Memória Roda Viva

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Fernanda Torres

16/2/1998

Premiada aos 21 anos no Festival de Cannes, a atriz construiu uma carreira sólida no cinema, teatro e televisão brasileira

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Matinas Suzuki: Boa noite! Ela é o melhor retrato do bom momento pelo qual passa o cinema brasileiro. No centro do Roda Viva, a atriz Fernanda Torres.

Fernanda Torres: Adorei, Matinas!

[Comentarista]: Ela parece determinada a expandir, cada vez mais, sua presença na arte de representar, principalmente no cinema. Com a carreira consolidada por trabalhos de grande repercussão no palco, na TV e na tela grande, Fernanda Torres, nos últimos tempos, acrescenta mais um crédito em suas habilidades: já entregou o roteiro do filme Redentor [2004], que deverá ser dirigido por seu irmão Cláudio Torres, uma experiência que também parece estar dando certo. Fernanda está num excelente momento de uma carreira que ela iniciou aos 14 anos, em 1979, num programa de TV. Começou a atuar também no teatro, em 1981 e, já em 1982, estreava no cinema, aos 16 anos, com o filme Inocência [baseado no romance Inocência, 1872, de Visconde de Taunay, dirigido por Walter Lima Jr.]. O trinômio TV-teatro-cinema, nos últimos anos, se desequilibrou um pouco, com vantagem para a tela grande, quem sabe como um reflexo da consagração internacional proporcionada pelo prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes, em 1986, com o filme Eu sei que vou te amar [de Arnaldo Jabor]. A carreira cinematográfica de Fernanda Torres pode ganhar um impulso ainda maior com a boa repercussão, no Brasil e no exterior, do filme O que é isso, companheiro? [filme baseado no livro do ex-guerrilheiro de esquerda e depois parlamentar do PT e do PV, Fernando Gabeira, foi lançado em 1996 e indicado ao Oscar em 1998]. Indicada para o Oscar de melhor filme estrangeiro, a obra conquistou a crítica e o público, e também provocou polêmica, principalmente entre antigos participantes da luta armada contra a ditadura militar. No olho desse furacão, Fernanda segue em frente com disposição para ousar cada vez mais. Pode olhar à distância e com bom humor o tempo em que era chamada, com insistência, filha de Fernanda Montenegro e Fernando Torres. Conquistou seu caminho por si mesma e promete surpreender ainda mais o público, que já se acostumou com a sua versatilidade e forte presença cênica em dramas, comédias, novelas, tragédias, minisséries, filmes.

Matinas Suzuki: Para entrevistar a atriz Fernanda Torres, nós convidamos esta noite o jornalista João Gabriel de Lima, editor de cultura da revista Veja; o jornalista Sérgio Róveri, repórter especial do Jornal da Tarde; a jornalista Cristina Padiglione, colunista da Folha de S. Paulo; o jornalista Leon Cakoff, diretor da Mostra Internacional de Cinema, aqui de São Paulo; o cineasta Beto Brant, diretor dos filmes Os matadores e Ação entre amigos; e o cineasta Ivan Isola, coordenador do Programa de Integração Cinema e TV, do Projeto Nova Vera Cruz, ambos da TV Cultura, de São Paulo. [Programa ao vivo] Boa noite, Fernandinha.

Fernanda Torres: Tudo bom?

Matinas Suzuki: Tudo bem. Fernanda, o filme – bom, indicado pelo Oscar, nós vimos aí também, no Jornal da Cultura, há pouco, uma entrevista com o Bruno Barreto [cineasta brasileiro, nascido no Rio de Janeiro em 1955, dirigiu, entre outros, o filme Dona Flor e seus dois maridos, em 1976, grande sucesso de público na época]  – passou, no Brasil, por uma série de discussões sobre se ele representava bem o momento político ou não representava, essa coisa toda. Eu não quero voltar, especificamente, a essa discussão, mas gostaria de saber o que é que você... como é que você vê hoje essas discussões? Quer dizer, passada a repercussão daquelas discussões, passado aquele momento... [sendo interrompido]

Fernanda Torres
: É meio longo, assim... E essa história começa antes do filme ser feito. Quando eu cheguei e fui convidada, o primeiro ímpeto que eu tive é: “Quero conhecer as pessoas, quero saber como foi!”. E eu senti que havia um problema quanto aquilo, que eu não entendia bem qual era. Aí eu encontrei o Minc [Carlos Minc Baumfeld, político de esquerda brasileiro, carioca, nascido em 1955, líder estudantil contra a ditadura militar, chegou a ser preso em 1979 e exilado; após o regresso ao Brasil, torna-se membro fundador do Partido Verde, juntamente com Fernando Gabeira e Alfredo Sirkis], que era um cara que não tinha participado e que topou falar comigo. Eu conversei com ele sobre as minhas dúvidas, porque eu fazia o personagem mais sargento do filme e tal, se era assim, se não era. Dali um mês tinha uma nota no jornal dizendo que uma atriz tinha jantado com o Minc e tinha dito que o filme era para americano ver e que era uma droga. E me botou... eu me senti traída, como companheira. Eu fui fazer perguntas profissionais – estava trabalhando ali com ele – e, de repente, eu vi que tinha uma rede de intrigas anteriores... Assim, que deviam ter começado quando eu tinha três anos de idade e que vinham desde um problema com o livro do Gabeira, eu acho, de não se sentirem retratados... E também não é um grupo, eu acho que é cada um isoladamente, que meio... Foi uma revolução que não entrou para a história, não é oficial. Então cada um, eu acho, tem uma história a ser contada, gostaria de ser contada. Junto com isso vem o problema de como os produtores resolveram esse problema. Porque eu sou a favor de se filmar essa história, menos do que não se filmar ela, já que não se consegue chegar a uma conclusão de qual é a realidade. Eles escolheram o seguinte: quem está morto, eles mantiveram os nomes; quem não está morto, eles fizeram de cada personagem uma melange de diversos personagens que fizeram parte desse quadro histórico. O que eu achei uma solução bastante interessante. Aí veio o problema do Jonas, depois que estreou o filme, que foi retratado como, segundo essa ala que tinha problemas desde o Bruno não ser um cara politizado até ser um cara considerado... seria de direita. Será que o Bruno seria de direita? Entendeu? [Torres ri] Teve a questão do nome do Jonas e eu vi várias entrevistas as pessoas dizendo que o Jonas era o vilão da história. Isso eu acho que é uma deturpação, porque eu acho que ele não é o vilão da história. Ele é o personagem que chega lá e que dá àquele bando de revolucionários da burguesia uma idéia do que é uma revolução real, onde uma hora você tem que matar alguém. Se ele é feito com carga assim... Eu concordo, o filme tem... tintas e cores assim... E que talvez não se devesse ter usado, então, o nome Jonas. Mas eu acho que o filme não é o centro desse problema. Eu acho que esse problema está numa revolução clandestina, ainda hoje. Eu acho que esses livros... Eu dei Revolução da Nicarágua no meu colégio, mas eu não dei isso que eu fui estudar depois, quando fui fazer o filme. Então, acho que o que existe é um enorme não reconhecimento das pessoas – socialmente – do que elas foram e do que elas são. E acho que o filme ganhou a rebarda disso por todas essas histórias. Pelo Bruno não ser uma pessoa ligada a nenhum partido político, pelo Gabeira ter tido uma outra opção e ter escrito um livro que as pessoas consideram... tem tanta mágoa, cara! Então, eu respeito, sim. Mas, teve uma hora em que eu me vi acusada de reacionária. E eu não sou reacionária e eu não fiz um filme... Eu não, mas assim... Aquele filme não é um filme reacionário, entendeu? Eu acho que aí é um... isso é jogar sujo, entendeu? No final, assim.... Eu acho que é melhor que essa história tenha sido contada e acho que o filme respeita muito aquelas pessoas, no fim das contas. Isso eu acho que é mentira, não é um filme desrespeitoso a eles. E foi chocante para mim, porque na minha cabeça eles eram, eu era da mesma turma que eles. E a minha revolução, eu não peguei em armas, mas eu peguei em câmeras de cinema. Foi manter um cinema independente no Brasil, foi fazer até aquele filme, entendeu? E, de repente, quando eu vi, era um filme de direita. Para eles. E eu fiquei muito chocada, surpresa e achei interessante.

[Falam simultaneamente]


Sérgio Róveri
: Agora, você se preocupou em defender o filme depois, Fernanda? Ou você acha que não foi necessário? Quer dizer, pessoalmente, como você se sentiu, assim...?

Fernanda Torres: Não, eu só defendia a coisa lá do Minc. Eu fui violenta, eu liguei para ele e falei: “Isso aí não se faz, isso é uma loucura! Eu posso perder o meu emprego. Você não está entendendo o que você está fazendo, você não pode ligar para um jornal...”. E aí eu também entendi uma coisa incrível: que todo mundo que fez a guerrilha, de certa maneira, estava nos jornais. Isso eu não sabia. Eu achei isso incrível. Começando com essa coisa do Minc, que eu soube que... Agora, eu tenho carinho por essas pessoas, não tenho nenhum desrespeito, entendo a história. Agora, eu vou defender a minha revolução com... armas, assim, entendeu? [Torres chacoalha os braços com os punhos fechados] Botar público no cinema, tornar o cinema um lugar que conte a história do Brasil. Eu vou fazer força para que isso aconteça... [sendo interrompida]

Leon Cakoff
: Felizmente o filme é para americano ver, porque ele está concorrendo ao Oscar também, não é?

Fernanda Torres: Mas eu acho que é um filme que tem muito de uma linguagem que o americano... Essa coisa do americano, no filme... E eu acho que é essa a visão que o Bruno tem hoje, vivendo lá. Tem um lado dos Estados Unidos que é uma conquista da humanidade, a civilização americana. Tem um lado dela... que eu me sinto um ser humano lá. Eu vi agora o Clinton [presidente dos EUA] falando na televisão. Teve uma hora que ele foi falando: “Nenhuma criança deixará de ter acesso a museus, à música, à cultura. Eu falei: “Nossa, que orgulho do meu país. E, peraí, não é o meu país” [risos]. Mas eu senti, assim... Eu entendi, eu tive orgulho como humanidade, de que isso fosse importante. Então, eu acho que o Bruno reconhece essas coisas no americano. Eu acho que isso está ali, na hora que ele faz do americano aquela figura do... do civil, não é? É o único civil real ali. E o Alan Arkin é um ator especial, ele é fora do star system, ele é um underground na cultura dele, ele se relacionou conosco, os índios todos desta terra, daquela maneira! Então, ele contribuiu ainda para o personagem do americano ter isso. Mas, eu quis muito que a trupe do filme fosse uma trupe na vida real. Isso eu achei, com o Bruno, que a gente devia fazer.

Beto Brant: Fernanda, você acaba – eu quero voltar um pouco no assunto do personagem do Jonas e do Toledo – que você admite aqui que, talvez, não devesse usar o nome de Jonas, nem com talvez o Toledo, também não, que são pessoas... que são codinomes...

Fernanda Torres: Isso é uma opinião minha!

Beto Brant
: Sim, é uma opinião sua. Eu acho que, de maneira alguma, os produtores e o diretor do filme assumiram esse tipo de responsabilidade, que eu acho que poderia ser nobre, poderia ser muito bacana esse tipo de responsabilidade, porque afetou, de alguma maneira, familiares. Porque, segundo a perspectiva dessas pessoas ligadas, ele tinha uma atitude, ele tinha uma posição de liderança...

Fernanda Torres: Mas ele tem no filme uma posição de liderança!

Beto Brant: Sim, mas para eles, eles se sentiram ofendidos. Independente...

Fernanda Torres: É que eu acho, assim, eu entendi...

Beto Brant: Agora – deixa completar só a pergunta – você acha que eles não assumiram esse tipo de responsabilidade? Assim: “Deveríamos, talvez, ter trocado. Talvez, tivéssemos errado” Eles foram muito rigorosos em dizer que o Jonas não tinha nada a ver com o personagem, que o filme era um filme de ficção. Você acha que, talvez por uma estratégia de marketing deles de lançamento do filme, não seria bom capitular, tomar essa atitude; quer dizer, manter firme a posição deles? Ou, sei lá, por falta até de humildade em relação a isso? [Sendo interrompido]

Fernanda Torres: Não, eu acho que foi... Não, eu acho que foi... A maneira de eu ver foi até mais simples do que isso. Queria se contar aquela história, então o Gabeira tinha dado a licença de usar o nome dele e tinham dois personagens que estavam mortos e se fez, assim, talvez esse erro de se botar os caras, entendeu?

Beto Brant: O Toledo, por exemplo, ele é ridicularizado ouvindo a Internacional Comunista [música considerada hino de toda uma geração de esquerda] apático. Quer dizer, e ele também era um grande...

Fernanda Torres: Mas o Toledo não é ridicularizado no filme.

Beto Brant: Eu sinto ali.

Fernanda Torres
: Pois é, mas aí entra na zona da arte e da especulação. Eu não acho que o Toledo é ridicularizado no filme. Pelo contrário, eu acho que o Nelson Dantas faz ele com uma medida e uma ironia diante daquelas pessoas... Eu acho que você está enganado, eu acho que isso é uma impressão sua.

Ivan Isola: Ele até lembra o Joaquim Câmara Ferreira [um dos guerrilheiros militante e comandante da ALN- Aliança Libertadora Nacional. Foi preso e assassinado pela polícia da ditadura militar]. Lembra, fisicamente.

Fernanda Torres
: Ele faz com uma humanidade o papel!

Cristina Padiglione: Mas o Jonas é um... ele assume o papel de vilão no filme. Tem uma coisa, assim... uma vilania nele.

Fernanda Torres: Gente, mas é assim... [sendo interrompida]

Cristina Padiglione: Mais do que o torturador. Você olha aquela coisa e fica assim [expressão de espanto, chacoalhando as mãos]!

Fernanda Torres: Tudo bem, aquela... O problema é o seguinte: como se chega no real?

[...]: Mas que se façam outros filmes, eu acho! [Comentário ao fundo, sem interromper Torres]

Fernanda Torres: Não se chega no real. Essa discussão não me interessa.

[...]: Nós estamos alterando o volume! [Bate três vezes um objeto na mesa, propositalmente, sem interromper Torres]

Fernanda Torres
: Eu acho que o Barretão [Luís Carlos Barreto - produtor de cinema] não quis agredir ninguém, nem o Bruno, nem o Leopoldo, entendeu? Eu, sinceramente, acho que não. E eu acho que você tocou [apontando para Brant]... Nesse caso, aqui, foi incrível, porque eu acho que isso é uma opinião sua! Entendeu? Eu não compartilho, por exemplo, com essa opinião sobre o Nelson, ali. Sobre o Toledo. Eu não acho que a gente foi desrespeitoso, sinceramente. Eu não fiz um filme para ridicularizar um bando de gente.

Beto Brant: Não, não que essa tenha sido a intencionalidade, mas eu acho que de se gerar um debate e poder... Acho que tem várias pessoas no elenco que, talvez, tenham... [sendo interrompido]

Fernanda Torres: Mas eu acho que a culpa não é do filme. A culpa é de uma revolução que não foi justa! Para nenhum lado!

Beto Brant: Mas eu não estou...

Fernanda Torres: Mas é que... Você está querendo...

Beto Brant
: A especulação ficcional, eu admito. Acho que você está alterando biografias. Por exemplo, se no teu caso, reescrevessem a história do cinema nacional. Por exemplo, não é?, escrevessem a história. E apontassem lá que você, num determinado momento, fez um filme Eu sei que vou te amar e para que você conseguisse aquele papel você tratou mal o Tales, foi facínora do Tales, ou negociou o teu papel com o Jabor... entendeu?

Fernanda Torres: Eu sei!

Beto Brant: Você está alterando a tua biografia.

Fernanda Torres
: Sim, mas, assim...!

Beto Brant
: Você não se sentiria desrespeitada?

Fernanda Torres
: Sim, mas...! [Pausa]

Beto Brant
: Pelo fato do sujeito ser anônimo...

Fernanda Torres: Mas quem se sentiu desrespeitado foi à Justiça, levantou, foi aos jornais, entendeu? Você não pode exigir que as coisas não sejam feitas para não desrespeitar ninguém.

Beto Brant: Mas eu não acho que deixem de ser feitos... [sendo interrompido]

Fernanda Torres: E uma hora esse filme virou isso. Isso que eu estou querendo te dizer, entendeu? Que uma hora esse filme virou um limite disso: bom, ou não se conta a história ou se conta uma história. Eu acho que se devem contar várias histórias sobre esse assunto. Mas eu não acho que esse filme foi feito para sacanear ninguém. Eu acho que esse filme foi feito para reconstruir, com uma visão do Bruno, ali, do Leopoldo, essa história. Entendeu [sorrindo para Brant]?

João Gabriel de Lima
: O Bruno – saindo um pouco dessa discussão da história do filme – ele é considerado, como ele mesmo admite, um diretor um pouco difícil de trabalhar. Ele teve muitos problemas no cinema americano com atores como Dennis Hopper [famoso ator e diretor norte-americano, escreveu, dirigiu e atuou no clássico Easy Rider de 1969] , com o próprio Alan Arkin nesse filme, agora. Eu queria saber de você como é que foi trabalhar com o Bruno; quer dizer, como é que foi o clima?

Fernanda Torres: Não, o Bruno, com ator, ele é maravilhoso! Assim, pelo contrário! O Alan, na verdade, não teve problema nenhum. E o Dennis, cara, deve ser fogo ficar em frente ao Dennis Hopper. Nossa Senhora! [Torres ri] Deve ser um negócio apavorante. E com os atores o Bruno é, pelo contrário, muito generoso. Ele abriu todo o filme para a gente improvisar. Ele criou aquilo ali com a gente. E... não, às vezes, o contrário! Às vezes, o Bruno tem tamanho carinho pela questão do ator, e no cinema tantas coisas atrapalham o ator, que... Não é que atrapalham, mas é o cinema, não é? Tem o carrinho, tem o foco, nunca... E o Bruno, às vezes, fica maluco com essa engrenagem, que vai fazer ele perder... Mas com o ator ele é extremamente generoso! Pelo contrário!

João Gabriel de Lima: Pelo fato até de ser um tema mais ou menos polêmico, esse do O que é isso, companheiro?, os atores não discutiam, não davam palpites...?

Fernanda Torres
: Sim, o tempo todo.

João Gabriel de Lima
: E como é que era o clima?

Fernanda Torres
: Era o seguinte: você não cria num roteiro behavior [comportamento, em inglês]. Comportamento você não escreve no seu roteiro. Você só escreve os diálogos e as intenções. Então, o que a gente fez com o Bruno – e esse é um trabalho que eu acredito que veio de teatro, que eu fundamentei ele com a Daniela [Thomas] e o Walter, no cinema, quando a gente fez o Terra estrangeira, que é você ensaiar para criar behavior. Então, o que a gente fez? A gente tinha o apartamento lá, onde a gente ensaiava, e eu fiz isso com Terra estrangeira, fiz isso com o Miramar e acredito que é assim que se trabalha. A gente ficava ali dentro dizendo quem come, quem não come, quem dorme muito, quem não dorme, quem tem... quem fica vendo televisão, quem não fica! E nisso é que você vai criando um filme, entendeu? E o Bruno fez isso maravilhosamente com a gente. Então tem, por exemplo: o Marcão uma hora chora. Isso, a gente estava falando: “Bom, estão vendo lá os amigos serem libertados, quem faz o quê, quem faz o quê?” E uma hora a gente falou: “Pô, vamos botar um fortão chorando; não é, cara?”. Então, esse tipo de graça... Esse elenco vinha todo de teatro, na sua maioria, e sabia como trabalhar.

Ivan Isola: Fernanda... [sendo interrompido]

Fernanda Torres: Peraí que eu tenho que virar ao contrário [gira a cadeira, posicionando-a de frente para Isola]

Ivan Isola: Vira! É o seguinte: eu fiquei acompanhando aqui o seu debate com o... Beto... [sendo interrompido]

Fernanda Torres: Beto Brant. Quase saímos aqui na...

Ivan Isola: E eu concordo plenamente com você. É óbvio.

Fernanda Torres: Obrigada, Ivan! [Riso]

Ivan Isola
: Cada questão histórica pode ter "n" pontos de vista e o que é importante é que se façam "n" filmes sobre os mesmos assuntos, etc. Mas eu fiquei intrigado pelo seguinte: eu acompanhei essa história mais ou menos de perto, minha geração viveu esses eventos muito de perto. A sua não. Mas qual foi a opinião política que você formou sobre aqueles eventos do seqüestro, quem era o mocinho, quem era o bandido, qual é o seu ponto de vista pessoal sobre o assunto? Não sobre o filme, não sobre o filme!

Fernanda Torres: Olha, tem um... Eu passei assim... Foi uma coisa engraçada esse período, porque os anos 60, para a minha geração, ele é uma espécie de mito, porque quando eu nasci eles estavam acabando, já estavam no meio. E sempre me falaram que foram os melhores anos no mundo, que nada jamais se comparará aos anos 60. E isso, muito da minha ligação com o Gerald [Thomas - polêmico diretor de teatro com quem Fernanda Torres foi casada]  tinha a ver com a coisa, o fascínio, lá dos anos 60, que ele era meio o elo perdido, e quando eu estava fazendo o filme eu comecei a estudar aquilo e ver o que era aquela questão de você se ligar a uma doutrina, a uma causa, você dar sua vida a uma causa, as leis que aquilo ali... E, junto, eu estava me separando do Gerald, que também era uma espécie de doutrina, a causa do teatro, se aliar a um grupo, você... Aí eu achei que, no cômputo geral, o mais terrível, embora os anos 60 tenham sido tão libertadores de comportamento e tudo, mas eu acho que eles eram regidos a doutrina. Eu tenho essa impressão. Que, embora a liberdade fosse enorme, eu sinto que as pessoas todas estavam engajadas, ou em serem livres, ou em serem engajadas, ou em serem mulher, ou em serem... E eu fiquei muito feliz quando acabei o filme, acabei minha vida lá com o Gerald, porque eu me senti uma mulher de hoje. Eu achei que a gente tinha ganho muito em 30 anos, porque eu acho que hoje é um país... um país e uma época, e uma era com menos... todo mundo fala menos ideais, as pessoas são mais egoístas, mais egocêntricas... Mas eu acho que se vive com menos doutrina. Hoje, eu acho que se ganhou nisso. E eu também curei em mim essa falta dos anos 60 como, assim... um problema de educação...

Matinas Suzuki
: Você não está dizendo que o teatro do Gerald é o teatro dos anos 60, não é? [Risos]

Fernanda Torres: Não, mas ele tem muito do mito...

[...]: Militância, não é?

Fernanda Torres: Não é na militância, não, mas tem muito do Gerald sim, ele traz muito a coisa... E era uma coisa que me faltava, na minha educação, entendeu? E foi engraçado acabar o filme junto. Foi um pacote todo. E eu vi que, no fundo, lidava com a mesma coisa. O engajamento, às vezes, que o teatro pede – nem só o Gerald, qualquer diretor pede que você tenha teatro – é uma herança ali de living theater, dos grupos de teatro, que é uma coisa dos anos 60. O próprio Jonas, o Matheus Nachtergaele [ator], eu falei para o Bruno: a gente precisa de um ator xiita de teatro de São Paulo, se não ninguém vai acreditar nesse grupo, cara! Aí eu falei, vai ver o [O livro de Jó - peça na qual atuava Matheus Nachtergaele]. Então, essa questão toda com o Jonas eu tenho dor, porque é o seguinte: o Matheus Nachtergaele é o melhor ator, um dos melhores atores que nós temos. E ele, para mim, ele fazer já é... já se respeita ali. Engraçado, eu vejo diferente até pelo próprio Matheus, entendeu?

Beto Brant
: O fato de a gente não conhecer ele até – nós, público brasileiro – não conhecer ele, não identificar, ter uma referência de outro tipo de personagem, é muito bom, não é? Talvez ele... [sendo interrompido]

Fernanda Torres: Não, ele é um ator... Mesmo depois de conhecerem o Matheus, ele será impressionante, entendeu? E o Matheus, eu dizia: tem que trazer esse cara, porque ele tem essa loucura dos anos 60 que vai ter a ver com o filme.

Leon Cakoff: Eu queria sair um pouco do filme do Barreto...

Fernanda Torres
: Ah, valeu, Cakoff! [Risos]

Leon Cakoff: E falar um pouco de você. Eu acho que a gente está aqui um pouco para isso também, e não para ficarmos falando do filme do Barreto. Eu tive a oportunidade de assistir, há uns dois meses, as filmagens de Contagem regressiva, lá no Rio, e fiquei muito impressionado com o teu trabalho.

Fernanda Torres
: Você ficou?!

Leon Cakoff
: Muito!

Fernanda Torres: Mas você só me salvou do peitinho! [Risos]

Leon Cakoff: Porque nos intervalos era aquela coisa que a gente ria, contava piadas... Você – não é? – contava as suas piadas, algumas bem picantes... [Torres ri] Mas, na hora de filmar, você virava uma outra pessoa e começava a chorar, porque o papel pedia que você chorasse, aí interrompia, você contava piadas de novo, voltava à filmagem você retomava o momento de choro, e aquilo me deixou muito impressionado. E você faz um dos principais personagens desse filme. Eu queria que você falasse um pouco dessa carga emocional, do que te leva a isso?

Fernanda Torres
: Olha, isso é o maior barato de ator. Eu não tinha ela, a vida foi me dando ela. Esse negócio da memória emotiva, ela realmente existe. Não é memória emotiva não, é a vida, conhecimento de causa. Então, por exemplo, quando eu estava fazendo o Terra estrangeira, em Portugal, aquilo era muito emocionante para mim. Porque aquilo ali, eu tinha estado em Portugal fazendo O judeu, O outro... o Felipe Pinheiro, meu amigo, que eu conheci em Portugal tinha morrido e eu estava voltando a Portugal, tudo aquilo imantava assim... É muito esquisito. Em cinema você aprende a ser um fogão, você esquenta e desliga. A coisa mais difícil que você tem que aprender em cinema é a hora de esquentar e a hora de esfriar. Porque se você passar o dia inteiro [simula sofrimento e angústia, levando as mãos à cabeça e contraindo o abdômen] assim, na hora de filmar você não sai, você não tem. Então, você tem que aprender...

Leon Cakoff: É uma técnica sua isso?

Fernanda Torres: Eu lembro... filmando Terra estrangeira, eu parada, pensando que eu ia morrer, que eu ia morrer [repete os movimentos feitos anteriormente]! Aí, entra a assistente de filmagem e eu ouço assim no meu ouvido: “Fernanda, vai querer carne ou peixe?” [fala baixinho, contraindo o abdômen; risos] Então, ou você tem uma crise de... ou você diz assim: “Peixe” [pronuncia o termo com uma expressão séria e volta a gestuar sofrimento]. Então, a coisa mais difícil que o cinema me ensinou... Depois eu li um livro do Marlon Brando [ ator norte-americano, um dos mais famosos do mundo pela forma de interpretar], que ele fala isso: que o primeiro papel que ele fez, ele entrou, passou o dia ouvindo ópera, deprimido, numa sala [dramatiza sua fala alterando o tom de voz e movimentando o tronco], porque ele tinha que fazer o paraplégico. Aí ele saiu; tinha deixado tudo no quarto [risos]. Não tinha sobrado nada. Mas eu não sei, eu acho que a vida ajuda muito.

Leon Cakoff
: Mas e os teus pais, ajudam muito?

Fernanda Torres
: Os meus pais? Ah, eu acho que não, viu! [riso - close em Cakoff, que também ri] Quer dizer, eu acho que... Meus pais fizeram a loucura suprema de me dar esse nome, não é? [Risos] Outro dia, eu estava conversando com a Debby Bloch [Débora Bloch], isso é uma doença. Eu estava conversando com a Debby Bloch, ela disse assim: “Nanda, nasceu meu filho. Eu estou a fim de botar um nome, que seja um nome bonito, mas que não marque ele para o futuro, porque eu acho importante que a criança escolha por ela” Eu falei: “Realmente, isso é muito importante”. Falei: “Bom, Debby, eu não sou uma boa pessoa para dizer isso, porque os meus pais, realmente...”. [Risos]

Matinas Suzuki
: Agora, Fernanda, o Carlos Alberto Couto, aqui de São Paulo, ele faz uma pergunta: “Mas o que os seus pais te ajudaram ou o que você aprendeu com eles, na sua carreira?

Fernanda Torres
: Ah, olha... A minha mãe, agora, eu virei sócia da minha mãe, não é? [Sorri]

Matinas Suzuki: Exato!

Fernanda Torres: Eu acho que nós somos a doença mais bem resolvida do planeta, porque três pessoas chamadas Fernando, que fazem a mesma profissão, não pode dar certo! Isso é uma coisa... muitos anos de análise! Isso é uma coisa para as pessoas se matarem [riso]. Mas acontece que nós trabalhamos bem juntos. E pior: eu estou virando sócia da minha mãe. Então, atualmente, a minha mãe está me ensinando. Por exemplo, a troca atual. Ela está me ensinando a produzir e eu estou ensinando ela... está ocorrendo uma troca incrível. Porque a mamãe não está conseguindo mais produzir, porque a maneira de produzir teatro à moda antiga está ficando impossível, você tem empregados... Você tem que ter sociedade hoje em dia. Eu vim da experiência do Cinco vezes comédia [peça de teatro que, desde 1995, faz sucesso, já tendo mudado o elenco algumas vezes, com revezamento de intérpretes, com atores que têm suas vidas entrelaçadas desde a década de 1970, ora pelo grupo teatral Asdrúbal trouxe o trombone, ora pelo programa humorístico da Rede Globo, TV Pirata], onde foi a sociedade mais bem-sucedida e mais... E estamos misturando essas duas... Então, eu e mamãe estamos fazendo a primeira empresa de grupo capitalista do teatro. Capitalista no sentido de... grupão bem montado. Então, a troca é benéfica para ambas, entendeu? Atualmente, não é mais o que eles me ensinam ou o que eu ensino a eles. Eu vou botar a mamãe na era do computador, por exemplo, cheguei a essa...

Matinas Suzuki: Não, e ela, inclusive... está acontecendo um fenômeno. Ela está trabalhando com pessoas que, na verdade, são pessoas que você começou a trabalhar. Está havendo até um processo... [sendo interrompido]

Fernanda Torres: Não, a minha mãe é hoje em dia, para mim... [sendo interrompida]

Matinas Suzuki: Que é com o Gerald, o Waltinho...

Fernanda Torres
: É. Ela é da família. Eles são todos parentes. A minha mãe, para mim, é como Luis Fernando Guimarães, o Diogo Vilela, Débora Bloch, a minha mãe, ela é da galera, entendeu?

Sérgio Róveri: Agora, nem sempre foi assim, Fernanda. No começo, como era?

Fernanda Torres: Não, a partir do Flash [The flash and crash days - tempestade e fúria, peça de teatro de 1991, dirigida por Gerald Thomas, onde Fernanda Toerres atuou junto com mãe] foi assim. Depois que a gente fez o Flash, que uma comeu a outra, uma dava porrada na outra, a gente virou companheira de... de coxia. Eu sou muito grata. Realmente, hoje em dia, eu acho até meio estranho, porque realmente eu sou muito parceira da minha mãe e do meu pai. E aí os três... eu vou para Nova York, lançar o filme do Bruno, aí está o filme do meu pai! Aí eu abro o Time Out [um dos principais guias turísticos do mundo] tem uma crítica de Sundance [Instituto Sundance, em Utah, nos Estados Unidos, promove cursos de cinema e teatro, além do Festival de Cinema de Sundance, premiação do cinema independente conhecida em todo o mundo], com a mamãe e eu do lado! Muito louco! [Sorri]

Beto Brant
: Fernanda, desculpe a pergunta meio esquisita, mas... [sendo interrompido]

Fernanda Torres: Fala, Beto. Você hoje é o azedo aqui, hein! Eu estou sentindo... [Risos]

Beto Brant
: Não, o Gerald Thomas... vocês estavam juntos naquela época, não é? Do Flash?

Fernanda Torres
: Ahan... [em sinal afirmativo]

Beto Brant
: Você não acha que, no fundo... porque eu vi uma entrevista dele uma vez, que ele... que as pessoas levam demais a sério as coisas que ele faz. Que, na verdade, ele se diverte, ele tira um grande barato, não é?

Fernanda Torres: Ahn... [sinalizando para que Brant continue]

Beto Brant: A viagem estética dele... no texto mesmo, na dramaturgia dele, ele... ele se diverte muito fazendo. E você não acha que existe alguma coisa meio perversa dele de ver a mulher dele com a sogra, ali em cena...

Fernanda Torres: Ah, totalmente; não é, Beto? [Risos]

Beto Brant: Eu vejo ele totalmente... psico...

Fernanda Torres
: Mas olha...

Beto Brant
: Meio patológico, uma coisa... nesse momento!

Fernanda Torres
: Ahn!

Beto Brant: É só isso! Eu queria saber qual é a tua interpretação disso.

Fernanda Torres
: Do quê, Beto? [Risos] Do que pode ser?

Beto Brant
: Se ele tinha mesmo alguma coisa meio perversa...

Fernanda Torres
: O que você acha, Beto [piscando para um dos entrevistadores]?

Beto Brant:
Eu acho que tinha.

Fernanda Torres: Então tá, Beto! [Riso]

Sérgio Róveri
: Fernanda, você falou da tua mãe, que, nessa hora, ela está em Berlim, participando de um filme que os jornais dizem que tem grandes chances de voltar premiado de lá, que é o Central do Brasil. O que é isso, companheiro? está concorrendo ao Oscar; O quatrilho concorreu o Oscar há dois anos. O cinema brasileiro está passando por um momento muito especial, não é? Quer dizer, de projeção no exterior, de público interno. Quer dizer, bons filmes, o público retornando, prestigiando o cinema brasileiro. E os diretores ainda dizem que se fazer cinema no Brasil ainda é uma atividade muito difícil. Na sua opinião, você acha que isso pode mudar? Ou o que está faltando para que se fazer cinema no Brasil seja uma atividade um pouco mais fácil?

Fernanda Torres: Cinema, no Brasil, não é uma indústria. Em poucos lugares do mundo é. O cinema, no Brasil, é subvencionado. E é importante isso, porque esse dinheiro aí que foi investido no próprio... O país investiu nele mesmo, em forma de imposto, liberando isso para a cultura. Então, cada vez que vem um Oscar, um prêmio, um filme bom, é um retorno, é um investimento do país nele mesmo. É isso que está acontecendo. Eu acho que o Brasil é um país que gosta de se ouvir, que gosta de se ver . E eu acho que houve uma tragédia na indústria de imagem no Brasil, que foi uma divisão quase de esquerda e de direita. Eu acho que a direita foi para a TV e as pessoas que não tinham problema em se engajar e tal; e a dita esquerda foi para o cinema e tentou montar uma indústria de contracultura, que acabou dando a Embrafilme. É uma história louquérrima, muito lindo assim... essa tentativa de se fazer uma indústria que vinha do Cinema Novo. Mas, hoje, isso tudo deu numa divisão, onde a televisão foi para um lado, o cinema foi para o outro. A televisão vingou como indústria capitalista. E eu acho que o Brasil ama se ver. Está aí o sucesso das novelas, está aí o sucesso das TV's. E o cinema faliu como indústria. Então, esse é problema, atualmente: a gente conseguir juntar as duas coisas. Porque eu acredito que um país sem cinema é um país subdesenvolvido. Eu achava que o Irã era um país atrasado, aí eu sentei e vi Salve o cinema [de Mohsen Makhmalbaf, 1995]. Eu passei a achar que o Irã tem cabeças pensantes, que o Irã é um país... Hoje em dia, um país que não tem cinema é um país subdesenvolvido. Eu acho que não ter cinema não condiz com o Brasil. E eu acho que vai vir das aberturas das TV's a cabo, do interesse das grandes coisas em fazer cinema. Eu não sei se estou errada nessa avaliação, mas... [sendo interrompida]

Sérgio Róveri: Quer dizer, você acredita que vai haver um trabalho conjunto? Houve o distanciamento, você acredita que vai haver uma aproximação?

Fernanda Torres: Eu acho que a Guerra Fria acabou [riso]! Eu acho que está na hora de se fazer isso!

Ivan Isola: Eu queria dizer uma coisa. Não é que vai haver, está havendo.

Fernanda Torres: Está havendo!

Ivan Isola: A TV Cultura, neste momento, está co-produzindo 35 filmes de longa-metragem, entre os quais, o próximo filme do Babenco, o filme do Ugo Giorgetti, o filme do Guilherme de Almeida Prado. [close em Torres tirando o casaco] Nós estamos... A TV Cultura tem um projeto para a recuperação da Vera Cruz, para que lá existam laboratórios, infra-estrutura, que sustentem uma escala de produção desse tipo. Agora, eu queria saber de você o seguinte: como é que você vê esse futuro do cinema brasileiro? Como é que você sonha esse futuro do cinema brasileiro?

Fernanda Torres: O meu sonho seria que o cinema brasileiro virasse o cinema chinês. Porque eu acho que o cinema chinês produz grandes filmes sobre a cultura deles, filmes fenomenais e... uma atriz como a Gong Li [nascida em 1965, a atriz chinesa mais famosa, protagonizou Lanternas vermelhas, O sorgo vermelho, Memórias de uma gueixa, dentre outros, além de ser membro do júri dos Festivais de Cinema de Cannes, Berlim, Tóquio e Veneza] não precisa ir para os Estados Unidos. Ninguém fica perguntando para ela quando é que ela vai resolver o problema da carreira internacional dela.

[...] Ela vai aprender a falar inglês...

Fernanda Torres: Ela tem a carreira internacional na China, falando [imitando o mandarim].

Leon Cakoff
: Mas você resolveu isso também com o prêmio em Cannes, não é? Ninguém cobrou de você uma carreira internacional.

Fernanda Torres
: Não, mas isso não é resolver. Eu não estou falando de prêmio! Prêmio é uma coisa, eu estou falando de mercado. Hoje... [sendo interrompida]

Leon Cakoff: Não, mas reconhecimento também, não é?

Fernanda Torres: É, mas... É diferente. Porque sem você ter o teu país produzindo cinema, um atrás do outro, você sozinho não é ninguém. A Gong Li é a Gong Li, primeiro porque ela é linda, ela é boa para caralho [riso], mas também porque ela tem, atrás dela, um país inteiro explicando a cultura dela, produzindo a cultura dela. Então, toda vez que me perguntam – desde Cannes me perguntam: “E a carreira internacional?”, eu fico tentando explicar que a carreira internacional começa aqui. Coisa mais incrível nessa história do Oscar é que o Bruno morou sete anos lá, mas ele fez um filme aqui para ir parar no Oscar. Porque ele é interessante aqui. Eu acho que é dessa ponte... o sonho com o Brasil parar de ser um país isolado do mundo.

Beto Brant
: O Waltinho também fez um filme americano, que foi um fracasso...

Fernanda Torres
: Foi um fracasso! [Apontando para Brant]

Beto Brant
: E agora um filme totalmente humanista, simples... [sendo interrompido]

Fernanda Torres
: E que aí, hoje, está no jornal que o crítico inglês... realmente alguém leu o crítico inglês, que falou que esse filme foi feito para o Oscar. Eu pensei: quem é que vai com o Crato [região nordestina] [em tom de indignação - risos], dormir num hotel de caminhoneiro, pensando: “Este filme eu estou fazendo para o Oscar!”? [Riso]

Matinas Suzuki
: Fernanda, você falou da importância do Oscar para o cinema, etc. Para você, Fernanda, Nanda, quando você pensa nisso, o que é isso? Você tinha alguma... ilusão com relação a isso? Quer dizer, você, como pessoa, esquece a indústria do cinema, esquece que você é a atriz que você é... [sendo interrompido]

Fernanda Torres: É assim, olha. Quando eu ganhei Cannes...

Matinas Suzuki: Você fez a sua carreira, ralou para fazer essa carreira, fez milhões de coisas, etc e tal. Que satisfação íntima te dá isso, que... ? Porque você... [sendo interrompido]

Fernanda Torres
: Ah, é enorme! Vou dizer porquê. Quando eu ganhei Cannes, primeiro, lá na Tijuca, o meu tio Paulo, virou para mim – eu acho que ele não sabia nem direito onde era Cannes – ele falou para mim: “Quero te ver um dia no Oscar!” [Risos]. E eu olhei para ele e falei: “Nossa, o tio Paulo não tem idéia da ralação que é e da sorte que é chegar até aqui! O Oscar não vai rolar nunca!” Aí você rema... Quais são as satisfações que me dão? Logo antes de ir para Nova York, para ver o lançamento lá do... do coiso, eu estava no Brasil remanejando A gaivota [peça de teatro de Anton Tchekov, dirigida por Daniela Thomas], que... também a gente conseguiu levantar um projeto – eu acho que – maravilhoso para teatro, mas que as datas de teatro que tinham eram na Copa do Mundo. Eu estava com essa... E esse ano eu fiz filme para burro, mas eu não ganhei dinheiro esse ano. Eu vivi do Cinco vezes comédia. Então, falando, será que A gaivota, na Copa... a quem interessa? A quem a minha vida interessa? A quem os meus interesses interessam? De vez em quando, o Brasil... você tem essas crises, assim. Porque você fala : “Pô, embora eu ache ela maravilhosa, mas é a Carla Perez, é o Ronaldinho!” Eu sou demodé perto disso, eu sou uma burguesa... perdida, aqui. Indo fazer Tchekov, entendeu?. Coisa mais burguesa e perdida. Fui para Nova York e, de repente, aquela cidade que eu passei, sei lá... há dez anos eu vou, e aquele cinema que eu comprava sempre ingresso para ver sempre filme americano, estrangeiro, uma hora... está passando o seu filme, cara! Aí você abre o New York Times... [sendo interrompida]

Matinas Suzuki: Você foi se ver num cinema americano? À tarde, assim...? [Riso]

Fernanda Torres
: Você sabe que eu não entrei? Eu não entrei, mas fui reconhecida na rua. Isso foi muito emocionante [sorri]. Foi brega e emocionante.

[...]: Foi em Nova York isso aí?

Fernanda Torres: Saindo com o Babenco – eu falei para o Babenco que eu tinha pago a mulher – do Sony Theater [impressionada], sai uma mulher e fala assim: “Are you Conrade Maria?” [Risos]

Ivan Isola: Você foi reconhecida e o Babenco não? [Solta uma gargalhada]

[...]: O sucesso é brega?

Fernanda Torres
: É! Aí eu falei: “Babenco, eu paguei essa mulher!” E o Babenco ficou todo... Ficamos todos... Aí chegou... a gente estava com a Juliana, filha do [Arnaldo] Jabor, aí eu cheguei, ligou o Jabor tão emotivo: “Conrade Maria!” Era aquela festa de brasileiros ali naquela esquina, sabe? Isso é emocionante, entendeu? O emocionante é quando o Bruno te chama para fazer outro filme, quando o Waltinho te chama para fazer outro e quando você sobrevive fazendo coisas que você gosta. Aí eu fui para Nova York e lá, de novo, eu tive um alívio: “Olha aí, gente! O mundo consome cultura, a cultura existe, o cinema tem espaço”. Voltei para cá... minha peça... tirei da Copa do Mundo, resolvi esse problema e, de repente, vem o Oscar [bate com o dorso de uma das mãos sobre a palma da outra] que, para mim, uma atriz como eu... Eu corro o risco – eu sempre brinco –de virar a Denise Stocklos, sem ter o estofo da Denise Stocklos [atriz e diretora, famosa por seu trabalho com mímica, é considerada a grande dama do teatro essencial que tem em cena o mínimo de efeitos e o máximo de teatralidade] para ser de... xiita, entendeu? Mas eu vivo numa fina linha entre cult e popular. E eu tenho muito medo de perder o popular ou... você tem medo de não sobreviver... [sendo interrompida]

Cristina Padiglione
: Te causa algum drama de consciência perder o popular? O que é que... [sendo interrompida]

Fernanda Torres
: Não, não é consciência não!

Cristina Padiglione
: Uma coisa de... Andar nessa linha fina...

Fernanda Torres
: É pânico mesmo! De você não conseguir viver! Do cinema virar uma coisa cult, pequena; do teatro virar uma coisa cult, pequena; da tua participação de TV virar uma coisa... Quando vem um Oscar... Foi importante para mim essa indicação agora. Foi muito legal, porque eu passei a andar na rua e o cara do botequim, que há um tempo atrás perguntaria: “Você está sumida?” [Risos] Hoje, ele levanta o copo e fala: “Aí, Fernanda, um Oscar!” [Levantando o braço, como a fazer um brinde - risos]

João Gabriel de Lima
: É por causa da televisão.

Fernanda Torres
: Então, é o que retoma minha... me põe popularmente no Brasil. É o meu Ronaldinho. É o meu momento Ronaldinho para eu poder ter fôlego... [sendo interrompida]

[...]: Mas Fernanda, você disse uma coisa...

João Gabriel de Lima
: É que você está meio fora de novela, Fernanda. Agora, eu queria te perguntar uma coisa...

Fernanda Torres
: É, mas isso é fundamental, isso faz muita diferença.

João Gabriel de Lima
: Você falou que você não se preocupa com carreira internacional. Agora, vamos supor que esse filme ganhe o Oscar – que é uma probabilidade não tão remota – você vai virar a atriz brasileira com a maior visibilidade internacional, provavelmente.

Fernanda Torres: Não é verdade.

João Gabriel de Lima: É, porque você já tem o Terra estrangeira, você tem o prêmio em Cannes...

Fernanda Torres
: Mas vou te dizer como é que isso funciona. É assim: por exemplo, acabei de ter um... arrumei um agente lá em Nova York. É o seguinte: peguei meu materialzinho dele, um cara viu o filme e falou: “Do you have an agent [Você tem um agente?]?” Eu falei: “Não” “Então amanhã eu vou te apresentar um cara legal, que não é de uma grande firma, está abrindo uma pequena. Deixei a minha coisa lá com ele. Aí eu... tenho um na Inglaterra, por exemplo, desde que eu fiz o filme com o Hopkins, mas nunca rolou nada. Pode ser que um dia role, você entendeu?

João Gabriel de Lima
: Você não acha que essa possibilidade...

Fernanda Torres: Mas a carreira internacional é você mudar para Los Angeles. Eu brinquei com ele, eu falei: “Tudo bem! Então eu perco o sotaque, aumento o peito, me pinto o cabelo de louro, ponho os olhos azuis e vou para aí quando? [Sorri]

João Gabriel de Lima
: Não, não precisa. A Sônia Braga não fez isso, por exemplo.

Cristina Padiglione: Existe já uma cobrança, há a algum tempo, de seguir o destino de Sônia Braga?

Fernanda Torres: Mas a Sônia é totalmente diferente. A Sônia fez um filme que deu 12 milhões de espectadores, chamado Dona Flor [Dona Flor e seus dois maridos, filme de 1976, baseado no livro de Jorge Amado, dirigido por Bruno Barreto]. Eu nunca fiz nenhum filme que deu 12 milhões de espectadores.

[...]: Mas pode dar ainda alguma coisa, pode dar!

Fernanda Torres
: Pode!

Beto Brant: Você não acha que essa perspectiva de carreira internacional era para atores numa época em que também não existiam os filmes nacionais? Você está fazendo bons filmes nacionais, um atrás do outro. Você não acha que... [sendo interrompido]

Fernanda Torres
: Não, eu acho que é para ambos. O que eu acho é que eu posso trabalhar tanto lá quanto aqui. Se um dia me chamarem para um filme lá - e pode acontecer - e hoje o meu inglês caminhou para isso, eu caminhei na minha vida para estar preparada para isso, porque a primeira vez que eu fui a Cannes, eu não conseguia falar o bê-á-bá com as pessoas. E eu me eduquei para entender o inglês, para entender o que é lá fora... Se vierem, eu estarei preparada. Mas, eu não estarei esperando eles virem. A coisa que eu mais quero, atualmente, é entrar numa sala com o Matheus Nachtergaele, minha mãe, o Abujamra [ator], o Celso Frateschi [ator]... e resolver A gaivota. Porque dentro dela tem todos os mitos da minha vida. Outro dia, eu vi uma coisa linda, um documentário sobre Montgomery Clift [famoso ator norte-americano da década de 1950]. Isso é a coisa mais legal de ator. Fui vendo os filmes dele e a filmografia dele era a história da vida dele. Teve uma hora em que estava ele, no colo da Marilyn Monroe [uma das mais famosas atrizes da história do cinema, ícone sexual do século XX], e os dois estavam falando da sua autobiografia. O final do Companheiro [O que é isso, companheiro?]... eu, naquela cadeira de rodas, andando em direção ao Luis Fernando [ator]... No dia seguinte eu estava mal para burro. Eu tinha acabado de me separar, eu ia para a África com o Luis Fernando. Eu entrei naquela cadeira, naquele lugar, eu pensei assim: “Isso é uma metáfora da minha vida” [gestuando como se estivesse a se locomover com uma cadeira de rodas] Esses momentos “Esta é uma metáfora da tua vida” é que... é que fazem a tua história, entendeu?

Beto Brant: Mas esse tipo de associação você também pode fazer com um script americano ou, sei lá, europeu.

Fernanda Torres: Lógico, é isso que eu estou falando. Eu não estou esperando que eles venham, eu estou fazendo o script da minha vida. Se eles me convidarem, eu vou adorar, gente, eu queria fazer o Titanic! [Risos]

Beto Brant: Agora, me diz um negócio, Fernanda. Você, falando nisso de experiência e tal, você fez Eu sei que vou te amar com quantos anos? Você tinha...

Fernanda Torres
: Dezenove. Fiz no set.

Beto Brant
: Dezenove. Você não acha que aquele tipo de texto você não faria com o tipo de experiência, com a maturidade amorosa, sei lá, não teria um outro tipo de interpretação?

Fernanda Torres
: Teria, sem dúvida. Mas, aquele filme, ele me escolheu porque eu tinha feito Inocência. Está vendo como a sua vida é a história... é autobiografia o tempo todo. E ele queria fazer "indecência", por isso que ele me escolheu. Então, não era porque eu tinha maturidade para a frente, é porque eu tinha feito um filme chamado Inocência. Essas... [sendo interrompida]

Beto Brant
: Queria você vulnerável, mais do que experiente?

Fernanda Torres: Ele queria pegar o Inocência e botar Inocência falando loucuras e aí foi o que ele fez. O filme é a história do outro. Isso é que é bonito. Uma coisa bonita da mamãe ter feito Central do Brasil. O Walter já esteve para fazer Zuzu Angel, esteve para fazer um filme da pianista, do Millôr Fernandes, mas ele fez a minha mãe, e ele a gravou para sempre fazendo a tia Áurea, que é a irmã da minha mãe, que é o berço da minha mãe, São Cristóvão! Eu tinha muito medo que as pessoas nunca vissem a minha mãe daquele jeito, porque é algo muito íntimo dela. E o Walter filmou ela! Aquilo ali explica muito do que é ela. Nessas horas é que o filme vale a pena.

Leon Cakoff
: Qual a diferença do filme do Waltinho, esse que está em Berlim agora, do O que é isso, companheiro? ?

Fernanda Torres
: Ai, são muito diferentes. Eu acho que o Central é um filme muito pessoal do Walter, muito... É sobre a orfandade dele, é um filme que ele... é o último filme franciscano do Walter. O Walter, desde a Grande arte, eu sinto que ele fez um voto de pobreza de que ele ia... de que um filme não se fazia por causa dos 5 milhões de dólares. Ele aprendeu com a Daniela, eu vi isso, eu participei do Terra junto com ele, qual é o processo do ator, qual é o processo da emoção, qual é o processo de você tocar o ator. Eu fiz teste para a Grande arte. O Walter era um gentleman, mas muito difícil de chegar. No Terra ele chegou, ele aprendeu a lidar com os outros. E aí ele pegou a minha mãe, que é uma parceira que não existe. Ele achou aquele menino, ele teve o João Manoel, e ele é um diretor com um coração enorme. Eu acho que o Companheiro é diferente. O Companheiro é um projeto do Barretão, que o Bruno veio e que, no meio o Bruno foi percebendo que era um filme emocionalmente importante para ele.

Leon Cakoff
: Pois é, mas são dois filmes que, nesse momento, estão conquistando o mundo todo em nome do Brasil.

Fernanda Torres: Eu acho que o Bruno...

Leon Cakoff: São diferentes...

Fernanda Torres
: Totalmente diferentes.

Leon Cakoff: Pois é! É fantástico isso!

Fernanda Torres: Fantástico!

Leon Cakoff
: Eu não sei o que você pensa disso.

Fernanda Torres
: Eu também senti isso muito, de que um filme tinha que salvar o cinema brasileiro, sempre. [Cakoff ri] Atualmente, eu sinto... o filme do Sérgio Rezende, o Canudos, adorei a posição do Sérgio: “Faço filme para o mercado interno”. É importantíssimo! Ele disse: “Não estou dialogando com os Estados Unidos ou com Paris, com nada! Eu quero resolver o problema aqui”. Acho que o Brasil está dando grandes passos de maturidade em cinema. Os roteiros que eu recebo hoje são muito melhores do que eram. Agora, eu acho que o Bruno e o Walter são dois predestinados, porque eu acho que são dois bem nascidos, que lutaram... lutam e lutaram muito para, não sei, chegar a um cinema autoral deles. Cada um à sua maneira.

Matinas Suzuki
: Fernanda, nós vamos fazer um pequeno intervalo e voltamos daqui a pouco com a segunda parte da entrevista com a atriz Fernanda Torres. Até já.

Fernanda Torres: Não teve intervalo até agora? [sussurrando; Suzuki balança a cabeça em negação]

[Intervalo]

Matinas Suzuki: Nós voltamos com o Roda Viva, que entrevista esta noite a triz Fernanda Torres, que está no filme O que é isso, companheiro?, que concorre ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Já que eu estou falando de perguntas dos telespectadores, Fernanda, o Fernando Peti, de São José dos Campos, aqui no estado de São Paulo; a Renata Sampaio, que mora aqui em Moema, um bairro de São Paulo; Ermínio Langonegro Junior, de Cerqueira César, aqui em São Paulo; Marina Perrout, de Perdizes; e a Maria Amélia Brito, de Caçapava, interior do estado de São Paulo, todos perguntam quando você vai voltar às novelas? [Torres ri] Estão com saudade de você na televisão.

Fernanda Torres: Eu não sei quando eu vou voltar. Novela você tem que ter um contrato longo e a minha vida vai emendando um filme com uma peça. Agora eu vou fazer uma peça até outubro. É meio por isso, uma coisa impede. Mas, eu não sei, cara. Vai me ver no teatro, no cinema! Sei lá, um personagem podia ter, não é? Já teve uma novela de personagem... Já teve, do Sílvio de Abreu [autor de telenovelas], eles morriam de três em três meses [riso]

Leon Cakoff
: A televisão poderia ajudar mais o cinema?

Fernanda Torres: Eu acho que sim.

João Gabriel de Lima
: Fernanda, você está com uma carreira... [inicia a pergunta simultaneamente com Cakoff]

Martinas Suzuki: Esperem aí, um de cada vez!

Fernanda Torres: Olha, gente, eu estou confusa! [Risos]

Matinas Suzuki: O Cakoff fez uma pergunta!

Leon Cakoff
: Eu queria saber se a televisão pode ajudar mais o cinema. Porque se você faz novela e tem um filme em cartaz, acredito que as pessoas vão ver mais esse filme. Como já aconteceu. Ciclicamente isso ocorre.

Fernanda Torres
: Olha, eu não sei não, isso é uma coisa que também tem esse mito no teatro. Eu acho que não, acho que atores...

Leon Cakoff
: Pelo menos alguns atores se dispõem a fazer esse tipo de seqüência. Sai de uma novela, estréia uma peça.

Fernanda Torres
: Mas, isso não é verdade. Isso não é verdade, eu juro por Deus. Você faz o seu público de teatro fazendo o seu público de teatro. Você faz o seu público de...

Leon Cakoff
: Você foge à regra, é diferente.

Cristina Padiglione
: É, eu também acho!

Fernanda Torres: Eu não fujo não. O Diogo Vilela, ele tem um público de teatro. É uma loucura. Ele viaja o Brasil inteiro há 20 anos. E o Diogo diz: “A minha salvação está no teatro”. Então, não é porque o Diogo saiu... é porque ele fez Solidão por todo o Brasil e ele foi a Fortaleza... Público de teatro você faz assim. Público de cinema você faz fazendo filmes bons, muito tempo em cinema.

Beto Brant: Mas hoje a gente tem atrizes de cinema... Tem você, a Patrícia Pillar, Marieta Severo...

Fernanda Torres: Marieta, Glória Pires.

Beto Brant: Maria Padilha.

Fernanda Torres
: Maria Padilha!

Matinas Suzuki
: O Fabiano – Adriano – de Campinas, pergunta se não tem um número muito pequeno de atores trabalhando nos mesmos filmes feitos ultimamente no Brasil?

Fernanda Torres: Eu acho que existem poucos filmes sendo feitos atualmente. Eu não acho, não. Acho que o Brasil tem ator pra burro. Atriz, então, é um problema! [Risos]. Não acho, não. Quer dizer, eu não posso defender isso, porque se eu concordar com ele estou indo contra mim mesma. Então, eu não vou concordar com isso. Bom, esse negócio do... Eu acho que pelo... Por exemplo, Glorinha Pires. Ela não tem o público que ela tem no cinema, porque ela é... é porque ela fez Índia, é porque ela fez Memórias do cárcere, porque ela é uma atriz fenomenal. Então, ela criou no cinema e aí ela vai e faz O quatrilho. Não é à toa que esses filmes vêm... Não é à toa, não! E não é porque o cara é famoso.

Cristina Padiglione: Mas o Diogo e a Glória, de qualquer forma, fazem bem mais novelas que você. Você está afastada desde 86, não é?

Fernanda Torres
: Desde Selva de pedra! [Risos]

Leon Cakoff: Desde Selva de pedra?

Fernanda Torres: Mas, eu tenho muito carinho por Selva de pedra, sabia?

Cristina Padiglione: Eu pensei que fosse um trauma, porque...

Fernanda Torres: Não, é um trauma, lógico! Mas, eu tenho carinho porque eles me deram a chance.... Cara, você fazer uma Janete Clair  [uma das pioneiras e mais famosas autoras de telenovelas] é uma coisa, para um ator brasileiro, importante. Eu acho importante um ator brasileiro fazer novela, porque é da nossa linguagem. Eu fiz três novelas. Eu já levantei paraplégica da cadeira de rodas para encontrar o Tony Ramos. Eu já fiquei toda enfaixada depois do acidente de carro. Isso é maravilhoso, cara!

João Gabriel de Lima: Entre os atores da tua geração, tem uma espécie de mito de que o que dá dinheiro é a televisão, o que dá dinheiro é a novela. Os atores fazem teatro, os atores fazem cinema... Você até citou o caso do Diogo Vilela, que, aliás, é bem engraçado, porque ele só faz monólogo e tem um público grande, não é?

Fernanda Torres: É! O Diogo é maravilhoso!

João Gabriel de Lima: Eu queria te perguntar: em termos de sobrevivência econômica, dá para você se sair bem só fazendo cinema e teatro, que é o que você tem feito atualmente?

Fernanda Torres: Je vi de bic, não é? [tradução literal para o francês da expressão “eu vivo de bico”; risos] Totalmente, cara! Eu vivo de bico há 20 anos. E é isso, o bico melhora conforme o seu status melhora na sociedade [riso]. O bico piora conforme o seu status piora.

João Gabriel de Lima: Mas, quer dizer, para um ator... [sendo interrompido]

Fernanda Torres
: Não, eu vivo... Imagina, no Cinco vezes comédia eu vivi um ano de teatro. Muito bem. Quando eu fiz lá, com o Gerald, com Bia, pingava dinheiro [bate com o dorso de uma das mãos na palma da outra], não é...

[...]: O Ney Latorraca vive há uma década com o teatro.

Fernanda Torres: Vive há uma década com o teatro. [Marco] Nanini vive de teatro. É que na TV é o único lugar que você tem um salário, um emprego, é o único patrão, é a única pessoa, no Brasil, [riso] que tem condição de empregar as pessoas... São o quê? Os jornais e as TV's que você, como ator, tem um emprego, com um salário. Mas eu nunca vi um contrato na minha vida, eu não sei o que é um contrato, entendeu?

Cristina Padiglione: Você nunca teve... Você fez TV sempre com contrato por obra certa?

Fernanda Torres: Eu nunca tive, na minha vida. Eu nunca tive contrato com o Barretão, com ninguém.

Ivan Isola
: Mas Fernanda, me diga uma coisa. Desde o começo eu estava querendo te fazer uma pergunta em torno dessa questão. Eu, como uma pessoa de cinema, eu sempre me intrigo muito, porque eu achei por muito tempo – ainda acho – que os atores de cinema... Quer dizer, os atores que fazem teatro foram fazer televisão. Então a atuação, na televisão, ainda tem uma forte influência do teatro. Atualmente, enfim, de uns 10, 15 anos para cá, essa questão do cinema utilizar os atores de televisão fez com que alguns vícios, alguns tiques da televisão viessem para o cinema...

Fernanda Torres
: Aonde? Nem tem produção no cinema! [Riso]

Ivan Isola: Aí, exatamente! O que eu queria te perguntar é isso. Como é que você... Porque você atua, como quase todos os atores, nos três meios. Mas eu sinto que você tem um trabalho muito específico para cada meio, no qual você atua. Eu queria que você, rapidamente, me dissesse um pouco como você vive cada um desses meios?

Fernanda Torres
: Olha, um meio sempre alimentou o outro. Primeiro, o cinema me salvou ali, porque ele me tirou da minha família, me deu um espaço só meu, logo me deu um prêmio, resolveu o meu problema de várias coisas. Depois, quando... o cinema começou a falir, começou a ficar chato, só se falava dos milhões de dólares que a Embrafilme não tinha soltado... Ficou chato, os filmes ficaram ruins. Aí eu fui para o teatro, o que foi a minha salvação. E depois, o maravilhoso – que aconteceu este ano – é que o teatro juntou com o cinema, lá através da Daniela e do Walter. E aí, por exemplo, no teatro, desde o Flash, que eu comecei a ficar muito cômica no teatro... E aí eu achei que, se eu continuasse assim... E desde o Marvada [A marvada carne, filme de André Klotzel, de 1985], no cinema, eu comecei a ficar... Por exemplo, o Beijo [Beijo 2348/72, filme de 1990 dirigido por Walter Rogério] é um filme que eu acho que eu exagerei. Aí você falou: “Opa, eu preciso virar uma atriz imantada de novo”...Aí eu estou chorando há três filmes [risos]. Eu avisei para o Waltinho que era o último filme que eu ia chorar. Então, você vai... você, como ator... [balança o tronco de um lado para o outro, indicando ponderação] você tem que ir trabalhando para não se repetir e aí... Então, eu sinto que, quando eu fiquei demais no cinema, eu senti que era hora de eu ir fazer seis meses, sem ganhar, de ensaio, no Sesc Tijuca, com a Bia Lessa. Foi maravilhoso. Eu fiquei vivendo pobre, não tinha dinheiro. [Pausa] Muito legal. Aí, eu estava lá, no Gerald, por exemplo, daí eu falei: “Pô, agora eu preciso fazer uma peça com os meus amigos, com a minha geração”. Veio o Cinco vezes comédia! Então, uma coisa vai te balançando com a outra. Acho que essa é a melhor maneira de viver.

Sérgio Róveri: Fernanda, falando em processo de trabalho, uma coisa me deixa curioso. Por exemplo, Cinco vezes comédia, que ficou o quê, mais de um ano em cartaz?

Fernanda Torres
: Um ano.

Sérgio Róveri: Como que você lida com o seu processo de dramaturgia para que nesse ano não se caia numa rotina, quer dizer, para que a cada noite você sinta o mesmo entusiasmo?

Fernanda Torres
: É porque você vai para um teatro pequeno... Teatro é matéria viva. É, realmente... E, para mim, teatro começa depois que estréia. Depois que estréia é que você começa a cortar tua peça, a editar o teu filme. É o que corresponderia à moviola. Acho que uma peça estréia um mês depois da estréia. E você... Teatro é muito vivo, no Brasil. O país inteiro tem capitais com teatro. Então, você vai para Porto Alegre, é um público: eles têm uma formação, o teatro é de um tamanho; você vai para Salvador, para o Castro Alves [agita os braços para o alto, em sinal de euforia]; aí você vai para o Recife, que eles são intelectuais; vai para Brasília... Isso tudo... Eu lembro no Orlando, o orgulho que eu tive, eu falei: “Cara, eu estou aprendendo essa profissão, porque eu estou fazendo em teatro grande, teatro pequeno...” Quando a gente fez o Flash, essa coisa de representar no Lincoln Center, em Nova York, aí depois numa sala do Camp Nigel, mínima. Isso tudo é processo vivo. Não tem repetição a mesma noite, nunca.

Sérgio Róveri
: O próprio espaço interfere, então, no espaço do ator em cena?

Fernanda Torres
: O espaço, o público... Por exemplo, o Cinco vezes comédia foi uma aula de invejas bem administradas, de... em cada capital um era o rei. E os outros tinham que agüentar [risos]. E era aquele Coliseu, no final você ia e a platéia fazia: "Fulano!" [alguém sendo anunciado], “Êêêêê [batendo palmas, imitando a platéia eufórica]; "Beltrano!" [bate palmas fracas; risos]. E você tinha que fazer aquela cara. Todo dia eu encontrava a Debby na saída... Porque eu peguei o texto com o Hamilton [Vaz Pereira] que é o work in progress, não é? Porto Alegre, Belo Horizonte [agitando os braços, gestuando confusão]... Aí o Hamilton cortando e tal... [risos] Daí a Debby tinha pego do Mauro Rasi [autor teatral], já feito e tal [faz com os braços um movimento de cima para baixo, indicando um caminho reto]... Ela saiu ovacionada! Eu olhava e falava: “Vou enterrar um sapo preto para você atrás do monte, Débora!” [Risos]. E isso... O Cinco vezes foi incrível, foi uma experiência... Primeiro, do poder que a minha geração de atores tem. Geração vai do Luis Fernando a...

Matinas Suzuki
: Isso é incrível!

Fernanda Torres
: Isso é incrível! Ali eu descobri, eu falei assim: “Eu estou maluca, gente. A gente tem aqui um capital; eu tenho aqui uma geração de atores magnífica na minha mão e ainda tem a mamãe, quer dizer, isso aqui dá para fazer repertório até morrer. Com poder de público... [sendo interrompida]

Matinas Suzuki
: Teve algum momento, no Rio de Janeiro, houve algum que atraiu... Porque, basicamente, a grande parte dos atores da sua geração apareceu, mais ou menos, na mesma época, no Rio de Janeiro. Houve algum... ou algo... [sendo interrompido]

Fernanda Torres
: O Asdrúbal! [Asdrúbal trouxe o trombone, grupo de teatro carioca, criado em 1974, quando estreou com a peça O inspetor geral, de Nikolai Gogol, dirigida por Hamilton Vaz Pereira, revelou um grupo de atores como Regina Casé, Luiz Fernando Guimarães, Perfeito Fortuna, Evandro Mesquita, Nina de Pádua e Patrícia Travassos, que fariam sucesso também no cinema e na televisão.  A montagem da peça Trate-me Leão em 1977, criação coletiva do grupo, fez com do Asdrúbal o representante do que se passava nos corações e mentes da juventude dos anos 70 e influenciou toda uma geração de jovens atores].

Matinas Suzuki
: Ou algo que catalisou?

Fernanda Torres: Foi o Asdrúbal! Eu me lembro o dia que eu encontrei a Débora Bloch: ela estava indo ver Asdrúbal e eu estava indo ver Asdrúbal. A partir do Asdrúbal vieram vários grupos, todo lugar tinha um grupo, grupos dissidentes, o Pedro Cardoso. Pedro Cardoso e Felipe Pinheiro, quem viu aqui? Ninguém viu? [Gira a cadeira, olhando para os entrevistadores da roda]

Matinas Suzuki: Eu só ouço histórias. [Riso]

Fernanda Torres
: Seus paulistas! [Risos] Esses dois gênios surgiram no seguinte: eles estavam fazendo o maior fracasso do mundo. Deram aos grupos de teatro, no Rio – a prefeitura –, os grandes teatros pela primeira vez. Deram dinheiro, eles fizeram uma superprodução chamada Serafim Pontegrande. Fracasso de bilheteria. Pedro Cardoso e Felipe Pinheiro estavam lá um dia. Aí, de repente, eles estão representando, começam num navio [imita alguém remando, balançando o tronco de um lado para o outro], e um fala assim para o outro – vários atores: “Gente, peraí... peraí, gente, peraí... não tem ninguém lá na platéia, gente!” [Risos] O Felipe Pinheiro berra lá detrás: “Tô vendo dois no balcão!” [coloca uma das mãos como a proteger os olhos do sol, para avistar mais longe; risos]. E voltaram a representar. Neste fracasso surgiu Pedro Cardoso e Felipe Pinheiro.

Leon Cakoff
: Mas, pelo jeito, nem os cariocas foram ver, não é? [Risos]

Fernanda Torres: Não, não! Depois fomos ver Pedro Cardoso, Serafim... Olha o outro! Paulista despeitado [referindo-se a Cakoff; risos]!

Beto Brant: Fernanda, você...

Fernanda Torres
: Não, o que eu digo é que veio daí, essa galera toda. Hoje, eu falei para o Luis Fernando... Ele falou: “Vamos lá no Oscar!” E eu falei: “Luis” – porque eu botei o Luis no filme – “Se eu te levar do Asdrúbal para o Oscar, eu sou uma pessoa muito feliz”. [Risos]

Beto Brant: Escuta, Fernanda, eu tenho uma coisa que...

Fernanda Torres
: Você não vem com nenhuma pergunta azeda para o meu lado, hein Beto Brant! [Sorri]

Beto Brant: Não, é bem light agora! É metodologia. Você pega um texto, qual é o teu método de pesquisa, de composição de personagem?

Fernanda Torres: O meu método, geralmente, é o roteiro. Eu acho que um ator tem que saber o roteiro todo, com seu diretor, e concordar, e discutir aquele roteiro. Porque, depois, você vai filmar desordenado. Então, toda a equipe tem que saber que, naquele dia que a gente está filmando aquilo... você tem que ter um desenho do filme, o que você já construiu... O filme é um quebra-cabeça que você vai botando umas peças, que vai virando aquela massa amorfa.

Beto Brant
: Mas, você procura pessoas que são parecidas ou lê coisas... [sendo interrompido]

Fernanda Torres
: Você fica em processo aberto para... é uma coisa muito louca.

Beto Brant: Antenada.

Fernanda Torres
: É, você fica com uma antena ligada para que qualquer coisa te inspire, no que diz respeito a físico: a falar, a andar. Isso tudo... você começa a pensar como você pode fazer isso. E o processo intelectual sobre o roteiro [bate uma mão na outra, com as palmas viradas uma para a outra].

Beto Brant
: E qual foi – nessa sua pesquisa de preparação de O que é isso, companheiro? –, o que deu inspiração especial? Quais foram as sacações durante a pesquisa, ou durante conversas com pessoas que...?

Fernanda Torres
: Primeiro, o grande problema do Companheiro já foi no ensaio. O primeiro dia que aquele elenco se reuniu e disse: “Companheiro!” [Aponta para frente; risos] Cara, nós falamos: “Isso aqui não vai dar para andar”. Aí um dia – eu adorei todos os ensaios com o Farjala, que nos deu... Ah, teve um dia, a gente fazendo a invasão à LC Barreto, fazendo treinamento com revólveres, e o Farjala dizia assim: “Eu pedi a Lucy que botasse uma sacola de dinheiro dentro da LC Barreto; nós invadimos e gastamos o dinheiro, porque eu acho que é importante que vocês entendam” [Riso]. E teve o Matheus. Uma genial, gente! Chega o Matheus – aquele ator xiita de São Paulo – nós todos... então aí, ninguém sabia bem quem era o Matheus, se ensaiasse um dia, se ensaiasse outro dia... Aí, daqui a pouco, um dia pega o Matheus, desce lá de cima... ele tinha que dizer: “Eles vão passar aqui às dez horas. Você vai lá para cima e, se der alguma coisa com o embaixador, você dá um tiro na cabeça dele”. Daqui a pouco, desce o Matheus assim: “Você vai para baixo, você para baixo, que eu vou lá dar um tiro no baço da cabeça do embaixador” [imitando um homossexual; risos]. No meio do ensaio! Aquele, o ator mais xiita, sabe? Não ficar muito tenso na hora de filmar, é uma coisa importante. Se bem que, uma das cenas, só mandaram negativo de cem latas. De cem metros! Isso, na hora de fazer cena, é terrível. Mas eu acho que ficar antenada com as coisas e, intelectualmente, se envolver com aquele roteiro. Por exemplo, a questão do sexo no Companheiro eu e Pedro diminuímos...

Cristina Padiglione: Ah, eu ia te perguntar sobre isso. Como que foi convencer o... Você cita que tinha dois coitos saudáveis em quatro dias?

Fernanda Torres
: Que era impossível, ter dois coitos bem sucedidos em quatro dias de seqüestro [riso]. Aí a gente pleiteou, a gente falou: “Um, pelo menos, tem que ser mal sucedido. E aí acabou sendo. A gente viu que era demais. Naturalmente vem, é muito bom o trabalho.

João Gabriel de Lima: Fernanda, eu queria voltar um pouco para a questão do teatro, que a gente estava falando...

Fernanda Torres
: Fale!

João Gabriel de Lima
: Teatro brasileiro, hoje em dia, ele tem público, os teatros estão cheios, os atores estão ganhando dinheiro e tal. Tem bons atores, tem toda essa tua geração. Agora, há muito tempo que não tem uma peça de teatro, um espetáculo, que repercuta, culturalmente, muito; como foi o Rei da vela, nos anos 60, Macunaíma, nos anos 70... Até você citou o Asdrúbal, sei lá, o Trate-me Leão, nos anos 80. Faz tempo que não aparece alguém e faz um barulho no teatro brasileiro. Você pensa nisso? Por que você acha que isso está ocorrendo? Falta de dramaturgo, diretor?

Fernanda Torres
: Não, porque as pessoas demoram um tempo para se processar. Eu estou num processo pessoal meu, com o teatro. Depois da Gaivota, eu encontrei um dia com a Patrícia Melo [autora de romances policiais] no avião e ela me deu uma peça dela, que a gente leu um dia na Folha [de S. Paulo] e atualmente eu estou em processo de trabalho com a Debby e a Patrícia... Pô, ter a Patrícia Melo escrevendo para teatro, eu considero isso, por exemplo, uma coisa...

Beto Brant
: E tem a Fernanda, que está escrevendo agora para cinema, também?

Fernanda Torres: Quem?

Beto Brant
: Você! [Apontando para Torres]

Fernanda Torres: Eu! Pois é! [Risos]. Não, mas estamos ali, no teatro. Então, eu acho que o teatro...  Eu acho que se você busca essas coisas: “Vou fazer a peça que vai...”, você não tem nada. Na verdade, essas peças, o Antunes [diretor teatral], o... todas essas coisas, vêm de um processo longo, que acaba maturando em alguém que é representativo, numa peça que é representativa. Eu me sinto à beira não de algo representativo, mas em formação de algo assim.

Matinas Suzuki: Fernanda, olha, eu recebi aqui o seguinte fax... [em tom de suspense]

Fernanda Torres: Ih... [Risos]

Matinas Suzuki
: “Nós, atrizes, querendo ou não, ficamos com a cara do trabalho que estamos fazendo. Você ficou um bom tempo trabalhando com o Gerald e, durante esse período, ficou com a cara dele [Torres ri]. Daí você veio trabalhar com a gente, no Cinco vezes comédia [Torres solta uma gargalhada], uma turma da qual você já era amiga, mas com a qual não tinha trabalhado ainda. Eu sei que o trabalho com o Gerald foi uma experiência importante. Eu queria que você falasse o que foi importante e o que você aprendeu saindo de Gerald e caindo no Cinco vezes comédia, e ficando com a cara de comediante. Um beijo, Débora Bloch”.

Fernanda Torres
: Debby! Ela ia vir...

Matinas Suzuki: Foi convidada para vir, está amamentando não pode vir, mas está aqui a pergunta dela.

Fernanda Torres
: Eu já falei um pouco do processo lá com o Gerald, essa curiosidade dos anos 60, de ser a mulher do John Lennon por um período [risos]. O que eu aprendi lá foi o seguinte: eu não conhecia o Samuel Beckett, eu não sabia quem era Spaldin Gray, eu não sabia o que era o teatro em Nova York, na Alemanha... Isso não era da minha alçada, eu não entendia essas coisas. Hoje em dia, eu entendo, eu já vi, sei lá, sete peças do Bob Wilson. Eu fui apresentada a esse mundo que eu sentia uma lacuna na minha vida de não ter. E fiz o Flash, que foi uma peça libertadora, eu amei fazer, e a minha vida com o Gerald durou meio o período que o Flash durou. Assim que ele acabou, um pouco depois a vida da gente acabou. Quando eu vim – a gente estava meio falando disso – para o Cinco vezes foi um encontro com, realmente... Eu acho que tem uma coisa muito saudável nessa geração e que veio, talvez, do Hamilton e do Asdrúbal. O Hamilton, ele é um diretor que cria com o elenco dele, através do elenco dele, é uma relação diferente do Antunes, do Gerald. O Hamilton é o contrário, ele faz... através do ator, ele existe. É uma coisa muito interessante o Hamilton. Então, eu acho que o Hamilton influenciou muito essa geração de atores do Rio de Janeiro a serem autodidatas e a gente não teve essa experiência de se filiar. Eu lembro que eu tinha culpa de não ser do Antunes. Quando eu tinha 17 anos, eu achava que estava perdida, porque eu não tinha passado por aquilo. Quando eu fui trabalhar com o Gerald, era uma coisa quase tardia de eu achar que eu tinha que ter uma experiência de grupo. Quando encontrei o Cinco vezes comédia, era um grupo maduro, era um grupo onde ninguém dependia de ninguém para viver.

Cristina Padiglione: Quando você reencontrou, não é? Porque já conhecia.

Fernanda Torres
: Quando eu reencontrei! Então, foi uma coisa tão sadia. Foi um sucesso que ninguém ficou segurando, porque aquilo ali era vida. A gente deu adeus um ao outro com as casas cheias. Então, essa é a minha turma, realmente, minha turma de cabeça, porque são atores, criadores, autores, produtores, diretores e livres [risos]. E isso não tem preço nessa turma. E eu acho que isso é algo bem carioca, também.

Sérgio Róveri
: Fernanda, você fala sempre com bastante carinho dos diretores com quem você trabalhou, quer dizer, dá a impressão que sempre foi uma relação muito prazerosa. Houve algum trabalho que foi especialmente difícil? Ou alguma relação sua com algum diretor?

Fernanda Torres: Houve vários, houve vários. O processo lá no Selva, eu fui uma pessoa insuportável. Eu fiquei louca, eu não tinha humor. Eu me lembro um dia, a Christiane Torloni, indo numa externa comer alguma coisa comigo para ver se me acalmava [Cakoff ri]. Eu me lembro, eu no fim, com tersol [problema no olho]... [sendo interrompida]

Cristina Padiglione: Você não chegou a pedir para cortarem o personagem? Bom, não tinha jeito, você era a protagonista...

Fernanda Torres
: Eu pedi para não aumentarem a novela, porque tinha o Festival de Locarno. Eu pedi chorando para o Daniel Filho não aumentar a novela [imita alguém chorando]. Eu tive um surto. Outro foi no Xingu, como o Ruy Guerra [cineasta]. Eu acho que o Ruy, por exemplo, ele não vai muito com a minha cara [risos], porque depois de dois meses e meio no Xingu, eu fui ficando mal humorada. E também o filme não era... Quando o filme não é feliz, geralmente as relações não são muito felizes. Mas, por exemplo, eu não tenho palavras por todo o processo de Selva de pedra. Eu amei ter. Eu amei ter ido ao Xingu. Então, às vezes, você tem dificuldade com o diretor, sim.

Sérgio Róveri: Isso interfere no trabalho da atriz?

Fernanda Torres
: Lógico, a bochecha cai [risos], você fica infeliz, é horrível. Minha mãe que fala: “Nanda, você não pode ficar infeliz porque a sua bochecha cai. Isso não fica bem” [risos].

Leon Cakoff: O que você acha que falta para o cinema fazer o sucesso que faz, como faz o teu teatro?

Fernanda Torres: Eles são iguais.

Leon Cakoff
: Por tudo que você contou, você faz mais sucesso no teatro do que no cinema.

Fernanda Torres: Não. Ali antes eu estava dizendo o contrário, que no cinema eu era uma atriz que estava me firmando mais no cinema.

Leon Cakoff
: Não, não, qualidades à parte. Méritos à parte. O cinema brasileiro não tem ainda o público que tem... [sendo interrompido]

Fernanda Torres: Porque o cinema custa muito mais do que teatro. Porque teatro...

Leon Cakoff
: Por que as pessoas vão menos ao cinema, você acha?

Beto Brant: Você está mudando as coisas.

Fernanda Torres
: Porque eu acho que houve esse processo maluco, no Brasil...

Leon Cakoff: De interrupção?

Fernanda Torres
: De divisão do Brasil: o popular foi inteiramente para a TV e, no cinema, o popular se traduziu em pornochanchada. Teve uma hora que houve uma invasão sexual dos nossos filmes, que era... [sendo interrompida]

Leon Cakoff
: Isso é anos 70, um pouco de anos 80.

Cristiane Padiglione
: Mas as pessoas até hoje têm essa imagem!

Fernanda Torres
: Foi dos anos 70 que veio isso. Todo o fim da Embrafilme veio da distância entre os roteiros... Eu acho que o que mantém o teatro vivo são os atores, porque eles são produtores. E, eu não sei, eu acho até engraçado você me falar isso, porque uma das coisas graves que eu acho é que eu não vejo diretores de cinema vendo teatro, eu não vejo diretores de teatro vendo cinema.

Leon Cakoff: Eu não vejo diretores de cinema vendo cinema [riso]!

Fernanda Torres: Também! E, às vezes, pior! Eu sinto que os diretores de cinema, por exemplo, falta a eles uma dramaturgia, um entendimento de dramaturgia que eles encontrariam no teatro. Se se valessem mais do teatro.

Leon Cakoff
: Você personifica um pouco essa...

Fernanda Torres
: Olha, Leon [levanta os braços abertos, em sinal de agradecimento; risos], se você está falando isso, cara [risos]! Eu não personifico nada, cara. Eu tento trabalhar em lugares que eu não fique mal humorada. É a única coisa. É a minha única condição. Lavo prato, faço baile de debutante [riso].

Ivan Isola: Fernanda, me diz uma coisa: no outro bloco, você disse uma coisa que me intriga profundamente, porque é uma coisa que me recorre – eu me lembro sempre do profeta Pier Paulo Pasolini [polêmico diretor de cinema italiano] que estava muito preocupado com a massificação da cultura. E, agora, nós vivemos nesta era da globalização total, onde a breguice é absolutamente generalizada. E você disse, no outro bloco, uma frase, que o sucesso é brega, me explica um pouco isso.

Fernanda Torres
: Essa palavra tem, atualmente, essa conotação, porque ela é muito usada. Perguntam muito: “E esse seu sucesso, todo esse seu sucesso?”. E também te perguntam muito: “Você está sumida!”. Então, por exemplo, eu não entendo mais essa relação entre tanto sucesso e tão sumida [risos]. Não é verdade? Na Gaivota, a Nina, ela vira... Genial essa cena, é uma cena maravilhosa! O escritor com problemas de escrever, querendo comer aquela menina, ele fala para ela que a vida dele é um inferno, porque é escrever um livro atrás do outro e é o problema da angústia da criação, e tal. E ele fala um monólogo inteiro. E ela pergunta: “Mas e o sucesso?”. Aí ele, mais uma vez, explica que não é nada daquilo, que o problema é que ele vai morrer, ele vai ser menor que o Tolstoi. E ela diz: “Não, mas a sua vida é muito boa, você tem muito sucesso!”. E é essa a diferença: é que o sucesso não existe. O sucesso não é medido por você. É isso: há uma semana atrás, eu era uma pessoa que estava caminhando para o ostracismo. Hoje, eu estou no Roda Viva, no Oscar [risos]! Entendeu?

Ivan Isola: Já escolheu o vestido?

Fernanda Torres: É, exatamente! Eu estou, atualmente, pensando nisso [risos].

Matinas Suzuki: Que aliás sempre cai numa segunda-feira. Nosso concorrente [risos]. Nosso eterno concorrente.

Fernanda Torres: Há uma semana atrás, eu estava caminhando para o ostracismo.

Matinas Suzuki: Mas, Fernanda, você está caminhando para o ostracismo... [sendo interrompido]

Fernanda Torres: Aí, na semana seguinte, a mulher vira para você e diz: “E todo esse seu sucesso?”. E você ali, tentando pagar a conta de água com todo aquele sucesso [risos]. Portanto, sucesso não tem nada a ver. Uma coisa não tem nada a ver com a sua vida. Todas as vezes – quando eu ganhei Cannes, eu olhava para frente e dizia: “Olha o abismo, eu não tenho um filme para fazer!”. Única coisa que vale é emprego, viu? Um bom emprego.

Matinas Suzuki
: A Cristiane Gonzales, mandou um e-mail, eu estou lendo a cópia desse e-mail: “O Bruno Barreto disse à revista Veja que o sucesso, no Brasil, ofende”. Já que você falou de sucesso. E complementou: “Por isso que eu não quero mais morar aqui”. O que você acha dessa declaração?

Fernanda Torres: Bruno, você é muito mal-criado! [Imitando uma mãe dando bronca em um filho; risos] Olha, isso na verdade não é do Bruno, não é? Ele falou citando o Tom Jobim. Eu acho que o que tem, no Brasil, é o seguinte: uma enorme desconfiança sobre a nossa capacidade. Eu acho que a imprensa tem muito medo de apoiar uma coisa antes dela ter aval internacional, ou seja lá o que for! Eu acho que, nesse sentido, isso é uma luta que eu tive na minha vida. Parar de ser caipira com relação ao mundo. Parar de achar que eu sou menor do que...

Cristina Padiglione: Você está falando isso especificamente por Companheiro, Eu sei que vou te amar?

Fernanda Torres: Por tudo. Por exemplo, a própria Veja. Eu conversei com o Mário Sérgio Conti [jornalista] logo depois. A Veja deu seis páginas para o Companheiro.

João Gabriel de Lima: Antes de ser indicado para Cannes.

Fernanda Torres
: Antes de ser indicado para Cannes. Agora, o que a matéria continha era o seguinte: que o Bruno valia a pena, porque ele tinha apertado a mão do Spielberg [cineasta norte-americano, dirigiu E.T.], porque ele tinha vencido lá fora, que a grande coisa incrível do filme era o Alan Arkin, e... O quê?! Eu escrevi para o Mário, Mário releu, me ligou e ele depois concordou. Era uma matéria que acusava o filme de imperialista, sei lá, de ser um filme subjugado pelo gosto americano e tal. E a matéria era inteiramente americana. E eu disse assim: “Em nenhuma hora a matéria citou que o cara está lá e o filme mais importante que ele fez, ele fez no Brasil!”. Não se fala! Aí eu acho errado. Porque aí eu acho que a imprensa espera você ter uma indicação ao Oscar para aceitar. Eu acho que há uma desconfiança caipira muito grande, no Brasil, com relação à própria capacidade.

Ivan Isola: Mas, tem também um prazer antropofágico, também.

Fernanda Torres
: Concordo. Eu acho que isso também é saudável no Brasil, não é um país de winners, é um país de desconfiados [riso]. Somos uma nação de desconfiados.

Cristina Padiglione
: Quando você falou da chanchada... Parece que você tem uma idéia de fazer um documentário sobre chanchada, a chanchada que invadiu o cinema...

Fernanda Torres: Não, eu quis, uma época, fazer da pornochanchada. Mas, aí depois, ia ser complicado, porque não iam liberar cena e tal. Porque, uma hora, eu achei que a pornochanchada influenciou todo o cinema. Eu acho que a pornochanchada é um gênero do cinema brasileiro.

Cristina Padiglione
: E como se saiu dela? Por que se saiu dela?

Fernanda Torres: O quê?

Cristina Padiglione
: Na sua avaliação.

Fernanda Torres
: Como?

Cristina Padiglione
: Porque teve um boom de pornochanchada – e foi-se saindo aos poucos disso – e até hoje se tem uma idéia de que o cinema nacional é pornochanchada?

Fernanda Torres: O que mais teve nos anos 70! Com a liberação sexual...? Eu não sei o que aconteceu!

[Falam simultaneamente]

Ivan Isola
: O gênero é a chanchada.

Fernanda Torres: Não, mas a pornochanchada é um gênero!

Ivan Isola
: A chanchada é um gênero, mas ela virou pornochanchada.

Fernanda Torres: Não, mas a chanchada, atualmente, é uma coisa e a pornochanchada já é um gênero, isso é que eu defendo.

[Falam simultaneamente]

Leon Cakoff
: Tentava driblar a censura da época, prometendo uma coisa que não tinha, que era sexo.

Fernanda Torres: Não tinha, não é? Era genial, era sempre uma calcinha [dá um gritinho; riso]. Eu queria fazer um filme sobre pornochanchada, sobre essa época.

Leon Cakoff: Mas não falta um filme que resgate esse teu humor, essa coisa que a gente conhece de bastidores... [sendo interrompida]

Fernanda Torres: Eu fiz o Marvada.

Leon Cakoff
: Mas faz tempo!

Fernanda Torres
: Aí eu fui fazer no teatro...

Beto Brant
: Fez o Beijo. A cena da cadeira do Beijo... [sendo interrompido]

Fernanda Torres
: Mas o Beijo eu exagerei! A da cadeira é genial, mas o resto eu exagerei. Eu estou escrevendo o Redentor, não arrumei um papel para mim [risos]! Mas comédia... escrever comédia é muito difícil. É terrível.

Matinas Suzuki
: Por falar em comédia, a Melina Antise e a Iara Janro [atriz]...

Fernanda Torres
: Iara!

Matinas Suzuki
: Dizem que ontem o Bruno Barreto, no Manhattan Connection, falou sobre comediantes fazendo filmes dramáticos. Elas perguntam sua opinião e se a maior vitória de um ator não é a capacidade de fazer todos os papéis.

Fernanda Torres
: É, Iara, é [risos]! Mas eu acho que o negócio do comediante, no caso do Companheiro, foi fundamental. Porque eu acho que um ator, sem humor, iria vestir aquela camisa, iria dizer aquilo esbravejando, espumando. E eu sinto que o fato dos atores todos, naquele filme, terem humor fez com que ele fosse feito com inteligência. E eu acho que humor é sinônimo de inteligência.

Ivan Isola
: Mesmo porque a revolução era um tanto quanto brancaleônica [referência ao filme clássico O incrível exército de Brancaleone, de 1965, do diretor italiano Mário Monicelli, no qual um cavaleiro atrapalhado lidera um pequeno e esfarrapado exército que não chega a nenhuma conquista]. Você não ficou com essa sensação? Seqüestrar o embaixador americano foi um ato brancaleônico..

Fernanda Torres: É, mas em Cuba deu certo, não é? [Riso]

Ivan Isola: Não o seqüestro do embaixador.

Fernanda Torres
: Nunca se sabe.

Matinas Suzuki
: Fernanda, você conseguiria trabalhar com um diretor ou fazer um papel que viesse rigorosamente marcado a sua fala, você entra, fala isso e tchau, vai embora, não tem direito de mexer em nada, uma vírgula... [sendo interrompido]

[...]: Com o Gerald Thomas não era assim?

Fernanda Torres: Não, o quê é isso? Com o Gerald eu improvisava em cena. Eu falava textos meus.

Matinas Suzuki
: Pois é, você é de uma tradição em que o ator é quase autor também do papel que ele interpreta.

Fernanda Torres: Exatamente.

Matinas Suzuki: Então, a sua tradição é de trabalhar com diretores e com atores que também são assim. Você acha que conseguiria?

Fernanda Torres
: Olha, eu não sei. Depende. Se fosse o Kubrick [Stanley Kubrick, diretor norte-americano considerado um dos gênios do cinema, dirigiu, entre outros, o clássico Laranja mecânica], eu acho que eu iria ficar calada, quieta [risos]. Depende. Às vezes, um diretor vem e... Olha, um ator sabe abaixar a orelha quando ele está diante de alguém que vai dizer algo coisa que vai levar ele a algum lugar. Na verdade, você sonha muito com isso, encontrar alguém que... A Debby diz muito isso: “Estou tão cansada de ser autodidata”. Você sonha muito com alguém que te faça isso. Que te diga: “Dá uma pausa, meu filho. Agora, anda”.

Beto Brant: Qual o diretor que mais chegou perto disso, que você trabalhou?

Fernanda Torres: [Pausa] Talvez a pessoa mais segura que eu trabalhei, de condição, tenha sido o Gerald. Mas no Flash, depois, foi um caos. No Flash ele tinha uma idéia muito certa [riso]!

Beto Brant
: Mas e no cinema?

Fernanda Torres
: No cinema? O Walter Lima tem um domínio incrível sobre a psique do ator. Não sobre o que você está fazendo, mas sobre o que você é, o que você representa e de que forma ele vai usar no filme dele. Isso é uma coisa maravilhosa. O Bruno... O Walter Salles eu acho que... O Bruno é um diretor que deixa você criar e usa daquilo. E o Walter eu acho que é o diretor, hoje, com mais ponto de vista próprio. Quando ele põe a câmera dele, no enquadramento, na estética dele já está a opinião dele. Eu acho que é o Walter.

Matinas Suzuki
: Fernanda, tanto o Gerald quanto o Walter trabalham com a Daniela. E a Daniela é sempre a Daniela, quer dizer, o Gerald, a Daniela, o Walter. Que importância você acha que a Daniela teve no trabalho dos dois?

Fernanda Torres: Toda. Agora ela vai dirigir a Gaivota, lá com a gente. A Daniela é a força agrupadora, porque a Daniela não tem o pau do diretor, a vontade superadora do macho. Ela é uma mulher. E ela foi cenógrafa. E antes disso, ela foi... estudou literatura. Essa estudou, não é, gente? Essa lê mesmo, não é a gente, não [risos]. É uma pessoa que realmente lê. E a Daniela, ela sabe não impor, ela sabe trabalhar em grupo. Ela organiza os grupos. Um processo, por exemplo, que no Marvada carne quem fez para o André foi o Adrian Cooper. Eu tinha visto um trabalho parecido ali. Calça tudo. Então, a Daniela, hoje, ela tem a chave do tamanho para a questão de se trabalhar com atores como eu, como a minha mãe, como a Debby, como o Luis Fernando. Eu acho que ela é uma diretora moderna hoje, neste sentido, porque ela não se investiu de nenhuma cara. A Daniela veste a camisa do que for. Eu vi no Terra estrangeira o Waltinho entregar para ela um roteiro impossível, uma história impossível. Eu vi a Daniela remar. Ela é uma mulherzinha que faz crochê e, de repente, ela tece a coisa mais linda que você já viu na sua vida. Hoje, é a pessoa que eu mais me identifico com o trabalho. Eu estou muito feliz de estar trabalhando com a Dani na Gaivota. E acho que a Dani é uma das pessoas que pode apontar para um teatro diferente. Mas não dessa maneira como, talvez, você gostasse, para botar lá numa matéria: “Mudou a história do teatro!” [Risos]

[...] Não sou só eu. O público gostaria também.

Fernanda Torres
: Talvez, demore uns dez anos para vocês perceberem que ela mudou a história do teatro, entendeu? [close em Lima]

Sérgio Róveri
: Fernanda, você acha que a tua carreira vai se encaminhar algum dia para a direção ou é uma coisa que não te seduz?

Fernanda Torres
: Eu acho que ela vai caminhar para a produção, mais que para a direção. Porque a direção... Eu tenho uma profissão, que é atriz. E eu fiquei pensando durante muito tempo nisso: tão palpiteira assim, onde é que você vai parar? Entendeu?

Sérgio Róveri
: E, no Brasil, também tem uma tradição de atrizes... a Carla Camuratti [que também é diretora de cinema]...

Fernanda Torres
: Mas a Carla.. ela realmente é demais! A Carlinha. É a loura mais macho que eu já vi na minha vida [risos]. Aquilo ali... sou muito morena para aquela loura!

Sérgio Róveri: Mas você estava dizendo, estava pensando e... [sendo interrompido]

Fernanda Torres: Não, hoje eu estou produzindo, eu estou me descobrindo como produtora, porque eu acho que tenho prazer em armar. Isso é o meu prazer. E tenho prazer... Estou escrevendo o Redentor, com o João Emanoel, meu irmão – outro irmão, que é o João Emanoel, que escreveu Central do Brasil – e a Helena Soares. Primeiro, foi eu, meu irmão e Helena. Agora entrou o João. Eu sinto que eu posso ser útil, que eu posso ser coach de ator, em teatro – em cinema – eu fiz, no Diabólica, coach dos atores. Amei fazer! Mas eu não tenho, assim, como diretora... eu ainda não tenho vontade disso, não. Quero produzir.

Matinas Suzuki: Fernanda, o seu xará, Fernando Leal, pergunta o seguinte: “Gostaria de que você falasse um pouco de como sugeriu que colocassem a música "Vapor barato" no filme Terra estrangeira, algo que deu tom emocional certo ao final do filme?” Eu queria lembrar, aliás, que o autor da música, Waly Salomão, está passando um trauma no hospital, mas estamos todos aqui torcendo pelo Waly. Waly, que tudo dê certo.

Fernanda Torres: Isso foi o seguinte: minha mãe tinha esse long play lá em casa, LP mesmo, do Gal Fatal [disco de Gal Costa]. Eu ouvia desde criança e tinha o [música] "Assum preto", que é barra pesada. É um disco lindo e eu tinha essa música na cabeça há anos. E eu dizia: “Um dia eu vou botar” Aí o Gerald fez o... coisa com a Gal

Matinas Suzuki: Show da Gal!

Fernanda Torres: E eu dizia: “Vocês não vão botar essa música?” E não botavam aquela desgraça daquela música. Aí eu estou com Waltinho, a gente está filmando, já no final, no bar, antes dele ser baleado e tal. Waltinho... ela tinha que olhar para ele, ele falou: “Pô, você não tem uma música para cantar?” A Daniela tinha ido dar uma volta. Aí, Daniela disse que voltou horrorizada, quando viu eu cantando uma música em frente ao Waltinho. E o Waltinho dizendo “Roda!". [Risos]

[...]: Mas horrorizada por quê? [Ao fundo]

Fernanda Torres
: E aí eu falei: “Você não conhece essa música, Walter?” Ele disse: “Não”. “Walter, você nunca ouviu esse disco?” Ele falou: “Não!” Aí eu fui cantando, e tinha um navio, tinha a questão do exílio... Foi impressionante. Eu fiquei tão feliz de ter posto essa música, porque essa era minha. Eu queria botar ela em algum lugar. E, depois, eu fui ver o show da Gal com o Caetano, sobre cinema. E quando eu vi, estava a Gal cantando. Eu achei que eu que tinha feito aquilo [risos]. Eu botei a Gal, ao vivo, cantando para mim aquela música que eu sempre sonhei!

Matinas Suzuki
: O Waly diz que o verso que ele mais se arrepende de ter feito, que diz: “Eu não preciso de muito dinheiro, graças a Deus!” [Risos]

João Gabriel de Lima
: O Terra estrangeira não foi um sucesso popular – digamos assim – mas ele ressuscitou essa música, porque está todo mundo regravando e tal.

Fernanda Torres
: Mais do que isso, o Terra... Eu vou morrer pobre e cult, talvez, porque os 100 mil – sei lá quantos que ele deu – para mim, é um bilhão de pessoas. E, depois, o Terra deu página em [na revista francesa] Cahier du Cinema. Está até hoje em Paris. O filme é um "bebê de Rosemary" [referência oa filme do mesmo nome], ele vai tendo uma vida depois. Isso é a melhor coisa do cinema. Dois anos depois de você filmar, o filme vai para o Oscar e o cervejeiro levanta a mão para você, assim [levantando o braço, como a fazer um brinde]!

Cristina Padiglione
: Você está a par dessa parceria da Globo com o cinema, que é a criação de uma divisão de filmes?

Fernanda Torres: Eu acho ótimo, cara!

Cristina Padiglione: Chegaram a contatar você para alguma coisa? Você acha que, de repente, isso vai ser mais uma forma de escravizar ator, e contratar e fechar contratos exclusivos?

Fernanda Torres
: Não, eu espero, sinceramente, que não signifique isso. O sonho mesmo do mercado abrir, de todo mundo ser livre... E também entendo que tem que ter um elenco fixo. Isso tudo eu entendo da televisão, acho justíssima minha relação com ela. Quem tem um contrato é quem topa fazer novela, que é o que sustenta aquele bicho todo. Eu concordo com isso. E aí eu não tenho contrato e, talvez, as melhores coisas da casa, quando elas pintarem, eu não seja convidada, porque eu não tenho esse vínculo tão grande. É justo que, na hora que uma pessoa que ralou igual a um cachorro ali, um tempão, tenha os bons projetos da casa. Mas, eu espero que tenha lugar para mim, como sempre teve. Na hora que tem o Guel {Guel Arraes, diretor de televisão e cinema]. Eu acho que, o que abrir o mercado, é bom.

Leon Cakoff: Fernanda, se no futuro você realmente produzir cinema...

Fernanda Torres
: Ai, imagina, Leon? [Riso]

Leon Cakoff
: E com tudo que você conhece de cinema, quem você produziria, sem contar os brasileiros?

Fernanda Torres: Sem contar os brasileiros?

Leon Cakoff: Cite um diretor que você gostaria de produzir.

Fernanda Torres: Lá fora?

Leon Cakoff: É.

Fernanda Torres: Eu acho que o iraniano, lá. O do Salve o cinema. Adoraria. Como é que é?

Leon Cakoff: Makhmalbaf [Mohsen Makhmalbaf].

Fernanda Torres: Adoraria produzir um chinês.

Leon Cakoff
: Zhang Yimou.

Fernanda Torres: Oi?

Leon Cakoff: Zhang Yimou.

Fernanda Torres
: E os Coen Brothers [irmãos diretores de cinema norte-americanos], não é?

Leon Cakoff: Mas eles já se produzem! [Riso]

Fernanda Torres: Pois é, eles não precisam de mim. Eu é que preciso deles! [Riso]

Matinas Suzuki: Olha, nós estamos, infelizmente, chegando ao final do nosso programa.

Fernanda Torres: Não, gente, eu ainda tenho muita coisa para falar para vocês [risos]! Quero ficar aqui até o fim, agora!

Leon Cakoff
: Nós todos contestamos!

Matinas Suzuki
: Eu vou pedir para você, vou fazer três perguntas. Aliás, a Érica... [sendo interrompido]

Fernanda Torres: Ai, deixa eu contar essa maravilhosa das três perguntas? Eu, saindo da Selva de pedra, uma mulher me pega na saída e diz: “Fernanda, três perguntas simples: Fernanda, quem são seus pais?”. [Risos] Nossa senhora, uma pergunta dessa, assim? “Fernanda, você é feliz?” Poxa, a senhora não tem uma pergunta mais direta, para eu responder rápido? Última pergunta simples: Fernanda, quem é você?” [Risos]

Matinas Suzuki
: A Érica Soares, dos Campos Elíseos, aqui em São Paulo, e a Luisa Silva, da Avenida Paulista, querem saber como foi filmar com Anthony Hopkins [um dos mais famosos atores britânicos]?

Fernanda Torres
: Ele é maravilhoso, o Anthony Hopkins. É um cara meio como o Alan. Acho que é gente que já foi outsider, já foi maluca, aí chega no estrelato. O cara é muito legal. Eu subi as pirâmides com o Anthony Hopkins, no México. Chegamos lá em cima, ele olhou para a minha cara e falou: “Não é incrível que nos paguem para estar aqui?” [Risos]

Matinas Suzuki
: A Cristiane, de São Paulo: “Gostaria de dizer que estou sem fôlego, impressionada por ouvir uma pessoa tão intensa, tão cheia de perspectivas e objetivos. É um alívio ver que alguém da minha geração ainda tem sangue nas veias!”. A Iramaia Bruna e Silva diz: “Fernanda, você representa a garra da mulher brasileira, sua intelectualidade e sua popularidade [close em Torres festejando] se alteram na medida dos nossos tão contraditórios momentos... [sendo interrompido]

Fernanda Torres: É isso aí!

Matinas Suzuki: “... Estamos vibrando por você no Oscar”. Tem mais uma coisa que eu achei: “Fernanda, você aparentemente falou muito do Gerald...” e etc, etc, etc. E acha que, talvez, você tenha se descoberto como mulher naquele momento... [sendo interrompido]

Fernanda Torres
: Hm [agudo e demorado], pode dizer para ele quando eu me descobri como mulher [jogando os cabelos para trás - risos]!

Matinas Suzuki
: E o Marco Antônio fala que você falou muito da sua vida com o Gerald e pergunta como está a sua vida amorosa neste momento.

Fernanda Torres: Está maravilhoso! Casei com o Peter Pan [risos]. Andrucha [Andrucha Waddington, diretor e roteirista, marido e que seria pai dos filhos de Fernanda Torres] está me vendo lá na casa dele. Não é, Peter Pan? Um homem que me levou ao fundo do mar, às montanhas em Zermat. Muito bom casar com o Peter Pan.

Matinas Suzuki
: Está bom. Andrucha, um abraço, um abraço nosso. Fernanda, muito obrigado pela sua presença.

Fernanda Torres
: Um beijo! Adorei! Vocês não me torturaram.

Matinas Suzuki
: Fomos bonzinhos com você.

Fernanda Torres
: Foram tão bonzinhos! Menos o Beto Brant. Menos ele [apontando para Brant - risos]!

Matinas Suzuki: Prometemos não fazer perguntas sobre sexo e não fizemos [Torres ri]. Eu gostaria de agradecer à nossa mesa, à sua participação, e lembrar que o Roda Viva volta na próxima segunda-feira, às dez e meia da noite. Até lá, uma boa semana para todos e uma boa noite.

 

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