eu comecei a fazer muito com ele e fui tomando gosto por escrever não só a poesia de livro quanto a letra de canção. E a música foi ficando um pouco para trás. Continuei fazendo, esporadicamente, às vezes inteira, música e a letra, mas guardava, não tinha muito peito, muita coragem de mostrar. E assim fui sendo parceiro do João, passei para o Baden [Powell], que era primo dele, foi através do João que conheci o Baden [Powell] e aos dezesseis anos eu já era parceiro do Baden [Powell]. E por ele eu conheci todos os outros, os mais importantes: Dori [Dori Caymmi (1943- ), compositor, violonista e cantor, filho de Dorival Caymmi], Edu [Eduardo de Góis Lobo (1943- ), compositor, arranjador e instrumentista brasileiro, grande parceiro também de Chico Buarque e Tom Jobim], Francis [Hime], Tom [Jobim] e assim por diante. E aí me dediquei exclusivamente a fazer isso, continuando a fazer minhas músicas e guardando, até que ultimamente eu acho que a inspiração está vindo mais para esse lado... nos últimos anos, e eu fiz muita coisa talvez até porque muitos de meus parceiros já morreram, né? E eu, na falta deles, aqueles motivos melódicos que eu passava para cada um na hora de compor, já com um pedaço de letra, comecei a fazer sozinho, desenvolver sozinho.

Paulo Markun: Você faz cantando a música?

Paulo César: Eu até peguei violão no meu comecinho, mas quando eu comecei a ser parceiro de violonistas virtuosos, como eram o Baden [Powell], o João [Gilberto], como era o Raphael Rabello, o Dori, que tem um violão especial e tal, eu larguei o violão de lado e nunca mais peguei. Então, aquele pouco que sabia lá atrás, até aquilo esqueci, perdi, mas a melodia está dentro de mim. Eu, quando canto uma música minha para um parceiro qualquer me acompanhar e fazer harmonia e tal, eu sei exatamente fazer a harmonia que a música pede. Se ele fizer um acorde que não é, eu digo, eu sinto na cabeça até o acorde que eu quero e não sei fazer, mas está aqui dentro, a música está em mim.

Hugo Sukman: Lembro da última vez que fui na tua casa fazer uma entrevista com você, você estava me esperando lá na porta, na Barra, e você começou a me mostrar as árvores de frutas e eu me lembro de você mostrando maracujá e falando: “Pô, isso não tem mais no Rio”. Aí a gente entrou e começou a falar da sua música, da sua melodia e de seus parceiros que já morreram, que não estavam mais ali e depois a gente começou a falar de conscientização, que tipo de samba que é o tema do seu disco, samba mais com lamento também não existe mais. Eu queria saber como você lida com a nostalgia? Eu estou perguntando isso, porque eu não vejo na sua obra nostalgia propriamente, acho que ela é sempre contemporânea, você está sempre falando dos sentimentos atuais, você nunca perdeu isso e eu vejo uma tendência atual do samba, principalmente do samba, uma tendência à nostalgia, vejo garotos de dezoito anos vestidos como se fossem os avós deles e fazendo um samba antigo e o samba nunca teve isso, o samba sempre foi uma coisa moderna, contemporânea, enfim, eu queria um pouco sua reflexão sobre esse assunto.

Paulo César Pinheiro: Ainda é. Esse samba de lamento que eu sempre falei e fiz esse disco, não que ele tenha acabado, ele não acabou, não, tem gente que faz, sim. Tem uma geração aí, que tem seus quarenta anos hoje, que, na verdade, foi esmagada por um processo político que aconteceu depois dos anos 1970, que não pôde botar o pescoço de fora, uma geração que foi depois da minha. Então, o Pedro Amorim [(1958-) compositor e instrumentista. Começou a carreira integrando o conjunto Nó em Pingo D'água, com o qual realizou a primeira gravação, em disco da Funarte dedicado ao centenário de João Pernambuco, em 1993], o Sérgio Santos [(1956-) instrumentista e compositor. Em 1982, participou do espetáculo Missa dos Quilombos, de Milton Nascimento, e da gravação do LP homônimo no ano seguinte. Além disso, fez muitas parcerias com Paulo César Pinheiro], minha mulher, Luciana Rabello [(1961-), compositora e cavaquinista], uma série de outros compositores, Moacyr Luz [(1958-) compositor e cantor. Sua obra já foi gravada por intérpretes como Maria Bethânia, Emílio Santiago, Nana Caymmi, Leila Pinheiro e Elba Ramalho, entre outros], que é um grande compositor de samba. Essa geração seria a geração substituta da minha e que não foi, não conseguiu se mostrar. Eles ainda fazem esse samba. Esses mais novos de que você fala estão retomando esse processo e eu acredito que, com eles, o processo evolutivo vai continuar, que já é a geração da minha filha, que toca cavaquinho, que tem um conjunto chamado Regional Carioca, que esta semana começou a gravar o primeiro CD. Esse pessoal não só está prosseguindo o que a gente fazia, como estão fazendo sambas belíssimos, sozinhos, com esse caminho do lamento do samba que me parece que foi perdido ao longo do tempo. Porque, na verdade, o samba nasceu assim, o samba... ele é uma voz de revolta do negro escravo e, ao mesmo tempo, um lamento de dor, do sofrimento passado por eles. Então, me parece que ele hoje está alegrinho demais para o meu gosto, o samba não é alegre. Vinicius de Moraes [(1913-1980), poeta e compositor. Foi ainda diplomata e jornalista, mas foi na música que mais se destacou], meu grande mestre, já me dizia, mestre e amigo, me dizia e a nós todos: é melhor ser alegre do que ser triste, alegria é a melhor coisa que existe, é assim como a luz no coração. Mas para fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza, senão não se faz um samba não, não é isso? Então, é esse que eu acho que é o caminho que o samba perdeu e que essa garotada mais nova pegou esse caminho e está se direcionando para isso agora. E eu acho que o samba é, no Brasil, a grande revolução. A revolução musical no Brasil ainda é o samba, que é a grande busca de identidade nacional para todo o resto do mundo.

Mauro Dias: Paulinho, esse disco da sua filha faz parte de um projeto seu e da Luciana que tem como objetivo ajudar essa turma nova a mostrar a cara. Acho que seria interessante falar sobre isso, porque talvez seja a primeira iniciativa comandada por alguém reconhecido nacionalmente.

Paulo César Pinheiro: Essa idéia surgiu há quatro anos mais ou menos e ela não partiu de mim, partiu dela, da Luciana, ela se juntou com o Mauricio [Carrilho, que com Luciana e seu irmão, Raphael Rabello, compunha o grupo Os Carioquinhas, considerado um dos mais importantes de sua geração], e fizeram uma sociedade com uma gravadora pequena chamada Acari Record. Acari, porque o estúdio da gravadora é em Acari, um subúrbio carioca. Uma gravadora que nasceu com o intuito de gravar instrumental, o choro brasileiro, né? Não se gravou nada cantado até agora. E já fizeram um catálogo grande, fizeram uma pesquisa de choro muito grande com patrocínio forte, fizeram uma série de quinze CDs, cinco triplos com a história do choro de 1840, se não me engano, a 1880. Não chegou nem no século XX, e ali você viu o embrião, o começo da grande música brasileira, porque os meninos que faziam choro, nessa época, eram os mesmos músicos que tocavam na corte imperial, né? Eles na corte tocavam e faziam as músicas dos salões imperiais. Na rua, nos quintais das casas, eles faziam o choro e na zona eles faziam o samba, eram esses músicos que viajavam com a corte para tocar em outros países. E esses caras, todos mulatos, eles plantaram esse embrião que deu esse filão de importância que essa música tem para o mundo inteiro. Então, a gravadora foi para isso, tirou lá de trás a base, o fundamento para mostrar às pessoas e estão fazendo o que é novo, não estão gravando choros conhecidos, como as gravadoras inicialmente sempre fazem quando procuram grupos de choro para gravar músicas do Pixinguinha [Alfredo da Rocha Vianna Filho (1897-1973), flautista, saxofonista, compositor, cantor. É considerado um dos maiores compositores da música popular brasileira. Em 1919 formou o conjunto Oito Batutas que fez sucesso entre a elite carioca, tocando maxixes e choros e utilizando instrumentos até então só conhecidos nos subúrbios cariocas], do Jacob do Bandolim [(1918-1969), músico, compositor e bandolinista. São de sua autoria clássicos do choro como "Noites cariocas" e "Doce de coco"], de pessoas que todos conhecem e quem está fazendo choro hoje não tem espaço, não pode gravar, tem que gravar sempre as conhecidas. A gravadora nasceu para isso, para mostrar isso. E ultimamente se aliou à Biscoito Fino que também é uma gravadora nova, que também está começando agora, mas que já tem um catálogo considerável e inventaram um selo "Quelé" em homenagem à Clementina de Jesus [(1901-1987), também conhecida como Tina ou Quelé (por isso o nome do sel. Grande sambista carioca. Gravou, juntamente com Pixinguinha e João da Baiana, Gente da antiga, em 1968], que é a nossa grande mãe. E o primeiro disco do Quelé é o Lamento do samba, o meu, que é um projeto de doze CDs cantados que vem depois de mim Roque Ferreira, que é um compositor baiano de Nazaré das Farinhas, que é um grande escritor além de compositor, depois vêm o Alfredo da Penha e Pedro Paula Malta, que são dois meninos que surgiram na Lapa recentemente, desse movimento da Lapa e estão fazendo um disco como fazia o Ciro Monteiro, aquele disco da dupla De leve Jorge Veiga e tal [refere-se ao disco De leve - Jorge Veiga e Cyro Monteiro] uma coisa mais ou menos assim. O disco do Maurício cantado, o da Luciana cantado, do Pedro Amorim, do João Lira, que é um belíssimo compositor, músico extraordinário, mas pouco conhecido como compositor, vai fazer um disco lá para mim são doze CDs ao todo do projeto. Começou com o meu para abrir o caminho e esse ano inteiro é ano de gravação para mostrar isso aí, pessoas que não puderam botar o pescoço de fora, e estão começando agora com quarenta anos de idade.

Magro Waghabi: E onde está o público, quer dizer, eu estou colocando a coisa em termo de cultura e mídia. Como funciona para você, como você espera encontrar o público que vai ouvir isso? Eu sei que tem, mas como você vai chegar lá?

Paulo César Pinheiro: Olha, tem um público ágil que há muito tempo não agüenta mais o que toca no rádio. É um público que está consumindo cada vez mais discos independentes ou discos de gravadoras pequenas, que não têm espaço nas emissoras de rádios, essas músicas já não tocam mais, ao contrário do nosso tempo. A gente ouvia; eu, pelo menos, me lembro muito bem...

Pasquale Cipro Neto: Posso fazer uma ressalva a nossa querida rádio Cultura?

Paulo César Pinheiro: Claro.

Pasquale Cipro Neto: E com muito orgulho à bandeira da casa, nós tocamos tudo isso, rádio Cultura 1200 AM.

Paulo César Pinheiro: É, mas são raras...

[  ]: Por que não toca nas rádios?

Paulo César Pinheiro: Por uma série de coisas, mas principalmente pelo jabá [abreviação de jabaculê, dinheiro usado para corromper alguém]. Porque as emissoras de rádio... os horários são todos comprados. Já houve casos de independentes com um pouco mais de dinheiro que dizia assim: também quero comprar um horário para botar meu disco para tocar. E dizem: não pode, porque a multinacional pagou para você não tocar também, eles pagam para eles tocarem e para você não tocar.

Pasquale Cipro Neto: Que é isso? É o fim da picada!

Paulo César Pinheiro: Então é um nó!

Hugo Sukman: Mas não tem uma culpa de vocês nisso também, do pessoal do samba? Quer dizer, agora é uma colocação também. Eu sempre ouço esse papo de lamentações desse histórico do samba e nós estamos vivendo um momento agora que o samba nunca foi tão popular, talvez só no período da Clara Nunes [(1943-1983), cantora considerada uma das maiores intérpretes de samba, foi casada com Paulo César Pinheiro, morreu cedo e de forma trágica numa reação à anestesia por ocasião de uma cirurgia], quer dizer...

Paulo César Pinheiro: Eu não estou falando só de samba, não, no caso, o papo é jabá.

Hugo Sukman: Não, não. No caso do samba, por exemplo, o Monarca é um compositor conhecido, o Zeca Pagodinho, enfim, existe um samba comercial que toca muito. Esse bom momento que você está falando de existir uma gravadora que vai lançar doze discos, no ano, de samba, né? Em um ano. Não é reflexo de grande momento? Quer dizer, como aquele sucesso da Clara Nunes, que gerou Bete Carvalho, Alcione, toda aquela geração, Alberto Ribeiro... Agora a gente está vivendo um momento parecido, ou seja, não é um momento bom para a música brasileira e para o samba especificamente?

Paulo César Pinheiro: Olha, não foi por causa disso esse ressurgimento desses meninos novos ou desses mais velhos que estão na faixa dos quarenta e que estão começando a mostrar isso agora, não é reflexo desse samba que você está dizendo, não. Isso já vem de antes, da ânsia, da sede que todo mundo está de escutar coisa boa, música boa. Eu estou falando de música boa, não estou falando de mercado: estou falando de arte. Houve uma mudança, uma inversão de valores nessa história. As pessoas começaram a buscar aquilo que o mercado está querendo e na minha época o mercado é que vinha atrás da gente.

Magro Waghabi: Que nem os festivais, as músicas que dominavam os festivais. E teve um determinado momento em que os festivais começaram a dominar a música e mudou tudo.

Paulo César Pinheiro: Eu acho até que vai haver uma inversão de novo, isso vai acontecer. Até porque as multinacionais daqui a algum tempo já não vão ter mais vez, né? Já não têm mais estúdios, por exemplo, venderam todos os estúdios e daqui a pouco não vão ter mais vez mesmo. Porque as pequenas gravadoras, os pequenos selos e os independentes estão tomando conta de um mercado paralelo que está crescendo e que vai pegar o mercado grande também. Exatamente por essa falta e porque eles não puseram absolutamente nada no lugar, a não ser aquilo que eles acham que vai vender muito em pouco tempo. Eles não estão fazendo mais catálogos, por exemplo. Então, nos últimos tempos, o que tem mais saído em multinacional e sustentado mais as casas são os catálogos. Eles estão reinvestindo nos catálogos, porque eles fizeram, mas não estão fazendo mais para o futuro, e esses catálogos hoje pertencem às gravadoras pequenas e as independentes daqui a vinte anos terão um catálogo que as multinacionais não terão jamais.

Eduardo Gudin: Então, seguindo um pouco a idéia do Hugo para tornar essa questão do samba mais uma provocação, enfim, que é o seguinte: esse samba que o Hugo disse que toca na rádio que, enfim, otimiza nossa situação atual, você sente alguma diferença desse samba de Jorge Aragão, Zeca Pagodinho, Paulinho da Viola e do Cartola, que esse que não toca?

Paulo César Pinheiro: Absolutamente, sim, claro, há uma diferença brutal.

Eduardo Gudin: Então, esse samba seria mais comercial? Eu queria que você falasse mais sobre isso.

Paulo César Pinheiro: Exatamente. Essa voz do lamento, que falei anteriormente, esses sambas perderam um pouco. Não que isso não tenha vez, é claro, todo mundo tem vez, aliás, eu luto pela democratização dos meios de comunicação... que possam tocar todas as coisas e não uma coisa padronizada só. Então, essa voz de lamento que falei anteriormente é o que eu sinto que perdeu nesses sambas. É nítida a diferença entre o que o Cartola, Paulinho da Viola e nós fazemos e esses sambas dessa turma mais nova. Muitos desses sambas, até a grande maioria, a gente sabe fazer e a gente faz em uma mesa de botequim, quinze em uma noite tomando um chopp e joga tudo no lixo no dia seguinte. Para essa turma aquilo vale e vira gravação no dia seguinte, vira disco e vira música séria. Quantas a gente já não jogou fora em noite de porre? Porque é uma brincadeira, adoro essa brincadeira, adoro fazer um samba de partido alto de qualquer maneira, só para brincar, conversar, cantar, animar um botequim. Agora, até isso ser uma música de verdade e ser gravada e virar disco depois é outra história, aí passa água por debaixo da ponte. Tem que ter cuidado, a música tem que ser cuidadosamente feita, tem que ter delicadeza, sutileza, as harmonias têm que ser bonitas, as melodias têm que emocionar, as imagens...

Pasquale Cipro Neto: As imagens, as músicas têm que ter imagens. Você é um grande criador de imagem e esse pessoal não tem imagem, é tudo pá pum.

Paulo César Pinheiro: O meu lema é a emoção, é esse o meu lema.

Pasquale Cipro Neto: O importante é nossa emoção [sobre]viva.

Paulo César Pinheiro: Essa frase eu não sabia até que ponto esta frase teria sido lapidar como hoje sei, é isso aí, o meu lema, o meu timão é a emoção. Eu me lembro muito de no meu convívio com o Tom, por exemplo, que foi o maior compositor de todos os tempos do Brasil, às vezes ele me mostrando uma música em casa, o pêlo dele arrepiava, ele dizia assim: "Olha isso aqui, isso daqui é o termômetro" [mostra os pêlos do braço]. Ele dizia isso. O termômetro é esse, e eu não consigo mais levantar cabelo nenhum do corpo com o que estou ouvindo aí.[risos]

João Bosco Rabello: Eu queria pegar uma carona nessa questão da massificação, da padronização, para entrar em um aspecto que é também uma outra provocação, essa questão do pagode hoje. Tenho um filho pequeno que acha que o samba é pagode, esse pagode que toca aí. E essa coisa foi tão agravada que eu, quando conheci o termo pagode ele se aplicava às pequenas reuniões de fundo de quintal, não era um gênero musical, e esse processo foi tão violento que tornou o pagode um gênero, que é esse gênero que você colocou e essa padronização, essa coisa massificada que parece tudo igual, né? Você só ouve o ritmo e até as vozes... eles produziram milhões de cantores de pagode, né? Queria que você falasse um pouco sobre isso.

Paulo César Pinheiro: É, o pagode eu aprendi quando aprendi a fazer samba, que era uma festa, pagode não é um gênero musical, é uma festa de sambistas. O João da Baiana [(1887-1974) sambista. Freqüentava as rodas de samba e macumba que aconteciam nos terreiros cariocas, em especial na casa da Tia Ciata. Participou de blocos carnavalescos e é tido como o introdutor do pandeiro no samba], lá no começo do século passado já falava a palavra pagode nos seus partidos altos [partido alto], é assim que se fala, professor?

Pasquale Cipro Neto: É.

Paulo César Pinheiro: Então, pagode passou a ser agora, hoje, um gênero, assim como MPB passou a ser um gênero. Eu não consigo entender: é samba, pagode, samba-pagode, forró, MPB... ué, que diabo é isso!? Quem é que começou a inventar essas siglas que passam a ser gêneros musicais? MPB é música popular brasileira, forró pode ser baião, xote, xenhenhem, é um monte de coisa nordestina, mas não é MPB. Samba não é MPB. Então, isso é uma padronização, sim, efeito de uma globalização cruel que está acontecendo não só no Brasil, mas no mundo inteiro. A música do mundo ficou ruim, a música do mundo ficou pasteurizada, é uma coisa ruim. O Ariano Suassuna [(1927-), dramaturgo, romancista e poeta. Autor de O auto da compadecida], recentemente, provocou uma grande polêmica, eu li no jornal, não estava presente, quando disse que os Estados Unidos manda mais exércitos para dominar povos e manda também o Michel Jackson e a Madonna, e eu concordo absolutamente com ele, não quando ele os chama de débeis mentais, isso é outra coisa, eles não são, absolutamente, mas aconteceu isso. O Brasil muitas vezes tem alma de vira-lata, como diria o Nelson Rodrigues [Nelson Falcão Rodrigues (1912-1980), importante e polêmico dramaturgo, jornalista e escritor brasileiro], que segue o colonizador, e o colonizador muda: já foi o português, já foi o francês, já foi o holandês e hoje é o americano. E exatamente eu acho que, na década de 1970, quando houve o golpe militar, foi quando eles entraram com tudo aqui e fizeram o que fizeram com a cultura da gente. O que é dominar um país? É mexer com a língua dele, com o dinheiro dele, com a cultura dele. Os meninos estão falando mais inglês do que o português. Aliás, não conseguem nem escrever uma redação. Pasquale deve estar aí vendo horrores por aí afora. O dinheiro, a moeda é o dólar, não é o real ou o cruzeiro ou o cruzado, inventam nomes toda a hora para a nossa moeda e fica um afastamento do real, da realidade brutal. Então, é assim que se domina um povo hoje, através dessa cunha que eles enfiam no país e acabam com a cultura popular. Misturou-se tanto a cabeça do povo, que para o próprio povo é tudo igual, eles escutam Tom Jobim e Zé das Couves – para não citar ninguém – como se fosse igual, não tem mais diferença, nem de beleza, nem de importância.

Paulo Markun: Parece hambúrguer.

Paulo César Pinheiro: Exatamente. É produto, é produto.

Paulo Markun: Paulo César, eu queria retomar aquela questão do letrista, porque há vinte anos, vinte e cinco anos tinha no Rio de Janeiro, e estão aí uma parte deles, uma geração de jovens letristas. Lembro do Abel Silva [(1945-), compositor. Sua primeira composição foi uma melodia que ganhou letra de João do Vale, chamada "Eu chego lá"], Cacaso [Antonio Carlos Ferreira de Brito (1943-1987), foi professor da Escola de Comunicação da UFRJ. Poeta da geração mimeógrafo, tornou-se letrista de MPB. Dentre seus parceiros estão Edu Lobo, Djavan, Maurício Tapajós e Hermínio Bello de Carvalho], Tite de Lemos [Nilton Lisboa Lemos Filho (1943-1989), poeta, letrista, dramaturgo e jornalista], Sueli Costa [Sueli Correa Costa (1943-), compositora, cantora e instrumentista]... e hoje não tem mais, né? Nesses vinte anos o que aconteceu?

Paulo César Pinheiro: Não sei. O que aconteceu não sei, mas eu sinto muita falta de renovação, até porque essa minha geração, e o Abel é dela e o Tite também, são até mais velhos que eu, eles – eu ia dizer uma coisa e esqueci. Ah, lembrei – até porque essa geração minha já está cansada. Eu comecei dizendo isso, nós estamos sendo procurados pelos garotos. Quem está fazendo música bem hoje, que está começando a vida como compositor, meninos de 20 a 25 anos, estão procurando a gente.

Paulo Markun: Como se aprende a fazer letra?

Paulo César Pinheiro: Não se aprende, poesia não se aprende, isso nasce com a pessoa ou não, não há aula disso, de música até há. Para se aprender um instrumento tem que estudar, e a poesia não se estuda.

Pasquale Cipro Neto: É por isso que nenhum dos grandes escritores do mundo, nenhum saiu das faculdades de letras, elas não formam, isso é um aviso que precisa dar às pessoas, muita gente vai à escola de letras achando que vai aprender isso e aquilo, a escrever e virar poeta, romancista, esqueça.

Paulo César Pinheiro: Muita gente chama para palestras, aquelas palestras e tal, oficinas de poesia, eu recuso, porque não sei o que dizer para eles.

Magro Waghabi: Será que isso não tem a ver com a escuridão dos anos de chumbo, a ditadura, com a política, com a censura?

Paulo César Pinheiro: Pode ser que sim, porque quase tudo começou ali, quase tudo de ruim que aconteceu no Brasil começou ali, essa falta que a gente sente de um monte de coisa começou ali e a censura foi cruel. Você sabe muito bem disso.

Mauro Dias: Aí, você cala uma geração e, para você conseguir pular esse buraco, fica difícil. Agora me parece, ouvindo muito a produção independente, que existe, sim, uma turma escrevendo bem, só que ela não está acessível para a gente. Se você faz parte de festivais você vê algumas boa letras escritas de gente que nunca viu. Aí me parece que torna a coisa conjuntural, temos um problema, temos produção, temos música boa sendo feita, temos letra boa sendo feita, acho que a música está bem melhor do que a letra, mas existe, e a palavra você caça com mais facilidade do que a linha biológica. E que esforço você acha, Paulinho, que pode ser feito para inverter? Eu acho que tem a tendência de inversão, tem a questão dos catálogos que as independentes fazem. Mas e hoje, dá para fazer alguma coisa hoje? Você tem um show lá no teatro Clara Nunes, você vê alguma coisa que se possa fazer mais?

Paulo César Pinheiro: Esses shows que estão acontecendo lá às terças-feiras são shows instrumentais, não tem nada cantado. Mas eu vejo da seguinte forma: há letras boas? Há letras boas, esporadicamente há letras boas. Tem uma história de casamento, de elo, de ligação entre música e letra que é muito séria e é isso que não se ensina. Você sente o que a música diz ou não. Então tem muita gente que musica versos e faz a música que ele quer para aqueles versos, não às vezes a música, como a maioria das vezes as músicas que os versos querem e vice-versa. Você dá uma música para alguém e o cara faz uma letra, mas isso não quer dizer que a música...

[  ]: Que a música não estava querendo aquilo.

Paulo César Pinheiro: A música não estava querendo aquilo lá. Então, aí fica um negócio meio descasado, meio desunido, então não é bem isso. O que eu estava dizendo que eu sinto falta é esse cara que descobre essa letra que a música está pedindo, que ela quer. Agora, para isso, primeiro o dom, você tem que nascer com esse negócio. Eu não posso explicar isso, porque eu não tive escola, eu não aprendi, isso veio comigo.

João Bosco Rabello: Paulinho, é justamente essa questão do dom que eu queria que você falasse um pouco, porque em outras conversas que eu tive com você e com outros músicos existe um ponto comum que eles não conseguem explicar ou a explicação fica um pouco subjetiva, eu quero ficar um pouco místico aqui. Como é essa relação da criação? Como é a inspiração para você? Uma vez você me disse que quando você pára essa relação por um tempo é difícil depois para você retomá-la, você sente que tem que fazer um esforço imenso. Teve uma vez que você parou, ficou alguns meses sem trabalhar e quando você tentou retomar você fez um esforço imenso e você usou o termo para mim assim: "Eu tive que religar". Como é que é essa coisa transcendental desse processo?

Paulo César Pinheiro: Isso acontece muito com o Chico [Buarque] também. O Chico quando fica muito tempo assim escrevendo um livro ou à margem da música, quando ele volta, ele começa a engatinhar tudo de novo, parece esse processo de religação. Mas, olha, começou, para mim, começou da seguinte forma: eu até meus treze anos eu não era um bom aluno, um bom estudante, por exemplo, não lia muito, não, não lia nada, até que pintou esse dia. E esse dia eu jamais esqueci porque foi um dia fundamental da minha existência. Eu, diante de uma... eu estava em uma janela em Angras do Reis, no lugar de nascimento de minha mãe e onde eu passei grande parte de minha vida, na janela da casa de uma tia, olhando para o mar e agoniado sem saber o que estava acontecendo comigo. Uma lua linda caindo no mar, eu olhando para aquilo agoniado, com treze anos de idade, querendo dormir e sem poder e sem saber o que era que estava acontecendo. Aí não sei o que me fez sair correndo para um lápis e um papel que eu vi por perto e escrevi um verso, depois que escrevi esse verso acalmei e dormi. A partir dali...

Pasquale Cipro Neto: Que verso era esse?

Paulo César Pinheiro: Eu não me lembro mais.

Pasquale Cipro Neto: Eu fiquei pensando aqui que pudesse ser o começo de "Viagem".

Paulo César Pinheiro: Não, não. Um verso qualquer que pintou assim, de repente, como se fosse um elixir mesmo, um lenitivo daquele sufoco que eu estava passando ali naquele momento. Acabou, eu dormi, e a partir do dia seguinte eu fui ler, li e tal, versos bobos de criança de quem não sabia nem escrever, porque não lia. Mas achei interessante, gostei daquilo e comecei a fazer. Aquilo foi o primeiro clique, eram férias escolares. Quando voltei para casa a primeira coisa que eu fiz foi procurar livros para ler.Tinha uma biblioteca, eu morava em São Cristóvão, tinha uma biblioteca no centro da cidade, biblioteca Castro Alves, hoje é um bingo. [risos] Para você ver. E eu me associei à biblioteca e a gente podia levar dois livros para casa a cada dois e eu nunca mais parei de levar livros para casa, lia sedentamente de tudo. Eu lia os gregos, com essa idade comecei a ler assim e ninguém me dizia assim: leia tal livro! Não. Eu ia e pegava um e lia tudo, li até A metamorfose, que é uma leitura pesada do [Franz] Kafka [(1883-1924), escritor tcheco de família judia e língua alemã, é considerado um dos expoentes da literatura germânica, com temática ligada à fragilidade do ser humano frente às instituições e aos costumes. Entre outros, escreveu Carta ao pai (1919) e O processo, publicado em 1925] e eu li, Sócrates [(470 a.C.-399 a.C.), ateniense considerado um dos fundadores da filosofia ocidental. Como não deixou escritos, suas idéias ficaram conhecidas por meio de seu discípulo Platão], Platão [(428 a.C.-347 a.C.) filósofo ateniense, discipulo de Sócrates, que parte da investigação do mestre sobre conceitos éticos universais para uma concepção de mundo bipartida: haveria um mundo ideal do qual a realidade não passaria de cópia imperfeita], a literatura brasileira eu devorei em pouco tempo. De quinze para dezesseis anos eu tinha lido muito, muito e muito e aí eu já estava escrevendo e aí a poesia foi começando a ficar bonita, porque eu estava começando a dominar minha língua, a escolher as palavras corretas.

Paulo Markun: E aí já tinha música nessa poesia assim? Já tinha aquela melodia?

Paulo César Pinheiro: Tinha, tinha. Pois é, aí a música foi começando a crescer junto, eu fiz "Viagem" [composta em 1964, com João de Aquino, foi gravada por inúmeros intérpretes e fez muito sucesso, tornando-se um dos clássicos de nosso cancioneiro] por exemplo, que é um clássico hoje do cancioneiro popular, esta música está fazendo quarenta anos, eu fiz com quatorze anos. E é a música que até hoje me rende mais direito autoral de toda a minha obra. Foi a primeira séria, dali em diante eu perdi o medo e fui embora. Mas e aí, como eu vou explicar isso que aconteceu? Não tenho a menor idéia do que aconteceu, foi um estalo.

Hugo Sukman: Você fez 3.870 músicas, né? Eu não tenho impressão, em nenhuma das suas músicas, de um certo desleixo, parece que você se entregou em cada uma. Eu queria saber como isso é possível, quer dizer, você fazer uma poesia tão vigorosa em tamanha quantidade e um comentário seu que eu acho interessante, eu me lembro, eu poderia citar outros exemplos, mas eu me lembro de duas músicas suas sobre o mesmo assunto, que deve ser um problema que você tem de arrumar assunto por escrever tanto, e lembro de uma música sua que você fala de duas formas de choro.

Paulo César Pinheiro: Três formas de choro.

Hugo Sukman: Depois você evolui para três, são duas músicas diferentes, né? Um choro-música e depois tem o choro do garçom, do copo, e vai evoluindo. Como é esse processo de escolher os temas? A qualidade e quantidade ao mesmo tempo.

Paulo César Pinheiro: Quando eu estou letrando músicas para meus parceiros, quem escolhe o tema é a música, e não eu. Eu descubro o tema que ela escolheu, que eu acho que esse é o grande mistério dessa história toda que a gente já conversou. É isso que eu não vejo mais acontecer nos letristas, isso aconteceu com o Vinícius, muito, eu aprendi com ele, com o Chico. Descobria o tema da música e fazia a letra que ela estava querendo. Não é escrever qualquer verso solto em cima da música só porque ela precisa de um verso para cantar. Então, eu primeiro eu fico diante daquela folha em branco como se um burro estivesse diante de um castelo. Eu não sei o que vai acontecer ali e fico ouvindo a música e fico deixando ela entrar em mim. Aí tem uma ligação que se dá qualquer. Aí pinta uma palavra, às vezes um verso, às vezes um tema que a música me traz. Aquilo já me arrepia. Aí daí em diante fica fácil, porque são quarenta anos de prática fazendo isso. Mas a primeira impressão é sempre a do arrepio que eu tinha dito antes. É isso o que me conduz. A intuição sempre me guiou acima de tudo, a intuição, a inspiração.

Paulo Markun: Inclusive as músicas, vamos dizer assim, não vou usar palavra ruim, mas ideológica, ou seja, como, por exemplo, Mordaça, músicas que tinham um discurso político mais...

[  ]: "Pesadelo".

Paulo César Pinheiro: É isso. Essas já eram músicas que... "Pesadelo" [de 1974], por exemplo, foi uma música feita meio junto assim, eu e Maurício [Tapajós], cantando a música juntos com a intenção de fazer isso.

[  ]: Que foi uma armadilha para vocês.

Paulo César Pinheiro: Foi uma armadilha [risos]

Pasquale Cipro Neto: Por quê? É bom explicar isso, Paulinho, para o telespectador, porque o MPB 4 gravou essa música em 72.

Paulo César Pinheiro: Pois é...É interessante a história. A história é o seguinte: a gente começou a pensar no assunto, a censura estava tão brutal naquele momento, cortava tudo e tanto que a gente resolveu fazer uma coisa clara, completamente clara, e aí a gente fez, a gente não pode mais metaforizar, vamos fazer direto, já que não tem para onde metaforizar e aí a gente fez "Pesadelo". Você corta um verso e eu escrevo outra, você me prende vivo e eu escapo morto. De repente olha eu de novo e fizemos, mostramos para o MPB 4. “— Não adianta nem gravar, porque não vai nem sequer passar pelo portão". — E se passar, vocês gravam?" "– Gravamos”. Aí a gente fez uma burla da censura, porque a censura sempre foi muito burra também e as fábricas mandavam pilhas e pilhas de letras de músicas de diversos autores, de diversos discos diferentes para a censura. Aí eles carimbavam ou não, mas eu percebia, porque eu estava gravando sempre muito e estava sempre dentro de gravadora, percebia que umas demoravam mais que as outras. Essas que demoravam mais geralmente eram nossas, as do Chico.

Paulo Markun: Ficavam na malha fina.

Paulo César Pinheiro: Ficavam, demorava bastante. Aí tinha discussão, tinha que ir lá, nós éramos chamados e aí muda, não muda. Ia para Brasília discutir, era um terror. E outras voltavam aos bolos imediatamente no dia seguinte. Aí fui ver, eram discos de carnaval, eram discos de Vagner [Luís Vagner Dutra Lopes (1948-), o "guitarreiro", cantor, compositor e instrumentista que acompanhou, entre outros, Tim Maia e Jorge Ben], discos de Agnaldo Timóteo [(1936-) cantor e político. Ficou famoso ao gravar a canção "Meu grito", de Roberto Carlos], sabe? Discos com esses caminhos aí, que eles não olhavam, e aí enfiei "Pesadelo" em uma delas, em vez de ir para o bolo que ia ser discutido, enfiei no disco do Agnaldo Timóteo. De repente, nem me lembro quando, veio rápido o carimbo da censura liberando. Aí eles gravaram. E aí, para tocar no rádio? Porque os programadores de rádio daquela época se autocensuraram. Algumas rádios, poucas, como essas, rádio Cultura, na época Rádio Jornal do Brasil tocava. Muitas delas não tocavam por medo e a música estava liberada e a gente chegava lá: “— Está liberada, pode tocar." — Mas e se tocar vai dar problema na minha rádio e tal”. Mas foi assim que "Pesadelo" passou.

Paulo Markun: Acabou virando um incut da resistência, digamos assim.

Magro Waghabi: Foi bom não ter tocado, porque se não poderia se transformar no "Apesar de você" [música de Chico Buarque que faz crítica velada das mais famosas à ditadura militar, na época em que as letras eram metáforas para fugir da censura] também, né? Tocou demais e censores diriam “que burrice eu ter liberado” e de alguma forma foi ganhando...

Paulo César Pinheiro: Até hoje. Eu às vezes faço shows, canto "Pesadelo" e, até hoje, mesmos os mais jovens têm essa reação que tinham o nosso público da época, eles sentem, porque a música tem uma força. É quase um canto de guerra o "Pesadelo", tanto que a gravação tem na caixa de guerra, na caixa de bateria uma marciaridade ali. É um ritmo marcial, de guerra, porque era um canto de guerra. O [José] Genoíno me contou uma vez que, quando ele era um guerrilheiro no Araguaia, cantavam isso quando um caía. Quando um ficava fraco e não queria mais, eles cantavam "Pesadelo" como forma de levantar o ânimo daquele cara para ele seguir em frente, isso foi contado para mim pelo Genoíno. Então, essa música é um canto de guerra realmente e continua sendo.

Paulo Markun: Pois é. Mas, além desta, "Pesadelo", ainda tem "A intuição".

Paulo César Pinheiro: Essa foi mais pensada, pois a gente naquele momento estava querendo fazer isso, a gente começou do tema...

Eduardo Gudin: Seguindo nessa linha da "Intuição" que Markun está colocando, eu vou falar sobre o "Mordaça" [1976] que justamente foi mencionada aqui como uma música política, né? Eu lembro que o Paulo, quando mandei essa melodia para ele, me telefonou, porque a gente fazia música pelo telefone, aquele telefone de gancho, ele tinha um gravadorzinho com microfoninho e botava aqui e tocava...

Paulo César Pinheiro: Faço isso até hoje. [risos]

Eduardo Gudin: Tocava no telefone, enfim, ele me liga e falou assim: "Eu fiz uma letra, eu estava na padaria que tem lá perto da tua casa, aí tomando leite, não era nada de álcool e de repente escrevi esta letra que não sei direito como eu escrevi". Aí eu anotei a letra de "Mordaça" e liguei para ele e falei: essa letra é ótima. Fiquei sem saber direito como ele fez. Então, é uma coisa assim, mas por que virou uma coisa política, como foi para você?

Paulo César Pinheiro: Essa foi uma história de intuição. Eu não sabia exatamente a importância que aquilo tinha tomado, o vulto que aquilo tinha tomado. Até fiz uma música comum, até disse para ele, para o Gudin na época: "Olha, eu fiz uma letra que eu estou achando bonita, mas não sei exatamente o que ela significa muito não". Lembra que eu disse isso? Eu me lembro que eu gostei muito da frase: “é importante que a nossa emoção sobreviva”. Que me mandava dizer um pouco aquilo para as pessoas naquele momento e aí ela tomou esse caminho sem que eu a levasse para isso. Ela que tomou esse caminho e ela que me carregou. Depois que eu entendi que era isso que ela queria, a música. Então ela ficou desse jeito depois, por força das pessoas.

Hugo Sukman: Desculpe te questionar, mas sempre achei que você fosse uma pessoa religiosa. Eu já até te perguntei isso. "Portela lá na avenida" [1982], por exemplo, é uma música impressionante e de uma religiosidade impressionante. E muitas músicas suas são religiosas e você me disse que não era religioso. A política, a religião, quer dizer, você cria personagem para você?

Paulo César Pinheiro: Eu até nem sei explicar muito isso, não, isso na minha vida também é misterioso. Existe uma mística, sim, até porque eu vejo pessoas, eu vejo coisas, escuto vozes e eu sou sensitivo. Muitas vezes, até quando eu enveredo por caminhos que eu pouco conheço e aí evoluo um pouco mais naquilo que pouco conheço e tudo e tal. Então, às vezes as palavras vêm, eu ponho a palavra na letra e às vezes eu não sei o que significa. Isso no começo me dava uma agonia muito grande, porque eu sabia que ela devia ter algum sentido e não sabia se existia ou não a palavra, mas tinha um sentido sonoro no meu ouvido. Ia para o dicionário, vários dicionários e não encontrava a palavra e aquilo eu ficava louco com essa história. Tempos depois, não procurando mais nada ela aparecia em algum canto e eu não sabia o que era. Agora, o sentido dentro da frase que eu tinha feito era o sentido que eu queria. E isso, hoje em dia, eu já não tenho mais medo disso e me deixo levar mesmo, escrevo a palavra que é sem mais procurar, porque sei que o sentido dela é aquele. Explicar isso eu não sei. Não tenho a menor idéia do que seja.

Magro Waghabi: Você diz: "Eu nunca compus poesia, porque sou composto por ela."

Paulo César Pinheiro: Exatamente. Se eu me concentro, o meu verso para dentro se faz em si mesmo.

João Bosco Rabello: Mas você acredita que isso vem de algum lugar, né? Porque de outras letras suas essa relação mística já mais consciente. Aquela letra que você fez para o Sete Cordas [Valdir Sete Cordas], quando você tem um verso que você coloca o músico sentindo a música e contando o dedo de Deus nas minhas mãos, não é isso?

Paulo César Pinheiro: É.

João Bosco Rabello: Então existe essa relação para você? De alguma maneira você considera isso?

Paulo César Pinheiro: É, bom, eu não sou religioso, sou até meio agnóstico. Conheço algumas religiões, os preceitos básicos de algumas, sou fascinado, acima de todas, pela afro-brasileira, a qual me atrai mais, até porque eu sinto muito mais essas coisas quando faço uma canção samba afro-brasileira. Me fascina mais os cantos, os cânticos dessa religião, as vestimentas, as danças, as comidas, os rituais, por isso até me especializei um pouco nesta cultura, até já escrevi no Atabaques, tem uma parte do livro que é toda dedicada a isso. Tem uma infinidade de músicas a respeito disso. Recentemente, meu parceiro Sérgio Santos lançou um disco chamado Áfrico [2002], que ganhou vários prêmios aí, que é só sobre esse caminho afro-brasileiro, tem mais dois para a gente fazer, um é meu sozinho, que é o, talvez seja o próximo depois desse daí, que é só música e letra minha também e tem o do Pedro Amorim, que também é com essa cultura. Então, essa religião me atrai profundamente. Agora, a mística disso tudo eu não sei realmente, não eu consigo entender, nem eu consigo entender. Não consigo entender o que eu vejo, essas visões que eu tenho eu não consigo entender, mas são todas corretas. Eu já vi, vou contar um fato que ocorreu recentemente, não é muito longo não, dá para falar. Um parceiro meu, chamado Eudes Fraga, que lançou no ano passado um disco, um CD, se não me engano independente, gravando três músicas, duas músicas minhas com ele e uma minha e do Dori [Caymmi]. Tinha uma música do Dori que eu estava fazendo, que eu estava tentando fazer em casa e não saía. Aí a minha cunhada estava dormindo lá em casa, ficou meia hora no quarto do meu filho, saiu dizendo que estava vendo coisas lá, que estava pesado o ambiente e saiu. Aí todo mundo riu, achou engraçado e tal. Depois que todos dormiram, eu estava cansado e fui deitar exatamente nesse quarto, porque minha mulher estava dormindo e eu não queria incomodá-la. Deitei e vi exatamente tudo que ela viu e pesadamente. E em cima da minha mesa tinha o meu caderno e a fita do Dori no gravador, eu sentei, liguei o gravador e a letra foi saindo inteira, em menos de uma hora ela estava pronta. Falando de um fato, a música se chamava Romeiros, é uma música também nordestina. Acabei de fazer, como sempre arrepiado, mas não desarrepiei. Me levantei, queria sair dali, porque aquilo ali estava me angustiando. Peguei o carro, saí de casa, eram 6:30, 7:00 da manhã, e quando saí de casa os cabelos abaixaram e me deu uma certa sensação de alívio. Voltei e esqueci a história. O que tinha visto ali eram pessoas rezando e um, principalmente, cantando num canto, um velhinho baixinho, cearensezinho, com a cara cheia de calombos, feridas no corpo, aleijões... e rezando lá no canto. Foi isso que eu vi e pessoas sofredoras em torno, como se fosse uma romaria, por isso romeiros. Isso era de uma sexta para sábado, na segunda-feira chegou Eudes Fraga do Ceará, porque ele tinha passado um mês lá fazendo fotos para a capa do disco, essa música ele nem sequer conhecia, daí chegou, ligou para mim: “– Vou passar por aí para te mostrar uma boneca da capa do disco." – Está legal.“ Marcou comigo na segunda-feira e foi lá em casa. Quando ele abriu a tal boneca, estava a fotografia do velho lá que eu tinha visto, do velho que eu tinha visto, com as pessoas que eu tinha visto e no lugar que eu tinha visto, que é em Juazeiro. Daí tomei aquele susto assim e “então vem cá, que vou te mostrar uma música”, peguei a música e fui mostrar para ele, ele se arrepiou todo. “Esta música eu vou gravar”, aí voltou para o Ceará, gravou a música lá e mandou a fita para mim. No meio da gravação, ele botou um cântico incidental, que era exatamente o cântico que eu tinha ouvido o velho cantar "Vou lá no sertão". Então, isso é uma coisa que eu não entendo, não quero me aprofundar no assunto, não quero entender, se eu sou porta-voz dessas coisas, se a minha poesia presta para ajudar alguém que sofre, a aliviar sua dor eu estou aí para isso, porque a gente está aqui de passagem, eu não sei quanto tempo vivo, não sei para onde vou, não sei de onde vim. Então, daqui a gente não leva nada, nem sequer a obra, nem aquilo que estou fazendo vai ser meu um dia, porque cai em domínio público depois de sessenta anos da minha morte. Então, se nem isso eu deixo e se estou aqui para alguma coisa boa, se isso é o caminho, que a poesia sirva para isso.

Paulo Markun: César, tem uma outra coisa aqui que já foi muito presente na cidade brasileira, no país aí e que hoje em dia, se eu não estou enganado, perdeu muito espaço, que é a declamação de poesias. Porque acho que tem a ver também, porque a poesia da canção é uma poesia plenamente declamável, né, talvez mais até do que a poesia concreta, da poesia mais moderna ou que muitas vezes é para ser lida, às vezes até como um objeto. Você imagina que isso possa ressurgir, você vê moçada fazendo isso?

Paulo César Pinheiro: Eu acho que sim, no Rio de Janeiro, pelo menos, tem uns grupos lá que têm feito, ocupando espaços pequenos só com poesias, não tem nem música, é só verso declamado. O grupo do Pedro Bial, do Mauro Melo, de pessoal que vende seus livros lá mesmo, viajam muito fazendo palestras e recitais de poesia. Então, acho que tem espaço, sim, basta ocupar esses espaços, o mais difícil é isso aí, mas tem acontecido. Eu, nos meus shows, quando eu faço...

Paulo Markun: Você chegou a fazer um disco inteiro que era de poesia declamada e que era para ser uma série.

Paulo César Pinheiro: Era para ser uma série que eu imaginei fazer e acabei não conseguindo na Odeon [cinema carioca]. Esse disco seria o primeiro dessa série. Eu imaginava fazer Aldir [Blanc (1946-), cantor, escritor e compositor celebrizado, sobretudo, pelas músicas feitas em parceria com João Bosco e gravadas por Elis Regina], Abel Silva [Abel Ferreira da Silva, (1945-), escritor, professor de literatura brasileira e compositor. Sua primeira composição gravada foi "Jura secreta", feita em parceria com Sueli Costa, que lançou a cantora Simone], Vitor Martins [letrista que tem como principal parceiro o músico Ivan Lins], Cacaso, ele ainda era vivo, na época, o Tite de Lemos. Eu queria fazer uma série de discos de poetas como até a Polygram, hoje Universal, já tinha feito com os poetas de livros mesmo, fizeram Mario Quintana [(1906-1994), jornalista, tradutor e poeta brasileiro], [Carlos] Drummond [(1902-1987),  cronista, ensaísta, tradutor (de Marcel Proust e Honoré de Balzac, por exemplo) e, sobretudo, poeta, um dos mais importantes que o Brasil já teve]  Vinicius.

[  ]: Era fashion e depois o catálogo passou para a Universal.

Paulo César Pinheiro: Exatamente.

Hugo Sukman: Parece que houve um relançamento em CD de alguns desses discos. Graças a Deus! [risos]

Paulo César Pinheiro: Eu queria fazer isso com os letristas na época da música brasileira, porque todos, além de letras, escreviam poesias e escrevem poesias de livros também.

Paulo Markun: A sua poesia você faz em voz alta?

Paulo César Pinheiro: Não, eu escrevo. O som está em mim, está dentro, a sonoridade está dentro de mim e eu mudo palavras, eu me deixo levar pela intuição. Como já disse antes, a emoção me guia. Depois de pronto, claro que com essa prática desse tempo inteiro, é mais rápido, né? Ela sai mais fluida, eu vou pegar uma palavra ou outra cuja sonoridade não me agrada quando eu falo. A minha intenção, até na poesia... o meu ideal, na verdade, foi chegar a um ponto em que a poesia escrita nada ficasse a dever à poesia cantada ou vice-versa, que elas virassem uma coisa só, que ela pudesse ser lida como poesia de livro e pudesse ser musicada como letra de música. Eu acho que estou me aproximando cada vez mais dessa perfeição, acho que não vou atingir nunca essa meta, mas cada vez mais eu estou perto disso, a união hoje é muito mais forte. Os versos que hoje nascem, já nascem com muita música deles, embora lidos causem o mesmo impacto de uma poesia escrita. Esse é o meu ideal de poesia, meu ideal é esse. A poesia nasceu com os menestréis da idade média. É bom que ela tenha nascido ali, mas ali foi um grande momento em que a poesia podia ser falada, porque tinha os alaúdes, os menestréis cantando, mas a minha busca é essa, é fazer a minha poesia ser completa nesse sentido de poder ser, além de um verso escrito, uma música cantada também.

Pasquale Cipro Neto: Eu estava outro dia lá em Salvador, no Pelourinho, e vi lá duas faixas sobre o Batatatinha, uma delas continha um trecho de uma canção dele, “se eu deixar de sofrer como é que vai ser [para me apaixonar?]... Sofrer também é merecimento” [risos]. Isso é uma coisa genial. Então, voltando à história do Lamento e aproveitando o tema Bahia, já falei aqui hoje de Santo Amaro, a Chula, você esteve por lá, Jorge Pontual me disse isso, que você esteve por lá para fazer pesquisas sobre uma grande figura da cidade da região, o Besouro...

Paulo César Pinheiro: Besouro Cordão de Ouro.

Pasquale Cipro Neto:  Que fim levou isso? O que você queria com isso? Explica para o telespectador e para mim também o fim da história que eu não sei, por favor?

Paulo César Pinheiro: Eu estou em cima disso há tantos anos e não consigo botar isso em prática, porque são tantas as atribulações, né? São tantas as coisas que eu faço com o meu tempo e essa me requer um tempo maior e eu nunca consigo esse tempo maior para fazer, que é a história de um capoeirista de Santo Amaro, terra de Caetano, Besouro Mangagá. A minha primeira música gravada já falava dele, em 68, “quando eu morrer me pega na...” que é um refrão do próprio Besouro. Ele era um embarcadiço, um capoeirista, foi talvez o maior de todos, o mais famoso e o mais respeitado de todos, e um compositor, ele era um compositor. E ele tinha um canto do besouro, que é grande, me lembro que na época do festival chegou até a sair no jornal, algum jornalista daquela região recolheu esse canto em algum lugar ou numa biblioteca e tal e transcreveu no jornal. E eu percebi que tinha um dos trechos, além do trecho que eu usei como refrão, um outro trecho usado pelo Noel Rosa [(1910-1937), compositor e sambista responsável pela união do samba do morro com o do asfalto. Suas músicas, gravadas até hoje por diversos intérpretes da MPB, são bastante conhecidas, entre elas, "Com que roupa" (1929) e "Palpite infeliz" (1933)] e Noel morreu na década de 1930, né? O Besouro é mais antigo, que é “quando eu morrer não quero nem choro nem vela, quero uma fita amarela gravada com o nome dela”. Isso também é do Besouro, o Noel fez uma segunda parte. Isso deve ter chegado ao Rio através das velhas baianas das escolas de samba que se instalaram ali na praça Onze, próximas à Lapa, onde o Noel circulava. Noel circulava entre a Vila Isabel e a cidade. E ele deve ter ouvido em alguma roda de samba esse refrão e fez a segunda parte. Muitas baianas do começo do século, da época da Tia Ciata, vieram de Santo Amaro, por isso que eu estou fazendo a ligação. E a história do Besouro é uma história muito rica. Recentemente um amigo meu que me escutou falando a vida inteira sobre isso, virou capoeirista, se interessou por isso e escreveu um livro sobre o Besouro, que não sei se já saiu, mas ele me mandou os originais, eu li e é muito bem escrito por sinal, mas não tem nada a ver com aquilo que eu faria, não, saiu pela editora Record ou vai sair. Eu gostaria, tenho uma imensa vontade de transformar esta história do Besouro em livro, em teatro ou em cinema. Falei com Ruy Guerra [(1933-), cineasta e produtor moçambicano radicado no Brasil], meu velho amigo. Há uns três anos por aí o Ruy estava envolvido com filme no exterior e tinha um contrato em Portugal, depois foi para Cuba, estava fazendo um filme sobre um livro do Gabriel García Márquez e eu contei para ele a história e ele ficou fascinado e disse: “–Vamos fazer isso, quando eu terminar esses meus trabalhos eu quero sentar contigo para a gente pensar nisso”. "–Porque as músicas que seriam a trilha sonora do filme eu já tenho, porque eu fiz diversas músicas para esse personagem e a história a gente tem que sentar e roteirizar juntos, e gostaria de fazer um musical como nos anos 1960 se fazia. Arena conta Zumbi [Teatro de Arena], Arena conta Bahia e eu queria fazer um musical com a história desse personagem. Jorge Amado citou esse personagem no Mar morto [publicado em 1936], um capítulo inteiro dedicado ao Besouro.

Pasquale Cipro Neto: Sim.

Paulo César Pinheiro: Ele já dava uma pala de que escreveria um dia um livro sobre o Besouro, mas Jorge escreveu tanta coisa depois que eu acho que ele esqueceu essa história, que é riquíssima.

Pasquale Cipro Neto: Não deu tempo.

Paulo César Pinheiro: Não deu tempo. E eu tinha vontade de mexer nisso, isso é um projeto que eu tenho. Mas como eu não tenho pressa de nada, a arte não tem pressa, eu deixo as coisas caminharem como elas querem.

Paulo Markun: Você tem rotina para escrever?

Paulo César Pinheiro: Tenho.

Paulo Markun: Qual é? A que horas você escreve?

Paulo César Pinheiro: Eu só escrevo de manhã.

Paulo Markun: De manhã.

Paulo César Pinheiro: Ao contrário do que todos pensam, por ser um boêmio, por passar a minha vida na noite, gostar de beber um choppinho com os amigos e tal, todo mundo acha que a gente compõe mais à noite, mas eu começo a pensar em escrever na luz do sol e acordo cedo. Mesmo dormindo tarde, acordo cedo, porque durmo pouco à noite e quando o sol nasce eu já fico ligado, quando o sol vai se pondo já me dá um cansaço muito grande e eu não quero pensar em nada sério, aí eu quero bagunça, gandaia, bar, amigos, não quero mais pensar. O meu tempo de compor, escrever textos, fazer poesia, pensar é enquanto o sol está brilhando.

Hugo Sukman: Eu costumo dizer que você não tem parcerias, você tem obras, e na percepção do público essas obras saem de acordo com o disco, claro, então parece que você tem uma fase. E como que funciona isso, você mergulha no trabalho do parceiro?

Paulo César Pinheiro: Mergulho.

Hugo Sukman: É por fase, é por época?

Paulo César Pinheiro: Alguns parceiros, os mais novos, eu tenho trabalhos inteiros assim como esse que você está dizendo com os mais novos. Os mais antigos não, porque a gente fazia música à toa, a gente nunca dirigiu, nunca seguiu uma temática própria. O Gudin, por exemplo, que é um dos mais antigos, Baden e tal, a gente fazia por fazer.

Hugo Sukman: Mas você fazia simultaneamente com todos eles?

Paulo César Pinheiro: Com todos eles. Nasce por acaso, não é proposital. A gente começa a fazer uma determinada música, aquela já começa a puxar uma segunda, a segunda já começa a puxar uma terceira e aí vira um troço temático, já que a gente começou a fazer isso, vamos fazer tudo de uma vez. O Áfrico foi assim.

Magro Waghabi: Mas você tem envolvimento com o compositor, envolvimento pessoal e completo?

Paulo César Pinheiro: Olha, tem que ter, acima de tudo, para uma parceria, uma grande amizade.

Magro Waghabi: Eu estava pensando exatamente nisso, pensando em uma pessoa que não conseguiu surgir, que é o Sirlan [Autor da canção "Viva Zapátria", que ganhou prêmio no VII Festival Internacional da Canção, de 1972. Sua carreira foi comprometida pela ação da censura do regime militar, que passou a negar autorização para circulação de suas músicas] e eu sou testemunha de uma amizade que desafiou a distância, a ponto de o Paulinho fazer música por causa de uma moça que foi parar no interior do estado do Rio [risos], com a música composta para ele, para o Sirlan cantar para amada dele. E lá foi Paulinho Pinheiro de carro para enfrentar o cara no interior do Rio.

Paulo César Pinheiro: Eu fui atrás do Sirlan para ver que história era essa.

João Bosco Rabello: Isso gerou inclusive lendas, né? O Nelson Sargento brincava muito: “Eu ainda quero fazer uma parceria com Paulo Pinheiro.” Ele dizia, quando você ainda morava no Leblon: “Você vai passar lá pelas duas e três da tarde, manda a fita, ele manda pegar a fita e manda você pegar às seis, que a musica está pronta”.

Paulo César Pinheiro: Mas isso que o Gudin falou, por exemplo, eu tenho muitos parceiros que não moram no Rio de Janeiro, Gudin é um deles. A gente começou a fazer música juntos em 1969, por aí.

Eduardo Gudin: 1968.

Paulo César Pinheiro: É claro. Então como é que essa parceria se fez? A gente não podia ficar no avião o tempo inteiro. Então foi por telefone.

Hugo Sukman: Parecem letristas diferentes em você mesmo...

Paulo César Pinheiro: São minhas entidades. Mas é verdade, porque eu, quando comecei a entrar nessa história de fazer música, eu comecei a me interessar pelo Brasil, porque eu sou apaixonado pelo Brasil. Então, eu comecei a escutar tudo que eu podia, de todas as formas possíveis, sobre manifestações populares brasileiras, essencialmente brasileiras e me especializei nisso em muitos caminhos diferentes. Isso também... tem uma mistura de raças em mim, né? A minha avó é uma índia, uma índia guarani do litoral de Angra dos Reis, é uma mulher pequenininha de cabelo escorrido até a perna, com aquele amarrado em cima, cachimbenta, fumava cachimbo de bambu. E meu avô, marido dela, era uma mistura de índio com inglês, porque houve um momento da colonização de Angra do Reis em que foi feita por ingleses. Há tias minhas nativas ali do lugar, nascidas ali, se puserem aquelas roupas das recepções do príncipe Charles no Palácio de Buckingham fica igual àquelas velhinhas que tomam porre, tias minhas iguais. Outro dia eu estava vendo um filme sobre a ascensão da princesa Diana e aí aparecem aquelas velhinhas chapéu verde, aquela roupa estranha. Vi todas as minhas tias ali. Então, meu pai, paraibano do sertão do Cariri, ele era de Campina Grande, caboclo com índio de lá, diversos primos e primas com o cabelo enroladinho. Então essa mistura de raças em mim ficou muito latente, muito forte e a parte nordestina que eu faço com maracatus e baiões e tal veio para esse lado, a ciranda, dos frevos, porque eu também estive por lá e eu vi aquilo lá de perto. Quando garoto eu comi cobra nas cacimbas secas do sertão onde meus parentes moravam, as vezes tinha que comer cobra, porque não tinha comida não. Tinha que caçar calango. Passei por lá e vi isso de perto, está no meu sangue. Então essas formas brasileiras estão em mim bem latentes. Então, quando meus parceiros me mostram eu viro eles. A minha entidade vira eles.

Pasquale Cipro Neto: E, nessas entidades todas, alguém falou de personagem, acho que foi você que falou. "Senhorinha" é uma personagem?

Paulo César Pinheiro: "Senhorinha" são lembranças até de livros, livros de romancistas vivos.

Pasquale Cipro Neto: Eu tenho essa impressão...

Paulo César Pinheiro: Livros que me fizeram viajar. E aquela imagem ficou na minha cabeça.

Pasquale Cipro Neto: A moreninha [romance de Joaquim Manuel de Macedo publicado em 1844].

Paulo César Pinheiro: Foi usada em uma novela de época essa música.

Pasquale Cipro Neto: Que canta aquilo com uma paixão!

Paulo César Pinheiro: Minha primeira gravação para essa novela, eu me lembro da Cabloca [romance de Ribeiro Couto publicado em 1931], uma novela de época que é uma viagem literária também.

Pasquale Cipro Neto: E é um texto escrito com requintes de poesias clássicas, com um vocabulário extremamente rico, é uma meta bem difícil. Como você fez aquilo?

Eduardo Gudin: A gente está falando de onde a gente conheceu, do seu estilo. A minha geração toda, já aconteceu até com o Mauro, a gente tinha assim letristas que imitavam o Chico Buarque. A gente que era músico, eu sou uma geração pós-Chico e ele gerou uma legião de seguidores e eu falava: "Poxa, eu preciso achar uma pessoa que não seja.” E, através da gravação da Elis [Regina (1945-1981), por muitos considerada a maior cantora que o Brasil já teve pela maneira como conjugava técnica e interpretação], fazendo uma música com Paulo César Pinheiro que não sabia quantos anos tinha. De repente, te conheci no festival de 1968 e eu tinha uma música também, você tinha uma música com Francis [Hime], não é isso? E aí eu fui falar com você e você era um ano mais velho que eu. Então, eu fiz esta declaração de que eu gostaria de fazer uma música com você e era o cara com um estilo diferente do Chico Buarque, escrevendo muito bem. Você sentia essa coisa do Chico? Como é que foi?

Paulo César Pinheiro: Eu sentia. Como eu tinha começado antes... embora seja mais novo que o Chico, eu tinha começado antes dele. Até lembrei a ele outro dia: “Chico, você lembra quando a gente se conheceu lá no festival?” Muito antes. Aí lembrei a ele que eu tinha treze anos de idade, treze para quatorze, estava com o Baden no camarim de um teatro onde Baden estava fazendo um show com Alaíde Costa e Dulce Nunes e um quarteto de cordas, lançando um samba do Chico que era "Sonho de um carnaval", que era lindo [começa a cantar]. E eu escutei e falei: “Que samba bonito! Quem é esse cara, Baden?” Ele falou: “Esse é um menino que escreve muito, você vai escutar muito ele. E faz música muito bem também”. E um dia o Chico foi ver o show e o Baden, quando acabou o show, foi para o camarim e aí aquele papo de compositor, mostra uma nova. Aí o Chico tirou uma letra do bolso, um papel, um negócio quilométrico todo tímido, porque tinha muita timidez diante do Baden, pegou o violão e cantou "Pedro pedreiro", mostrando pela primeira vez ali. Conheci você nesse dia, me lembro de tudo, menos de você.

Eduardo Gudin: Você já fazia música?

Paulo César Pinheiro: Eu já fazia, já fazia naquela época influenciado por ele. Ele, inclusive, nesse dia que eu fiz esse comentário, até falou: “Então, você é muito mais velho que eu [risos]”. A frase que ele usou. Pois é, aconteceu essa história comigo. Na verdade, o grande culpado da minha entrada nesta história toda foi o Baden, porque o Vinícius... naquela época, eu comecei a fazer música com o Baden, com dezesseis anos. O Vinicius naquela época tinha cinqüenta e dois, era uma diferença brutal, né? E ele era o maior letrista popular brasileiro, ele era parceiro do Tom, do Baden, do Carlos Lyra, do Edu, do Francis, do Chico, do Ary Barroso, do Pixinguinha, de todo mundo. Ele era chamado de "o papa da música brasileira", tinha até em 70, e o Baden me trouxe para fazer música com ele, já com uma obra consagrada imensa... com o Vinícius. Era um sucesso atrás do outro.

Pasquale Cipro Neto: Um desafio mesmo.

Paulo César Pinheiro: "Formosa", "Amei tanto", "Canto de Ossanha", os "Áfricos", sambas todos. "Samba da bênção", eles tinham uma obra que já tinha varado inclusive o exterior, ido embora. E ele dá atenção para um menino de dezesseis anos e propor uma parceria, isso é uma ousadia e uma visão de futuro que em pouca gente eu vi.

Paulo Markun: Santa ousadia, porque se não fosse isso talvez a gente não estaria aqui há uma hora e meia ouvindo as fantásticas histórias de Paulo César Pinheiro. Eu queria agradecer, nosso tempo acabou. Queria agradecer muito a sua presença e mais do que agradecer pela obra que você já assegurou e torcer para que seja só um pedacinho para que a gente tenha muita música por aí.

Paulo César Pinheiro: E vai ter muito mais.

Paulo Markun: Agradeço também nossos entrevistadores e a você que está em casa e nós voltamos na próxima segunda feira com mais um Roda Viva. Uma ótima semana e até segunda .
[termina com a música "Lapinha"]

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