Memória Roda Viva

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David Zingg

1/8/1994

Bem humorado e cheio de carisma, o fotógrafo e cronista conta histórias saborosas e diz porque adotou o Brasil

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Programa ao vivo

Heródoto Barbeiro: Boa Noite! No centro do Roda Viva desta noite, o nosso convidado é o fotógrafo e cronista David Zingg. Americano de nascimento, David Zingg se apaixonou pelo Brasil na primeira vez que colocou os pés aqui há 37 anos em uma viagem de veleiro. Com trabalhos publicados nas grandes revistas e jornais do Brasil, Estados Unidos e Europa, David Zingg se transformou numa espécie de cronista binacional. Em seu país ele assombrava seus compatriotas com notícias sobre a construção de Brasília, sobre o início da bossa nova e as aventuras aqui na “sambolândia”, que é como ele chama o Brasil. E aqui ele diverte seus amigos e leitores quando lembra histórias da "gringolândia", o apelido que ele deu aos Estados Unidos. Foi, aliás, na "gringolândia" que Zingg cobriu, para um jornal brasileiro, a conquista do tetra campeonato mundial de futebol. Em todo trabalho que fez, este antigo fotógrafo e amigo do presidente John Kennedy sempre traz uma mensagem otimista convencido que isto aqui ainda vai dar certo. E para entrevistar o cronista e fotógrafo David Zingg, nós convidamos os jornalistas: Matinas Suzuki, editor executivo da Folha de S. Paulo; a Rosângela Petta, editora-chefe da revista Caras; o Fernando Paiva, que é editor da revista Playboy; o Mário Prata, cronista do jornal O Estado de S. Paulo; o Jorge Araújo que é fotógrafo da Folha de S. Paulo e o Mathew Shirts, que é brasilianista e tem também uma coluna no jornal O Estado de S. Paulo. David, boa noite.

David Drew Zingg: Boa noite, Heródoto.
 
Heródoto Barbeiro: David, nós acompanhamos aí os artigos que você escreveu para a Folha de S. Paulo sobre os Estados Unidos, e especialmente essa presença brasileira nos Estados Unidos. Como você conhece bem a cultura brasileira e conhece bem a cultura americana, eu queria que você me respondesse o seguinte: mudou alguma coisa no relacionamento do Brasil ou na visão que os americanos tinham do Brasil, depois desse tetra campeonato mundial de futebol?

David Drew Zingg: Bom, eu acho que mudou muito em vários níveis. Uma das coisas, eu fiquei muito tempo em São Francisco e uma das coisas que a gente observou é que São Francisco é aquela cidade que não tem fronteira perto do México e não sofre como Los Angeles invasões multiculturais, mas os brasileiros eram heróis em São Francisco, em Stanford, em Los Gatos, etc. Então, nesse sentido, acho que houve um progresso bastante grande. Agora também os Estados Unidos estão indo lentamente, é difícil desbancar beisebol, futebol, e outras brincadeiras assim, mas está indo bem devagarzinho, eu acho. Tem 40 milhões de crianças estudando em escola pública lá e dos 40, 15 milhões estão jogando soccer, quer dizer, desculpe, futebol. E dado meio século, talvez eles vão crescer e virar certos fãs do nosso jogo.  

Heródoto Barbeiro: Matinas Suzuki.

Matinas Suzuki: Você gostou mais de cobrir o Gay Games [tipo de Olimpíada gay, fundada em 1982, por Tom Waddell, em São Francisco (EUA)] ou a Copa do Mundo, David? [risos]

David Drew Zingg: É difícil dizer, Matinas, na verdade. Primeiro eu não sou expert como o senhor sabe muito bem.

Matinas Suzuki: Nem numa coisa, nem na outra. Nem num campeonato, nem no outro.
   
David Drew Zingg: Obrigado, mas eu não sou conhecidamente, eu não sou um grande expert no futebol, quer dizer, não sei nada do futebol. Agora do mundo gay tenho um certo contato de dever como repórter. E aliás os Gay Games de New York eram os grandes shows esportistas dos últimos tempos que eu apresentei pessoalmente pela televisão. Tinha o espírito de sair de casa, sair do, como se chama? 

Matinas Suzuki: Armário.

David Drew Zingg: Armário, obrigado, que era contagiante.

Matinas Suzuki:  Você não acha que eu fiz essa pergunta de propósito porque a sede do Gay Games era na costa leste e praticamente a sede do soccer era na costa oeste. Agora os dois são manifestações de uma nova América, né, David. A liberdade hoje que se conquistou, que a cultura gay conquistou nos Estados Unidos que estava simbolizada ali de uma maneira muito forte no Gay Games, e por outro lado, o evento multiculturalista como foi a Copa, com a quantidade de novas etnias que moram nos Estados Unidos que estavam do lado oeste, de uma certa maneira você podia fazer uma leitura cultural  de uma mudança grande dos Estados Unidos através desses dois eventos, que teoricamente eram eventos esportivos, mas eu acho que foram além de simples competições.

David Drew Zingg: Sem dúvida, sem dúvida, eu acho que era uma abertura o que a gente viu. Era uma  abertura não só para um jogo chamado futebol, soccer, mas pelo multiculturalismo que o jogo traz. Era um reflexo deste mundo que está num fluxo total e constante acelerado, e o Gay Games é uma  abertura cultural interna, vamos dizer, que os Estados Unidos, é possível, está começando ser possível levar uma vida de sua escolha.

Heródoto Barbeiro: David,vamos à pergunta da Rosângela. Rosângela, por favor.

Rosângela Petta: Eu queria saber sobre essa facilidade que o David tem de circular em rodas e rodas, pegando figurinhas mais diferentes. Não só do Gay Games, como o soccer, mas épocas e pessoas diferentes, esse savoir faire que você foi desenvolvendo. Eu queria saber, nas várias épocas, a gente ouve as histórias de bossa nova, das revistas para as quais você fotografou, eu quero saber se existe um tipo clássico, uma figurinha, um tipo inesquecível que tem em todas as épocas, que você encontra sempre, em todas as culturas, quem é essa pessoa, esse biotipo, esse tipo sociológico, existe?

David Drew Zingg: Eu não sei se é biotipo, eu acho que é a “almatipo” talvez. É uma figura que você, com sorte e vontade, tem grande sorte de encontrar em qualquer lugar, sendo que você está no lugar certo no momento certo. Quer dizer, sempre tem pessoas criativas. Se você anda com uma certa abertura, não anda com medo, você inevitavelmente vai cair nos braços daquela pessoa, naquela década. Eu me considero, eu sou intimidado [tímido] hoje, mas eu me considero uma versão daquele, você conhece aquele cômico, Mel Brooks, americano, Blazing Saddles [filme americano de faroeste, criado em 1974] etc, eu me considero uma espécie de homem de dois mil anos. Eu já passei tantas coisas, e como você falou não é biótipo, mas é o interior das pessoas que é constante.

Heródoto Barbeiro: Davis, antes de passar a palavra ao Mário Prata, eu queria que você respondesse ao nosso telespectador, o senhor Paulo Borges, que pergunta a você o seguinte: há 35, há 37 anos no Brasil, por que que você ainda não consegue escrever os seus artigos lá na Folha em português? [David Zingg solta uma gargalhada]

David Drew Zingg: Qual é o nome dele?

Heródoto Barbeiro: É o senhor Paulo Borges.

David Drew Zingg: Paulo acertou na mosca. [risos] Tem muitas explicações, mas talvez a mais fácil é que eu sou burro. [risos] Se é essa que você queria saber, é pura verdade. Na verdade, eu nunca tive jeito para as línguas como você pode ouvir hoje à noite. Aprendi português na rua, graças a Deus, nunca estudei, mas eu não sou lingüista e é isso. Eu sou um pouco perfeccionista, apesar dos outros detalhes da vida, mas eu não queria quebrar a minha cara na sua língua.

Heródoto Barbeiro: Vamos à pergunta então do Mário Prata. Mário, por favor.

Mário Prata: É um prazer estar aqui. David, eu vou voltar um pouquinho para a Copa. Naquele célebre jogo Brasil x Estados Unidos...Eu vou fazer a pergunta óbvia, só quis fazer antes... Eu estava do lado de um outro americano que mora no Brasil, que está aqui inclusive te entrevistando que é o Mateus, eu queria saber de você lá em Stanford quando tocaram os dois hinos, o americano e o brasileiro, em qual que você chorou?

David Drew Zingg: É interessante, boa. Eu acho que é menos em qual eu chorei, eu choro na música da "gringolândia" e eu choro na música da "sambolândia". Mas a pergunta que você escondeu inteligentemente atrás era para quem você torceu. Aí era mais fácil, se choro nas duas línguas, aí eu torci na primeira metade do jogo para minha "gringolândia" e no segundo, quando coisa ficou meio séria, eu comecei usar um pouco de influência a favor do tetra. E tem um detalhe que eu descobri por acaso, não era nesse jogo, mas eu descobri num outro jogo que estava tendo um calor infernal e como eu escrevo coluna e não notícia, eu estava sentado do lado de Matinas e a turma inteira da Copa de 94 da Folha, então eu achei gentil todo mundo estar suando, morrendo de calor, eu me levantei e fui comprar água, coca-cola, etc. E voltei, quando eu estava lá fora esperando a coca, ouvi aquele som “goooool”.... Aí eu associei que era a minha própria ausência que provocou o gol do Brasil. [risos] Aí comecei a experimentar, então eu fiz a mesma coisa em cada um dos jogos, até fui eu que convenci o [Roberto] Baggio [ex-jogador italiano de futebol, foi o melhor jogador da Copa do Mundo de 1994, ajudou a seleção italiana a chegar à final, mas errou o gol na cobrança de pênaltis com a Seleção Brasileira] a fazer aquele chute em gol. [risos]

Heródoto Barbeiro: David, antes da pergunta do Mateus, eu gostaria que você respondesse a mais um telespectador. É o Arnaldo Jabor [risos] e ele pergunta a você o seguinte: quando você chegou ao Brasil, afinal você era ou não era um agente da CIA [Central Intelligence Agency], o serviço secreto americano?

David Drew Zingg: Obrigado Jabor, meu querido Jabor, obrigado. Não, o negócio é o seguinte, essa história é muito interessante e muito característica, eu acho, primeiro do Brasil, segundo do Rio de Janeiro, terceiro da praia. E tinha um motivo entendível que eu cheguei no fim de 64, já tinha milico no poder, etc. Eu tive em New York uma certa carreira, vamos dizer, decente, eu vim ao Brasil por outros motivos. Aí eu comecei a freqüentar a praia, aí um dia eu ouvi falar, não juro que essa história é totalmente verdade, mas tem o som de verdade. Tinha uma turma em volta do Paulo Francis [(1930-1997), renomado jornalista brasileiro, famoso por seus comentários sarcásticos a respeito, principalmente, dos políticos] de boa vida, etc., que finalmente o assunto virou em cima de mim que eu estava a alguns poucos metros longe. Alguém falou: “Ô, Francis, você que sabe tudo, como é que é este gringo, que era um fotógrafo jornalista decente, em Nova Iorque, como é que é ele vem no ano da tomada do poder dos militares”? E o Francis brincando, falou: “Ah, é fácil! Ele é da CIA”. Aí nasceu. Agora eu publiquei e repeti, essa coisa, o Francis diz que não tem nada a ver, não foi ele, mas tem um cheiro. Agora para o Jabor, a resposta é como eu saí dessa fria "franciana". É o seguinte: um ano depois estamos no mesmo lugar, Francis com a turma e eu com minha turma, a minha Jennifer, e repetiu a pergunta alguma pessoa no grupo do Francis. A resposta dele era clássica, era: “Zingg já conheço há um ano, ele é tão burro que nem na CIA deixaria ele entrar”. [risos] Entendeu, Jabor?

Heródoto Barbeiro: David a pergunta do Mateus. Mateus, por favor.

David Drew Zingg:  Mateus ou Mathew?

Mathew Shirts: Mathew. Eu queria fazer uma pergunta de americano para americano um pouco. Quando os brasileiros perguntam para você, se você é maluco porque mora aqui há 37 anos, o que você responde?  

David Drew Zingg: É uma boa pergunta. Bom, primeiro eu tento tirar meu corpo fora dizendo a verdade em tom de idiota total. Mas não é isso não, eu adorei Brasil, ainda adoro o Brasil apesar dos band-aids, dos  [...] monetários, doenças sociais e políticas, mas eu acho que eu gostei tanto do Brasil em tantos níveis – humano, visual – em todos os níveis possíveis, que eu simplesmente fiquei viciado.

Mathew Shirts: Perfeito. E você poderia dizer também qual é a diferença fundamental entre a cultura brasileira e a americana para você?

David Drew Zingg: Aí que está, aí que está, eu não estou falando para você, entendido, mas para mim a diferença é muito óbvia. A cultura americana no fundo tem várias coisas a favor, várias coisas contra, mas a característica mais, me parece, identificável, visível, é aquele lado de disciplina da cultura. Você não precisa, quer dizer, tem exceções para tudo, mas em geral, você não precisa policial pra forçar que você não corte fila para entrar no cinema. Você não precisa tanto aviso constante pode, não é permitido, é permitido, etc. E o Brasil é o contrário, é cada..., são dois países tremendamente individualistas, acho eu, mas a maneira de atacar, o problema, de expressar, o individualismo é totalmente ao contrário. O brasileiro é “vamos lá, eu te conto mais tarde”, como foi quando eu cheguei.

Heródoto Barbeiro: David, antes da pergunta do João, queria que você respondesse a mais uma telespectadora. Você usou agora a expressão Jennifer e ela perguntou a você o seguinte, a dona Valéria Talemberg: descreva a Jennifer ideal. Qual é a melhor, a brasileira ou a americana?

David Drew Zingg: Ai, ai, ai, ai. Bom, qual é o nome dela? Não é Jennifer, não, né? 

Heródoto Barbeiro: Não, é Valéria.

David Drew Zingg:
Valéria. Desculpe, Valéria. É muito mais complicado que a pergunta do Mathew. [risos] Eu não sei, honestamente eu não sei, tem Jennifers brasileiras que eu acho que são internacionais e tem as características laudáveis das duas culturas e vice-versa. É muito difícil dizer, é uma coisa tão particular que realmente eu não sou equipado filosoficamente para entrar mais em detalhe.

Heródoto Barbeiro: Agora David, a Jennifer existiu mesmo?

David Drew Zingg: Jennifer era o seguinte: a Jennifer, se você lembra, era o hino do filme Love History, era a Jennifer. E aquele filme horrível fez tanto sucesso que houve uma geração, particularmente na costa leste onde eu estou, mas no país inteiro, houve uma geração cujo nome virou Jennifer. A criança nasce e é Jennifer porque mamãe o filme adorava. Aí saiu um livro, uns dez anos atrás, falando sobre, estranhamente, falando sobre a relação entre homem mais velho e mulher mais jovem. E o título do livro era  A síndrome de Jennifer, porque falava sobre aquela geração, mudanças de um comportamento, como os homens mais velhos, às vezes, são simplesmente irresistíveis.

Heródoto Barbeiro:
David, vamos à pergunta do Jorge. Jorge, por favor

Jorge Araújo:
David, numa madrugada fria dos anos 60, para ser preciso, você estava escondido numa praia em Cabo Colt  para conseguir uma imagem do então candidato John Kennedy. Então você acabou no veleiro dele, conta essa história para a gente. 

David Drew Zingg:
Bom, Jorge, mestre Jorge, Jorge Araújo, eu tenho que falar isso de respeito de classe. Jorge Araújo é um dos mais excepcionais fotógrafos que eu conheço. No centro o seguinte: ele sai para cobrir qualquer coisa que acontece, seja o que for, desculpe Jorge, e sempre volta com a foto que virou clássico daquele evento. É um dom, é um mágico, que realmente [está] além da minha compreensão. Bom para Kennedy...

Heródoto Barbeiro:
Ok, vamos à pergunta então agora do Fernando. Fernando, por favor.

Fernando Paiva: Ele ainda não falou.

Heródoto Barbeiro: Desculpe.

David Drew Zingg: Posso continuar?

Heródoto Barbeiro: Por favor, continue.

David Drew Zingg: Obrigado, eu vou virar para lá, para ver Jorge. O Kennedy era o seguinte: eu fui, era o início de campanha para a presidência em 60. Eu fui mandado pela Life Sports Illustrated para cobrir fotograficamente o X-Jack quando ele virou presidente, aí era “mister president”. Aí o Pier Salinger, que era outra grande figura da época, fez um trato, e a gente, eu fui antes do sol raiar me esconder na praia em frente da mansão do Jack. Aí Jack sai andando na praia gritando assim: “David, cadê você, David”!. Era uma cena de encontro de altos níveis. Aí fomos velejar porque eu conheci ele quando a gente era muito mais jovem velejando em Cape Can [referência ao Cabo Canaveral, faixa de terra situada na parte costeira oriental, no Estados Unidos, no estado da Flórida. Faz parte de uma região conhecida como Space Coast, pois lá se situam o Centro Espacial Kennedy e uma Base da Força Aérea] 

Heródoto Barbeiro: David, já que você tocou no nome do presidente Kennedy, o Olnei Cruze, de Higienópolis, diz assim: se você conheceu a Marilyn Monroe, qual o tipo de morte que você acredita que ela tenha tido e ele pergunta se o presidente John Kennedy, ao qual você se referiu agora, estava direta ou indiretamente envolvido? 

David Drew Zingg:
Bom Olnei, boa pergunta. Ainda fica tecnicamente um mistério. Que o Kennedy era insaciável no apetite dele para mulheres, era. Ele alegava que se ele não tinha uma mulher por dia tinha uma dor de cabeça insuportável, como todos nós sabemos, e tentou não ter dor de cabeça. E que ele estava envolvido com Marilyn, estava. Bobby [referência a Robert Kennedy, irmão mais novo de John Kennedy] estava também, o, como é que chama, o Peter Lawford, que era casado com a irmã do presidente Kennedy. O Lawford era uma espécie de gigolô de Hollywood para a família Kennedy que já tinha muita atividade sexual em Hollywood. Agora a morte dela, honestamente eu não sei. A história oficial é que ela se suicidou por acidente. Tomou relaxante, sleeping pills [sedativos] demais. Tem outras versões, que a máfia estava envolvida, que a família mandou eliminá-la, etc. Mas eu simplesmente não sei.

Heródoto Barbeiro: Por favor.

Fernando Paiva: É o seguinte David: você chegou em 57 pela primeira vez no Brasil, né? Estava ocorrendo uma regata Buenos Aires-Rio. E quando você chegou tinha carnaval aqui ou não, isso é lenda? E aí você se apaixonou pelo Brasil. Eu queria saber o seguinte: se você estivesse correndo uma regata hoje e chegasse ao Brasil sem nunca ter estado aqui, será que você se apaixonaria da mesma maneira?

David Drew Zingg: Eu acho que não, Fernando, eu acho que se eu  chegasse hoje mesmo, nunca se sabe, mas eu acho que não. O mundo mudou. A coisa que me pegou chegando no Brasil na década 50, era que eu, eu fui a Buenos Aires num DC-6 de hélice [modelo de avião]. Levava, eu não lembro bem, mas levava, uma coisa horrível, tipo dois dias. Tinha festinha na cozinha do avião, bebemos, dançamos, era outro mundo. O Brasil era um país como se fosse uma lua da terra. Era um país totalmente diferente de qualquer outro país que eu tinha conhecido. Então era uma grande aventura. Agora me parece, infelizmente, depende do seu ponto de vista, eu sou romântico, você pode ser socialista analítica, mas eu acho que o mundo entrou num liquidificador tão grande que as diferenças na cultura não são mais muito culturais. Obviamente que existem marcas, mas está virando mais metal, mais height hotels, mais, tudo igual, igual, igual no mundo inteiro. Enfim, eu acho que eu me mandaria para outro lugar onde era mais fácil de morar, viver. 

Fernando Paiva: Para onde?

David Drew Zingg: Para onde?

Fernando Paiva: É.

David Drew Zingg: Eu não quero parecer o que eu vou parecer.  Eu sou bobo, mas eu não estou bobo patriota, eu tenho horror de ufanismo, mas eu acho que era para o Estados Unidos, eu acho o país mais prático para viver hoje em dia. Tem menos obstáculos, quer dizer.      

Matinas Suzuki: David, bom eu precisaria, gostaria aqui de abusar um pouco do tempo para agradecer você por tudo que você tem feito para a minha geração de jornalista. Eu acho que não existe talvez pessoa mais estimulante para nós do que você. Não só toda a aula diária e cotidiana que você dá para gente de como fazer bem um jornal, como mudar um jornal, como estimular um jornal, como também essas várias lições cotidianas que você nos ensina. Eu acho que, se hoje a gente tivesse que ter um educador sentimental no Brasil, se houvesse essa figura pública, você seria evidentemente meu candidato. Eu queria saber de você, uma das grandes, bom eu tenho perguntado para você muitas coisas todos os dias, mas a grande curiosidade, talvez a pergunta que eu nunca te fiz é a seguinte: você tem um tipo de conquista na sua vida, que é uma conquista bastante difícil, que é a conquista da liberdade, que vem, que é a outra moeda, de uma solidão muito grande também. É isso que te permite ser um andarilho, um viajante com a facilidade com que você é, ainda hoje, e que tem um entusiasmo ainda para percorrer o mundo como uma espécie de arqueologista que vai descobrindo em cada esquina do mundo, em cada bar, em cada hotel, tipos interessantes, pessoas maravilhosas, essa coisa toda. Como é para você essa questão da solidão e da liberdade, quer dizer, elas são necessariamente complementares?

David Drew Zingg: Eu não sei se a palavra, eu queria falar para o momento depois de todo esse discurso e explicar. O Matinas é meu amigo por muitos anos porque fui eu a primeira pessoa que mostrou ele a mágica de botar três cebolinhas num Dry Martini [nome de um drinque clássico e famoso] e [....]. Essa é uma aula na vida que ele refere. [risos] Bom, o negócio para voltar para sério. O negócio de independência e solidão eu acho, eu não sou grande, eu leio tantos livros onde o herói sofreu porque era solitário, coisa assim, eu não sou fã da solidão, mas eu acho que a solidão é uma certo co-produto ou bi-produto de independência. É o preço que você paga. Às vezes, é a sorte que você paga quando você não casa.

Rosângela Petta: O David, você que fez desde editorial de moda até o [jornal] Notícias Populares, eu queria saber você como leitor, que tipo de imagem, que tipo de notícia ou informação te interessa hoje?  O que é que, para você, está ali, abre o jornal  e pára, lê, vê, gosta, o que é?

David Drew Zingg: Boa pergunta, interessante. É o produto particular de estar no Brasil hoje em dia, onde eu me sinto censurado intelectualmente. No censo que temos disponível lá fora, graças ao satélite, graças a mil outras condições, graças ao computador Macintosh, etc, etc, temos o mundo, uma polegada em frente de nossos dedos. Não dá para pegar porque tem um censor no meu ver, na pessoa da Telebrás. Telebrás faz censura pela [área] econômica. Se você quer entrar, por exemplo, minha leitura predileta é uma coisa chamada de internet, e internet é uma coleção de meramente 25 milhões de computadores espalhados no mundo inteiro para você entrar, cheio de informação, sem fim. É a coisa mais inacreditável, acho eu, que o homem tem construído até hoje. Para você entrar neste mundo mágico de net, você tem que pagar à Telebrás preços tão exorbitantes, tão altos, que é praticamente impossível para você botar sua mente em contato com a  do mundo. Mais uma vez o Brasil vai para trás com rapidez eletrônica.

Rosângela Petta: Mas eu acho que você não respondeu minha pergunta, eu quero saber que tipo de pauta, vamos ser mais objetiva, que assunto, que praia que te atrai, você como leitor, consumidor de notícia, de fotografia?

David Drew Zingg: Eu não entendi bem.

Rosângela Petta: Eu quero saber você como leitor, que imagem te atrai, que informação?

David Drew Zingg: Eu? Aí que está a melhor revista do mundo hoje em dia, acho eu, chama Wide, é a revista do pessoal com cabeça eletrônica que vai ser geração, é o início da próxima geração do poder nesse mundo. É o pessoal de informática.

Rosângela Petta: A fotografia mexida por computador também é uma imagem que te...?

David Drew Zingg: A fotografia, como eu falei, eu estou assim, eu ando há dois mil anos, eu estou fazendo menos fotografia e mais alimentando a cabeça, não é que eu não fotografo, ah, não está aqui [procura pela câmera fotográfica]. Eu ando sempre com uma maquininha Olympus e uso freqüentemente com resultados surpreendentes. Mas eu penso menos em fotografia hoje em dia, se não apreciar trabalho do Jorge, apreciar trabalho de colegas. Mas o que me interessa em ler é o Wide. 

Heródoto Barbeiro: David, sobre fotografia ainda, eu gostaria que você respondesse algumas perguntas que foram feitas aqui. Elas são mais ou menos semelhantes. O Luis Carlos Felizardo, você o conhece, diz aqui que é seu amigo, é de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, a Dona Juliana Laporta, de São Caetano, a dona Carla Crepcan aqui de Santa Cecília e também o Romeu Paiva. Qual a situação mais difícil que você teve ao tirar uma foto?

David Drew Zingg: Engraçado. Eu não sei, é complicado porque você tem difícil tipo, arriscar a vida, aí tem mil coisas, eu...

Heródoto Barbeiro: Você se lembra de uma vez que você arriscou a vida para tirar uma foto? 

David Drew Zingg: É, mas não heroicamente, eu estive enfiado na Segunda Guerra [Mundial, 1939-1945], não contra minha vontade, que eu era jovem e era uma guerra que pareceu, na época, justa. Aí você estava arriscando a vida constantemente, mas isso não passa muito pela cabeça. Eu acho piores para mim, pessoal aí, oi, tchê, [acena para a câmera] estou em Porto Alegre, estou em Pelotas, Matinas, de coração, eu acho mais difícil são aquelas que envolvem, talvez Jorge vai concordar, mas envolvem problemas no coração da fotografia que é a luz. E você faz aquela coisa e não sabe se vai sair, não vai sair, é tortura.

Heródoto Barbeiro: Tem uma coisa tão emocionante quanto quando você fotografou a atriz Leila Diniz quando ela se encontrava grávida?  

David Drew Zingg: Não, era fácil, mas a parte que estou falando, aquela beira da luz quando você tem dúvida que você tem inteligência de capturar, aí pior se a máquina tem capacidade, aí pior se o filme tem, aí pior que o laboratorista não vai puxar o Dry Martini dele na solução para revelar. Eu acho que a parte onde eu sofri mais era esse ladinho por dentro sobre a luz. Luz, luz, não eram pessoas.

Heródoto Barbeiro: Ok, por favor, Mário Prata. 

Mário Prata: David, qual é o segredo para uma pessoa como você, que eu não vou chamar de velho, mas de “velhecente”, que é um adolescente antes da velhice, qual é o segredo?

David Drew Zingg: Eu acho que todo velho, Mário, deve ter um adolescente vivo ou não.

Mário Prata: Claro, você quase já respondeu a minha pergunta. A minha pergunta é o seguinte: qual é o segredo seu para conquistar, com tanto carinho, jovens, principalmente as jovens? [risos] Há algum segredo?

David Drew Zingg: Primeiro, isso implica uma grande série de conquistas, etc. Eu acho que eu não sou muito bom conquistando pessoas, eu posso já dar esses exemplos que não vou fazer no momento, mas eu acho que se você tem amigas, se é essa a pergunta, se você tem amigas que têm diferentes idades é porque as cabeças são de mesma idade em alguma maneira.  

Mário Prata: Não, mas eu, talvez eu tenha destacado as moças, mas eu estou falando dos moços também, inclusive o Matinas, aquela declaração de amor que ele fez para você, que é uma coisa muito geral de quem convive com você, essa admiração por você, essa...   

David Drew Zingg: Pare com isso gente porque eu vou, eu vou imediatamente, eu vou... Eu sempre planejava nesse programa que eu tenho medo, eu estou suando, em fazer minha imitação de ex-governador. Então se essa conversa continua, doutor Mário... [risos]  

Heródoto Barbeiro: David, tenho aqui mais perguntas de telespectadoras. A dona Lia Amorim ela manda um recado: como brasileira se sente orgulhosa de você ter adotado o Brasil como segunda pátria. E o Paulo Dae pergunta a você o seguinte: se as artes plásticas têm futuro nos próximos milênios? [risos]

David Drew Zingg: As artes plásticas, ela quer dizer brasileiras?

Heródoto Barbeiro: É, brasileiras.

David Drew Zingg: Eu sempre tenho as grandes janelas da vida, aquela coisa chamada arte, a coisa que não cai nas regras vira arte. A coisa que vira arte é a luz da nossa vida, me parece. Agora sobre o Brasil, eu adoro que eu escolhi este país, agora vou continuar para sempre adorando ter escolhido este país.

Matinas Suzuki: O David, você tem certamente aí um acervo sobre o Brasil que é um acervo importantíssimo, não só na parte música popular, mas construção de Brasília, essa coisa toda, chegando até o seu grande futuro próximo trabalho que é o cartaz da Festa do Peão de Barretos, essa coisa toda. O que você está  fazendo com esse arquivo? O que você está, alguma das grandes fotos do Brasil, e eu sempre digo isso também que você não é um descobridor do Brasil, você é um revelador do Brasil, estão na sua mão, quer dizer, fotos memoráveis, a foto de Pixinguinha e João da Baiana no centro do Rio de Janeiro, as fotos da Tropicália, as fotos da bossa nova, talvez a foto mais bonita do João Gilberto com Astrud Gilberto [cantora brasileira de samba e bossa nova de fama internacional, ex-mulher de João Gilberto]. Quer dizer, o que você está fazendo, você está organizando esse arquivo, nós teremos...

David Drew Zingg: Bom, obrigado pela pergunta. É, eu estou fazendo exatamente o seguinte com essa grande coleção, eu estou esperando que não pega fogo minha casa [risos], porque economicamente o Brasil tem seus problemas e os problemas batem em cima da minha coleção. Eu faço um apelo para alguém lá fora que tem muito dinheiro e quer bancar o custo de arquivar corretamente. O problema é sério. Não é sou eu, David, o problema é de classe, se passa uma vida num país que não tem estrutura para tratar e quando você acaba, que eu não pretendo fazer já, quando você acaba, aí vai embora, cupim come para almoço. Enfim eu não estou mais animado porque eu não tenho dinheiro para mexer.

Fernando Paiva: David, quantos slides, entre slides e papel, qual é o seu acervo mais ou menos?  
   
David Drew Zingg: É um terror, eu acho que eu tenho, chutando, mais ou menos por baixo, eu acho que tem 200, 250 mil slides, 100 mil pay pay[?].

Fernando Paiva: Isso em casa?

David Drew Zingg: Ah?

Fernando Paiva: Na sua casa?

David Drew Zingg: É.

Fernando Paiva: E como é que é isso?

David Drew Zingg: Está organizado estilo Brasil [risos], está organizado em caixinha de plástico, identificado, mais ou menos.   

Fernando Paiva: Você pensou em uma fundação, alguma coisa?

David Drew Zingg: Eu tentei uma vez, mas recusarem. Eu vou ter que inventar. Eles não querem investir. Eu acho, do ponto de vista deles, eles não querem investir no passado do Brasil...

Mario Prata: Mas David, você tentou junto a órgãos oficiais ou  particulares?

David Drew Zingg: Particulares, fundações.  

Mário Prata: Fundações, e não conseguiu?

David Drew Zingg: Não, mas eu acho que talvez até faz sentido um pouco do ponto de vista deles. Eles querem dar força para a nova geração, eu sou velha geração.

Jorge Araújo: Você, você David, você que foi um dos melhores, dos maiores editores de fotógrafos do mundo, dos melhores do mundo, você consegue editar esse material todo, todos esses anos, que está na sua casa deteriorando, você consegue editar o seu material já que você editou exatamente os melhores fotógrafos do mundo?

David Drew Zingg: Ah, Jorge, é um terror! Mas eu te digo uma coisa, porque eu trabalhei muito, eu comecei como escritor e trabalhei como diretor de arte, coisa assim. Eu tenho um pouco de prática. Aí depois você bota mil anos dos meus dois mil e você começa a ter uma certa laudável frieza, quer dizer, eu acho que eu sou  facilmente capaz de cortar uma foto ruim, de não cortar um foto boa, mas é difícil e complicado.       

Heródoto Barbeiro: Mateus, por favor.

Mathew Shirts: Eu queria voltar, David, a uma colocação sua sobre internet, que eu acho uma coisa louvável e interessante o senhor se interessar tanto por essa coisa multimídia e as telecomunicações mais modernas, inclusive a revista Wide, que é uma revista ainda pouco conhecida aqui, mas graficamente muito avançada, e perguntar o seguinte: você reclamou das tarifas cobradas pela Telebrás, que isso estaria desestimulando o uso dessa fonte de informação. Mas você acha ou não que essa constante troca de informações pelo mundo contribui para a mesmice cultural mundial que você também reclamou atrás ou não?

David Drew Zingg: Outra boa pergunta. Acho inevitável, acho que não importa muito a pergunta se vai para frente ou se vai para trás, se fica na mesmice. Eu acho é incontrolável, o movimento para frente da mente humana, então só tem que tentar plug-in, [risos] tem que entrar no circuito. Quer dizer, esta internet é uma coisa absolutamente extraordinária, tem milhares, centenas de milhares de endereços. E tem endereços sobre aborto, tem endereço sobre física nuclear, tem endereço sobre pornografia, tem endereço que [...] para letras, extremely tasteles jokes, piadas sem gosto [risos]. Quer dizer, é modelo, me parece que a internet finalmente é o modelo neurônico da mente, do mapa da mente humana, estourado com milhares, milhões atualmente de cabeças ligadas. É uma coisa excepcional, um novo mundo, [...].

Mathew Shirts: Você acessa aqui no Brasil?

David Drew Zingg: Acesso, o problema é o seguinte, começou a internet como, era o produto do “thing think” americano, que a pergunta que o governo fez, era que, como é que eu vou conversar, comandar pelo telefone quando uma bomba atômica destrói nossas centrais telefônicas? Ai os gênios lá no thing think, eu acho que era lá na Califórnia, não lembro bem, inventaram uma “linkagem” de todos os computadores do mundo. Então se você não tinha acesso pela central telefônica, seu computador manda mensagem para o México, e o México manda para a Califórnia, a Califórnia manda para o Alaska, vem do Alaska para Toronto e finalmente para mim em New Jersey. Agora é um modelo de cabeça porque cada node, cada ponto nesse coisa maravilhosa, é um computador, e o conteúdo dele reflete onde os 25 milhões de pessoas ligados. E são de todos os níveis, são profissionais do amor, usar uma palavra um pouco de internet, mas não encontrei, são profissionais do amor, para professores de física, é uma coisa excepcional. O problema para voltar rapidinho é que se você, por exemplo, mora na Inglaterra, paga dez dólares por mês para um serviço americano chamado Campuserv, você pula Atlântico de graça, você não paga nada pelo telefone. Aí do Campuserv você entra na internet. No Brasil você tenta bater papinho na net, você acaba leiloando sua própria casa, [risos] junto com o carro, etc. É censo que chama, é censor econômico. É o mais sério, eu acho, para o futuro Brasil.

Heródoto Barbeiro: David, eu tenho aqui antes uma declaração dizendo: “Querido David, te amo, keep cool man” quem assina de Salvador esta declaração é o Mário Cravo Neto, está aqui.

David Drew Zingg: Que maravilha. Beijinho para o Mário Cravo.

Heródoto Barbeiro: David, eu gostaria que você contasse alguma coisa para gente a respeito da sua participação no movimento bossa nova, especialmente quando a bossa nova ficou conhecida internacionalmente nos Estados Unidos, né. Como é que isso aconteceu? Qual foi sua participação juntamente com Tom Jobim e outros nomes da bossa nova brasileira?

David Drew Zingg: Pois existia uma revista na época chamada Show. Eu era empregado pela Show, que eu sou fotógrafo e jornalista. Essa aqui é a Folha de S. Paulo, como prova formal. Mas estou dizendo porque eu era, eu era redator, escritor antes, repórter antes e redator, e meu trabalho nessa revista era fazer pauta. Uma vez por semana, eu fui bem pago e fiz uma lista de 300 idéias de pauta e sempre coloquei, porque América Latina não era muito popular na época, sempre coloquei: “Vou fazer um número especial sobre as artes em América do Sul”, confiante que ninguém aprovaria. Aí um dia aprovaram naturalmente. Aí viemos para América do Sul, eu e um outro amigo meu. Passamos seis meses viajando a América do Sul, levantando as artes plásticas, poéticas, musicais, etc, teatrais, tudo. E acabamos seis meses depois bebendo, indo para New York, no Copacabana Palace. Nesse meio tempo eu fui convidado para  ver o primeiro show de bossa nova, aquele do [Tom] Jobim, Vinícius [de Moraes], etc, etc, etc. E adorei, fiquei deslumbrado. Aí fomos bebendo e meu amigo [...] falava assim: “Como é que a gente vai promover o número inteiro sobre artes das América em New York”? Eu, depois do décimo uísque, falava brilhantemente: “Vamos levar a bossa nova para New York”. E magicamente conseguimos que tinha um herói nacional, o senhor Mário Dias Costa, que era o chefe de cultura do Itamaraty [sede do Ministério das Relações Exteriores] no Rio...

Matinas Suzuki: Pai da grande ilustradora Marisa Dias Costa.

David Drew Zingg: Pois é, e o Mário, que é um dos grandes santos deste país, arrumou magicamente, cinqüenta passagens. Magicamente, eu imagino pistola na cabeça de Rubens Berta. Mas e nós, e tinha, ai minha memória, eu sou o homem de dois mil anos, a consulesa do Brasil em New York também era mágica. Era a época do Juscelino [Kubitschek, (1902-1976), presidente do Brasil de 1956 a 1961] tudo era perfeito. E ela conheceu um pirata que gravava e convenceu ele a alugar Carnegie Hall [a mais tradicional sala de concertos de New York] e então, pá! Passagem Carnegie Hall. E levava 50 músicos para lá. Era a história em curto tempo.

Rosângela Petta: Foi mesmo um fiasco a noite da bossa nova lá ou a imprensa brasileira que estava de má vontade?     

David Drew Zingg: Não, mas eu acho que, eu lembro aquela história, mas não era, era o grande sucesso e o New York Times amava. Para os gringos...

Rosângela Petta: O que houve, então, má vontade da imprensa brasileira, de alguns críticos, você acha que ...?

David Drew Zingg: Não sei o motivo, mas os gringos adoraram, escreveram, tanto... Por exemplo, eu tinha um amigo que era chefe de uma gravadora importante lá, a [...], eu liguei para ele e disse: “Imagine com quem que eu estou aqui”? “Quem”? “Tom Jobim”. “Traz ele para mim já”. “Tem disco, etc., etc., etc.” Para os de "gringolândia" era um enorme sucesso. Porque tinha uma coisa era o fim de uma música, eu particularmente, vamos dizer, não apreciava, chamado beep bop. E beep bop era equivalente de abstracionismo total, era equivalente do Jackson Pollock [pintor americano de estilo expressionista abstrato] em pintura, era de construção de música, de jazz. E aí o público americano estava assim com beep bop [faz gesto com a mão sobre o pescoço, querendo dizer que os americanos estavam cheios desse tipo de música]. Os músicos estavam enrolando que tecnicamente era uma glória, mas o público não estava comprando. Aí vem essa maravilhosa batida e a melodia voltou para a vida americana, para o mundo.

Rosângela Petta: E a harmonia pegou, principalmente.

Mario Prata: David, se você tivesse que levar hoje cinqüenta músicos, etc. e tal. Diz cinco aí que você levaria.

David Drew Zingg: Quais cinco?

Mario Prata: Sim. Hoje, não vale aqueles que já foram. [risos]

David Drew Zingg: Já está feito. Você abre, desculpe bater numa tecla só, mas é minha leitura. Meu segundo jornal do mundo é o New York Times, eu abri uma semana atrás quando a gente estava lá, tinha duas matérias sobre Caetano e Gil, outra matéria sobre Milton, etc., etc. A música brasileira não é que eles são nova geração, mas eles são suficientemente novos e são importantíssimos no mercado musical

Mário Prata: Eu concordo plenamente com você, mas esses dois que você citou são filhos daqueles, né. Você acha que já tem netos essa geração? 

David Drew Zingg: Honestamente eu não sei. Deve ter, mas eu não sei quem são, que eu estou naquela época quando... É difícil dizer, mas eu não tenho essa cultura, eu ouço rock, coisa assim. Teve aquela banda gloriosa que debandou da Bahia, como chama, Made in Brazil, que era uma coisa excepcional. Mas não me parecia realmente nova, não sinto totalmente criativa.

Matinas Suzuki: David, você é um orgulhoso pai de um grande guitarrista, que hoje é um nome que você certamente levaria para o Carnegie Hall agora. 

David Drew Zingg: É verdade. E para os que querem saber o que vem, tem uma figura meio estranha, ele me fez lembrar muito do [...] que toca guitarra eletrônica, toca rock, e blues e coisa assim, jazz. E os jornais de New York dizem que ele é o novo Eric Clapton [cantor e compositor britânico, considerado um dos maiores guitarristas do mundo]. O nome dele é Drew Zingg, por  coincidência. Mas ele é muito bom, muito bom mesmo.

Heródoto Barbeiro: David, tem aqui mais três perguntas sobre televisão. Uma da Cristina Terra de São Paulo, outra do Antonio Castro Riguez, estudante de letras daqui e também do Paulo Coghi, e perguntam o seguinte: qual a sua opinião sobre o poder de uma emissora manipular mais de 50 milhões de pessoas, diz aqui, a Rede Globo do Brasil. E ele pergunta se o senhor assistiu o documentário Brasil beyond citizens Cane, produzido pelo Chanel Four, inglês, sobre a emissora?

David Drew Zingg: Pois é, eu concordo, que mais se tem a dizer? É um terror, acho eu. Eu outra vez que, eu nunca fui muito, com exceção de levar Hans Donner para a Globo, que eu me orgulho, que é um mago eletrônico, eu não tenho nada a ver com  Globo. Eu acho lamentável que um país permite uma organização, de altíssimo nível técnico, sem dúvida, no nível mundial, no maior centro     

Heródoto Barbeiro: Foi você que apresentou o Hans Donner lá na TV Globo?

David Drew Zingg: É.

Heródoto Barbeiro: Foi. Onde é que você conheceu o Hans Donner?

David Drew Zingg: No meu estúdio fotográfico. Quer dizer, era o estúdio que eu estava rachando com o Antonio Guerreiro e o filho da Lídia Clark. E o Donner é uma história, tem muito mais a ver com Donner que tem com David Zingg. O Donner é austríaco e ele, por algum motivo, literalmente sonhava, tinha só um sonho: era trabalhar no Brasil. E ele era jovem, ele um gênio jovem, tinha um designer chap], um lugar de desenhos industrial em Viena, que eu amo, não entendo porque ele queria sair e ir para o Brasil, mas era fixação. Ele fez três viagens que ele pagou ele mesmo procurando trabalho aqui, e todo mundo dos gênios do mundo de publicidade brasileiro recusaram ele, não entenderam ele, era um ano-luz na frente a mais. Então ele não conseguiu, ele estava no Rio de Janeiro depois de São Paulo, indo para Galeão para voltar a Viena e alguém, eu acho que era, era, era o [Francesc] Petit [publicitário e pintor catalão, fundou com José Zaragoza o estúdio Metro 3, embrião da DPZ, criada mais tarde (1968), em sociedade com Roberto Duailibi. É uma das maiores e mais premiadas agências publicitárias do Brasil] que tem olho do DPZ que falou: “Bom, você vai no Rio, eu não posso te usar aqui, mas você vai no Rio, vai ver aquele cara, o Zingg, que talvez ele tem uma idéia”. Aí, de repente, ele apareceu no estúdio e eu falei: “Ah, é que ele é meio baixinho, não é impressionante, vamos dizer, fisicamente na primeira visita”. Eu falei: “Me mostra o seu trabalho”. Ele puxava um book literalmente deste tamanho [indica o tamanho do book com as mãos] e abriu, era assim. Eu virei três páginas, dei um grito, era o trabalho mais limpo, mais inacreditável, isso dez anos e qualquer coisa atrás, que eu tinha visto. Eu falei: “Isso é exatamente a Globo que precisa de você”. “Não, mas eu estou indo ao Galeão”. “Você não tem meia hora”? Eu peguei ele pelo braço e fui correndo que a Globo estava um quarteirão do meu estúdio. E entrei que eu tinha entrado, bati na porta do Walter Clark e disse: “Walter, tem presente de Natal para você, Walter”. [risos] E eu falei, “mostra para ele”, para o Donner, “mostra”. E o Walter virou três páginas, isso era dez, doze anos atrás. Ele falou: “Puxa, pera aí. Boni, tem presente para você, Boni, vem cá”. E eles fizeram um contrato verbal com Donner  no ato. Ele falou: “Tenho que sair, tenho avião” e foi embora. Ele tinha contrato, ele ia virar novo diretor de arte da Globo. Um ano mais tarde, eu tinha esquecido, um ano mais tarde, a secretária repete primeiro apresentação diz: “Tem um senhor lá embaixo chamado Donner que quer ver o senhor”. “Manda subir. Oi meu amigo austríaco, o que houve com você”? “A Globo nunca me escreveu, mas eu fiz a programação deles”. Eu disse: “Bom, agora meu amigo, você é meu, você não é mais do Globo, senta aqui”. Aí começamos uma guerra tão legal, tão carioca. Eu ligava para alguém do Globo e dizia: “Imagina quem está aqui”? “Quem”? “O Donner, lembra aquele austríaco”. “Ah, meu Donner”. “Não, não, é meu”. E foi assim que...

Mário Prata: David, mudando de assunto completamente. Você já teve vontade de votar aqui no Brasil?

David Drew Zingg: De voltar?

Mário Prata: Votar, votar?

David Drew Zingg: Posso te dizer uma coisa horrível? Eu acho que eu não vivi, ou talvez, desculpe, eu mudo isso, eu ia dizer outra coisa. Mas eu tenho vontade de votar na próxima eleição, mas eu não posso.

Mario Pratas: Pode dizer para quem?

David Drew Zingg: Com muito prazer. Não pesa infelizmente. Para o Lula, eu acho que o Brasil precisa uma chacoalhada violenta para até, pode ser que o Lula fique igualzinho ao Fernando Henrique só para se eleger, pode ser, ele já está dando sinais. Mas eu acho que a simples eleição de Lula  vai dar um tal medo no resto desses grandes políticos, que vale a pena.

Mathew Shirts: Você votou para John Kennedy em 60?

David Drew Zingg: Não, votei sim. Mas eu era, antes eu era o secretário de imprensa, eu quase fiz um outro presidente [risos]. Na mesma eleição, que era uma figura, você vai lembrar como era chamado Adlay Stevenson [(1900-1965), foi governador do estado de Illinois e candidato duas vezes a presidente dos Estados Unidos (1952 e 1956), sendo derrotado por Eisenhower]. Adley Stevenson tinha um grande problema, ele foi candidato democrático contra [Dwight David] Eisenhower [(1890 - 1969), presidente dos Estados Unidos entre 1953 e 1961] duas vezes e obviamente perdeu, ele foi para se sacrificar. Mas era um grande, grande cabeça. Aí, no outro momento, ele não queria saber mais de nomeações, ele perdeu, ele two times loser, perdeu duas vezes. Aí, um mês antes de julho, em 60, organizamos uma coisa chamado "Voluntários para o Stevenson", era perto dos velhos amigos do velho, e fomos invadir o quintal de Kennedy que tinha comprado grandes propriedades, estados e coisas assim, e fomos para Los Angeles, desculpe, senão estoura o microfone [faz uma pausa para tomar água]. Fomos para Los Angeles, abrimos um...., um fã de Stevenson emprestou um antigo edifício em frente ao Hotel Baltimore, que era o antigo [...], abrimos escritórios e eu era secretário de imprensa do Stevenson para rádio e televisão. Tinha um amigo meu, Tom Morgan, que era para a imprensa. Aí fomos fazer nosso presidente. E não era difícil, na verdade, porque todos, dois terços dos delegados queriam o Stevenson. Estão empurrando o Kennedy goela abaixo a contra-gosto dos delegados para a convenção. Enfim, um dia eu entrei naquela arena com o Adlay que era delegado, não era declarado candidato à nomeação, era simples delegado. Eu entrei, ele estava meio perdido no espaço, eu era muito mais jovem, peguei ele pela mão e liderei ele para o lugar dele. Quando ele botou o pé dentro do Los Angeles Conventional Hall, o lugar estourou, era uma hora de aplausos, gritos, tudo contra Kennedy e a favor do Stevenson. Aí o Kennedy tinha uma aparato político que controlava e finalmente controlava a coisa e não admitiu que o Stevenson, todo mundo, speak, speak, fala, fala, e o Kennedy não permitiu. Aí nós mandamos um mensageiro para Miss [Anna Eleanor] Roosevelt, a matriarca do partido que estava lá, a viúva de Franklin [Delano Roosevelt, (1882-1945), foi o 32° presidente dos Estados Unidos da América (1933-1945), realizou quatro mandatos e morreu durante o último], e ela chamou o Jack e falou assim: “Mister Kennedy, se o Mister Stevenson não pode falar, eu acho que eu vou ter que me retirar desse convenção”. Bom, seria o fim da convenção, do partido. Então o Stevenson foi falar e fez um discurso de lágrimas, de elegância, ele era o Winston Churchill [referência ao ex-primeiro ministro do Reino Unido, que além de estadista, era escritor, jornalista, orador e historiador] americano em termos de fala. Aí acabou e de propósito [gaguejando], ele não queria e de propósito [gaguejando], desculpe, de propósito, ele esqueceu as palavras mágicas que são: “E enfim eu quero ser seu presidente”. Ele não falava porque ele achava que ele tinha perdido duas vezes e que os delegados tinham obrigação a obrigar ele, ele achava, perder mais uma vez contra Nixon [referência a Richard Milhous Nixon (1913-1994), presidente dos Estados Unidos de 1969 a 1974] .

Heródoto Barbeiro: Agora David, você acompanhou bastante a vida do ex-presidente John Kennedy. Houve um relatório oficial do governo americano, aquele famoso Relatório Warren [nome dado ao relatório de investigações a respeito do assassinato de John Kennedy] que disse que a morte do presidente foi atribuída a um homem que, por sua vez, foi assassinado por um outro que morreu de câncer. Qual é a sua versão para a morte do presidente Kennedy já que você o conhecia tão bem?

 David Drew Zingg: Eu não sei, ninguém sabe, eu duvido. Eu, depois de ver aquele filme de Oliver Stone, [JFK, acrescenta Heródoto Barbeiro] que é lamentável – ele brinca com a verdade de tantas maneiras – eu simplesmente não sei, eu sou obrigado, é meio bobo, mas eu não sou da CIA, não tenho informação

Heródoto Barbeiro: Alguma vez o presidente Kennedy disse a você que  temia um atentado?

David Drew Zingg: Como?

Heródoto Barbeiro: Alguma vez o presidente confessou a você que temia sofrer um atentado contra a vida dele?

David Drew Zingg: Nunca, mas os Estados Unidos é um país que é especialista em nuts, nuts sendo aquela coisa, castanha ou etc., etc., eles specialized in nuts who kill e de outros babacas que matam. Eles têm grande tradição de matar nos Estados Unidos. É inteiramente plausível para mim. Agora os outros também, as idéias são plausíveis, porque se você, você só precisa conhecer um muito rico homem que gosta de Texas, para nunca mais botar o pé na estrada. [risos] Quer dizer, tudo é possível.

Matinas Suzuki: David, por falar em Texas, tem uma pergunta aqui que vem de Barretos e pediram para mim ler para você, vem de um jornalista de lá, Naldo Tadeu Campos. Se você vai para a festa do peão e se você vai montar este ano na festa do peão em Barretos?

David Drew Zing: Barretos. Primeiro tem que saber, eu tive o privilégio, eu estava trabalhando na equipe da Folha [de S. Paulo] na Copa [do Mundo de Futebol], eu tive o prazer de estar presente em Dallas junto com chefe aqui e...

Heródoto Barbeiro: O chefe Matinas.

David Drew Zingg: O meu chefe, eu trabalha em Califórnia. Isso vale para ele, ele está sendo excepcionalmente gentil hoje à noite. E aí um dia fizemos uma expedição para as cidades do Fort Worth. Como você sabe, Dallas é aqui [indica com as mãos a direção das cidades mencionadas] e só a quarenta milhas, tem a cidade de Fort Worth. Dallas é uma monstruosidade, imitação de New York, um terror. Fort Worth tem ruas de tijolo, é o fim do boiadeiro americano histórico nos tempos anteriores. Enfim conhecemos o "Barretos dos gringos". Mas para responder, eu vou a Barretos, obviamente. O cartaz, outra honra este ano, é o Roda Viva e o cartaz da Festa do Peão de Boiadeiro, que eu fiz este ano, obviamente eu vou. Agora montar, só se fosse nos ombros de alguém muito forte e dócil. [risos]

Heródoto Barbeiro: David, porque que você diz: não  sou fotógrafo, sou um arqueólogo? 

David Drew Zingg: Eu, onde você...

Heródoto Barbeiro: Essa frase eu vi aqui numa pesquisa, termina você. Tem essa frase?

David Drew Zingg: Bom é, tem muito a ver com a minha vida brasileira.

Matinas Suzuki: É e você, você podia, você costuma usar uma frase que a grande foto, ela não revela a cara da pessoa, ela revela a alma da pessoa.

David Drew Zingg: É verdade, eu tenho muito interesse pela minha formação. Eu li história, literatura, eu estou profundamente interessado, além da internet, na história mundial, etc., etc. E fotografia para mim, muitas vezes, tinha pauta, tem que, vai para o Nordeste, vai para a Europa fazer coisa x. Aí eu faço coisa x, aí eu uso o resto do filme fotografando coisas de arqueologia, de história humana, de humanidade só para meu prazer. Então de certa maneira...

Heródoto Barbeiro: Nessa linha aqui, só para responder ao senhor Carlos Augusto Saraiva, do Guarujá, ele pergunta se você já fotografou algum disco voador e se você acredita na existência disso?

David Drew Zingg: É uma noite de teorias fascinantes. [risos] Agora a pior, a pior dessa coisa é que eu acredito que é inteiramente possível, mas duvido que tem tido visitas dessas coisas. Tem que ter vida lá fora. Obviamente que tem vida lá fora, agora se eles conseguiram chegar aqui, não sei. 

Mário Prata: David, você estava relatando aí a história do anticandidato que quase derrubou o Kennedy, o Stevenson. Você, portanto, esteve perto de mudar um pouco a história dos Estados Unidos e conseqüentemente a história do mundo. Você tem noção que aquela foto da Leila Dinis é sua, né?

David Drew Zingg: É.

Mário Prata: Quando você fez a foto, você tinha noção da importância social e cultural daquela fotografia dentro do movimento feminino?

David Drew Zingg: Eu acho que sim, eu acho que essa coisa que a gente estava falando um pouco mais cedo. A Leila era parte íntegra, não sei como funcionava, mas vivemos no mesmo centro de agito do Rio de Janeiro, naquele momento, quer dizer, éramos grandes amigos, co-pensadores, pode-se dizer, etc., mas estávamos na mesma onda, mesmo wavelength, e eu achava, esse tipo de coisa, Jorge deve ter feito centenas de mesmo...

Mário Prata: Mas a foto foi uma foto armada, combinada, proposital, ou foi um momento que você estava na praia com ela, como é que foi?

David Drew Zingg: Eram as duas. Era só para ela. Era... a gente...

Mário Prata: Para quem não sabe, deixa eu só explicar. Para quem não sabe, a primeira foto de mulher grávida na praia no Brasil e que mudou...

David Drew Zingg:
E tinha outra, tinha outra que era um foto dela no meu quarto, que eu acho ela muito mais bonita, aliás, esteticamente falando. Mas a gente estava na praia um dia e ela falava: “Ai, eu acho que vou dar à luz amanhã”. Eu disse: “Não, não, antes vem” [risos], e tirei a foto. E fizemos assim pá, pá, pá, entrou no quarto, olhava para a luz e pronto. Era coisa de bobagem, coisa de momento. Quantas você tem feito assim até hoje?    

Jorge Araújo: Muitas.

David Drew Zingg:
Muitas.

Heródoto Barbeiro:
David, há muita diferença entre essa foto que você acabou de descrever e o trabalho fotográfico que você fez para o jornal Notícias Populares, que é um jornal dirigido assim às camadas mais, vamos dizer assim, mais pobres da população?

David Drew Zingg:
Não, Notícias Populares foi uma tentativa minha para aprender mais sobre São Paulo. Eu pensei, pensei, pensei, aí, eu não conheço a cidade muito bem, eu não gosto de dirigir tanto...

Heródoto Barbeiro: Mas não é um jornal assim muito dirigido para essa área criminal, quer dizer, você fotografava pessoas mortas?

David Drew Zingg: É dirigido para pessoas que não entendem, acho eu, não é que não entendem, mas não têm tempo, dinheiro, praticamente energia para ler os assuntos que a gente acha importante. Nós achamos que a internet é importante, bom o cara que trabalha na construção do chap chap[?] nunca ouviu falar de internet. Então ele está procurando coisas que ele primeiro pode pagar e segundo pode ler no limite dele que é muito limite. É um pessoal humilde, mas a especialização deles é aquela área em volta de nós, de onde vem a futura problemática do Brasil. Eu queria conhecer aquela área, então foi lá o meu [...], primeira vez na minha vida que eu tinha um pouquinho de grana para pagar aluguel, etc., etc. Pois é, passou um tempo, eu fui lá pedir estágio, eles me deram e ainda me pagaram um pouquinho. Mas era, eu fazer o que eu poderia tecnicamente para eles e eles me botam no carro e diz: “Vai lá”. Era uma maneira de me auto-educar sobre São Paulo.

Rosângela Petta: David, eu fico absolutamente fascinada cada vez que eu ouço uma história do David e leio uma coisa e a gente conversa mais, sempre tem uma história fascinante, tem personagens legais, tem um enredo legal, parece que você sempre teve o privilégio de estar na hora certa com pessoas interessantes e tal. Você nunca cometeu um, acredito que deve ter cometido, um tropeção profissional, uma coisa assim, eu queria que você me contasse, porque eu só ouço coisas deliciosas, eu queria saber de uma coisa engraçada.

David Drew Zingg: É difícil lembrar porque eram tantos. Está falando dum homem que tem dois mil anos, então é fácil ir lá duzentos anos sem ter uma história. Mas é claro que a gente bobeia.

Rosângela Petta: Teve alguém que te deixou sem graça em alguma matéria, algum personagem, alguma pessoa que você foi ou fotografar ou conversar, escrever a respeito que te fez perder o rebolado? Você ficou sem graça, você não conseguiu fazer matéria?

David Drew Zingg: Eu não lembro, na verdade não lembro, porque eu tento não guardar esse tipo de coisa. Acontece e vai embora. Mas tem algumas pessoas sim, eu não sou corajoso, mas eu sou um pouco teimoso. E quando a pessoa... Eu não ligo muito para, eu ia dizer não ligo muito para emprego, não é isso. É que eu gosto tratar com pessoas com certo respeito e gosto muito de ser tratado do mesmo [jeito]. Eu lembro de alguns pessoas que eu mandei às favas e botei as coisas na casa [...] e foi embora, não fez o serviço. E se eles não gostam da revista, azar meu. Mas tem limites nessa coisa. Você não quer que marca nove horas, a madame desce escada meio dia e diz está que indo finalmente para a maquiagem e se não quer esperar tem que voltar às cinco, não é comigo.

Heródoto Barbeiro: Agora David, você já apontou várias vezes, mostrou aqui para o telespectador do Roda Viva, o seu botom. E esse botom está dizendo aí que é “sob protesto”. Eu queria que você explicasse o que é esse “sob protesto”, nessa cobertura que você fez lá nos Estados Unidos? É verdade que o FBI norte-americano queria fazer um levantamento das fichas cadastrais dos jornalistas estrangeiros que foram lá para cobrir a Copa do Mundo? É verdade isso?

David Drew Zingg: É, todos, era bobagem.... para liberdade de imprensa, dignidade particular. Era o seguinte: o World [...], cujo presidente é um certo Mister Rothemburg [?], um advogado de Hollywood, se você me entende bem, baixou um decreto que todos os jornalistas, todos, americanos, estrangeiros, etc, tinham que assinar um papel dando licença para a FBI-CIA investigar a vida prévia. Aí o New York Times liderou outros jornais, fez um escândalo nos Estados Unidos, e Mister Rothemburg [?] repensou a posição dele, achando melhor e falou: “Desculpe, errei”. Só os estrangeiros, sabe, latinos, aquele pessoal lá, eles sabem como é que é, brasileiro é conhecido pelo terrorismo, etc. Aí o único jeito que era possível cobrir a Copa era assinar aquela coisa, senão a Folha teria, todos os outros jornais, teria ficado por fora. Então, eu acho que foi Matinas, o jornal inventou esse botão "under protest" in english, “sob protesto”, para registrar nosso desagravo.

Heródoto Barbeiro: Mateus, por favor.

Mathew Shirts: Eu queria que você falasse um pouco mais sobre os Estados Unidos hoje e o que mudou? Você é do tempo do Dry Martini, quer dizer, que ainda existe, mas que, para mim, lembra um outro tempo dos Estados Unidos, dos anos 50, início dos anos 60, e dizem que é um grande conhecedor de receitas, etc. O que mudou do tempo do Dry Martini nos Estados Unidos para a época do Frozen Yogurt, melhorou? [risos]

David Drew Zingg: Muito bem, o  negócio é o  seguinte

Heródoto Barbeiro: David, só respondendo a mesma pergunta, o senhor Tenório Lima diz qual é a origem da cebolinha do Dry Martini? [risos]

Mário Prata:
O senhor Tenório Lima, o Senhor Tenório Lima é um psiquiatra e um grande bartender também, que fique registrado .

David Drew Zingg: Para começar, Mister Mathew, o negócio é o seguinte: essa geração... O Dry Martini foi até mais ou menos, quer dizer, Dry Martini como metáfora para bebida forte, foi, acho eu, na minha visão, não sei, foi até mais ou menos a peace and love generation de 60. Aí entrou aquela gloriosa substância, controlled substance, substância controlada, sem nome, que virou [...]. Aí depois, quando a maconha passou também, entrou fruit juice, suco de fruta, na época de [...]. Agora eu estou feliz de ser a pessoa presente para te avisar que o Martini está de volta. [risos] Agora para segunda parte, eu não lembro quem inventou a cebola, mas eu tenho a impressão que era o senhor Gibson, porque uma vez que você tira aquelas enormes azeitonas que ocupam o espaço precioso de gim [risos] e enfia uma cebolinha deste tamanho, ele para de ser um Martini e o nome correto é  Gibson, eu acho que era o senhor Gibson, cujo nome, cuja época não lembro, mas parece que era lá na época de 20.

Mathew Shirts: E o que mudou nos Estados Unidos, nesse tempo todo, além do Dry Martini, da maconha e do fruit juice?

David Drew Zingg:
Tudo, a cabeça, é outro país, extraordinário, tudo para bem, tudo para pior, está virando mais violento. Veja essa coisa de grande cidade, acho eu, é o início não anunciado da revolução verdadeira violenta. Que eu não sei quanto tempo se vai poder viver em São Paulo, nós, da classe média, sem ser enclausurado numa célula de aço com metralha, que em pouco tempo se alguma coisa se faz no mundo vai estourar. O Rio de Janeiro já está quase literalmente inviável, ele não é mais que... era amargamente engraçado para mim, hoje eu vi naquela outra rede de 50 milhões de telespectadores, um noticiário sobre a morte dessa figura de justiça que foi baleado ontem.

Matinas Suzuki: O ex-presidente do Banco Central.

David Drew Zingg: Foi baleado, foi morto por um rapaz de doze anos. Aí se tem imagem na televisão de várias pessoas dignas, de altíssima dignidade, de bens, de posses, de coisas assim, falando, abre aspas: o Rio de Janeiro não é uma cidade onde você pode morar mais, fecha aspas. Essas são as mesmas pessoas, no meu ver, que fazem tudo para que os políticos, os amigos deles, não queiram investir nos problemas de saúde, de educação, de transporte dignos, entrar num ônibus urbano no Brasil é suicídio, quer dizer, não é digno humanamente.

Fernando Paiva: David, eu queria aproveitar que você está falando isso, você tem, o seu primeiro livro chamava-se A walk on the other side, the drug problem in America, quer dizer, o problema das drogas nos Estados Unidos. Como é que você, isso é de 58, né? Como é que foi feito esse livro, e como é que você imaginaria fazer, você teria vontade de fazer...

David Drew Zingg: Era coisa, era coisa de quase inocente.

Fernando Paiva: Onde foi fotografado?

David Drew Zingg: Saiu... Não, era menos foto, mais texto. Saiu de uma experiência que em New York eu trabalhava nas revistas, quando a revista era equivalente à televisão, eu trabalhava na revista Look e na revista Life, e eu trabalhei muito no Brooklin, que hoje é Bronks, a área mais dramaticamente crítica. Mas trabalhei muito no Brooklin com jovens, cobrindo e ajudando trabalhar também com eles. E era o início de invasão de droga pesada, na minha vida pelo menos. Eu sou uma pessoa que foi à guerra com 18 anos, mais ou menos, não lembro, no início dos 40, então 40, 50 era minha consciência meio adulto da vida americana, e era a primeira vez onde se viu a maciça injeção de droga nos Estados Unidos. Agora hoje é outra coisa tremendamente ...

Matinas Suzuki: David, você durante um período da sua vida saía dos Estados Unidos atrás de uma pessoa que você gostaria de fotografar. Pessoas simples deste mundo, pessoas como Miró [(1893-1983),  importante escultor e pintor surrealista catalão], Lawrence Durwell [(1912-1990), escritor, poeta e dramaturgo britânico] etc, etc, pessoas como Marcel Duchant [(1887-1968), pintor e escultor franco-americano], pessoas que você teve a honra de retratar e fez retratos realmente maravilhosos dessas pessoas. Hoje você teria heróis para ir atrás, teria grandes heróis? Você acha que... Você pegaria um avião hoje, atravessaria um oceano, atrás desses heróis?

David Drew Zingg: Claro, claro com muito prazer. Mas eu acho que a escala para mim mudou um pouco, quer dizer, naquela época quando eu fui fotografar Miró, ainda tinha outra safra logo depois, mas ainda tinha grande artista que era herói mítico, não era produto de uma galeria com muita grana ou New York promovia, etc, etc. Mas hoje em dia, eu acho que mudou, eu acho que os heróis hoje em dia, para mim, são mais um nível de pessoas trabalhando em volta do mundo em problemas do mundo. Eu acho que os heróis são mais desconhecidos hoje, são pessoas. Eu vi, eu sou constante fã de outra rede chamada CNN [Cable News Network, canal de notícias norte-americano] e domingo eu vi uma moça que tem dois anos depois que saiu da universidade e começou uma coisa óbvia, ela conheceu muitos amigos na universidade que estudou, se formou como economista, como qualquer coisa, mas não estava feliz com a visão de levando a vida como economista. Então falava, bom são jovens e inteligentes, porque não formam uma coisa chamado Teaching for America. Então ela começou uma organização que recruta cinco mil produtos de universidade, escolhem 500 que querem ser teachers e manda para as escolas. Está fazendo alguma coisa. Eu acho crucial que as pessoas comecem fazer coisas, tomem responsabilidades e façam alguma coisa, são meus heróis. Bem..., não tem chefe da internet, mas o redator do...

Matinas Suzuki: David, mudando agora bastante de assunto, você, como o homem mais elegante de São Paulo, acha que o brasileiro um dia vai usar chapéu ainda, vai saber usar chapéu, vai saber escolher um chapéu para usar ou não?

David Drew Zingg: Mas é claro, é claro. Como o mundo está virando um só, leva tempo, é coisa, é [...], é resposta bem babaca, mas leva tempo, por que não? A coisa, quer dizer, no meu caso, muito obrigado, etc., mas no meu caso se é verdade é porque a minha vida é mais simples. Eu só uso, eu tenho duas cores de meia. Uma é essa, é lã [aponta para um dos pés] e outra é branca de algodão. É muito fácil de manhã escolher a sua meia.

Heródoto Barbeiro: David, tem aqui não é bem uma pergunta, é um apelo: dear David, você tem aí uma receita infalível para ressaca? É uma emergência. 

David Drew Zingg: Quem é?

Heródoto Barbeiro: Da Lucia Boldrini, que mora aqui no Jardim Paulista.

David Drew Zingg: Lúcia, tem, aliás, uma grande maneira de enganar o público e fazer uma fortuna, obrigado pela idéia. De receita tem para fazer uma enciclopédia, que funciona não tem nenhuma, desculpe, com exceção de uma chamada C A M A [soletrando], cama.

Heródoto Barbeiro: David,mais uma pergunta nessa área para você, na área musical. O senhor Wilian Ribeiro e o senhor Josmar Jorge, de Guarulhos, eles querem saber o seguinte: qual é a sua participação na banda Joelho de Porco?

David Drew Zingg: Ah! que maravilha, obrigado. Vê se vocês se contêm porque o Joelho de Porco que é o auge de minha vida, excepcional, música filosófica e tudo. Está na beira de lançar um novo disco. Eu sei que vocês não estão preparados para esse ... tão grave, mas segure-se, daqui um pouco meu líder filosófico, chama-se Tico Terpins, é o homem mais ridículo do mundo e ele está mexendo no novo disco do Joelho. No Joelho, minha função básica é tipo vedetinha na frente. Eu faço numerozinhos, uso saia...[risos]

Heródoto Barbeiro:
Por favor, Jorge.

Jorge Araújo: O Matinas levantou muito bem o Miró que você retratou, você lembra da Maria aquela empregada chata que você ficou 21 dias na porta do Miró para fotografar?

David Drew Zingg: Pois é Jorge, pois é. Era, eu acho que eu não tenho paciência mais para, primeiro entrar no avião, aí fica batendo na porta 21 dias. Mas o Miró era um dos meus heróis, e eu me mandei para  Malorca [ilha espanhola] onde ele morava e tinha estúdio, e Miró era famoso por ser um grande recluso. Ele não falava com ninguém, não queria saber da vida, do mundo, etc., etc. E eu me mandei do meu tipo hotel, meu hotel barato e todo dia às seis horas, que não é meu horário predileto, me apresentei na porta dele e bati. Aí, abre a porta e vem essa Maria, vestida de preto, espanhola, séria, eu tentei no meu espanhol explicar que eu era muito importante, simpático, jovem americano que precisava tanto fazer uma fotinha e ela pá, “não está” e pum! E essa foto por 21 dias, todo dia, “oi, sou eu”, pá! “Não está”. Aí, no último dia magicamente, ela abriu a porta e falou “pode entrar”. Eu acho que ele cansou, seriamente, é a única explicação.

Mathew Shirts: Você fez isso por conta, David, você ... 

David Drew Zingg: Eu fiz para mim.

Mathew Shirts: Pra você, não era a mando de nenhuma revista?

David Drew Zingg: Eu tinha a maior conta na época da American Express, que eu estava saindo do ser escritor e queria ser fotógrafo. Eu estava surpreendente bem porque eu passei anos carregando as malas de figuras como o Jorge. Aí não é característica do Jorge, Jorge é um santo, mas os fotógrafos para quem que eu era enfermeira, eu tinha que limpar a câmera, tirar da cadeia, etc., etc. Então usava American Express para pagar a matéria para poder mostrar que eu posso fotografar.

Matinas Suzuki: David, você como um coração democrata, e um eleitor do [Bill] Clinton, você acha que os Estados Unidos devem invadir um país [outros falam “O Haiti”], mais uma vez, um país do Terceiro Mundo ou não?

David Drew Zingg: Bom, tudo no meu coração diz que não. Eu não sei a solução, mas eu acho grande bobeira. Se vejo uma coisa interessante, é o estudo comparativo de televisão, a Globo hoje à noite falava que as tropas das Nações Unidas vão invadir. Quer refazer sua pergunta?

Heródoto Barbeiro: David, nós queremos agradecer a sua presença aqui no Roda Viva. Rapidamente você quer arriscar um nome de um fotógrafo que você acha que é o grande fotógrafo contemporâneo além de você ou não?

David Drew Zingg: Além de mim? É, eu acho o Jorge Araújo. [risos]

Heródoto Barbeiro: Ok, David Zingg, David muito obrigado pela sua gentileza, por sua participação com a gente aqui no Roda Viva de hoje. Nós queremos também agradecer a presença dos jornalistas aqui presentes e o Roda Viva volta na próxima segunda-feira, às dez e meia da noite. Muito obrigado pela sua atenção e até lá. 

[David Drew Zingg morreu em 28 de julho de 2000, aos 76 anos, em São Paulo, vítima de falência múltipla dos órgãos. Ele estava internado desde o dia 29 de junho, após sofrer uma cirurgia de próstata e ter complicações que resultaram em hemorragia digestiva, insuficiência renal e coronária]

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